Successfully reported this slideshow.
We use your LinkedIn profile and activity data to personalize ads and to show you more relevant ads. You can change your ad preferences anytime.

História de Sharifa

71 views

Published on

Zarghuna Kargar, jornalista afegã refugiada em Londres, produziu e apresentou o programa “Afghan Woman’s Hour” da BBC. Este projeto bem-sucedido tinha como objetivo apoiar, consciencializar e educar milhões de mulheres e homens em todo o Afeganistão.
Durante os anos em que o “Afghan Woman’s Hour” esteve no ar, debateram-se assuntos difíceis, muitas vezes tabu e foi emitido o relato de centenas de mulheres afegãs ansiosas por partilhar a sua história de vida. O livro Mulheres Afegãs – Histórias por detrás da Burka surgiu da compilação destes testemunhos verdadeiros com o objetivo de dar a conhecer uma realidade assustadora de opressão e tortura em que vivem muitas mulheres afegãs.
A “História de Sharifa” é um dos treze relatos incluídos no livro.

Published in: Education
  • DOWNLOAD THAT BOOKS INTO AVAILABLE FORMAT (2019 Update) ......................................................................................................................... ......................................................................................................................... Download Full PDF EBOOK here { https://urlzs.com/UABbn } ......................................................................................................................... Download Full EPUB Ebook here { https://urlzs.com/UABbn } ......................................................................................................................... Download Full doc Ebook here { https://urlzs.com/UABbn } ......................................................................................................................... Download PDF EBOOK here { https://urlzs.com/UABbn } ......................................................................................................................... Download EPUB Ebook here { https://urlzs.com/UABbn } ......................................................................................................................... Download doc Ebook here { https://urlzs.com/UABbn } ......................................................................................................................... ......................................................................................................................... ................................................................................................................................... eBook is an electronic version of a traditional print book that can be read by using a personal computer or by using an eBook reader. (An eBook reader can be a software application for use on a computer such as Microsoft's free Reader application, or a book-sized computer that is used solely as a reading device such as Nuvomedia's Rocket eBook.) Users can purchase an eBook on diskette or CD, but the most popular method of getting an eBook is to purchase a downloadable file of the eBook (or other reading material) from a Web site (such as Barnes and Noble) to be read from the user's computer or reading device. Generally, an eBook can be downloaded in five minutes or less ......................................................................................................................... .............. Browse by Genre Available eBooks .............................................................................................................................. Art, Biography, Business, Chick Lit, Children's, Christian, Classics, Comics, Contemporary, Cookbooks, Manga, Memoir, Music, Mystery, Non Fiction, Paranormal, Philosophy, Poetry, Psychology, Religion, Romance, Science, Science Fiction, Self Help, Suspense, Spirituality, Sports, Thriller, Travel, Young Adult, Crime, Ebooks, Fantasy, Fiction, Graphic Novels, Historical Fiction, History, Horror, Humor And Comedy, ......................................................................................................................... ......................................................................................................................... .....BEST SELLER FOR EBOOK RECOMMEND............................................................. ......................................................................................................................... Blowout: Corrupted Democracy, Rogue State Russia, and the Richest, Most Destructive Industry on Earth,-- The Ride of a Lifetime: Lessons Learned from 15 Years as CEO of the Walt Disney Company,-- Call Sign Chaos: Learning to Lead,-- StrengthsFinder 2.0,-- Stillness Is the Key,-- She Said: Breaking the Sexual Harassment Story That Helped Ignite a Movement,-- Atomic Habits: An Easy & Proven Way to Build Good Habits & Break Bad Ones,-- Everything Is Figureoutable,-- What It Takes: Lessons in the Pursuit of Excellence,-- Rich Dad Poor Dad: What the Rich Teach Their Kids About Money That the Poor and Middle Class Do Not!,-- The Total Money Makeover: Classic Edition: A Proven Plan for Financial Fitness,-- Shut Up and Listen!: Hard Business Truths that Will Help You Succeed, ......................................................................................................................... .........................................................................................................................
