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  1. 1. FOLHA DE GUARDA
  2. 2. FOLHA DE GUARDA
  3. 3. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e fatos são produtosda imaginação da autora ou pura ficção, não guardando qualquer relaçãocom pessoas reais, vivas ou não, estabelecimentos, produtos, eventos oulocais citados, se existentes são mera coincidência ou apenas cenário para odesenvolvimento da trama.
  4. 4. Copyright© Ana Rita dos Reis Petraroli5954/2 – 500 – 192 – 2012Índices para catálogo sistemático:1. Ficção : Literatura brasileira 869.93Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)O conteúdo desta obra é de responsabilidade do(s) Autor(es),proprietário(s) do Direito Autoral.Scortecci EditoraCaixa Postal 11481 - São Paulo - SP - CEP 05422-970Telefax: (11) 3032-1179 e (11) 3032-6501www.scortecci.com.breditora@scortecci.com.brLivraria e Loja Virtual Asabeçawww.asabeca.com.brGRUPO EDITORIAL SCORTECCIPetraroli, Ana RitaKönig / Ana Rita Petraroli. - - São Paulo :Scortecci, 2012.ISBN 978-85-366-2509-61. Ficção brasileira I. Título.12-05320 CDD-869.931. Poesia : Literatura brasileira 869.91
  5. 5. DedicatóriaA minha amada avó materna, Maria Mirtys, que feznascer minha imaginação com as muitas histórias que mecontou por toda vida...
  6. 6. Pg. branca
  7. 7. AgradecimentosAo tempo...Ao meu futuro que está em minhas filhas...Ao meu passado tatuado em meus pais...Ao presente representado por cada amigo que, pacien-temente, leu os rascunhos deste livro...À eternidade que só é possível no infinito amor quetenho pelo meu marido.
  8. 8. Pg. branca
  9. 9. 11KönigPrefácioOamornaconfusãomundialUm casal brasileiro sai para uma viagem curta, primeiraparada Munique, onde visitam o castelo do finado rei Luis II,e a curiosa advogada descobre um documento que pode mu-dar o rumo da história.O rei morrera em circunstâncias obscuras e o documentoesclarecia um dos aspectos cruciais de sua vida numa lingua-gem velada.O marido, executivo financeiro, é chamado a Amsterdãpara tratar da crítica situação de sua empresa, enfrentando agrave turbulência de 2008. Ela volta ao castelo para maisaveriguações, o que desata consequências inesperadas e emgrande velocidade.Surge um mundo paralelo, um ministro e o presidenteda República são envolvidos, o departamento de Estado e opresidente norte-americano também. A advogada vê-se en-volvida numa trama que não compreende e é vítima de umasubstância rara e fatal.Iniciam-se, assim, as tentativas desesperadas de seumarido e de seu amigo Ministro para salvá-la. Este curto re-sumo dá uma ideia da trama sem estragar o suspense.König, romance de estreia de Ana Rita Petraroli, enlaçalirismo e espionagem, uma fusão rara, e ela o faz com compe-tência, sem deixar que um dos temas sufoque o outro. Muitagente passa por esta experiência atualmente: ser colhido numaengrenagem que desconhece e ver a vida virar de ponta-cabeçade um momento para outro.
  10. 10. 12AnaRitaPetraroliTempos em que poderes tenebrosos atuam no silêncio,mas às vezes nem tanto, e são verdadeiras organizações paraassassinatos seletivos.Será que o casal sobrevive? Poderá retomar sua vidaanterior? Será pouco o amor que resistiu à passagem do tem-po, à corrida vida profissional e à chegada das filhas?O amor, o sentido de responsabilidade e uma forçasuperior se apresentam a todo instante, o que nem sempreacontece, pois tudo está organizado para a dispersão e oautointeresse.O próprio marido está enredado numa crise econômicade dimensão grave, não entende o que está acontecendo, du-vida que possa enfrentar forças poderosas e obscuras, duvidada recuperação de Francisca, mas segue adiante, pois sabeque sua sobrevivência pessoal sem ela será turva até o finaldos dias.A maioria teria entregado os pontos, a advogada tam-bém, ela tem uns raros momentos de lucidez e se dá conta damiserável situação em que se encontra. A ajuda chega e estápresente de uma forma muito feliz que a autora encontrounuma organização feminina da Segunda Guerra Mundial.A maioria teria entregado os pontos porque vivemosnuma civilização que incentiva o prazer e abomina o sofri-mento, estimula a gratificação instantânea e estigmatiza a res-ponsabilidade para com outros.Desde a Primeira Guerra a vida humana se tornoudescartável com bombardeio de civis indefesos e a louca guer-ra de trincheiras. Disto seguiram-se horrores que não se dis-siparam, o casal enfrenta um dos rostos destes poderesobscuros.
  11. 11. 13KönigO romance ensina que o amor e a fé podem triunfar, sóisto já vale a leitura. Mas a autora tem gosto pela narraçãodetalhada e prende o leitor em sua trama.Que seja só o primeiro trabalho. Muito sucesso, AnaPetraroli!Rafael dos Anjos
  12. 12. BRANCA
  13. 13. 15KönigEra para ser mais uma viagem, como todas asoutras, divertida, leve, rápida. Daquelas quesobram somente as fotos e as lembranças.Francisca não entendia o porquê daquele sentimento, saíam3, 4 vezes ao ano. As crianças já eram crescidas e há semanasjá estavam com a mala pronta, ansiosas pela temporada nacasa da tia, com as priminhas. O escritório nunca esteve tãobem. Talvez a estranha ausência de problemas tenha afetadoa mente atribulada dela. Aquele vazio, aquela sensação deque falta ou sobra alguma coisa a perturbava, todas as vezesque pensava naquela viagem.Enfim, desligou o micro, respondendo rapidamente aoúltimo e-mail e fazendo uma força profunda para ignorar oaviso de nova mensagem, forçou os olhos ao outro lado, ar-rumou a mesa como todos os dias nos últimos 20 anos, ecolocou o Código Penal na frente dos outros, arrumou a al-mofada florida da cadeira azul na frente da mesa e fechou aporta. Pronto, estaria off-line por quinze dias. Apertou o bolsodo casaco certificando-se de que levava consigo seu pen drive,para somente permanecer alheia, se quisesse, sorriu ao sentirque todos aqueles processos cabiam no seu bolso, que a co-nexão era possível a qualquer momento, de qualquer lugarque tivesse uma rede de internet ou o sinal de um celular,todas aquelas informações estariam em suas mãos. Talvezfosse o primeiro passo para ter o mundo aos seus pés...Mas a sensação de estranheza persistia, Francisca abriuo dicionário de alemão que estava em sua mão e procurou apalavra merda, pronunciou bem alto Scheiße, que em portuguêsé algo parecido com Shaizzan, rindo dessa liberdade, para elaextrema, ficou mais relaxada, apagou as luzes do corredor ese despediu com carinho da secretária. Uma despedida semtroca de olhares, apenas um toque no ombro de Suzana queestava de costas para a porta.
  14. 14. 16AnaRitaPetraroliSuzana, secretária de Francisca há anos, estranhou aque-le adeus seco, desligou a ligação com alguma urgente descul-pa e a seguiu até o hall do elevador, dizendo:– Tudo bem? Posso ajudar com mais alguma coisa?– Pode. Faça com que tudo esteja no lugar quando euvoltar.– Está bem. Mas volte logo.Voltar logo... Era estranho, mas pela primeira vez navida, Francisca sequer queria ir, voltar logo era sedutor. Porque não desmarcar tudo e obedecer a seus sentimentos? Afi-nal, tudo que tinha, alcançou por sempre ouvir seus própriosconselhos. Seu alerta sempre a impediu de errar muito. Seriaum erro ignorá-lo agora. Bobagem, disse a razão, e Franciscaentrou no elevador, decidida a seguir em frente.Ao chegar em casa, tudo já estava resolvido por Ricardo.É preciso explicar quem é Ricardo. Ricardo é o maridoideal, o pai perfeito, o amante compreensivo, ele é o portoseguro de Francisca, o peito forte e acolhedor para o qual elavolta sempre depois de seus longos desafios. Não há nadaque ela faça sem que tenha dois pensamentos: o que Ricardopensaria disso? Como ele faria? Só depois das respostas agia,é certo que nem sempre como ele pensava ou faria...Conhecia seu marido como poucas esposas conhecemos seus. Foram primeiro amigos, confidentes, depois amantese por fim companheiros. Eram parceiros na vida. Ninguémduvidava disso. Nem Francisca, nem Ricardo. Além de com-panheiro Ricardo era o amante, romântico a ponto de man-dar flores, sedutor ao ponto de errar o tipo e sempresurpreendê-la com alguma novidade, margaridas azuis ou umaorquídea recém-descoberta eram parte de suas escolhas; mo-reno no sol, quente no inverno, é daqueles que aquecem acama; sempre tinha alguma coisa para ensinar a ela e não seenvergonhava de algumas vezes aprender com ela.Trabalhava como diretor financeiro de um grande ban-co internacional, era inteligente, imaginativo e excelente em
  15. 15. 17Königcontas. O homem perfeito para trabalhar num banco: bomsorriso e boa matemática. O sorriso dele era o que fazia comque Francisca perdoasse suas falhas. Claro que ele tinha fa-lhas, afinal era homem.– Pronto, disse Ricardo, malas no carro, crianças na casada titia, compra na dispensa e o resumo das tarefas da sema-na que Suzana elaborou nas mãos da Marta. Vamos?– Vamos, ela disse, sem ter muita certeza.– Que foi? Não está passando bem?– Não, estou ótima, vamos.Dizendo esta última frase, Francisca colocou o casacodobrado sobre o braço, apalpou novamente o pen drive e repe-tiu Scheiße. Nunca uma palavra lhe causou tanto relaxamento,verdadeiro mantra. Scheiße, Scheiße, Scheiße, ela repetiu trêsvezes.– O que você disse?– Boa viagem, mentiu Francisca, torcendo para queRicardo não entendesse o que acabava de ouvir.No aeroporto depois do segundo uísque tudo estavarealmente bem. E assim foi até chegarem a Munique. Nãoseria a primeira vez deles por lá, mas da última vez, somenteficaram dois dias, o que definitivamente para Munique é muitopouco, menos ainda se descontado o tempo gasto com oscompromissos da empresa de Ricardo, que enviava seus con-tatos, os quais ficaram colados neles por todas as horas dodia e a maior parte da noite. Enfim, seria a chance de anda-rem por lugares novos na encantadora cidade da Bavária.No terceiro dia que estavam por lá, foram convidadospelo concierge do hotel Kempinski a fazerem um passeio peloscastelos reais que foram construídos pelo rei Ludovico II.– Excursão? Não... Muito obrigada, há muito temponão fazemos mais isso. Aprendemos que a liberdade de ter opróprio horário e o próprio meio de transporte faz toda a di-ferença entre a alta qualidade e o desastre do passeio. FalouFrancisca por entre um simpático sorriso, que por muitas ve-zes acompanhava seus nãos.
