UM DESEJO A MAIS    Anne Mather    Harlequin Paixão 70    Autora Best Seller    ISBN978-85-7687-466-9    PUBLICADO SOB ACO...
CAPÍTULO UM     FAZIA frio. Na verdade, muito mais do que Rosa esperava. Quando elachegou, na noite anterior, associou o f...
véspera, que a levava àquela procura difícil em Kilfoil. Mas sua mãe estavadesesperada, e Rosa sabia que não tinha outra e...
— Ouvi dizer que você foi a Londres para ir ao médico. Espero que nãoseja nada sério.     — Só um check-up — disse Liam ra...
ocupá-lo.     Liam Jameson, é claro, concluíra Rosa, sem querer, porém, perguntardetalhes àquela senhora para não ter que ...
problemas. Mas Liam esperava uma resposta e ela forçou um sorriso semgraça.      — Eu não imaginava que o mar estaria tão ...
quintas-feiras. A não ser que ela tenha ido quinta-feira passada.      Rosa engoliu seco. Quinta-feira Sophie ainda estava...
CAPÍTULO DOIS      LIAM ficou surpreso. Achou que sabia tudo sobre as famílias que haviamse mudado para a ilha depois de a...
Ela ficou corada.     — Não. Mas me fale sobre a ilha. Há casas, lojas, hotéis?     Liam hesitou, dividido entre o desejo ...
Para seu alívio, o carrão passou rapidamente por ela. Mas, em seguida,freou e deu ré. Parou a seu lado e a porta se abriu....
Liam a fitou.     — Na ilha?     — Sim — Rosa ergueu a cabeça. — Talvez você pudesse me indicar ondeé o castelo de Kilfoil...
tom. — E, convenhamos, você não tem nenhuma prova de que ela está comJameson.     — Eu sei disso — afirmou Rosa. — Mas ond...
Liam suspirou.     — Está bem, está bem. Se esta é sua palavra final, eu a levo.     — Me leva aonde?     — Ao castelo de ...
CAPÍTULO TRÊS     ROSA hesitou.     — Ah, é longe? — arriscou, recebendo um olhar de impaciência de Liam.     — Leva um bo...
— Acho que me lembro de ter dito isso meia hora atrás — reagiu.     — Oh, sim, você disse, — Rosa fez uma careta. — Sinto ...
— De certa maneira.      — E você gosta de morar aqui? Não fica entedia-do?      — Nunca fico entediado — disse Leam secam...
madeira cheias de detalhes.      Uma das portas se abriu imediatamente e um homem e vários cãesapareceram. Os cachorros — ...
iluminavam bem o saguão por onde passavam, e havia uma lareira acesa, masera intimidante. O teto alto e as paredes com tap...
filmagem na ilha, mãe. Sophie devia estar inventando.     — Ela não faria isso — disse a ingênua senhora Chauntry. — Mark ...
CAPÍTULO QUATRO     — VOCÊ não está pensando seriamente em permitir que ela fique aqui atéconseguir pegar a balsa de volta...
não a atraiu. Seis meses depois, se casou com um jogador de pólo da Américado Sul com dinheiro suficiente para manter o es...
Ele respondeu estranhamente lacônico.     — Por que não?     — Porque não se parece com a imagem do retrato — protestou Ro...
na porta. Por um momento ela temeu que Liam Jameson ignorasse a batida, sevirou e atravessou a sala. Mais uma vez, arrasto...
retribuir a gentileza dele! Certo, ele deveria ter dito quem era — mas, comoele mesmo disse, ela acreditaria nele? Rosa po...
Só havia uma maneira de descobrir. Pôs a mão na maçaneta e a girou. Sópercebeu que não estava sozinha segundos antes de al...
CAPÍTULO CINCO     — EU… Sim. — disse Rosa, a respiração descontrolada e ofegante.     Ela se virou para vê-lo, amparando-...
agradecimento, mas Rosa apertava os lábios.      — Por me permitir passar a noite aqui — disse ela, com precisão. — Vocênã...
— Não acredito em quê? — perguntou.     Ele se virou e apoiou o quadril na escrivaninha. Cruzando os braços,respondeu cuid...
Liam ficou tenso.     — Se é isso que você quer pensar… — disse, arrumando papéis na mesa.— Isso me lembra que tenho de tr...
Agora era Rosa quem inspirava com dificuldade.     — Não tem importância — disse ela, olhando para o telefone atrás dele.T...
muito melhor gritar com ele. — Se me permiti, só por um momento, ceder, foisimplesmente porque sinto pena do senhor. Quero...
Rosa sentia como se suas pernas não pudessem agüentar seu própriopeso por muito tempo mais. Liam voltara sua atenção para ...
CAPÍTULO SEIS     LIAM esperava que Rosa não percebesse por que ele dera-lhe as costas.Deixá-la não havia sido fácil, e se...
Aquilo era indesculpável, mas ele achava que havia feito um bem a Rosa.Ela participara daquela aproximação, ele sabia. E n...
— Está bem. Vou pedir a Sam que lhe dê um endereço.      Liam abriu a porta, tentando não arrastar o pé enquanto se movia....
— Ela disse onde está?     — Não exatamente. Você sabe como Sophie é.     — Mãe, não há produção de filme nenhum. Ou se há...
— Eu não moro em Londres — retrucou Rosa. — Venho de uma cidadepequena em North Yorkshire, senhor Devlin. Não de uma metró...
70   anne mather - um desejo a mais (paixao 70)
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70 anne mather - um desejo a mais (paixao 70)

  1. 1. UM DESEJO A MAIS Anne Mather Harlequin Paixão 70 Autora Best Seller ISBN978-85-7687-466-9 PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES Copyright © 2006 by Anne Mather Título original: STAY THROUGH THE NIGHT Originalmente publicado em 2006 por Mills & Boon Modern Romance Editoração eletrônica: TopTextos Edições Gráficas Ltda. Impressão: RR DONNELLEY Distribuição exclusiva para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil: Fernando Chinaglia Distribuidora S/A Editora HR Ltda. Sombras na noite… Liam Jameson é um sexy escritor de livros de terror conhecido internacionalmente. Mas a fama lhe cobrou um alto preço, e o fez viver isolado numa remota ilha da Escócia… Até que Rosa Chantry bate à sua porta e transforma o seu mundo. Seu desejo por ela é forte. Porém, mais forte ainda é a convicção de não ser capaz de manter uma mulher ao seu lado. Mas Rosa está determinada a afastar dele o medo de não ser aceito tal como é… A autora best seller Anne Mather já publicou mais de 150 romances, que ultrapassaram a marca de 100 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. PROJETO REVISORAS Este livro faz parte de um projeto sem fins lucrativos.Sua distribuição é livre e sua comercialização estritamente proibida. Cultura: um bem universal. Doação do livro: Manuela Carneiro Digitalização: Palas Atenéia Revisão: Edith Suli 1
  2. 2. CAPÍTULO UM FAZIA frio. Na verdade, muito mais do que Rosa esperava. Quando elachegou, na noite anterior, associou o frio à chuva fina, bem como a suaansiedade e apreensão. Mas de manhã, depois de uma boa noite de descansoe uma tigela de mingau escocês, não havia desculpas. Onde estava o calor que deveria tomar conta do Reino Unido em julho eagosto? Não ali em Mallaig, com certeza. Enquanto se lamentava, Rosaobservava a sala aconchegante da pousada onde passara a noite. É claro que parte daquele desânimo se devia à consciência de que dentrode poucas horas estaria entrando num território totalmente desconhecido. Umailha a duas horas da costa da Escócia não lhe parecia um lugar agradável. Eera esse o motivo de sua presença em Mallaig, de onde iria para Western Isles. Dentro de uma hora estaria num barco — navio? — que a levaria a Kilfoil,e ainda não sabia se era lá que Sophie estava. Felizmente, havia levado algumas roupas de frio, e naquela manhã vestirauma camiseta, uma camisa e um suéter de lã. Ao sentir o vento frio vindo domar, achou que teria de vestir também seu casaco de cachmere para fazer atravessia até a ilha. Arrependeu-se de não ter levado seu sobretudo de couro,que era mais longo e manteria suas pernas aquecidas. Apesar do frio, a vista era magnífica. A ilha de Skye ficava perto, e elaimaginou se aquelas montanhas avermelhadas seriam as famosas Cuillins. Nãosabia. Na verdade, sabia muito pouco sobre aquela parte da Escócia. Emboraseu avô Ferrara tivesse ficado preso perto de Edimburgo durante a guerra, elanunca havia viajado para o norte além de Glasgow. Tinha tios e tias lá, massuas visitas haviam sido poucas e esporádicas. Agora se arrependia de não ter tido mais aventuras quando teve aoportunidade. Mas ingressara na universidade, casara-se com um inglês evivera em Yorkshire a maior parte de sua vida. Era fácil encontrar umadesculpa para sua falta de aventuras na mãe viúva e na irmã mais nova. Mas averdade é que nunca gostara de aventuras, e Collin sempre preferia passar asférias na Espanha, onde podia ficar bronzeado. É claro que Collin já não podia mais ser uma desculpa. Três anos antes,quando descobrira que ele a traía com a secretária de seu chefe, Rosa nãohesitara em pedir o divórcio. Collin implorara para que não destruísse umcasamento de cinco anos por causa de um único erro, mas ela sabia que ele atraíra outras vezes e que aquela não seria a última. Felizmente — ou infelizmente, admitiu — eles não tinham filhos parasofrer com a separação. Rosa nunca engravidara, mas não sabia se a culpa eradela ou dele. É claro que durante o divórcio CoHin a culpara por suainfidelidade. Se ela não passasse tanto tempo naquela maldita escola comaquelas crianças que não gostavam dela, talvez o casamento tivesse umachance. Mas Rosa sabia que era uma desculpa. Sem seu salário de professora de inglês, Collin não teria viajado tanto pelaEuropa como gostava. Agora aquilo fazia parte do passado, pensou. Embora as coisas que Collinfizera ainda doessem um pouco, ela seguia sua vida. Até aquele telefonema na 2
  3. 3. véspera, que a levava àquela procura difícil em Kilfoil. Mas sua mãe estavadesesperada, e Rosa sabia que não tinha outra escolha a não ser atender a seupedido. Ela suspirou, pondo as mãos sobre a cerca e observando a água como seali pudesse encontrar respostas. E se sua mãe estivesse errada? E se Sophienão estivesse na ilha? Haveria alguma pensão ou hospedaria na ilha onde elapudesse passar a noite para tomar a balsa de volta no dia seguinte? Ela só poderia comprar a passagem para Kilfoil a partir das 9h, mas nãoteria problemas. Apenas turistas e mochileiros iam para aquela ilha. A maioriados passageiros ia para Skye. Ó, Deus, pensou, parecia um lugar tão remoto!Desejou que sua mãe estivesse ali. Seria tão bom ter alguém conhecido paraconversar… LIAM parou seu Audi no estacionamento e pôs as pernas para fora docarro. Em seguida, apoiando uma das mãos no teto e a outra no alto da porta,levantou-se e olhou em volta. O vento vindo do mar era cortante, mas ele não notou. Nascera emHampstead, mas vivia na Escócia havia dez anos, desde o sucesso estrondosode seu primeiro livro. E se acostumara ao clima. Um famoso diretor deHollywood gostara do livro e o transformara num filme de sucesso. Mas issoacontecera quando sua vida em Londres começara a ficar aos poucos — edepois violentamente — insustentável. Ele pôs uma das mãos sobre a coxa, sentido o sulco de carne rígida quese destacava abaixo.da virilha embora usasse jeans. Tivera sorte, refletiu. Dosmuitos ferimentos que sofrerá, aquele poderia tê-lo matado. Mas embora afaca tivesse atingido seriamente sua artéria femoral, causando-lhe uma perdade sangue quase fatal, rompendo nervos e tendões e tornando sua pernaesquerda permanentemente fraca, ele sobrevivera. Fora o atacante a morrer,esfaqueando a si próprio depois de confirmar que atingira seu objetivo. Liam fez uma careta, afastando os pensamentos. Aquilo acontecera haviamuito tempo, e desde então nenhum de seus livros tinha sido muito bemrecebido por seus leitores. Respirou fundo o ar frio do mar, feliz por terdecidido voltar de Londres durante a noite para embarcar na balsa naquelamanhã. Só haveria outra balsa quinta-feira, e ele estava impaciente paravoltar para Kilfoil e trabalhar. Olhando seu carro, flexionou os ombros e esticou as pernas, sentindo arigidez dos ossos depois de dirigir quase dez horas sem parar. Sua atenção sedesviou para uma mulher solitária inclinada sobre a cerca no fim do cais. Ocabelo dela o atraíra: bem ruivo e encaracolado, rebelando-se contra a faixaamarrada à nuca. Mas ela parecia não se importar. Observava a ilha de Skyecomo se procurasse alguma resposta na neblina sobre as montanhas. Liam deu de ombros. Obviamente era uma visitante. Vestida para o verãonas Highlands, pensou com ironia. Jack Macleod, que alugava veleiros a turistas, saudou Liam quando eledesceu do carro e começou a cruzar o terminal da balsa. — Estávamos começando a achar que você havia desistido de voltar —disse. — Voltei assim que pude. Já não gosto de ficar muito tempo em cidadessuperlotadas. 3