       Reply 
    Are you sure you want to  Yes  No
    Your message goes here
  • Be the first to like this

História de Sharifa

  1. 1.  História de Sharifa  Introdução arghuna Kargar, jornalista afegã refugiada em Londres, produziu e apresentou o programa “Afghan Woman’s Hour” da BBC. Este projeto bem-sucedido tinha como objetivo apoiar, consciencializar e educar milhões de mulheres e homens em todo o Afeganistão. Durante os anos em que o “Afghan Woman’s Hour” esteve no ar, debateram-se assuntos difíceis, muitas vezes tabu e foi emitido o relato de centenas de mulheres afegãs ansiosas por partilhar a sua história de vida. O livro Mulheres Afegãs – Histórias por detrás da Burka surgiu da compilação destes testemunhos verdadeiros com o objetivo de dar a conhecer uma realidade assustadora de opressão e tortura em que vivem muitas mulheres afegãs. A “História de Sharifa” é um dos treze relatos incluídos no livro. Z
  2. 2. u e Sharifa éramos colegas de turma em 1998, na Universidade para Refugiados Afegãos em Peshawar, e, na altura, vivíamos num bairro populoso habitado principalmente por refugiados afegãos que tinham escapado à ocupação do Afeganistão pelos talibãs. Ela era a mais velha de seis filhas, nascidas com intervalos de apenas um ano. Sharifa era uma rapariga cheia de vida, divertida, adorava brincar e pregar partidas, e era popular junto dos colegas e dos professores. Era baixa com grandes olhos verdes, e recordo-me de ela usar um hijab azul- escuro demasiado grande que a cobria completamente. Encontrava-me com Sharifa todos os dias numa paragem de autocarro, na movimentada Arbab Road. Apreciávamos a viagem diária para a universidade e conversávamoscom o motorista e uma com a outra E
  3. 3. sobre o nosso futuro. Contudo, havia dias em que ela não falava com ninguém, nem mesmo comigo, a sua melhor amiga. No princípio, pensei que era má criação e sentia-me ofendida. Depois, se lhe perguntasse se havia algum problema, ela garantia-me que não, antes de desviar o rosto, absorta em pensamentos. Uma manhã, cheguei à paragem do autocarro e encontrei-a num dos seus estados de espírito silenciosos. Decidi nessa altura tirar a limpo o que se passava com ela. Quando a questionei, ela respondeu: — Antes de me casar, quero fazer um exame médico para descobrir se posso ter um filho. Se não puder, não me caso. Nenhuma de nós sabia na altura como o sexo de um bebé era determinado, e, por isso, aconselhei-a a casar-se primeiro e a preocupar-se com o sexo dos filhos mais tarde. Mas ela continuava maldisposta. Dizia que queria fazer o futuro marido feliz e acreditava plenamente que isso só aconteceria se tivesse dez filhos. Eu e as outras raparigas troçávamos dela por estar tão desesperada para arranjar marido e ela zangava-se connosco, mas não ripostava. Ficava simplesmente calada e refugiava-se nos seus pensamentos, embora nós continuássemos a gozar. Um dia, percebemos que tínhamos ido longe de mais e que Sharifa andava extremamente angustiada. Quando tentámos dizer-lhe que estávamos a brincar, ela respondeu:
  4. 4. — Sim, eu sei que só estão a brincar, mas aborrece-me. Não compreendem…a minha mãe deu à luz sete filhas e, se o meu pai morrer, não temos ninguém para olhar por nós. A minha mãe não pode ter um rapaz; não é suficientemente forte. Eu conhecia os pais de Sharifa e fiquei perturbada com as palavras dela. — Sharifa — disse eu —, tu tens seis irmãs e isso quer dizer que és forte. Tens também uma mãe e um pai estupendos, não tens nada com que te preocupar. ♦♦♦♦ Um dia, fui encontrar Sharifa lavada em lágrimas, e percebi que estava a chorar por causa da sua situação em casa. Considerava-me muito mais afortunada do que ela, pois tinha pelo menos um irmão e ele representava segurança. Incitei-a a não pensar em termos tão negativos: — Tens uma família numerosa e, quando tu e as tuas irmãs se casarem, terão irmãos e a tua mãe vai ter filhos. — Nunca hás de compreender, porque tens um irmão. É sobretudo com os meus pais que me aflijo. Porque sou a filha mais velha, tenho visto a minha mãe chorar sempre que dá à luz e descobre que é outra rapariga. Sempre que isso acontece, o meu pai não lhe fala
  5. 5. durante meses e a vida em casa torna-se um inferno. Até os meus avós ignoram a minha mãe. É verdadeiramente terrível ver o que acontece a uma mulher quando é incompleta. — Sharifa, claro que a tua mãe é completa! Quem diz que não é? Eu conheço-a. É uma mulher nova, bela e bondosa… — Que é que tu sabes? — contrapôs ela, exasperada. — Não é completa porque não deu à luz um filho. É tão simples como isso. Baixou a voz e confessou: — Às vezes, até eu me zango com ela. Se ela tivesse um rapaz, podíamos finalmente ter uma vida feliz. — Sharifa — respondi — a felicidade não se mede assim. Mede-se pelo que as pessoas já têm. Lembro-me que estávamos sentadas a um canto do terreno da nossa faculdade, à sombra de uma pequena árvore. Sentávamo-nos ali muitas vezes a conversar. Limpei as lágrimas do rosto de Sharifa com o meu lenço, e tentei fazer-lhe ver que não era culpa de ninguém, se ela não tinha um irmão e a mãe um filho. Estas coisas estavam nas mãos de
  6. 6. Deus e não adiantava nada afligir-se com isso, porque a vida tem de continuar. Mas ela insistia que era pessoalmente culpada da situação. — A minha avó diz que a culpa é minha. Eu fui a primogénita e, por isso, as outras raparigas vieram a seguir. Trouxe má sorte à família. Desejava desesperadamente ajudar a minha amiga, mas a campainha tocou e tivemos de ir para a aula. Sharifa enxugou os olhos e ajeitou o hijab, enquanto eu sacudia o pó das calças. Porém, esta não me saía do pensamento e eu rezava para que a mãe tivesse um filho. ♦♦♦♦ Passaram semanas e o ano escolar terminou para dar lugar às férias. Um mês mais tarde, começou o novo trimestre e voltei a estar com Sharifa. Abraçámo-nos e encontrámo-nos no intervalo, à sombra da nossa árvore habitual. Estava morta por ouvir as novidades dela; queria saber que roupas ela tinha feito, que brincos tinha comprado e onde tinha ido durante as férias. — Estou muito feliz! Acho que a nossa vida vai finalmente mudar para melhor. A minha mãe está novamente grávida e desta vez esperamos que dê à luz um rapaz.