  16. 16. 18AnaRitaPetraroli– Nem se eu disser a senhora que é um passeio exclusi-vo do hotel, apenas para nossos hóspedes, em carros separa-dos e privativos, com o guia falando em inglês? Ainda seráservida uma taça de vinho premiado da região e almoço típi-co, ao ar livre, em área privativa do castelo? Prosseguiu oconcierge, tentando seduzir Francisca.Francisca piscou os olhos como só ela conseguia fazere balançando seus cabelos com muito charme, olhou paraRicardo que já dizia sim ao gentil concierge.– Não lhe disse que a viagem seria es-pe-ta-cu-lar? Vocêprecisa confiar mais em mim, desafiou Ricardo.– Eu só confio em você, ela respondeu, com um beijonas mãos dele.O beijo na mão rendeu. Ainda dentro do elevador, elebeijou seu pescoço, um beijo molhado e morno, com pressãoe delicadeza, fazendo com que o ouvido dela zumbisse e elaprocurasse o meio de suas coxas, acariciando suas pernas. Adistância do elevador para o quarto nunca foi tão longa, tal apressa de chegarem lá.Portas fechadas, eles pareciam adolescentes, o beijocada vez mais quente e sempre novo, a excitação que cresciaa cada carinho. As mãos dele, como esponja, caminhavampelo corpo dela – corpo que ele amava cada dia mais. Asmãos dela começavam no seu cabelo, e seguiam escorregan-do por suas costas enquanto se movimentavamcostantemente, e, ainda de roupa, chegaram ao final daqueladança. Como bailarinos entregaram-se ao descanso depois daefusivo espetáculo. Foi uma sesta incrível.Francisca abriu os olhos primeiro e sentindo o corpogrudado na roupa preparou um banho bem quente, nada sau-dável, absolutamente desejado por ela. A fumaça dentro dobox completava o ritual. A água muito quente deixava suapele vermelha e ao contrário do que diziam os dermatologistas,em especial a sua, acerca dos nefastos efeitos da água muitoquente, ela pensava que toda aquela circulação ativada na
  17. 17. 19Königsuperfície da pele fazia bem. Apesar da sua teoria, olhou parasi no espelho e sentiu que o tempo tinha passado. Seu rostonão era mais o mesmo, seu colo mais baixo, sua barriga, seucontorno. Talvez sua dermatologista tivesse razão...Não conseguiu terminar o pensamento, em torno de siviu surgir um abraço, um monte de beijos que mandaramembora aqueles rigorosos pensamentos. Podia não ser mais agarota de tempos atrás, mas enquanto Ricardo não soubessedisso, tudo bem.O tempo é desencontrado entre os homens e as mulhe-res. Ricardo com o passar do tempo ganhava as têmporas bran-cas e fios de cabelo cinza chumbo coloriam a sua cabeça,misturando-se estrategicamente com os outros ainda escu-ros, rugas ao redor de seus olhos demonstravam que ele jáhavia visto muita coisa; suas mãos, com as juntas mais gros-sas eram mais firmes que as de 10 anos atrás, seu peito comalgumas marcas da idade apenas lhe conferiam experiência.O homem com o tempo ganha um colorido, a mulherenvelhece. Luta escandalosamente para parecer mais jovem,manter o corpo de antes, a pele de antes, o cabelo de antes.Mas antes ela não tinha vivido tudo que viveu agora, não temcomo mudar tudo por fora, porque simplesmente é outra pordentro. Tenta mudar o contorno dos olhos, entretanto, nãomuda o olhar e o que encanta na juventude é exatamente obrilho dos olhos, olhar de quem nada sabe, nada viu.Francisca já tinha visto muita coisa. Nesses anos todosde profissão tantos casos já haviam tirado dela muita vida.Cada batalha judicial encarava como luta própria. Franciscacomprava brigas e brigar era o que lhe mantinha viva.Amanheceu e após um breve café da manhã, ainda noquarto, estavam prontos para o passeio. O motorista que de-veria falar inglês, era inglês. Povo que eles adoravam. Lon-dres era a segunda casa deles, não passava um semestre semque eles não passassem uma semana na sua casa de Londres.Era parte do plano ir até lá no próximo mês.
  18. 18. 20AnaRitaPetraroliTerry, o motorista, dentro de seu casaco de lã e debaixode seu chapéu coco, com o guarda-chuva nas mãos veiorecepcioná-los dentro do Hotel, levando-os até a Mercedes dolado de fora. Entraram no banco de trás, não perderiam a chancede um namoro nas montanhas. Nem bem sentaram e Terry co-meçou a interagir com eles e a conversa fluiu a viagem toda atéchegarem ao Linderhof. Freio puxado, o motorista calou-se, eo guia do castelo veio recepcioná-los. Taça de vinho premiadona mão passou a dar as informações básicas do casteloconstruído como residência pelo rei Ludovico II.Depois da aula de história, distraída, o tempo todo pe-las mãos de Ricardo, entraram pela porta lateral destino dos“hóspedes especiais” e seguiram pelo corredor existente en-tre as paredes, até a entrada principal.Mal sabiam onde estavam entrando...Dizem que as rugas trazem experiência, as de Franciscanão lhe seriam úteis naquela hora. Experiência só vale paraaquilo que já vivemos. O que está por vir é sempre novidade,água fresca, caminho a ser explorado. Experiência serve paramuito pouca coisa, em especial na vida daqueles que adoramdescobertas. Era o caso de Francisca. A rotina, a mesmice, ofazer igual todo dia era decreto de morte. Ela era do tipo paraquem Deus inventou as surpresas.Entraram no quarto de Ludovico II e ouviram a histó-ria deste rei de conto de fadas como gostam de defini-lo osalemães.De dentro do quarto, bem defronte da cama, apoiando-se sobre a cadeira de tecido rosado e dourado que estava a suafrente, Francisca olhou na direção da janela e na beirada deuma das consolas em porcelana de Meissen existentes no quar-to, percebeu um pedaço de papel, pensando ser um papel qual-quer, papel de bala, pedaço de folha, estendeu a mão na inten-ção de pegá-lo, alcançou a ponta do papel e puxou... nada.Como o papel colado no tecido que revestia a paredeestava muito resistente, fez com que Francisca perdesse o
  19. 19. 21Königequilíbrio. Recuperada, aproximou-se, soltou a mão deRicardo, recebendo dele um olhar de reprovação. Insistiu empuxar aquele papel na sua direção, aproveitou que o guia en-chia o copo de Ricardo e puxou com um pouco mais de força,rasgando um pedaço do tecido que cobria a parede.Ela baixou os braços com tanta rapidez que se ouviu,na sala, um zumbido. Completamente desesperada, ela per-cebeu que arrancara o papel da parede. Escondendo a mãocom o papel atrás de si, tentou encaixar o tecido descoladopor baixo do batente da janela. Foi em vão.O guia então se virou para encher o copo da senhoraque estava a sua frente e percebeu o rasgo, engasgando dedesespero. O estampido da garrafa de vinho, já vazia, caindono chão, chamou a atenção do responsável pelo setor, queem menos de um minuto, já havia subido as escadas e estavacom os dedos nervosos, tentando juntar o tecido à parede.Estava funcionando e quem não viu que algo saiu de lá, po-deria achar que o problema estava resolvido.As mãos de Francisca tremiam e suavam. A curiosida-de era quase sufocante. O que estaria escrito naquele papel?Como havia ficado lá todo este tempo? Como nunca foradescoberto por ninguém? A razão lhe dizia que havia de nãoser nada, provavelmente, uma nota da reforma ou uma or-dem ou um recado qualquer. A curiosidade afirmava que elaprecisava ler aquelas letras.Correu ao banheiro e tirou o papel do bolso, entrou noreservado para não ser perturbada. Abaixou a tampa da pri-vada e sentou-se correndo, abriu o papel com muito cuidado,de cima para baixo. Como não poderia ser diferente, não en-tendeu nada do que estava escrito, estava escrito em alemão!Apalpou o papel, olhou para ele fixamente e pôde perceberque se tratava de um bilhete, uma carta em papel antigo, muitoantigo, manchado de tinta de um lado e de cola do outro,escrito com caneta tinteiro, talvez a pena... Ela precisavadescobrir o que estava escrito ali.
  20. 20. 22AnaRitaPetraroli– Francisca, tudo bem? Precisa que eu vá até aí? GritouRicardo pelo vão da porta.– Não, estou saindo, tudo bem. Mentiu Francisca.– Você está pálida, o que foi? Disse Ricardo assim quea viu saindo do banheiro e lhe segurando pela mão.– Não sei, talvez algo que tenha comido, o frio, não énada, tranquilizou-o, vamos em frente com o passeio.A resposta de Ricardo a deixaria confusa:– Não podemos. Lembra do pedaço de tecido rasgado?Eles fecharam o castelo para investigar como aquilo foi pos-sível, pior, dizem que sumiu o precioso lustre de ébano dasala de estar do rei. Estão evacuando o prédio.Francisca ficou em pânico e se na verdade estivessemfechando o castelo porque a viram retirar o bilhete da pare-de? E se resolvessem revistá-la e encontrassem com ela aquelepapel? Ainda estava pensando nisso quando apareceu Terryque os tirou por outra porta secreta que abriu no meio da pare-de e eles puderam seguir até o carro sem serem perturbados.Ela queria muito contar a Ricardo o que aconteceu...Temeu sua reação. Não havia ninguém mais correto no mun-do que ele e certamente ficaria chateado com o que ela haviafeito. E quando ele emburrava era o fim de tudo e ela estavaapenas no começo. Resolveu que falaria depois, se fosse im-portante.Mal chegaram ao hotel e o telefone tocou, precisavamde Ricardo, na Holanda, com urgência. Ele mal teve tempode arrumar as malas e beijar Francisca que os representanteslocais de sua empresa já ligavam do hall do hotel informandoque o avião estava a sua espera. Sem Ricardo, Francisca fi-cou perdida.A lembrança de que ele voltaria em três dias, fez comque ela respirasse um ciclo completo, pela primeira vez, emminutos, e oxigenado o cérebro voltou a funcionar.Por cautela, pediu para mudar de quarto e foi transferidapara uma suíte no setor sul, pediu que o quarto não pudesse
  21. 21. 23Königser identificado como seu e que nenhuma ligação lhe fossetransmitida. Pegou o bilhete e copiou o mesmo num e-mail aSuzana: “Suzana, preciso que traduza estas palavras paramim, rápido, e não comente isto com ninguém, envie amensagem para o meu e-mail pessoal, do Yahoo.”Naquela noite Francisca planejava pijama e cama, masa reposta de Suzana tiraria seu sono.
  22. 22. 24AnaRitaPetraroliEm outra parte da Bavária, Luis foi chamado àspressas no castelo pelo administrador, quandolá chegou, ouviu a notícia que temeu pelos úl-timos 30 anos:– Senhor, a carta sumiu. Disse, com as mãos trêmulas,o vigia.– Onde está a fita de segurança? Perguntou Luis commedo da resposta. Resposta que veio logo:– Temos este filme da sala, afirmou o segurança domuseu, inciando a reprodução do filme.No filme aparecia a parede intacta, muitas pessoas en-trando e saindo e quando a câmera voltava para o local dacarta, o tecido já estava rasgado e a carta não estava mais lá.– Como você explica esta câmera andar pela sala, selhe dei ordens expressas de que somente ficasse focada na-quele local? Disse Luis, com o rosto tão vermelho que o se-gurança achou que ele fosse estourar.– Senhor, bem, por medida de economia pensei queassim seria melhor e que a segurança não seria comprometi-da. Afinal, se fosse algo tão importante, por que ficaria numlugar público, acessível?Luis então começou a gritar uma vez mais:– Seu completo imbecil! Há vários segredos assim guar-dados, em vários monumentos públicos, museus, estátuas,parques... Um segredo sempre é procurado na camuflagem,no escondido, o lugar público o torna mais seguro. Assim nin-guém tem o privilégio de guardá-lo e também não pode serdestruído porque nunca se sabe se precisaremos mudar a his-tória mais uma vez. A estátua da liberdade, a torre Eiffel, oColiseu, algumas grandes pontes, são alguns exemplos decofres abertos à visitação. Quem suspeitaria que escondes-sem informações valiosas?
  23. 23. 25KönigO segurança, sem saber a gravidade de seu desinteres-se, deu de ombros. A explicação parou por aí e Luis quebroutudo que estava em volta de si.Naquela noite os corpos de Luis e do vigia foram acha-dos dentro do English Garden, num beco escuro.
  24. 24. 26AnaRitaPetraroliFrancisca tomou um banho daqueles bem quen-tes, ligou a televisão em um canal qualquer esem fixar sua atenção em nada, resolveu ligarpara suas filhas. Ouvir a voz delas trouxe novamente a reali-dade e a não ser por aquele velho papel que a fitava de sobrea escrivaninha do quarto, sua vida parecia bem normal. Saiudeste estado letárgico com o som do e-mail chegando em suacaixa de entrada. Quando viu que era de Suzana, relutou emabri-lo, mas a curiosidade a fez mover-se bem depressa. O e-mail relatava:“Querida Francisca,Onde achou palavras tão antigas? O que anda lendodeste lado do mundo? Consultei um velho amigo, professorde alemão e metade das palavras tem duplo sentido, algumassegundo ele não existem desde o começo do século passado,entretanto, gentilmente ele as traduziu – você lhe deve umvinho, dos bons – a tradução ficou assim:“O poder ao invés de libertar, torna escravo o pode-roso. Dói a alma que se debate contra tudo e todos. Dóitoda forma de amor. De onde viestes não posso ir. De ondesou, tu não és. Nosso destino é diverso, sendo o meu deservir e o teu apenas seres mulher. De meu lugar avisto oque sempre me faz lembrar de ti, sabendo que apenas nanoite posso ter-te aqui, mas, por noites já não vem... Comoestás nosso filho? Traga-o a mim, peça ajuda ao R.W.,guardião de nosso amor e confidente de meu espírito, afi-nal tu não tens meu sangue, a realeza não lhe pertence,não és digna da coroa por sua linhagem baixa, emborasejas obra de Deus, certamente a mais primorosa e bela,entretanto, a ele devo ensinar o que nunca soube, pois eleserá Rei, continuará ao que não pude dar fim. Com mui-to amor, LII”.
