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LÁPIDE 2                                                                      (A noite com os seus sortilégios.)
epitáfio ...
brincadeira de Leminski envolvendo as duas línguas é “chose” (coisa em                                 é a minha
Francês),...
O Francês pode ser visto ainda nos títulos de VOYAGE AU BOUT
DE LA NUIT (p. 65) e quase todo o poema abaixo:              ...
a palavra “fenestra”                                                       alguma. Se dizemos ter comunhão com ele, mas an...
ora se volta ao alto, ora se volta pra dentro de si. Poderíamos aproximar,       (waltz, em Inglês) que ali aparece, ocupa...
— que tudo se foda,                                                             militar, no final da década de 1960. Em sí...
que ex                                                                                              02. A respeito do livr...
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  1. 1. A FESTA DAS PALAVRAS NA OBRA DE LEMINSKI: UMA Redação), redator de publicidade, colaborador de jornais e revistas (entre eles, Folha de S. Paulo e Veja) e compositor de MPB. Compôs 10 canções LEITURA DE LA VIE EM CLOSE sozinho, fazendo letra e música, e em quase 50 atuou apenas como letrista, ao lado de nomes como Moraes Moreira, Itamar Assumpção, José Miguel Análise de JOSÉ RICARDO LIMA1 Wisnik e Arnaldo Antunes. Leminski foi sempre um estudioso, em especial da cultura japonesa, 1. BREVES DADOS BIOGRÁFICOS que também participa do rol de suas influências. Participou ativamente do cenário cultural brasileiro das décadas de 70 e 80 do século passado. Para os que trilham os primeiros passos da análise literária, uma das Faleceu na cidade onde veio ao mundo, no dia 7 de junho de 1989, vítima de possíveis formas de se “definir” determinado autor é atribuindo-lhe rótu- cirrose hepática. los. Assim, Castro Alves se torna o “poeta dos escravos”, Cruz e Sousa o La vie en close foi publicado postumamente, no ano de 1991. “poeta negro”, Alphonsus de Guimaraens o “solitário de Mariana”. A estilís- tica até estuda esse fenômeno e o denomina de antonomásia. Isto também acontece com Paulo Leminski, autor de La vie en close2 . Chamam-no de “o 2. PRINCIPAIS OBRAS kamiquase”, “o bandido que sabia latim”, “usina de linguagem”, “labirinto sem limites”, “samurai malandro”, “parnasiano-chic”, “caboclo-monge- POESIA black-beat-zen”, “falso fácil”, “o anarquiteto das desengenharias”. Tudo Polonaises (1980), Caprichos e relaxos (1983), Distraídos venceremos bem que nem sempre esses epítetos são tão elucidativos como deveriam, (1987), La vie en close. (1991), O ex-estranho (1996). mas mesmo assim, podemos já por eles antever a riqueza e a complexidade da obra do poeta. Com o tempo, lendo essas páginas, ::Você:: vai entender PROSA melhor algumas dessas expressões. Catatau (prosa experimental) (1975), Agora é que são elas (romance) Paulo Leminski nasceu em Curitiba, capital paranaense, em 24 de a- (1984), Descartes com lentes (conto) (1995), Gozo Fabuloso (contos) gosto de 1944. Era um mestiço com mãe negra (Áurea Mendes Leminski) e (2004). pai de origem polaca (Paulo Leminski, assim como o filho). O poeta passou a maior parte da vida em sua cidade natal e achava interessante o fato da- BIOGRAFIAS quele lugar ter gente que vinha de todos os cantos do mundo. Cresceu Matsuô Bashô (1983), Jesus (1984), Cruz e Souza (1985), Trotski: a paixão ouvindo palavras em alemão, polonês, hebraico, italiano, árabe e japonês e, segundo a revolução (1986). com certeza, o contato com essas culturas enriqueceu sua poética. Do pai, Leminski não herdou apenas o nome, mas também o gosto pe- TRADUÇÕES los livros. O primeiro que leu foi o complexo Os sertões, do pré- Pergunte ao pó (FANTE, John. 1984), Giacomo Joyce (JOYCE, James. 1985), modernista Euclides da Cunha. Viveu dos 12 aos 14 anos em São Paulo, no Um atrapalho no trabalho (LENNON, John. 1985), Sol e aço (MISHIMA, Yukio. Mosteiro de São Bento e ali, mesmo tão jovem, escreveu o que os críticos 1985), Satyricon (PETRONIO. 1985). consideram sua primeira “obra”: um caderno onde figuravam as biografias dos principais santos da Ordem dos Beneditinos. Ali aprendeu também LITERATURA INFANTO-JUVENIL canto gregoriano, que considerava sua única formação musical. (MARQUES, Guerra dentro da gente (1986), A lua foi ao cinema (1989). 2007: 18). Com 20 anos, publica alguns poemas na revista do movimento concre- tista Invenção, e aos 24 casa-se com a também poeta Alice Ruiz, com quem 3. ENQUADRAMENTO ESTILÍSTICO Leminski teve três filhos (Miguel Ângelo, falecido aos 10 anos de idade, Áurea Alice e Estrela”. Foi professor de cursinho pré-vestibular (História e Algumas pessoas se perguntam, ao estudarem a história da literatura, qual é a “escola” literária que estamos vivendo nesse início de milênio. Uns 1 Graduado em Letras pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), onde já atuou como pensam que ainda estamos no Modernismo, outros pensam que ele já aca- professor substituto através do ILEEL – Instituto de Letras e Lingüística, e professor da rede bou e há também aqueles que não pensam nada, pois não entendem bem privada de ensino de Uberlândia e região desde 2001. essas divisões e subdivisões. Por mais problemática que seja a periodiza- 2 LEMINSKI, Paulo. La vie en close. São Paulo: Brasiliense. 5ª ed., 1994. Todas as citações seguem esta edição. Por isso, quando em indicação bibliográfica, apenas os números das ção, pivô de uma verdadeira celeuma entre os literatos, vezes ou outras páginas serão informados entre parênteses. recorremos a ela e até inventarem algo melhor, esta será sempre uma referência possível para estudarmos a arte da palavra. www.literaturaeshow.com.br ©todos os direitos reservados LITERATURA 1
  2. 2. Atentos para as constantes mudanças no contexto artístico, os histo- Matsuô Bashô nasceu em meados do século XVII, mais exatamen- riadores preferem denominar os períodos uns trinta ou quarenta anos te em 1644, provavelmente nas proximidades de Ueno, cidade da província depois da época em que os textos foram escritos. Assim, apurado o caldo de Iga, no Japão. Aos 9 anos, conheceu seu grande mestre, Todo Yoshitada, literário, pode-se diferenciar melhor o que era estilo individual (típico de também menino, de quem Bashô era acompanhante. O elo mais forte entre cada autor) daquilo que é realmente o estilo de uma época, e ainda, definir os dois era justamente a criação de haicais, que já na época eram o passa- a média literária e separá-la daqueles que servirão como ícones para os tempo preferido de alguns homens da sociedade nipônica. Na juventude, altares acadêmicos. Assim, as últimas manifestações “canonizadas” em Bashô tornou-se samurai, mas abandonou seu oficio de guerreiro em 1666 nossa literatura foram os movimentos vanguardistas das décadas de 1950 para dedicar-se exclusivamente à poesia. A amizade entre Bashô e Yoshita- e 1960 (Concretismo, Neoconcretismo, Poesia Práxis, Poema Processo) e a da durou até o ano 1669, quando o último morreu, aos 25 anos. Bashô viveu chamada Poesia Marginal dos anos 70 do século XX. Alguns autores até duas vezes mais que seu amigo, morrendo em 1694. fizeram investidas na produção dos anos 80, mas até agora, nada de subs- O haicai (também chamado de haiku, hokku e haikai) consiste tancial foi escrito em termos de historiografia. Muitos estudiosos preferem numa modalidade do gênero lírico se caracteriza pela concisão e a objetivi- chamar as produções pós-1964 de “Tendências contemporâneas” e neste dade, tão peculiares ao povo nipônico. Foi popularizado no Brasil pelo prín- ambiente democrático, dão lugar a tudo e a todos. De uns tempos pra cá, cipe dos poetas, Guilherme de Almeida (1890 - 1969), que inclusive definiu começou-se utilizar também um termo escorregadio pra designar as pro- sua forma fixa em Português (três versos com cinco, sete e cinco sílabas, duções de nosso tempo: a pós-modernidade. respectivamente, num total de dezessete), já que em seu início, os textos Ainda existe muito a se falar sobre esse conceito, que como todos os eram escritos com a utilização dos ideogramas japoneses. Segundo MOISÉS outros, é superficial. Sabe-se que a expressão nasceu nos Estados Unidos, (2004), o haicai deve concentrar em reduzido espaço um pensamento dentro da sociologia, e ganhou força, se espalhando por todo o mundo. A poético e/ou filosófico, geralmente inspirado nas mudanças que o ciclo das professora Leyla Perrone-Moisés afirma que a definição da pós- estações provoca no mundo concreto. Apesar dessa definição, alguns modernidade oscila, de autor a autor, entre o estabelecimento de uma haicaístas modernos têm ampliado a temática dessa modalidade lírica, nem periodização histórica, uma descrição de traços de estilo, ou uma enume- sempre utilizando a “palavra de estação” — em japonês, o termo que reme- ração de posturas