O Centro - n.º 69 – 05.06.2009

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Versão integral da edição n.º 69 do quinzenário “O Centro”, que se publica em Coimbra. Director: Jorge Castilho. 5.06.2009.

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O Centro - n.º 69 – 05.06.2009

  1. 1. DIRECTOR JORGE CASTILHO | Taxa Paga | Devesas – 4400 V. N. Gaia | Autorizado a circular em invólucro de plástico fechado (DE53742006MPC) Rua da Sofia, 95 - 3.º - 3000-390 COIMBRA Telef.: 309 801 277 ANO IV N.º 69 (II série) 29 de Maio de 2009 1 euro (iva incluído) CELEBRA-SE NA PRÓXIMA SEGUNDA-FEIRA, 1 DE JUNHO Dia Mundial da Criança As crianças são o futuro de cada País, são o futuro da Humanidade. Em Portugal o número de crianças está a diminuir de forma muito preocupante, sobretudo no interior do País. Em contrapartida em São Tomé (imagem) o elevado número de crianças faz ter esperança no porvir PÁG. 12 a 13 EM COIMBRA NOVA “LINGUAGEM” FOI HÁ 40 ANOS HOJE É DIA MUNDIAL Romaria Diário Imagens Renováveis do Espírito de Torga evocam são aposta Santo “traduzido” Crise no sector renovada para sms Académica da energia PÁG. 5 PÁG. 22 PÁG. 11 PÁG. 23 e 24
  2. 2. 2 EDITORIAL 29 DE MAIO DE 2009 A energia e as crianças Jorge Castilho o trabalho escravo até à prostituição for- çada, pois isso acarretará terríveis padas amigas do ambiente; a aquisi- jorge.castilho@gmail.com çada, da venda como mercadoria até ao efeitos para o futuro do País. ção de aparelhos eléctricos com me- tráfico para utilização de órgãos! nores consumos; desligar todos os apa- Celebra-se hoje, 29 de Maio, o Dia Graves consequências, não só para relhos (televisores, videos, computa- Mundial da Energia. Importa, por isso, denunciar as si- o País mas para todo o Mundo, terá dores, etc.) em vez de os deixar no E na próxima segunda-feira, 1 de tuações abusivas, diligenciar no sen- também a forma desregrada como modo “stand by”; desligar os carre- Junho, o Dia Mundial da Criança. tido de formação dos pais, criar es- continuam a consumir-se, em todo o gadores de telemóveis e outros das to- Esta coisa dos “dias disto e daqui- truturas de apoio à infância. Mundo, os combustíveis fósseis, exau- madas, quando não estão a ser utili- lo” tem um efeito positivo, que é o de Mas exige-se, de igual modo, que rindo as reservas que a Natureza foi zados; fechar as torneiras enquanto se ser pretexto para iniciativas diversas aumentem os apoios sociais para quem gerando ao longo de milhões de anos. escovam os dentes ou, no duche, en- para celebração das datas, muitas das tem filhos, de molde a tornar a mater- quanto se ensaboa o corpo; utilizar as quais se destinam a chamar a aten- nidade e a paternidade menos proble- Neste domínio, é justo referir que escadas em vez dos elevadores, sem- ção do público para realidades e pro- máticas, com menores custos para os em Portugal se tem vindo a fazer um pre que possível (porque até faz bem blemas que, nos restantes 364 dias do progenitores e até com estímulos para meritório esforço no sentido de esti- à saúde, pois é um bom exercício para ano, quase sempre são ignorados. que os jovens adultos se decidam a mular o recurso às energias renová- quem leva uma vida sedentária); não ter mais filhos e a tê-los mais cedo. veis, desde a solar à eólica, passando usar o automóvel para pequenos per- Também os órgãos de comunicação pela hídrica. cursos ou quando existem transportes social – alguns deles, pelo menos – Porque o que está a suceder, desde Aliás, recentemente surgiram alician- públicos eficientes; apagar as luzes dedicam espaço e tempo a estas efe- há vários anos, é que o índice de na- tes apoios do Estado (benefícios fis- sempre que elas não são necessárias mérides, assim contribuindo para lan- talidade tem vindo a baixar de forma cais, subsídios e linhas de crédito bo- e acendê-las apenas quando tal se jus- çar alertas, apontar exemplos, denun- drástica, os casais têm menos filhos e nificado) a quem queira optar por este tifica; não abusar dos aparelhos de ar ciar situações anómalas. de cada vez os têm numa idade mais tipo de energias alternativas. condicionado e de outros equipamen- O “Centro” é um dos que tenta as- avançada. A população portuguesa só tos para aquecer ou arrefecer as re- sumir esse papel de serviço público, não está ainda mais reduzida porque Deve reconhecer-se, repito, que nes- sidências e os locais de trabalho; ins- divulgando trabalhos sobra os temas as pessoas estão a viver mais tempo. ta área Portugal está na linha da fren- talar painéis solares para o aquecimen- em apreço, fazendo-se eco de aspec- te, até mesmo a nível mundial. to de água; aproveitar os apoios para tos que reputa importantes e/ou inte- Ora a gravíssima situação em que Mas tal não deve ser razão para a instalação, em residências e outros ressantes. o País está mergulhado só deverá descurar esta matéria. Porque ainda edifícios, de painéis fotovoltaicos e Ora a verdade é que estas duas efe- agravar ainda mais este problema da há muito a fazer, quer em medidas de mini-eólicas para produzir energia. mérides bem merecem destaque, ta- natalidade. Caso não sejam criados fundo, a tomar pelas diversas entida- manha é a sua importância no presente mais e melhores apoios, é natural (e é des públicas e privadas, quer nos pe- Continuemos a aproveitar, cada vez e para o futuro. compreensível!) que os jovens casais quenos gestos do dia-a-dia, que cada mais e cada vez melhor, os recursos adiem o seu desejo de ter filhos, por um de nós deve adoptar no seu com- naturais com que o nosso País foi ba- Invertendo a ordem cronológica, estarem receosos de não disporem de portamento, transformando em rotina fejado – o sol luminoso durante grande deve falar-se primeiro das Crianças, condições para lhes proporcionar tudo generalizada o que hoje é quase uma parte do ano, o vento que sopra por todo porque tantos problemas existem com aquilo de que eles carecem. excepção. o País, os cursos de água que correm elas relacionados e porque são elas o ao longo do nosso território, as ondas futuro da Humanidade. E até mesmo a rectaguarda familiar, Dou a seguir apenas alguns exemplos do mar na nossa extensa costa. E há tantas, na maior parte dos paí- até há pouco constituída, sobretudo, fáceis de adoptar, e que, para além de ses do Mundo, a sofrer precocemen- pelos avós, que davam uma preciosa beneficiarem não só a nós próprios, mas E sensibilizemos as nossas crianças, te, a ser tratadas com negligência pe- ajuda nos mais diversos domínios, está o porvir de toda a Humanidade, têm ain- em casa e nas escolas, para a neces- los próprios pais – em alguns casos também profundamente afectada pela da a vantagem de representar uma sig- sidade de poupar água e energia. por ignorância, noutros por delibera- crise, não podendo prestar o auxílio nificativa poupança, numa altura em que Assim estaremos a zelar pelo futu- da incúria. que desejaria. o Mundo tenta enfrentar uma das maio- ro das gerações vindouras – e essa é Para já não falar de situações verda- Esta uma realidade que não pode res crises de sempre. uma responsabilidade comum, de que deiramente criminosas, que vão desde ser escamoteada, ignorada ou disfar- Eis as sugestões: a adopção de lâm- ninguém deve alhear-se! Aos Assinantes do “Centro” Director: Jorge Castilho Como tem sido bem evidente nas notícias vindas a público, o sector da comunicação social (Carteira Profissional n.º 99) é um dos mais afectados pela crise que se abateu sobre toda a sociedade, sobretudo pelo brutal Editor/Propriedade: Audimprensa decréscimo nos investimentos publicitários. NIF: 501 863 109 Perante isto, até os grandes grupos de comunicação social estão a fazer despedimentos Sócios: Jorge Castilho e Irene Castilho em massa, para além de haver muitos jornais regionais que se viram já obrigados a suspender a publicação. ISSN: 1647-0540 Aqui no “Centro” estamos a fazer um enorme esforço para superar as dificuldades. Inscrito na DGCS sob o n.º 120 930 Mas esse esforço só será bem sucedido se conseguirmos receitas de publicidade e se os nossos Composição e montagem: Audimprensa Assinantes tiverem a gentileza de proceder ao pagamento da respectiva assinatura anual Rua da Sofia, 95, 2.º e 3.º - 3000-390 Coimbra - que se mantém em 20 euros desde o início do jornal. Se quer que esta tribuna livre possa manter-se, muito agradecemos que nos envie o pagamento Telefone: 309 801 277 - Fax: 309 819 913 da sua assinatura - uma verba que representa apenas o equivalente a cerca de 5 cêntimos por dia, e-mail: centro.jornal@gmail.com menos de 40 cêntimos por semana! Impressão: CORAZE Outra forma de ajudar este projecto independente é conseguir-nos novos Assinantes, Oliveira de Azeméis por exemplo entre os seus familiares e amigos (veja a página ao lado). Depósito legal n.º 250930/06 Tiragem média: 5.000 exemplares Contamos consigo!
