Paramel

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Estorinha que escrevi para minha filha quando ela fez sete anos (1996).

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Paramel

  1. 1. PARAMELUma conversa de finge entre pessoas de verdade Junho de 1996 – aniversário da Mel
  2. 2. Esta estória, minha filha, é para você nos seus sete anos. Euaqui tomo a liberdade de usar como ponto de partida sua perguntade uns tempos atrás e inventar essa conversa entre eu e você. Foiassim que começou: um dia você estava muito chateada com ummonte de coisas. Disse para mim que nem queria ir à escola porquesentia que algo de ruim iria acontecer. Alguém iria te aborrecer,fazendo brincadeiras que você não gosta ou, pior, poderiaacontecer de você ficar de for a das brincadeiras com suas amigasqueridas. Ficar isolada é uma coisa ruim, que deixa você muitotriste. 2
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  4. 4. Você pensou, pensou, e descobriu que a sensação que vocêtinha vinha das coisas que andavam acontecendo recentemente. Aívocê disse assim:- Eu não queria ter a idade que eu tenho. Acho essa idade muito ruim, tem muitos problemas.- Eu sei. Só não lembro como era, mas sei que são sérios para quem está nessa idade.- Eu queria ser adolescente.- É mesmo, por que? – disse eu.- Porque deve ser muito melhor, a gente pode sair por aí quando quiser… 4
  5. 5. - Mas você pensa que adolescente não tem problema? Tem sim. É uma época muito difícil, em que tanta coisa muda na vida da gente que às vezes dá muito medo. O corpo da gente muda, se a gente é mulher, nossos peitos crescem e ficam sensíveis, doem. Depois a gente menstrua e até acostumar a lidar com absorvente, a se prevenir para o dia que vem a menstruação, a combater a cólica, tudo parece complicado e chato. Se a gente é menino, a voz da gente começa a engrossar e todo mundo tira um barato. Meninos e meninas estão virando homens e mulheres, os pelos crescem a pele fica cheia de espinha e o mundo não sabe mais como nos ver: hora nos tratam como crianças, hora nos cobram responsabilidades de gente grande, hora nos tratam como estranhos malucos. Pior ainda são os medos e novos sentimentos. Quando a gente é adolescente a gente vê um mundo muito grande, muito difícil e muito errado a nossa volta e tem medo e raiva. Sabe que ele tem que ser diferente, e sabe que a gente é que tem que achar a saída certa. A gente tenta se juntar a outras pessoas para ver se funciona… 5
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  7. 7. - E você, mãe, tentou mudar o mundo?- Tentei, como muita gente.- E aí?- E aí que não funcionou. Mas não é só isso. Quando a gente é adolescente, a gente ama seriamente pela primeira vez. A gente ama tão forte e tão sério que às vezes parece que a gente vai morrer. E toda vez que se ama desse jeito, também se sofre muito. A gente ama muito, muito forte e muitas vezes, e cada vez é para sempre. É muito sentimento forte para uma pessoa que acabou de chegar no mundo das pessoas grandes e parece que a gente vai arrebentar. Os adultos são sempre incapazes de entender todo o nosso sofrimento e todo o nosso poder e capacidade. Eles nos tratam de forma estranha e a gente acaba achando que eles são todos nossos inimigos. Muitas vezes são mesmo. E o pior é que nem reagir a gente pode, porque a gente não tem dinheiro e nem direitos: pela lei, a gente ainda é criança.- Então não quero ser adolescente. Quero ser jovem.- Jovem como?- Jovem, que nem minhas primas. 7
  8. 8. - Suas primas? Você acha que a vida das suas primas é fácil?- Ah, elas dirigem, elas cozinham, elas saem sozinhas, elas não tem mais que fazer o trabalho dos macacos e ninguém canta “com quem será” para elas. A escola delas é muito mais legal, ninguém manda a gente ler o qeu a gente não quer ler, ninguém proibe a gente de ir ao banheiro e ninguém briga se a gente esquece a borracha e o apontador.- Você está enganada. Você vê que a Tânia está sempre cansada?- É.- E sabe por que? Porque ela está estudando para prestar vestibular. Prestar vestibular é uma coisa das mais difíceis da vida. Primeiro porque é difícil mesmo: é uma provona enorme, em que você tem que escrever muito bem sobre muitos assuntos e resolver problemas muito difíceis. Dura vários dias e todos os dias você fica lá várias horas escrevendo. E o pior não é isso: é preciso passar nessa prova para poder fazer a faculdade que você escolheu. Dependendo do que você escolhe é muito difícil ser aprovado porque muitas pessoas escolhem a mesma coisa. E se tiver só 50 lugares e umas 1000 pessoas quiserem entrar, 950 vão ficar de for a. Você tem que ser um dos 50 melhores para 8