  4. 4. — Ouvi dizer que você foi a Londres para ir ao médico. Espero que nãoseja nada sério. — Só um check-up — disse Liam rapidamente, sem querer discutir seusproblemas particulares em público. Ele sabia que suas vozes haviam chamadoa atenção da mulher no cais, e ela os olhava sobre os ombros. Rosa percebeu que eles haviam notado seu interesse e desviou o olhar,não antes de Liam registrar seu rosto oval e os olhos excepcionalmente pretospara uma mulher de sua cor. É claro que provavelmente a cor de seu cabelonão era natural, e, embora fosse alta, não era magra demais. — Então você vai pegar o barco esta manhã — continuou Jack, sem notarque Liam se distraíra e obrigando-o a ouvi-lo. — Se eu conseguir — disse Liam. Quando ele olhou novamente para trás, a mulher já não estava lá. ROSA voltou para a pousada, arrumou suas coisas e retornou ao terminalna hora de comprar sua passagem para Kilfoil. Achou que parecia uma turista,de jeans, tênis e mochila no ombro. Os outros mochileiros, fazendo fila paracomprar passagem, nem repararam nela. Diferentemente dos dois homens queela vira mais cedo no estacionamento. Bem, pelo menos um deles a olharacom atenção. E a achara interessante. Com certeza ela teria percebido se ele nãotivesse gostado do que viu. Mas não sabia ao certo se ele a havia notado porter percebido que ela os observava. De qualquer modo, ele era atraente, admitiu, com mais de 1,80m,calculou, e os ombros largos se destacando sob o cabelo despenteado.Imaginou que fosse um dos poucos pescadores que ainda trabalhavamnaquelas águas. Não parecia um turista, e o homem que estava com elecalçava galochas, pensou. Era provável que não os visse novamente, a não ser que um deles fossecapitão do barco que tomaria. Talvez alguém na balsa se lembrasse de umamenina loura bonita que teria viajado para Kilfoil na semana anterior. Eladeveria ousar perguntar sobre Liam Jameson? Não, achou melhor. Diziam queele vivia recluso. Mas então o que estivera fazendo num festival de música popem Glastonbury? Pesquisando? Achou que não. Sua mente se confundiu, o que sempre acontecia quando se lembrava doque sua mãe lhe dissera. Sophie já fizera tolices, mas nunca uma loucuradaquelas. Rosa achava que sua irmã finalmente estava tomando juízo, e que ela eMark Champion passariam a viver juntos. Mas agora aquele relacionamentoestava ameaçado por causa de um homem que Sophie conhecera no festival. Rosa apanhou seu bilhete e saiu novamente. A chuva diminuíra e o sol jábrilhava sobre as águas. Um bom presságio, pensou, procurando pela balsaque deveria partir em 45 minutos. Os pedestres embarcariam antes dosveículos. Ela viu aquele homem novamente enquanto esperava em fila no cais. Eleestava num dos carros que aguardavam o embarque. Inesperadamente, seucoração começou a bater mais forte. Então ele estaria no mesmo barco. Quecoincidência! Mas era improvável que fosse para Kilfoil. De acordo com asenhora Har-ris, da pousada, Kilfoil permanecera deserta por vários anos, atéum escritor rico comprar a propriedade e restaurar o castelo em ruínas para 4
  5. 5. ocupá-lo. Liam Jameson, é claro, concluíra Rosa, sem querer, porém, perguntardetalhes àquela senhora para não ter que explicar o motivo que a levava àilha. Dissera a ela que faria umas fotos para uma reportagem sobre odesenvolvimento da ilha. Mas a senhora Harris advertira que a ilha erapropriedade particular e que ela precisaria de uma autorização para tirar fotos. Rosa perdeu Liam de vista quando embarcava na balsa. Ela tremia de frio.Céus, pensou, como alguém pode escolher viver aqui tendo dinheiro paracomprar uma ilha ? Barbados, sim. Caymans, talvez. Mas Kilfoil? Deve serlouco. Ela só conseguia pensar que a ilha lhe dava inspiração para escrever suashistórias de terror. E, de acordo com sua irmã, estavam fazendo um filme delena ilha. Será que isso fazia sentido? Será que Sophie e Mark tinham dito averdade? Sua mãe acreditara em cada palavra. Se Liam não tivesse se envolvido com Sophie…. pensou. Sua irmã seimpressionava com facilidade, e sonhava em se tornar uma atriz de sucesso.Se ela tivesse encontrado Jameson, teria ficado impressionada, sem dúvida.Ele vendera milhões de livros. Cada vez que um novo livro era lançado, Sophieo devorava. E todos os seus filmes haviam feito sucesso. Seu trabalho eracultuado devido a um fascínio cada vez maior pelo sobrenatural. Particularmente os vampiros, que eram sua marca registrada. Mas teria ele estado num festival de música pop? Coisas estranhas haviamacontecido, imaginou, e Sophie certamente convencera Mark de que aquelaera uma chance que não poderia perder. Por que não telefonara para sua mãepara avisá-la, por que pedira a Mark que se desculpasse por ela? Mas seSophie estava mentindo, onde estaria, meu Deus? Felizmente havia uma cabine sob o convés onde os passageiros podiamcomprar sanduíches, refrigerantes e bebidas quentes. Rosa entrou e encontrouum assento perto da janela, de onde podia ver o movimento no cais. Logo todos os passageiros entraram e a fila de carros desapareceu.Devem ter sido colocados na ordem em que serão desembarcados, refletiu,imaginando se o homem que ela havia visto sabia dessa rotina. A balsa seguiria primeiramente para Kilfoil e depois para outras ilhas.Rosa ficou satisfeita. Isto significava que Kilfoil era a ilha mais próxima. A ilhade Skye parecia incrivelmente perto quando a viagem começou. Mas logo asondas em mar aberto começaram a fazer o barco subir e descer. Rosa virou os ombros e viu um grupo de pessoas na cantina. Lamentounão ter comprado uma bebida antes da confusão se formar. Aquela altura, nãotinha certeza se conseguiria atravessar a cabine sem ficar enjoada. Nunca forauma boa tripulante, e a balsa balançava muito mais do que o aerobarco queela e Colin haviam tomado certa vez para Bolonha. — Você está se sentindo bem? Imaginando que devia estar pálida, Rosa virou-se e viu o homem doestacionamento olhando para ela de cima para baixo. Então ele haviaembarcado, pensou, confusa, notando que ele parecia não se importar com obalanço do barco. Embora vestisse um casaco de couro comum sobre acamiseta e o jeans, parecia tão grande e poderoso quanto antes. A camisa saíado jeans em alguns cantos, expondo sua pele morena e seus pêlos. Como ele é sensual, pensou, distraindo-se por um momento de seus 5
  6. 6. problemas. Mas Liam esperava uma resposta e ela forçou um sorriso semgraça. — Eu não imaginava que o mar estaria tão agitado — confessou,pensando se ele havia notado que os olhos dela estavam na altura de suavirilha. Esforçou-se para olhar para qualquer outro lugar. — Acho que vocêestá acostumado — disse. Os olhos dele se estreitaram, com os grossos cílios pretos cobrindo a írisverde esmeralda. Meu Deus, como é bonito, pensou Rosa, observando sua pelebronzeada, seu queixo firme e sua boca, estranhamente sensual emboracomprimida em uma linha fina. Mas ele falou novamente, com a voz maisforte, e ela se desviou dos pensamentos ao perceber que ele não tinha sotaqueescocês. — Por que você diz isso? — perguntou Liam. Rosa piscou os olhos, semconseguir lembrar exatamente o que dissera. Mas logo recordou. — Ah, só achei que você conhecia bem a região — confessou, sem jeito.— Certamente eu estava errada. Você é inglês, não? Liam fez uma careta, reprovando-se pelo impulso que o levara aperguntar se ela estava bem. Rosa estava tão pálida que ele havia sentidopena. Obviamente não vivia ali. Estava sem roupas à prova d’água, sem botas,e até a mochila que levava parecia frágil. — Nem todos nós falamos gaélico — disse ele, finalmente. Ela encolheu os ombros. — Está bem — disse Rosa, contendo sua indignação. Pelo menos aconversa a estava ajudando a afastar os olhos do mar. — Então você vive nasilhas? — Talvez. Ele estava sendo irritantemente reticente. E então, desconcertando-a,afirmou: — Espero que você não pretenda fazer caminhadas vestida dessamaneira. Rosa respirou fundo: — Isto não é da sua conta. — Não — admitiu ele, arrependido. — Eu só estava pensando alto. Masnão consegui deixar de notar que você parecia sentir frio hoje mais cedo. Então ele a notara. Rosa se sentiu menos hostil a ele. — Está muito mais frio do que eu imaginava — admitiu. — Mas espero nãoficar aqui muito tempo. — Uma visita rápida? — Algo assim. Liam franziu a testa. — Você tem parentes aqui? Rosa prendeu a respiração. Ele estava fazendo muitas perguntas. Masentão se lembrou que perguntaria a qualquer um sobre sua irmã. Se aquelehomem usava a balsa regularmente, poderia tê-la visto. E ter visto LiamJameson. Mas preferiu não mencioná-lo. — Na verdade, espero encontrar minha irmã — disse, tentando parecerinformal. — Uma menina loura, bonita. Acho que ela fez essa travessia algunsdias atrás. — Não pode ter feito — disse ele. — Essa balsa só circula às segundas e 6
  7. 7. quintas-feiras. A não ser que ela tenha ido quinta-feira passada. Rosa engoliu seco. Quinta-feira Sophie ainda estava em Glastonbury comMark. Ele telefonara sábado à noite para avisar à mãe do que acontecera, eisto levara a senhora Chantry a telefonar para Rosa, histérica. — Você tem certeza? — perguntou ela, tentando imaginar se LiamJameson teria um avião ou um helicóptero. Provavelmente tinha, pensou. Porque viajaria como um simples mortal? Deve até ter um barco. — Tenho — respondeu ele. — Isto quer dizer que você não acha que suairmã esteja aqui? — Talvez. — Rosa não queria dividir seus pensamentos com ele. — Faltamuito tempo para chegar? — Depende de para onde você está indo — observou Liam, secamente,embora curioso. Rosa achou que não havia problema em lhe dizer seu destino. — Ah, Kilfoil — disse, notando que suas palavras o surpreenderam. Bem, que ele fique ruminando, pensou com despeito. Ele não havia sidoexatamente delicado com ela. 7
  8. 8. CAPÍTULO DOIS LIAM ficou surpreso. Achou que sabia tudo sobre as famílias que haviamse mudado para a ilha depois de adquiri-la. Inabitadas durante anos, as casasestavam em ruínas, e ele fizera um esforço descomunal para tornar o lugarhabitável novamente. No processo de instalação de rede elétrica, gerador eserviços básicos, tornara-se amigo daquelas famílias. Agora Kilfoil tinha umaeconomia saudável, com turismo, pesca e fazendas que garantiam asubsistência de centenas de pessoas. Ele queria indagar por que ela achava que a irmã estava na ilha, massabia que já havia feito muitas perguntas. Está bem, ela o intrigava, com seuar de desafio tímido e a inocência com que falava sobre a ilha. A não ser quesua percepção tivesse falhado, havia algo além do desejo de se encontrar coma irmã. Teria a menina fugido? Talvez com um namorado? Mas por que teriaido para Kilfoil? Até onde ele sabia, não havia padre na ilha. Rosa o viu pôr as mãos nos bolsos traseiros do jeans, aparentemente semnotar que o botão na cintura estava aberto. Ela pensou em dizer-lhe, mas istomostraria que estava olhando, e então desviou o olhar. — Mais ou menos uma hora — disse ele, respondendo. E então, como se sentisse a ausência dela, afastou-se e foi até o bar nooutro lado da cabine. Discretamente, Rosa viu que ele conversava com ojovem atendente. Ele recebeu um troco e o jovem lhe entregou duas xícarasde plástico. Duas? Rosa rapidamente afastou o olhar. Seria uma das xícaras para ela?Preferiu não olhar, não ver se ele estava voltando para onde ela estava, casoestivesse errada. — Quer um café? Sim. Ele estava diante dela novamente. — Ah, não precisava — murmurou, embaraçada. — Obrigada. Por quevocê não se senta? Liam hesitou. Não costumava comprar café para mulheres estranhas,dividindo com elas seu espaço. Mas aquela parecia tão deslocada que nãoconseguiu deixá-la. Poderia ser uma jornalista atrás de uma notícia, pensou.Mas se fosse isso, estaria bem à vontade com ele. Ela parecia muito vulnerável e, deixando de lado a cautela, ele se sentou aseu lado. Ao sorver o café, olhou-a discretamente. Ela o observava e Liamdisse: — Pelo menos está quente. — Está muito bom — assegurou Rosa, sem ser completamente sincera. Ocafé estava amargo. — Você foi muito gentil. — Hospitalidade escocesa — disse ele, com ironia. — Somos conhecidospor isso. Ela o olhou de lado. — Então você é escocês? Deve conhecer bem a região. Como é Kilfoil? Écivilizada? — Onde você acha que está? No deserto da Mongólia? 8