  25. 25. 27KönigEla releu o texto por mais de 20 vezes. O que aquelasparedes escondiam podia mudar todo o destino da nação, aomenos, de uma linhagem, pois se era verdade que o reiLudovico tinha um filho, tudo seria diferente, a começar pelatransmissão do trono após a sua morte.Em todas as viagens que fez a Baviera e todas as vezesque ouviu ou estudou acerca do Rei Ludovico II, nunca ou-viu acerca de uma mulher em especial. Seria este amor que oatormentava tanto? Seria esta a razão de refeições absoluta-mente sozinho, sem a presença de nenhum serviçal? Será quea troca do dia pelas noites era de fato para proteger este seuamor? Que monumento seria este a amada, nunca descober-to, nunca falado? Daí a paixão incontida pela história deTristão e Isolda? Ela teve a certeza que temia, teria que vol-tar ao castelo de Linderhof e teria que ir só, sem Ricardo.No meio destes pensamentos o cansaço do corpo ven-ceu a velocidade da mente e ela dormiu sentada, encostadanos travesseiros, com a televisão ligada. Acordou com umapequena dor no pescoço e começou a preparar-se para sair.Quando estava saindo do banho viu na televisão umareportagem acerca do castelo, somente pôde entender quehavia alguma ligação entre o castelo e pareciam corpos... Al-guém havia morrido.Com as mãos tremulas começou a pensar se a carta teriaalguma coisa com essas mortes? Quem eram aquelas pessoas?Sentiu um sopro de frio. Resolveu colocar uma roupamais discreta e prender o cabelo num rabo de cavalo, colocouseus maiores óculos escuro e desceu pelas escadas, o que lhegarantia o café da manhã. Sentou para o café e o kostlicherbutterkuchen era a repetida escolha. Pediu além do delicioso pãodoce, uma xícara de café. A refeição durou 5 minutos. Na saídaapenas para especular consultou o concierge acerca das mortes:– Bom-dia, começou a conversa Francisca.– Bom-dia, senhora, lhe respondeu o sempre atenciosoconcierge, o mesmo que lhe ofereceu o presente do passeio aocastelo.
  26. 26. 28AnaRitaPetraroli– Bem, ouvi, ou melhor, vi algumas imagens hoje pelamanhã no jornal, que me deixaram perturbada, pareciam cor-pos. Aconteceu alguma coisa na cidade? É seguro sair? DisseFrancisca.– Claro senhora, não há com que preocupar-se. Eramdrogados. Uma pena, inclusive um deles, trabalhava no cas-telo que a senhora foi ontem. Será que chegou a vê-lo?Sem saber o que responder, ela pigarreou um pouco edisse:– Não sei, acho que não. Obrigada. Bom-dia.Saiu mais apressada do que queria, todavia era inevitá-vel. Se não estavam falando da carta era porque de fato tinhaautenticidade, verdade e estava sendo procurada. Pior, se nin-guém poderia saber de seu desaparecimento é porque asua existência era perigosa. Tremeu de novo. Desta vezcom razão.Para disfarçar seu destino, seguiu a pé até Mariaplatz,andou pela rua do Rezidence, passou pela rua de trás da cerve-jaria Bauhaus e tomou o primeiro táxi no meio do caminho:– Castelo de Linderhof, por favor.
  27. 27. 29KönigChegou na hora da excursão guiada das 13h15mhoras, entrou na narrada em inglês e riu do goodmorning da guia que mais parecia uma estátuaque acabara de ganhar vida. Repassou pelas salas que jáhavia passado e pôde continuar o caminho a partir do quar-to em que o encerrara da última vez. Até o que já havia vistoagora era diferente. Da primeira vez o rei lhe pareceu insano,perdido, fútil. Agora, preocupado, fiel, apaixonado, amantee pai.O que teria acontecido ao filho, herdeiro do trono? Pas-sando pela sala rosa, chegou à sala de jantar, onde narrava aguia:– Olhem a mesa que sobe e desce por este buraco nochão diretamente à cozinha. Jantava nesta sala somente o rei,sem nenhum serviçal, tendo por companhia somente suasideias engenhosas e óperas de Richard Wagner.Na hora as iniciais R.W. da carta fizeram sentido. Eramconfidentes, o rei e o artista. Amigos de paixões, a de Wagnertambém fadada ao insucesso pela diferença da classe social,mas ao que consta nos registros, esta não lhe trouxera herdei-ros, já ao rei...Continuou a guia: “A Sala de Jantar é famosa pelo seudesaparecido monta-cargas chamado “Tischlein deck dich”. Estemecanismo foi instalado para que o Rei pudesse jantar alisozinho. No entanto, a criadagem tinha que pôr a mesa para,pelo menos, quatro pessoas, pois se diz que o Rei costumavafalar com pessoas imaginárias...”Perdida nestes pensamentos, falando em coisas imagi-nárias, olhou ao canto e viu uma pequena cadeira, primorosa,esquecida por ali. O que fazia uma cadeira extra na salaintimista do rei? Seria a cadeira dela? Pôde Francisca ver alias mais tórridas cenas de amor.A escolhida do rei, entrando no escuro da noite e da ne-blina no castelo por uma daquelas portas secretas e podendo
  28. 28. 30AnaRitaPetrarolios dois, naqueles momentos tão esperados conversarem acer-ca de, talvez, coisas banais, talvez segredos de ambos, talveznão falassem nada. Apenas se amassem.Ficou imaginando uma noite de amor naquele castelo.Após o jantar, saíam para a sala dos espelhos, espelho de-fronte espelho torna o lugar infinito. De onde se olha se vê afrente e o verso. Eroticamente falando o côncavo e o convexo.Após o jantar que era intimista demais para época, afi-nal para não levantar suspeitas ela se alimentava com as mãos,o que fazia com que o rei ficasse cada vez mais excitado,depois do digestivo, saíam de mãos dadas em direção a salado amor, as velas que se multiplicavam pelos espelhos, assimcomo o desejo proibido de ambos. As mãos que se permitiaminvadir novos espaços, os beijos lascivos, a vulgaridadeplebeia da sua amada era perfeitamente aceitável pelo corpodo rei.Naquela sala não havia figuras religiosas propositada-mente, era a sala do pecado, da vida, das coisas da terra, doreflexo de suas almas. Lá as coisas do céu eram esquecidas. Orei e sua escolhida queriam os prazeres dos mortais, as caríci-as não terminavam. O amor não terminava. A noite sim, eela voltava para sua casa e ele ao amanhecer, exausto, ia en-fim, ao seu quarto.Quanta imaginação Francisca! Pensou ela, sem saberque o acontecia naqueles salões superava o imaginado. En-tão veio a lembrança do trecho da carta: “De meu lugaravisto o que sempre faz lembrar-me de ti...”. Se aquelasala era o local em que Ludovico passava a maior parte dotempo, do recamier ali colocado deveria ser avistada algumacoisa, aquilo que o fazia lembrar seu amor, ainda estaria lá?Aproximando-se do recamier, olhou para cima, nada. Parafora, belo jardim, vista, jardins totalmente alterados pela re-forma.Lembrou que o rei era bem alto, ela baixa, talvez sesubisse o olhar, chegou seus olhos à altura que supôs ser a
  29. 29. 31Königaltura do rei (1,93m) pelos dados biográficos do monarca,descritos no folder do museu. Chegou mais perto do recamier,a guia lhe chamou a atenção, ela desculpou-se, sem mudar deposição e foi aí que viu, em meio à pintura do móvel lateral,a figura de uma mulher e de um pequeno menino, a guia ven-do minha reação, explicou que a pintura representava o reimenino.Francisca questionou então acerca da mulher e a res-posta foi que seria alguém do povo, quis o rei, com aquelaobra de arte encomendada à importante artista, dizer que es-tava perto do povo e que o povo era quem lhe guiava.Bobagem, ela pensou. Era ela, Francisca sabia. Tirouvárias fotos com o celular, bem discretamente, de vários ân-gulos, inclusive da casa que aparecia por trás da pintura, bran-ca, janelas no sótão, com uma macieira no jardim...Permitiu-se ficar pelos jardins do castelo em busca dequalquer outro sinal e nada pôde observar, além de váriosrecantos e cantos, cheios de encanto para quem está apaixo-nado. Sob esta ótica, de fato, o rei era lunático. Um homemapaixonado perde o chão, a razão, o temor, o medo da dor.Ludovico era assim, perdido de amor.Lembrou-se de Ricardo e do quanto eles eram apaixo-nados. Olharam-se por um instante e quando suas mãos setocaram não se desgrudaram mais. Trilhavam a vida juntos eachavam isso muito bom. Brigavam, é claro e talvez fosseisso que mantinha a consistência da relação. Eram geniosos,cheios de vontades diversas, nem sempre seus olhares focavamna mesma direção. Detalhe. Seus passos eram no mesmo ca-minho. Sabiam que queriam estar juntos, sabiam estar juntose isto bastava. Nunca tiveram outras pessoas, não por faltade desejo, deles por outros e dos outros por eles, mas porabsoluto respeito ao amor que tinham, pois sabiam que so-mente uma coisa entre eles não era permitida: a traição. Trai-ção que, mais tarde descobriria Francisca, foi vítima o rei.Tomou o táxi de volta e ficou olhando atentamente asfotos que tirara. A mulher que “representava o povo” era
  30. 30. 32AnaRitaPetraroliincrivelmente bonita, cabelos castanhos como os do rei, olhosclaros, vestida em um vestido amarelo, típico da época, cabe-los em penteado alto e sério para sua pouca idade. A criançaera a miniatura do rei. Não lhes espantava que pensassem serele próprio. Todo filho é o próprio pai miniatura, seja ele naigualdade ou no avesso. Aquela criança seria Ludovico III,não tivessem agido sobre aquele reinado forças ocultas.O celular vibrou provocando em Francisca um grito eno motorista um susto, ambos restabelecidos, ela atendeu felizao seu marido que ficou espantado com seu retorno ao castelo:– Você quis voltar ao castelo? Não queria ir e agoraquis voltar, sem mim?Com um sorriso solto, ela respondeu:– Bobo. Tivemos que sair correndo outro dia e eu pre-cisava ver as outras salas, curiosidade querido, curiosidade.Quando você volta?Ricardo com a voz triste, disse:– Não sei, a crise americana agravou com a quebra demais um banco dos grandes, a economia está confusa e elesquerem conselhos. Não sei o que dizer. Não sei o que fazernem com nosso dinheiro o que dirá com os bilhões deles.Temo por uma decisão errada. Ficarei por no mínimo maistrês dias. Tudo bem?Acompanhada de um longo suspiro veio a frase:– Que posso fazer? Que forças tenho contra o cataclis-mo econômico que a TV não cansa de mostrar? Te espero.Boa sorte. E, não se esqueça, te amo.Ao falar esta última frase, sentiu de fato todo o amorque tinha por Ricardo e como aquilo era bom. Pena que o reie sua escolhida somente puderam ter poucos momentos jun-tos, somente à noite e nas noites com neblina.Ela conectou o micro no celular, ativou o modem eacessando a internet enviou as fotos para seus e-mails de backupnas nuvens, não podia correr o risco de perder aquelas ima-gens. Enviou ainda para o programa de edição de imagem e
  31. 31. 33Königcomeçou a investigar cada detalhe da pintura, até que, abso-lutamente surpresa, percebeu que a doce moça, a qual vestiaum longo de veludo amarelo, quase dourado, com camisa demangas e golas rendadas cor de champanhe, trazia no pesco-ço uma medalha, na medalha um nome escrito em letras mi-núsculas: Anna Sophia Munkhër, escrito por toda a volta daredonda medalhinha. O nome foi enviado imediatamente paraum programa de busca que não encontrou nada correspon-dente ao nome, nem em partes, nem no todo. Continuou au-mentando a foto e ao fundo, meio de lado, perdida na ima-gem, havia uma placa indicando o caminho paraOberammergau.Ela então ordenou ao motorista:– Vamos a Oberammergau.Chegaram à cidadezinha com rapidez, ela então come-çou a olhar para todos os pontos em busca de algo que lem-brasse a cena da foto. Tudo era parecido. Lembrou de que nascidades antigas os registros eram feitos nas igrejas e lançouno programa de busca dados para obter o endereço. Assimque o endereço apareceu na tela, pediu que o motorista sedirigisse à igreja central, anotando num pedacinho de papel oendereço para que ele a entendesse e lá foram os dois.
