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Da Aldeia para o Cabaré - por Marco Alves

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Reportagem da autoria de Marco Alves sobre a ascendência familiar do Chef José Avillez, num apontamento de história que se confunde com a História de Cascais. Publicado na Revista Sábado do dia 25 de Maio de 2017.

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Da Aldeia para o Cabaré - por Marco Alves

  1. 1. 74 Sociedade Apesar de ter sido um homem empreendedor, que subiu a pulso, e de ter estado envolvido na cria- ção de estabelecimentos noctur- nos que deram que falar, o nome de José Ereira raramente aparece em hemerotecas, arquivos, igrejas ou bibliotecas. Além do Maxim’s, teve o Teatro- -Salão Foz, que abriu com outro sócio, também em 1908 e no mesmo edifício, mas com entrada pela Calçada da Glória. Era uma sala de concertos e espectáculos de animatógrafo para 730 espec- tadores, além de “sessões da moda da actual épocha”, como se lê num jornal de 1915. Uma das raras referências a José Nunes Ereira aparece em outro “A SUA QUINTA ERA LOCAL PRE- FERIDO DO REI D. CAR- LOS PELAS GALINHOLAS QUE POR ALI ABUNDA- VAM” PERFIL. JOSÉ NUNES EREIRA COMEÇOU COM UM ARMAZÉM DE VINHOS O trisavô de José Avillez era um pequeno comerciante quando chegou a Cascais, no século XIX. Depois enriqueceu, teve um casino, caçou com o Rei e fundou o primeiro cabaré de Lisboa. Em 2017, o chefabriu o Beco em sua homenagem. PorMarco Alves N o dia 22 de Junho de 1940 os portugueses estavam entre o choque e o es- panto. O choque vinha da guerra-relâmpago que Hitler lança- ra em Setembro de 1939. O espanto devia-se à Exposição do Mundo Português, que seria inaugurada no dia seguinte – espécie de Expo 98 em formato panfleto do Estado Novo, a feira de Salazar incluía ele- fantes, leões e palhotas com africa- nos mandados vir da origem. Talvez por isso tenha passado dis- creta esta notícia do Diário de Lis- boa: “Vai ser leiloado o recheio do Maxim’s, que esteve instalado no Palácio Foz.” Assim se marcava o fim definitivo do primeiro cabaré de Lisboa, situado desde 1908 no Palá- cio Castelo Melhor, ou Palácio Foz, nos Restauradores. O fim vinha com elogio fúnebre: “O mais ele- gante clube de Lisboa”, dizia o jor- nal, que defendia que a notícia não era “um facto banal, pois o Maxim’s está ligado à vida da Lisboa mun- dana das últimas décadas”. O jornalista que escreveu a peça não imaginaria que, 77 anos de- pois, um tal de José Avillez iria inaugurar, 650 metros a subir pelo Chiado, o Beco – Cabaret Gour- met, assumindo-o como uma con- tinuação do Maxim’s (recriando o imaginário cénico) e como uma homenagem a quem o fundou, Jo- sé Ereira, seu trisavô. DAALDEIA PARAOCABARÉ jornal do mesmo ano, O Zé. Num artigo publicado a 5 de Outubro, é descrito como “um dos grandes capitalistas de Lisboa, cavalheiro de consideração e carácter”. O seu filho, Joaquim (que é, portan- to, o bisavô do chefAvillez) esta- T Herdou-lhe oempreendedorismo José Avillez e o trisavô, José Ereira. A foto deste, a única conhecida, foi cedida à SÁBADO pelo site Restos de Colecção, de José Leite i José Avillez, 37 anos, descende da nobreza, mas também de comerciantes modestos que subiram a pulso BRUNOCALADO
