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Comentário Bíblico Adventista - Evangelho de Lucas

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Comentário Bíblico Adventista - Evangelho de Lucas

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Comentário Bíblico Adventista - Evangelho de Lucas

  1. 1. O Evangelho Segundo LUCAS Introdução 1. Título - Os manuscritos mais antigos cie Lucas traziam o título: “Segundo Lucas”. Os manuscritos posteriores eram intitulados como “O evangelho segundo Lucas”, ou “O santo evangelho segundo Lucas”. 2. Autoria - O consenso antigo e unânime da tradição cristã aponta Lucas como autor do evangelho que leva seu nome. Em História Eclesiástica (iii.4.6) Eusébio (c. 260-c. 340 d.C.) designa especificamente Lucas como autor deste evangelho. Um século antes, lertuliano (c. 160-c. 220 d.C.) mencionou Paulo como o “iluminador” de Lucas, isto é, aquele que o encorajou e lhe forneceu grande parte da informação contida nos seus escri­ tos. Por volta de 185 d.C., Irincu escreveu: “Lucas, seguidor de Paulo, colocou num livro o evangelho que foi pregado por ele.” O famoso Fragmento Muratoriano, uma porção de um documento escrito no final do 2° século, concorda com Irineu, declarando que o ter­ ceiro evangelho foi escrito por Lucas, o médico, um companheiro de Paulo. A tradição mais antiga, desta forma, favorece unanimemente Lucas como autor do evangelho que leva seu nome. Não há evidência que aponte a qualquer outro autor, a não ser Lucas. Lucas e Atos podem ser considerados como os volumes 1 e 2 de uma obra que apro­ priadamente poderia ser intitulada “A origem e o desenvolvimento inicial do cristianismo”. A introdução ao livro de Atos (At 1:1) claramente aponta à autoria comum dos dois livros. O estilo literário e a expressão são claramente os mesmos em ambos os livros, que foram dedicados à mesma pessoa, Teófilo (ver com. de Lc 1:3). As seções no livro de Atos em que o autor usa o pronome pessoal “nós” indicam que ele foi companheiro íntimo de Paulo, principalmente durante seus últimos anos de ministério. Desde Trôade, parece que o autor esteve associado a Paulo durante os primeiros dias do evangelho na Grécia (At 16:10-18), na visita final à Palestina (At 20:5-21:18) e que o acompanhou na viagem a Roma (At 27:1—28:16). Em Colossenses 4:14 e Filemom 23 e 24, Lucas, como colabo­ rador de Paulo, envia saudações àqueles a quem essas epístolas são endereçadas. Quase no final de seu último aprisionamento em Roma, Paulo escreveu a Timóteo: “Somente Lucas está comigo” (2Tm 4:11). Os outros companheiros do apóstolo foram enviados em missões a outras igrejas ou o abandonaram. Em meio às angústias desses últimos dias, Paulo deve ter sentido uma profunda apreciação pelo terno e competente ministério de « um homem como o médico amado” (Cl 4:14). Este homem, evidentemente, foi o autor de Atos e do evangelho que leva seu nome. O contexto de Colossenses 4:11 a 14 parece indicar que Lucas não era judeu, mas gentio, porque ele não é alistado entre os homens da circuncisão, mas com outros que eram conhecidos como gentios. O livro de Lucas é geralmente conside­ rado um dos mais literários do N I e, em muitos aspectos, muito próximo do estilo 727 663