  32. 32. 34AnaRitaPetraroliNas salas do programa de busca, acendeu a luzdo cliente “Oktuber”, na mesma hora, foienviado um e-mail ao seu endereço eletrônico:“Prezado Cliente, conforme sua solicitação infor-mamos que o nome Anna Sophia Munkhër foi acessadopor 6 vezes, em várias buscas vindas do mesmo IP, atra-vés de um link móvel.No último acesso deste IP a bus-ca foi de registros civis na cidade de Oberammergau.Para obter mais detalhes, entre em nossa página da webe acesse o seu cadastro. Atenciosamente, A equipe.”Na tela da conta do cliente oktuber a mensagem sooutal qual alarme de incêndio e o leitor, com os olhos absoluta-mente esbugalhados não podia acreditar no que lia. Comochegaram nela? Isso não era nada bom. E embora toda a es-trutura da Ordem girasse em torno da manutenção daquelesegredo, para todos a impressão de inviolabilidade do mesmoera certa.Qual era mesmo o próximo passo? O homem confusoconsultou o livro bordô e ligou para o número lá existente.Deixou tocar duas vezes e desligou. Ligou novamente, so-mente um toque desta vez, e desligou de novo.O homem alto e bem-vestido que estava no quarto emque tocava o telefone, começou a ficar agitado. Seria coinci-dência? Coincidência absolutamente desfeita, quando o tele-fone tocou novamente e ao atender no quinto toque, veio apergunta:– Boa-tarde, poderia falar com o Sr. Otto?– Quem gostaria? Respondeu o outro com a voz tremula.– O Rei-Sol.Telefones desligados os dois sabiam o que aquela con-versa significava. Anna Sophia ou qualquer parte do segredodo rei havia sido localizada. A pessoa que estava atrás delaera a mesma que possuía a carta, ou seja, era a terceira na-quele momento da história que sabia sobre o herdeiro do Rei.
  33. 33. 35KönigFrancisca entrou na igreja com o nome rabiscadoem um papel e inquiriu o religioso que ali estavasobre onde ficavam os registros, levada até os li-vros, pegou em sua mão aqueles que datavam os nascimen-tos de 1840 até 1860, afinal, a moça da pintura teria prova-velmente a mesma idade do rei. Folheou página por página,até que o que viu causou-lhe náuseas, o registro estava assimescrito: Anna Sophia Munkhër, 20 de julho de 1849- ... Filha deFrau Inka Munkhër e Izau Munkhër.Não era somente isso que Francisca queria encontrar,ela continuou a busca e no livro de 1869, leu: Maximo JoséMunkhër Wangler, 05 de março de 1869- ... Filho de Anna SophiaMunkhër e Joseph Wagner Wangler, ilustre soldado do Magnífico Rei.Pegou o celular e fotografou as duas páginas do livro ecom cara de desilusão devolveu os mesmos ao religioso, co-metendo o pecado da mentira, afirmando que nada haviaencontrado, agradeceu e disse que voltaria outro dia com maisdados. Foi convincente, não fosse pelo desaparecimento doslivros duas horas depois...No jornal da noite a noticia foi: “O religioso responsávelpela guarda dos livros no registro de Obermarengau, apareceu mortono início da noite. Quando a faxineira do convento bateu à porta pararetirar o lixo e ele não respondeu, ela entrou na sala e encontrou ocorpo caído. Ainda não se sabe a razão da morte, provavelmente al-gum ataque de vândalos, pois vários livros foram queimados e algunssumiram. Mais notícias, no jornal da manhã.”.Haveria um amanhã para ela? Francisca pensou em lar-gar tudo e ir embora. Ficou e foi dormir, já cansada com oque teria de enfrentar no próximo dia.No meio da madrugada acordou com o celular tocan-do. Era Ricardo, com saudades. Ela queria tanto contar o quevinha acontecendo, mas era melhor não, ele ficaria preocupa-do, nervoso, contaria quando ele chegasse.
  34. 34. 36AnaRitaPetraroli– Oi meu amor, tudo bem? Ele disse com sincerassaudades.– Tudo querido, e a crise, melhor? Ela respondeu porentre um bocejo.– Fran, piorou. Sem a aprovação do congresso ameri-cano e o consenso dos nomes da economia acerca do que émais correto, além da incerteza quanto à eleição presidencial,a crise está aumentando nos bastidores. Começou uma corri-da aos bancos e todos temem o final desta história.Querendo auxiliar Ricardo, ela arriscou:– Posso ajudar de alguma forma? Um palpite, um chu-te... Qualquer coisa?– Pode. Preciso de sexo. Respondeu ele sem hesitação.Ela riu e passando a mão pela barriga sentiu o mesmotesão que ele estava sentindo.– Muito bem, senhor... Disse Francisca com voz deatendente de tele sexo, qual o tipo de atendimento que deseja.– Do tipo sensual e intenso, disse Ricardo.– Assim seja, ligue seu micro e acesse o programa decomunicação virtual na sala criptografada. Esteja pronto paraas imagens... E dizendo isso acionou a câmera de seu micro eentrou na sala protegida por senha.Dez minutos após, os dois relaxados, dormiram o me-lhor sono dos últimos três dias.Na manhã seguinte, Francisca acordou com a ligaçãode sua filha mais velha pedindo para ir dormir na casa daamiga e a pequena Isabel chorou de saudade. Francisca pen-sou, como tantas outras vezes, porque não estava em casacom as meninas, estar lá, permitiria que não estivesse envol-vida com toda aquela história em que já morreram, pelo queela sabia, três pessoas. Todavia, essa era ela e agora que jáhavia morrido alguém iria até o fim. Disse sim a sua maisvelha e consolando a pequena com uma história sobre prin-cesas, foi para seu banho quente.
  35. 35. 37KönigNo escritório central da Ordem os livros foramidentificados e todas as digitais colhidas, ha-via duas muito recentes, a do religioso e a deoutra pessoa, seria ela a possuidora da carta? Colheram a di-gital e mandaram ao banco de buscas de identificação. Nadafoi localizado.Os berros do coordenador eram ouvidos do outro ladoda imensa sala:– Não é possível. Maldita Comunidade Europeia! Mal-dita liberação de vistos! Certamente quem sabe o segredo doherdeiro sequer é cidadão alemão, talvez nem conheça a his-tória da Bavária, sua importância política, os riscos de suaalteração. Talvez nem sequer tenha ouvido falar no Rei.– Calma, senhor, vamos localizar a pessoa. Estamosrastreando as imagens daquele dia. Dizia o mais servil dosassociados.Embora observassem o filme atentamente, ninguémlhes chamou a atenção. A entrada e a saída foram acompa-nhadas de perto com close em cada rosto. Sorte de Franciscater usado a porta secreta, pelo meio das paredes. Com a mor-te do vigia do castelo ninguém mais, além do concierge sabia daexcursão.Muito bem, pensou Francisca. Vamos aos fatos, tenhoos nomes e as datas, nada mais. Perguntar deles seria muitoperigoso, o que posso fazer? No meio do seu pensamento,uma ligação do Brasil, de Suzana, a trouxe ao mundo real.
  36. 36. 38AnaRitaPetraroli- Doutora, bom-dia. Tem um senhor aquichamado Hansan que diz ser seu clien-te e que precisa vê-la, com urgência.Disse para avisá-la que há dois dias fizera 20 anos. Disse quea senhora entenderia...Claro que ela entendeu. Hansan era um de seus primei-ros clientes. Homem forte, imigrante corajoso que veio parao Brasil com sua esposa, seu primo e seus quatro filhos, to-dos homens. Hanna, a esposa, trabalhava dia e noite fazendodoces para ajudar na mantença da casa, as crianças iam àescola arrumada por outro primo de Hansan que estava noBrasil há mais tempo.Certo dia, Hansan que trabalhava como motorista deuma família influente em São Paulo, chegou em casa maiscedo, o que nunca havia acontecido e descobriu Hanna e seuprimo, nus, na cama deles.Foi demais para ele. Nenhum pensamento lhe ocorreu,caminhou com lentidão até a cozinha, abriu a gaveta abaixoda pia e pegou o facão.Matou seu primo com apenas um corte. A mulher olhoubem nos seus olhos e lhe implorou perdão, os olhos dela cho-ravam pela morte de Assan. Aquela traição foi a maior, eleviu Assan nos olhos de Hanna. Matou Hanna. Correu na casade seu patrão para contar o que havia acontecido. O homemchorava tanto, ainda com sangue e o facão nas mãos que Sr.Rafael resolveu ligar para Dra. Francisca que já havia resolvi-do alguns problemas criminais para ele.Ela sugeriu que procurassem a polícia, tentaria um acor-do para sua prisão, explicou outras coisas mais, inclusive acer-ca da prescrição que existia no Brasil naquela época. Se eleficasse sem ser localizado por 20 anos, não poderia mais serprocessado.Vinte anos pensou Hansan... Ele disse à advogada quepegaria algumas roupas em seu emprego e já voltava. Rafael
  37. 37. 39Könignão quis que ele fosse lá, em vez disso, o levou até o aeropor-to e comprou uma passagem para Hansan voltar à Síria. Navolta para casa ele ligou para Francisca, contou que haviaembarcado Hansan no primeiro voo para fora do país, quelhe havia dado ordens expressas de que nunca mais voltasse, ecomo resposta ouviu:– Obrigado doutor, daqui a 20 anos volto para ver meusfilhos.Hansan nunca foi apontado como suspeito. Rafael afir-mou em depoimento que ele trabalhava naquela hora, longedali, em viagem a serviço da empresa, ninguém além de nóscinco sabíamos o que de fato havia acontecido, mas ninguémconseguiu jamais falar com Hansan e agora lá estava ele, 20anos depois, no meu escritório.Francisca pediu a Suzana que o colocasse na sala devídeo conferência e estabeleceu um link de contato. O ho-mem forte de outrora agora estava velho, magro, calvo, com amesma paixão no olhar.– Bom-dia, doutora.– Bom-dia, Hansan. Você voltou! Que bom, tentamostanto falar com você nos últimos anos!– Eu sei, ontem à tarde o Sr. Rafael me contou tudo,falou o homem com forte sotaque. Estou trabalhando comele de novo, agora nas indústrias. Na minha terra paguei peloque fiz. A senhora nem imagina o que passei por lá, as puni-ções a que me submeti. O pior é que todas as noites quandofecho os olhos vejo os olhos de Hanna e neles vejo seu amorpor Assan. Não há punição maior. Da sua justiça estou livre?– Sempre foi Hansan. Tentamos tanto contatar vocêpara contar a história toda... E somente agora encontramosvocê, ou melhor, você nos encontrou.– Muito bem, cumpri minha pena no exílio por 20 anose agora vou pagar o resto de minha vida pelo que fiz. Fuicastigado ao ter tatuado em minha alma aquele olhar. Obri-gado doutora.
  38. 38. 40AnaRitaPetraroli– Não tem porque agradecer. Boa sorte. Deixe que seusolhos olhem para outros olhares, quem sabe não se encontraem algum desses e pode ser feliz de novo?– Não, eu não mereço.E com essa frase encerraram a conversa. Ela tentandoentender este amor que mata e ele passando as mãos de Suzanao presente para Francisca. Suzana colocou o presente sobre amesa dela e retirando a pasta do caso Hansan do arquivo acolocou no arquivo morto.
  39. 39. 41KönigFrancisca resolveu ir atrás do nome do soldado,“pai” de Maximo, Joseph Wagner Wangler. Seunome no programa de buscas voltou com váriasinformações, ele foi comandante do batalhão especial do Rei,na Guerra austro-prussiana ocorrida entre a Áustria e a Prússia,no ano de 1866, por apoiar os austríacos, que perderam aguerra, Luis II viu-se obrigado a assinar um tratado de cola-boração em 1870 com a vizinha Prússia, cujo poderio militarparecia imbatível na época. Joseph foi quem alinhavou, nosbastidores, este acordo.No mesmo ano da assinatura do tratado, o rei precisoude seus serviços novamente e o mandou a linha de frentedurante a Guerra franco-prussiana, que durou um ano, destavez, aliado à Prússia, atacou a França. Acreditando que coma ajuda da Prússia poderia construir um império, incorporoua Baviera ao império alemão. Sua desilusão foi grande pornão conseguir o apoio dos prussianos a seus projetos de au-mentar os territórios, embora tenha obtido garantias da ma-nutenção dos privilégios especiais desfrutados pela Baviera.Foi uma escolha errada.Quando o Rei foi deposto, todos os seus homens deconfiança e conselheiros, bem como os comandantes de seuexército foram perseguidos, alguns fugiram para a Inglaterra,outros pediram asilo na Prússia. Joseph fugiu para Portugal.Em uma das batalhas conheceu o grão mestre da Ordem dosCavaleiros Templários e a ele pediu proteção. Foi então mo-rar na cidade de Leiria e segundo constava, não havia levadoninguém com ele. Como pesquisar sobre ele sem levantarsuspeitas? Não queria a morte de mais ninguém.Pensa, Francisca, pensa, forçou ela a mente já tão atri-bulada. Muito acostumada a este tipo de ordem.