  9. 9. Ela ficou corada. — Não. Mas me fale sobre a ilha. Há casas, lojas, hotéis? Liam hesitou, dividido entre o desejo de descrever seu lugar e a vontadede não parecer familiarizado com a região. — É como muitas outras ilhas — disse finalmente. — Há uma vila, e vocêpode comprar as coisas que precisar. A correspondência e os artigos de luxochegam de balsa. Assim como os turistas, que ficam em hospedarias locais. Rosa se sentiu aliviada. — Então não é desolado, ou algo assim. — É bonito — disse Liam, pensando em o quanto estava aliviado porvoltar. — Todas essas ilhas são bonitas. Eu não viveria em outro lugar. As sobrancelhas de Rosa se ergueram. — Onde você mora? Ele estava encurralado. — Em, Kilfoil — respondeu, com relutância. E decidiu que já havia falado osuficiente. — Desculpe-me, preciso checar meu carro. Rosa ficou pensativa enquanto terminava seu café. O que um homemcomo ele faria na ilha? Seria um pescador, como ela especulara? De algumamaneira isso não parecia provável. Um pensamento lhe ocorreu. Talveztrabalhe para Liam Jameson. Ou para uma equipe de filmagem, se estiveremfazendo um filme na ilha. Devia ter perguntado se estavam filmando em Kil-foil. Mas aí teria queexplicar por que estava ali. Não. Era melhor esperar antes de começar a fazerperguntas. Não queria alertar Liam sobre quem era. Rosa tremeu ao imaginar o que tinha que fazer. Sua missão, pensou comironia. Céus, o que estava pretendendo fazer? As pessoas na ilha lhe diriam sehouvesse uma equipe de filmagem. Já informar onde morava Liam Jamesonera outra história. A viagem parecia interminável. Se o que o ele dissera era verdade, nãodeveria demorar muito. Ao olhar para a frente do barco, viu uma massa deterra adiante. Seria Kilfoil? Esperava que sim. Telefonaria para a mãe assimque chegasse. Lúcia Chantry devia estar desesperada por notícias. Sophie era seu bebê,e embora soubesse que às vezes ela era egoísta e voluntariosa, não escondiaque era sua filha favorita. Sophie nunca agia mal, enquanto Rosa estavasempre cometendo erros, inclusive quando se casou. Nunca gostara de ColinVincent, e não hesitou em dizer eu avisei quando Colin se revelou um calhorda. Enquanto a balsa parava lentamente, Rosa se levantou, ansiosa paraobservar seu destino. Não é nada impressionante, pensou, apenas umpunhado de casas na encosta. O céu nublado não ajudava. Quinze minutos depois ela estava no cais, observando os poucos carrosque desembarcavam na ilha. Acima dela, viu a estrada que serpenteava até avila e as encostas escuras de uma cadeira de montanhas por trás. De repentea ilha parecia muito maior do que imaginara. E se realmente encontrasseSophie, se ela não estivesse mentindo? Como conseguiria levá-la para casa?Se a irmã estivesse encantada com um astro, nada que dissesse adiantaria. Rosa acabara de notar uma placa de “Correios” quando viu um Audi cinzadescendo a rampa e indo em sua direção. O homem que lhe comprara caféestava ao volante e ela se virou abruptamente. Não queria que ele achasse —nem por um momento — que ela o procurava. 9
  10. 10. Para seu alívio, o carrão passou rapidamente por ela. Mas, em seguida,freou e deu ré. Parou a seu lado e a porta se abriu. Ele pôs as pernas parafora, levantou-se com visível esforço e se virou para ela. Rosa notou que ele forçava a perna esquerda, o que não observara nabalsa. O balanço do barco impediria qualquer observação desse tipo. Enquanto isso, Liam se reprovava por ser tolo a ponto de parar o carro.Mas ainda tinha a impressão de que um vento a derrubaria. E certamente elanão estava interessada nele. Liam percebera que ela deliberadamente havia sevirado de costas para ele. Então por que bancava o cavaleiro errantenovamente? — Algum problema? — perguntou, forçando-a a olhar para ele. — Espero que não — disse Rosa firmemente, desejando que elesimplesmente fosse embora. Mas, se por acaso a ajudasse, ficaria grata. — Ah, eu só estava procurando os correios. Queria perguntar onde fica ocastelo de Kilfoil. — Castelo de Kilfoil — Liam agora estava desconfiado. — Por quê? Nãoestá aberto ao público. — Sei disso — disse Rosa, e suspirou. Em seguida, cedendo ao desejo deconfiar nele, acrescentou: — Você sabe se há uma equipe de filmagem trabalhando lá? — Uma equipe de filmagem? — agora Liam estava realmente preocupado.Estaria o tempo todo equivocado em relação a ela? — Sim, uma equipe de filmagem — repetiu Rosa. — Acho que estãofilmando um dos livros de Liam Jameson na ilha. Diabos! Liam a fitou, tentando descobrir se ela era tão ingênua quanto parecia. — Por que você acha que Liam Jameson permitiria que uma equipe defilmagem profanasse sua casa? Sei que fazem filmes sobre seus livros, masnão são filmados aqui. Era sua imaginação ou os ombros dela haviam desabado diante danotícia? O que estava acontecendo? Ela esperava encontrar a irmã num set defilmagem? — Acho que você está equivocada — disse ele, gentilmente. — Alguém lhedeu uma informação errada. Posso assegurar que não há nenhuma equipe defilmagem no castelo nem em qualquer outro lugar na ilha. Rosa balançou a cabeça. — Tem certeza? — Sim. — Você não está querendo me afastar? — Claro que não! — Liam a fitou com compaixão. — Entendo que eu possadecepcioná-la, mas não acho que sua irmã esteja aqui. As sobrancelhas de Rosa se juntaram. — Não me lembro de ter-lhe dito que minha irmã estava com a equipe defilmagem. — Não, mas não é preciso ser um matemático para somar dois mais dois. Rosa mordeu os lábios. — Está bem. Talvez eu tenha pensado que Sophie pudesse estar com eles.Mas se não está, talvez esteja em outro lugar. 10
  11. 11. Liam a fitou. — Na ilha? — Sim — Rosa ergueu a cabeça. — Talvez você pudesse me indicar ondeé o castelo de Kilfoil. Eu poderia pegar um táxi ou algo assim se for muitolonge? Liam piscou os olhos. — Por que razão você acha que sua irmã está no castelo de Kilfoil? —perguntou, tentando não se mostrar ultrajado com a suposição. Ela suspirou. — Porque aparentemente ela se encontrou com Liam Jameson dias atrás,no festival de Glastonbury. Ele disse a ela que estavam fazendo um filme sobreseu último livro na Escócia e a convidou para um teste de atriz. DIZER que Liam estava chocado seria pouco. Era como se de repenteRosa tivesse começado a falar numa língua estranha e ele não conseguisseentender. Até a manhã de domingo estivera numa clínica em Londres, fazendoum tratamento muscular para tentar reduzir os espasmos na perna. Alémdisso, nunca estivera num festival de música pop na vida. Percebendo que Rosa esperava que dissesse algo, Liam tentou seconcentrar. Era óbvio que ela acreditava no que dizia. Sua aparência de incerteza eexpectativa era convincente demais. Mas, que diabos, se sua irmã inventaraessa história, por que ela acreditara? Qualquer pessoa que conhecesse LiamJameson saberia que era mentira. Mas talvez ela não soubesse. Com certeza não o reconhecera. E,convenhamos, não era tão absurdo. Dois de seus filmes haviam sido filmadosna Escócia. Mas não em Kilfoil. — Liam Jameson vive aqui, não? Rosa esperava que ele dissesse algo, em vez de ficar olhando-a comaqueles olhos verdes penetrantes, que pareciam observar sua alma. Ela sesentiu desconfortável diante de seu olhar escrutinador. Liam provavelmentenão percebia, mas ela estava ficando realmente excitada. — Sim — disse ele, finalmente. — Ele mora no castelo de Kilfoil, comovocê deve saber. Mas não há como ter proposto um teste a sua irmã. Ele nãose envolve em filmes. Se ela lhe disse isso, estava errada. — Como você sabe? — Embora Rosa estivesse pronta para aceitar que eleestava certo, ficou curiosa sobre aquela certeza dele. — Você o conhecepessoalmente? Liam esperava por aquilo. — Sei sobre ele — disse, relutando em lhe contar quem era. — É meiorecluso e, pelo que sei, nunca foi a Glastonbury. Sua irmã deve ser jovem.Liam tem 42 anos. — Quarenta e dois! Se ele imaginasse que ela pudesse saber sua idade, estava errado. Rosaemendou: — Isso tudo? — Não é tão velho assim — resmungou Liam, sem disfarçar uma pontadade indignação. — Que idade tem sua irmã? — Quase 18. Você acha que Liam Jameson gosta de meninas novas? — Ele não é um pervertido — disse Liam, com severidade, e mudando de 11
  12. 12. tom. — E, convenhamos, você não tem nenhuma prova de que ela está comJameson. — Eu sei disso — afirmou Rosa. — Mas onde ela poderia estar? — Rosamolhou os lábios, sua língua se movendo numa provocação inconsciente. — Dequalquer modo, se me indicar onde fica o castelo, vou até lá para saber se osenhor Liam Jameson tem uma resposta. Foi quando Liam deveria tê-la impedido. Deveria ter explicado quem era ecomo sabia que Liam Jameson nunca fora a Glastonbury, mas não tevecoragem. Havia ido longe demais para simplesmente confessar que era quemela procurava. E seu senso de privacidade inato o tornara vítima de sua própriamentira. — Olhe, acho que você está perdendo seu tempo — disse ele,cuidadosamente. — Jameson nunca foi a um festival de música pop. Até ondeeu sei. — Você sabe um bocado sobre ele — disse Rosa, com curiosidade. — Temcerteza de que não é amigo dele? — Tenho — afirmou Liam, desejando que nunca tivesse começado aquilo.— Mas eu moro na ilha. É um lugar pequeno. — Não parece tão pequeno. E não estou ansiosa para encontrar essehomem, se quer saber a verdade. Ele escreve umas coisas terríveis.Fantasmas, lobisomens… — Vampiros — corrigiu Liam, sem pensar. — … Coisas assim — murmurou Rosa, demonstrando que não prestavaatenção nele. — Provavelmente foi por isso que Sophie se impressionou tantocom ele. Ela lê tudo o que ele escreve. — É mesmo? Liam não conseguiu esconder um ar de satisfação. Por mais que seuagente e seu editor dissessem que era um bom escritor, nunca acreditavarealmente. — Ah, sim. Sophie é louca por livros, TV e cinema. Quer ser atriz, vejavocê. Se esse homem esteve em contato com ela, certamente Sophie não olargou. — Mas ele não esteve com ela — afirmou Liam — Você não acreditarealmente nisso, não é? — Talvez não. — Rosa tinha que ser honesta. — Mas se não se importa,eu prefiro ouvir isso do próprio Liam Jameson. Liam franziu a testa e pressionou a ponta de sua bota contra uma pedra,consciente de que a qualquer momento alguém poderia chegar e falar com ele,e então não teria como se explicar. — Olhe — disse relutantemente —, por que você não toma a próximabalsa e vai para casa? Se sua irmã quiser lhe dizer onde está, dirá. Enquantoisso não acontecer, provavelmente você será mais inteligente se não acusarpessoas de coisas que não pode provar. Rosa tremeu. — Entrar numa balsa de novo? Acho que não. — A próxima só sai na quinta-feira, como eu disse. Rosa tentou não demonstrar seu desalento. — Agora não há nada que eu possa fazer. E Liam Jameson é a única pistaque tenho. 12