  9. 9. ser aprovado. Às vezes o nervoso de não conseguir é tão grande que você até é um dos melhores, mas não consegue passar porque a cabeça fica toda confusa na hora de responder as perguntas. Vestibular só tem uma vez no ano. Você passa o ano inteirinho alí, naquela expectativa, todo mundo te cobrando e esperando que você passe e tudo depende só de você. E o medo de escolher errado? Fazer todo esse sacrifício e no fim você detesta a faculdade? É muita responsabilidade e é muito difícil…- Então eu queria ser a Cíntia, que já está na faculdade.- Você acha que aí está tudo bem? Que acabaram-se os problemas?- É, ela já escolheu e já passou.- Mas não é assim. Quando a gente escolhe, claro que acha que está escolhendo uma coisa bem legal. E depois de se matar, é justo esperar que a recompensa seja muito boa. E não é. Nem na melhor faculdade do país dá para ficar totalmente satisfeito. Em parte porque depois de toda a tensão que a gente passa, agente espera demais das coisas. Em parte proque é tudo cheio de 9
  10. 10. defeito mesmo! E aí vem a decepção, parece que os seus sonhosmais queridos estão indo privada abaixo. E o pior é que a gente éadulto, todo mundo espera que a gente seja muito bem sucedido,que seja muito inteligente e que ganhe muito dinheiro. E arealidade é bem mais complicada: o curso vai chegando ao fim e agente vai percebendo que achar um bom emprego ou continuarestudando uma coisa bem interessante é deficílimo. E também agente percebe que namorar não é mais aquela coisa de conto defada que era antes. Percebe que o outro, o namorado, é semprecomplicado, tão complicado quanto a gente. Percebe que é difícilduas pessoas se entenderem sempre…- Então deve ser horrível ser jovem.- Não é, também. É bem legal ter autonomia. É legal não depender de pai e mãe para ir de lá pra cá. É legal também a gente perceber que por mais medo que dê tomar decisões, a gente pode acertar e fazer coisas muito legais, escolher atividades maravilhosas, aprender coisas fantásticas, adquirir um poder novo que só o conhecimento traz. 10
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  12. 12. - Ah, não. O melhor mesmo é ter a idade da vovó.- A idade da vovó!?! Por que?- Porque a vovó está sempre contente, não tem que ficar trabalhando que nem você, que não me dá atenção, pode brincar comigo…- Ah, então você acha que a vida da vovó é um paraíso?- É bem melhor que a de todo mundo. Ela faz só o que ela quer e é assim que eu queria ser.- E de novo você se enganou. Em primeiro lugar, a gente só tem 70 anos se antes a gente teve 14, depois 20, depois 33, depois muitas outras idades que têm outras dificuldades. Só então a gente chega aos 70 anos, com o direito de não ter que trabalhar, de não ter que cuidar de filho, mas com novos desafios e problemas.- Que problemas?- De novo tem a estória de ter o corpo mudando. Quando a gente fica velho, um monte de coisas no corpo da gente fica diferente: a gente fica menos flexível, não é mais molinha como criança. Aparecem dores nas costas, nas pernas, nos ombros… Dores 12
  13. 13. chatas que não vão embora facilmente. Os olhos ficam cansados e precisam de óculos e algumas pessoas escutam menos. Como na nossa sociedade as pessoas acham que bonitas são as pessoas jovens, tem também a parte chata de que a gente se olha no espelho e acha que está perdendo a beleza: a pele fica enrugada, o cabelo mais branco e algumas pessoas engordam. Algumas pessoas se gostam menos por causa disso. E aí tem o grande fantasma: o medo da morte. A pessoa vai ficando velha e vai se sentindo cda vez mais perto da hora de morrer. Quase sempre a gente tem medo disso. Os amigos da idade da gente vão ficando doentes, vão morrendo e a gente pensa que a morte está por perto. Não é fácil.- É… Eu não queria mesmo é ter a sua idade. Você está sempre trabalhando, não pode ficar comigo, fica de mau humor…- É verdade. Minha idade tem também seus problemas. Na minha idade a gente tem um monte de responsabilidades: tem que ser capaz de ganhar dinheiro para dar conforto para a filhinha e tem que ser bom na profissão que escolheu. Isso tudo porque com trinta e poucos anos todo mundo espera que você já tenha acertado as suas escolhas, já tenha estudado tudo que 13