  40. 40. 42AnaRitaPetraroliResolveu sair para caminhar pelas ruas de Muni-que. O dia estava especialmente bonito com atemperatura amena, em torno dos 14 graus, comos bávaros vestindo suas roupas tradicionais, a distração fezcom que o tempo passasse cada vez mais rápido. Caminhoupela “Maximiliam Road” até o final, contemplando o lindoparque que existe em sua margem esquerda, passou pelaspontes de um lado para o outro, até que entrando em direçãoa Mariaplatz, avistou a igreja de São Miguel, parando na fren-te da igreja leu algo perturbador no seu guia turístico de bol-so: lá estava sepultado o Rei Ludovico, o seu rei particular.Como isso lhe soava ridículo!Ela precisava entrar... Abriu a porta com muita soleni-dade e dentro da igreja, em reforma, vários turistas exercita-vam seu passatempo favorito: tirar fotos.Ela tentou entender alguma explicação do guia, foi ab-solutamente inútil. Nenhuma das palavras faladas em perfei-to alemão encontrou tradução em seu vocabulário. Continuouandando por baixo dos andaimes até que chegou ao lado es-querdo do altar, a uma pequena abertura no chão, com umapequena escada de poucos degraus, sem corrimão. Já haviaarriscado tanto, por que não seguir em frente? Perguntou-se.Desceu vagarosamente, testando seus olhos com a pe-numbra do local. Um senhor, logo na entrada, atrás de umpequeno balcão, a fez entender que deveria pagar dois eurospara descer na cripta dos reis. A nota mais baixa dela era de10 euros. Entregou ao senhor. Sua ansiedade era tão grandeque nem esperou o troco e perdendo-se entre a leitura dopapel com a sucessão do trono na Bavária, entrou na sala.A saleta era impressionante, quase vinte caixões, unsgrandes, outros menores, alguns de fato, bem pequenos, decrianças e bebês. Aquela imagem lhe causou arrepios. Comoseria confortável ter Ricardo com ela agora.
  41. 41. 43KönigConcentrada neste saudoso pensamento, quase derru-bou a vela na sua frente. Dando um pequeno pulo para trás,deparou-se com o maior caixão de todos, protegido por umacerca de ferro escuro, tal qual o próprio caixão.Na parede, o brasão da Bavária, iluminado por um focode luz direta. Francisca duvidava do que via. A vida já havialhe ensinado que coincidência demais, sempre tinha algumarazão.Sentiu como se fossem amigos, conhecidos de outrasépocas. Afinal, agora, compartilhavam de um segredo.Alguém saberia de seus segredos? Temia por eles. Te-mia por ela. Que diferença faria ao mundo a declaração deum herdeiro para um rei já sem reino?2008 era o ano da verdade, talvez só isso importasse aFrancisca. Uma verdade que fosse sua. Uma boa causa, sefosse justa melhor ainda. Qual justiça maior poderia haverque entregar ao verdadeiro herdeiro seu trono, sua história?Entregar a história ao seu dono? Devolver o passado rouba-do? Sentiu-se como no centro acadêmico da faculdade: revo-lucionaria e justiceira.Ficou olhando a lápide pedindo que ela falasse comela, tal qual seus processos falavam. Das folhas dos proces-sos saíam verdades, mentiras, meios fatos que sempre ajuda-vam Francisca nas escolhas de suas teses.Certa vez na condução de um processo de atentado vi-olento ao pudor, onde a ex-mulher acusava o pai de seu filhode violentá-lo sexualmente, as mãos de Francisca suavam frio,ela queria muito que seu cliente não fosse culpado, não porela, pela criança.Ela folheou o processo de ponta a ponta, fez váriasentrevistas com seu cliente e depois ficava assistindo aosvídeos, em busca de qualquer coisa que pudesse usar no pro-cesso.Numa tarde de muita chuva, dia final de seu prazo paraapresentar sua defesa, o processo falou com ela. Ao ler o de-poimento da criança, a frase: “ele punha a mão no meu
  42. 42. 44AnaRitaPetrarolibumbum...” repetida por diversas vezes e utilizada commaestria e cinismo pelo Promotor, chamou a atenção dela.Relendo o contexto do depoimento da criança, pareciaque ela se referia a um tapa. É isso! Ao dar uma palmada nomenino, o pai, de alguma forma, põe a mão no bumbum dacriança. Suas esperanças aumentaram e ela teve coragem desolicitar um novo depoimento da criança junto à psicóloga,na frente do pai e do Juiz.Na audiência estavam todos muito tensos. Quando acriança entrou na sala e sorriu ao ver o pai, correndo em suadireção e dizendo estar com muitas saudades, ela estava cer-ta de que estavam no caminho correto.No final do depoimento o sentimento dela foi compro-vado. O pai saiu livre, a criança mais livre por não perder opai de forma tão cruel. O que mais comoveu Francisca foi ocomportamento da mãe. Acostumada a ex-mulheres raivosase vingativas, a mulher olhava para o ex-marido com piedadee arrependimento. Ao ouvir o depoimento da criança choroucopiosamente de medo da injustiça que poderia cometer. Nasaída, após retirarem as algemas do ex-marido, o beijo na tes-ta confirmou para Francisca o tipo de pessoa que Valéria erae daí a amizade dos três existe até hoje.Afastou aquelas lembranças que trariam outras tantas,os papéis de seus processos falavam com ela, loucura? Tal-vez falem com todos. Francisca sabia ouvir, talvez nem to-dos saibam e talvez, só talvez, essa seja a grande diferençadas pessoas.Ela precisava de um desses sinais, alguma coisa, umadireção, um nome? Conhecer um pouco mais de história, en-fim, qualquer migalha de ajuda. Mais que uma migalha... Ti-rou com o celular muitas fotos do local.Com muito carinho e respeito, colocou sobre o túmuloa palma da mão direita e fez uma oração, ao seu jeito, ao seuDeus, em nome de seu novo amigo, o König da Baviera.
  43. 43. 45KönigNa beira do túmulo havia uma rosa vermelha bem fres-ca e uma pequena flor, muito cheirosa, de um rosa mescladode branco do lado oposto. Quem as teria colocado?Precisava deixar algo seu para o Rei.Retirou a fivela dourada de seu cabelo, liberando a re-belde e longa franja sobre os olhos e a pousou na beirada datumba, queria que o rei tivesse algo dela, em troca da precio-sidade que ela tinha dele.Quando começou a se afastar, ao dar três passos paratrás, sentiu o chão solto, a reforma, enfim era bem-vinda,percebeu que o ladrilho que estava solto, tinha por baixo umburaco, afastando a peça com o pé, viu que o piso escondiaum pequeno espelho, que refletia a imagem de São Miguelque era visível pelo buraco do teto, que saia no chão do altar.E a imagem olhava diretamente para o espelho.Ela saiu dali em direção ao altar, subindo as escadascom pressa, tropeçou no penúltimo degrau, sendo amparadapor um jovem japonês.Subiu no altar com o desrespeito de quem não é católi-ca e olhou pelo buraco no piso diretamente no espelho e seinclinando na ponta dos pés para alcançar o mesmo ânguloda imagem, viu que o reflexo era o do caixão de Ludovico.A luta do arcanjo Miguel foi com o demônio, a de LuisII também. Cada um tem uma espécie de diabo que deve en-frentar durante a vida, sorte dos que os reconhecem e maiorsorte ainda tem os que conseguem derrotá-lo. Miguel conse-guiu. Luis II foi derrotado.Francisca quase morreu de susto quando foi cutucadanas costas. Virou-se com um grito seco e viu o senhor daentrada das criptas, estendendo a mão com seu troco. Elacolocou as mãos sobre a dele, e sorrindo, respondeu em bomportuguês:– Por favor, compre flores para o Rei Ludovico.Sem saber se ele entendera, ela saiu, dando as costaspara o altar.
  44. 44. 46AnaRitaPetraroliSem nenhuma nova ideia, permaneceu com a ideia deque precisava ir a Portugal, buscar a tal ordem ou qualquerinformação na cidade de Joseph.O que diria a Ricardo? Agradeceu por Portugal fazerparte da comunidade europeia,voltou ao hotel em passosapressados, não fechou sua estadia no hotel, avisando quepassaria uns dois dias em BadenBaden, pedindo que manti-vessem suas coisas por lá. Estava dentro do táxi, quando len-do o mesmo guia de bolso, viu que o rei Luis II havia cons-truido outro castelo na mesma época e a seguinte informa-ção do folheto, em espanhol a deixou curiosa: “En la ceremoniade colocación de la primera piedra celebrada el 5 de septiembre de1869, y siguiendo la tradición de Luis I, se depositaron retratos delpromotor de la obra y monedas de su época de gobierno.”Luis II colocou algo mais embaixo daquela pedra? Acuriosidade quase consumiu Francisca, que teria que se con-tentar com o que sabia até então, pois remover o Castelo atrásdo que foi depositado era impossível. Comentou com o mo-torista acerca das coisas lá depositadas e por ele foi informa-da de que o Castelo valia a visita. Era uma obra-prima, comsalas dedicadas a Richard Wagner, compositor muito admira-do pelo rei.– Vamos lá, então. Ela disse.Fazendo o primeiro retorno, dirigiram-se até o Caste-lo de Neuschwanstein, no caminho o motorista contouque: “O Schloss Neuschwanstein foi construído na segun-da metade do século XIX, perto das cidades deHohenschwangau e Fussen, no sudoeste da Baviera, na fron-teira com a Áustria, inspirado na obra de seu amigo e protegi-do, o grande compositor Richard Wagner. A arquitetura docastelo possui um estilo fantástico, o qual serviu de inspira-ção ao “castelo da Cinderela”, símbolo da Disney. O nomeNeuschwanstein significa “novo cisne de pedra”, uma referên-cia ao “cavaleiro do Cisne”, Lohengrin, da ópera com o mes-mo nome.”
  45. 45. 47KönigContinuou, o talvez mais culto taxista de Munique, ga-bando-se que conhecia aquela história como ninguém e ahavia escrito na Wikpedia : “ A ópera acima conta a históriade Lohengrin, o qual aparece para defender a princesa Elsada falsa acusação de ter matado seu irmão mais novo, que narealidade está vivo e reaparece no final do espetáculo. Deacordo com a interpretação de Wagner, o Santo Graal forne-ce ao Cavaleiro do Cisne poderes místicos que só podem sermantidos se sua natureza permanecer em segredo, justifican-do o perigo da quebra do tabu da pergunta sobre seu nome esua origem.”Enquanto ouvia a narrativa percebeu que o celular vi-brava, quando viu o nome de Suzana ficou muito preocupa-da, afinal era quase madrugada no Brasil.– Alô, Suzana, o que foi, tudo bem? Disse desconfiadada resposta.– Dra. É o Sr. Alan. A esposa dele ligou dizendo quenem os policiais o encontram, ela percorreu a delegacia local,a seccional e ninguém sabe dele. Já tentei junto a Dra. Sandrae ela também não conseguiu localizar ninguém que pudesseajudar, por isso liguei.– Tudo bem. Fez bem. Transfira a ligação para o celulardo Dr. Sérgio.Após alguns toques a voz rouca e sonolenta do outrolado lhe saudou com um sonoro bom-dia, seguido de um vocênão sabe que horas são?– Sérgio, desculpe. Acontece que a Suzana acabou deme ligar contando que o Alan sumiu. A polícia não o encon-tra em lugar algum.Alan havia participado do primeiro governo democrá-tico do Brasil depois de anos de ditadura. Foi Ministro de umgoverno que acabou com a renúncia do Presidente que tenta-va evitar sua cassação, naqueles dias, muitas histórias foramcontadas, umas comprovadas outras para sempre serão len-das. Com relação ao Alan muitas dúvidas sobraram, homemda confiança irrestrita do Presidente, o acompanhou na subi-
  46. 46. 48AnaRitaPetrarolida e na descida, sendo que quando atingiram o fim do poçofoi deixado de lado por quem protegeu o tempo todo. Aca-bou foragido e réu em mais de 50 processos sob todo tipo deacusação, de corrupção e participação em homicídio.Quase vinte anos depois todos os processos estavamencerrados, entretanto, muitos de seus inimigos estavam vi-vos e pior, no poder. O mais preocupante eram os que esta-vam na sombra do poder. O que ele sabia,só ele sabia, nin-guém mais. E toda essa sabedoria era uma espada sobre a suacabeça. É claro que ele havia tomado certas precauções quantoa deixar a informação gravada em várias mídias, o que nãoimpedia do medo da morte ser seu diário companheiro. Esteera o demônio de Alan.– Como assim sumiu? Espantou-se Sérgio.– A Denise ligou para o telefone de emergência do es-critório e a Suzana atendeu. O resto todos sabemos a mesmacoisa: nada!– Francisa, disse o Ministro, é melhor você voltar ime-diatamente, meu instinto diz que o aconteceu não é nada bom.Pode envolver a segurança do Presidente. Preciso de você.– Voltar? Tudo bem. Se for necessário pego o primeirovoo para o Brasil e...Interrompendo a fala dela, o Ministro lhe disse:– O jato do Ministério está na base francesa e pousaem Munique daqui a 4 horas, esteja no Aeroporto no setor deembarque das autoridades, vou dar alguns telefonemas. Boaviagem. Fran, o que ele sabe em mãos erradas pode abalar asegurança nacional.Voltar agora não estava nos planos de Francisca, masela pediu que o motorista retornasse ao Hotel Kempinski, ocastelo ficaria para depois. Ricardo não poderia ser o último asaber de seu retorno, então telefonou para ele, o celular so-mente atendia na caixa postal. Ligou então a sua secretária edeixou o recado.
