Comunicação Não Violenta - Marshall B. Rosenberg

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Técnicas Para Aprimorar Relacionamentos Pessoais e Profissionais - Marshall B. Rosenberg

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Comunicação Não Violenta - Marshall B. Rosenberg

  1. 1. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Rosenberg. Marshall B. Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pes- soais e profissionais I Marshall B. Rosenberg ; [tradução Mário Vilela]. - São Paulo: Ágora, 2006. Comunicação não-violenta Título original: Nonviolent communication: a language of life. Bibliografia. TÉCN1CAS PARA APR1MORAR RELAClONAMENTOS ISBN 978-85-7183-826-0 PESSOA1S E PROF1SSlONA1S 1. Comunicação interpessoal 2. Conduta de vida 3. Não-violência 4. Re- lações interpessoais L Título. 05-8849 CDD-153.6 Índice para catálogo sistemático:1. Comunicação não-violenta: Psicologia 153.6 Marshall B. Rosenberg ,., Compre em lugar de fotocopiar. Cada real que você dá por um livro recompensa seus autores e os convida a produzir mais sobre o tema; incentiva seus editores a encomendar, traduzir e publicar -• outras obras sobre o assunto; e paga aos livreiros por estocar e levar até você livros para a sua informação e o seu entretenimento. Cada real que você dá pela fotocópia não autorizada de um livro , financia um crime EDITORA e ajuda a matar a produção intelectual em todo o mundo. ÁGORA
  2. 2. - -~~~------- COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA Técnicas para aprimorar reLacionamentos pessoais e profissionais Copyright © 2003 by Marshall B. Rosenberg Direitos desta tradução adquiridos por Summus Editorial Agradecimentos Editora executiva: Soraia Bini Cury Assistente de produção: Claudia Agnelli Tradução: Mário Vilela Revisão técnica: Dominic Barter Capa: Renata Buono Projeto gráfico e diagramação: Acqua Estúdio Gráfico Fotolitos: Casa de Tipos 2ª edição Sou grato por ter podido estudar e trabalhar com o profes- sor Carl Rogers na época em que ele pesquisava os componen- tes de uma relação de apoio. Os resultados dessa pesquisa de- Editora Ágora sempenharam papel-chave no desenvolvimento do processo Departamento editorial: de comunicação que descreverei neste livro. Rua Itapicuru, 613 - 7º andar 05006-000 - São Paulo - SP Serei eternamente grato ao professor Michael Hakeem, Fone: (11) 3872-3322 por ter me ajudado a ver as limitações científicas e os riscos so- Fax: (11) 3872-7476 ciais e políticos de praticar a psicologia como fui treinado: um http://www.editoraagora.com.br e-mail: agora@editoraagora.com.br modo de entender os seres humanos com base em patologias. Ver as limitações desse modelo me estimulou a procurar for- Atendimento ao consumidor: Summus Editorial mas de praticar uma psicologia diferente, baseada na crescen- Fone: (11) 3865-9890 te clareza a respeito de como nós, seres humanos, deveríamos viver. Vendas por atacado: Fone: (11) 3873-8638 Também sou grato a George Miller e a George Albee, pelos Fax: (11) 3873-7085 esforços para alertar os psicólogos quanto à necessidade de en- e-mail: vendas@summus.com.br contrar maneiras melhores de disseminar a psicologia. Eles me Impresso no Brasil ajudaram a ver que a enorme quantidade de sofrimento em nos-
  3. 3. so planeta requer modos mais eficazes de distribuir habilidadestão necessárias quanto aquelas oferecidas por uma abordagemclínica. Gostaria de agradecer a Lucy Leu por ter editado este livro ecriado o manuscrito final; a Rita Herzog e Kathy Smith pela as-sistência no processo de edição; e a Darold Milligan, Sonia Nor-denson, Melanie Sears, Bridget Belgrave, Marian Moore, KittrellMcCord, Virginia Hoyte e Peter Weismiller pela ajuda adicional. Por fim, gostaria de expressar minha gratidão à amigaAnnie Muller. Ela me encorajou a ser mais claro no referenteaos fundamentos espirituais de meu trabalho, o que o fortale-ceu e enriqueceu minha vida. Óuando conheci Marshall Rosenberg, uma comunicação pro- funda se estabeleceu imediatamente entre nós, pois além de termos em comum os ideais de paz, fomos influenciados pelos mesmos mestres. O presente livro é um best-seller internacional. Ele acompanha e reforça um novo método de resolução pacífica de conflitos. Seu principal mérito é nos ensinar a nos colocarmos no lugar do outro, desenvolvendo a empatia, que é de grande ajuda até em casos mais difíceis de rupturas e má comunicação. Marshall Rosenberg e sua equipe introduziram o método de comunicação não-violenta no Brasil há alguns anos, e esta obra encontrará um "solo" já fertilizado. De todo coração desejo grande sucesso a esta imensa contri- buição para o desenvolvimento de uma cultura de paz no Brasil e no mundo. PIERRE WEIL
  4. 4. o trabalho do dr. Marshall Rosenberg sobre a comunicaçãonão-violenta revela, inicialmente, a profundidade que a cul-tura de guerra adquiriu, tanto na nossa linguagem quantonos relacionamentos. Por outro lado, sua habilidade pedagó-gica nos encoraja a entrar em contato com esse centro de hu-manidade, onde nos reconhecemos como aprendizes de novosmodos de estar e de nos articular com os outros e com omundo. Além de ser uma via de autoconhecimento, a comu-nicação não-violenta é um instrumento eficiente e mais doque oportuno para capacitar aqueles que - comprometidoscom a implementação de uma Cultura de Paz - visam seauto-educar para restabelecer a confiança mútua entre pes-soas, instituições, povos e nações. LIA DISKIN Associação Palas AthenaMarshall Rosenberg oferece ferramentas das mais eficientespara cuidarmos da saúde e dos relacionamentos. A CNV conec-ta a alma das pessoas, promovendo sua regeneração. É o ele-mento que falta em tudo que fazemos. DEEPAK CHOPRA autor de As sete leis espirituais do sucessoA notável mensagem do dr. Marshall fornece aos professorespassos simples para a comunicação pacífica e uma novamaneira de trabalhar com crianças e pais. BARBARA MOFFITT Diretora executiva do Centro Americano de Educadores Montessori
  5. 5. As técnicas dinâmicas de Marshall Rosenberg transformampotenciais conflitos em diálogos pacificos. Ele ensina ferra- Sumáriomentas simples para desarmar argumentos perigosos e criarconexões de compaixão com a família, amigos e outros co-nhecidos. Eu recomendo este livro com entusiasmo. JOHN GRAY autor de Homens são de Marte, mulheres são de Vênus Prefácio................................................................................ 13 1. Do FUNDO DO CORAÇÃO - O CERNE DA COMUNICAÇÃOAcredito que os princípios e as técnicas deste livro podem li- NÃO-VIOLENTA ............................................................... . 19teralmente mudar o mundo, porém, mais importante do que 2. A COMUNICAÇÃO QUE BLOQUEIA A COMPAIXÃO ................ .. 37isso, eles podem melhorar a qualidade de vida entre compa- 3. OBSERVAR SEM AVALIAR .................................................. 49nheiros, filhos, vizinhos, colegas de trabalho e todas as pes- 4. IDENTIFICANDO E EXPRESSANDO SENTIMENTOS .................. .. 63soas com as quais interagimos. Minha recomendação não 5. ASSUMINDO A RESPONSABILIDADE POR NOSSOSpoderia ser ma is enfática. SENTIMENTOS ......•.•......................................................... 79 JACK CANFIELD 6. PEDINDO AQUILO QUE ENRIQUECERÁ NOSSA VIDA................ 103 co-autor da série Histórias para aquecer o coração 7. RECEBER COM EMPATIA.................................................... 133 8. O PODER DA EMPATIA ...................................................... 159 9. CONECTANDO-NOS COMPASSIVAMENTE COM NÓS MESMOS .... 179 10. EXPRESSANDO A RAIVA PLENAMENTE .................................. 197 11. O uso DA FORÇA PARA PROTEGER .................................... 223 12. LIBERTANDO-NOS E ACONSELHANDO OS OUTROS .................. 235 13. EXPRESSANDO APRECIAÇÃO NA COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA ............................................................... . 253 Epílogo ................................................................................ 265 Bibliografia .......................................................................... 269 indice remissivo ......................................................... 273 Sobre o CNVC e a CNV.............................................................. 283