  13. 13. Liam suspirou. — Está bem, está bem. Se esta é sua palavra final, eu a levo. — Me leva aonde? — Ao castelo de Kilfoil. Não é onde você quer ir? — É. Mas você acha que o senhor Jameson me receberá? — Eu asseguro que sim — disse Liam secamente. — Vamos. — Mas eu nem sei quem você é — protestou Rosa, a idéia de entrar numcarro com um estranho assumindo de repente uma importância maior do quetinha antes. — Sou… Luther Killian — murmurou Liam, sem graça, esperando que elareconhecesse o nome de seu principal personagem. Mas não houve reação. A irmã podia ter lido seus livros. Rosa, comcerteza, não. 13
  14. 14. CAPÍTULO TRÊS ROSA hesitou. — Ah, é longe? — arriscou, recebendo um olhar de impaciência de Liam. — Leva um bom tempo caminhando, se é o que você está pensando —respondeu ele. — Tem o velho McAllister, é claro. Ele trabalha como taxista, senecessário. Mas seu carro não é muito confiável. Rosa olhou sua bolsa pesada. — Está bem, obrigada — disse, com certo receio. — Se não for muito forade seu caminho. Não me faça favores, pensou Liam, irritado, apanhando a bolsa de Rosa ecolocando-a no porta-malas. Ele se sentou no carro e indicou para ela oassento ao lado. Sua perna doía por ter ficado muito tempo em pé. Para Rosa, a ilha pareceu bem maior do que imaginara no momento emque o Audi subiu a encosta fora da vila. Eles chegaram a um amplo platôverdejante, com pequenos lagos que brilhavam com os intermitentes raios desol. À esquerda, as montanhas que ela vira do cais pareciam grandes eimponentes. — Ali é o pântano de Kilfoil — informou Liam, apontando para um terrenodo outro lado da estrada. — Não se iluda com sua aparência. Em algunslugares é um brejo. Nem os carneiros pastam ali. — O senhor é fazendeiro, senhor Killian? Fazendeiro! Liam disfarçou um riso no canto da boca. — Tenho algumas terras — concordou, nem admitindo, nem negando. Eprocurou mudar de assunto. — A ilha é muito mais bonita do outro lado dopântano — E alguém que caminhava por ali já afundou no pântano? — perguntouRosa. Liam lançou-lhe um olhar zombeteiro: — Só nos livros de Jameson, acho. Rosa fez uma careta. — Ele parece estranho. Acho que morando aqui pode fazer praticamente oque quer. — Ele é um escritor — disse Liam, irritado com o comentário. — Escrevesobre monstros, mas isto não significa que seja um monstro! Rosa reconheceu que o isolamento a amedrontava. O grito de um pássarofez um frio percorrer sua espinha. Um bando de faisões, assustados com obarulho do carro, levantou vôo abruptamente. Ela fez um ruído estranho, eLiam voltou-se para ela: — Alguma coisa errada? — Eu estava pensando no que você disse — afirmou, sem sercompletamente sincera. — Acho que concordo com você. Liam Jameson nãotraria Sophie para cá. — Não? — perguntou ele, com cuidado. — Não, quer dizer — e apontou para o pântano —, não consigo imaginarum homem que vive aqui indo a um lugar frenético como o festival. Vocêconsegue? Liam comprimiu os lábios. 14
  15. 15. — Acho que me lembro de ter dito isso meia hora atrás — reagiu. — Oh, sim, você disse, — Rosa fez uma careta. — Sinto muito. Acho queeu deveria ter ouvido você. Liam balançou a cabeça. Não sabia o que ela esperava que dissesse. Masse esperava que desse meia volta e a levasse para a vila, estava enganada.Estava cansado. Diabos! Acabara de percorrer mais de 800 km. Se elaquisesse voltar, Sam a levaria. No momento, precisava de um café-da-manhã,um banho e cama, não necessariamente nessa ordem. Ou pelo menos foi o que disse a si mesmo. Na verdade, curiosamenterelutava em abandoná-la. Sentia pena dela, pensou. Rosa chegara ali numaprocura impossível e ficaria bastante ressentida quando descobrisse que ele aestava enganando também. Seus pensamentos o surpreenderam, porém. Aquele sempre fora seuretiro, seu santuário. O único lugar onde conseguia escapar da correria loucaem Londres. O que estava fazendo levando uma estranha para casa? Não erauma adolescente! Era uma mulher crescida o suficiente para tomar conta de siprópria. — De qualquer modo — disse ela de repente —, vou perguntar se ele sabeonde ela pode estar. Se estão fazendo um filme aqui, ele saberá, não acha? Os dedos de Liam apertaram o volante. Por que não dizia a ela quem era?,pensou impacientemente. Por que não admitia que escondera sua identidadeporque temia que ela tivesse outro motivo para estar ali? Rosa poderia nãoacreditar nele, mas seria melhor do que se sentir uma fraude completa cadavez que ela mencionava seu nome. — Olhe, senhorita… — Chantry. Rosa Chantry. — Sim, senhorita Chantry — hesitou. — Olhe, tem uma coisa que eu… Mas antes que pudesse terminar a frase, ela o interrompeu. — Oh, meu Deus! — exclamou apavorada, e por um momento Liam achouque ela o reconhecera. Mas então ela apanhou a bolsa e retirou dela o celular. — Prometi que ligaria para minha mãe assim que chegasse. Desculpe-meum minuto. Tenho que telefonar antes que ela comece a achar que perdeuduas filhas, e não uma. — Sim, mas… — começar a tentar lhe explicar que celulares não pegavamna ilha quando ela expressou sua frustração. — Ora, a bateria deve ter acabado. Não há sinal nenhum. — É porque não há celulares na ilha. Durante anos esse lugar estevedeserto, e, embora as coisas tenham mudado, preferimos não despejar na ilhatodo o lixo do século XXI. — Você quer dizer que não vou conseguir ligar para minha mãe? — Não. Há linhas fixas. — Então você acha que Liam Jameson vai me deixar telefonar de seucastelo? — Estou certo de que sim — murmurou Liam, sabendo que estava seafastando do personagem que criara. — Não fique achando que a ilha é umlugar atrasado. Desde que se modernizou, é um lugar agradável para se viver. Rosa ergueu as sobrancelhas bem mais escuras que seu cabelo. — Por isso veio para cá? Para escapar da correria louca? 15
  16. 16. — De certa maneira. — E você gosta de morar aqui? Não fica entedia-do? — Nunca fico entediado — disse Leam secamente. — Você fica? — Não tenho tempo para ficar entediada — respondeu ela, com tristeza.— Sou professora. Meu trabalho me mantém ocupada. — Ah — compreendeu Liam. Ele achou que aquilo explicava muitas coisas. Como o fato de ela estar ali no meio de agosto e por que ela às vezesparecia tão metódica. O pântano agora se distanciava e eles começavam adescer uma estrada sinuosa para um vale. Ele apontou para a frente. — Láestá o castelo. O que você acha? Rosa prendeu a respiração. — É… bonito — disse. E era. Grande e sólido, debruçado sobre o mar. Era magnífico. — Muito impressionante — repetiu Rosa. Não era o que ela esperava. —Mas como alguém pode morar num lugar desses? Deve ter mais de cemcômodos. — Na verdade, 53 — disse Lean sem pensar. — Ou quase isso, ouvi dizer— corrigiu-se. — Cinqüenta e três? — Rosa balançou a cabeça. — Ele deve ser muitorico. — Alguns são apenas ante-salas — disse Liam, ressentindo-se danecessidade de se defender, mas sem conseguir evitar. — Estou certo de queele não usa todos. — Acho que não — concordou Rosa. — Ele é casado? — Não. Liam não hesitou em dizer isso a ela. Afinal, era uma informação queaparecia em sua biografia presente em todos os seus livros. — Ele mora sozinho? — insistia Rosa. — Tem namorada? Ou namorado? —acrescentou, com uma careta. — Hoje, nunca se sabe. — Ele não é gay — disse Liam, incomodado. — E tem empregados quecuidam do lugar. Portanto, dificilmente está sozinho. — É sempre assim. Aposto que paga bem aos empregados para mantê-losali. Liam apertou o queixo e não respondeu. Poderia ter dito que muitos dosempregados fugiam de Londres, assim como ele. Não empregava nativos. Osilhéus só queriam trabalhar em meio expediente, para cuidar de seus própriosinteresses. Eram bastante independentes, e preferiam a pesca e a agricultura atrabalhos caseiros. Eles se aproximaram do castelo passando por um campo com carneiros egado. Rosa viu pequenas casas na encosta, com fumaça nas chaminés. Umriacho, que provavelmente nascia nas montanhas, descia sobre pedras até omar. E lá embaixo havia uma praia limpa e totalmente deserta. Rosa pensou que qualquer pessoa que não conhecesse aquele lado daEscócia ficaria encantada com a beleza. O mar era calmo, e em alguns trechostão verde quanto… os olhos de Luther Killian. E tão intrigante quanto, emboraprovavelmente gélido. De perto, o castelo era ainda mais explêndido. A reforma não haviaalterado o estilo e o charme daquela construção. Eles passaram numa ponte demadeira sobre um canal seco e estacionaram no jardim, próximo às portas de 16
  17. 17. madeira cheias de detalhes. Uma das portas se abriu imediatamente e um homem e vários cãesapareceram. Os cachorros — dois golden retrievers e um spaniel — desceramos degraus para saudá-los, com os rabos abanando de excitação. Liam saltou do carro. Novamente, sua perna se enrijeceu e ele lamentousua dificuldade de desfrutar um dos prazeres da vida. Sempre gostara dedirigir e tinha muitos carros. Preferia-os ao helicóptero que seu agente insistiaque era essencial. E alugava o avião ao serviço de socorro médico local maisdo que o usava. Lutando contra a dor, caminhou até Sam Devlin, que cuidava dapropriedade para ele com eficiência. — Liam — disse Sam, ao que seu patrão reagiu erguendo o dedo diantedos lábios, num sinal para que ficasse quieto. — É bom vê-lo de novo —emendou, confuso. — Há algo errado? Liam olhou para trás e Sam viu Rosa saindo do carro. — Temos uma visitante? — perguntou, surpreso. Ele sabia, mais do queninguém, que Liam nunca levava estranhos a Kilfoil. — Temos — disse Liam, em voz baixa, depois de apertar a mão do homemmais velho. — Ela está aqui porque quer perguntar a Liam Jameson onde estásua irmã. — O quê? — Sam o fitou. — Mas você… — Ela não sabe — suspirou Liam. — É uma longa história, Sam, mas não éhora de contá-la. Pretendo contar a ela, mas não agora. Sam se recompôs quando Rosa se aproximou devagar enquanto os cães afarejavam. — Bem-vinda a Kilfoil, senhorita — disse. Liam apresentou um ao outro. — Este é Sam Davlin, braço direito de Liam Jameson. Sam, esta é asenhorita Rosa Chantry. Talvez a senhora Wilson faça a gentileza de convidá-lapara o almoço — disse Liam. — Na verdade — disse ela — eu gostaria apenas de uma palavra rápidacom o senhor Jameson. — O senhor Jameson está ocupado no momento — disse Sam, olhando delado para seu patrão. — Vou mostrar-lhe onde pode esperar por ele. — Mas o senhor acha que ele me atenderá? Sam olhou para seu patrão e disse: — É possível. Acompanhe-me, por favor. Rosa hesitou, voltando-se para Liam com um sorriso. — Obrigado pela carona. Até logo, senhor Killian. Liam inclinou a cabeça, certo de que Sam o fitava boquiaberto. — Foi um prazer — respondeu, percebendo que de fato havia sido umprazer. Liam se virou enquanto Sam levava Rosa para o interior do castelo. Elanão ficaria muito feliz ao descobrir quem ele realmente era. Enquanto isso, Rosa lamentava, de um modo que não compreendia, o fatode que não veria Luther Killian novamente. Ele havia sido gentil, apesar de suaingratidão. Gostaria de ter perguntado onde morava. Afinal, o que quer queacontecesse, ela ficaria na ilha pelo menos dois dias. Rosa acompanhou o empregado pelo castelo com relutância. Emboraquisesse falar com Jameson, era um tanto amedrontador estar ali. Castiçais 17