  47. 47. 49KönigDe repente um sorriso invadiu a alma de Francisca, lem-brou que veria suas filhas, de quem sentia muitas saudades.O sorriso virou lágrima saudosa. Ela arrumou as coisas, to-mou um quente e rápido banho e colocou a carta dentro dabolsinha em que carregava os euros de maior valor. Pronto.Tocou o telefone e sua alma alegrou-se uma vez mais,era Ricardo. Ela suspirou ao reconhecer o número e atendeuao telefone:– Amor, você nem imagina o que aconteceu.A história foi contada tão rapidamente que Ricardo fa-zia um enorme esforço para entender o que ela dizia. No fi-nal, ele apenas disse:– Que merda. Isso não é nada bom, Fran, tenha muitocuidado. Haviam me liberado no final de semana e estou sen-tindo tanto a tua falta... Poderia ir com você se tivéssemoscerteza do retorno na segunda pela manhã.– Eu sei. Você também me faz falta. Não podemosprever a volta. É o Alan, a Denise, o Sérgio, a estabilidade denosso país... Não posso pensar em nós agora. Volto o maisrapidamente possível, disse ela, torcendo para ser verdade.– Então, boa viagem. Beije nossas florzinhas, ok? Enão esqueça de dar notícias. Fran, não esqueça que te amo ecuidado.Cuidado.EraumapalavraqueinspiravaterroremFrancisca.Cuidar de si, da família, dos funcionários, de sua mãe, de suasirmãs, dos seus clientes... Era muita responsabilidade!Alguém bateu à porta e ela abriu sem pensar, era o car-regador. A partir daquele momento teria que ligar todos osseus alertas e estar preparada para tudo, afinal já fazia maisde 30 horas e nenhuma notícia do Alan.Ela resolveu ligar para a Denise, que entre soluços emuito silêncio lhe agradeceu por voltar. Disse que eram 05h15e o Alan tinha saído para caminhar como fazia todas as ma-nhãs. Ela sentiu um arrepio quando ele passou a mão pelo
  48. 48. 50AnaRitaPetraroliseu pé e pediu que ficasse, dando um beijo na sua testa, ele atranquilizou, falando:– Volte aos teus sonhos. Tá tudo bem.Denise então parou a narrativa e gritou:– Eu não devia ter deixado ele sair! Fran, eu senti queaquele arrepio era de adeus, foi igualzinho ao que senti no diaem que meu pai morreu.– Dê, calma, você não podia fazer nada. Ninguém po-dia. Fique firme, ele precisa da sua força e eu também.– Está bem. Até mais... e Fran?– Fala, querida.– Você se lembra de como se reza?– Claro que sim, embora não tenha fé, tenho minhaespécie de crença, tenho filhos, lembra?– Acho que teremos que rezar.– Até mais e se isso te tranquiliza, fique com Deus.Toda aquela conversa de reza a fez lembrar da Igreja deSão Miguel e das pistas do Rei Ludovico. Este pedaço dahistória teria que esperar. O presente era mais forte que opassado e não podia ser ignorado.O carro que a levou para o aeroporto quase voava, car-ros alemães normalmente voam... O celular tocou de novo eera sua mãe já sabendo de sua volta. Dna. Tereza e a esposado Sérgio eram grandes amigas. Quando soube do Alan ficoucom medo por Francisca.– Mamãe, tudo bem. Quanto a mim sou mais útil viva ena minha vida. Não se preocupe. E as crianças? Perguntou.– Estão ótimas! Ficarão felizes em te ver, venha jantarem casa. Disse Dna. Tereza com suadades e temor– Jantar? Tomara. Farei todo o possível. Falamos de-pois. Beijos. Disse Francisca, desligando ao telefone.Viu um homem muito bonito vindo em sua direção,chegou a corar. E ele, com os olhos fixos nela, falou:– Dra. Francisca?– Sim?
  49. 49. 51König– Sou Douglas Souza, vim a pedido do Dr. Sérgio. Asenhora está pronta? Podemos ir?– Sim, é claro.Ele pegou a sua bagagem que se resumia a uma malapequena de mão e seu casaco que, aquela hora do dia, nãolhe era útil.– Quanto tempo de voo, ela perguntou?– 12 horas.Seguiram em passos rápidos até uma entrada lateral doaeroporto e ela viu na sua frente um avião do exército com abandeira e o brasão brasileiros estampados na lataria. Logolhe veio a imagem daquelas aeronaves de guerra onde os sol-dados sentavam no chão e a temperatura era absolutamentedesregulada devido à péssima vedação da cabine.Quando entrou a surpresa foi agradável. Nada de ban-cos desconfortáveis e o chão como destino. A decoração eraclara, toda em tons de bege, com o Brasão da Republica noscarpetes, nas paredes e no encosto das oito poltronas, queeram amplas, novas e o melhor: estavam vazias.Francisca escolheu a janela do lado direito e assim quelevantaram voo ela abaixou o encosto, levantou os pés e dor-miu pelas próximas 12 horas. Acordou com o ComandanteSouza pedindo que arrumasse a cadeira porque iriam pousar.Foi mais rápido que qualquer outro voo que tivesse fei-to na vida. Estava pronta para o dia que teria pela frente. Maldesceu da aeronave, já foi interceptada por outro enviado doMinistro. Seguiu com ele até a Esplanada. Subiu direto peloelevador privativo e quando a porta abriu, lá estava ele ...Alan, conversando com Sérgio. Pasma, meio com raiva dacara alegre deles, foi logo perguntando:– O que está acontecendo aqui? A Denise sabe destatramoia?– Calma, Fran, disse Sérgio com a ausência de tensãodigna do politico que ele era. O Alan deu uma sorte do cace-te. Lembra do Branquinho?
  50. 50. 52AnaRitaPetraroli– Claro que sim.– Pois é, ele fazia parte da turma que foi contratadapara sumir com o Alan e ...Alan não aguentou ficar calado e parado. Pulou nosbraços da amiga, da advogada, da companheira de ideais,passeatas, reuniões secretas, noites de discussão e bebidas:– Fran, obrigado. Você veio.– Até rezei por você! Disse já relaxada e abraçada aoamigo.– Fran,quando vi o Branquinho ele piscou para mim eeu soube que tudo daria certo. Saí para caminhar como sem-pre, e na primeira virada uma Blazer preta fechou na minhafrente. O segurança da casa da esquina tentou atirar quandoviu que era um sequestro, não acertou nada e eles fugiramcomigo. Disseram que o dia tinha chegado. Quando o carroparou, o tal do filme tinha passado de novo. Eu só pensavana Dê e no quanto ele me pediu para não sair naquela manhã.Me jogaram no chão e quando olhei estava cara-a-cara com oBranquinho! Quase beijei a boca dele. Ele aceitou o serviçosó para me libertar.– E onde ele está agora?– Sendo interrogado pelo pessoal do Sérgio. Respon-deu Alan.Sérgio ligou a tela em frente a sua mesa e pudemos to-dos ouvir o depoimento do Branquinho:– Então, eu vivo destes serviços especiais, sabe? Co-brança, marido infiel, mulher vagabunda, avisos... Fui procu-rado por serviço que era pegar um granfino e jogar na Serrada Cantareira. Quando soube que era o Alan, aceitei na hora.Era o único jeito de proteger o cara. Fiz tudo como manda-ram, com exceção de apagar o chapa.– Mandaram? Quem?– Tu sabe por que estou vivo até hoje? De cabelo bran-co? Porque nunca sei quem me contrata. Agora fala aí, comovão proteger o Alan? Ele tem que sumir... Pro bem do negãoaqui e pro bem dele também.
  51. 51. 53KönigO Sérgio abriu a porta nos deixando ver que a sala dointerrogatorio era logo atrás da sua. Continuamos vendo pelomonitor.Branquinho passou a fazer parte do programa de prote-ção a testemunha, junto com Alan e Denise que ganharamidentidade nova e um novo endereço no Uruguai. Todos alisabiam que aquilo duraria pouco. O Branquinho porque nãotinha vocação para a vida fácil e o Alan porque era alucinadopelo perigo.Ambos se conheceram nos corredores do DOPS, fo-ram presos políticos. O Alan, filho da burguesia, e o Branqui-nho, filho da mãe, sem pai. Apanharam juntos por 2 meses.Quando saíram cada um foi para um lado da rua, ambos coma mente no mesmo pensamento: aquilo tinha que mudar.Optaram por facções absolutamente diferentes, ambas cri-minosas, ambas perigosas, ambas aprisionaram os dois.Um foi para o governo, o outro para o poder paralelo.Os dois experimentaram o poder e se machucaram muito porisso. Agora os dois eram testemunhas vivas de um períodonão muito patriótico do Brasil.Branquinho disse que ouviu muitas vezes as palavras“calar o panaca”. O que dificultava a identificação dosequestrador porque muita gente queria calar o Alan.Quando ele disse essa frase: “calar o panaca ...”Francisca lembrou da frase célebre: o canalha do Carlos Leão,o maior doleiro da época áurea do mercado paralelo de moe-das e dos títulos ao portador. Carlos montou uma estruturainvejável, tinha mais de 30 pontos de troca de moedas, semse importar para quem comercializava ou de quem recebia.Se dizia democrático, na verdade, era sem princípios. Tinhaos seus próprios limites que eram praticamente inexistentes.Alto, pele queimada de sol, sempre em forma, tinhavida farta de mulheres e foi uma das suas mulheres que aca-bou com ele. Quando viu que não era a única denunciou oseu esquema à Polícia Federal, foi alvo de investigação pro-funda, verdadeira devassa foi feita e esta mulher, embora fú-
  52. 52. 54AnaRitaPetrarolitil, era muito esperta e guardou o maior segredo de todospara si e para seu namorado na época: o Alan.Foi ele quem a encorajou a denunciar e quem a apoiounos momentos de crise. Logo depois se tornaram amantes eele estava com ela quando foi assassinada. Temendo pela pró-pria segurança deixou que todos soubessem que o que sabiamorreria com ele, mas se algo lhe acontecesse todos saberiamdo que sabia. O que teria mudado? Por que o medo da desco-berta da verdade não era mais temido por Leão? Ela gritou onome dele:– Carlos Leão. Aposto que foi ele.– Você está muito desatualizada. O Leão foi assassina-do faz 15 dias... Sérgio parou e coçando queixo como costu-mava fazer desde os tempos da escola disse:– Foi o mesmo cara que matou Leão. Ele quer que ahistória toda se espalhe.– Claro, faz todo sentido. Como anda o inquérito docontrabando de armas? Francisca resumiu a história para queAlan pudesse entender:O caso do contrabando de armas envolvia mais de 5países, três continentes, Ministério Público e da Justiça devários outros países e permanecia um mistério que envolviamuito dinheiro, envios de dólares ao exterior, contrabando,tráfico de drogas e, claro, homicídio. Ela mesma havia feito adefesa de um empresário envolvido no esquema. Ele era pro-prietário de uma indústria de medicamentos e usava o Leãopara fazer remessas a sua conta no exterior e estas remessasfuncionam mais ou menos assim, você deposita o seu dinhei-ro numa conta indicada pelo doleiro e alguém deposita nasua conta do exterior. Surgem aí dois problemas: de quem é aconta em que você faz os depósitos e quem é que faz depósi-tos na sua conta.No caso do cliente de Francisca, um dos maiores trafi-cantes de armas para os países instáveis da África era quemfazia os depósitos. Como explicar que seu único crime era ode evasão de divisas e sonegação fiscal? Crimes que diante
  53. 53. 55Königdos que era acusado se tornavam suaves... O nome dele eraRubens.Quando o Dr. Rubens viu o nome de seu banco envol-vido na trama já ficou preocupado, vindo o desespero emseguida, com a informação do seu gerente que dados da suaconta haviam sido solicitados.Por regra do Banco Central dasBahamas, os dados do correntista são protegidos, mas toda arede de depósitos, saques e transferência não. Assim chega-ram ao seu filho que acabara de casar com uma das socialitesmais conhecidas da Bahia.Com filho ninguém mexe. Dr. Rubens chegou no escri-tório de Francisca com os documentos, o pagamento e seusmedos. Na verdade nada existia contra ele. Ele queria queexistisse para que deixasse de existir contra seu filho. Contoua ela que o menino havia feito medicina, não quis os negóciosdo pai, era de outra massa, dizia, nunca tinha passado as suasdificuldades, era culto, viajado, estudado e agora bem casa-do. Era preciso esclarecer a situação. Os jornais durante ummês deram os passos da investigação e a cada notícia, vinhaum telefonema cada vez mais aflito.Sua tese de defesa foi absolutamente ignorada por ele.Quis a indicação de um advogado especializado no exterior.Francisca indicou um grande amigo, Bernando Itti, especia-lista em lavagem de dinheiro, evasão de divisas e direito ban-cário, não tinha ninguém melhor para orientar e resolver osproblemas dele. A indicação dela foi aceita e foram a Santia-go, no Chile, onde ficava uma das filiais de seu escritório e nasala de reuniões mais elegante que Francisca já viu, com ja-nelas decoradas pelos Andes, ouviu o maior absurdo de suavida, Dr. Rubens queria falar com o Procurador que cuidavado caso.– Como assim, espantou-se Bernardo?Francisca não pôde falar, o que para ela era uma raridade.– Doutor veja bem, disse Rubens, se ele me vir, ouvira minha história, entender do meu negócio, não vai permitirque essa investigação prossiga contra o meu filho. Preciso