filosóficas e existenciais. Além disso, os teóricos identi- te às épocas do ano se chama Kigo (ki = estação, go = palavra) —, mas na ficam freqüentemente modernidade social com modernidade artística, maioria das vezes vinculados a um ambiente campesino. Além disso, o estabelecendo uma relação direta e especular que nem sempre existiu. O esquema 7-5-7, ocasionalmente, é substituído por versos de outros tama- que mais tem sido discutido, no pós-moderno, é o prefixo pós. Vista histori- nhos, embora a estrutura em terceto quase sempre se mantenha. camente, a pós-modernidade, como parece indicar a partícula pós, seria o Para enriquecer nossa definição, colocamos a seguir as palavras movimento estético que veio depois da modernidade e a ela se opõe. Come- da professora, escritora e crítica literária Nelly Novaes Coelho. Ela afirma çam aí as contradições e dificuldades conceituais. Como uma das posturas que “o fundamento filosófico do haiku é o preceito budista de que tudo filosóficas pós-modernas consiste em negar o tempo sucessivo, progressi- neste mundo é transitório e que o importante é sabermo-nos feitos de vo e teológico, […] essa concepção histórica e dialética dos movimentos mudanças contínuas como a natureza e as estações (primavera, verão, estéticos não deveria ser assumida pelos pensadores pós-modernos. outono e inverno)”. Atesta ainda que “em sua divulgação pelo Ocidente, o (PERRONE-MOISÉS, 1998: 179-180). haiku conservou a estrutura formal de origem, mas perdeu sua ligação com Se o conceito de pós-modernidade é problemático, uma coisa é certa: a tradição cultural japonesa, representada pelo Kigo; e assim transformou- o homem pós-moderno é alguém sozinho, cindido, rachado em incontáveis se em forma poética condensada, gerada por uma sensação provocada por pedaços, multifacetado, inserido num processo amplo de mudança, que uma funda percepção sensorial. Embora não esteja ligado necessariamente está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades mo- ao Kigo (a um fenômeno sazonal), o haicai ocidental, via de regra, parte de dernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma uma percepção muito concreta (visual, táctil, auditiva, térmica...) que fun- ancoragem estável no mundo social. (HALL, 2002: 7). ciona como disparadora de sensações (associações, sentimentos, dados da O poeta Paulo Leminski, autor de La vie en close, exemplifica a postu- memória, analogias...)”. (COELHO, Internet). ra deste homem pós-moderno e ainda tem algo a acrescentar: a alma de Atualmente, alguns poetas brasileiros se dedicam a essa pérola poeta. Um poeta preocupado em conhecer, analisar, explicar, e reinventar da poesia nipônica. Dentre eles, podemos citar Millôr Fernandes, Alice Ruiz a linguagem. Um poeta formado por múltiplos pedaços: o oriental, o tropi- (com quem Leminski foi casado), Miguel Sanches Neto e Olga Savary. calista, o concretista, o marginal. E é através da amostragem desses cacos Talvez o haicai mais popular de Bashô seja este: de gente que nosso estudo analítico se pautará. 4. O ORIENTALISMO NIPÔNICO NA OBRA DE PAULO LEMINSKI Alicerçada sobre o pensamento greco-latino e hebraico-cristão, a cultura ocidental, desde o século XVIII, tenta olhar para o outro lado do mundo e entender os ventos das manifestações humanas que nos chegam lá do Oriente. Esses ventos entraram pela janela sempre aberta de Lemins- ki e fizeram com que o poeta curitibano descobrisse, entre outras riquezas, O texto foi escrito em 1686. Sua pronúncia aproximada em japo- a poesia de Matsuô Bashô e sua manifestação mais interessante: o haicai. nês é furú iquê iá / cauázu tobicômu / mizú no otô. Na tradução de Paulo www.literaturaeshow.com.br ©todos os direitos reservados LITERATURA 2
  3. 3. Franchetti e Elza Doi3, temos: “O velho tanque —/ Uma rã mergulha,/ Baru- vida. Em seguida, ocorre, dialeticamente, a síntese, que não é conseguida lho de água”. Existem outras várias versões para a nossa língua, feitas, sem atritos. Que atritos seriam esses? Talvez uma espécie de tensão que entre outros, por Haroldo de Campos e Décio Pignatari, dois ícones do emana do intertexto, tensão construída do encontro de incongruências (no Concretismo brasileiro. Em La vie en close, Paulo Leminski bebe nas águas poema, o salto do sapo suplementa o lance de dados, o acaso se oculta no do mesmo poço, e traz para a pós-modernidade os ecos da longínqua e tão velho poço)” (MARQUES, 2007). próxima poesia de Bashô. Vejamos a tradução de Leminski para o haicai do escritor japonês: MALLARMÉ-BASHÔ inaugura, em La vie en close, a série de hai- cais escrita por Leminski. Antes dele, porém, aparece KAWÁSU, que já um salto de sapo atesta a influência oriental: jamais abolirá o velho poço (p. 108) “Kawásu” é “sapo”, em japonês. Imagino ter relação original com “kawa”, “rio”. O batráquio é o animal Um fato curioso sobre a tradução do poema é que Leminski o in- totêmico do haikai, desde aquele titula de MALLARMÉ-BASHÔ, evocando a presença do poeta e crítico lite- memorável momento em que Mestre rário francês Stéphane Mallarmé (1842 – 1898), a quem fará outras refe- Bashô flagrou que, quando um sapo rências, diretas ou indiretas, no decorrer de todo o livro. A importância de “tobikômu” (“salta-entra”) no velho Mallarmé se deve, principalmente, por seu nome estar inscrito no rol dos tanque, o som da água. (p. 107) poetas que alicerçaram duas das chamadas “escolas” literárias que se originaram na França, no século XIX e se espalharam por todo o mundo, O texto contém, além da referência a Bashô, o fenômeno da me- inclusive no Brasil: o Parnasianismo e o Simbolismo. Mallarmé influencia talinguagem, também característico de Paulo Leminski. Por outras vezes sobremaneira a obra do poeta paranaense, principalmente em sua verve tantas, o poeta explicará, além do seu fazer poético, a língua-mãe com a concretista, da qual falaremos mais tarde. qual se expressa, e as línguas-irmãs, das quais comumente se apropria. A versão do haicai de Bashô une as duas metades do mundo, pois Aqui, o bandido que sabia latim mostra que sabe também japonês, como que no poema Un coup de dés, de Mallarmé, figura a Idéia (a inicial maiúscula ampliando o haicai do mestre nipônico e refletindo sobre ele. se justifica pela prática dos simbolistas de alegorizar as palavras através Segundo Anselmo Peres Alós, a imagem fugaz do sapo que “salta- da personificação) de que “um lance de dados jamais abolirá o acaso”. entra” no tanque de água é emblemática para traduzir a idéia de transitori- edade das coisas inerente à poesia haikai: em um primeiro momento, o Paulo Leminski modifica, portanto, as palavras do poeta francês, incluindo a temática e as palavras utilizadas pelo antigo samurai do século XVII. sapo estanque, presença material e viva da natureza; no momento seguinte, o som da água - único vestígio da presença do batráquio - a esvaecer tão Formalmente, Leminski não utiliza o metro proposto por Guilher- rapidamente quanto o salto inicial, denunciando a meta-física da presença me de Almeida, e assim justifica, no ensaio biográfico que faz sobre Bashô, sua versão do haicai: do signo sapo, tornado ausência, vestígio, mero traço do artifício retórico que tenta desesperadamente cristalizar com signos lingüísticos a grandeza "O velho tanque — o primeiro verso expressa, em geral, uma circunstância de uma imagem poética de poucos segundos. (ALÓS, Internet). eterna, absoluta, cósmica, não humana, normalmente, uma alusão à esta- Abaixo, colocamos outros haicais de La vie en close. Neles, po- ção do ano. demos notar a irreverência, o duplo sentido, a crítica ferina, a linguagem chula, algumas referências ao orientalismo, enfim, a riqueza da lira etílica O sapo salta — o segundo verso exprime a ocorrência do evento, o acaso de Leminski. da acontecência, a mudança, a variante, o acidente casual. Por isso, talvez, tenha duas sílabas a mais que os outros. essa estrada vai longe mas se for O som da água — a terceira linha do haicai representa o resultado da vai fazer muita falta (p. 118) interação entre a ordem imutável do cosmos e o evento. Resultado distinto da conclusão grega aristotélica. O terceiro verso de um haicai não é uma estrela cadente eu olho conclusão lógica: parte de uma obra de arte, é o membro de um poema." o céu partiu (LEMINSKI, 1983 Apud MARQUES, 2007: 36-7) para uma carreira solo (p. 121) É importante notar que Leminski não só justifica a tradução, mas velhas fotos também explica fundamentos da modalidade poética. O texto é, por assim velha e revelha dizer, uma amostra de uma das particularidades do poeta: a presença de uma flor de lótus (p. 130) um humor irônico e inteligente, “um humor desconstrutor que faz aconte- cer, a partir de um texto hibrido, a reunião de duas experiências em tudo longo o caminho até o céu distintas: Mallarmé é a onipresença da linguagem, Bashô é a onipotência da essa minha alma vagabunda com gosto de quarto de hotel (p. 131) 3 O texto em ideogramas e a tradução/recriação podem ser encontrados em [http://www.kakinet.com/caqui/umhaiku.shtml] www.literaturaeshow.com.br ©todos os direitos reservados LITERATURA 3