  3. 3. 29 DE MAIO DE 2009 COIMBRA 3 AROMAS, SABORES E MÚSICA MISTURAM-SE AMANHÃ NA BAIXA DA CIDADE Mercado de Flores e Plantas anima ruas de Coimbra A Baixa de Coimbra vai surgir ama- diferente à Baixa, através dos arranjos nhã (sábado, dia 30) muito animada e florais e plantas (ornamentais, odorífe- colorida. ras, de várias formas e texturas, medici- Trata-se do “Mercado de Flores e nais), da mostra de produtos biológicos Plantas”, que decorre pelo terceiro ano que estarão espalhados desde a Praça 8 consecutivo, e que se espera atinja êxito de Maio à Rua Visconde da Luz, fruto ainda maior do que nas anteriores edi- da participação de dezenas de floristas a ções, atendendo ao Uma iniciativa do que também se associam mais de uma Departamento de Cultura da Câmara dezena de grupos folclóricos da Região, Municipal de Coimbra, que se espera que enriquecem a festa não só com ar- constitua uma boa surpresa não só para ranjos florais, mas com a gastronomia os conimbricenses, mas também para os tradicional de Coimbra. muitos turistas que nesta altura do ano A programação integra ainda momen- visitam a cidade. tos de animação ao longo de todo o dia. Flores e plantas vão aliar-se à doçaria Assim, entre as 10h30 e as 12h30, desfila- tradicional, estabelecendo-se, assim, um rá a Fanfarra dos Bombeiros Voluntários feliz casamento entre sabores e aromas, de Brasfemes; às 13h30, o Grupo de Con- num espectáculo de cor que será ainda certinas da Lousã; às 15h30 o Grupo Ei- valorizado pela música. ranças fará uma intervenção, com música A vertente gastronómica da Região e cantares, em torno das tradições ligadas será apresentada por vários grupos fol- às flores – “Maias” – com a recriação do clóricos e etnográficos da região de Co- tradicional Baile da Rosa e da Espiga. imbra, contando ainda com a colabora- A iniciativa – que engloba também o ção dos Associação dos Orizicultores. Concurso “Melhor Arranjo Floral”, en- Entre as 10h00 e as 17h30 o Mercado Imagem da anterior edição do “Mercado de Flores e Plantas” cerrará com nova actuação do Grupo de de Flores e Plantas, trará um colorido que amanhã voltará a animar a Baixa de Coimbra Concertinas da Lousã, a partir das 17h00. ORIGINAL PRESENTE POR APENAS 20 EUROS AUDIMPRENSA Jornal “Centro” Ofereça uma assinatura do “Centro” Rua da Sofia. 95 - 3.º 3000–390 COIMBRA e ganhe valiosa obra de arte Poderá também dirigir-nos o seu pe- dido de assinatura através de: telefone 309 801 277 Temos uma excelente sugestão ma tão original, está a desabrochar, sua casa (ou no local que nos indicar), fax 309 819 913 para uma oferta a um Amigo, a um simbolizando o crescente desenvolvi- o jornal “Centro”, que o manterá ou para o seguinte endereço Familiar ou mesmo para si próprio: mento desta Região Centro de Portu- sempre bem informado sobre o que de de e-mail: uma assinatura anual do jornal gal, tão rica de potencialidades, de His- mais importante vai acontecendo nes- centro.jornal@gmail.com “Centro” tória, de Cultura, de património arqui- ta Região, no País e no Mundo. Para além da obra de arte que des- Custa apenas 20 euros e ainda re- tectónico, de deslumbrantes paisagens Tudo isto, voltamos a sublinhá-lo, de já lhe oferecemos, estamos a pre- cebe de imediato, completamente (desde as praias magníficas até às ser- por APENAS 20 EUROS! parar muitas outras regalias para os grátis, uma valiosa obra de arte. ras imponentes) e, ainda, de gente hos- Não perca esta campanha promo- nossos assinantes, pelo que os 20 eu- Trata-se de um belíssimo trabalho pitaleira e trabalhadora. cional e ASSINE JÁ o “Centro”. ros da assinatura serão um excelente da autoria de Zé Penicheiro, expres- Não perca, pois, a oportunidade de Para tanto, basta cortar e preen- investimento. samente concebido para o jornal receber já, GRATUITAMENTE, cher o cupão que abaixo publicamos, O seu apoio é imprescindível para “Centro”, com o cunho bem carac- esta magnífica obra de arte (cujas di- e enviá-lo, acompanhado do valor de que o “Centro” cresça e se desen- terístico deste artista plástico – um mensões são 50 cm x 34 cm). 20 euros (de preferência em cheque volva, dando voz a esta Região. dos mais prestigiados pintores portu- Para além desta oferta, o beneficiá- passado em nome de AUDIMPREN- gueses, com reconhecimento mesmo rio passará a receber directamente em SA), para a seguinte morada: CONTAMOS CONSIGO! a nível internacional, estando repre- sentado em colecções espalhadas por vários pontos do Mundo. Neste trabalho, Zé Penicheiro, Desejo oferecer/subscrever uma assinatura anual do CENTRO com o seu traço peculiar e a incon- fundível utilização de uma invulgar paleta de cores, criou uma obra que alia grande qualidade artística a um profundo simbolismo. De facto, o artista, para represen- tar a Região Centro, concebeu uma flor, composta pelos seis distritos que integram esta zona do País: Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Leiria e Viseu. Cada um destes distritos é repre- sentado por um elemento (remeten- do para o respectivo património his- tórico, arquitectónico ou natural). A flor, assim composta desta for-
  4. 4. 4 INTERNACIONAL 29 DE MAIO DE 2009 Um Mundo desnuclearizado ton, em Dezembro de 2007, e o segundo sia considera as armas nucleares como Entre os primeiros, por muito estra- Fiodor Lukyanov * em Roma, no passado mês de Abril. a principal garantia nas condições de uma nho que possa parecer, encontra-se a O assunto tem criado muita animação gigantesca supremacia dos EUA nas ar- Rússia. Quanto ao arsenal nuclear, Mos- A política mundial acaba de fazer uma e entusiasmo na Europa e na América mas convencionais. covo está no topo acessível apenas aos espiral e muitos políticos de novo falam do Norte, mas passa quase despercebi- Moscovo aceita as conversações com EUA. A arma nuclear é a única esfera sobre um total desarmamento nuclear. O do na Rússia. Mais ainda, vários políti- Washington como mais um acto da mes- em que Moscovo e Washington se en- Presidente dos EUA, Barack Obama, em cos russos fazem declarações cépticas ma interminável peça. Por um lado, as- contram em pé de igualdade. Mas, psi- quem é costume agora depositar todas quanto à possibilidade de redução radi- sim é. Por outro, as decorações globais cologicamente, e não só, a Rússia não as esperanças do planeta, pretende per- cal das armas nucleares. da peça têm mudado radicalmente des- tem o estatuto elitista da ex-URSS. suadir o Congresso a ratificar o Tratado As iniciativas visando a um desarma- de os tempos em que a peça atraía mui- As reduções radicais dos arsenais sobre proibição de testes nucleares, dar mento nuclear são jogadas invencíveis ta atenção do público. nucleares, que Barack Obama pretende muita atenção ao regime de não prolife- dos que as propõem. É difícil objectar Para os EUA recomeçar o diálogo propor, não convêm à Rússia e um pro- ração, proceder a uma redução dos ar- contra uma recusa de usar a arma mais com a Rússia é importante no plano bi- gresso neste campo só pode ser gradu- senais e, em perspectiva, aspira a ver o destructiva inventada pelo homem. lateral, e também para demonstrar a al. Por outras palavras, quanto maior for nosso mundo livre de armas nucleares. Os apoiantes do «zero global» repor- sua boa vontade e tentar salvar o Tra- a iniciativa, tanto menor será o grau de tam-se à cimeira tado de não proliferação das armas nu- probabilidade da sua realização. URSS-EUA realiza- cleares, que, aliás, da em Reiquejavique ameaça a ruir. (Islândia) em Outu- A morte deste Tra- bro de 1986, onde tado significa não Mikhail Gorbatchev apenas maiores ame- e Ronald Reagan aças aos EUA, como quase acordaram um também um sério gol- prazo (1996) para pe na liderança nor- uma completa des- te-americana no truição das armas mundo. Como é sa- nucleares. De facto, bido, o reforço Moscovo e Wa- desta liderança shington estavam continua a consti- muito perto de um tuir o principal ob- tratado que inicial- jectivo da Adminis- mente parecia im- tração de Barack possível. Mas surgiu Obama. Pois é nas um obstáculo – o condições de proli- desejo categórico de feração das armas Ronald Reagan de nucleares (por não desistir da Inici- exemplo, um even- ativa de Defesa Es- tual teste de bomba tratégica (o escudo nuclear iraniana), se anti-míssil norte- torna ainda mais americano). ineficaz a supervi- Há 23 anos, as ini- são global norte- ciativas partiam do americana. Kremlin, enquanto a A lógica dos parti- Casa Branca estava dários de um total toda incrédula, sus- desarmamento é a Mikhail Gorbatchev