  54. 54. 56AnaRitaPetrarolicontar que minha intenção era preservar o meu patrimônio,nada mais. Falar a ele do Brasil, do confisco que vivemos, dainstabilidade da moeda. Não sou bandido, não sou perigoso.Quero falar com o Promotor.– Sr. Rubens, tentou argumentar Bernardo, não é bemassim que as coisas funcionam. Primeiro que para ser recebi-do você terá que se identificar e no processo você sequeraparece!– Eu não, mas meu filho sim e isso não pode acontecer.Foi presente de casamento o dinheiro que mandei. Queriaque ele fizesse bonito com sua mulher nova, que não ficassepor baixo, que pudesse falar de igual para igual. Dr. Bernardo,catei lixo na rua, fiquei dias sem comer, não fui ético muitasvezes, roubei, blefei, alterei pesos e fórmulas, falsifiquei pro-dutos, nomes, não fui bom marido, mas pai, sempre foi a úni-ca coisa da qual me orgulhei na integridade, por inteiro. Eraimpecável. Preciso manter esta única qualidade. É o que memantem vivo, com coragem de olhar para o espelho todas asmanhãs: meus filhos. Preciso protegê-los, sempre o fiz e ago-ra a proteção é de mim mesmo.– Fran, o que você acha? Perguntou Bernardo.– Loucura, insanidade jurídica. Sou veementementecontra.– Eu vou de qualquer jeito. Com vocês ou sozinho.Disse com uma firmeza fria Sr. Rubens.– Vamos com você, disse Bernardo, para total espantode Francisca, que respondeu:– Vamos? Como assim?– Vamos, eu, você, o Sr. Rubens e a esposa dele. Eledisse ser casado, não é? Pega bem mostrar o lado família.Não é esse o objetivo?Na mesma hora não permitindo qualquer espécie decontestação e aproveitando o espanto de todos, chamou suasecretária, pediu que agendasse com o Procurador, reservas-se os voos e os hotéis e mandasse a conta ao Sr. Rubens,
  55. 55. 57Königalertando que somente receberia em dinheiro. Em euro, umdia antes da partida.– Perfeito, disse sorrindo Dr. Rubens. Agora quanto aminha esposa ela é muito nervosa, sofre de pressão alta, écardíaca... É dona de casa. Não está acostumada com nadadisso. Não imagina o que faço. Pensa que meu negócio pros-perou por conta própria, só pelo meu “talento”. Levá-la sig-nifica contar a verdade a ela, dizer o que fiz, quem eu sou...Este era o demônio dele. Ser quem ele era.Foi interrompido por Bernando:– Com ela ou nada feito.– Ok, espero a data. Respondeu o homem.Enquanto Dr. Rubens ia para casa, com uma dorinexplicável no peito, Francisca duelava com Bernardo:– Você enlouqueceu? Qual a chance disso dar certo?Entregar alguém que sequer é parte? É regra contrária ao bomdireito. Você somente fez isso pelos honorários, não foi?Mercenário!– Fran, pode dar certo. O Procurador é o Dr. Jean Servie ele é bem razoável. Lembra da bomba perto do lago? Dojovem que morreu? Era filho dele. Você lembra o que ele fezno dia do julgamento? Sua reação naquela audiência fez comque ficasse afastado por dois anos da promotoria e a históriado Dr. Rubens, certamente, mexeria com ele.– É para o bem ou para mal...– Só descobriremos indo, não é mesmo?Aquele brilho nos olhos dele deixou Francisca apavo-rada e excitada como uma adolescente. Seu desejo era chegarà idade do Bernardo com o mesmo brilho no olhar. Elachegaria...Rubens chegou em casa. Helena abriu a porta sorriden-te, tímida, acariciando suas costas e fazendo com que ele ti-vesse coragem de entrar. Sentaram no sofá e ela estava levan-tando para pegar o uísque do marido, quando ele a seguroupela mão. Pela primeira vez em anos, ela olhou e viu o mari-
  56. 56. 58AnaRitaPetrarolido. O achou velho, muito velho... Trinta anos de casamento eo amor dela por ele era tão forte que nem havia reparado queele estava quase careca, com o rosto enrugado, os olhos can-sados, sem brilho. Sofreu por ver seu companheiro tão triste.Como mulher antiga, não perguntou nada, apertou a mão delemais forte e ele a fez sentar novamente.Olhando nos olhos de Helena ele começou a chorar.Fora o dia em que sua mãe morrera ela não o vira chorarnenhuma outra vez, nem quando nasceram os filhos. Apavo-rada, levantou o queixo de seu marido e disse as seguintespalavras, com muita doçura e sinceridade:– Seja o que for, lembre-se que estou com você.Ele contou tudo, cada detalhe dos negócios e das nego-ciatas. Vomitou o passado ali mesmo, sem poupar nada. De-pois de contar toda a história, ele havia ficado menor, aosseus olhos, aos olhos de sua Helena, maior! Quanto sacrifíciopor amor. Quantas noites em claro, se culpando pelo que fi-zera, quanta luta para dar a família o que nunca tivera, Hele-na o amou mais por isso.– Quando vamos? Foi sua única pergunta.– O advogado está marcando a audiência. Será breve.Prepare-se, foi a resposta dele.Olhando nos olhos do seu marido e apertando suas mãoscom suavidade, ela disse:– Estou pronta.Algumas semanas após, o dia chegou. Foram todos deprimeira classe. O silêncio imperava na viagem sem fim. Dr.Rubens foi instruído a falar e Helena a ouvir. Chegaram nohotel, trocaram a roupa, tentaram almoçar, com exceção deBernardo, ninguém conseguiu, repetiram o expresso três ve-zes após o almoço e saíram.Na entrada do prédio da Promotoria, a segurança eraintensa. Homens para um lado, mulheres para outro, Franciscatentou fazer com que o Dr. Rubens acreditasse que Helenaficaria bem. Ele envelheceu mais cinco anos naquela hora.
  57. 57. 59KönigEla não precisava passar por isso! Respirou fundo e entra-ram, cada um por uma porta. Depois passaram por umdetector de metais, por um de líquidos, pelo Transpor® –aparelho que olha por baixo das roupas e por dentro do corpo.Os guardas sempre sisudos, condoeram-se com a agonia deHelena, seu coração, exposto na tela do monitor, batia tãoacelerado que temeram pela saúde dela. Entretanto, ela fi-caria bem. O terço que tinha entre os dedos, o amor quecarregava no corpo e a fé da sua alma, fariam com que elaficasse bem.Continuaram pelo corredor, cercado de alarmes ecâmeras de vigilância e guardas e grades, muitas portas, ne-nhuma janela. Helena que tinha um pouco de claustrofobiaevitou olhar para os lados, seguiu firme, em frente, ansiosapor ver seu Rubens novamente. Enfim, chegaram a uma salacor de laranja, marmore alaranjado no chão e nas paredes.Foram orientadas a esperar no centro da sala, em pé. Pediramque abrissem as mãos e os dedos. Sobre elas desceu do tetouma cápsula. A luz foi apagada e se acendeu sobre a cabeçadelas uma luz fluorescente. Ali, mais uma vez foraminspecionadas por um novo modelo do Transpor®, como nadaas impedia, seguiram para o próximo salão, uma sala de pare-des de madeira escura e piso de granito verde também escu-ro, embora do teto pendessem cinco enormes lustres. Foram,então, submetidas a uma última verificação com luz negrapara que fosse verificado se possuíam alguma substância pe-rigosa na pele.Limpas, seguiram finalmente a mais simples das salas,piso claro, parede branca, cadeiras de linha retas e uma únicamesa no centro da sala. Logo chegaram Bernardo, Rubens eum guarda. Em seguida o elegante Promotor.– Pois não? Foram suas palavras e sem emendar umaboa tarde, perguntou:– Em que posso ajudá-los?
  58. 58. 60AnaRitaPetraroli– Doutor, trago aqui um homem aflito, o qual carregauma história única, romance desenhado pelo melhor dos ro-mancistas: o destino. Ele lutou contra minha colega Francisca,contra mim, contra meus instintos e praticamente me forçoua esta viagem. Queria falar-lhe.Bernardo e seu rebuscamento, pensou Francisca, comum sorriso no canto dos olhos.Dirigindo-se diretamente ao cliente deles perguntou:– Sr. Rubens, não é mesmo? Em que posso ajudá-lo?– Ouça-me. Apenas deixe que lhe conte minha história.– Se for breve. Se for interessante. Se eu achar verídi-ca... Prossiga.Dr. Rubens então relatou ao Promotor o que todos na-quela sala já sabiam. A riqueza dos detalhes fez com que Dr.Jean prestasse muita atenção, às vezes tomava nota de algu-ma coisa. Ele prosseguiu pelo tempo em que foi necessário.Contou a história toda. Helena estava com os olhos cheiosd´água e segurava cada vez com mais força seu tercinho. OPromotor, com os olhos parados no papel no qual fizera asanotações. A história acabou e o eco do silêncio incomodoua todos. Foi quebrado pelo Promotor:– Ouvi, anotei, pensarei. Bom retorno aos senhores.Ele ligou na portaria questionando se tinham o nomedo seu visitante e seu endereço, diante do sim e olhando paraHelena, disse:– Até logo senhora.Olhando para Fran, disse:– Foi um prazer conhecê-la.Saiu ignorando o Sr. Rubens e Bernardo.Francisca chegou a ver alguma compaixão nos olhosdele, que saiu no mesmo ritmo e com mesmo andar em queentrou. No papel sobre a mesa a palavra “culpado” em inglêsaparecia. A ignorância salvou Dr. Rubens do desespero.Bernardo pegou o papel e mostrou a Francisca que não foisalva pela ignorância. Saíram da sala, cada um com suas con-
  59. 59. 61Königclusões. Bernardo e Francisca certos da condenação;Dr.Rubens, certo de que o convencera. Helena, simplesmen-te, espantada com a coragem do marido.A reunião no hotel foi muito dificil. Dr. Rubens nãoaceitava veredito dos advogados acerca da audiência. Pega-ram o próximo voo para o Brasil. Bernardo iria para a Françae Francisca para Holanda, encontrar Ricardo. Ali no aeropor-to seguiram seus destinos, sem saber o final que aquele casoteria, por pouco tempo...Ao chegar ao Brasil o motorista os esperava, foram paracasa. Dias depois, a intimação que tanto temeram. A Promo-toria havia enviado as declarações do Dr. Rubens à justiçabrasileira e ele seria indiciado. Sua reação foi de alegriaincontida: havia livrado seu filho! O que ele ainda não sabiaé que na sua história entregou o que restara do esquema deLeão...O maldito doleiro matou Dna.Helena e os quatro filhosdo Dr. Rubens, no mesmo dia, da mesma forma e fez questãode que soubessem que foi ele que ordenara o massacre.– Muito bem, daqui continuo eu. Disse Sérgio.– Rubens, a partir daquele dia, não tinha mais o queperder. Soube esperar. Há 15 dias, enfim, matou Leão e jurouque faria tudo para que ele ficasse desmoralizado, que nãosobrasse nada aos seus filhos. Na tortura Leão falou de Alancomo guardião de seus segredos e o círculo ficou completo.Quando Francisca entendeu a história pegou o celularna mesma hora e ligou para o Bernardo. Ele sugeriu que elafizesse o que ele faria: ficasse de fora deste assunto. Ela porenquanto obedeceu. Se ligasse para o Dr. Rubens ele saberiaque Alan estava vivo e isso não seria bom para ninguém.Colocou a mão na bolsa que trazia junto ao corpo elembrou-se da carta, lembrou do filho de Ludovico e lem-brou-se de suas filhas. Lembrou de sua mãe e do jantar. Disseadeus a todos e foi correndo para o aeroporto para pegar oprimeiro voo para São Paulo.