  4. 4. morreu o periquito e) no campo fonético: figuras de repetição sonora (aliterações, assonân- a gaiola vazia cias, rimas internas…); preferência dada às consoantes e aos grupos con- esconde um grito (p. 133) sonantais; jogos sonoros; f) no campo topográfico: abolição do verso, não-linearidade; uso construti- dia sem senso vo dos espaços brancos; ausência de sinais de pontuação; constelações; acendo o cigarro sintaxe gráfica” (BOSI, 1994:: 447). no incenso (p. 137) Em 1961, aos 17 anos, Paulo Leminski tem seu primeiro contato primavera de problemas com os papas do concretismo. Nas Cartas a Régis Bonvicino, publicadas a luz das flores grandes pela Editora Iluminuras em 1992, o próprio Leminski afirma: “a coisa con- assombra as flores pequenas (p. 146) creta está de tal forma incorporada à minha sensibilidade que costumo dizer que sou mais concreto do que eles [Pignatari e os irmãos Campos]: — que tudo se foda, eles não começaram concretos, eu comecei”. (LEMINSKI, 1992 Apud MAR- disse ela, QUES 2007: 51). Aliás, como já dissemos, os primeiros textos publicados e se fodeu toda (p. 160) pelo do poeta curitibano foram veiculados na revista de cunho concretista Invenção (1964 – 1966). acabou a farra Mais uma vez é fundamental evocar a figura de Stéphane Mallar- formigas mascam mé e seu Un coup de dés, obra que serviu de inspiração para os concre- restos da cigarra (p. 174) tistas, pois nela o poeta francês valorizava os espaços vazios do papel ressaltando o contraste entre o branco da folha e o negro da tinta. No livro, 5. A VERVE CONCRETISTA DE LEMINSKI o poeta ainda reinventava a linguagem, criando neologismos, utiliza tipos de tamanhos e formatos diferentes, tornando a leitura mais rica e dinâmica. A A poesia concreta aparece no cenário da literatura nacional no obra é, inclusive, citada no Manifesto Concretista de 1956: final dos anos 50 do século passado, quando Décio Pignatari e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, que haviam editado o primeiro número da - contra a organização sintática perspectivista, onde as palavras vêm revista Noigrandes, modificaram completamente sua orientação estética, sentar-se como "cadáveres em banquete", a poesia concreta opõe um novo definindo as bases do que chamaram de Concretismo. sentido de estrutura, capaz de, no momento histórico, captar, sem desgas- A principal contribuição desses poetas foi, com certeza, a eleva- te ou regressão, o cerne da experiência humana poetizável. ção da palavra à Palavra, com p maiúsculo, ou seja, a valorização extrema - mallarmé (un coup de dés - 1897), joyce (finnegans wake), pound (can- da célula máter da arte literária. Antes do Concretismo, a poética tradicio- tos-ideograma), cummings e, num segundo plano, apollinaire (calligram- nal, tão bombardeada pelo Modernismo, ainda insistia em viver com a mes) e as tentativas experimentais futuristasdadaistas estão na raiz do presença o verso. Rima, ritmo e métrica, já tinham desaparecido no olho novo procedimento poético, que tende a impor-se à organização convencio- ciclone tropical que foram a Semana de 22 e os seus desdobramentos, mas nal cuja unidade formal é o verso (livre inclusive). o verso se mantinha. A poesia concreta demoliu essa última coluna do - o poema concreto ou ideograma passa a ser um campo relacional de tradicionalismo e colocou definitivamente a Literatura na sua condição pós- funções. (MANIFESTO CONCRETISTA). moderna. Assim, a Palavra adquire um valor mais expressivo, os espaços em branco são levados em conta e a poesia se torna verbal, vocal e visual, As experiências de Leminski com o Concretismo são riquíssimas, ou nos dizeres dos concretistas, “verbivocovisual”. Dessa forma, temos na como se pode ver em: literatura o primado do significante, ou seja, a valorização dos elementos formais em detrimento dos aspectos conteudísticos. Em sua História Concisa da Literatura Brasileira, Alfredo Bosi nos fala sobre a elevação do significante: “Na medida em que o material significante assume o primeiro plano, verbal e visual, o poeta concreto inova em vários campos que se podem assim enumerar: a) no campo semântico: ideogramas (‘apelo à comunicação não-verbal’...); polissemia, trocadilho, nonsense [sem sentido, absurdo]...; b) no campo sintático: ilhamento ou atomização das partes do discurso; justaposição, redistribuição de elementos, ruptura com a sintaxe da propo- sição; c) no campo léxico: substantivos concretos, neologismos, tecnicismos, (p. 99) estrangeirismos, siglas, termos plurilíngües; …………………………………………………………………………………………………………. d) no campo morfológico: desintegração do sintagma nos seus morfemas; separação dos prefixos, dos radicais, dos sufixos; uso intensivo de certos morfemas; www.literaturaeshow.com.br ©todos os direitos reservados LITERATURA 4
  5. 5. neste mundo onde tudo é resolvido por email e o tempo parece nunca ser suficiente. No segundo texto, mais rico ainda, temos várias possibilidades de leitura e interpretação. O ludismo é claro e a brincadeira não se dá apenas em nossa língua, pois se pensarmos bem, Ist é a conjugação singular do verbo “ser” em alemão, no tempo presente. O ex, que pode ser lido junto com isto/ist, (formando existo e exist), se lido separadamente nos remete àquilo que já não mais é (ex-aluno, ex-namorada, etc.), ampliando ainda mais o humor suave e a nossa reflexão. O terceiro poema, que recebe o título de ANFÍBIOS, nos traz uma série de palavras que ora podem ser uma forma verbal conjugada na ter- ceira pessoa (singular) do Presente do Indicativo (ele pena, ele chama, ele sua, ele vela, ele vara, ele pára), ora podem ter outra classificação morfo- lógica — (os substantivos pena, chama, vela, vara, o pronome sua e a pre- posição para). Esse caráter de duplo sentido, com palavras que podem metaforicamente viver tanto na água quanto na terra, ou seja, anfíbios, contribui para a riqueza do poema e fazem parte do jogo lúdico proposto pelos concretistas. Interessante notarmos também que algumas estruturas frasais podem ser compreendidas quando associamos as palavras, como acontece no primeiro quadrilátero inferior: a dura dita (ditadura) chama a dura pena (numa referência ao contexto político da época, que dispensa maiores comentários). Podemos encontrar também uma lembrança da poesia marginal no terceiro retângulo inferior: a dita dura vela a dura vara. (p. 100) Dura vara evoca, obviamente, o órgão sexual masculino. Se continuarmos a brincadeira, descobriremos outras frases tantas. ANFÍBIOS Para finalizar este assunto, vejamos mais dois poemas concretos de La vie en close: a pena a chama a chama a traça a lança não espere mil agres chama vela traça vara vara neste meu acre ditar a pena a vela a parte a chama dito só porque disto chama a traça lança traça mil línguas deste lugar (p.104) a vela vela a chama a vara pena a pena parte vela a dura a vela a dita a pena a chama dita sua dura pára pena chama a chama vela para a pena vela a dura para dura a sua vara para chama (p. 103) Os dois primeiros textos aparecem no livro exatamente da forma que estão colocados aqui, com a caligrafia do próprio Paulo Leminski, como se fossem uma pintura, uma pichação de muro, algo que transcendesse a essência literária, indo se aliar à práxis tanto de que escreve quanto a de quem lê. O jogo sonoro entre as palavras é evidente, e não somente os (p. 105) sons, pois a consoante “muda” h, se repete, aparecendo, inclusive, em hontem, a forma arcaica se grafar a palavra ontem. O autor utiliza ainda a abreviatura p/ (para), tão comum em nossos momentos corriqueiros, www.literaturaeshow.com.br ©todos os direitos reservados LITERATURA 5