  2. 2. 664 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA dos grandes escritores gregos. Isto é especialmente verdade a respeito da introdu­ ção a Lucas (Lc 1:1-4). „ Eusébio (ibid.) descreve Lucas como “antioquiano por raça e médico por prohssao . Ele era, possivelmente, nativo de Antioquia, e alguns creem que escreveu dali. Outros têm sugerido Roma como o local da escrita. Lucas e Paulo são os dois contribuintes mais prolíficos do NT. O local e a maneira da morte de Lucas são desconhecidos, embora a tradição declare que Lucas foi martirizado na Grécia, explicando que ele foi cravado numa-oliveira. _ . , Estudiosos conservadores geralmente datam o evangelho de Lucas não muito depois de 63 d.C., pelas seguintes razões: O livro, aparentemente, foi escrito antes de Atos (ver At 1:1). O final abrupto de Atos geralmente é considerado como evidência que este livro foi escrito durante a época do primeiro aprisionamento de Paulo em Roma, em aproximadamente 61-63 d.C., possivelmente logo depois de sua chegada naquela cidade. A explicação mais simples para o final abrupto é que Lucas não escreveu mais porque, na época, não havia mais nada a dizer. É improvável que o julgamento, libertação, nova detenção, condenação e execução de Paulo teriam sido omitidos do registro de Atos se esses eventos já tivessem ocorrido na época da composição do livro. Não há evidência de que esses eventos fizeram parte do texto original de Atos ou que foram perdidos do texto original algum tempo depois. Em vista des­ ses fatos é seguro afirmar que Atos foi escrito por volta de 63 d.C., e o evangelho de Lucas, ainda mais cedo (ver At 1:1), não se pode dizer quantos anos antes (sobre a cronologia dos escritos dos evangelhos, ver p. 165-167; sobre as várias teorias a respeito da origem dos evan­ gelhos, ver p. 163-165). 3. Contexto histórico — Sobre um breve esboço do contexto histórico da vida e mis­ são de Jesus, ver p. 273; para uma discussão mais abrangente, ver p. 27-55. 4. Tema - Mateus apresenta Jesus como o grande Mestre, o intérprete da verdade divina. Marcos O apresenta como o Homem de ação e enfatiza Seus milagres como mani­ festação do poder divino atestando Sua Messianidade. Lucas mostra Jesus em íntimo contato com as necessidades das pessoas, enfatizando o aspecto humano de Sua natu­ reza, e O apresenta como o amigo da humanidade. João apresenta Jesus como o divino Filho de Deus. Acredita-se que Mateus tenha sido escrito essencialmente para leitores judeus, e Marcos, para os de origem latina. Pensa-se que Lucas foi escrito especialmente para leitores gre­ gos. Sua expressão sugere que ele se dirigiu às pessoas educadas e cultas de seus dias. Evidentemente, ele era um homem inteligente e culto, familiarizado com o estilo literário de sua época. Isso é evidente em seus prefácios em Lucas e Atos, suas datações de eventos em termos do mandato de vários funcionários governamentais, bem como o uso de referên­ cias e de fontes de informação em que ele confiava. ► Como Mateus traça a genealogia de Jesus até o fundador da nação judaica, Lucas traça a descendência de Jesus até Adão, o pai de toda a humanidade. Mais que qualquer outro evangelista, Lucas toma nota dos incidentes que revelam o interesse de Jesus no ministé­ rio pelos gentios. Mais que qualquer outro escritor evangélico, ele se refere aos centuriões romanos, sempre sob uma luz favorável. A visão de mundo de Lucas também é clara em seu registro dos apelos de Paulo aos gentios (ver At 14:15-17; 17:22-31). Em Lucas, dificil­ mente há um traço de exclusividade judaica, que pode ser detectada ocasional mente em Mateus e Marcos. 728