  2. 2. www.sabado.pt 25 MAIO 2017 75 T Regresso ao passado A 28 de Dezembro de 1930, o Notícias Ilustrado mostrava uma festa no Maxim’s, cabaré que serviu de inspiração para o Beco (2017) Os seus anúncios falavam em “Primeiro Restaurant-Dancing do Paiz”, “Lindos efeitos de luz” [comandados por um “electricis- ta”] e “Últimas novidades de Paris, Londres e Berlim”. Ricamente ornamentado (Fernando Pessoa descreve tudo em Lisboa – O Que o Turista Deve Ver, de 1925) e profusamente animado por excentricidades e variedades (incluindo striptease). Havia mesas de jogo, cocaína e álcool, e também beldades que podiam praticar esporadicamente o que hoje, rispidamente, se cha- ma alterne e prostituição de luxo. “É lá que todos os que se divertem vão passar as horas da noite, fora da labuta, em busca da verdadeira alegria”, resumia o Ilustrado. Pai discreto, filho benemérito José Ereira foi também um dos só- cios do Grande Casino Internacio- nal Mont’Estoril, inaugurado em 1899 e desde aí repleto de janta- res-concerto e espectáculos, in- cluindo de artistas internacionais. Frequentado pela alta sociedade ria já também na gestão do espa- ço, uma vez que é ele que o cede em definitivo em 1917. O Salão Foz foi notícia pelas pio- res razões na noite de 29 de Janei- ro de 1929, quando um incêndio o destruiu. O Maxim’s também seria afectado. “Àquela hora, o Maxim’s regurgitava de gente. A certa altu- ra, uma das senhoras que ali se encontravam atravessou o dan- cingcorrendo”, escreve o Diário de Notícias, que logo a seguir tem esta passagem curiosa, lembrando o desastre do Titanic: “Quando o sr. Walter Machado, director, foi avisado do fogo, para evitar o pâ- nico, recomendou à orquestra que continuasse tocando e aos criados que avisassem os clientes de que era forçoso retirarem-se. E assim se fez, na melhor ordem, apesar das chamas irromperem com vio- lência do telhado.” O fogo e a água dos bombeiros provocaram prejuízos de 400 contos no Maxim’s (cerca de 370 mil euros hoje), incluindo “a arre- cadação de material eléctrico de ornamentações e lingerie”. O Maxim’s, óbvia importação parisiense (o primeiro cabaré foi o Le Chat Noir, em 1891), mar- cara uma época como clube de prazer para elites – “onde toda a gente chic está”, dizia o Notí- cias Ilustrado. OhistoriadorJoão Aníbal Henriques facultou à SÁBADO alguns anúncios da mercearia de Joaquim Pedada, cunhado e sócio de José Ereira. Além de vinho (que o trisavô de José Avil- lez também vendia), havia “variado sorti- mento de géneros de mercearia”, tabacos, ce- reais e lenhas. Vinhosavulso Amerceariados Pedada, que se juntaram aos Ereira Ereiras O pai, o avô e o trisavô do chef Avillez têm o mesmo nome: José Ereira. Foi o nome que deu ao seu filho, de 7 anos OTRISAVÔ ERADISCRE- TO,MASOBI- SAVÔERAFA- MOSO:DAVA DINHEIRO AQUEMLHO PEDIA g Quando o jogo foi proibido, o Maxim’s escondia- -o. Tinha um em- pregado à entrada que tocava uma campainha inter- na quando a polí- cia chegava Q
  3. 3. 76 Sociedade (incluindo a Rainha Dona Amé- lia), fechou quando abriu o Casino do Estoril, em 1931. Joaquim Ereira tomou conta dos negócios do pai e ficou mais conhecido. Tido como profunda- mente generoso (no sentido literal de dar dinheiro a quem precisava), tem hoje uma rua em Cascais com o seu nome (ao lado da Quinta da Bicuda, e isso não é por acaso, como veremos). É através de Joaquim que se en- contra no Arquivo Histórico Muni- cipal de Cascais uma referência ao seu pai. Datada de 28 de Dezembro de 1914, é uma carta