  6. 6. 6. A CRÍTICA AO MUNDO MODERNO onde encontro sempre espanto o mesmo sempre manso branco Desajustado no mundo, o homem moderno acaba muitas vezes quando penetro numa caverna (p. 51) refletindo sobre a desgraça de ser sempre um Ahasverus4, pobre e erran- te. Vítima de todas as benesses da vida atual a que chamamos progresso, o Em O EX-ESTRANHO, temos também esse sentimento de solidão indivíduo perde o seu lugar, tornando-se um ser humano sem pátria, sem a e a imagem amalgamada de Cupido — que lança suas flechas nos corações pátria maior que é a própria existência. Assim, o poeta, artista da palavra, humanos — e da constelação de Sagitário, representada no zodíaco, na qual ao se ver também neste desajuste, tenta resistir a tal situação esmagadora podemos ver também a presença das setas (indicações do caminho). Talvez e faz do seu canto uma arma para lutar. É dessa forma que surge, no cam- as setas que anseia encontrar esse eremita do verso: po da estética, a arte de denúncia da realidade, que foi bandeira para tan- tos escritores. Mesmo manifestando uma certa aversão à poesia engajada passageiro solitário (SILVA, Internet), Paulo Leminski também levanta esses questionamentos, o coração como alvo, sempre nos mostrando que a conseqüência maior desse deslocamento do sempre o mesmo, ora vário, homem moderno é a atitude que ele tem de se isolar. aponta a seta, sagitário, Num quase auto-exílio, o homem torna-se um eremita das gran- para o centro da galáxia (p. 79) des metrópoles, e esta figura simbólica é trazida pelo poeta em vários momentos. Chevalier e Gheerbrant nos lembram, em seu famoso Dicioná- A atitude contemplativo-reflexiva do eremita é trazida ainda pelo poema rio de Símbolos, que no tarô, o eremita é um velho sábio, um tanto curva- que se segue: do, apoiado em um bastão que simboliza, ao mesmo tempo, “sua longa peregrinação e sua arma contra a injustiça e o erro que encontra”. Ele tem podia passar ainda, na mão direita, à altura do rosto, uma lanterna se seis vidros, dos a vida inteira assim quais apenas três são visíveis. O Dicionário diz ainda que essa lanterna nos olhando a lua lembra a de Diógenes, “que buscava à luz do dia um homem em Atenas e só a boca cheia de luz encontrava imbecis”. (CHEVALIER E GHEERBRANT, 2003: 375). A descrição é e na cabeça nem sombra interessante e nos faz pensar justamente que esse eremita poderia ser, em da palavra glória (p. 89) muitas vezes, o próprio poeta que assim como o velho do baralho místico, procura com a lanterna da poesia outros seres que, como ele, detém a luz, Para terminarmos essa parte, mais um momento em que a solidão se faz e acaba por encontrar só as trevas daqueles que sempre dizem “sim”, sem presente nos versos de Leminski: questionar sua própria existência. Esta vida de eremita é, lá vai um homem sozinho às vezes, bem vazia. Às vezes, tem visita. o que ele pensa da noite Às vezes, apenas esfria. (p. 70) eu não sei apenas adivinho Mas o escancaramento do homem solitário não é a única forma encontrada pelo poeta para denunciar a realidade opressora dos tempos pensa o que pensa modernos. Ele também lança mão de outras imagens, como a da nuvem, que todo mundo indo quase sempre associada a um ambiente bucólico, aqui aparece num poema cosmopolita que fala sobre um dos maiores problemas da atualidade: a um dia violência. Leiamos juntos COMO ABATER UMA NUVEM A TIROS: eu já tive vizinho (p. 21) sirenes, bares em chamas, carros se chocando, Mas se falamos de um eremita dos grandes centros urbanos e o a noite me chama, identificamos com o poeta, as cavernas, tradicionais moradias dos ermi- a coisa escrita em sangue tões poderiam aqui ser sua arte. Por isso, em muitos momentos, o vate do nas paredes das danceterias século XX — e deste tempo em que vivemos — volta-se várias vezes para o e dos hospitais, seu próprio fazer poético, nesse processo que chamamos de metalingua- os poemas incompletos gem, fenômeno que analisaremos mais tarde. e o vermelho sempre verde dos sinais (p.17) página ó página casa materna A nuvem branca, que dentre outras coisas simboliza o sossego da 4 A lenda de Ahasverus, o judeu errante, remonta ao século IV. Dizem que Cristo, a caminho vida no campo, é abatida pelos tiros da violência, que pintam o poema de do Calvário, alquebrado pelo peso da cruz, pediu auxílio a ele, também carpinteiro. Ahasve- vermelho. O vermelho das sirenes e seus giroscópios, dos bares em chama, rus negou ajuda ao Messias e o despediu, dizendo “Vai! Vai andando!”. Jesus lhe respondeu: do sangue nas paredes das danceterias, das próprias danceterias que “Eu vou andando, e assim tu ficarás até a minha volta”. A partir daí, o judeu não mais deixou iluminadas com essa cor convidam seus freqüentadores às paixões, ao de caminhar, sempre estrangeiro em qualquer parte. O mito é explorado, entre outros, pelo poeta Castro Alves no livro Espumas flutuantes. vermelho dos hospitais (que são representados iconicamente por uma cruz www.literaturaeshow.com.br ©todos os direitos reservados LITERATURA 6
  7. 7. dessa cor) e dos sinais de trânsito que nos indicam o momento de parar. amarga mágua Mas existe no texto um verde, sempre de esperança, assim como também o pobre pranto tem existem os poemas incompletos, que talvez pudessem ser pintados nova- mente com o branco da nuvem abatida. por que cargas-d’água Mas Leminski ainda nos mostra um outro lado para a dor que chove tanto sente o homem-Ahasverus. Abaixo, temos um momento em que o poeta vê e você não vem? (p. 86) qualidades na dor que o humano carrega no peito. O texto foi, inclusive, musicado por Itamar Assumpção e interpretado pela cantora Zélia Duncan, Algumas marcas do humor inteligente não podem passar desa- em seu álbum Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band, de 2006. percebidas aos nossos olhos. A opção por “mágua” e não “mágoa” já tem sua graça, e ainda consegue aproximar a linguagem escrita da falada um homem com uma dor (máxima defendida pelos primeiros modernistas) e aperfeiçoa ainda mais a é muito mais elegante rima com “cargas-d’água” (máxima defendida pelos parnasianos, cultores caminha assim de lado do verso perfeito). E o humor se abraça ao lirismo, porque o final do poema como se chegando atrasado nos mostra um eu-poético melancólico, sofrendo arduamente. Magoado, andasse mais adiante cheio de pranto, em meio à chuva, e sem seu amor. O quadro que se pinta é extremamente romântico, não só no sentido daquele romantismo (com carrega o peso da dor “erre” minúsculo), mas também daquele outro, Romantismo, com “erre” como se portasse medalhas maiúsculo, já que a chuva, assim como a noite, é cenário constante nesta uma coroa um milhão de dólares escola literária. ou coisas que os valha Poderíamos citar ainda mais algumas ocasiões em que somos ópios édens analgésicos convidados a rir pelo autor de La vie en close: não me toquem nessa dor ela é tudo que me sobra longo o caminho até o céu sofrer, vai ser minha última obra (p. 74) essa minha alma vagabunda com gosto de quarto de hotel (p. 131) 7. HUMOR E INTELIGÊNCIA morreu o periquito a gaiola vazia Uma das marcas do poeta curitibano é o humor. Para enfrentar- esconde um grito (p. 133) mos as agruras da vida, agruras que ele obviamente também enfrentou, a receita de Leminski é só uma: a utilização constante do riso. Em seus poe- feliz a lesma de maio mas, ele não perde a oportunidade de nos fazer rir, pensar, repensar, um dia de chuva sentir, refletir. Tudo isso através da graça por vezes irreverente, mas como presente de aniversário (p. 157) sempre inteligente. O que dizer do poema que se segue? as coisas 8. A INDESEJADA DAS GENTES não começam com um conto A morte sempre esteve presente nas páginas de nossos melho- nem acabam res poetas, quer seja aqui no Brasil, quer seja por todos os recantos do com um • (p. 58) mundo. Já que o senso-comum nos afirma que esta é a “única certeza em nossa vida” — e diga-se por passagem, nunca o senso-comum acertou O texto, mesmo sendo tão pequeno — e talvez justamente por is- tanto —, poetas se debruçam sobre esse tema universal e o trazem com so — é de uma singeleza ímpar e encerra uma sabedoria digna dos grandes constância para as suas obras. Em vários textos de La vie en close, Paulo poetas clássicos. Através do riso, Paulo Leminski nos convida à reflexão Leminski trata da morte, às vezes, com um lirismo tão encantador que sobre este substantivo tão amplo a que chamamos “coisa”. Essa é uma das quase nos dá vontade de morrer para vê-la de perto. palavras que mais se repetem em La vie en close, talvez por uma influên- Comecemos pelas duas lápides e por seus dois epitáfios, um para cia da filosofia do século XX, em especial a de cunho existencialista, que nos o corpo e outro para a alma: faz ficar atentos para o processo de reificação/coisificação a que estamos submetidos neste período pós-moderno. Mas o autor encontra tempo para LÁPIDE 1 brincar ainda mais e coloca não a palavra ponto — outra das mais polissê- epitáfio para o corpo micas que temos — e grafa apenas um “•”, valorizando o significante e dando ao pequeno poema uma qualidade que o distingue de outros tantos. Aqui jaz um grande poeta. Páginas adiante, podemos encontrar outro momento em que o Nada deixou escrito. humor se revela e nos encanta: Este silêncio, acredito, são suas obras completas. (p. 82) www.literaturaeshow.com.br ©todos os direitos reservados LITERATURA 7