  6. 6. prefácio Crescer como pessoa de cor na África do Sul do Apartheid,na década de 1940, não era nada agradável. Principalmente sevocê era brutalmente lembrado da cor de sua pele a cada mo-mento do dia. Depois, ser espancado aos 10 anos por jovensbrancos que o consideravam negro demais e em seguida por jo-vens negros que o consideravam branco demais era uma expe-riência humilhante que poderia levar qualquer um à vingançaviolenta. Fiquei tão indignado com essa vivência que meus pais de-cidiram me levar para a índia e me deixar por algum tempo commeu avô, o lendário Mohandas Karamchand Gandhi, para queeu pudesse aprender com ele a lidar com a raiva, a frustração, adiscriminação e a humilhação que o preconceito racial violentopode provocar. Naqueles dezoito meses, aprendi mais do queesperava. Hoje, meu único arrependimento é que eu tinha ape-nas 13 anos e, ainda por cima, era aluno medíocre. Se eu fossemais velho, um pouco mais sensato e pensasse mais, poderia ter 13
  7. 7. I MARSHALL B. ROSENBERG I I COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA I aprendido muito mais. No entanto, as pessoas devem se conten- demos apagar um incêndio se antes não cortamos o suprimen-tar com o que recebem e não ser demasiado gananciosas - uma to de combustível que alimenta as chamas?lição fundamental no modo de vida não-violento. Como pode- Meu avô sempre enfatizou de forma eloqüente a necessida-rei esquecer isso? de da não-violência nas comunicações - algo que Marshall Ro- Uma das muitas coisas que aprendi com meu avô foi a com- senberg vem fazendo de modo admirável há muitos anos, empreender a profundidade e a amplitude da não-violência e a re- seus escritos e seminários. Li com considerável interesse seuconhecer que somos todos violentos e precisamos efetuar uma livro Comunicação não-violenta - Aprimorando seus relacionamentosmudança qualitativa em nossas atitudes. Com freqüência, não pessoais e profissionais e fiquei impressionado com a profundida-reconhecemos nossa violência porque somos ignorantes a res- de do trabalho e a simplicidade das soluções.peito dela. Presumimos que não somos violentos porque nossa A menos que "nos tornemos a mudança que desejamos vervisão da violência é aquela de brigar, matar, espancar e guerrear acontecer no mundo" (como diria meu avô), nenhumamudan-- o tipo de coisa que os indivíduos comuns não fazem. ça jamais acontecerá. Infelizmente, estamos todos esperando Para me fazer compreender isso, meu avô me fez desenhar que os outros mudem primeiro.uma árvore genealógica da violência, usando os mesmos princí- A não-violência não é uma estratégia que se possa utilizarpios usados nas árvores genealógicas das famílias. Seu argu- hoje e descartar amanhã, nem é algo que nos torne dóceis ou fa-mento era que eu entenderia melhor a não-violência se com- cilmente influenciáveis. Trata -se, isto sim, de inculcar atitudespreendesse e reconhecesse a violência que existe no mundo. positivas em lugar das atitudes negativas que nos dominam.Toda noite, ele me ajudava a analisar os acontecimentos do dia Tudo que fazemos é condicionado por motivações egoístas ("Que- tudo que eu experimentara, lera, vira ou fizera aos outros - e vantagem eu levo nisso?"), e essa constatação se revela aindaa colocá-los na árvore, sob as rubricas "física" (a violência em mais verdadeira numa sociedade esmagadoramente materialis-que se tivesse empregado força física) ou "passiva" (a violência ta, que prospera com base num duro individualismo. Nenhumem que o sofrimento tivesse sido mais de natureza emocional). desses conceitos negativos leva à construção de uma família, co- Em poucos meses, cobri uma parede de meu quarto com munidade, sociedade ou nação homogênea.atos de violência "passiva", a qual meu avô descrevia como mais Não é importante que nos reunamos nos momentos de cri-insidiosa que a violência "física". Ele explicava que, no fim das se e demonstremos patriotismo agitando a bandeira; não bas-contas, a violência passiva gerava raiva na vítima, que, como in- ta que nos tornemos uma superpotência, construindo um arse-divíduo ou membro de uma coletividade, respondia violenta- nal que possa destruir várias vezes este mundo; não é suficientemente. Em outras palavras, é a violência passiva que alimenta a que subjuguemos o resto do mundo com nosso poderio militar,fornalha da violência física. Em razão de não compreendermos porque não se pode construir a paz sobre alicerces de medo.ou analisarmos esse conceito, todos os esforços pela paz não A não-violência significa permitirmos que venha à tonafrutificam, ou alcançam apenas uma paz temporária. Como po- aquilo que existe de positivo em nós e que sejamos dominados14 15
  8. 8. I MARSHALL B. ROSENBERG I j~ pelo amor, respeito, compreensão, gratidão, compaixão e preo- I cupação com os outros, em vez de o sermos pelas atitudes ego- PALAVRAS SÃO JANELAS (OU SÃO PAREDES) cêntricas, egoístas, gananciosas, odientas, preconceituosas, sus- I peitosas e agressivas que costumam dominar nosso pensamento. É comum ouvirmos as pessoas dizerem: "Este é um mundo I Sinto-me tão condenada por suas palavras, Tão julgada e dispensada. Antes de ir, preciso saber: cruel, e, se a gente quer sobreviver, também tem de ser cruel". Foi isso que você quis dizer? Tomo humildemente a liberdade de discordar de tal argumento. O mundo em que vivemos é aquilo que fazemos dele. Se Antes que eu me levante em minha defesa, Antes que eu fale com mágoa ou medo, hoje é impiedoso, foi porque nossas atitudes o tornaram assim. Se mudarmos a nós mesmos, poderemos mudar o mundo, e Antes que eu erga aquela muralha de palavras, Responda: eu realmente ouvi isso? essa mudança começará por nossa linguagem e nossos métodos de comunicação. Recomendo entusiasticamente este livro e a Palavras são janelas ou são paredes. aplicação do processo de Comunicação Não-Violenta que ele Elas nos condenam ou nos libertam. Quando eu falar e quando eu ouvir, prega. É um primeiro passo significativo para mudarmos nossa comunicação e criarmos um mundo mais compassivo. Que a luz do amor brilhe através de mim. Há coisas que preciso dizer, Coisas que signzficam muito para mim. ARUN GANDHI Se minhas palavras não forem claras, Fundador e presidente do Você me ajudará a me libertar? M. K. Gandhi Institute for Nonviolence Se pareci menosprezar você, Se você sentiu que não me importei, Tente escutar por entre as minhas palavras Os sentimentos que compartilhamos. RUTH BEBERMEYER 16I
  9. 9. 1. Do fundo do coração o CERNE DA COMUN1CAÇÃO NÃO-YlOLENTA o que eu quero em minha vida é compaixão, um ~uxo entre mim mesmo e os outros com base numa entrega mútua, do fundo do coração. MARSHALL B. ROSENBERGlNTRODUÇÃO Acredito que é de nossa natureza gostar de dar e receber deforma compassiva. Assim, durante a maior parte da vida, tenhome preocupado com duas questões: o que acontece que nosdesliga de nossa natureza compassiva, levando-nos a nos com-portarmos de maneira violenta e baseada na exploração das ou-tras pessoas? E, inversamente, o que permite que algumas pes-soas permaneçam ligadas à sua natureza compassiva mesmo nascircunstâncias mais penosas? Minha preocupação com essas questões começou na infân-cia, por volta do verão de 1943, quando nossa família se mudoupara Detroit. Na segunda semana após nossa chegada, eclodiuum conflito racial, que começou com um incidente num parquepúblico. Nos dias seguintes, mais de quarenta pessoas forammortas. Nosso bairro ficava no centro da violência, e passamostrês dias trancados em casa. 19