Barack Obama peitando sempre de seguinte: as duas po- uma armadilha nas tências nucleares A ideia de um mundo desnucleariza- propostas e compromissos do dirigente vão dar um exemplo e os restantes paí- A arma nuclear tem sido um dos do, proclamada há muitos anos por Ro- soviético. Hoje em dia, os impulsos ema- ses nucleares seguirão o mesmo cami- mais temíveis símbolos do sec. XX- nald Reagan, e proposta como um ob- nam de Washington, e Moscovo é a par- nho. Mas, na prática, nada, absolutamen- XXI, mas, como é reconhecido por jectivo político concreto por Mikhail Gor- te que desconfia. Mas essa inversão dos te nada, obriga a Índia, o Paquistão e Is- muitos, ajudou, até agora, a prevenir batchev, com o fim da «guerra fria» de- papéis não altera a essência do proble- rael a fazerem o mesmo! Ou o Irão a grandes guerras. sapareceu da agenda mundial. Muitos ma. Não é por acaso que as condições rever as suas ambições! Hoje em dia, constata-se uma certa acreditavam que o tema ficou definitiva- de desarmamento nuclear, apresentadas Hoje em dia muitos países aspiram a diminuição do medo perante a arma de mente no passado, assim como a con- há dias pelo Presidente Dmitri Medve- ter armas nucleares por razões aliás muito destruição em massa. A possibilidade frontação ideológica e o frente-a-frente dev, se assemelham aos «escolhos» sur- diversas. Para alguns é importante ter do seu uso não parece muito grande, entre as duas superpotências. gidos na cimeira de Reiquejavique. garantias da sua soberania. A História embora não seja excluída de modo tão Mas em Janeiro de 2007 quatro ex- Trata-se, antes de tudo, da questão de recente demonstra: se um regime possui categiórico como há uns trinta anos. políticos – os secretários de Estado Ge- não colocação das armas nucleares no arma nuclear, então ninguém o ataca (a Por outro lado, na medida da sua proli- orge Schultz e Henry Kissinger, o secre- Espaço e proibição de criar unilateral- Coreia do Norte). Não ter arma nuclear feração, a arma nuclear deixará de ser tário da Defesa William Perry e o sena- mente sistemas anti-mísseis. No entan- significa não ter garantias contra uma um meio de garantia da estabilidade dor William Nann – avançaram com uma to, tal como antes, os EUA não querem invasão armada (o Iraque). estratégica. iniciativa, secundada por Barack Oba- ter as mãos atadas. Muitos países têm receio dos vizinhos Contudo, é preciso sempre ter em ma. E, naturalmente, Mikhail Gorbatchev Mais uma circunstância que complica pouco amistosos. E estes receios não são mente que na História da Humanidade foi o primeiro a dar-lhe todo o seu apoio. tudo: o desequilíbrio nas armas conven- relacionados com o comportamento do ainda não existiram armas, que uma vez Sob a presidência do ex-presidente sovi- cionais inverteu-se. Antes, a NATO teve Kremlin e da Casa Branca. Situações inventadas, nunca eram usadas contra o ético já se realizaram dois foruns «Supe- medo da supremacia soviética em tro- assim existem na Ásia Meridional e Ori- homem. rar a Ameaça Nuclear» – um em Bos- pas blindadas, artilharia, etc. Hoje a Rús- ental, assim como no Médio Oriente. * in revista A Rússia na Política Global
  5. 5. 29 DE MAIO DE 2009 COIMBRA 5 UMA TRADIÇÃO RENOVADA NO LARGO DOS OLIVAIS Romaria do “Espírito Santo” atrai população de Coimbra A tradição da Romaria do Espírito Santo, em Coimbra, tem já alguns séculos. Exis- SALVAGUARDA ESTREIA DO CORO tem mesmo referências a que até o próprio DOS MONUMENTOS DOS OLIVAIS Luís de Camões por ela terá passado, en- NO PROGRAMA volvendo-se em escaramuças suscitadas Deve ainda referir-se a preocupação, este DO FIM-DE-SEMANA pelo seu ardor de conquistar donzelas. Ob- ano ainda maior, de não “abafar” os monu- viamente que poderá ser especulação po- mentos existentes no local. Como aciam se refere, a Romaria tem pular, uma vez que não há consistentes ele- Assim, o acesso à escadaria da Igreja sido valorizada com um diversificado progr- mentos históricos que sustentem este epi- ficou este ano sem tendas ou expositores, ma cultural e recreativo. sódio. para lhe não roubar a beleza que tanto im- Para este fim-de-semana, destacam-se A verdade é que ele surge narrado no pressiona os milhares de turistas nacionais as seguintes iniciativas: célebre filme com o nome do épico, realiza- e estrangeiros (entre estes últimos o maior do por Leitão de Barros com argumento de número é de italianos) que ali acorrem para Sábado (dia 30) - 21h00 – Música ao vivo Afonso Lopes Vieira (e que foi o primeiro conhecer o local onde Santo António (de para dançar. Uma inovação curiosa, tanto filme português a concorrer ao Festival de Lisbos, de Pádua, mas também de Coim- mais que haverá prémios para os melhores Cannes, em 1946). bra) estudou e iniciou a sua actividade reli- dançarinos na modalidade de tango e valsa. Mas deixemos os aspectos cinéfilos e giosa (recorde-se, a propósito, que há pou- Domingo (dia 31), 21h00 – Actuação do voltemos à realidade. A Romaria do Espíri- cos anos foi mesmo descoberta a que terá Coro Misto da Freguesia de Santo António to Santo é a mais popular de Coimbra, sen- sido a cela habitada pelo santo padroeiro de dos Olivais. Trata-se da apresentação pú- do ponto de passagem obrigatória da popu- Lisboa). blica deste Coro, constituído por meia cen- lação da cidade. Também a capelinha existente no meio tena de cantores de várias idades e ambos Até há algumas décadas, a Romaria es- respectivo número. do Largo tem em volta um espaço livre, de os sexos, que tem sido muito acarinhado pela praiava-se por uma vasta área de terra ba- Fez também maiores exigências relati- forma a poder ser devidamente apreciada Junta de Freguesia. tida, junto à Igreja de Santo António dos vamente à forma como as estruturas ali fo- pelos visitantes. Olivais. ram montadas. Era famosa, sobretudo, pelas tendas onde E tentou atrair maior número de produ- se vendiam objectos de barro – desde as tos artesanais portugueses, incluindo os da bilhas para a água fresca até às assadeiras Região Centro, de molde a valorizar um sec- e aos vasos para plantas, passando pelos tor que, em edições anteriores, quase fora pífaros e campaínhas de barro que faziam “engolido” pela quantidade de artigos vin- as delícias da miudagem (e davam cabo dos dos de outros países. ouvidos a que mestivesse perto...). Neste último aspecto, contudo, o Presi- Com as obras que ali foram sendo feitas dente da Junta de Freguesia admite que não (nomeadamente a abertura da avenida An- foi tão bem sucedido como desejaria, pois a tónio Portugal e o arranjo do próprio Largo resposta dos artesãos nacionais não foi tão dos Olivais), a área disponível para a Ro- substancial como ele desejava. maria ficou substancialmente reduzida. Isto apesar do convite aos artesãos por- Por outro lado, também a evolução dos tugueses estar a ser anunciado há um ano. hábitos de consumo veio mudar o tipo de objectos ali comercializados, tal a como a CULTURA E LAZER aglobalização. MAS TAMBÉM GASTRONOMIA Deste modo, e embora ainda haja as ten- das onde se vendem objectos de barro (quase Outra das preocupações do autarca tem todos produzidos nas tradicionais olarias do sido a de que a Romaria do Espírito Santo Minho), a verdade é que a Romaria tem um associe a cultura ao lazer, sem esquecer a carácter verdadeiramente internacional, gastronomia tradicional. onde se vêem comerciantes e produtos ori- Assim, ali podem ser encontradas as fa- ginários de vários continentes – de África à mosas “farturas”, produzidas por dois fabri- Ásia, passando pela América do Sul. cantes à vista de todos, e servidas em ou- tras tantas esplanadas, onde é muito agra- PRESIDENTE DA JUNTA dável passar uns momentos de descontrac- DOS OLIVAIS ção, acompanhando aquela especialidade TENTA FAZER “MILAGRES” com uma bebida agrdável. Igualmente a bela sardinha assada mar- De forma a aproveitar o espaço disponí- ca presença num restaurante instalado jun- vel, o Presidente da Junta de Freguesia dos to ao Largo, que proporciona outras opções Olivais, Francisco Andrade, vem fazendo, da gastronomia tradicional portuguesa. ano após ano, verdadeiros “milagres” para Para a miudagem, as diversões mecâni- que a Romaria ganhe diversidade e, simul- cas que tanto as atraem. taneamente, dignidade. E para todos alguns espectáculos de Assim, na edição deste ano Francisco música e folcore, com um programa cuida- Andrade reduziu o espaço de cada um dos do que, por si só, justifica uma visita ao Lar- “stands” e tendas, de molde a aumentar o go dos Olivais.
