Barca bela

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Barca bela

  1. 1. BARCA BELA<br />Almeida Garrett <br />
  2. 2. Pescador da barca bela,Onde vais pescar com ela,Que é tão bela,Ó pescador?<br />Não vês que a última estrelaNo céu nublado se vela?Colhe a vela,Ó pescador!<br />Deita o lanço com cautela,Que a sereia canta bela...Mas cautela,Ó pescador!<br />Não se enrede a rede nela,Que perdido é remo e velaSó de vê-la,<br />Ó pescador!<br />Pescador da barca bela,Inda é tempo, foge dela,Foge dela,Ó pescador!<br /> Almeida Garrett<br />
  3. 3. (que bem pode ser um coro à boa maneira clássica da tragédia grega -não prenuncia o coro, por regra, a catástrofe? - e que acontecerá ao pescador se não resistir à tentação - leia-se sedução- , apesar dos avisos?)<br />
  4. 4. O poema sintetiza um conflito dramático representado por três personagens: <br /> o pescador, <br /> a sereia <br /> e alguém que é o dono da voz que se dirige ao pescador <br />
  5. 5. O sujeito poético suplica ao pescador que não vá pescar, pois conhece os perigos fatais que o esperam; a repetição da apóstrofe (Ó pescador!) exprime o seu sofrimento cada vez mais intenso porque vê o pescador cair nos laços fatais da sereia <br />
  6. 6. 1ª estrofe - um aviso, um conselho:<br />Pescador da barca bela,Onde vais pescar com ela,Que é tão bela,Ó pescador?<br />Que é como quem diz: <br /> «Se vais, ficas sem ela e,<br />perdendo-se a barca, <br /> perdes-te tu!»<br />
  7. 7. Todo o poema contém os pré-requisitos de um texto argumentativo cuja tese pode muito bem ser: «Barco que vá para o mar arrisca-se a lá ficar.» (principalmente se as condições forem adversas: vv 5/6; v 10; vv 13/14); <br />Não vês que a última estrelaNo céu nublado se vela? <br />Que a sereia canta bela... <br />Não se enrede a rede nela,Que perdido é remo e vela<br />
  8. 8. Assim, a lógica da argumentação assenta na enumeração das adversidades que aumentam, gradativamente, o perigo que representa o próprio mar:<br /><ul><li>se o mar (deve ser entendido como uma metáfora), em si mesmo, já representa perigo para a barca bela, esta ficará envolvida em maior perigo se perder a sua orientação</li></ul> («Não vês que a última estrela / No céu nublado se vela?» (vv 5/6) - a ausência de luz retira a clarividência ao pescador, facilitando a perigosidade);<br /> por isso: «Colhe a vela, / Ó pescador!»mas, se o não fizeres, se não tiveres a força, a coragem para o fazer, para resistir, «Deita o lanço com cautela...»<br />
  9. 9. se o perigo é mesmo iminente para uma barca à deriva (sem orientação), é-o ainda mais se se deixar seduzir pelo canto da sereia como aconteceu no episódio de Ulisses;<br />enredando-se a rede nela, ficará perdidamente enredado o próprio pescador (será o momento oportuno de lembrar um ditado popular: «Ir à lã e vir tosquiado.»ou, se se preferir a adaptação: «Ir à pesca e ser pescado.»)<br />curiosidade: o termo pescar, conotativamente, é muito utilizado no jogo da sedução!; por isso: enquanto é tempo, «Foge dela, / Foge dela, / Ó pescador!», <br />isto é, se não queres ficar sem a barca bela, não vás pescar com ela;<br />
  10. 10. Pescador da barca bela,Onde vais pescar com ela,Que é tão bela,Ó pescador?<br />Não vês que a última estrelaNo céu nublado se vela?Colhe a vela,Ó pescador!<br />Deita o lanço com cautela,Que a sereia canta bela...Mas cautela,Ó pescador!<br />Não se enrede a rede nela,Que perdido é remo e velaSó de vê-la,Ó pescador!<br />Pescador da barca bela,Inda é tempo, foge dela,Foge dela,Ó pescador!<br />Conclui-se, assim, que o perigo último, o maior, é ela<br />
  11. 11. Nível fónico<br />Rima: monótona: ela/ela/ela e or. <br /> A monotonia da rima sugere que o canto da sereia tem a capacidade de adormecer as resistências do pescador. <br />Aliteração: barcabela. <br /> A beleza da barca é o primeiro elemento de perdição. "Não vês… se vela?/Colhe a vela". <br /> Sugestão da força do aviso e do pedido do sujeito poético. "Deita o laço com cautela! Que… canta bela". <br /> Sugestão do cuidado que o pescador devia ter. "Não se enrede a rede nela… remo…" <br /> Sugestão do enredo do pescador nas malhas da rede da sereia, tecida pelo seu canto<br />
  12. 12. apóstrofe(vv 1, 4. 8. 12, 16, 20); <br />adjectivação(bela, última); <br />pergunta de retórica (vv 1/4; vv 5/6; <br />exclamação retórica (vv 7/8; 11/12; 15/16; 19/20); <br />diáfora(vv 6/7 (repetição de uma mesma palavra, mas com sentido diferente: vela (verbo) / vela (nome));<br />assonância (contida na rima);<br />aliteração do L;<br />Nota: todo o poema é uma alegoria, pelo que quase todos os seus elementos devem ser lidos no plano metafórico: o que está em causa é o irresistível poder de sedução da mulher fatal;<br />Construção Retórica<br />
  13. 13. Metáforas e símbolos: <br /> "barcabela", "sereia", "pescador" são palavras de valor metafórico e simbólico. <br /> Assim, a "barcabela" navega num mar que pode ser metáfora de existência humana; ela própria é metáfora e símbolo de sedução e dos perigos que o homem corre na sua existência; tudo o que é belo é perigoso. <br /> Poder-se-á lembrar o famoso poema de Camões "Descalça vai pera a fonte", onde a beleza de Lianor pode correr perigo neste mundo imperfeito. A "sereia" é tradicionalmente um elemento provocador dos navegantes (ver As Sereias, p.139). <br />
  14. 14. Metáforas e símbolos: <br /> É também neste poema metáfora e símbolo da sedução e dos perigos que todo o ser humano corre durante a sua existência. O "pescador" é metáfora e símbolo de todo o ser humano que tem de "navegar" no mar da vida, rodeado de perigos. <br /> Se se interpretar o poema no contexto onde está inserido, como se deve fazer, então teremos ainda novos sentidos. O pescador é o homem e a sereia é a mulher; esta exerce uma atracção irresistível sobre aquele. Estamos face a um tema querido dos românticos: a mulher como anjo ou como demónio, mas sempre um ser superior, a que o homem se submete.<br />
  15. 15. Metáforas e símbolos: <br /> É também neste poema metáfora e símbolo da sedução e dos perigos que todo o ser humano corre durante a sua existência. O "pescador" é metáfora e símbolo de todo o ser humano que tem de "navegar" no mar da vida, rodeado de perigos. <br /> Se se interpretar o poema no contexto onde está inserido, como se deve fazer, então teremos ainda novos sentidos. O pescador é o homem e a sereia é a mulher; esta exerce uma atracção irresistível sobre aquele. Estamos face a um tema querido dos românticos: a mulher como anjo ou como demónio, mas sempre um ser superior, a que o homem se submete.<br />

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