  14. 14. tinha que estudar e já tenha achado um jeito de ganhar dinheiro.E não é bem assim. A gente sempre tem dúvidas e é difícilganhar dinheiro. Quando a gente tem sorte e fez uma escolhaboa de profissão, é essa a hora em que você mais tem quemostrar que é bom, se não é passado para trás. Mas tem suascompensações! É uma hora em que muitas das coisas difíceis edecisões complicadas que a gente fez quando era mais jovemmostram que foram certas. 14
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  16. 16. A gente vê o resultado do que fez e finalmente pode fazer o que gosta. Tem a parte legal de ver a filhinha da gente crescer e cada dia trazer uma coisa nova para o mundo da gente. O mundo do adulto é muito menos movimentado que o das crianças.- Então é legal ter a sua idade, mãe?- É legal ter a minha idade, filha, como também é legal ter a sua idade, é legal ser adolescente, é legal ser jovem e é legal ser velho. Lembra de adolescente? Como é difícil? Mas é demais de legal também. Ter melhor amiga, descobrir uma turma que pensa como a gente, descobrir que a gente é poderoso para mudar o mundo, é quase como adquirir super-poderes! É como sair do casulo e virar borboleta, poder voar, se encantar com a própria beleza. E amar… Amar como nunca mais a gente ama do mesmo jeito. Ser jovem é difícil, mas também é demais! Poder dirigir seu carro, tomar decisões, conseguir coisas difíceis e ter orgulho de ser competente. A gente é adulto, cheio de energia, com muito 16
  17. 17. mais esperança e pique do que nunca! É a hora de conquistargrandes coisas, medalhas, idéias, mundos!E ser velho… Ser velho tem recompensas misteriosas. Tem agrande recompensa da sabedoria, que eu não posso contar paravocê porque também não sei. Mas quero muito viver até lá parapoder receber esse presente da vida: a paz que só vem com asabedoria. Deve ser bom demais viver uma hora em quefinalmente a vida faz sentido.Todas essas fases são legais e difíceis ao mesmo tempo. E sabepor que? Porque gente é uma coisa que está sempre mudando,sempre crescendo. Só para de crescer quando morre. Tem fasesem que se cresce mais e fases em que se cresce menos.Quando a gente cresce, a gente perde muita coisa. É como se agente mudasse de casa, para uma casa maior, cheia de novaspossibilidades, mas tivesse que deixar todas as nossas roupas,nossos brinquedos, o cachorro que a gente ama, as comidas dageladeira, tudo. Na nova casa a gente encontra novas roupas,que nos servem melhor, novos brinquedos e um lindo filhote decachorro que a gente deve conquistar e criar. No começo é tudoestranho, a gente sente falta de alguma coisa e nem sabe bem o 17
  18. 18. que é. Ninguém entende essa nossa saudade. Por isso a gentefica brava, chata, de mau humor. Crescer é terrível e fascinante.É duro e maravilhoso. E para que no fim das contas a genteconsiga se agarrar na parte boa e até viciar na arte de crescer épreciso que a gente conte com muito amor de quem éimportante para nós. É importante a gente olhar em volta esaber que dá para ir em frente porque o pai e a mãe da genteestão alí, torcendo, entendendo nosso sofrimento e curtindonossa alegria. É importante a gente ter os filhos alí por pertoquando chega a hora de envelhecer, de ficar com medo e àsvezes triste, mas sabendo que filhos e netos nos amam e vão nosajudar a atravessar mais essa fase, como a gente os ajudouquando precisaram.E eu amo você e vou estar sempre aqui quando sua banda derock fizer a primeira apresentação, quando você chorar se o seunamorado te chatear, quando você tiver que escolher umafaculdade e quando você for ter seu primeiro filho. 18
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