enviada à câ- mara informando que o seu pai “está disposto a vender a sua pro- priedade, na rua Visconde da Luz, por 7.000$00” (144 mil euros hoje). Joaquim Ereira continuou alguns negócios do pai. “É ele quem dá forma e espírito à família. Deixou obra muito determinante na con- solidação da vocação turística de Cascais. Aparece nos meus regis- tos como sendo ele que explora uma casa de jogo numa das ruelas por trás do Casino da Praia [inau- gurado em 1873 na orla da praia da Ribeira] e é ele quem, em so- ciedade com várias famílias que então se tinham instalado em Cas- cais, explora o jogo nascente no Monte Estoril”, diz à SÁBADO o tres, os Melo e Castro e os Ulrich, quando, em 2015, se casou com Sofia de Melo e Castro Ulrich. Resta, portanto o último apelido, Ereira. Seguindo uma tradição onomástica antiga (adoptar o nome da terra), os Ereiras come- çaram a ficar Ereira porque vie- ram da Ereira, uma pequena loca- lidade do concelho do Cartaxo, a 64 km de Lisboa. “Eu sou Ereira, mas no râguebi, nos escuteiros, nem me tratavam por Zé. Era o Avillez. Fiquei o Avillez. Agora, o meu filho vai nascer e vou ressuscitar um José Ereira. Do lado do meu pai morreu toda a gente. Os tios, os avós; só tenho dois primos direitos. O meu filho vai ser Zezinho Ereira”, dizia o chefao Público em 2009. Em oitocentos, Cascais era uma vila banal – havia a expressão “a Cascais vinha-se uma vez e nunca mais…” –, habitada por trabalhado- res sazonais (pescadores e militares aquartelados na Cidadela). “O resto era composto pelos saloios dos ar- rabaldes, que forneciam a vila de fruta e legumes e por um ainda in- cipiente grupo de comerciantes oriundos de várias zonas do País”, diz João Aníbal Henriques. Um desses comerciantes era Jo- sé Ereira, que se estabeleceu por volta de 1880 na Rua do Arco como proprietário de um arma- zém de vinhos. “Mais tarde, uma irmã sua, Engrácia, terá casado com outro ilustre proto- -comerciante, Joaquim Pedada, dono de uma das mais prósperas mercearias da vila, situada de- fronte do armazém dos Ereiras. Os Pedadas, naturais do Algarve, historiador João Aníbal Henriques. “Exploraram o Casino Portu- guês, o Strangers e, mais tarde, o Casino Internacional do Monte Estoril. Depois, em parceria com Guilherme Cardim, Armando Vilar e João Aranha, criaram a Sociedade Estoril Plage (ainda hoje existente), que arrenda a Fausto Figueiredo o direito à exploração do jogo no Estoril, fundando o casino que hoje co- nhecemos”, conclui. Um grandesaltopara osEreiras O nome completo do chefmais estrelado de Portugal é José de Avillez Burnay Ereira. O apelido Avillez vem da mãe, que tem uma longa ascendência de fidalgos da Casa Real Portuguesa. O apelido Burnay da avó paterna, trineta do 1º conde de Burnay. O chefde co- zinha herda portanto os dois ape- lidos através dos casamentos do pai e do seu avô com duas mu- lheres de famílias conceituadas. Ele próprio fez o mesmo, “juntan- do-se” a outras duas famílias ilus- Horário Em 1921, o Maxim’s era um dos seis clubes nocturnos de Lisboa autoriza- dos a funcionar até às 4h da manhã T A evolução da cozinha Em cima, uma criação de José Avillez para o Beco (2017). Ao lado, a cozinha do Maxim’s (Notícias Ilustrado, 20 de Dezem- bro de 1931) g O estilo cabaré do Maxim’s: restau- rante com espaço para dançar. Havia ainda salas de jogo, de chá, de fumo e de leitura. E uma barbearia i O Maxim’s assumia-se como restaurante de cozinha francesa. Havia “jantares e ceias de mesa redonda e à carta”, dizia um anúncio BRUNOCALADO Q