  7. 7. Prometi rezar pelo desfecho que desejavam, mas, de súbito, ela tornou-se sombria. Baixou os olhos e depois levantou-os para mim, antes de murmurar: — Espero sinceramente que desta vez Deus seja bom para a minha mãe. Espero que ela tenha um rapaz porque, se não tiver, vai acontecer algo de terrível. Olhei para ela por alguns momentos antes de lhe perguntar o que queria dizer. — O meu pai está a planear voltar a casar-se e eu sou a moeda de troca — respondeu. Fiquei horrorizada. — Não, não pode ser. Ele não pode fazer isso! Mas Sharifa disse simplesmente: — Acho que morro, se ele decidir fazer de mim moeda de troca para se casar com uma nova mulher. As palavras dela encheram-me de temor. Mesmo na nossa jovem idade, sabia que ela estava a considerar o suicídio. Tínhamos ouvido falar de raparigas que se tinham imolado para evitar casamentos combinados: era o último recurso para quem sentia que não tinha saída. Sharifa respirou fundo e continuou:
  8. 8. — Até já escolheu uma rapariga da minha idade. Em troca, o meu pai vai dar-me ao filho da outra família. — Não podes aceitar uma coisa dessas — disse eu, furiosa, tranquilizando-me com a ideia de que nada de definitivo fora decidido porque ainda faltavam meses para a gravidez da mãe dela chegar ao fim. E era perfeitamente possível que ela desse à luz um rapaz. Sharifa concordou e tentou animar-se. ♦♦♦♦ Alguns meses mais tarde, Sharifa e as irmãs andavam atarefadas a escolher nomes para o irmão por que tanto ansiavam e — como era costume entre os refugiados afegãos no Paquistão — eu e a minha mãe fomos visitar a família (era habitual as mães privarem com as mães das amigas das filhas). Quando chegámos, encontrámos a família de Sharifa numa grande excitação perante a expectativa da chegada de um menino e, tanto eu como a minha mãe rezámos para que, desta vez, Deus lhes desse um rapaz. Sentámo-nos numa pequena sala escura com colchões afegãos encostados às paredes e um tapete vermelho afegão tradicional no centro. Como o tempo estava demasiado quente para a estação, Sharifa serviu Rooh Afza, um sumo perfumado, famoso no Paquistão pela sua doçura. Enquanto bebíamos, apercebi-
  9. 9. me de que a mãe estava confiante e otimista, no seu avançado estado de gravidez, e fiquei satisfeita por ver a família tão feliz. Foi um dos dias mais agradáveis que passámos juntas. Duas semanas mais tarde, encontrei Sharifa na habitual paragem do autocarro. Assim que me viu, desatou a chorar. Olhei atentamente para ela e disse: — Tenta acalmar-te. Que se passa? Aconteceu alguma coisa à tua mãe? Nunca a tinha visto tão transtornada. Mal conseguia falar com a falta de ar. Por fim, disse numa voz embargada: — A minha vida está arruinada, a minha mãe está acabada, está tudo perdido. Imediatamente pensei que a mãe devia ter tido um aborto ou qualquer problema grave durante o parto. Voltei a perguntar-lhe calmamente o que tinha acontecido, mas Sharifa chorava copiosamente, e tornou-se claro, pelos seus olhos inchados e vermelhos, que já estava a chorar há muito tempo. — É outra rapariga! Perguntei-me em que tipo de sociedade estávamos nós a viver. Que sentido fazia uma bebé inocente trazer tanto sofrimento e dor a Sharifa e à sua família?
  10. 10. Só conseguia imaginar que a mãe de Sharifa estaria ainda mais angustiada do que a filha e esforcei-me por compreender como era possível que uma bebé adorável viesse ao mundo e não fosse desejada por ninguém. Estava a ser julgada pelo seu sexo, o que parecia amargamente injusto. Apesar das minhas tentativas para lhe dizer as palavras certas, Sharifa, acabei por soltar a primeira coisa que me veio à cabeça e que não a ajudava em nada. — Devias sentir-te feliz, Sharifa. Tens uma irmãzinha que vai trazer alegria e felicidade… — Não — gritou Sharifa. — Essa bebé apenas trouxe dor e mágoa e a vida da minha mãe é agora um inferno. O meu pai não fala com ela e ninguém a felicitou sequer por ter trazido ao mundo um bebé saudável A minha mãe recusa-se a amamentá-la e eu não posso sequer pegar nela ao colo. Baixou a voz e murmurou: — A minha família vai ficar marcada para sempre por causa disto e agora eu tenho de me casar com um estranho que o meu pai escolheu porque se vai casar com urna rapariga dessa família na esperança de trazer um filho à nossa.