  18. 18. iluminavam bem o saguão por onde passavam, e havia uma lareira acesa, masera intimidante. O teto alto e as paredes com tapetes pendurados a fizeramlembrar que o homem que procurava ganhava a vida assustando seus leitores. — Usamos o saguão apenas como sala de recepção. O resto do castelo émuito mais aconchegante. De outro modo, seria impossível manter o lugaraquecido. Rosa não podia acreditar. — O senhor Jameson vive aqui o ano inteiro? — A maior parte do ano — disse Sam. — Exceto quando está fora paracuidar dos negócios ou para se distrair. Por favor, acompanhe-me. Para surpresa de Rosa, e um certo medo, eles cruzaram o saguão até olugar onde uma sinuosa escada de pedras levava ao segundo andar. — Não seria mais fácil esperar aqui pelo senhor Jameson? — perguntouela. — Sinto lhe dizer que não — afirmou Sam, educado mas determinado. —Neste andar do castelo estão a cozinha, a despensa e os quartos de todos osempregados. — Entendo — reagiu Rosa. Sem alternativa, seguiu o homem escada acima. — Oh, não é maravilhoso? — exclamou, parando diante de uma janelapara olhar a vista. A janela dava para a frente do castelo e ela ficou surpresa ao ver que ocarro de Luther Killian ainda estava ali. Olhando para Sam Devlin, comentou: — O senhor Killian ainda está aqui. — Está? — reagiu Sam, demonstrando pouco interesse. Rosa se lembrou que Killian dissera que falaria ele próprio com Jameson.Devia estar explicando a situação. Se fosse isso, teria mais um motivo para lheagradecer. Talvez antes de ir embora perguntasse a Sam onde Killian morava. Mas pensando nisso lembrou-se de que não telefonara para a mãe. — Eu poderia usar o telefone enquanto espero? — Há um telefone aqui — disse Sam, abrindo uma porta que dava para oque parecia ser uma biblioteca. — Fique à vontade. Pedirei à senhora Wilsonque providencie um refresco. — Poderia avisar ao senhor Jameson que estou aqui? — perguntou Rosa,notando uma curiosidade em seu olhar. — Vou avisar — respondeu ele. — Com licença. Rosa tentou não ficarapreensiva quando a porta se fechou. Então, ali estava ela. Chegara a seudestino. Se as circunstâncias não fossem as que esperava, não era sua culpa.Ao redor, viu paredes cobertas de livros, uma mesa com tampo de granito,cercada de papéis, um laptop e várias cadeiras de couro. Aproximando-se dasprateleiras, puxou um livro pesado com o título Mitos de vampiros do séculoXV, e rapidamente o pôs de volta no lugar. Estava perdendo tempo, pensou,ao ver o telefone. Enquanto esperava a ligação completar, observou os jardinsdo castelo e duas estufas de vidro. Era um lugar auto-suficiente, pensou.Apesar de sua reação inicial, invejou Jameson por viver ali. Era um lugartranqüilo como poucos atualmente. — Rosa? É você? — perguntou sua mãe ao telefone. — Encontrou Sophie?Ela está bem? — Não a encontrei — Rosa preferiu não mentir. — Não há equipe de 18
  19. 19. filmagem na ilha, mãe. Sophie devia estar inventando. — Ela não faria isso — disse a ingênua senhora Chauntry. — Mark deveter se confundido. A Escócia é grande. Devem estar filmando em outro lugar. — Mas onde? — Não sei. Você tem que descobrir. — Talvez — esquivou-se Rosa. — Talvez eu saiba mais depois de falarcom Liam Jameson. — Você não falou com ele pessoalmente? — Como poderia? Acabei de chegar. Foi uma longa viagem. — Onde você está? Em algum bar em Mallaig? — Estou na ilha. No castelo de Kilfoil. E tenho certeza de que não há nadaacontecendo aqui. — Então o senhor Jameson não está aí. — Não disse isso — interrompeu Rosa. — Eu não falei que saberei maisdepois que falar som ele? Rosa tentava ser paciente. Ouviu a porta se abrindo. — Mãe, tenho que desligar. Telefono mais tarde, assim que tiver notícias. Levantando-se da cadeira junto à janela, Rosa viu Luther Killian à porta.Ele estava mudado. A camisa amarrotada e o jeans haviam sido trocados poruma blusa de tricô roxa e uma calça de algodão leve. A julgar pelas gotas deágua em seu cabelo preto, havia tomado banho. Rosa estava boquiaberta, masrapidamente se recompôs. — Ah, oi — disse, confusa. — Achei que você tinha ido embora. Liam sorriu com cautela. — Está tudo bem em casa? — perguntou, imaginando o telefonema. Elepôs as pontas dos dedos nos bolsos da calça. — Você parece surpresa por mever. — Estou — Rosa achou que não fazia sentido mentir. — Você falou comLiam Jameson. Ele concordou em me ver? — Sim — disse Liam, tendo mais dificuldade do que esperava. — Sintodesapontá-la, Rosa, mas eu sou Liam Jameson. Rosa o olhou, perplexa. — Você está brincando! — Não. — Liam fez uma careta, desfez sua pose desajeitada e caminhouaté ficar atrás da mesa. — Eu não queria enganá-la. De início, não. As coisasacabaram acontecendo desse jeito. 19
  20. 20. CAPÍTULO QUATRO — VOCÊ não está pensando seriamente em permitir que ela fique aqui atéconseguir pegar a balsa de volta, está? — perguntou Sam, preocupado. —Você não sabe nada sobre essa mulher. Como ter certeza de que não foiapenas um truque para vir ao castelo? — Não sei — disse Liam, acabando de comer um prato de bacon com ovose apanhando uma caneca de café. — Mas, respondendo a sua pergunta, elapartirá esta manhã. Logo que arrumar sua bagagem. — Graças a Deus — disse Sam. — Não acreditei quando Edith me disseque ela passaria a noite aqui. Não que ela não seja honesta. É que você nãocostuma convidar estranhos. — Eu sei — Liam percebia seu tom afiado, mas não gostava que Sam lhedissesse o que já sabia. — De qualquer modo, duvido que você tivesse gostadode levá-la à vila na noite passada. — Você poderia ter chamado McAllíster. — Mas não chamei. E se quer saber, não acho que ela tenha algum motivooculto para estar aqui. Ela nem sabia quem eu era até eu lhe contar. — Isso é o que você diz. — Eu sei. — Está bem, está bem — Sam recuou. — Mas sempre suspeito deestranhas supostamente inocentes que surgem do nada. Quem seria estúpidoo suficiente para achar que você permitira uma filmagem em Kilfoil? — A irmã adolescente dela, talvez? — Mas você não se envolve com filmes. — Eu disse a ela. — Então por que a trouxe aqui? — Ela insistiu em falar pessoalmente com Liam Jameson. — Foi quando se fantasiou de Luther Killian? — Sam bufou. — Não sei oque estava pensando, Liam. Você não é um adolescente. Devia saber o quefaz. Se fosse o tipo que sai por aí com moças, seria diferente. Sei que sediverte de vez em quando, mas nunca trouxe suas conquistas para casa. Pelomenos desde Kayla. — Não entre nesse assunto, Sam. Liam ficou inquieto e Sam notou sua reprovação. Fazia anos que nãopensava em Kayla Stevens, a mulher com quem planejara se casar antes desofrer o ataque que quase o matara. Eles haviam se conhecido num almoço de seu editor, quando seu primeirolivro chegou ao topo das listas de best sellers. Kayla era modelo, contratadapor sua agente para proporcionar glamour a eventos como aquele. Ela pareciadeslocada, inocente demais para ser forçada a ganhar a vida daquela maneira.Liam sentiu pena dela, em grande parte como se sentia agora em relação aRosa Chantry, pensou ele. Mas acabou percebendo que Kayla sempre estiveraatrás de uma boa oportunidade. Embora ela tivesse ido algumas vezes ao hospital depois do ataque, aidéia de se unir a um homem com cicatrizes, que poderia ficar impotente ouparalítico, e que com certeza precisaria de muitos cuidados para se recuperar, 20
  21. 21. não a atraiu. Seis meses depois, se casou com um jogador de pólo da Américado Sul com dinheiro suficiente para manter o estilo de vida ao qual seacostumara. O fato de que sem Liam ela não teria conhecido um homem comoaquele não teve a menor importância. Agora Sam estava cabisbaixo, e Liam teve pena dele. — Veja, isto não tem nada a ver com Kayla, certo? Tem a ver com ajudaruma pessoa. A mãe de Rosa não sabe onde sua filha mais nova está. Deveestar muito preocupada. — Então por que não vai à polícia? — Para dizer o quê? Que a filha sumiu com outro homem e que onamorado está com ciúmes? Sam, adolescentes são imprevisíveis.Provavelmente ela estará de volta em dois dias e negará tudo. — Então por que você se envolveu nisso? Boa pergunta. — Tenho me perguntado isso — admitiu Liam. — Não sei. Segundo Rosa,a irmã é minha fã. Talvez eu esteja lisonjeado. De qualquer modo, ela estáindo embora hoje. A LUZ do sol a despertou. Quando finalmente havia se deitado, passavada meia-noite. Achou que não fosse conseguir dormir, e a luz da lua aconfortara. Mas devia estar mais cansada do que pensava, tanto mentalquanto fisicamente. Do contrário, por que teria aceitado a ajuda de Liam? A descoberta de que ele era Liam Jameson lhe havia tirado o equilíbrio. Ea enfurecera também, admitiu. Ele não tinha o direito de mentir sobre quemera, embora estivesse desesperado para se manter anônimo. O fato de ele ter ficado chocado com a suposição de que encontrara suairmã no festival e de que lhe oferecera um teste de atriz até que eradesculpável. Mas ela não estaria ali se Liam tivesse sido honesto desde ocomeço. Rosa afastou o edredom, levantou-se e caminhou descalça até a janela. Ochão estava frio, mas ela pensou que nunca se cansaria daquela vista. Via omar do alto, quebrando nas pedras. O sol tingia as ondas de dourado. Mashavia nuvens no horizonte, prenunciando uma chuva, talvez à tarde, pensou,imaginando onde dormiria a próxima noite. Custou a perceber que era mais tarde do que pensava. Ou talvez o aromade pão quente a tenha feito se lembrar que não comia desde a noite anterior. Logo reparou que havia uma bandeja na cômoda junto à porta. Evidentemente, alguém a pusera ali. Teria sido aquilo que a acordara? Aoolhar o relógio, viu que já eram 9h30. Espantou-se. Devia ter dormido pelomenos oito horas. Ela hesitou, dividida entre tomar banho e se vestir e investigar o conteúdoda bandeja. A bandeja venceu. Rosa a pegou e se sentou junto à janela. Umajarra de café logo a atraiu. Havia ainda leite e creme em jarras pequenas,açúcar mascavo e uma cesta de pães quentes. Era dali que vinha o cheiro,percebeu, tocando neles com cuidado. Os pães cheiravam a passas e canela. Teria Liam Jameson preparado tudo aquilo para ela? Era mais provávelque tivesse sido a senhora Wilson, pensou, lembrando-se do quanto fora rudecom seu anfitrião no dia anterior. Mas descobrir que ele era Liam Jameson foratão humilhante! Ao saber quem ele era, ficara fora de si. — Você? Você é Liam Jameson?! Não pode ser! — disse, incrédula. 21
  22. 22. Ele respondeu estranhamente lacônico. — Por que não? — Porque não se parece com a imagem do retrato — protestou Rosa,lembrando-se do jovem de bigodes e barba rala que vira na contracapa de umde seus romances. Aquele homem não tinha barba, exceto um pouco no queixo. — Bem, sinto desapontá-la, mas eu realmente sou Liam Jameson — disseele — A foto é de 12 anos atrás. — Então você tem que atualizá-la — ordenou ela. Como se pudesse! Liamdeu de ombros. — Como lhe disse antes, sou uma pessoa bastante reclusa. Prefiro não serreconhecido. — E Sophie? Sabe onde ela está? — É óbvio que não! — Era clara a irritação em sua voz. — Se eu soubesse,não acha que eu teria lhe dito? — Não sei o que pensar. Você me traz aqui sob falsos pretextos e… — Espere um pouco… — Liam não sabia por que as palavras dela lheatingiam tanto. Mas era o que ele havia feito. Tomando outra direção, continuou: — Você teria acreditado em mim se eu tivesse lhe dito quem sou? Vocêacaba de me acusar de não me parecer com meu retrato — fez uma pausa. —Se quer saber, eu sinto pena de você. Obviamente perdeu tempo nessaviagem e, o que quer que eu dissesse, você teria que ficar aqui por mais trêsdias. Rosa ergueu o rosto diante disso. — Não havia a menor necessidade de sentir pena de mim, senhorJameson. — Não? — Liam não conseguia deixar de admirar a coragem dela.Obviamente a julgara mal quando achara que ela era frágil. Prosseguiu: — Setivesse lhe dito quem sou você teria simplesmente ido para uma hospedariapara esperar a balsa de quinta-feira? Não suspeitaria de que eu não estivessefalando a verdade? — Eu teria lhe perguntado sobre Sophie — disse Rosa, os ombros caídos.— Você deveria ter me dito quem era. Afinal, quem é Luther Killian? Alguémque trabalha para você? — Mais ou menos isso. — Um traço de humor passou pelo rosto de Liam,Rosa ficou perturbada ao sentir que o charme dele a agradava. — Luther Killiané o personagem principal de todos os meus romances. O que só mostra quevocê não é minha fã. — Eu lhe disse. Sophie é quem lê seus livros. — Ela balançou a cabeça,contrariada. — Você deve me achar uma tola. — Por que eu pensaria isso? Ele parecia indignado, mas Rosa explicou: — Porque fui uma estúpida por não suspeitar de nada. Mesmo quandoficou óbvio que você sabia demais sobre Liam Jameson para não estarenvolvido. — Rosa respirou fundo. — Por que fez isso, senhor Jameson? Eraapenas um jogo? Fazer de mim uma tola o divertiu? De onde saíra aquilo? Rosa ainda o encarava, horrorizada com o que dissera, quando bateram 22