  8. 8. LÁPIDE 2 (A noite com os seus sortilégios.) epitáfio para a alma Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, A mesa posta, aqui jaz um artista Com cada coisa em seu lugar. (BANDEIRA, 2007: 255) mestre em desastres viver 9. A FESTA EM BABEL E A FESTA DA LINGUAGEM com a intensidade da arte Para alguns autores, as fronteiras da língua pátria, por mais levou-o ao infarte amplas que nos possam parecer, tornam-se pequenas, de modo que eles têm que se apropriar de palavras de um outro idioma para comporem a sua deus tenha pena arte. Paulo Leminski se enquadra nesse perfil. Em toda a sua obra, e espe- dos seus disfarces (p. 83) cialmente em La vie en close, a começar pelo título, podemos notar a utilização de termos estrangeiros que enriquecem ainda mais o vocabulário As inscrições tumulares aparecem dentro da poesia há muito dos poemas, ampliando o caráter polissêmico, característica do texto em tempo. Em língua portuguesa, os mais conhecidos versos a esse respeito verso. O interessante é que Leminski não só utiliza estrangeirismos, mas poderiam vir de Álvares de Azevedo (1831-1852): "Descansem o meu leito também brinca com eles, jogando com os sons, com os significados, ou solitário/ Na floresta dos homens esquecida,/ À sombra de uma cruz e seja, valendo-se daquilo a que chamamos “Função Poética da Linguagem”. escrevam nela:/ — Foi poeta, sonhou e amou na vida." Poderiam ser ou- Exemplo disso é o poema “L’ÊTRE AVANT LA LETTRE”, que abre o tros, do poeta português Manoel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805): livro (p. 5) e pode ser visto também na capa de algumas edições. Vamos a "Aqui dorme Bocage, o putanheiro;/ Passou vida folgada, e milagrosa;/ ele: Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro". No primeiro epitáfio, temos um duplo silêncio. Para expressar la vie en close sua arte, o artífice do verso pode fazê-lo por duas maneiras distintas: c´est une autre chose escrevê-la para a posteridade ou gritá-la em cima dos telhados. Mas no poema de Leminski, o poeta não escreveu. Há o silêncio da fala, e há a c´est lui escrita que se cala. A obra completa seria a própria vida do autor e não c´est moi somente a sua poesia. A obra concreta é o que ele fez com seu corpo, já c´est ça que para ele o epitáfio é dedicado. Completando o primeiro, o segundo texto nos mostra que o velho coração em seu duplo sentido (o de músculo que c´est la vie des choses bombeia o sangue e o de berço das emoções e sentimentos) não resiste à qui n´ont pas disritmia intensa da vida de poeta e entra em colapso, enfartando. Até un autre choix porque, ele é um só coração para tantas vidas, para tanto sentimento, já que os disfarces desse grande fingidor, o poeta, são variados. No título do poema já encontramos um exemplo de jogo de pala- Mas a morte não vem cruel, como no nosso imaginário, com sua vras, pois o autor trabalha a identidade sonora de “l’être” (o ser) e “lettre” foice ceifadora e seu negro capuz. Se não chega a ser amiga do poeta, ele (letra). Assim, numa tradução literal, teríamos “o ser em frente à letra”, e ao menos abre a porta e permite que ela entre: o que realmente nos chama a atenção é que as duas expressões são homó- fonas, têm o mesmo som. O título traz ainda alusão a duas das grandes Fiz um trato com meu corpo. temáticas leminskianas que são a preocupação com o ser, o homem pós- Nunca fique doente. moderno, e com a metalinguagem, que nos é trazida pela palavra “letra”. A Quando você quiser morrer, expressão “lettre” também pode significar carta, missiva, ou caractere eu deixo. (p. 172) tipográfico, o que amplia ainda mais a preocupação com o próprio fazer poético. Portanto, o pior da morte não é ela em si, mas o que a causa: a A apresentação espacial do poema ressalta a ênfase no signifi- doença que nos corrói a cada instante. Por isso, um acordo é feito entre o cante, característica primordial da estética concretista, e seu primeiro eu e o corpo. E já que o pior não é a morte, porque não esperar por ela? verso (que dá título ao livro), ainda temos uma referência intertextual Vejamos, abaixo, os versos de Manuel Bandeira: explícita à canção “La vie en rose”, imortalizada pela maior cantora france- sa de todos os tempos, Édith Piaf (1915-1963), na afamada gravação de CONSOADA 1946. O curioso é que Babel5 está em festa, já que a palavra “close” Quando a Indesejada das gentes chegar tem em Francês o mesmo significado do Inglês, ou seja, “fechado”. Outra (Não sei se dura ou caroável), talvez eu tenha medo. 5 A alegoria da Torre de Babel (Gn 11, 1-9) é um dos mais conhecidos episódios bíblicos do Talvez sorria, ou diga: — Alô, iniludível! Antigo Testamento. Segundo o Gênesis, a terra inteira falava uma única língua e os homens, sempre muito ambiciosos e sedentos por fama, planejaram a construção de uma torre tão O meu dia foi bom, pode a noite descer. alta que chegasse aos céus. Assim, seus nomes seriam perpetuados por todas as gerações. www.literaturaeshow.com.br ©todos os direitos reservados LITERATURA 8
  9. 9. brincadeira de Leminski envolvendo as duas línguas é “chose” (coisa em é a minha Francês), pois ela nos lembra “choose” (escolha em Inglês). E como se diz é a de quem for “escolha” no idioma de Flaubert? Se diz “choix”, palavra que também está no poema, encerrando seu último verso. Dessa forma, o ludismo faz-se presente e um termo vai lembrando a outro, seja na grafia, seja no signifi- é a vida dos entes cado: close chose choose choix. Leminski costura o poema, que passaram atando o título à última palavra, construindo pontes de sentido entre um de finais mentes vocábulo e o outro, o que nos lembra João Cabral de Melo Neto e seu galo que lança a manhã a outros galos, pois não pode tecê-la sozinho. É claro que uma palavra pode adquirir significados diferentes versão d dentro de um poema, e é justamente essa plurissignificação que dá ao texto literário um caráter especial. Mas não podemos deixar de notar essas a vida em close curiosidades, que engrandecem ainda mais a poética do curitibano. Abaixo, será uma última pose colocamos algumas versões para o Português do poema de Leminski, todas feitas por Ivan Justen Santana. Elas podem ser encontradas no sítio eletrô- sem mas nico cujo endereço é: http://paginas.terra.com.br/arte/PopBox/ kamiqua- nem porém se/lavietrad.html. ou senão versão a será a vida de serás que não mais a vida de saída serão é outra coisa da vida Outro momento em que as línguas se misturam aparece em CINE é ele LUZ, desta vez, de maneira mais branda, porém, não menos curiosa. Vamos sou eu ao poema: é tudo o cine tua sina é a vida das coisas o filme FEEL ME que não têm mais signema nem contudo me segure firme versão b cine me ensine a ser assim a vida na partida e a ser senda (p. 41) é outra das coisas da vida Lado a lado, Leminski nos mostra a palavra “filme” e a expressão é aqui inglesa “feel me” (sentir-me) e ainda brinca com as palavras cine (que é ali originalmente significa “movimento”), “signema” (cujo som é parecido com é além “cinema” e que também nos lembra signo, unidade lingüística composta por um significante e um significado), “sina” e “senda” que podem se aproximar é a vida de coisas vividas de “destino”. Temos também a presença de uma aliteração que perpassa que já não têm todo o poema, na repetição do som /s/. O título, CINE LUZ, ainda evoca os alternativas irmãos Lumière, pais da sétima arte, já que “luz” em Francês é lumière. É mais ou menos o que Chico Buarque fez na letra da canção Joana Francesa, onde associa certas palavras do mesmo campo semântico, e que juntas, formam ou quase formam expressões em Português como em “O mar, versão c marée, bateau” (o mar, maré, barco/ o mar me arrebatou) ou ainda a palavra “geme”, homófona a “J’aime” (eu amo). a vida ao poente O Inglês aparece ainda no título dos poemas ROUND ABOUT é uma coisa diferente MIDNIGHT (p. 45), TRAVELLING LIFE (p. 94) e em todo o haicai que se segue: é a dele believe it or not this very if O fato teria desencadeado a ira de Ihaweh, que desceu à terra, colocou nas bocas de cada um daqueles homens uma língua diferente e os dispersou pelo mundo. is everything you got (p. 153). www.literaturaeshow.com.br ©todos os direitos reservados LITERATURA 9