  10. 10. bd",*~ I MARSHALL B. ROSENBERG I I COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA I Quando terminaram os tumultos raciais e começaram as Enquanto estudava os fatores que afetam nossa capacidade aulas, descobri que o nome pode ser tão perigoso quanto qual- de nos mantermos compassivos, fiquei impressionado com o quer cor de pele. Quando o professor disse meu nome durante papel crucial da linguagem e do uso das palavras. Desde então, a chamada, dois meninos me encararam e perguntaram, com identifiquei uma abordagem específica da comunicação - falar veneno: "Você é kike?" Eu nunca tinha ouvido aquela palavra e e ouvir - que nos leva a nos entregarmos de coração, ligando- não sabia que algumas pessoas a utilizavam de maneira depre- nos a nós mesmos e aos outros de maneira tal que permite que ciativa para se referir aos judeus. Depois da aula, os dois já es- nossa compaixão natural floresça. Denomino essa abordagem tavam me esperando: eles me jogaram no chão, me chutaram e Comunicação Não-Violenta, usando o termo "não-violência" na me bateram. mesma acepção que lhe atribuía Gandhi - referindo-se a nosso Desde aquele verão de 1943, venho examinando aquelas estado compassivo natural quando a violência houver se afastado III duas questões que mencionei. O que nos permite, por exem- do coração. Embora possamos CNV: uma forma de comunicação II plo, permanecer sintonizados com nossa natureza compassi~a não considerar "violenta" a ma- até nas piores circunstâncias? Penso em pessoas como Etty HIl- que nos leva a nos entregarmos neira de falarmos, nossas pala- lesum, que continuou compassiva mesmo quando sujeita às de coração. vras não raro induzem à má- grotescas condições de um campo de concentração alemão. Na goa e à dor, seja para os outros, seja para nós mesmos. Em época, ela escreveu: algumas comunidades, o processo que estou descrevendo é co- nhecido como comunicação compassiva; em todo este livro, a abreviatura CNV será utilizada para se referir à comunicação Não é fácil me amedrontar. Não porque eu seja corajosa, mas por- não-violenta. que sei que estou lidando com seres humanos e que preciso tentar ao máximo compreender tudo que qualquer pessoa possa fazer. E UMA MANE1RA DE CONCENTRAR A ATENÇÃO foi isso o que realmente importou hoje de manhã - não que um jovem oficial da Gestapo, contrariado, tenha gritado comigo, mas, A CNV se baseia em habilidades de linguagem e comunicação III sim, que eu não tenha me sentido indignada, antes tenha sentido que fortalecem a capacidade de continuarmos humanos, mesmo verdadeira compaixão e desejado perguntar: "O senhor teve uma em condições adversas. Ela não tem nada de novo: tudo que foi I infância muito infeliz? Brigou com a namorada?". É, ele parecia integrado à CNV já era conhecido havia séculos. O objetivo é nos atormentado e obcecado, mal-humorado e fraco. Eu gostaria de ter lembrar do que já sabemos - de como nós, humanos, devería- começado a tratá-lo ali mesmo, pois sei que jovens dignos de pena mos nos relacionar uns com os outros - e nos ajudar a viver de como ele se tornam perigosos tão logo fiquem soltos no mundo. modo que se manifeste concretamente esse conhecimento. (ETTY HILLESUM, A diary) A CNV nos ajuda a reformular a maneira pela qual nos ex- pressamos e ouvimos os outros. Nossas palavras, em vez de se- 20 21
  11. 11. I MARSHALL B. ROSENBERG I I COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA Irem reações repetitivas e automáticas, tornam-se respostas manente para mantermos nossa atenção concentrada lá onde éconscientes, firmemente baseadas na consciência do que esta- mais provável acharmos o que procuramos.mos percebendo, sentindo e desejando. Somos levados a nos Existe a história de um homem agachado debaixo de umexpressar com honestidade e clareza, ao mesmo tempo que da- poste de iluminação, procurando alguma coisa. Um policial pas-mos aos outros uma atenção respeitosa e empática. Em toda sa e pergunta o que ele está fazendo. "Procurando as chaves dotroca, acabamos escutando nossas necessidades mais profun- carro", responde o homem, que parece ligeiramente bêbado.das e as dos outros. A CNV nos ensina a observarmos cuidado- "Você as perdeu aqui?", pergunta o policial. "Não, perdi no be-samente (e sermos capazes de identificar) os comportamentos co." Vendo a expressão intrigada do policial, o homem se apres-e as condições que estão nos afetando. Aprendemos a identifi- sa a explicar: "É que a luz está muito melhor aqui".car e a articular claramente o que de fato desejamos em de- Acho que meu condicionamento cultural me leva a con-terminada situação. A forma é simples, mas profundamente centrar a atenção em lugares onde é improvável que eu consi-transformadora. ga o que quero. Desenvolvi a À medida que a CNV substitui nossos velhos padrões de de- CNV como uma maneira de fazer Vamos fazer brilhar a luz dafesa, recuo ou ataque diante de julgamentos e críticas, vamos brilhar a luz da consciência - consciência nos pontos em quepercebendo a nós e aos outros, assim como nossas intenções e de condicionar minha atenção a possamos esperar achar aquilorelacionamentos, por um enfoque novo. A resistência, a postu- se concentrar em pontos que te- que procuramos.ra defensiva e as reações violentas são minimizadas. Quando nham o potencial de me dar onos concentramos em tornar mais claro o que o outro está ob- que procuro. O que almejo em minha vida é compaixão, um servando, sentindo e necessi- fluxo entre mim e os outros com base numa entrega mútua, doQuando utilizamos a CNV para tando em vez de diagnosticar e fundo do coração.ouvir nossas necessidades mais julgar, descobrimos a profundi- Essa característica da compaixão, que denomino "entregar-profundas e as dos outros, perce- da de de nossa própria compai- se de coração", se expressa na letra da canção "Given to", com-bemos os relacionamentos por xão. Pela ênfase em escutar posta por minha amiga Ruth Bebermeyer em 1978:um novo enfoque. profundamente - a nós e aos outros -, a CNV promove o res- Nunca me sinto mais presenteadapeito, a atenção e a empatia e gera o mútuo desejo de nos en- Do que quando você recebe algo de mim -tregarmos de coração. Quando você compreende a alegria que sinto Embora eu me refira à CNV como "processo de comunica- ao lhe dar algo_ção" ou "linguagem da compaixão", ela é mais que processo ou E você sabe que estou dando aquilo nãolinguagem. Num nível mais profundo, ela é um lembrete per- para fazer você ficar me devendo,22 23
  12. 12. I COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA I I MARSHALL B. ROSENBERG I Mas porque quero viver o amor o PROCESSO DA CNV que sinto por você. Receber algo com boa vontade Para chegar ao mútuo desejo de nos entregarmos de cora- pode ser a maior entrega. ção, concentramos a luz da consciência em quatro áreas, às Eu nunca conseguiria separar as duas coisas. quais nos referiremos como os quatro componentes do modelo Quando você me dá algo, da CNV. Eu lhe dou meu receber. Primeiramente, observamos o que está de fato acontecendo Quando você recebe algo de mim, numa situação: o que estamos vendo os outros dizerem ou faze- Eu me sinto tão presenteada. rem que é enriquecedor ou não para nossa vida? O truque é ser capaz de articular essa observação sem fazer nenhum julgamento ou avaliação - mas simplesmente dizer o que nos agrada ou não Quando nos entregamos de coração, nossos atos brotam da naquilo que as pessoas estão fa-alegria que surge e resplandece sempre que enriquecemos de zendo. Em seguida, identifica- Os quatro componentes da CNV:boa vontade a vida de outra pessoa. Isso beneficia tanto quem mos como nos sentimos ao ob- 1. observação;doa quanto quem recebe. Este último aprecia o presente sem se servar aquela ação: magoados, 2. sentimento;preocupar com as conseqüências que acompanham o que foi assustados, alegres, divertidos, 3. necessidades;dado por medo, culpa, vergonha ou desejo de lucrar alguma irritados etc. Em terceiro lugar, 4. pedido.coisa. Quem doa se beneficia daquele reforço de auto-estima que reconhecemos quais de nossasse