  11. 11. — Porque é que não fazes ver ao teu pai como estás transtornada e lhe pedes para não te obrigar a uma coisa dessas? Percebi imediatamente que isso era impossível. Na nossa cultura, os pais não dão atenção ao que as filhas dizem e, quando tomam uma decisão sobre o casamento de uma delas, é definitiva. Não só sabia que Sharifa não tinha alternativa senão aceitar a decisão do pai, como também que a mãe teria de viver com a nova mulher do pai, uma rapariga com metade da idade dela. A prática normal era um homem pagar uma quantia por uma mulher à família dela, mas o pai de Sharifa não tinha dinheiro suficiente para comprar urna noiva e, assim, tinha de oferecer uma das filhas. Com este acordo, matava dois coelhos de uma só cajadada: casava uma filha e obtinha uma jovem noiva que lhe daria um filho. Depois de conversarmos durante algum tempo, Sharifa começou a acalmar-se; bebemos mais chá e depois acompanhei-a a casa. Eu conhecia bem as consequências de não ter um filho numa família afegã; há muitas gerações que as mães sem filhos varões e as irmãs sem irmãos sofrem. Enquanto o pai e chefe de família estiver vivo e de boa saúde, é uma figura poderosa e a mulher e as filhas estão em segurança, mas quando ele morre, as mulheres tornam-se propriedade dos restantes homens da família.
  12. 12. É uma prática comum no Afeganistão uma rapariga ser trocada por uma mulher para o irmão ou, em certos casos, como o de Sharifa, por uma segunda mulher para o pai. É rigorosamente ilegal dar uma rapariga para resolver uma disputa entre famílias ou obrigá- la a casar, mas isso não impede que tal aconteça. É uma ocorrência comum, porque os assuntos domésticos são normalmente resolvidos no seio da família e, como as jovens não estão autorizadas a ir a tribunal ou a procurar aconselhamento legal, acabam por ficar totalmente dependentes das suas famílias. Independentemente da ilegalidade, a maioria das mulheres obedece simplesmente à família e considera que o que acontece na sua vida é vontade de Deus. Estas jovens noivas são, geralmente, pouco instruídas, e, por conseguinte, desconhecem os seus direitos legais; embora a maior parte dos homens conheça a lei, pura e simplesmente ignora-a, pois considera que ela não deve interferir em assuntos familiares. Alguns meses mais tarde, Sharifa deixou de aparecer na escola e eu comecei a preocupar-me. Como ninguém parecia saber o que se passava com ela e a família, decidi descobrir e um dia resolvi ir a casa dela. A caminhada era de uma boa meia hora desde minha casa e, quando cheguei, sentia-me afogueada e cansada. Bati à velha porta de madeira e esperei; reparei então que estava entreaberta. Ao tentar espreitar, a irmã mais nova abriu a porta e convidou-me a entrar. Quando cheguei ao jardim, reparei que havia
  13. 13. montes de tijolos de adobe e tábuas de madeira por todo o lado; ao que parecia, estavam em curso obras de construção. Sharifa apareceu a receber-me. Não a via há várias semanas. Emagrecera e estava mais pálida e, ao abraçá-la e beijá-la, como era hábito, reparei que os seus lábios estavam secos. Tive a certeza de que acontecera algo de terrível. — Salam, Sharifa. Que se passa? Onde tens andado? Porque é que tens faltado às aulas? Bombardeei-a com perguntas, mas ela não respondeu a nenhuma; depois começou a chorar. Pediu-me para a acompanhar ao quarto e começou a falar-me das obras, mas eu interrompi-a. — Estão a construir uma casa nova ou coisa parecida? — O meu pai precisa de um quarto novo — disse. Compreendi imediatamente o que ela queria dizer. O pai de Sharifa precisava de um quarto separado do resto da casa para a sua nova noiva. No interior da casa reinava um silêncio absoluto, como se alguém tivesse morrido e a família estivesse de luto. Ninguém se ria ou sorria. Sharifa contou-me que a família decidira trocá-la pela noiva do pai, uma
  14. 14. rapariga que só tinha dezassete anos, a nossa idade. Em contrapartida, Sharifa ia casar-se com um quarentão cuja mulher tinha morrido. Teria de cuidar dos filhos deste homem e, com isso, teria de renunciar a quaisquer sonhos que pudesse ter alimentado de se casar com um jovem atraente do seu agrado. A sua felicidade de era sacrificada para assegurar o futuro da família. ♦♦♦♦ Passaram dois meses em que não tive notícias da minha amiga. Ela não estava autorizada a sair de casa e eu andava ocupada com as aulas e as lides domésticas. Por vezes, interrogava-me sobre o que lhe teria acontecido, mas aceitara, pouco a pouco, que ela estava fadada para se casar com um homem mais velho e salvaguardar o futuro da família. Uma tarde, depois das aulas, quando me apeei do autocarro, vi uma das irmãs mais novas de Sharifa na rua. Estava a comprar medicamentos na farmácia. Abordei-a e perguntei-lhe como estava Sharifa. Disse que a irmã fora obrigada a casar-se antes de o pai levar a nova noiva para casa porque o marido precisava de ajuda para cuidar dos cinco filhos e ela era agora a madrasta deles, apesar de alguns serem quase da idade dela. — Mas onde é que ela está agora? — perguntei. — Está aqui, em Peshawar? Os olhos da irmã encheram-se de lágrimas.