  10. 10. O Francês pode ser visto ainda nos títulos de VOYAGE AU BOUT DE LA NUIT (p. 65) e quase todo o poema abaixo: De uma noite, vim. Para uma noite, vamos, tout est déjà dit uma rosa de Guimarães dans un jardin nos ramos de Graciliano. jadis Finnegans Wake à direita, fernando uma pessoa un coup de dés à esquerda, j’ai perdu ma vie que coisa pode ser feita que não seja pura perda? (p. 19) par delicatesse? oui Para terminar esse assunto, falemos mais um pouco sobre a rimbaud metalinguagem, já comentada no tópico “A crítica ao mundo moderno”. moi Definida, grosso modo, como linguagem acerca da linguagem, ela foi aussi (p. 62) definitivamente assentada em nossa literatura pelo maior de todos os escritores brasileiros: Machado de Assis (1839-1908). Os autores do século Quanto a esse último e belíssimo texto, é impossível não notar- XX, seguindo pela trilha aberta pelo “bruxo”, enveredaram-se pelos mean- mos a referência a dois grandes poetas que influenciaram Paulo Leminski; o dros dessa característica, utilizando-a sempre que possível. Interessante português Fernando Pessoa (1888-1935) e o francês Arthur Rimbaud (1854- notarmos que, como afirma Samira Chalhub, o que a metalinguagem indica 1891). O autor de La vie en close lança mão ainda de palavras e/ou expres- é a perda da aura, uma vez que dessacraliza o mito da criação, colocando a sões retiradas do italiano, do alemão e do latim. nu o processo de produção da obra. Até porque, continua ela, o público de Mas é no nosso idioma que a festa se completa, pois Leminski hoje mudou, já não é mais passivo, pode ser incorporado, ativamente, como “usa e abusa” das mágicas do verso, do encanto que as palavras podem ter colaborador/leitor dentro da linguagem da obra. [CHALHUB, 1998. Grifos da ao lado das outras. Vejamos: autora]. Tomemos os poemas abaixo como exemplo: e ver-te verde vênus TEXTOS TEXTOS TEXTOS doendo malditas placas fenícias no beiracéu cobertas de riscos rabiscos é ver-nos como me deixastes os olhos piscos em puro sonho a mente torta de malícias onde ciscos (p. 52) ver-te, vida, é alto ver através de um véu (p. 13) QUEM SAI AOS SEUS Esse poema é daqueles que vale a pena a gente ensaiar pra vozes a mais poder declamar direito, porque ele se torna quase um trava-línguas. Essa vozes a menos repetição dos sons consonantais (que a estilística chama de aliteração) e a máquina em nós dos vocálicos (assonância) dá ao poema um caráter encantatório, que nos que gera provérbios envolve e nos inebria. Os fonemas /v/, /t/, /n/, /d/, /s/, /r/, /e/, /o/ é a mesma que faz poemas, e /a/ aparecem enfatizados no texto e contribuem para que a linguagem somas com vida própria seja utilizada em sua função poética. Interessante notarmos que já nos que podem mais que podemos (p. 37) primeiros versos, o par ver-te/verde, dá destaque aos dois fonemas linguodentais oclusivos /t/ (sonoro) e /d/ (surdo) que se misturam e iniciam o jogo de sons, privilegiando o significante. Há ainda em La vie en close uma série de (re)criações da lin- OUVERTURE6 LA VIE EN CLOSE guagem — em palavras/expressões como beiracéu (p. 13) meiavolta (p. 29), signema (p. 41), meiavoltavolver (p. 42), sobrenoite alémfloresta (p. em latim 90), entre outras, — que aproximam Leminski de grandes nomes da litera- “porta” se diz “janua” tura como o brasileiro João Guimarães Rosa (1908-1967), autor de Grande e “janela” se diz “fenestra” sertão: Veredas e Sagarana e o irlandês James Joyce (1882-1941), autor de Ulysses e Finnegans Wake. Os dois são, inclusive, citados no poema OPERAÇÃO DE VISTA, ao lado de Graciliano Ramos (1892-1953). No texto, 6 O termo em francês overture, significa “abertura” e é muito utilizado na música, para temos também uma referência ao poeta Mallarmé e seu livro Um coup de indicar as composições que abrem os grandes concertos. Essa é uma característica mar- dés, já comentado por nós nesse trabalho. Vamos ao poema: cante em La vie en close. www.literaturaeshow.com.br ©todos os direitos reservados LITERATURA 10
  11. 11. a palavra “fenestra” alguma. Se dizemos ter comunhão com ele, mas andamos nas trevas, men- não veio para o português timos e não seguimos a verdade. Se, porém, andamos na luz como ele mas veio o diminutivo de “janua”, mesmo está na luz, temos comunhão recíproca uns com os outros, e o “januela”, “portinha”, sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo pecado. (1 Jo, 1, 5-7). que deu nossa “janela” Aparece também no Alcorão, o Livro Sagrado do Islã. Na 24ª surata (ou “fenestra” veio sura, o que no Alcorão corresponderia ao “capítulo” da Bíblia), temos o mas não como esse ponto da casa versículo 35, no qual a luz também é aproximada de Deus: Deus é a Luz dos que olha o mundo lá fora, céus e da terra. O exemplo de Sua Luz é como o de um nicho em que há de “fenestra”, veio “fresta”, uma candeia; esta está num recipiente; e este é como uma estrela brilhan- o que é coisa bem diversa te, alimentada pelo azeite de uma árvore bendita, a oliveira, que não é oriental nem ocidental, cujo azeite brilha, ainda que não o toque o fogo. É luz já em inglês sobre luz! Deus conduz a Sua Luz até quem Lhe apraz. Deus dá exemplos “janela” se diz “window” aos humanos, porque é Onisciente. (ALCORÃO) porque por ela entra Numa interpretação mais racionalista, a luz pode significar jus- o vento (“wind”) frio do norte tamente o contrário, a ausência de Deus, pois como sabemos, o período a menos que a fechemos teocêntrico da Idade Média ficou conhecido como a “idade das trevas” e a como quem abre valorização do homem, o antropocentrismo do século XVII, como Iluminis- o grande dicionário etimológico mo. Ademais, os psicólogos e os analistas observam que à ascensão estão dos espaços interiores (p. 12) ligadas as imagens luminosas, acompanhadas de um sentimento de euforia, enquanto que à descida estão ligadas as imagens sombrias, acompanhadas Em relação ao último texto, o que mais nos chama a atenção, desde o de um sentimento de medo. (CHEVALIER E GHEERBRANT, 2003: 571). início, é que esse poema enfatiza na função poética da linguagem (centrada Como sabemos, Paulo Leminski teve uma educação religiosa nos na mensagem), nem na emotiva (no emissor), mas na referencial (centrada tempos do mosteiro de São Bento e por isso mesmo, algumas palavras de no assunto) e metalingüística (no código). O poema é explicativo, e Leminski cunho religioso aparecem em seu texto, ora no sentido que adquiriram no chega a dissertar. Poderíamos até dizer que se trata de um poema simples, campo da fé, ora transmutadas a um outro significado, como o científico se não fossem as interpretações simbólicas para janela, porta e vento. Mas por exemplo, pinçado pelo espírito crítico e contestador do poeta. Mas o para falarmos de símbolos, passemos pra o próximo ponto. importante é que elas estão ali. A palavra “luz” e suas variantes aparecem mais de 20 vezes em La vie en close. No belíssimo SINTONIA PARA PRESSA E PRESSÁGIO, ela aprece duas vezes: 10. SÍMBOLOS Escrevia no espaço. À primeira vista, o que mais nos chama a atenção em La vie en Hoje, grafo no tempo, close é o seu aspecto formal. Poemas com versos recuados à maneira dos na pele, na palma, na pétala, parágrafos, palavras em caixa alta no meio deles, textos que parecem luz do momento. “pintados” por Leminski como os que comentamos no tópico “A verve con- Sôo na dúvida que separa cretista”, um poema de apenas três palavras: cheio de tudo (p. 123) que o silêncio de quem grita ocupa toda uma página. Mas se atentarmos bem, existe na estrutura pro- do escândalo que cala, funda do livro algumas palavras com um significados simbólico interessan- no tempo, distância, praça, te. A seguir, falaremos sobre esses vocábulos, utilizando as interpretações que a pausa, asa, leva trazidas por CHEVALIER E GHEERBRANT. para ir do percalço ao espasmo. A primeira palavra de conteúdo simbólico que aqui trataremos é o fogo. Presente em vários poemas quer em sua forma tradicional, quer Eis a voz, eis o deus, eis a fala, como “calor”, o fogo é, como sabemos, um dos quatro elemento primordi- eis que a luz se acendeu na casa ais, juntamente com a terra, a água e o ar. Segundo o Dicionário de sím- e não cabe mais na sala. (p. 18) bolos, a chama, a elevar-se para o céu, representa o impulso em direção à espiritualização. O intelecto, em sua forma evolutiva, é servidor do espírito. Além das referências metalingüísticas e a relação “poesia e Mas a chama também é vacilante, e isso faz com que o fogo também se música”, outra constante no livro, o que mais nos chama a atenção são os preste à representação do intelecto quando este se descuida do espírito. últimos três versos do poema, separados do resto do texto, num formato (CHEVALIER E GHEERBRANT, 2003: 443). que lembra os já comentados haicais. Temos ali, a voz/a fala (o Verbo), um Outra simbologia constante no livro de Leminski é a luz que é “deus” minúsculo e uma luz que se acende dentro da casa. E como Leminski relacionada, em praticamente todas as religiões, com a divindade, o mundo brinca com as palavras, não podemos deixar de observar a semelhança celeste, a eternidade. A luz aparece em vários momentos da Bíblia, como no entre acender e ascender, ambas as formas verbais relacionadas à luz. início do Evangelho de João — quando é relacionada ao Verbo de Deus que Uma luz que não cabe mais na sala, não pode mais ser aprisionada, se se fez homem (o próprio Cristo) — ou na Primeira Epístola, do mesmo escancara diante de todos. O sentido da palavra não é aquele trazido pela evangelista, onde encontramos os seguintes versículos: A nova que dele religião. Pelo contrário, parece ser o trazido pelo racionalismo. Mas os temos ouvido e vos anunciamos é esta: Deus é luz e nele não há treva elementos religiosos ladeiam os racionalistas e evidenciam um homem que www.literaturaeshow.com.br ©todos os direitos reservados LITERATURA 11