  60. 60. 62AnaRitaPetraroliAo abrir a porta, o cheiro da comida da Tina –cozinheira de sua mãe há mais de 30 anos – fezcom que relaxasse. O grito das crianças a tiroudo mundo real e ela então permitiu se entregar àquele mo-mento. Abraçou as crianças, respirando o cheiro delas, cheirode inocência. Como era bom tê-las assim, nos braços, quaseimóveis, em êxtase!Crianças devem, de fato, serem fadas, anjos, deusas.Seus corpos pequenos, tão intensos, tão cheios de amor, fize-ram com que Francisca chorasse, deixando o rosto molhado,lágrimas sem razão, sem saber por que ou porque sabia quemomentos assim, simples, deliciosos são muito raros. A rari-dade da paz, do aconchego da família são detalhes que nãonos apercebemos no dia a dia, mas ao acontecerem fazemcom que todo o ar ao redor fique embaçado, como que embe-bido. Magia do bem.As crianças começaram a gritar ao mesmo tempo, pe-dindo que a mãe entregasse os presentes. Francisca teve quementir, afirmando que era apenas uma visita e que os presen-tes estavam com o papai e ele os traria em breve.O jantar, depois do longo banho, foi a melhor coisa nasúltimas horas e ela valorizou cada instante daquele momen-to. Estava com as meninas e uma ensaboava suas costas, en-quanto a menor misturava todos os xampus da avó. Quandoa pequena começou a atacar os cremes, Fran achou melhorsair do banho. Enrolou-se na toalha e enrolou cada uma dasmeninas igualmente. Retirou a maquilagem dos olhos. Achouque havia envelhecido nestes últimos dias. Aumentou de pesocomo se todas aquela história carregada pela pequena e velhacarta pesasse uma tonelada. Várias toneladas.Depois do delicioso jantar que Tina preparou – carnede panela com batatas, salada de endivia quente com queijogorgonzola e de sobremesa Mousse de chocolate –, foramdormir, as quatro juntas, vovó, as crianças e Fran. A cama
  61. 61. 63Königking size estava ficando pequena, elas estavam muitograndes!Fran pensou que precisava arrumar mais tempo paraficar com elas. Seu eterno conflito. Sucesso como advogada,sentimento de fracasso como mãe, às vezes como mulher. Asprioridades dela estavam confusas. Amava a família acima detudo, mas era incapaz de rejeitar um bom caso… Amava suaprofissão, amava a profissional que se tornara. Entretanto,aqueles corpinhos quentes ao lado do dela esquentavam suaalma. Teria o filho de Ludovico dormido com seus pais destaforma alguma vez? Soube que tinha pai?Ela precisava continuar investigando. Amanhã, pensouFrancisca, amanhã.Quando seus olhos estavam finalmente cedendo aosono, seu celular tocou. Era Ricardo. Como foi bom ouvir avoz dele! Seu corpo relaxou na mesma hora.Ao mesmo tem-po, agitou seus instintos.– Que bom ouvir sua voz. Disse com carinho Ricardo.– Adivinha quem dorme comigo? Provocou Francisca.– As nossas florzinhas, é claro. Não são?– Claro que sim, seu bobo. Quem mais? E com vocêquem dorme? Provocou Fran.– Comigo? A saudade e o pânico. Você leu os jornaishoje? Fran a crise está ficando cada vez pior. Agora quasefaliu a maior seguradora do mundo. Dá para acreditar?– E o banco, como estão as coisas?– Você sabe o quanto conservadores sempre fomos…Com exceção dos últimos meses em que resolvemos acom-panhar o movimento mundial e passamos a ser menos rigoro-sos, menos, por incrível que pareça, no Brasil onde o contro-le do Banco Central é efetivo e o governo intervem na eco-nomia. O que os gurus entendiam como atraso, mostrou-secompetência. Fran, mandaram o Paulo embora ontem e hojefoi a vez do Telles. Estou me sentindo como um garoto, con-fesso que com medo, no meu departamento sobramos eu e aTânia. Por enquanto.
  62. 62. 64AnaRitaPetraroli– Ah, querido, não se preocupe, você é o melhor e naspiores épocas é dos melhores que se precisa. São os últimos aserem descartados. Queria tanto que você estivesse por perto.Posso passar por aí, o que você acha?– Acho que seria ótimo. Quando você volta? Questio-nou Ricardo com esperança.– Amanhã. As crianças estão de viagem marcada e vouaproveitar a carona do avião do Sérgio, assim de Paris voupara Amsterdã.– Perfeito. Te espero. Ele disse.– Te amo. Amanhã falamos.O sono que estava difícil ficou impossível. Pegou a cartae a tradução que havia levado consigo, desceu as escadas dacasa de sua mãe, que agora lhe pareciam tão pequenas, e sen-tou-se na sala de estar.Abriu o notebook e achou estranho que seu anti-vírusestava bloqueando um programa desconhecido. Colocou onome do programa na busca e descobriu tratar-se de umrastreador de IP.A insônia virou pesadelo. Como chegaram nela? Seriaapenas um hacker ou seriam as pessoas que mataram o religio-so de Oberamengau? Ela imediatamente jogou o notebookno chão e a caixa abriu-se, ela então agradecendo o curso, atéentão, inútil de montagem de micros, arrancou o modem. Foiaté a churrasqueira e o colocou no meio do carvão, jogouálcool em grande quantidade e colocou fogo, queimando to-das as peças.Quando sua mãe desceu, desperta pelo barulho no quin-tal, foi muito difícil explicar tudo aquilo, mas ela precisavaprotegê-los. Disse que eram documentos sigilosos e ela preci-sa dar um fim definitivo neles. Como boa mãe, Dona Terezafingiu que acreditava, fez um chá para filha, a quem desistirade dar conselhos há tempos, e voltou para cama.
  63. 63. 65KönigNa sala da Ordem o grito de Scheiße foi repetidovárias vezes pelo jovem ruivo que estava sen-tado junto ao computador. O homem alto ede bigode saiu de sua sala envidraçada para ver o que aconte-ceu e se deparou com a tela do operador que dava a mensa-gem de dois segundos para localização do IP e depois a telaparalisada.– Senhor era a última esperança. Não há registro desteIP em nossos sistemas de buscas, mas pelo prefixo é brasileiro.– Brasileiro? Como assim? Você quer me dizer que todaesta confusão está sendo causada por um cidadão brasileiro?– Cidadã, senhor, em minha opinião pelos últimos sitesde acesso do IP só pode ser uma mulher, veja o histórico.Dentro do histórico, de fato, cor-de-rosa, havia dois re-gistros que se repetiam com certa frequência: o do programade buscas e o do Banco APT. Sabemos três coisas disse o ho-mem alto: é uma mulher, muito curiosa e correntista do APT.– Temos acesso aos registros do banco?– Vou tentar. Sorriu diante do desafio o ruivo de olhosesbugalhados.– Acesse também o site deste escritório, Toledo, Barrose Minch, que se repete duas vezes, quem sabe aumentamosnossa chance.O homem ruivo digitava com tanta rapidez que o te-clado quase se desgrudava da mesa. Depois de algumas ho-ras, entrou na sala do homem alto com uma listagem nas mãos.– Senhor, já temos todos os correntistas, mas não con-seguimos as nacionalidades. O sistema separou os de nomeem português, mas não há nenhuma garantia de estar certo esão mais de cinco mil nomes... Mil mulheres. Está em ordemalfabética. Vou dormir um pouco, qualquer coisa me chame.– Vá, vá. E com os olhos fixos naqueles nomes o ho-mem ficou parado esperando que eles lhe dissessem algumacoisa.
  64. 64. 66AnaRitaPetraroliFrancisca horas depois ainda tremia. Ficou olhan-do as crianças dormindo e se questionando senão seria melhor queimar a carta também e es-quecer tudo aquilo. Quem conhecia Francisca sabia que estajamais seria sua escolha.As crianças acordaram e ficaram muito felizes que elaestava lá. Tomaram o café da manhã juntas, com direito apanquecas e milk-shake. Preparam as malas e contaram à mãeem êxtase que iriam passar o resto da semana na fazenda desua tia. Francisca fingiu-se surpresa:– Como assim? E eu?A mais velha, muito marota, logo respondeu:– Arrume as malas também e vá ficar com o papai.Era exatamente isso que faria. Beijou as crianças alémdo carinho, na beira do desespero. Como criminalista já haviaficado aterrorizada outras vezes, ameaçada outras tantas.Desta vez era pior. Não sabia de onde vinha o perigo e pior seera do governo, de uma instituição poderosa ou de algumaagremiação de loucos. A última hipótese lhe fez mais sentido,afinal já haviam morrido três pessoas.Dona Tereza, ainda jovem apesar de seus 75 anos, en-trou no quarto em que dormia a filha que arrumava suas coi-sas, depois da saída das crianças e lhe estendeu um par detênis e um abrigo.– Vamos caminhar.Francisca sabia que não adiantava relutar. Quando DonaTereza usava frases pequenas, as ordens eram inquestionáveis.Mãe e filha juntas formavam um belo exemplo de gera-ções. Muito parecidas e absolutamente diferentes. Eram mãee filha. Francisca, a mais nova de três irmãs, sempre se en-tendeu melhor com o pai, por pura falta de tempo da mãe queera professora, depois diretora de escola e muito preocupadajá com suas irmãs adolescentes. Francisca nasceu de repente,sem que ninguém planejasse.
  65. 65. 67KönigDona Tereza casara-se aos 17 anos e dois anos depoisjá era mãe de Lara e Maria Thereza. Treze anos depois, noauge da crise de seu casamento, veio Francisca. Daí a proxi-midade com o pai que mais velho – ele era 20 anos maisvelho que sua mãe – nesta fase trabalhava menos e dava maisvalor aos sentimentos. Viajava com ele. Era ele quem lhecontava as histórias antes de dormir. Seu confidente, sempreria de seus temores. Foi a ele quem contou que estava namo-rando, que seria advogada. Pena que tenha morrido antes deconhecer Ricardo. Iria gostar muito dele, o acharia sábio porfazer com suas filhas aos trinta, o que ele somente conseguiuaos 50. Seriam grandes amigos. Ficou com muitas saudadesdele.Lembrou-se de que pouco antes de morrer, quando des-cobriu o câncer, a chamou para jantar. Como isso não eraincomum ela não estranhou. Encerrou a defesa que estavapreparando, entrou em seu banheiro, arrumou os cabelos, osprendeu um pouco para trás formando um pequeno topete,reforçou o batom, na saída olhou para a foto da família, elasquatro e ele. Admirava o seu sorriso franco. Era um jogador.Aplicava na bolsa e deu seus melhores anos para crises segui-das, para a inflação, para o sobe e desce do mercado, até quede uma vez só, fez uma operação tão bem-sucedida que ele etodos os clientes deste fundo não precisaram nunca mais fa-zer nada.Francisca então olhando a foto teve muito orgulho deseu pai, ajeitou o taier e saiu.Chegando ao restaurante paulista preferido dele, oAntiquarius nos Jardins, estranhou que ele não estivesse sen-tado na mesa cativa, na qual sentaram juntos nos últimos 20anos, estava em outra mesa, no canto e com o copo de uísqueainda cheio. Ao olhar para ele, percebeu que estava envelhe-cido, embora fosse um quase setentão muito charmoso, achouque os anos estavam pesando para ele, seus olhos estavamcansados, com pequenas bolsas e olheiras. O canto de sua

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