  6. 6. 6 CRÓNICA 29 DE MAIO DE 2009 A OUTRA FACE DO ESPELHO Receitas magistrais José Henrique Dias* jhrdias@gmail.com Começou por dizer estou tão preocupada, logo sal- tou no seu habitual galope de palavras para assuntos do dia a dia, coisas de somenos, das que passam obrigato- riamente pela sensibilidade feminina, do exercício prag- mático da maternidade, como o ir às compras e carre- gar pesos. Aquela dor que a vinha incomodando e lhe retirava o prazer de uma conversa que adivinhara es- fusiante, quero eu dizer, a que evidentemente me ape- tecia, neste egoísmo másculo de contornar dificuldades para instaurar mecanismos de sedução, instalou-se ra- pidamente na mesa do chá de jasmim que partilháva- mos, nota disfórica das suas preocupações e temores exponencializados. Costumava brincar e chamava-lhe provocatoriamen- te hipocondríaca, tiritava o medo de acentuar a incon- veniência, mas não resultava, muito pelo contrário acei- tava com ar gaiato um, pois sou e depois?, para logo recompor um ar grave, quase sisudo, ia mesmo a dizer ameaçador, vincar de seguida meio sorriso e eu, a par- tir dele, desse quase sorriso, apenas esboço, eu ficava preso nos jardins floridos que sublinhavam as promes- sas dos seus lábios, que eram de tudo, a par com a luminosidade do seu olhar enternecido, o vínculo de so- noridade carminada de projectos de fim de tarde que às vezes aconteciam. Era um eterno fascínio, marca indelével que vinha do fundo das remotas recordações, de um outro tempo, quando nos conhecemos, sei eu já lá bem quando, só se me puser a fazer contas e atar factos, talvez então con- social, com apetites de uma vez por outra, fixadas as to, encontrámo-nos por acaso numa esplanada de Vila- siga saber de nós o que fomos esquecendo, depois que bulas dobradas no interior das caixinhas dos medica- moura, foi uma festa, estás óptimo, gritava excitadíssi- ela num fim de tarde, sempre fins de tarde, como este mentos, sentenciar umas nótulas à margem das pres- ma, tu sempre linda, fui dizendo, até porque era verda- de agora, me avisou, com a solenidade possível, a partir crições, como fazem com toda a segurança os chama- de, parecia que queríamos engolir o tempo perdido e de agora, ficas a saber, estou aberta ao que possa acon- dos técnicos, marçanos tirocinados no abrir e fechar acabámos a noite em sua casa, pé ante pé, bico calado, tecer. Acabou por acontecer. Outro. gavetas de rodinhas de etiquetagem alfabeticamente para não acordarmos os netos que estavam de férias Também, verdade seja aqui notificada, não seria di- organizadas. com ela e a empregada que os organizava e lhe poupa- fícil. Uma mulher como ela não teria nunca de esperar Foi isto que há dias me disse um amigo magistrado, va um ror de trabalhos. muito para interessar um candidato a marido. Isto é, a na companhia de um pediatra, depois de uma jornada Foi então, recuperada alguma fantasia das ambiva- companheiro. Ou talvez nem isso. Sempre me explicou domingueira de footing ou talvez melhor de futing, se lências e do desempenho possível, ultrapassada a casa que não estava disposta a uma vida a dois. Ter alguém não optarmos por corrida em circuito predeterminado. dos sessenta ia já uns anitos, que me falou das suas para partilhar a recusa da solidão, isso sim, uma com- Uma vez discutimos isso, e logo o meu amigo dos tribu- preocupações. Estávamos deitados lado a lado, de mão panhia para uns cinemas, uns espectáculos, mesmo o nais, zelador do património linguístico, argumentava dada, como se não houvesse tempo, quando notei que ocasional de uma tagarelice de amigos num bar arra- furibundo, também não escrevemos futebol? um demorado silêncio fez deslizar um cristal de lágrima baldino, mas o dia a dia, a ocupação do seu espaço, Voltando ao que vinha a contar. Quando acabámos que logo tentou secar com o indicador rápido. para isso, dizia como agora é uso, já dei. Para esse o curso, logo a convidaram para assistente e não de- A dor, aquela dor de que me falara vagamente no peditório já dei, acentuava. morou estava no topo da carreira, passado uns dois ou início, que encontrarão quando comecei a registar da Dito de outra maneira, vacinara-se contra o viver a três anos na Suiça, num centro de investigação, en- memória o que me escorreu das palavras murmuradas dois em permanência, como antigamente se dizia de quanto eu me contentei com o destino de boticário de no cá dentro de mim, era a sua grande frustração por casa e pucarinho. bairro periférico. De bata branca e tabuleta, atrás de um amor impossível, não realizado, que traduziu numa Conhecemo-nos na faculdade. Uma vez, ao cair da um balcão por conta de uma velha senhora que ador- frase dolorida, amor que não posso ter… noite, depois de uma aula de… já não sei, vai lá tanto mecia sentada à secretária do armazém, também es- Ouvi agora soar ao longe, no sino da velha torre, a tempo, como podia saber?, apenas retalhos alinhava- critório, a conferir as receitas e organizar as listas para eternidade de doze badaladas. A noite cansa-se nos dos na memória como aqueles tapetes artesanais de recuperação das comparticipações. meus joelhos. Está frio. Este frio que ficou sempre em feira de apresentações, estivemos no laboratório e dis- Não obstante o tempo e a distância, nunca nos per- mim e não sei como aquecê-lo, depois que a perdi no cutimos depois alguns problemas de manipulação de demos. Fui sabendo do que fazia em jantares combina- tempo, sei lá eu bem quando, se acaso é verdade que produtos, o FSA, faça segunda arte do tempo das re- dos e cada vez mais difíceis, assisti aos conflitos que alguma vez nos encontrámos. ceitas magistrais, ou talvez tenha sido, deixem lá ver, levaram ao fim do seu casamento com um economista Estou incorrigível. Foi isso que me disse o meu neto problemas de farmacognosia. que dirigiu um departamento bancário e teve uma pas- quando veio aqui ao lar, no domingo, ao fim da tarde, e Discutimos, isto é, transformámos em álacre taga- sagem conturbada por um governo durante uma legis- me surpreendeu a escrever bilhetinhos para uma se- relice a nossa paixão pelos estudos farmacêuticos, ou- latura que não chegou ao fim, acompanhei o desvelo nhora do andar de baixo, sempre muito cuidada, muito sávamos então lutar contra alguma mediocridade ins- que votava à educação da filha, solidarizei-me activa- digna e elegante nos gestos e palavras, que à hora do talada e aspirávamos a ser mais do que meros vende- mente em momentos trágicos como o daquele dia em almoço sorriu para mim e baixou depois os olhos, ao dores de produtos industriais de bata branca atrás de que perdeu os pais num acidente de viação, tornei-me passar pela minha mesa. um balcão, com o nome estampado em tabuleta de di- definitivamente melhor confidente do que amante. Quem me dera poder passear com ela em Vilamou- rector técnico, se a vida nos corresse bem, e não esti- É evidente, julgo que é evidente, que se percebe que ra. Há quanto tempo que não me levam lá. Pensando véssemos condenados a trabalho nominal por conta de houve entre nós muito mais do que as palavras parece melhor, acho mesmo que nunca fui a Vilamoura. outrem, com salário fixo e descontos para a segurança quererem dizer. Houve de facto. Um dia, finais de Agos- * Professor universitário