  12. 12. ora se volta ao alto, ora se volta pra dentro de si. Poderíamos aproximar, (waltz, em Inglês) que ali aparece, ocupará um lugar de destaque no corpo descontadas as devidas proporções, o nosso poeta do homem barroco, do poema. Importante salientarmos como Paulo Leminski une um passado também cindido entre a fé e a razão. distante (aqui representado pela valsa), presente (os anos oitenta, já que o Um poema, em específico, contém várias palavras que podem texto foi escrito nessa época) e o futuro (uma vez que o enredo do filme se adquirir um valor simbólico no texto. Ele é OUVERTURE LA VIE EN CLOSE, desenvolve em 2019). Vamos ao poema: já comentado em “A festa em Babel e a festa da linguagem”. No poema, aparece o vento (que volta em alguém outros textos, inclusive, como brisa). Em mil novecentos e oitenta e sempre, A palavra também tem um significado religioso, já que nas tradições bíbli- ah, que tempos aqueles, cas, os ventos são o sopro de Deus. O sopro de Deus ordenou o caos primi- dançamos ao luar, ao som da valsa tivo; animou o primeiro homem. A brisa nos olmos anuncia a chegada de A Perfeição do Amor Através da Dor e da Renúncia, Deus. Os ventos também são instrumentos da força divina; dão vida. Casti- nome, confesso, um pouco longo, gam, ensinam; são sinais e como os anjos, portadores de mensagens. São a mas os tempos, aquele tempo, manifestação de um divino, que deseja comunicar as suas emoções, desde ah, não se faz mais tempo a mais terna doçura até a mais tempestuosa cólera. (CHEVALIER E GHEER- como antigamente. BRANT, 2003: 936). Além disso, vento também está relacionado ao Espírito Aquilo sim é que eram horas, Santo, cujo nome em hebraico é ruah, que significa vento, sopro, respira- dias enormes, semanas anos, minutos milênios, ção. e toda aquela fortuna em tempo Ainda aparecem no poema as palavras porta e janela. Seus a gente gastava em bobagens, significados parecem unir todos os outros, amarrando a simbologia contida amar, sonhar, dançar ao som da valsa, em La vie en close. Ambas estão relacionadas à passagem, à revelação, e aquelas falsas valsas de tão imenso nome lento por conseqüência, à morte. Quanto à janela, enquanto abertura para o ar e que a gente dançava em algum setembro para luz, simboliza a receptividade (CHEVALIER E GHEERBRANT, 2003: 512). A daqueles mil novecentos e oitenta e sempre. (p. 63) porta, especificamente, simboliza o local de passagem entre dois estados, entre dois mundos, entre o conhecido e o desconhecido, a luz e as trevas, o A Poesia Marginal, já citada neste trabalho, aparece em alguns tesouro e a pobreza extrema. A porta se abre sobre um mistério. Mas ela poucos momentos de La vie en close, mas nem por isso podemos deixar de tem um valor dinâmico, psicológico; pois não somente indica uma passa- comentá-la. Esse tipo de manifestação literária surgiu na década de 1970 e gem, mas convida a atravessá-la. É o convite à viagem rumo ao além… recebeu esse nome em decorrência dos textos serem editados e distribuí- (CHEVALIER E GHEERBRANT, 2003: 734-5). dos às margens do mercado editorial, já que cada autor imprimia e vendia sua obra. Quanto aos traços estilísticos dessa vertente poética, a profes- 11. OUTRAS INFORMAÇÕES PERTINENTES sora e pesquisadora Daniela Maria Barbosa afirma que em relação ao plano da linguagem, a poética marginal assume uma postura descompromissada, Antes de terminarmos, mais algumas afirmações devem ser irreverente e parodística, sistematizada como uma “arte suja”, transfigu- feitas a respeito de La vie en close. Existem algumas características e radora dos fatos triviais do cotidiano em elementos poéticos. Ainda segun- referências, que aparecem em momentos específicos do livro. Não chegam do a professora, com a poesia marginal os temas da sexualidade são inte- a se relacionar com toda a obra, mas podem ser objeto de avaliação nos grados à valorização estética do cotidiano. Utiliza em seu “fazer poético” processos seletivos. Uma delas é a religiosidade. Esse tema aparece em uma linguagem basicamente construída sobre coloquialismos, gírias e alguns poemas e atestam sua formação religiosa do autor. Como já comen- expressões pornográficas (BARBOSA, 2007: 30). É justamente pelo fato de tamos, na maioria dos textos aparece não o Leminski monástico, mas o aparecerem algumas expressões chulas no livro que podemos aproximar Leminski contestador. Mesmo assim, a fé está ali talvez como uma lem- alguns textos de Leminski da poesia marginal. Vejamos, como exemplo, o brança doce, uma volta ao passado, um certo saudosismo dos tempos poema CURITIBAS. verdes da vida. Algumas frases em latim e poemas que são verdadeiras preces — já que são dirigidos a Deus —, atestam essa informação. Vejamos Conheço esta cidade um exemplo onde isso acontece: como a palma da minha pica. Sei onde o palácio Senhor que prometestes sei onde a fonte fica, a vida eterna aos filhos de São Bento Só não sei da saudade obrigado pelos invernos ao vento a fina flor que fabrica. e pelo invento do inferno Ser, eu sei. Quem sabe, ainda aqui nesta terra (p. 48) esta cidade me significa. (p. 16) O saudosismo também aparece no poema BLADE RUNNER Ao falar de sua terra — lugar sagrado para todo bom poeta —. WALTZ, numa recordação dos tempos de “mil novecentos e oitenta e sem- Leminski lança mão do verso como a palma da minha pica, dessacralizando pre”. O poeta parece querer eternizar o momento tão rico que marcou os seu local de origem e dessacralizando também sua poesia, já que essa é anos 80 do século passado, tornando-os “sempre”. Um dos ícones do justamente uma característica do texto moderno e mais ainda, do marginal. cinema da época, o filme Blade runner, o caçador de andróides, dirigido Outro momento em que isso ocorre é no haicai a seguir: pelo cineasta Ridley Scott e lançado em 1982, já é citado no título; e a valsa www.literaturaeshow.com.br ©todos os direitos reservados LITERATURA 12
  13. 13. — que tudo se foda, militar, no final da década de 1960. Em síntese, propunha a incorporação de disse ela, elementos estrangeiros dentro das artes (a guitarra elétrica tocada em e se fodeu toda (p. 160) “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso, é um exemplo disso), resgatando o conceito de antropofagia, alusão à vertente modernista dos anos de 1920 Outro ponto que merece destaque é a referência às estações do liderada por Oswald de Andrade. ano. Todas elas (primavera, verão, outono e inverno) aparecem nos poe- Segundo Fabrício Marques, em determinados poemas de Lemins- mas de La vie en close e simbolizam justamente o ciclo da vida, já que ki, transferidas para o plano da linguagem poética, encontram-se marcas podemos relacioná-las com a infância, a juventude, a fase adulta e a velhi- que vão definir a atividade tropicalista, de acordo com Celso Favaretto: ce, respectivamente. Uma das figuras de linguagem mais utilizadas pelo ‘relação entre fruição estética e crítica social, em que esta se desloca do autor — além da metáfora, evidentemente — é a antítese. Existem vários tema para os processos construtivos’; articulação de ‘uma nova linguagem momentos em que há, no texto de Leminski, momentos em que ele coloca, da canção a partir da tradição da mpb e dos elementos que a modernização lado a lado, expressões contrárias como vida e morte, claro e escuro, noite fornecia’, elaborando uma síntese de música e poesia, de melodia e texto; e dia, quente frio. na justaposição de elementos diversos da cultura, a obtenção de ‘uma suma Os números aparecem também e praticamente todos têm uma cultural de caráter antropofágico’; ‘operação desmistificadora efetuada simbologia interessante. Para alguns exegetas bíblicos, o número 7 sempre através da mistura de elementos contraditórios, privilegiando o elemento significou, nas Escrituras, o infinito. A justificativa é que ele se compõe pela crítico’; ‘construções paródico-alegóricas (imagens tropicais); ‘crítica da soma de outros números, também muito significativos; o 3 e o 4. O 3 signi- musicalidade e autocrítica’. (Marques, 2007: 43) ficaria, no livro sagrado, as coisas do céu (Pai, Filho e Espírito Santo). O 4 lembraria as coisas da terra (em decorrência dos pontos cardeais Norte, Sul, Leste e Oeste que traçam uma cruz sobre o mundo). Assim, a soma de 12. CONCLUSÃO céus e terras, para os autores bíblicos, teria como resultado do infinito. Pelo mesmo motivo se justifica a incontestável presença do 12, já que se 7 é O livro La vie en close serve de micro-cosmo para toda a obra a soma, 12 é o produto de 3 e 4. Desta forma, podemos entender as refe- do curitibano Paulo Leminski, pois contém poemas que exemplificam suas rências numéricas presentes em La vie en close, onde aparecem os núme- principais características. Os ricos aspectos formais e conteudísticos e a ros 3, 4, e 7; e ainda seus múltiplos (30, 40 e 70). rica simbologia — assim como as várias convergências da poética lemins- Por fim, falemos ainda de algumas referências intertextuais. Já kiana, entre elas, com a cultura oriental, com a poesia concreta, com a falamos de Pessoa, Mallarmé, Bashô, Joyce, Guimarães, mas existe ainda poesia marginal e com o movimento tropicalista — atestam a importância uma alusão ao poeta e romancista estadunidense Edgar Allan Poe (1809- deste poeta dentro da história de nossa literatura. 