produz sempre que vemos nossos esforços contribuírem para necessidades estão ligadas aos sentimentos que identificamos aí.o bem-estar de alguém. Temos consciência desses três componentes quando usamos a CNV Para usarmos a CNV, as pessoas com quem estamos nos co- para expressar clara e honestamente como estamos.municando não precisam conhecê-la, ou mesmo estar motiva- Uma mãe poderia expressar essas três coisas ao filho adoles-das a se comunicar compassivamente conosco. Se nos ativermos cente dizendo, por exemplo: "Roberto, quando eu vejo duasaos princípios da CNV, motivados somente a dar e a receber com bolas de meias sujas debaixo da mesinha e mais três perto da TV,compaixão, e fizermos tudo que pudermos para que os outros fico irritada, porque preciso de mais ordem no espaço que usa-saibam que esse é nosso único interesse, eles se unirão a nós no mos em comum".processo, e acabaremos conseguindo nos relacionar com com- Ela imediatamente continuaria com o quarto componentepaixão uns com os outros. Não estou dizendo que isso sempre - um pedido bem específico: "Você poderia colocar suas meiasaconteça rapidamente. Afirmo, entretanto, que a compaixão !lO seu quarto ou na lavadora?" Esse componente enfoca o queinevitavelmente floresce quando nos mantemos fiéis aos princí- lstamos querendo da outra pessoa para enriquecer nossa vidapios e ao processo da CNV. ou torná -la mais maravilhosa.24 25
  13. 13. I MARSHALL B. ROSENBERG I I COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA I Assim, parte da CNV consiste em expressar as quatro infor- ções dos outros. Dos capítulos 3 ao 6, aprenderemos a perceber mações muito claramente, seja de forma verbal, seja por outros e a expressar verbalmente cada um desses componentes, mas é meios. O outro aspecto dessa forma de comunicação consiste importante ter em mente que a CNV não consiste numa fórmu- em receber aquelas mesmas quatro informações dos outros. Nós la preestabelecida; antes, ela se nos ligamos a eles primeiramente percebendo o que estão ob- adapta a várias situações e esti- As duas partes da CNV: servando e sentindo e do que estão precisando; e depois desco- los pessoais e culturais. Embo- 1. expressar-se honestamente brindo o que poderia enriquecer suas vidas ao receberem a ra eu, por conveniência, me por meio dos quatro compo- quarta informação, o pedido. refira à CNV como "processo" nentes; À medida que mantivermos nossa atenção concentrada ou "linguagem", é possível rea- 2. receber com empatia por meio nessas áreas e ajudarmos os outros a fazerem o mesmo, esta- lizar todas as quatro partes do dos quatro componentes. beleceremos um fluxo de comunicação dos dois lados, até a processo sem pronunciar uma compaixão se manifestar naturalmente: o que estou observan- só palavra. A essência da CNV está em nossa consciência da- do, sentindo e do que estou necessitando; o que estou pedindo queles quatro componentes, não nas palavras que efetiva- para enriquecer minha vida; o que você está observando, sen- mente são trocadas. tindo e do que está necessitando; o que você está pedindo para enriquecer sua vida ... ApUCANDO A CNV EM NOSSA VIDA E NO MUNDO o processo da CNV Quando utilizamos a CNV em nossas interações - com nós As ações concretas que estamos observando e que afetam mesmos, com outra pessoa ou com um grupo -, nós nos colo- nosso bem-estar; camos em nosso estado compassivo natural. Trata-se, portanto, de uma abordagem que se aplica de maneira eficaz a todos os Como nos sentimos em relação ao que estamos observando; níveis de comunicação e a diversas situações: As necessidades, valores, desejos etc. que estão gerando nos- sos sentimentos; • relacionamentos íntimos; As ações concretas que pedimos para enriquecer nossa vida. • famílias; • escolas;I • organizações e instituições;1I • terapia e aconselhamento;li Ao usarmos esse processo, podemos começar nos expres- • negociações diplomáticas e comerciais; sando ou então recebendo com empatia essas quatro informa- • disputas e conflitos de toda natureza. 26 27
  14. 14. I MARSHALL 8. ROSEN8ERG I I COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA I Algumas pessoas usam a CNV para estabelecer maior grau de aprendizado e problemas de comportamento. Um aluno de nossaprofundidade e afeto em seus relacionamentos Íntimos. Eis o sala cospe, diz palavrões, grita e espeta outros alunos com lápisdepoimento de uma participante de um de nossos seminários, quando se aproximam de sua carteira. Eu lhe dou a deixa: "Porem San Diego: favor, diga isso de outro jeito. Use sua conversa de girafa"_ [Em alguns seminários, para demonstrar a CNV, usam-se fantoches de girafa} Na mesma hora, ele se levanta, olha para a pessoa de quem está com raiva e diz com toda a calma: "Por favor, você po- Quando aprendi como posso receber (escutar) e dar (expressar) deria sair de perto da minha carteira? Eu fico com raiva quando por meio da CNV, superei a fase em que me sentia agredida e feita você fica tão perto de mim ". Os outros alunos em geral respon- de capacho e comecei a realmente escutar as palavras e a captar dem com algo nesta linha: "Me desculpe, eu tinha esquecido que nelas os sentimentos subjacentes. Eu me dei conta do homem com isso deixa você aborrecido ". quem tinha estado casada por 28 anos, um homem muito sofrido. Comecei a pensar em minha frustração com essa criança e tentar Ele havia pedido o divórcio uma semana antes do seminário descobrir do que (além de harmonia e ordem) eu precisava. Per- [sobre CNV). Para encurtar uma história bem comprida, estamos cebi quanto tempo eu dedicava ao planejamento das aulas e como aqui hoje - juntos - e estou ciente da contribuição que [a CNV] minha necessidade de ser criativa e contribuir estava sendo pas- deu para termos um final feliz. [. . .] Aprendi a escutar sentimen- sada para trás pela necessidade de manter o bom comportamen- tos, a expressar minhas necessidades, a aceitar respostas que nem to da classe. Também senti que não estava atendendo às necessi- sempre queria ouvir. Ele não está aqui só para me agradar, nem dades educacionais dos outros alunos. Quando ele tinha alguma eu estou aqui para dar felicidade a ele. Ambos aprendemos a demonstração de raiva na aula, comecei a dizer: "Preciso que crescer, a aceitar e a amar de modo que ambos possamos nos rea- você preste atenção em mim ". Eu talvez tivesse de dizer isso cem lizar. vezes ao dia, mas ele acabava captando a mensagem e geralmen- te se concentrava na aula. Outros usam a CNV para estabelecer relacionamentos maiseficazes no trabalho. Uma professora de Chicago escreve: Uma médica de Paris escreve: Há cerca de um ano venho utilizando a CNV em minha turma de Cada vez mais, uso a CNV na prática clínica. Alguns pacientes alunos especiais. Ela pode funcionar até mesmo com crianças que perguntam se sou psicóloga, explicando que seus médicos não cos- têm desenvolvimento retardado da linguagem, dificuldades de tumam se interessar pela maneira que vivem ou lidam com as28 29