  7. 7. 29 DE MAIO DE 2009 NACIONAL 7 D. Afonso Henriques nasceu há 900 anos O Presidente da Câmara de Coimbra Portucalense, pelo número dos seus ha- depositados os seus restos mortais. frades crúzios, nos aspectos religioso, cul- defendeu ue a escolha da cidade para bitantes, pela importância económica, Monsenhor Leal Pedrosa, represen- tural, artístico e até no aspecto político”, sede do reino português por D. Afonso social e militar, e pelo seu dinamismo tando do Bispo de Coimbra na cerimó- sublinhou. Henriques visou contornar as disputas cultural”. nia, realçou que existem uns “laços pro- Para Leal Pedrosa, o Mosteiro de San- entre os homens do norte e do sul do ter- Segundo Carlos Encarnação, igual- fundos” entre D. Afonso Henriques, a ta Cruz “foi durante muito tempo a gran- ritório. mente a Coimbra ficaram ligados os “fac- cidade e o Mosteiro de Santa Cruz, em de escola do país, e também como que o “A escolha é feita com a clara inten- tos mais simbólicos do seu caminho”. cuja igreja decorreu a cerimónia. berço da Universidade de Coimbra”, ção de superar a oposição cultural entre É a Coimbra – acrescenta - que re- Se D. Afonso Henriques foi o funda- dada a ligação que houve nos primórdios o Norte e o Sul, e porque deste modo se gressa em cortejo triunfal depois da Ba- dor e protector do Mosteiro de Santa Cruz, desta instituição de ensino. consegue a unidade política capaz de talha de Ourique, que é considerado o também os monges crúzios muito o apoi- As comemorações dos 900 anos do aglutinar, na diferença e no respeito por momento do “alçamento do rei pelos aram e desenvolveram um importante nascimento de D. Afonso Henriques, que ela, regiões de características várias”, seus”. papel na sociedade de então, em Coim- decorreram em Coimbra no passado sublinhou Carlos Encarnação, na cerimó- “Antes de Coimbra, era o sonho, a bra, na região centro e no país, realçou. dia 23, compreenderam uma cerimónia de nia evocativa dos 900 anos do nascimento sede e o desejo. Em Coimbra nasceu o “Foi notável o apoio e a protecção que investidura dos novos membros da Ordem do primeiro rei de Portugal. Estado Português”, afirmou Carlos En- o primeiro rei deu a este mosteiro, mas dos Templários e uma homenagem no tú- Na sua opinião, “todas as razões o im- carnação, recordando que foi em Coim- também notável foi o apoio e a ajuda que mulo do Rei, com a deposição de flores punham”, também pelo facto de ser a bra, no Mosteiro de Santa Cruz, que D. os monges lhe deram. Não é fácil imagi- perante Guarda de Honra de militares da “cidade mais importante do Condado Afonso Henriques quis que ficassem nar e avaliar a importância da acção dos Brigada Ligeira de Intervenção. ponto . por . ponto Pergunto ao vento que passa Por Sertório Pinho Martins destino português que as continuará a diram. canções que ecoem no vento do silêncio … notícias do meu país à deriva, num perseguir. E só persiste o silêncio das E pergunto ao trevo de quatro folhas, e da esperança adiada? Mesmo numa fim-de-linha adivinhado de tantos sonhos mágoas por sarar. Não há nada de novo que foi esperança de tantos amores de- noite mais triste que o nosso tempo de desfeitos à flor das águas mornas de um para dizer, nem notícias que me abram sunidos, a saber notícias do meu país à solidão, será que a gente resiste e chega destino português que nos persegue, e ao lado de lá do rio que corre sempre só deixa mágoas por sarar. A política tor- para o mesmo mar? nou-se de repente um sítio onde não es- tar e um registo gordo de cumplicidades A política é cada vez mais Era bonito que o amanhã fosse um acordar sem deriva, sem ventos de si- podres e de caminhos bloqueados no es- paço ressequido de uma pátria à flor-das- um sítio onde não estar, lêncio e sem o rio triste que leva na tor- rente as minhas mágoas por sarar. Mas águas que não sabemos para onde vai! Pergunto à gente que passa porque vai nesta pátria ressequida não basta haver alguém que diz ‘não’: porque em volta tudo continua entregue de olhos no chão – e a resposta lê-se em e exausta de ser terra de ninguém aos chefes de clã que controlam a mi- cada rosto assustado com o dia de ama- nha pátria à flor-das-águas, baloiçando nhã: só ouço silêncio, que é tudo o que a e baldio de todos numa modorra de destino português que gente que passa tem para me dar, mais me persegue na noite dos trevos que não angustiada com o vazio de dias incertos sabem notícias do meu país. e com medo de errar nas escolhas dos uma nesga de esperança, nem uma luzi- deriva. Desfolho, uma vez, mil vezes, A política é cada vez mais um sítio chefes de clã que controlam a sua pátria nha que alumie o destino português que digo-lhe que morro nesta terra de nin- onde não estar, nesta pátria ressequida e baloiçando à flor de águas mornas e ba- me persegue. guém – e o trevo nada me diz! Nem o exausta de ser terra de ninguém e baldio tidas pelo vento do silêncio e da espe- E a noite continua a crescer por den- vento, nem o trevo, nem a pátria à flor- de todos. O vento cala a desgraça, nada rança adiada. tro dos homens deste país à deriva, em- das-águas, sabem do meu país perdido me diz do meu país perdido no seu negro E o vento não me diz nada, nem tem brenhados em disputas mortais para rou- na margem do rio triste que corre sem- destino português – e não basta haver nada de novo para mim. Fico entre as bar um pouco de sombra aos que conti- pre para o mesmo mar. alguém que resiste : a memória é curta, gentes que estão na margem da vida a nuam a sonhar na margem do rio triste. Mas poderá o sonho de uma luzinha e a culpa é solteira e a alma humana não olhar um rio triste que corre sempre para E cresce a mancha escura de gentes de uma nesga de esperança, sair de uma passa de um velho catavento a ranger o mesmo mar, e que gostariam de ser conformadas e que vão vivendo em pas- candeia nascida da própria desgraça do por cima de uma pátria que continuamos barco dessa viagem – mas que têm sem- so forçado, olhando por cima do ombro meu país à deriva? E se o sonho quiser a não saber para onde vai, com tanta pre de ficar, pregadas na cruz de um para não errar nas escolhas que não pe- ser realidade, quem o semeia e dele faz gente a passar de olhos no chão. VENDE-SE Casa com 3 pisos grande quintal e anexos num dos melhores locais de Coimbra (Rua Pinheiro Chagas, junto à Avenida Afonso Henriques) Informa telemóvel 919 447 780
  8. 8. 8 OPINIÃO 29 DE MAIO DE 2009 ladrava ao longe eterno, tudo eterno. monumentos onde foram comprados por isso, as questões europeias não es- Ladrava uma espécie de tosse, contra como “propriedade móvel” quer os mo- tão a ter o devido peso, enquanto se en- quem? O pombal por fora verde, por numentos que foram construir no outro fatizam questões, mesmo questiúnculas, dentro poeirento e escuro, a que falta- lado do Atlântico. (...) incidentes, episódios, meramente inter- vam tábuas. Sinos às vezes, para além nos e amiúde irrelevantes. do muro baldios, quintas, um burro a ajo- Boaventura Sousa Santos Creio que isto contribuirá para aumen- elhar-se. Os comboios eternos também Visão tar ainda mais a abstenção, não obstante ou então foi o mundo que parou por falta os enormes gastos de campanha, que na de corda. Estive tuberculoso, lembro-me A CRISE DA JUSTIÇA actual situação a generalidade dos por- de não comer, de atirar para o chão os tugueses não compreende ou até não brinquedos que me traziam, não lembro Custa-me abordar este assunto, pelo “perdoa”. Gastos, inclusive, em enormes mais nada acerca disso. Sonhos em que seu especial melindre. Mas, em consci- cartazes com “mensagens” que em re- queria fugir sem conseguir correr, todos ência, não posso deixar de o fazer. A cri- gra não querem dizer nada, não conquis- passavam por mim e eu parado. Se não se da Justiça está aí, é uma evidência tarão sequer um voto e em alguns casos FÉRIAS NA CABINA DE VOTO há nem um sopro qual o motivo dos bra- incontornável. Não pode deixar de preo- podem ser mesmo caricatos - como o do ços da trepadeira oscilarem? A maior cupar os cidadãos responsáveis. CDS, com uma foto de Nuno Melo, em Quando o Presidente da República parte das coisas não tinha nome nem A Justiça, em demasiados casos, não pose de imperador romano ou super- apelou aos cidadãos para que não fos- precisava dele. Porque carga de água funciona, nomeadamente quando envol- homem, clamando: “Não andamos a brin- sem de férias no fim-de-semana das elei- temos nome, nós? No outro lado da rua ve políticos mediáticos ou desportistas car aos políticos!” (...) ções europeias, cheguei a pensar que, um homem sai de uma porta, some-se igualmente mediáticos. Os juízes não se tomado pelo espírito europeu, Cavaco noutra. Eu a escrever isto e ele a sair de entendem com os procuradores e estes José Carlos Vasconcelos Silva estivesse a falar na qualidade de uma porta e a sumir-se noutra: se calhar não se entendem com os responsáveis Visão Presidente de outro país da União Euro- a outra engoliu-o dado que não o vejo da Polícia Judiciária. Há