  4. 4. www.sabado.pt 25 MAIO 2017 77 suas grandes e por vezes excên- tricas moradias e palacetes de Verão (foi uma época de ouro para a arquitectura), misturando o seu sangue com os Ereiras e os Pedadas enquanto se dedicavam a inúmeras actividades – acções de beneficência, touradas, festas, regatas e bailes. D. Carlos e as galinholas Não foi um típico enredo de tele- novela – para matar o tédio, a ra- pariga rica vai à mercearia com a empregada, apaixona-se pelo fi- lho do merceeiro, há turras de fa- mílias, no fim acaba tudo em bem. Pelo contrário. Nesta altura, os Ereiras e os Pedadas já frequenta- vam os meios dos ricos porque também eles eram já ricos, ainda que não de nascença. Em Cascais como em todo o lado, o dinheiro esbatia fronteiras de sangue. “A prosperidade da família Erei- ra vem da primeira ligação matri- monial que une dois dos mais prósperos negócios de Cascais de então e foi com base nesta noto- riedade empreendedora que co- meça a impor-se socialmente, ga- nhando cabedal para alargar os seus investimentos”, acrescenta João Aníbal Henriques. Logo a se- guir, José Ereira compra a Quinta dos Farias, que mudará de nome. João Aníbal Henriques conta a história: “Como a família tinha uma paixão pela caça, partilhada pelo Rei e por grande parte das mais proeminentes figuras de então, tornou-se hábito ver o ve- lho Ereira nos grupos mais afa- mados das caçadas que se faziam. E a sua Quinta dos Farias era local preferido do Rei D. Carlos pelas galinholas que por ali abundavam. E como o Rei, brin- cando nesse grupo de amigos, chamava “bicudas” às ditas perdi- zes, terão mudado o nome da quinta, que passou a chamar-se Quinta da Bicuda, nome que mantém até hoje.” Na entrevista ao Público, Avillez diz que esta quinta “foi durante anos a única auto- -suficiente de Portugal. Fazia-se vinho, manteiga, pão. Ao domingo abriam a casa a trabalhadores, a quem morasse perto, para comer cozido à portuguesa. A quinta vendia gado, queijo, tudo.” Agora é um condomínio de luxo, mas ainda hoje tem, à en- trada, a Ermida de S. José, man- dada construir por Joaquim Erei- ra. Foi ele que começou a urbani- zação do local. No arquivo de Cascais pode consultar-se o pe- dido que fez à câmara para cons- truir uma casa – em 1941. W eram de origem muito humilde.” A este sucesso empresarial não será alheio o facto de, por esta altura, Cascais estar mais próspe- ra. O ponto de viragem ocorrera por volta de 1870, quando a famí- lia real elegeu a vila como estân- cia de veraneio. E em 1895 inau- gura-se a ligação Cascais-Alcân- tara por comboio. Veio o Rei e a Rainha (Maria Pia de Sabóia), e com eles vieram também a nobreza e as elites lis- boetas. Estes últimos (os Burnay, os Avillez, Ulrich, d’Orey, O’Neill, Guedes, Herédia, Mello e por aí fora) foram assim construindo as T O vintagee o burlesco O Maxim’s tinha quadros de Columbano e José Malhoa (entre outros). O Beco tem Dita Von Teese desenhada por Patrícia Braga JOSÉ AVILLEZ HERDOU DOIS APELI- DOS ILUS- TRES ATRA- VÉS DOS CASAMEN- TOS DO PAI E DO AVÔ Ofício No arquivo de Cascais há um ofício de 1914 para que “se vistorie o esta- do das canaliza- ções das fossas da propriedade de José Ereira” PUB

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