  15. 15. I MARSHALL B. ROSENBERG I I COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA I doenças. A CNV me ajuda a compreender quais são as necessida- usaram a CNV para se expressar a respeito do problema da Cis- des dos pacientes e o que eles precisam ouvir em determinado mo- jordânia, extremamente polêmico. Muitos dos colonos israelen- mento. Acho que isso ajuda sobretudo no relacionamento com he- ses que ali se estabeleceram acreditam que cumpriam uma de- mofílicos e aidéticos, pois ocorre tanta raiva e dor que é comum a terminação religiosa ao fazê-lo; eles estão enredados num relação entre o paciente e o profissional de saúde ficar seriamen- conflito não apenas com os palestinos, mas também com israe- te abalada. Faz pouco tempo, uma aidética que venho tratando lenses que reconhecem o desejo palestino de ter soberania na- há cinco anos me disse que o que mais a tinha ajudado foram mi- cional na região. Durante uma sessão, um de meus instrutores nhas tentativas de achar maneiras para ela desfrutar o dia-a- e eu criamos um modelo de escuta com empatia usando a CNV. dia. Nesse sentido, a CNV me auxilia muito. Antes, quando sabia Em seguida, convidamos os participantes a se alternarem nosI que um paciente tinha uma doença fatal, eu freqüentemente me papéis uns dos outros. Passados vinte minutos, uma colona de-I I atinha ao prognóstico, e, assim, era difícil estimulá-los sincera- clarou que, caso seus opositores políticos se mostrassem capazesI II mente a viver a vida. Com a CNV, desenvolvi uma nova consciên- de ouvi-la do mesmo modo que havia acabado de ser ouvida, cia, bem como uma nova linguagem. Fico assombrada em ver ela estaria disposta a considerar abrir mão de suas reivindica- quanto ela se encaixa bem em minha prática clínica. A medida ções fundiárias e sair da Cisjordânia para algum lugar em terri- que me envolvo cada vez mais na dança da CNV, sinto mais ener- tório internacionalmente reconhecido como israelense. gia e alegria no trabalho. Hoje, em todo o mundo, a CNV serve como recurso valioso para comunidades que enfrentam conflitos violentos ou graves tensões de natureza étnica, religiosa ou política. O avanço do Outros, por sua vez, empregam esse processo na política. treinamento em CNV e seu uso em mediações entre partes em Uma ministra francesa, ao visitar a irmã, notou quanto esta e o conflito em Israel, no território da Autoridade Palestina, na Ni- marido estavam se comunicando e respondendo um ao outro géria, em Ruanda, em Serra Leoa e em outros lugares têm sido de maneira diferente. Encorajada pela descrição que fizeram da motivo de especial satisfação para mim. Certa vez, meus asso- CNV, mencionou que, na semana seguinte, estaria negociando ciados e eu estivemos em Belgrado durante três dias muitíssimo com a Argélia algumas questões delicadas, referentes a procedi- tensos, treinando cidadãos que trabalhavam pela paz. Logo ao mentos de adoção. Embora o tempo fosse curto, despachamos chegarmos, vimos estampada no rosto dos participantes uma para Paris um instrutor que falava francês, a fim de trabalhar lxpressão de visível desespero, pois o país estava então envolvi- com a ministra. Posteriormente, ela atribuiu grande parte do do numa guerra brutal na Bósnia e na Croácia. À medida que o sucesso de suas negociações na Argélia às novas técnicas de co- treinamento avançou, começamos a ouvir o som de riso em municação que tinha adquirido. SlI8S vozes, ao expressarem sua profunda gratidão e alegria por Em Jerusalém, durante um seminário ao qual comparece- (tI"lm encontrado o recurso de que precisavam. Nas duas sema- ram israelenses de diversas convicções políticas, os participantes !las seguintes, trabalhando na Croácia, em Israel e na Palestina, 30 31
  16. 16. I MARSHALL B. ROSENBERG I I COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA I tornamos a ver cidadãos desesperados de países arrasados pela intercâmbio real em que um dos interlocutores aplique os guerra recuperarem o ânimo e a confiança a partir do treina- princípios da comunicação não-violenta. Entretanto, a CNV mento em CNV que recebiam. não é meramente uma linguagem, nem um conjunto de téc- Sinto-me abençoado por poder viajar o mundo todo ensi- nicas para usar as palavras; a consciência e a intenção que nando às pessoas um processo de comunicação que lhes dá a CNV abrange podem muito bem se expressar pelo silêncio poder e alegria. Agora, com este livro, estou feliz e empolgado (uma característica do estar presente), pela expressão facial por poder compartilhar com você a riqueza da Comunicação e pela linguagem corporal. Os diálogos de fi CNVem ação" Não-Violenta. que você lerá são versões necessariamente destiladas e resu- midas de intercâmbios da vida real, nos quais momentos de RESUMO empatia silenciosa, narrativas, humor, gestos etc. contribui-I II riam para que se estabelecesse entre as duas partes uma co- A CNV nos ajuda a nos ligarmos uns aos outros e a nós mes- nexão mais natural do que pode parecer quando se conden- mos, possibilitando que nossa compaixão natural floresça. Ela sam os diálogos na forma impressa. nos guia no processo de reformular a maneira pela qual nos ex- pressamos e escutamos os outros, mediante a concentração em Numa mesquita do campo de refugiados de Deheisha quatro áreas: o que observamos, o que sentimos, do que neces- (em Belém, na Cisjordânia), eu estava apresentando a comu- sitamos, e o que pedimos para enriquecer nossa vida. A CNV pro- nicação não-violenta a cerca de 170 muçulmanos palestinos. move maior profundidade no escutar, fomenta o respeito e a Na época, as atitudes para com os americanos não eram po- empatia e provoca o desejo mútuo de nos entregarmos de cora- sitivas. De repente, enquanto falava, percebi que uma onda ção. Algumas pessoas usam a CNV para responder compassiva- de tumulto abafado se espalhava entre o público. "Estão co- mente a si mesmas; outras, para estabelecer maior profundi- chichando que você é americano!", alertou meu intérprete, dade em suas relações pessoais; e outras, ainda, para gerar no mesmo momento em que um dos participantes se levan- relacionamentos eficazes no trabalho ou na política. No mundo tava subitamente. Olhando fixo para mim, ele gritou a plenos inteiro, utiliza-se a CNV para mediar disputas e conflitos em pulmões: "Assassino!" De imediato, uma dúzia de outras vozes todos os níveis. se juntou a ele em coro: "Assassino! Matador de crianças! As- sassino!" A CNV em ação Felizmente, fui capaz de concentrar minha atenção no que aquele homem estava sentindo e necessitando. No caso "Assassino, matador de crianças!" em questão, eu tinha algumas pistas. A caminho do campo de Intercalados em todo este livro, há diálogos intitulados fi CNV refugiados, eu tinha visto várias latas vazias de gás lacrimo- em ação: Eles se destinam a proporcionar o gostinho de um gêneo, que haviam sido atiradas contra o campo na noite an- 32 33 I II II
  17. 17. I MARSHALL B, ROSENBERG I I COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA I terior. Em cada uma delas, estavam claramente marcadas as EU Estou ouvindo quanto é penoso para vocês criarem palavras MADE IN USA (fabricado nos Estados Unidos), Eu sabia suas crianças aqui. Você gostaria que eu soubesse que que os refugiados tinham muita raiva dos EUA por fornecerem o que você quer é o que todos os pais desejam para os gás lacrimogêneo e outras armas a Israel. filhos - uma boa educação, a oportunidade de brincar Dirigi-me ao homem que havia me chamado de assassino: e crescer num ambiente saudável. .. ELE É isso mesmo! O básico! Direitos humanos - não é isso EU Você está com raiva porque você gostaria que meu go- que vocês americanos dizem? Por que não vêm mais de verno usasse seus recursos de forma diferente? (Eu não vocês aqui para ver que tipo de direitos humanos vocês sabia se meu palpite estava certo; no entanto, o fun- estão trazendo para cá? damentaI era meu esforço sincero de me sintonizar EU Você gostaria que mais americanos tomassem cons- com seu sentimento e suas necessidades.) ciência da enormidade do sofrimento que ocorre aqui ELE Pode ter certeza de que estou! Você acha que precisa- e vissem profundamente as conseqüências de nossas mos de gás lacrimogêneo? Precisamos é de esgotos, ações políticas? não do gás lacrimogêneo de vocês! Precisamos de mo- radias! Precisamos ter nosso próprio país! Nosso diálogo continuou; ele expressando sua dor por EU Então você está furioso e gostaria de algum apoio para quase vinte minutos mais, e eu procurando escutar o senti- melhorar suas condições de vida e obter a independên- mento e a necessidade por trás de cada frase, Não concordei cia política? nem discordei. Recebi as palavras dele não como ataques, mas ELE Você sabe o que é viver 27 anos aqui, do jeito que como presentes de outro ser humano que estava disposto a tenho vivido com a família - filhos e tudo mais? Você compartilhar comigo sua alma e suas profundas vulnerabili- possui a mais pálida noção do que isso tem sido para dades. nós? Uma vez que se sentiu compreendido, o homem foi EU Está me parecendo que você está muito desesperado e capaz de me ouvir explicar o motivo de eu estar naquele que está imaginando se eu ou qualquer outra pessoa campo. Uma hora depois, o mesmo homem que havia me cha- pode realmente compreender o que significa viver nes- mado de assassino estava me convidando para ir a sua casa sas condições, Foi isso mesmo que você quis dizer? para um jantar de ramadã. ELE Você quer compreender? Me diga: você tem filhos? Eles vão à escola? Eles têm playgrounds? Meu filho está doente! Ele brinca no esgoto a céu aberto! Sua sala de aula não tem livros! Você já viu uma escola que não tem livros? 34 35,U