a sensação de peia. No nosso, o pedido vai fazendo cada mais. (...) que disputam, entre si, para aparecerem MULTILATERALISMO vez menos sentido: os desempregados, nas televisões, como vedetas. Não re- por definição, não têm férias; para os tra- António Lobo Antunes sistem a responder a perguntas dispara- Os numerosos sectores de responsa- balhadores da Qimonda e da Auto-Eu- Visão tadas ou mal intencionadas e nem sem- bilidade da ONU, que estão desprovidos ropa, em princípio, a opção de tirar féri- pre o fazem com o bom senso que seria de meios para acudir às exigências que as não será prudente; e os precários, os MONUMENTOS de esperar. crescem de gravidade, exigem uma con- temporários e os endividados, provavel- E COLONIALISMO Assim sendo, perdem a distância - tão tinuada atenção dos seus funcionários, a mente, não têm o desafogo financeiro que necessária à profissão que exercem - e qual não tem faltado, com recurso a uma as férias, mais ou menos, requerem. O A New 7 Wonders Portugal, SA está desacreditam as magistraturas. Parece súplica que se multiplica, e se traduz em mais provável é que não haja assim tan- a lançar um concurso com vista a eleger não perceberem que o silêncio é de ouro implorar a atenção dos governos para a ta gente de férias no dia 7 de Junho. In- as “7 Maravilhas de Origem Portuguesa e a palavra, em certas circunstâncias, urgência de assumirem uma intervenção felizmente, também não é provável que no Mundo”. Os resultados serão conhe- lhes é bastante inconveniente. O que partilhada. haja muita gente a ir votar. cidos no próximo dia 10 de Junho. Esta- contribui, com alguma frequência, para O secretário-geral, Ban Ki-moon, O problema é que os cidadãos, na al- mos, pois, no mundo dos negócios e do o descrédito da Justiça, nos espíritos dos parece ter chegado à formulação da tura das eleições europeias, costumam mediatismo, e os critérios por que se pau- telespectadores, que nas suas casas, num síntese das preces, agora que a “tur- fazer férias da democracia. Quase seis ta este mundo têm pouco a ver com a contexto diferente, os vêem, escutam, bulência financeira pode desencadear milhões de pessoas votaram nas últimas busca da verdade ou da justiça. Têm avaliam. E não gostam... uma catástrofe humana” ao discursar legislativas, mas apenas cerca de três antes a ver, neste caso, com os lucros Ora, o bom funcionamento da Justiça na Universidade de Princeton (17 de milhões foram às urnas nas últimas eu- que podem ser obtidos com a explora- é essencial aos Estados de Direito, como Abril): a conclusão foi que “é neces- ropeias. Ou as agências de viagens ofe- ção da história, da obtenção de direitos o nosso. Sem um Estado de Direito efi- sário um novo mul- tilateralismo para recem pacotes menos apelativos nos fins- de exploração do conceito “7 Maravi- caz e que mereça o respeito dos cida- enfrentar a crise económica mundial”. de-semana das eleições nacionais, ou os lhas”, da publicidade, da promoção do dãos não há Democracia. A questão é, Usando uma fórmula paliativa, afirmou portugueses não se interessam especial- turismo, etc. Perante isto, pode estranhar- portanto, muito séria e não pode ser ig- que “o reforço das Nações Unidas faz mente pelas eleições europeias - o que se o incómodo e o protesto que este con- norada pelos órgãos de soberania: Pre- parte da solução”, mas de facto aquilo não deixa de ser uma atitude estranha. curso tem vindo a suscitar no espaço de sidente da República, Governo, Parla- que a importante mensagem significa A opinião geral dos cidadãos sobre os língua oficial portuguesa, envolvendo so- mento - e, portanto, por todos os parti- é que poucas, se algumas, das suas políticos é má, pelo que não se compre- bretudo investigadores que se dedicam dos, numa Democracia pluripartidária estruturas existentes se revelam ade- ende que desdenhem da oportunidade de ao estudo do império colonial português como a nossa. quadas para responder às exigências mandar 24 deles lá para fora. Quando ou ao estudo dos países independentes Há quem reclame novas reformas le- face às quais se vai afundando a or- se esperava que houvesse longas filas à que emergiram do fim do império e edu- gais. Não penso que seja a solução. A dem mundial. No que respeita ao eixo porta das secções de voto, os portugue- cadores que, neste espaço, procuram questão não é de lei, mas antes dos com- essencial de uma ordem efectiva, que ses preferem ficar em casa. Vá lá uma passar às novas gerações uma visão com- portamentos dos juízes, dos procurado- é a segurança, o multilateralismo foi pessoa compreender o eleitorado. (...) plexa da história que, longe de ser pas- res e dos dirigentes da Polícia Judiciária. sempre limitado pela distribuição do di- sada, continua a afectar as suas socie- E nestas profissões, como em todas, pa- reito de veto, e a responsabilidade pela Ricardo Araújo Pereira dades e as suas vidas. gam os bons pelos transgressores... (...) paz possível da Carta foi de facto as- Visão O incómodo e o protesto têm razões sumida, precariamente, pela Ordem fortes e a principal é que este concurso Mário Soares dos Pactos Militares que durou até à TUDO ETERNO implica não apenas com a História de Visão queda do Muro de Berlim. Portugal, mas também com a história dos Para além do verdadeiro vazio de so- Deitava-me na relva dos canteiros e países que estiveram sujeitos ao coloni- EUROPEIAS MAS POUCO luções, ou pelo menos proposta delas, ficava horas a olhar o céu entre as árvo- alismo português, e fá-lo de modo a ocul- para esta questão essencial, o apelo ao res. De início parecia imóvel e depois tar, precisamente, o colonialismo, ou seja, A campanha para as eleições euro- multilateralismo tem em vista assegurar enchia-se de vida, aproximava-se e afas- o contexto social e político em que esses peias está na rua e não é expectável nem a estabilidade económica e financeira tava-se consoante as folhas tremiam e monumentos foram erigidos e o uso que que traga grandes novidades nem que mundial, lançar uma ofensiva contra a eu espantado que as folhas tremessem tiveram durante séculos. O olhar que é altere muito os previsíveis resultados. pobreza, restabelecer a paz e a estabili- por não existir vento. O coração dema- orientado para ver a beleza da arte e da Está dito e redito que tais resultados te- dade, responder às alterações climáticas, siado rápido dos pássaros assustava-me, arquitectura dos monumentos é igual- rão mais a ver com a política interna do melhorar a saúde no mundo, lutar contra impedindo-me de lhes tocar. Insectos in- mente orientado para não ver o sofrimen- que com as opções específicas quanto à o terrorismo e garantir o desarmamento compreensíveis, cheios de patas e ante- to inenarrável dos milhões de africanos Europa, com maior penalização do PS e a não proliferação. (...) nas, joaninhas que essas sim, entendia, o que, entre o século XV e o século XIX, nestas eleições do que nas legislativas, suspiro de papel de seda das roseiras, eu sacrificaram a vida para que muitos des- dado não se pôr a questão da alternativa Adriano Moreira eterno, a China eterna, o cão invisível que ses monumentos tivessem vida, quer os de Governo do País. Decerto também Diário de Notícias