1849) e seu conhecidíssimo poema O corvo, que já recebeu inúmeras Na “orelha” de algumas edições, aparece um texto de Alice Ruiz, traduções para o Português, entre elas, as dos célebres Machado de Assis com quem Leminski foi casado por 20 anos. Nele, podemos entender a e Fernando Pessoa. importância de nosso autor: o poeta que aqui se lê, a exemplo dos faraós, construiu uma obra capaz de continuar falando, por si só, como as pirâmi- des, e transcender mesmo no deserto a aridez da mesmice de nossa finitu- o corvo nada em ouro de. E essa vida que se mostra, se despe e se despede, nos deixa com gosto nem o céu estraga o vôo de mais vida e muito, muito mais poesia, de um jeito tal que, tenho certeza, nem o vôo dana o céu (p. 155) vai haver poesia um dia. Octávio Paz (1914-1998), poeta, crítico e diplomata mexicano, O poema de Poe foi analisado por outro grande nome das Letras agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1990, já afirmou que os que é louvado por Leminski: o lingüista e crítico literário russo Roman poetas não têm biografia. Sua biografia é sua obra (PAZ, 1972: 7). E é justa- Osipovich Jakobson (1896-1982). Foi justamente através da análise de O mente a obra de Leminski que vai continuar contando, a todas as gerações corvo que Jakobson se solidificou no cenário da crítica e é dele também o vindouras, quem foi este poeta que, ao escolher quatro personalidades famoso esquema do processo de comunicação que envolve termos conhe- para escrever uma biografia colocou na mesma lista nomes tão distantes e cidos e inclusive, utilizados nessa análise: o emissor, o destinatário, a tão próximos como Cruz e Sousa, Bashô, Trotski e Jesus Cristo. mensagem, o código, o canal e o referente. Ao russo, é dedicado o dificílimo E para fechar nosso estudo, fica aqui registrada a singeleza e a poema da página 57, cheio de referências ao seu trabalho. O texto é dividi- magnitude do poema abaixo, pois não há nada melhor na análise de textos do em 3 partes EU (7 versos), RO (5 versos) e PA (5 versos). Como se pôde em versos que o momento em que nos deixamos levar pela magia mirífica e perceber, os títulos dessas três partes formam a palavra Europa. encantadora das palavras. Jakobson também é citado em LIMITES AO LÉU (p. 10), um dos primeiros textos do livro. Nele, Leminski utiliza uma técnica para a compo- (AUS) sição do poema chamada de bricolagem, já que para escrever, utiliza várias frases de conhecidos nomes da cultura ocidental, fundindo esses elementos simples e formando um único texto, de sua autoria. Todas as frases fazem parte de como um sim uma definição dos pensadores para a palavra poesia. é simples Para finalizar este tópico, não podemos nos esquecer do Lemins- mente ki letrista e principalmente, sua parceria com Torquato Neto (1944-1972), a coisa um dos ícones da Tropicália. O movimento tropicalista surgiu sob o regime mais simples www.literaturaeshow.com.br ©todos os direitos reservados LITERATURA 13
  14. 14. que ex 02. A respeito do livro La vie en close, assinale V ou F. iste assim 1 ( ) O livro foi publicado postumamente, e funcionam como uma coletânea ples dos melhores poemas de Leminski, tendo exemplares de cada uma mente das obras escritas por ele em vida. de mim 2( ) O período literário ao qual Leminski se filia é incerto, pois ainda me dispo não temos um “nome” para esta “escola” literária e sim termos des escorregadios, não definitivos. (aus) 3( ) Mesmo assim, o homem pós-moderno, cindido, expatriado, ente (p. 27) cansado e propenso ao isolamento aparece nos textos de La vie en close. 13. BIBLIOGRAFIA 4( ) As convergências com o Tropicalismo e com a obra de Torqua- to Neto não aparecem no livro estudado, embora façam parte de ALCORÃO. Disponível em <http://www.arresala.org.br>. Acessado em 17 de março de 2008. outros títulos de Leminski. ALÓS, Anselmo Peres. Entre o Concretismo e o Orientalismo: a estratégia poética de Paulo Le- minski. Disponível em <http://www.ucm.es/info/especulo/numero32/estrlemi.html>. Acessado em 27 de fevereiro de 2008. 03. A respeito do orientalismo nipônico na obra de Paulo Leminski, BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007. BARBOSA, Daniela Maria. Jornal Dobrabil: a irreverência poética de Glauco Mattoso. Brasília: UnB. assinale V ou F. Dissertação de Mestrado, 2007. BÍBLIA SAGRADA. Tradução dos originais mediante a versão dos Monges de Maredsous (Bélgica) pelo 1( ) A cultura oriental, e em especial a nipônica, influencia sobrema- Círculo Bíblico Católico. São Paulo: Ave-Maria, 123ª ed., 1999. BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 34ª ed., 1996. neira a obra do poeta curitibano não só nos aspectos conteudísticos, CHALHUB, Samira. A metalinguagem. São Paulo; Ática (Série Princípios), 4ª ed., 1998. mas também pela concisão e objetividade apregoadas pelo pensamen- CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos: (Mitos, sonhos, costumes, gestos, to japonês. formas, figuras, cores, números). Tradução Vera da Costa e Silva [et al.]. Rio de Janeiro: José Olympio, 18ª Ed., 2003. 2 ( ) A Kigo ou palavra de estação é sempre respeitada pelos haicaís- COELHO, Nelly Novaes, s.v. "Haiku", E-Dicionário de Termos Literários, coord. de Carlos Ceia, Disponível tas modernos, pois a referência às estações do ano é obrigatória nes- em <http://www.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/H/haiku.htm>. Acessado em 15 de março de 2008. DICK. André. Paulo Leminski depois do acaso. Disponível em te tipo de poema. <http://www.officinadopensamento.com.br /zunai/ensaios/paulo_leminski_depois_do_acaso.htm>. 3 ( ) Certamente, a maior influência de Paulo Leminski dentro da Acessado em 27 de fevereiro de 2008. cultura nipônica é a do poeta Todo Yoshitada. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva e Guaraciara Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. 4 ( ) Nos haicais estão espalhadas as várias características e conver- LEMINSKI, Paulo. La vie en close. São Paulo: Brasiliense, 5ª ed., 1994. gências da obra de Leminski e assim eles servem de micro-cosmo pa- MANIFESTO CONCRETISTA. Disponível em <http://www2.uol.com.br/augustodecampos/poesiaconc.htm>. ra a sua poesia. Acessado em 27 de fevereiro de 2008. MARQUES, Fabrício. Aço em flor: a poesia de Paulo Leminski. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 12ª ed. rev. e ampl., 2004 04. (PUCCamp-SP — Modificado) Assinale V para as assertivas que se PAZ, Octavio. "O desconhecido de si mesmo: Fernando Pessoa". In.: Signos em Rotação. São Paulo: Editora Perspectiva, 1972. referem a características básicas da Poesia Concreta e F quando es- PERRONE-MOISÉS, Leyla. Altas literaturas: escolha e valor na obra crítica de escritores modernos. sa referência não acontecer. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. SILVA, Andréa Cristina da. Onde o avesso do inverso começa a ver e ficar. Leminski: apontamentos sobre os caminhos de uma paixão. Disponível em < 1( ) A unidade poética deixa de ser a palavra e passa a ser o verso; www.ufes.br/~mlb/multiteorias/pdf/AndreaCristinaSilva _OndeOAvessoDoComecaAVerEFicar.pdf>. busca-se adequação da forma poética às características do mundo Acessado em 04 de março de 2008. moderno. 2 ( ) A palavra é explorada quanto aos seus aspectos semânticos, 14. EXERCÍCIOS sintático, sonoro e gráfico (visual); o espaço em branco do papel pas- sa a integrar o significado do poema. 01. A respeito da vida e obra do poeta Paulo Leminski, assinale V ou F. 3 ( ) Cada palavra refere-se às palavras circunvizinhas verbal, vocal ou visualmente; respeita-se a distribuição linear da linguagem. 1( ) Paulo Leminski nasceu em Curitiba e acredita que o fato de ter 4 ( ) Evita-se o imediatismo da comunicação visual; utilizam-se cores, nascido na capital paranaense influencia sua obra, principalmente no tipos diferentes de letras, recursos de outras artes e linguagens. que se refere à convergência de várias línguas dentro de seus poe- mas. 2 ( ) O poeta também foi compositor de música popular e inclusive, 05. A respeito do livro La vie en close, assinale V ou F. uma de suas letras faz parte do livro La vie en close. 3( ) Em La vie en close, podemos ainda encontrar alguns resquícios 1( ) Em La vie en close, Paulo Leminski não faz críticas ao mundo de sua experiência religiosa no mosteiro de São Bento, embora isso moderno, pois como afirmou certa vez, ele tem uma certa aversão à não seja tão marcante no livro. poesia engajada. 4 ( ) Antes de tudo, o autor foi um grande estudioso e divulgador de 2 ( ) Aspectos como o isolamento do ser humano e da violência dos outras culturas, quer sejam elas orientais ou ocidentais. tempos modernos (ou pós-modernos) aparecem retratados nos poe- mas que fazem parte do livro. www.literaturaeshow.com.br ©todos os direitos reservados LITERATURA 14

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