  18. 18. 2. A comunicação que bloqueia a compaixão Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados. MATEUS 7, 1 Ao estudar a questão do Certas formas de comunicação que nos afasta de nosso estado nos alienam de nosso estado natural de compaixão, identifi- compassivo natural. quei algumas formas específicas de linguagem e comunicação que acredito contribuírem para nosso comportamento violento em relação aos outros e a nós mesmos. Para designar essas formas de comunicação, utilizo a expressão "comunicação alienante da vida". JULGAMENTOS MORALlZADORES Um tipo de comunicação alienante da vida é o uso de julga- mentos moralizadores que subentendem uma natureza errada ou maligna nas pessoas que não agem em consonância com nossos valores. Tais julgamentos aparecem em frases como: "O teu proble- ma é ser egoísta demais", "Ela é preguiçosa", "Eles são preconcei- tuosos", "Isso é impróprio". Culpa, insulto, depreciação, rotulação, I crítica, comparação e diagnósticos são todos formas de julgamento. i , 37,,.:J II
  19. 19. I COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA I I MARSHALL B. ROSENBERG I No mundo dos julgamentos, o Certa vez, o poeta sufi Rumi ção do que me dá, então ela é "indiferente e insensível". Se meu que nos importa é QUEM "É" O escreveu: "Para além das idéias colega atenta mais aos pormenores do que eu, ele é "cricri e QUÊ. de certo e errado, existe um cam- compulsivo". Por outro lado, se sou eu quem presta mais aten- po. Eu me encontrarei com você ção aos detalhes, ele é "lambão e desorganizado". lá". No entanto, a comunicação alienante da vida nos prende Estou convicto de que todas essas análises de outros seres num mundo de idéias sobre o certo e o errado - um mundo de humanos são expressões trágicas de nossos próprios valores e julgamentos, uma linguagem rica em palavras que classificam e necessidades. São trágicas porque, quando expressamos nossos dicotomizam as pessoas e seus atos. Quando empregamos essa valores e necessidades de tal forma, reforçamos a postura defen-I linguagem, julgamos os outros e seu comportamento enquanto siva e a resistência a eles nas próprias pessoas cujos comporta- i I nos preocupamos com o que é bom, mau, normal, anormal, mentos nos interessam. Ou, se essas pessoas concordam em agir I responsável, irresponsável, inteligente, ignorante etc. de acordo com nossos valores porque aceitam nossa análise de Muito antes de ter chegado à idade adulta, aprendi a me co- que estão erradas, é provável que o façam por medo, culpa ou municar de uma maneira impessoal que não exigia que eu re- vergonha. velasse o que se passava dentro de mim. Quando encontrava Todos pagamos caro quando as pessoas reagem a nossos va- pessoas ou comportamentos de que não gostava ou que não lores e necessidades não pelo desejo de se entregar de coração, compreendia, reagia considerando que fossem errados. Se meus mas por medo, culpa ou vergonha. Cedo ou tarde, sofreremos professores me determinavam uma tarefa que eu não queria as conseqüências da diminuição da boa vontade daqueles que se fazer, eles eram "medíocres" ou estavam "exorbitando". Se al- submetem a nossos valores pela coerção que vem de fora ou de guém me dava uma fechada no trânsito, minha reação era gri- dentro. Eles também pagam um preço emocional, pois prova- tar: "Palhaço!" Quando usamos tal linguagem, pensamos e nos velmente sentirão ressentimento e menos auto-estima quando comunicamos em termos do que há de errado com os outros reagirem a nós por medo, culpa ou vergonha. Além disso, toda para se comportarem desta ou daquela maneira - ou, ocasio- vez que os outros nos associam a qualquer desses sentimentos, nalmente, o que há de errado com nós mesmos para não com- reduzimos a probabilidade de que no futuro venham a reagir preendermos ou reagirmos do modo que gostaríamos. Nossa compassivamente a nossas necessidades e valores. atenção se concentra em classi- Aqui, é importante não confundir juízos de valor com julga- ficar, analisar e determinar ní- Analisar os outros é, na realida- mentos moralizadores. Todos fazemos juízos de valor sobre as qua- de, uma expressão de nossas ne- veis de erro, em vez de fazê-lo lidades que admiramos na vida; por exemplo, podemos valorizar cessidades e valores. no que nós e os outros necessi- a honestidade, a liberdade ou a paz. Os juízos de valor refletem o tamos e não estamos obtendo. que acreditamos ser melhor para a vida. Fazemos julgamentos mo- Assim, se minha mulher deseja mais afeto do que estou lhe ralizadores de pessoas e comportamentos que estão em desacordo dando, ela é "carente e dependente". Mas, se quero mais aten- com nossos juízos de valor; por exemplo, "A violência é ruim; 38 39 ,I I
  20. 20. 1 I MARSHALL B. ROSENBERG I I COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA I pessoas que matam outras são más". Se tivéssemos sido criados de vulnerabilidade - o que a pessoa pode estar sentindo, te- falando uma linguagem que facilitasse exprimir compaixão, te- mendo, ansiando, do que pode estar sentindo falta, e assim por ríamos aprendido a articular diretamente nossas necessidades e diante. Durante a Guerra Fria, testemunhamos essa perigosa nossos valores, em vez de insinuarmos que algo é ou está errado maneira de pensar. Nossos líderes viam os russos como um "im- quando eles não são atendidos. Por exemplo, em vez de "A vio- pério do mal" dedicado a destruir o American way oflife. Os líde- lência é ruim", poderíamos dizer: "Tenho medo do uso da violên- res russos se referiam ao povo americano como" opressores im- cia para resolver conflitos; valorizo a resolução de conflitos por perialistas" que tentavam subjugá-los. Nenhum dos dois lados outros meios". reconhecia o medo que se escondia por trás daqueles rótulos. A relação entre linguagem e violência é tema das pesquisas de O. J. Harvey, professor de psicologia na Universidade do FAZENDO COMPARAÇÕESI I Colorado. Ele tomou amostras aleatórias de obras literárias deI. países mundo afora e tabulou a freqüência das palavras que Outra forma de julgamento é o uso de comparações. No livro classificam e julgam as pessoas. Seu estudo constata elevada cor- How to make yourselfmiserable [Como enlouquecer você mesmo: o poder relação entre o uso freqüente dessas palavras e a incidência de do pensamento negativo], Dan Greenberg demonstra por meio do violência. Não me surpreende saber que existe consideravel- humor o poder insidioso que o mente menos violência em culturas nas quais as pessoas pen- pensamento comparativo pode Comparações são uma forma de sam em termos das necessidades humanas do que em outras exercer sobre nós. Ele sugere julgamento. nas quais as pessoas se rotulam de "boas" ou "más" e acreditam que, se os leitores tiverem um que as "más" merecem ser punidas. Em 75% dos programas desejo sincero de tornar suas vidas infelizes, devem aprender a se exibidos nos horários em que existe maior probabilidade de as comparar a outras pessoas. Para aqueles que não estão familiari- crianças americanas estarem as- zados com essa prática, Greenberg fornece alguns exercícios. O Classificar e julgar as pessoas sistindo à TV, o herói ou mata primeiro mostra as figuras de corpo inteiro de um homem e uma estimula a violência. pessoas, ou as espanca. Tal vio- mulher que encarnam o presente ideal de beleza física expresso lência costuma constituir o "clí- pela mídia. Os leitores são instruídos a tomar suas próprias medi- max" do espetáculo. Os telespectadores (a quem se ensinou que das corporais, compará-las às indicadas nas figuras daqueles dois os maus merecem castigo) sentem prazer em ver essa violência. espécimes atraentes e ficar matutando sobre as diferenças. Na raiz de grande parte ou talvez de toda violência - ver- O exercício cumpre o que promete: quando fazemos essas bal, psicológica ou física, entre familiares, tribos ou nações -, comparações, começamos a nos sentir infelizes. No momento está um tipo de pensamento que atribui a causa do conflito ao em que já estamos tão deprimidos quanto julgamos possível, I I fato de os adversários estarem errados, e está a correspondente nós viramos a página e descobrimos que o primeiro exercício incapacidade de pensar em si mesmos ou nos outros em termos tinha sido só aquecimento. Já que a beleza física é relativamen- 40 41 I "