  23. 23. na porta. Por um momento ela temeu que Liam Jameson ignorasse a batida, sevirou e atravessou a sala. Mais uma vez, arrastou uma perna, mas Rosa estavaaflita demais para sentir compaixão por ele. Certamente ele pensaria que elaera igual à irmã. A governanta esperava do lado de fora. Carregava uma bandeja com cháe sanduíches, e Liam deixou que ela entrasse, com controlada educação. — Esta é a senhora Wilson — disse ele, friamente. — Bom apetite. Falocom você mais tarde. MAS na verdade ele não havia falado com ela mais tarde. Quando asenhora Wilson voltou para recolher a bandeja, informou que o senhorJameson estava descansando. Aparentemente ele pedira à governanta queprovidenciasse um quarto onde ela pudesse descansar. E foi assim queaconteceu de Rosa ainda estar ali, quase 24 horas depois de chegar à ilha. Não que ela esperasse passar a noite ali. Depois de se servir de tantoschás e sanduíches quanto podia, com sua consciência fazendo um esforço cadavez que enchia a boca, ela se aventurou a descer as escadas com a bandeja,esperando encontrar seu anfitrião. Mas a única pessoa que viu foi Sam Devlin,que lhe disse que o senhor Jameson estava indisposto e não tinha condiçõesde falar com ela naquela tarde. Naturalmente, Rosa se culpou pelo estado de Jameson, certa de que seucomportamento contribuíra para seu mal-estar. Quando perguntou comopoderia voltar para a vila, Devlin relutantemente admitiu que seu patrão nãoqueria que partisse antes de conversar com ele novamente. — O senhor Jameson sugere que passe algum tempo aqui, conhecendo ocastelo — explicou ele. — Posso lhe acompanhar, se quiser. Se não, asenhorita tem liberdade para relaxar na biblioteca. Há muitos livros para ler ea senhora Wilson pode lhe fornecer qualquer coisa que precisar. Rosa concordou em dar uma caminhada, mas não com Sam Devlin.Conseguiu convencer o circunspecto escocês de que não se perderia e passeouno jardim, encantada com as flores do verão, tendo apenas os cães comocompanhia. De volta ao castelo, e sem saber o que mais fazer, refugiou-se nabiblioteca. Não para ler. Sabia que tipo de livros havia na estante e não queriater pesadelos. Ficou ligeiramente perturbada quando a senhora Wilson ainformou que o jantar seria servido às 7 horas, na sala de jantar. Não esperavaficar para o jantar, e não ficou completamente surpresa quando descobriu quecomeria sozinha. — O senhor Jameson sugeriu que passe a noite aqui — explicou a senhoraWilson, gentilmente. — Disse que a verá de manhã. Está bem? É claro que Rosa sabia que deveria recusar o convite, e que aceitarqualquer coisa de Liam Jameson a colocaria em dívida com ele, o que nãoqueria. Mas também sabia que lhe devia desculpas, e resolveu ficar. Agora ela suspirava. Aceitara a hospitalidade de Liam e mais cedo ou maistarde apresentaria suas desculpas e partiria. Mas sua relutância seria apenaspor constrangimento ou, como suspeitava, curiosamente não desejava dizeradeus? Ela tremeu. Que ridículo! Liam Jameson não significava nada para ela, eestava certa de que ele ficaria feliz quando ela partisse. E que maneira de 23
  24. 24. retribuir a gentileza dele! Certo, ele deveria ter dito quem era — mas, comoele mesmo disse, ela acreditaria nele? Rosa ponderou. Na balsa, ela lhe dissemuito pouco sobre o motivo que a levava à ilha, e mesmo depois dodesembarque, não aceitou tão bem a sua ajuda. Quando lhe confessou por queestava ali, ele já havia lhe dito que apenas conhecia Liam Jameson. A situação realmente não era propícia a confianças, admitiu. Teria sido porisso que Liam havia escondido sua identidade? Certamente isto fazia maissentido do que a acusação que fizera a ele. Sem querer pensar na cena dabiblioteca, Rosa terminou o café e entrou no banho. Ao ver seu cabelodesarrumado, convenceu-se de que não poderia ficar diante de Jamesonnaquelas condições. Precisaria recuperar o controle antes de encontrá-lo. O banheiro era tão elegante quanto o quarto, com uma banheira com pése paredes espelhadas. O box de vidro poderia acomodar pelo menos trêspessoas, e as janelas eram de vidro claro. A idéia de que alguém pudesse vê-la no banheiro a levou imediatamenteàs janelas, mas ali, no segundo andar do castelo, não havia o risco de alguéma observar. Havia espaços abertos em todas as direções. Ao despir a camiseta larga que comprara para dormir, deparou-se comseu reflexo nas paredes espelhadas. As pernas longas, os seios pequenos e osossos salientes não eram exatamente um ideal de beleza, entristeceu-se. Mastinha uma boa aparência, olhos pretos e nenhuma sarda. Porém a boca eragrande demais, o nariz muito longo e naquele momento havia linhas entre assobrancelhas. Lembrou que havia achado Liam bonito quando pensava que eleera Luther Killian. Agora que sabia quem era, não ficaria surpresa se Sophie seapaixonasse por ele. Sophie! Rosa sentiu vergonha de si mesma. Ali estava ela, pensando em LiamJameson, quando ainda não tinha a menor idéia de onde estava sua irmã.Telefonaria para a mãe novamente, decidiu. Quando voltou para o quarto, notou que a bandeja já não estava lá.Lembrando-se que não havia fechado a porta do banheiro, temeu que alguéma tivesse visto. Mas teria sido a senhora Wilson, assegurou a si mesma. Nãohavia a menor possibilidade de Liam Jameson ter recolhido a bandeja. E se tivesse sido ele?, perguntou a si própria, contrariada. Felizmente,havia um secador de cabelos na penteadeira antiga. Assim como o banheiro, oquarto era uma mistura de objetos antigos e modernos. O espelho eravitoriano e a cama tinha quatro postes, mas o modelo do colchão era do séculoXXI. Rosa demorou algum tempo para secar os cabelos. Ela se recusara aadmitir que o estilo sério do suéter e do jeans que escolheu para vestir não eramuito feminino. Era importante parecer confiante, por mais insegura queestivesse. Desceu as escadas, que já lhe eram familiares. A sala de jantar estavavazia. Rosas no centro da longa mesa eram o único sinal de vida. Ela pensouse deveria ir até a sala de recepção, mas duvidou que pudesse encontrar seuanfitrião lá. Lembrou-se da escrivaninha e do computador na biblioteca. Talvezfosse lá que escrevesse seus livros. Bateu à porta da biblioteca. Não ouviu barulho algum, a sala parecia estarnum silêncio assustador. Por que usara esse adjetivo? Repreendeu-se. Nãohavia sentido nenhuma presença estranha no castelo. 24
  25. 25. Só havia uma maneira de descobrir. Pôs a mão na maçaneta e a girou. Sópercebeu que não estava sozinha segundos antes de alguém falar atrás. — Procurando por mim? — perguntou Liam Jameson com voz suave. Ela quase pôs o coração pela boca. 25
  26. 26. CAPÍTULO CINCO — EU… Sim. — disse Rosa, a respiração descontrolada e ofegante. Ela se virou para vê-lo, amparando-se na porta pesada. Depois, ao notarseu sorriso zombeteiro, esqueceu todas as promessas que havia feito a simesma. — Fez isso de propósito? — perguntou, irritada. — Isso o quê? Liam tinha uma expressão inocente, mas podia perceber pelo rosto deRosa que ela sabia que havia sido proposital. — Tentar me assustar — exclamou ela, pressionando a mão sobre o peito,onde o coração ainda estava acelerado. — Honestamente, você quase me fezter um ataque cardíaco. — Sinto muito. Mas ele não parecia realmente sentir muito, e Rosa recuouinstintivamente quando Liam se inclinou sobre ela e abriu a porta. — Você primeiro — disse, aparentemente sem perceber que uma de suasmãos havia esbarrado nos seios dela. Os seios de Rosa se arrepiaram, mas ele pareceu indiferente àquelareação. Porém, não estava, e ficou feliz quando ela se virou e entrou na sala àsua frente. Meu Deus!, pensou, tão perturbado quanto Rosa. Ela secomportava como uma virgem ultrajada e ele experimentava uma sensaçãopatética, como se fosse um adolescente. O que estava errado com ele? Não tinha interesse algum em solteironasreprimidas. Mulheres que sabiam pouco sobre sexo, e que ficavam rígidas eassustadas com o que sabiam. Quando precisava de uma mulher, preferia umaque fosse experiente. Ainda assim, uma vozinha dentro dele o provocava. Seria divertido vercomo ela reagiria se ele a abordasse. Há anos não usava o sexo como outracoisa além de uma necessidade ocasional, com bons motivos para isso. E ofato de Rosa Chantry intrigá-lo não era razão para pensar que algo haviamudado. Ela ficaria tão horrorizada quanto Kayla ao ver suas cicatrizes. Masseria tão bom retirar os grampos de seu cabelo e sentir aqueles fios brilhantesse derramando em suas mãos… Mais uma vez se controlou diante daquele tipo de loucura. Apesar dapressão entre as pernas, estava determinado a não lhe dar motivos paraacusá-lo de perturbá-la. Ora, ele não precisava daquele tipo de aborrecimento.Mas se aquela reação infantil e masculina tinha a intenção de impedir qualquerpensamento de natureza sexual, estava tendo exatamente o efeito oposto. Liam fechou a porta, encostando-se nela e tentando controlar seurepentino desejo. Rosa havia caminhado pela sala, obviamente procurandomanter uma distância segura entre ambos. Quando sentiu que atingira seuobjetivo, voltou-se para ele. — Eu estava lhe procurando — disse, cruzando as mãos na cintura,inconsciente de que aquela era uma posição de proteção. — Queria lheagradecer. — Agradecer? — Liam não conseguia pensar em nenhuma razão para 26
  27. 27. agradecimento, mas Rosa apertava os lábios. — Por me permitir passar a noite aqui — disse ela, com precisão. — Vocênão precisava fazer isso. — Ah! — Liam estava aliviado por sentir a pressão em sua calça diminuir,e se afastou da porta. — Não há de quê. Foi confortável? — Muito confortável, obrigada. — Então — Liam avançou pela sala. — Sinto muito por tê-la deixadosozinha ontem. Adormeci e só acordei depois da meia-noite. Rosa teve vontade de dizer: Como é apropriado estar consciente do quefez. — mas não disse. Ela estava prevenida em relação a ele, e um convite àintimidade não seria algo inteligente. Em vez disso, disse: — Está tudo bem. Sua governanta cuidou de mim. Dormi muito bem. — Você não teve medo de eu me transformar num vampiro no meio danoite e raptá-la? — Liam não pôde resistir à vontade de provocá-la, e elacorou. — Só um pouquinho — replicou Rosa, surpreendendo-o novamente. —Mas estou certa de que vampiros não viajam em balsas nem dirigem carros àluz do dia. — Luther Killian faz isso — disse ele, e Rosa lançou-lhe um olhar recatado. — Luther Killian não existe — disse ela. — Ou existe apenas em suaimaginação. — Você acha? — Não vá me dizer que acredita em vampiros, senhor Jameson. — Há muitos relatos sobre isso, tanto aqui quanto na Europa Oriental. Ese você fosse a Nova Orleans… — O que eu não vou fazer… — disse ela, percebendo que ele a estavadesviando de seu objetivo. Ela deveria estar lhe pedindo para telefonarnovamente, e não discutindo sobre monstros míticos. — Sei muito pouco sobreessas coisas, senhor Jameson. Mas imagino que fazem sucesso em seus livros. — Você acha que é só isso? Ele estava indignado. — Bem, eu não sei. Nada sei sobre vampiros. — Você sabe que eles não saem à luz do dia . — Todo mundo sabe isso. — E, incapaz de resistir, ela emendou: — LutherKillian aparentemente é uma exceção. — Ah, mas Luther é só metade desumano. A mãe era uma feiticeiraquando conheceu o pai dele. Rosa não conseguiu evitar um sorriso. — E ele a converteu, suponho. — Os vampiros sempre convertem suas vítimas — concordou Liam,estreitando o espaço entre eles. — Quer que eu lhe mostre? Rosa recuou. — Eu sei como, senhor Jameson — murmurou, sem saber se ele estavabrincando ou não. — Por favor — disse, estendendo as mãos à sua frente. —Não sou um personagem de seus livros. — Não — concordou ele, consciente de que corria o risco de permitir que arelação entre eles se transformasse em algo que não era. Liam se voltou para a escrivaninha, ouvindo a respiração aliviada de Rosa. — Você obviamente não acredita — disse. Rosa suspirou. Não queriaofendê-lo. 27
