Poema o pastor

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Poema o pastor

  1. 1. Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009O pastorNo montado, o pastor guarda o silêncio todo na boca. As palavrasditas e os outros ruídos do mundo não passam por ali que o pastornão deixa. Ali, só quem passa é a brisa e mesmo essa vem já ao fimda tarde, fresca, fugida do sol, para pentear e endireitar a erva que ogado pisou.Para além de silêncio e gado, o pastor também guarda o tempo.Aliás, é ele que tem a chave do mecanismo do devir. É ele que abreas manhãs. Ao acender o primeiro cigarro, puxa fogo ao sol para queeste nasça em pequenos gritos de luz. É ele que acorda o balido dasovelhas, as asas dos pássaros, a côdea do pão, a humidade das rãs,a rijeza do cajado, o rabo dos cães, a viscosidade dos lagartos, ocanto dos pintassilgos, o veludo das borboletas, as sombras dasárvores. É ele que cria a fome de talhadas de toucinho e copos devinho, que convida a folga para dentro do corpo depois de almoço,que entrega um mapa da erva boa ao rebanho, que traça o plano devoo de um falcão, que aquece a água da barragem, que, a toques debordão, vai fazendo girar a terra toda, como um carrossel feito deponteiros e doze números, até o sol, pintado da cor das laranjas deumbigo, se esconder a pouco e pouco num buraco ali para os ladosde Garvão. Para quem não sabe, á ali que o astro dorme. É o pastorque com o isqueiro acende as estrelas, os olhos das corujas, o sonodas galinhas, o medo do escuro, o descanso dos cães, odesassossego dos ratos.A pelica é um ninho de andorinhas, um refúgio de pardais pequenos,uma toca de coelhos vadios, uma malhada de borregos pequenos, acasa do coração.O pastor é um farol guiando ribeiros e garças, uma guarita onde ostrigais descansam do vento, um cristo-rei de braços fechadosabençoando cerros e planuras.O cajado é a trave mestra do mundo. Sem ele a pastagem erainvertebrada. É ele a espinha dorsal do tempo, a viga de azinho quesuporta o horizonte, o pau que sustenta as nuvens, que aguenta oazul, que fura o céu para fazer chover, que é fálico porque a terra àvezes arredonda de mais. O cajado é o general dos cães. Sem ele, oscães eram soldados insurrectos e as ovelhas talvez perdessem a sua
  2. 2. obediência de lã.Um pastor sem cajado é um eunuco conquistando mulheres.À noite, a Estrela Polar guia-lhe a mão - mais o outro cajado queguarda o desejo - pela galáxia da pele e só a pára quando o corpotodo atinge o céu. No campo há flores que são frutos das sementesque vêm de dentro dele. São pequeninas flores verde-fogo quecrescem à beira dos poços da alma.Os seus olhos campaniços são dois camaleões poisados na terra. Oraamarelo-pó no verão, ora castanho-torrão no outono, ora cinzento-água no inverno, ora verde-erva na primavera.O rebanho entretém-se numa estratégia de ruminação de erva. Oscães lambem uma ferida. O pastor rumina os pensamentos. Sãotodos intérpretes de um destino que uma cegonha anuncia nas asasquando voa.Eu passo na estrada.O pastor acena-me e eu desligo o rádio.Também eu preciso de sentir o sabor do silêncio na minha boca.Publicada por Vitor Encarnação em 04:18

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