  21. 21. I MARSHALL B. ROSENBERG I I COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA I te superficial, Greenberg nos oferece agora a oportunidade de Em Eichmann em Jerusalém, livro que documenta o julga- nos compararmos aos outros em algo que importa para valer: mento do oficial nazista Adolph Eichmann por crimes de guer- as realizações pessoais. Ele escolhe ao acaso alguns indivíduos ra, Hannah Arendt conta que ele e seus colegas davam um com quem possamos nos comparar. O primeiro nome que ele nome à linguagem de negação de responsabilidade usada por diz ter achado é o de Wolfgang Amadeus Mozart. Greenberg eles. Chamavam-na de Amtssprache, que se poderia traduzir li- enumera os idiomas que Mozart falava e as obras importantes vremente como "linguagem de escritório", ou "burocratês". que compôs quando ainda era adolescente. O exercício nos Por exemplo, se lhe perguntassem por que ele tomara certa ati- instrui então a nos lembrar de nossas respectivas realizações tude, a resposta poderia ser: "Tive de fazer isso". Se lhe pergun- na atual fase de nossa vida, compará-las com o que Mozart já tassem por que "teve de fazer", a resposta seria: "Ordens supe- havia conseguido aos 12 anos e refletir longamente sobre as di- riores", "A política institucional era essa", "Era o que mandava ferenças. a lei". Por meio daquele exercício, até os leitores que nunca con- Negamos responsabilidade por nossos atos quando os atri- seguem sair da infelicidade auto-imposta são capazes de ver buímos a: quanto esse tipo de pensamento bloqueia a compaixão, tanto por si próprios quanto pelos outros. • forças vagas e impessoais ("Limpei meu quarto porque tive de fazê-lo"); NEGAÇÃO DE RESPONSABlLlDADE • nossa condição, diagnóstico, histórico pessoal ou psicológico ("Bebo porque sou alcoólatra"); Outro tipo de comunicação alienante da vida é a negação • ações dos outros ("Bati no meu filho porque ele correu parade responsabilidade. A comunicação alienante da vida turva a rua");nossa consciência de que cada um de nós é responsável por seus • ordens de autoridades ("Menti para o cliente porque o chefepróprios pensamentos, sentimentos e atos. O uso corriqueiro da me mandou fazer isso");Nossa linguagem obscurece a expressão "ter de" (como em • pressão do grupo ("Comecei a fumar porque todos os meusconsciência da responsabilidade "Há algumas coisas que você amigos fumavam");pessoal. tem de fazer, quer queira, quer • políticas, regras e regulamentos institucionais ("Tenho de não") ilustra de que modo a res- suspender você por conta dessa infração; é a política da es-ponsabilidade pessoal por nossos atos fica obscurecida nesse cola");tipo de linguagem. A expressão "fazer alguém sentir-se" (como • papéis determinados pelo sexo, idade e posição social ("De-em "Você me faz sentir culpado") é outro exemplo da maneira testo ir trabalhar, mas vou porque sou pai de família");pela qual a linguagem facilita a negação da responsabilidade • impulsos incontroláveis ("Fui tomado por um desejo depessoal por nossos sentimentos e pensamentos. comer aquele doce").42 43
  22. 22. I MARSHALL B. ROSENBERG I I COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA I Certa vez, durante uma discussão entre pais e professores ria". Tínhamos acabado de praticar como introduzir na sala de sobre os perigos de uma linguagem que implicasse ausência de aula um tipo de linguagem que aumentasse a consciência da res- escolha, uma mulher objetou, irada: "Mas existem algumas coi- ponsabilidade pessoal. Sugeri que a professora substituísse a sas que você tem de fazer, gostando ou não! E não vejo nada de frase "Tenho de dar nota porque é a política da secretaria" por errado em dizer aos meus filhos que há coisas que também eles esta, completando-a: "Eu opto por dar nota porque desejo ... " Ela têm de fazer". Quando pedi que desse um exemplo de algo que respondeu sem hesitação: "Eu opto por dar nota porque desejo "tinha de fazer", ela respondeu: "É fácil! Quando eu sair daqui manter o emprego". Apressou- esta noite, tenho de ir para casa e cozinhar. Eu detesto cozinhar! se a acrescentar: "Mas não gosto Ficamos perigosos quando não Detesto do fundo da alma, mas venho fazendo isso todos os dias de dizer dessa maneira. Faz que temos consciência de nossa res- há vinte anos, até quando estava muito doente, porque é uma eu me sinta tão responsável pelo ponsabilidade por nossos com- II das coisas que a gente simplesmente precisa fazer". Eu lhe disse que faço ... " Respondi: "É exata- portamentos, pensamentos e que estava consternado em ouvir que ela passara tanto tempo mente por isso que quero que sentimentos. de sua vida fazendo algo que detestava só porque se achava você diga dessa maneira". compelida a fazê-lo, e que eu esperava que ela pudesse encon- Compartilho dos sentimentos do romancista e jornalista trar possibilidades melhores aprendendo a linguagem da CNV. francês George Bernanos quando escreve: Tenho o prazer de informar que ela aprendeu rápido. No final do seminário, foi para casa e anunciou à família que não 11 queria mais cozinhar. A oportunidade de recebermos algum re- torno de seus familiares ocorreu três semanas depois, quando os Já acredito há muito tempo que, se a eficiência cada vez maior dois filhos chegaram para parti- da tecnologia de destruição um dia fizer que nossa espécie desa- Podemos substituir uma lingua- cipar de um seminário. Eu esta- pareça da Terra, não terá sido a crueldade a responsável por gem que implique falta de esco- va curioso para saber como ti- nossa extinção, menos ainda a indignação que a crueldade des- lha por outra que reconheça a nham reagido à declaração da perta ou as represálias e vinganças que ela atrai [.. I mas sim a possibilidade de escolha. mãe. O filho mais velho suspi- docilidade, a falta de responsabilidade do homem moderno, sua rou - "Marshall, eu simples- desprezível aceitação subserviente de qualquer decreto comum. mente pensei: Graças a Deus!" Vendo minha expressão intri- Os horrores que já vimos, os horrores ainda maiores que logo ve- gada, ele explicou: "Pensei comigo mesmo: Talvez ela finalmente pare de reclamar durante as refeições!" remos, são sinal não de que os homens rebeldes, insubordinados Em outra ocasião, quando eu prestava consultoria a uma e indomáveis estejam aumentando em número no mundo todo, e secretaria municipal de ensino, uma professora observou: "De- sim de que aumenta constantemente o número de homens obe- testo dar nota. Acho que elas não ajudam e ainda criam muita dientes e dóceis. ansiedade nos alunos. Mas tenho de dar, é a política da secreta- 44 45..I