  9. 9. 29 DE MAIO DE 2009 OPINIÃO 9 OS MILAGRES cido social e garantiu a instauração da utilização nas aulas de gravadores e ção devida à Assembleia da República indiferença, do abandono cívico e, fi- outros instrumentos similares. Eu es- (ao recusar-se a facultar documentação (...) Por causa dos milagres exigi- nalmente, da coisificação do medo. pero e desejo que ninguém cometa à Comissão de Inquérito). dos para uma canonização, pergun- As velhas classificações foram re- essa injustiça. A criança que gravou É evidente que algo de muito errado tam-me frequentemente se acredito cuperadas do pó dos armários ideoló- o que estava a acontecer na aula de- se está a passar com o Banco de Portu- em milagres. Respondo que só acre- gicos: populista, esquerdista radical, via ser louvada, não punida, porque às gal, nas grandes como nas pequenas coi- dito nos milagres do amor. Quanto aos chavezista; e apontado, acriticamen- vezes não há outra forma de chegar- sas: não são só as previsões económi- “milagres” no sentido estrito - aque- cas, nem o brutal falhanço na supervi- les que Deus faria sobrenaturalmen- são – e o BPN está longe de ser o único te, suspendendo as leis da natureza -, caso, como é público –, há ainda a muito mantenho razoável cepticismo. “En- desastrada tentativa de aumento das re- tão, não acredita que Deus pode munerações dos seus órgãos dirigentes tudo?” Não, não acredito, pois a mai- e aqui, com franqueza, não havia mes- or parte das vezes fala-se da omnipo- mo necessidade. Mas ninguém se inco- tência divina de modo infantil. Deus moda ou parece incomodado, muito me- não pode, por exemplo, fazer com que nos os próprios. (...) dois mais dois sejam cinco nem co- meter suicídio. Paula Teixeira da Cruz A razão do meu cepticismo é, po- Correio da Manhã rém, mais funda. Acredito em Deus infinitamente bom e poderoso, criador ELOGIO DAS REVOLUÇÕES dos céus e da terra, como diz o Cre- do. Se acredito em Deus criador a Duzentos e vinte anos depois de 1789, partir do nada - sublinhe-se que a cri- o corpo da Revolução ainda mexe. Ape- ação não se opõe ao evolucionismo -, sar de François Mitterrand ter convida- creio nele enquanto continuamente do Margaret Thatcher e Joseph Mobu- criador. Deus não está fora do mundo tu para confirmarem o seu enterro, - ele é infinitamente presente ao mun- aquando das cerimónias do bicentená- do. Ora, os milagres pressupõem que rio. E porque esse ano das comemora- Deus está fora do mundo e que, de ções foi também o da queda do Muro vez em quando, de modo arbitrário, de Berlim, Francis Fukuyama anunciou vem ao mundo, interrompendo as leis o «fim da história», ou seja, a eternida- da natureza. Porque acredito que de da dominação liberal exercida sobre Deus está dentro e não fora, pois é o mundo e o encerramento, a seu ver, Força criadora infinita, não acredito do parêntesis revolucionário. Mas a cri- nos tais milagres. Marinho Pinto se do capitalismo está de novo a abalar Porque creio nos milagres do amor, a legitimidade das oligarquias no poder. pergunto muitas vezes porque é que O ar está agora mais ligeiro, ou mais ainda não foi canonizado o Padre te, à execração popular, entre malici- se à verdade. (...) pesado, segundo as preferências. Alu- Américo, modelo de amor cristão, em osas meias-frases, silêncios ambíguos dindo «aos intelectuais e artistas que generosidade sem limites, inteligente e sorrisos equívocos. O homem fala Emídio Rangel apelam à revolta», o diário Le Figaro e eficaz, no quadro de uma pedagogia alto e grosso, enfrenta situações peri- Correio da Manhã mostrou-se desolado: «François Furet para a liberdade e autonomia. (...) gosas porque, nitidamente, está a me- parece ter-se enganado: a Revolução xer em áreas historicamente inamo- A COMISSÃO Francesa não terminou» [1]. Anselmo Borges víveis e diz-nos de uma justiça, na sua No entanto, como muitos outros, o his- Diário de Notícias opinião “miserável” e desprovida dos Algo de muito errado se está a passar toriador em questão não se poupou a “valores mais elementares.” (...) no Banco de Portugal, nas grandes como esforços para esconjurar a lembrança da QUEM TEM MEDO nas pequenas coisas. Revolução e para que as tentações se Baptista Bastos A actuação da Comissão Parlamen- afastassem dela. Outrora considerada DE MARINHO PINTO? Diário de Notícias tar de Inquérito ao caso BPN é, a todos expressão de uma necessidade histórica os títulos, digna de elogio público. Num (Marx), de uma «nova era da história» Não pode deixar de causar perple- ESPINHO NA EDUCAÇÃO País atávico, a Comissão foi pró-activa; (Goethe), de uma epopeia encetada pe- xidade os ataques de que Marinho Pin- num País de improvisos, fez o seu traba- los soldados do Ano II cantados por Vic- to (ou Marinho e Pinto) tem sido alvo. Não temos nada que “relativizar as lho de casa, preparou-se; num País em tor Hugo – «E víamos marchar os so- Ele não fala baixinho, não sussurra, coisas”, Senhora Ministra da Educa- que qualquer dificuldade justifica um adi- berbos maltrapilhos nesse mundo des- não vive dos seus próprios venenos, e ção. O caso da professora da escola amento, superou os muitos que lhe sur- lumbrado» –, dela já se mostrava ape- em nada contribui para garantir a qui- de Espinho que dava aulas a crianças giram, incluindo a falta de cooperação nas o sangue que tinha nas mãos. De etude das águas palustres. Vai-nos re- de 12 anos da forma como a grava- da supervisão. Rousseau a Mao, uma utopia igualitária, velando, com estremecedor vozeirão ção ilustra não pode ser minimizado, Esta Comissão Parlamentar restituiu terrorista e virtuosa, teria espezinhado as e gestos a condizer, que muitos com- porque é invulgarmente grave. aos olhos do cidadão um pouco da confi- liberdades individuais, parido o gélido ponentes da sociedade portuguesa, Dito de maneira mais clara, ou a ança de que a Assembleia da República monstro do Estado totalitário. Depois, a criminais e legais, estão imbricados professora é desequilibrada e deve é deficitária e isto num momento em que «democracia», voltando a sentir-se se- uns nos outros. E tem exigido que se- estar longe de crianças e a ser trata- as Instituições em geral parecem derro- nhora de si, vencera – jovial, pacífica, de jam submetidas a controlos reais al- da em qualquer psiquiatria, ou a pro- car e as referências se esfumam umas mercado. Também ela herdeira de revo- gumas veneráveis instituições e suas fessora, ano após ano, é considerada atrás das outras (com poucas excepções, luções, mas de uma outra espécie, à in- actividades peculiares. pronta para o ensino, e então deve ser que também as há). Vivemos tempos em glesa ou à americana, mais políticas do Não me parece que Marinho Pinto severamente punida e o conselho exe- que nenhuma ordem normativa parece que sociais, «descafeinadas» [2]. (...) haja sido tocado pela desonestidade, cutivo da escola igualmente penaliza- valer para muitos que foram chamados pela indecência, pela indignidade, ou [1] Le Figaro, Paris, 9 de Abril de 2009. do, por encobrimento do comporta- a grandes responsabilidades. movido por interesses cavilosos. Que- [2] «Em suma, o que a sensibilidade liberal mento da docente e por incapacidade Ao contrário, o papel desempenhado exige é uma revolução descafeinada, uma revolu- rem-no brunido, direitinho, ajeitado, para proteger crianças. pelo Banco de Portugal não deixa de ser ção que não tenha o sabor da revolução», resume dentro da esquadria: um artesão for- Slavoj Zizek em Robespierre: entre vertu et terreur, Tenho ouvido e lido nos últimos dias profundamente lamentável: das sempre mal da aplicação das leis e seu com- Stock, Paris, 2008, p. 10. a intenção de castigar a criança que optimistas mas erradas previsões econó- placente vigilante. Ele é, definitiva- gravou a arenga sinistra da professo- micas, ao falhanço enquanto instituição mente, o contrário dessa banalização Serge Halimi ra, por não ser permitido aos alunos a de supervisão, até à recusa de coopera- precaucionista que atingiu todo o te- Le Monde Diplomatique