  28. 28. — Não acredito em quê? — perguntou. Ele se virou e apoiou o quadril na escrivaninha. Cruzando os braços,respondeu cuidadosamente: — No sobrenatural. Como foi que você disse no caminho para cá?Fantasmas e lobisomens, que aliás são chamados de metamorfos, seres que setransformam. — E você acredita? — Oh, com certeza. Qualquer pessoa que encontrou o mal em sua formamais pura tem que acreditar. Rosa franziu a testa. — Está me dizendo que você encontrou o mal? Oh, sim. Por um momento, Liam achou que tivesse falado alto, mas o olhar curiosode Rosa o assegurou que não. Graças a Deus! — Acho que todos nós encontramos o mal de uma forma ou de outra —disfarçou, sem querer discutir suas experiências com ela. Ele já havia ido longedemais, e recuou. — Luther certamente encontrou. — Ah, Luther é apenas um personagem de seus livros. — O personagem principal — corrigiu ele. — E o que se chamaria de anti-herói. Ele mata, mas suas intenções são sempre boas. — Não é uma contradição? Como pode alguém, ou algo, que vive dematar pessoas ser considerado bom? Liam deu de ombros, e quando fez isto Rosa viu o reflexo de algoprateado em seu pescoço. Ou era uma marca de nascença ou algum tipo decicatriz. Rosa sentiu a boca seca. Ocorreu-lhe que aquilo poderia ter sido feitopelos dentes de alguém, ou de alguma criatura. Oh, meu Deus! — Acho que depende de sua definição de bom e mau — respondeu ele,distraindo-a. — Livrar o mundo de indivíduos maus não é algo digno derespeito? Rosa lutou para recuperar sua objetividade. — É disso que seus livros tratam? Algum tipo de vampiro que caçacriminosos para tornar o mundo um lugar melhor? — Um lugar mais seguro — concordou Liam. — Não critique. Nunca sesabe o que fazer quando se está diante do mal primitivo. — E você sabe? — Ela soava cética, e Liam teve que se conter para nãolhe dizer o que realmente acontecera com ele. — Espere aí, senhor Jameson.Nós dois sabemos que o senhor tem uma vida repleta de encantos. Liam teve que prender os dedos embaixo dos braços para não rasgar suasroupas e mostrar a ela o tipo de mal que encontrara. — Talvez — controlou-se. — Mas nem sempre vivi na Escócia, senhoritaChantry. — Eu sei — ela relaxou um pouco. — Li sobre você na Internet. Você nãotrabalhava na Bolsa de Valores, ou algo assim? — Na verdade era um banco mercantil. Rosa estava feliz por voltar à realidade. — Imagino que tivesse um bom salário. Depois ganhou muito dinheirocom seu primeiro livro e comprou seu próprio castelo. Que tipo de dificuldadeenfrentou? 28
  29. 29. Liam ficou tenso. — Se é isso que você quer pensar… — disse, arrumando papéis na mesa.— Isso me lembra que tenho de trabalhar. Rosa sentiu-se envergonhada. Não lhe dizia respeito o modo como elevivia. — Olhe — disse ela, aproximando-se dele —, admito que não sei nadasobre você, verdade. E se você diz que sabe como é enfrentar o malverdadeiro, acredito. Mas… — Mas você não acredita em mim — disse Liam, bruscamente, voltando-se para ela novamente. Rosa notou, constrangida, que os dois estavam a umpalmo de distância um do outro. — Você está rindo de mim, senhorita Chantry,e não gosto disso. Não preciso de sua aprovação. Rosa molhou os lábios secos. — Eu só estava sendo educada — protestou. — Não é minha culpa se vocêé sensível em relação à veracidade de seus livros. — Sensível em relação à veracidade — Liam a fitou com raiva. — Não temidéia do que está falando. — Ele respirou com calma e tentou falarnaturalmente: — Vamos dizer que eu senti o mal na pele. Mas prefiro nãodiscutir isso, está bem? Rosa ergueu os ombros. — Eu não tinha a menor idéia — disse. — E por que deveria? — Liam não sabia se gostava do olhar simpáticodela. — Esqueça. Eu já esqueci. Mas ele duvidava de que um dia o faria de fato. Rosa hesitou. — Não quis dizer que não se pode acreditar em seus livros — persistiu ela,colocando uma das mãos sobre o ombro dele. — Sinto muito se o ofendi. Me ofendeu? Liam expirou com força. Embora estivesse vestindo um suéter, sentia otoque dos dedos de Rosa em sua pele. Os músculos de seu braço se retesaramquase instintivamente, os tendões se aquecendo e expandindo, assim comooutros músculos entre suas pernas. — Isto não é importante — murmurou ele, concentrando-se no cheirofeminino da pele de Rosa. Mas então ergueu os olhos e se deparou com aqueles olhos negrosansiosos, e sentiu que mergulhava na suave profundeza deles. Meioinconsciente do que fazia, ergueu uma das mãos e passou o dedo polegarsobre os lábios entreabertos de Rosa. A umidade aderiu a seu dedo e Liam nãopensou antes de colocar o dedo em sua própria boca, para sentir o gosto dela. Rosa ficou paralisada diante daquelas ações. Não imaginava que umatentativa inocente de confortá-lo teria um resultado tão perturbador. Todo oseu corpo estava quente e trêmulo, e ela percebeu Liam como nunca antes. Ouestaria apenas se iludindo? Ela o percebera desde o início! Quando Rosa passou a língua pelos lábios, foi porque eles haviam ficadosecos de repente, e não para absorver qualquer vestígio do cheiro de Liam.Mas ela o fez. Rosa o ouviu inspirando ar e imaginou o que ele estavapensando. Meu Deus, isto não estava acontecendo. Mas ela sabia que Colinjamais a fizera sentir nada como aquilo. Quando Liam falou, porém, seu tom foi sério. — Eu não deveria ter feito isso. Desculpe. 29
  30. 30. Agora era Rosa quem inspirava com dificuldade. — Não tem importância — disse ela, olhando para o telefone atrás dele.Tenho que me acalmar, falou para si mesma. — Será que… Mas não conseguiu continuar a frase. — Tem importância, sim — retrucou ele, ajeitando o cabelo para trás. —Você deve estar pensando que estou desesperado por uma mulher! Liam notou como suas palavras a haviam atingido antes de terminar defalar. O fato de estar tentando assegurar a si próprio que suas emoções nãoestavam envolvidas não era desculpa. Ele percebeu, tarde demais, que o quehavia dito podia ter duas interpretações, e não ficou surpreso quando ela ofitou. — Sei que você não está — disse Rosa, passando os braços por seupróprio corpo delgado, de modo que seus seios pequenos se eriçaram demaneira inconscientemente provocativa. — Também não estou desesperadapor um homem. Liam conteve um gemido. Será que ela não percebeu que minha intençãonão era ofendê-la? Evidentemente que não. Agora cabia a ele desfazer oconstrangimento que criara, e ao encará-la percebeu que não seria fácil. — Olhe — disse ele —, não era minha intenção insultá-la. Ao contrário.Não gostaria que pensasse que eu esperava algum pagamento por minhahospitalidade. — Nós dois sabemos o que você quis dizer, senhor Jameson. Não sou tola.Você não precisa me dizer. Não sou o tipo de mulher que alguém como vocêacharia atraente. Liam sentiu uma pontada de indignação. Apesar da advertência da voz daconsciência, que dizia para não continuar com aquilo, ele se ofendeu com oque ouvira. Quem ela pensava que era para fazer julgamentos errados sobreele? Rosa não o conhecia. Nada sabia sobre seus gostos por mulheres. Masestava sugerindo que ele era algum tipo de tolo que só pensava em sexo. O fato de que aquilo era exatamente o que estava fazendo não foi algoque Liam considerou no momento. — Cuidado, senhorita Chantry. Começo a achar que você estádesapontada por eu ter parado o que estava fazendo. — Como ousa? Rosa não conseguia raciocinar quando ficava furiosa. Uma de suas mãosse fechou automaticamente e bateu na barriga dele. Achou que haviamachucado mais a ela própria do que a ele, mas não importava. Liam nãotinha o direito de ridicularizá-la. Não depois de fazê-la se sentir tão bem. Liam não se surpreendeu com o ataque. — Você precisa controlar seu temperamento, senhorita Chantry —comentou, estranhando sua respiração ofegante. — Qual é o seu problema? Oque foi que eu disse para merecer essa resposta? — Você sabe o que disse. Rosa tremia. — Ah, é? — Liam parecia estar sendo compelido por um demônio. — Enão é verdade? Rosa o encarou, imaginando como poderia ter se sentido atraída por ele. — Tem uma opinião muito exagerada sobre si próprio, senhor Jameson —afirmou ela, friamente, fazendo um esforço para manter a voz baixa. Seria 30
  31. 31. muito melhor gritar com ele. — Se me permiti, só por um momento, ceder, foisimplesmente porque sinto pena do senhor. Quero dizer, não deve ser muitodivertido viver aqui sozinho, apenas com suas empregadas para se divertir. A maneira como Liam se sentiu ultrajado, lembrando-se da forma comoKayla o abandonara, fez com que uma onda de raiva tomasse conta dele. Esquecendo-se de que ele é quem estava errado, e que os insultos deRosa eram apenas um contra-ataque a seu sarcasmo, agarrou os pulsos dela eos torceu atrás de suas costas. — Você é apenas um poço de amargura, não, senhorita Chantry? Não épor acaso que nunca se casou. Nenhum homem decente agüentaria umamulher rancorosa como você. Rosa engoliu seco. O instinto de corrigir o que ele dissera foi oprimido pelotemor que sentiu por estar presa num abraço violento. Tentou se libertar, mascom a respiração quente dele quase sufocando-a, e uma das coxas apertadacontra suas pernas, ficara indefesa. Ambos respiravam rapidamente, e por alguns segundos travou-se umabatalha silenciosa. Mas não era realmente uma batalha, reconheceu Rosa. Ela estava nasmãos dele, e Liam sabia disso. Estranhamente, porém, ele não parecia apreciaressa situação. Ao contrário, quando seus olhos encontraram os dela, Rosanotou uma mistura de confusão e arrependimento. — Diabos — disse ele, rispidamente. — Isto não deveria acontecer. — Então me deixe ir — pediu Rosa, meio sem ar, mas não completamenteimune ao apelo daqueles olhos verdes. Assim, tão perto, ela conseguia ver acicatriz prateada que observara antes. — Sim, eu deveria — concordou Liam, perturbando-a, com o olhar fixo emsua boca. — Mas sabe o quê? — Liam ajeitou a posição em que estava e Rosateve quase certeza de que ele estava tendo uma ereção. — Não quero —completou ele. — Isso não é incrível? Liam sentiu enjôo enquanto observava a reação de Rosa a sua confissão.Será que ela tinha alguma idéia da onda de calor e desejo que o invadia,tornando o que começara como um desejo de puni-la numa vontade insana demostrar o que ela estava perdendo? Ele percebia que Rosa tremia, emboratentando se desvencilhar, e os seios que admirara antes se arrepiavam sob osuéter. — Por favor — disse Rosa, instável. Mas para Liam a voz dela parecia distante. Agora ele segurava os doispulsos dela com uma das mãos. Pôs a outra mão nos seios de Rosa epressionou os dedos sobre o mamilo intumescido. Sentiu que ela recuoutremendo, mas sentiu também uma corrente de sangue chegar à sua virilha. Estava sendo receptiva, percebeu, incrédulo, imaginando há quanto tempoela não teria a companhia de um homem. Se é que algum dia já teve, pensou,embora não acreditasse que ela fosse virgem. Entretanto, Liam desejava que a tivesse conhecido em outrascircunstâncias, que não tivesse sido cruel ao comentar que ela não se casara.Porque estava atraído por ela, por mais que negasse. Rosa não era linda, éclaro, mas tinha um charme misterioso que acendera seu romantismo. E nãohavia como negar que imaginava aquele cabelo magnífico se espalhando sobreo travesseiro em sua cama. 31