  23. 23. I MARSHALL B. ROSENBERG I I COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA I OUTRAS FORMAS DE COMUN1CAÇÃO ALlENANTE DA VlDA "maldade" da parte das pessoas que se comportam de determi- nadas maneiras e demanda alguma punição para fazê-las se ar- Comunicar nossos desejos como exigências é outra forma rependerem e se emendarem. Acredito ser do interesse de todos de linguagem que bloqueia a compaixão. Uma exigência amea- que as pessoas mudem não para evitarem punições, mas por ça os ouvintes explícita ou implicitamente com culpa ou puni- perceberem que a mudança as beneficiará. ção se eles não a atenderem. É uma forma de comunicação A maioria de nós cresceu usando uma linguagem que, em comum em nossa cultura, especialmente entre aqueles que vez de nos encorajar a perceber o que estamos sentindo e do detêm posições de autoridade. que precisamos, nos estimula a A comunicação alienante da vida Meus filhos me deram algumas lições valiosas sobre exigên- rotular, comparar, exigir e pro- cias. De alguma forma, meti em minha cabeça que, como pai, tem profundas raízes filosóficas e ferir julgamentos. Acredito que era meu papel fazer exigências. políticas. a comunicação alienante da Nunca conseguimos forçar as Contudo aprendi que, mesmo vida se baseia em concepções sobre a natureza humana que pessoas a fazer nada. que eu fizesse todas as exigên- exerceram influência durante vários séculos. Tais visões dão ên- cias do mundo, isso não os leva- fase a nossa maldade e nossa deficiência inatas, bem como a ne- ria a fazer coisa alguma. É uma lição de humildade no exercício cessidade de educar para controlar nossa natureza inerente- do poder, para aqueles entre nós que acreditam que, por sermos mente indesejável. É comum que esse tipo de educação nos faça pais, professores ou administradores, é nossa tarefa mudar as questionar se há algo errado com os sentimentos e as necessida- outras pessoas e fazê-las se comportar. Pois ali estavam aqueles des que possamos estar vivenciando. Aprendemos desde cedo a jovens me mostrando que eu não conseguiria obrigá-los a nada. isolar o que se passa dentro de nós. No máximo poderia, por meio da punição, fazê-los desejar ter A comunicação alienante da vida tanto se origina de socie- feito o que eu queria. E eles acabaram me ensinando que, sem- dades baseadas na hierarquia ou dominação quanto sustenta pre que eu fosse tolo o bastante para fazer isso, teriam meios essas sociedades. Onde quer que uma grande população se en- para me fazer desejar não tê-los punido! contre controlada por um número pequeno de indivíduos para Voltaremos a esse assunto quando aprendermos a diferen- () benefício desses últimos, é do interesse dos reis, czares, no- ciar pedidos e exigências - parte importante da CNV. bres etc. que as massas sejam educadas de forma tal que a men- A comunicação alienante da vida também se associa ao talidade delas se torne semelhante à de escravos. A linguagem conceito de que certos atos merecem recompensa e outros pu- do "errado", o "deveria" e o "tenho de", é perfeitamente ade-II nição. Tal forma de pensar se quada a esse propósito: quanto mais as pessoas forem instruí- o pensamento baseado em expressa pelo verbo "merecer", das a pensar em termos de julgamentos moralizadores que im- "quem merece o quê" bloqueia a como em "João merece ser pu- plicam que algo é errado ou mau, mais elas serão treinadas a comunicação compassiva. nido pelo que fez". Ela presume consultar instâncias exteriores - as autoridades - para saber a 46 47.11 ,li
  24. 24. I MARSHALL B. ROSENBERG I, definição do que constitui o certo, o errado, o bom e o mau.II Quando estamos em contato com nossos sentimentos e necessi- dades, nós, humanos, deixamos de ser bons escravos e lacaios. 3. observar sem avaliar RESUMO É de nossa natureza gostarmos de dar e receber com com- paixão. Entretanto, aprendemos muitas formas de "comunica- ção alienante da vida" que nos levam a falar e a nos comportar de OBSERVEM!!! Há poucas coisas tão importantes, tão maneiras que ferem aos outros e a nós mesmos. Uma forma de co- religiosas, quanto isso. municação alienante da vida é o uso de julgamentos moraliza- PASTOR FREDERICK BUECHNER dores que implicam que aqueles que não agem em consonância com nossos valores estão errados ou são maus. Outra forma desse tipo de comunicação é fazer comparações, que são capa- zes de bloquear a compaixão tanto pelos outros quanto por nós Posso lidar com você me dizendo mesmos. A comunicação alienante da vida também prejudica O que eu fiz ou deixei de fazer. nossa compreensão de que cada um de nós é responsável por E posso lidar com suas interpretações. seus próprios pensamentos, sentimentos e atos. Comunicar nos- Mas, por favor, não misture as duas coisas. sos desejos na forma de exigências é ainda outra característica Se você quer deixar qualquer assunto confuso, da linguagem que bloqueia a compaixão. Posso lhe dizer como fazer: Misture o que eu faço Com a maneira que você reage a isso. Diga-me que você está decepcionada Com as tarefas inacabadas que você vê, Mas me chamar de "irresponsável" Não é um modo de me motivar. E me diga que fica magoada Quando digo "não" às suas aproximações, Mas me chamar de um homem "frígido" Não vai melhorar suas chances. 48 49
  25. 25. I MARSHALL B. ROSENBERG I I COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA I , I Sim, posso lidar com você me dizendo linguagem animista, que nos convida a falar a respeito de esta-I O que fiz ou deixei de fazer. bilidade e constâncias, de semelhanças, normalidades e tipos, de I E posso lidar com suas interpretações. transformações mágicas, curas rápidas, problemas simples e so- Mas, por favor, não misture as duas coisas. luções definitivas. No entanto, o mundo que tentamos simboli- MARSHALL B. ROSENBERG zar com essa linguagem é um mundo de processos, mudanças, diferenças, dimensões, funções, relações, crescimentos, intera- ções desenvolvimento, aprendizado, abordagem, complexidade. o primeiro componente da CNV acarreta necessariamente E o desencontro entre este nosso mundo sempre em mutação e separar observação de avaliação. Precisamos observar claramen- as formas relativamente estáticas de nossa linguagem é parte de te, sem acrescentar nenhuma avaliação, o que vemos, ouvimos nosso problema". ou tocamos que afeta nossa sensação de bem-estar. Numa canção que ilustra a diferença entre avaliação e ob- As observações constituem um elemento importante da CNV, servação, minha colega Ruth Bebermeyer mostra o contraste em que desejamos expressar clara e honestamente a outra pes- entre linguagem estática e linguagem dinâmica: soa como estamos. No entanto, ao combinarmos a observação com a avaliação, diminuímos a probabilidade de que os outros ouçam a mensagem que desejamos lhes transmitir. Em vez dis- Nunca vi um homem preguiçoso; so, é provável que eles a escutem como crítica e, assim, resistam já vi um homem que nunca corria ao que dizemos. enquanto eu o observava, e já vi A CNV não nos obriga a permanecermos completamente obje- um homem que às vezes dormia tivos e a nos abstermos de avaliar. Ela apenas requer que mante- entre o almoço e o jantar, e ficava nhamos a separação entre nossas observações e nossas avaliações. em casa em dia de chuva; A CNV é uma linguagem dinâmica, que desestimula generalizações mas ele não era preguiçoso. estáticas; ao contrário, as avalia- Antes que você me chame de louca, Quando combinamos observação ções devem sempre se basear nas pense: ele era preguiçoso ou com avaliação. as pessoas ten- observações especificas de cada apenas fazia coisas que rotulamos de "preguiçosas "? dem a receber isso como crítica. momento e contexto. O semanti- cista WendeIl Johnson observou Nunca vi uma criança burra; que criamos muitos problemas para nós mesmos ao usarmos já vi criança que às vezes fazia uma linguagem estática para expressar ou captar uma realidade coisas que eu não compreendia, que está sempre mudando: "Nossa linguagem é um instrumen- ou as fazia de um jeito que eu não planejara; to imperfeito, criado por homens antigos e ignorantes. É uma já vi criança que não conhecia 50 51

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