  15. 15. — Sim, está em Peshawar, mas vive fora da cidade, numa aldeia remota. A casa do marido fica bastante longe e ela não está autorizada a visitar-nos com frequência. A irmã de Sharifa rompeu em lágrimas. — É raro vermos a nossa irmã. Ela está muito ocupada a olhar pelo marido e pelos cinco filhos dele. Procurei imaginar que idade teriam os enteados, pois a própria Sharifa pouco mais era do que uma criança, e perguntei: — E o teu pai? Levou para casa a nova noiva? A irmã abanou a cabeça e eu perguntei porque não. — O meu pai está gravemente doente. Adoeceu na semana antes de levar a noiva para casa e foi parar ao hospital. Agora vou-lhe levar estes comprimidos que o médico receitou. Mais uma vez, a vida atribulada de Sharifa começou a ocupar os meus pensamentos. Expliquei à minha mãe o que se passara e ela sugeriu imediatamente que visitássemos a mãe de Sharifa para saber novidades. No dia seguinte, eu e a minha mãe fomos à casa da família. Quando empurrei a velha porta de madeira, vi o jardim cheio de pessoas e presumi que estavam a celebrar o casamento do pai da minha amiga. Talvez ele sempre tivesse ido
  16. 16. avante. Mas depois reparei que as pessoas estavam com um ar sério e que não reinava o ambiente alegre de um casamento. Um grupo de homens afastou-se para o lado para nos deixar entrar em casa. E foi então que ouvi choros. Entrámos numa sala e encontrámos a mãe de Sharifa lavada em lágrimas. Estava sentada no chão, com o lenço da cabeça amarfanhado ao seu lado. As filhas, sentadas à sua volta, também choravam, mas Sharifa não estava entre elas. Aproximei-me da mãe e baixei-me para beijá-la. Ela abraçou-me com força e senti que pensava que, sendo eu amiga da filha, lhe estava de algum modo ligada. — Minha filha, o sacríficio de Sharifa não nos trouxe nenhuma felicidade. O que estava a acontecer ali não era um casamento. Era um funeral. O pai de Sharifa morrera ao princípio do dia, antes de trazer a nova noiva para casa e assegurar um filho para a família. A mãe começou a gemer e a bater na cara. — Oh, meu Deus, que vai ser de nós? Perdi duas partes do meu coração: a minha filha e o meu marido. Que vai ser de mim e das minhas filhas? Baloiçava-se para trás e para a frente, chamando pelo nome de Sharifa.
  17. 17. — Sharifa, minha filha, anda ver. O teu sacrifício não trouxe nenhum filho. Porque tiveste de me deixar? Porquê? Agora, em teu lugar, a nova noiva do teu pai tem de vir para cá e sofrer connosco. ♦♦♦♦ Nunca mais voltei a ver Sharifa. Deixei de ir a casa dela e tive dificuldade em aceitar que a minha amiga tivesse desistido dos estudos e fosse casada com um homem mais velho e mãe dos filhos de outra mulher. Mas a sua história e as recordações da nossa amizade acompanham-me até hoje. Zarghuna Kargar

×