  32. 32. Rosa sentia como se suas pernas não pudessem agüentar seu própriopeso por muito tempo mais. Liam voltara sua atenção para o outro seio,cobrindo-o com uma das mãos e pressionando o mamilo intumescido. Aquilo afez se sentir tonta como se estivesse nua, pensou, excitada. Sentia a umidade entre suas pernas, estava desconcertada. O que haviade errado com ela? Sempre soubera, mesmo quando fazia amorapaixonadamente com Colin, que uma parte sua se mantinha distante eacompanhava o que se passava com certa objetividade. Mas não conseguia ser objetiva com Liam. Quando ele olhava para ela damaneira que estava olhando agora, não conseguia nem pensar direito. Sentia-se fraca, possuída, consumida por um desejo que mal sabia que existia, demodo que quando Liam curvou a cabeça sobre ela, seus lábios se abriraminstintivamente para receber um beijo. Liam passou a boca sobre a curva do pescoço dela, e a dureza de seuqueixo arranhou seu rosto, mas ele não a beijou. Não na boca. Com certotemor, Rosa sentiu que Liam repentinamente se afastou. Soltou seus quadris eela perdeu o equilíbrio, só então percebendo que se apoiava nele. EnquantoRosa recuperava o equilíbrio, ele se virou de costas e se inclinou sobre a mesa. 32
  33. 33. CAPÍTULO SEIS LIAM esperava que Rosa não percebesse por que ele dera-lhe as costas.Deixá-la não havia sido fácil, e seu corpo ainda não aceitava o que sua mentelhe dizia. Instintos exigiam ser satisfeitos, mas, embora a tentação fossegrande, o bom senso insistia para que ele se controlasse. Droga, disse a si próprio. Além do fato de que mal conhecia Rosa, elerealmente queria se expor ao ridículo novamente? Mas quando ela estava emseus braços, quando sentia seu cheiro, seu corpo delgado, tinha sido tão fácilse iludir e pensar que dessa vez daria certo. Todos os feromônios em seucorpo responderam a ela, e Liam queria tanto possuí-la, descobrir se ela eratão ardente quanto parecia! Isso era loucura, reconheceu. Por acaso queria que ela contasse a todossobre o monstro que ele era? Um monstro que não conseguia manter a calçafechada, pensou com amargura. Sim, os tablóides teriam um amplo material. É claro que finalmente ele teve que olhar para trás. Sem ouvir o menorsinal da respiração de Rosa, parecia que ela nem estava ali. Mas estava, emerecia uma explicação, embora não soubesse o que dizer. Depois de checar se não havia nenhuma evidência de sua excitação,encarou-a. Rosa ainda estava rubra, notou, o que lhe dava uma belezainesperada, mas se esforçava para se comportar como se ele não tivesse sidoum completo idiota. Rosa se refez quando ele se virou. Se Liam pretendia culpá-la pelo quehavia acontecido, já tinha uma resposta pronta. Ela não havia pedido para queele a tocasse e ele não tinha o direito de tratá-la com tão pouco respeito. Oh,ele ainda pensava que ela nunca se casara. O que faria se soubesse averdade? Se pelo menos houvesse uma maneira de sair dali… Para isso, dependiadele, ou de um telefone, tanto para pedir um táxi quanto para falar com suamãe. Depois do que havia acontecido, Rosa não gostava da idéia de ter deagradecer a ele por qualquer coisa. Liam suspirou. Aquela era uma experiência nova, da qual ele não gostava.Não gostava mesmo. Quando precisava de uma mulher, procurava uma quesoubesse o que estava fazendo. Nunca havia levado uma mulher ao castelo,jamais havia feito qualquer coisa que violasse a atmosfera de seu lar. Até aquele momento. Engolindo seu orgulho, disse, seco: — Sei que você não vai acreditar em mim, mas não costumo agir dessemodo. Antes que pudesse continuar, Rosa o interrompeu. — Você está certo — disse. — Não acredito em você, senhor Jameson.Posso ser ingênua, mas não venha me dizer que nunca se aproveitou de umamulher. — Ora! — Liam conteve a respiração. — Eu não me aproveitei de você. Setivesse feito isso, você saberia. E me chame de Liam, por favor. Não imaginacomo soa ridícula me chamando de senhor Jameson depois do que aconteceu.Você pode ser virgem ainda, mas eu não sou. 33
  34. 34. Aquilo era indesculpável, mas ele achava que havia feito um bem a Rosa.Ela participara daquela aproximação, ele sabia. E não esqueceria aquelemomento por um longo tempo. — Ah, estou certa de que tudo que me diz respeito parece ridículo paravocê — replicou Rosa, ferida pela crítica injusta. — Mas se quer saber, eu fuicasada, senhor Jameson. Divorciei-me há três anos. Liam a fitou com um olhar vazio. — Você foi casada? — perguntou, incrédulo. — Durante cinco anos — respondeu Rosa, feliz por finalmente chocá-lo. — Não parece ter idade para isso. — Mas tenho. Tenho 32 anos, senhor Jameson. Idade suficiente. Liam estava surpreso. E decepcionado. Achava que ela não tinha mais doque 25 anos. Porém ficou mais perturbado com o modo como aquela notícia oafetara. Se soubesse quem ela realmente era, e que havia sido casada… Mas não devia continuar. Não era suficiente ter agido como um tolo ecriado uma situação inoportuna? — Olhe — disse ele — vamos concordar que ambos cometemos erros aqui.Eu não deveria tê-la agarrado, admito. Mas você não deveria ter me deixadofora de controle a ponto de eu não pensar no que estava fazendo. Rosa queria argumentar que fora ele quem a levara para ali e que, setivesse sido honesto desde o começo, nada daquilo teria acontecido. Mas aconsciência relutante de que não havia exatamente reagido a manteve emsilêncio. — Eu poderia usar seu telefone, então? Liam teve uma vontade de rir. As palavras dela eram tão inesperadas, tãoprosaicas, como se nas últimas horas estivessem conversando sobre o tempo.Mas percebeu que o humor não seria adequado naquele momento. — Por que não? — Obrigada. Só quero ligar para minha mãe. Liam ergueu as sobrancelhas: — E dizer que sua irmã não está aqui? — Sim. — Está bem. Ele lhe passou o telefone da escrivaninha. Rosa hesitou: — Talvez eu devesse telefonar para o táxi também? Como se chama otaxista? — McAllister? Não há necessidade — Liam caminhou para a porta,tentando esconder que sua perna reclamava do movimento repentino. — Samvai à vila esta manhã. Você pode ir com ele. Rosa não estava certa se queria aquilo. Sam não fora exatamentereceptivo a ela. — Se não se importa, telefonarei para McAllister. Não quero incomodar —disse. Liam fez uma pausa, suas sobrancelhas se juntaram. — O que Sam andou dizendo a você? — Ah, nada. E era verdade. Liam ficou pensativo. — Você não quer uma indicação sobre onde ficar? — Isso seria útil. 34
  35. 35. — Está bem. Vou pedir a Sam que lhe dê um endereço. Liam abriu a porta, tentando não arrastar o pé enquanto se movia. — Mas… — disse Rosa — Sim? Rosa chegou a pensar em lhe perguntar sobre a perna, mas se conteve. — Você não me deu o número do telefone do senhor McAllister —comentou. — Sam vai lhe dar. Tenha uma boa viagem de volta. — Oh! — mais uma vez Rosa o detinha. — Não vou vê-lo novamenteantes de partir? Era uma pergunta tola, levando em conta que ele já lhe desejara boaviagem. Mas agora que chegava a hora, Rosa resistia a deixá-lo. Liam se apoiou firmemente na porta. — Não vai me dizer que lamenta ter de partir, vai? Porque, francamente,vai ser difícil acreditar. Rosa recebeu seu olhar zombeteiro de maneira defensiva. Em seguida,para sua surpresa, viu-se dizendo: — Suponho que ficará feliz ao me ver partir. Liam engoliu ar. Como deveria responder? — Bastante — admitiu finalmente. — Você me distraiu muito. — Ah, sim. Você quer dizer que já gastei muito de seu tempo. — Eu não disse isso. — Não precisava. Rosa se voltou para a mesa. Ao apanhar o telefone, disse: — Espero que sua perna melhore logo. Liam piscou, mas ela já não o olhava. E embora tivesse vontade deperguntar o que ela sabia sobre seus ferimentos, ficou calado. A porta se fechou e Rosa deu um suspiro de alívio. Quanto antes partisse,melhor. Apesar do que havia pensado, Liam era perigoso para sua paz deespírito. Sua mãe atendeu logo. — Sophie? Oh, querida, eu esperava que me ligasse de volta. De volta ? Rosa estava espantada. — Quer dizer que você sabe onde ela está? Houve um momento de silêncio. — Rosa? É você? — Quem mais poderia ser? O que está acontecendo? Você tem notícias deSophie? — Sim, ela telefonou ontem à noite. Você não imagina como fiqueialiviada. Está na Escócia. Está adorando. E há uma chance de conseguir umpapel na produção. Não é incrível? — Inacreditável, com certeza — disse Rosa, secamente, imaginando quesua mãe era uma tola por acreditar em Sophie. Quem empregaria uma adolescente sem o mínimo de talento? — Eu devia saber que você diria algo assim — comentou a senhoraChantry, irritada. — Só porque Sophie não está na ilha, como você esperava,você desconta sua frustração em mim. A Escócia é grande. — Não foi minha a idéia de vir para essa ilha. A idéia foi sua — disse Rosa. 35
  36. 36. — Ela disse onde está? — Não exatamente. Você sabe como Sophie é. — Mãe, não há produção de filme nenhum. Ou se há, Liam Jameson nãosabe. Ele saberia — explicou Rosa, impaciente. — Você perguntou a ele? — Sim. Rosa se deu conta de que não havia perguntado se ele dera algumapermissão para que filmassem em outro lugar. Mas se tivesse dado, não terialhe dito? — E ele insistiu que nunca viu Sophie? — Sim. Mas vou falar com ele novamente. — Sabia que podia confiar em você. Não se esqueça de descobrir ondeestão filmando. Rosa desligou o telefone atordoada. A perspectiva de falar novamentecom Liam fazia seu coração bater acelerado. Mas onde estaria ele? Ao sair da sala, Rosa se deparou com Sam Devlin. Estaria ele ouvindo aconversa? Não, pensou. Algo lhe dizia que aquele escocês corpulento nãoestava interessado em nada que ela dissesse, e isto se confirmou quando eledisse bruscamente: — McAllister está vindo. Deve chegar em meia hora. Quer que eu carreguesua bagagem? — Ah, não precisa. Na verdade, queria falar com o senhor Jameson antesde ir. — Sinto muito, mas é impossível. O senhor Jameson está trabalhando e atranqüilidade dele vale mais do que o meu emprego. Rosa duvidou. Os dois pareciam ter um ótimo relacionamento. — É só por um minuto. — Sinto muito. Sam não se movia e Rosa o olhou, decepcionada. Se pelo menos soubesseonde era o escritório de Liam… Evidentemente não trabalhava na biblioteca,como pensara. Num castelo daquele tamanho ele poderia estar em qualquerlugar. — Diga-me o que quer perguntar e eu transmito sua mensagem quandoele estiver desocupado — sugeriu Sam. Mas Rosa não confiava nele. — É pessoal — disse. Uma outra idéia lhe ocorreu. — Você poderia me daro número do telefone dele? Eu ligo mais tarde. — Não posso fazer isso, senhorita. O senhor Jameson não fornece seunúmero particular para ninguém. — Então me dê o seu — sugeriu Rosa. — Vou informá-lo sobre onde estoue então o senhor Jameson pode me telefonar. — O senhor Jameson sabe onde a senhorita vai ficar — disse Sam. — Eleme pediu para lhe dar esse endereço. Só então Rosa viu um papel na mão dele. — Ah, obrigada. Ela apanhou o papel. — O senhor McAllister sabe onde fica isso? — Todo mundo sabe onde fica a hospedaria de Katie Ferguson — disseSam, com desdém. — Não estamos em Londres, senhorita. 36
  37. 37. — Eu não moro em Londres — retrucou Rosa. — Venho de uma cidadepequena em North Yorkshire, senhor Devlin. Não de uma metrópole, como osenhor parece pensar. — Sinto muito. Eu achei… — O senhor não deveria achar nada — retrucou Rosa, satisfeita por deixá-lo na defensiva desta vez. — Obrigada por isso. Sem dizer mais nada, Sam fechou a porta. 37

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