  10. 10. 10 SEGURANÇA arte em café 29 DE MAIO DE 2009 AFIRMA EM COIMBRA O SECRETÁRIO DE ESTADO JOSÉ MAGALHÃES Nova Lei das Armas será travão para “um ciclo infernal desgastante” O Secretário de Estado Adjunto e da Administração In- terna, José Magalhães, presidiu ao encerramento do II Fó- rum Distrital de Segurança, que decorreu nos dias 26 e 27 de Maio, na Casa da Cultura de Coimbra, numa iniciativa do Governo Civil de Coimbra. Na sua intervenção, o Secretário de Estado considerou que “vale a pena pensar a segurança a nível distrital”, e lembrou que “nunca podemos esquecer que a segurança é vivida à escala onde vivemos e trabalhamos”. Perante uma plateia onde se encontravam representantes de todas as forças de segurança do Distrito de Coimbra, José Maga- lhães destacou a estratégia do Ministério da Administração Interna assente na “união de esforços”, considerando uma mais-valia o sistema de coordenação aprovado com a revi- são da lei de segurança interna, que “passou pela nomea- ção de um secretário-geral em funções de coordenação sistémica”. “O caminho da coordenação é possível e dá resultados concretos”, afirmou. O governante revelou que no próximo dia 3 de Junho irá defender na Assembleia da República a proposta de lei “para criar a plataforma para o intercâmbio de dados e informações criminais”. Trata-se de uma ferramenta infor- mática nova, que vai permitir a partilha de informações, que m ciclo infernal desgastante” que desafia a autoridade do Estado de Direito Democrático. A nova versão do diploma, segundo José Magalhães, é uma resposta do Estado a “um ciclo infernal de capturas e libertações em ‘porta giratória’ que importa ser parado”. DOIS DIAS DE DEBATE O Secretário de Estado José Magalhães troca impressões E TROCA DE EXPERIÊNCIAS com o Governador Civil Henrique Fernandes O Governador Civil de Coimbra, Henrique Fernandes, em situação de vulnerabilidade. ao explicar o objectivo do II Fórum Distrital de Segurança, ticas em matéria de segurança, reforçando a confiança dos No mesmo dia, da parte da tarde, a Guarda Nacional disse que este debate, em que participaram especialistas cidadãos no sistema e fomentando uma ideia de responsa- Republicana explicou o modo de actuação no âmbito do diversos, visou “contribuir para o aprofundamento da de- bilidade colectiva, neste domínio, em que o contexto escolar Programa Escola Segura e como o contexto escolar pode mocracia, livre, justa e segura”. “A segurança de pessoas e é um palco privilegiado. também ser uma fonte de perigos, em que os jovens, mais bens, que é na essência o motivo deste Fórum, está intima- Ao longo de dois dias, foram vários os painéis de grande uma vez, são potenciais vítimas de ameaças externas, nem mente ligada ao próprio exercício da liberdade, nos diversos qualidade a que a assistência, composta por elementos das sempre fáceis de controlar. domínios da vida social”, afirmou, concretizando que “a forças de segurança e estudantes, puderam assistir. No dia Seguiu-se o painel apresentado pelo Serviço de Estran- partilha de informação entre os organismos e forças de 26, decorreu o painel da Polícia de Segurança Pública que geiros e Fronteiras, sobre Imigração e Segurança, que rom- segurança, a sua difusão pela sociedade civil e, muito em reflectiu sobre a sinistralidade rodoviária do Concelho de pendo alguns preconceitos, até algumas mistificações da especial, a afirmação pública do esforço meritório que os Coimbra e confrontou o público com a ideia de que o perigo sociedade portuguesa, projectou a assistência para uma homens e mulheres que fazem, todos os dias, a segurança não reside nas grandes vias de trânsito nos excessos de abordagem de face humana do fenómeno da imigração, empreendem - a publicidade dos bons exemplos! - conduzi- velocidade nas auto-estradas, mas que as cidades são, elas para uma filosofia de abertura regulada, de entusiasmo pe- rão, necessariamente, a um maior sentido de auto-protec- próprias, uma fonte de riscos, em matéria de sinistralidade las oportunidades e atenção quanto às eventuais ameaças, ção e à instituição de uma verdadeira cultura de prevenção rodoviária, que merece atenção. que não são, definitivamente, uma marca distintiva da popu- e segurança”. Seguidamente, a Polícia Judiciária apresentou os extra- lação imigrante. Organizado a partir da actividade desenvolvida pelo Ga- ordinários desafios que o avanço da ciência, em especial no Já no dia 27, destaque para a Autoridade para a Segu- binete Coordenador de Segurança Distrital, o encontro, com domínio da internet, nos impõe. Há um mundo de oportuni- rança Alimentar e Económica, que explicitou a sua missão, a participação de todos os organismos e forças de seguran- dades de desenvolvimento e progresso associado à inter- que protege os cidadãos e as empresas, todos os dias, ga- ça que integram aquele gabinete, pretendeu contribuir para net, mas que se faz acompanhar de riscos, nem sempre rantindo melhores condições de segurança em muitos com- o esclarecimento público e para a divulgação de boas prá- fáceis de calcular e que colocam particularmente os jovens portamentos da vida quotidiana.
  11. 11. 29 DE MAIO DE 2009 REPORTAGEM 11 Evocação na rua da Crise Académica de 1969 Há 40 anos a crise académica de 1969 irradiou da Universidade de Coimbra à cidade e ao país. Agora vol- tou à rua, numa arrojada mostra por locais onde o con- fronto com o regime estive mais aceso. Até ao final do corrente ano grandes painéis, com fotografias de figuras humanas em escala real recordam aquele momento da história estudantil e de Portugal em 18 pontos da cidade, trazendo-o à memória de alguns, ou dado notícias daquele tempo a outros. “Quisemos estender esta exposição até ao final do ano com o objectivo de ficar aqui uma marca histórica. Passar a palavra para a sociedade civil, para os turistas, da importância que este momento teve nas lutas estu- dantis, e no futuro do nosso país, para que isso não seja efectivamente esquecido”, explicou à agência Lusa o presidente da Associação Académica de Coimbra (AAC), Jorge Serrote. Cada local apresenta um painel informativo sobre os acontecimentos mais marcantes que ali se desenrolaram, em português e inglês, não descurando os turistas que ele- gem a universidade como um pólo incontornável da visita. “A Crise saiu à rua – Um olhar sobre a Academia de Coimbra em 1969” é uma mostra organizada pela Associ- ação Académica de Coimbra (AAC) em colaboração com a empresa municipal Turismo de Coimbra, que procura evidenciar os principais momentos dessa luta estudantil. habitantes da cidade. Segundo Jorge Serrote, com esta exposição a geração actual de dirigentes pretendeu evidenciar o ideário que vem marcando a AAC ao longo das décadas, e transmitir a mensagem de que “infelizmente algumas causas ainda são actuais”, como é o caso do Regime Jurídico das Institui- ções de Ensino Superior (RJIES), que representa “um re- trocesso de 40 anos” em termos de autonomia dos estabe- lecimentos e da participação estudantil “Queremos honrar esta centenária instituição, continu- ar a lutar, a transmitir os seus valores no nosso dia-a-dia, apesar de algumas causas serem diferentes, embora ou- tras sejam idênticas, infelizmente. A força, e a garra, para defender os estudantes, é que continua a ser a mesma”, concluiu. (Fotos de Paulo Abrantes) O objectivo é recriar todo o ambiente vivido na Aca- Sala 17 de Abril, até ao Largo da Portagem, passando demia, mas também na cidade, com recurso a figuras e pela Praça da República, a antiga sede da PIDE/DGS, fotografias da época à escala humana e diversos ele- o edifício da Associação Académica de Coimbra, a mentos sonoros e visuais com uma forte carga drama- Avenida Sá da Bandeira e a Baixa. túrgica. Na antiga sede da PIDE, onde actualmente funcio- “O que quisemos foi, não só dar uma noção dos mo- na um centro de saúde, podem-se ouvir os sons do mentos marcantes, na universidade, e nos espaços físi- interrogatório e dos gemidos de um estudante a ser cos da universidade, mas também na cidade, por onde torturado. foram acontecendo episódios marcantes”, explicou o di- Nas Escadas Monumentais, um antigo jipe das for- rigente estudantil. ças policiais, e imagens de agentes da autoridade a É precisamente no Pátio da Universidade que se en- cavalo dominam o núcleo expositivo, onde a fotos de contra o centro interpretativo do movimento mais mar- grupos de estudantes, com faixas com reivindicações, cante da academia coimbrã. Nele se dá a conhecer a impõem a sua força. Crise Académica e a sua contextualização política, des- Nas escadas do Quebra-Costas, na descida da de a fundação da AAC, em 1888, até ao 25 de Abril de Alta Universitária, para a Baixa, também os agen- 1974. tes a cavalo se impõem por entre magotes de tu- Os restantes 17 núcleos expositivos encontram-se im- ristas que diariamente as percorrem. Na Baixa não plantados nos espaços onde mais se fez sentir o movi- foi esquecido um expositor horizontal em forma de mento estudantil, desde a Via Latina, Largo D. Dinis e a flor, alusivo à “Operação Flor”, de mobilização dos

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