  3. 3. 665 LUCAS 1:1 Uma evidência adicional de que Lucas foi o escritor do evangelho que leva seu nome pode ser encontrada nos termos médicos utilizados com frequência no livro (Lc 4:38; 5:12; 8:43; etc.). Esses termos indicam que o autor tinha conhecimento médico (ver Cl 4:14). 5. Esboço. Em vista do fato de que um esboço cronológico e completo do evangelho de Lucas está disponível nas p. 184-195, o esboço apresentado aqui cobre apenas as maiores fases da vida e do ministério de Jesus. I. Jesus enquanto bebê; a infância e juventude, 1:1-2:52. II. Preparação para o ministério, outono, 27 d.C., 3:1-4:13. III. Ministério na Galileia, Páscoa a Páscoa, 29-30 d.C., 4:14-9:17. A. Início do ministério na Galileia, 4:14-41. B. Primeira viagem missionária pela Galileia, 4:12-5:16. C. Ministério em Cafarnaum, 5:17-6:16. D. O sermão do monte, 6:17-49. E. Segunda viagem missionária pela Galileia, 7:1-8:56. F.Terceira viagem missionária pela Galileia, 9:1-17. IV. Recuo do ministério público, primavera a outono, 30 d.C., 9:18-50. V. Ministério na Pereia, outono a primavera, 30-31 d.C., 9:51-19:27. A. Ministério em Samaria e na Pereia, 9:51-10:24. B. Ensinando por parábolas, 10:25—18:14. C. A última jornada a Jerusalém, 18:15-19:27. VI. Encerramento do ministério em Jerusalém, Páscoa, 31 d.C., 19:28-23:56. A. Conflito com os escribas e fariseus, 19:28-21:4. B. O discurso no monte das Oliveiras, 21:5-38. C. Prisão e julgamento de Jesus, 22:1-23:25. D. Crucifixão e sepultamento de Jesus, 23:26-56. VII. Ressurreição e aparições subsequentes, 24:1-53. Capítulo 1 1 O prefácio de Lucas a seu evangelho como um todo. 5 As concepções de João Batista e 26 de Cristo. 39 As profecias de Isabel e Maria a respeito de Cristo. 57 O nascimento e a circuncisão de João. 67 A profecia de Zacarias a respeito de Cristo e 76 de João. 1Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, 2 conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ► ministros da palavra, 3 igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma ex­ posição em ordem, 4 para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído. 5 Nos dias de Herodes, rei da Judeia, houve um sacerdote chamado Zacarias, do turno de Abias. Sua mulher era das filhas de Arão e se chamava Isabel. 729
  4. 4. 1:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA 6Ambos eram justos diante de Deus, viven­ do irrepreensivelmente em todos os preceitos e mandamentos do Senhor. 7 E não tinham filhos, porque Isabel era es­ téril, sendo eles avançados em dias. 8 Ora, aconteceu que, exercendo ele diante de Deus o sacerdócio na ordem do seu turno, coube-lhe por sorte, 9 segundo o costume sacerdotal, entrar no santuário do Senhor para queimar o incenso; 10e, durante esse tempo, toda a multidão do povo permanecia da parte de fora, orando. 11 E eis que lhe apareceu um anjo do Senhor, cm pé, à direita do altar do incenso. 12 Vendo-o, Zacarias turbou-se, e apoderou- se dele o temor. 13Disse-lhe, porém, o anjo: Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida; c Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho, a quem darás o nome de João. 14Em ti haverá prazer e alegria, e muitos se regozijarão com o seu nascimento. 15Pois ele será grande diante do Senhor, não beberá vinho nem bebida forte e será cheio do Espírito Santo, já do ventre materno. 16E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. 17 E irá adiante do Senhor no espírito e poder de Elias, para converter o coração dos pais aos filhos, converter os desobedientes à prudência dos justos e habilitar para o Senhor um povo preparado. 18 Então, perguntou Zacarias ao anjo: Como saberei isto? Pois cu sou velho, e minha mulher, avançada em dias. 19 Respondeu-lhe o anjo: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado para falar-te e trazer-te estas boas-novas. 20Todavia, ficarás mudo e não poderás falar até ao dia em que estas coisas venbam a realizar- se; porquanto não acreditaste nas minhas pala­ vras, as quais, a seu tempo, se cumprirão. 21 O povo estava esperando a Zacarias c admirava-se de que tanto se demorasse no santuário. 22 Mas, saindo ele, não lhes podia falar; então, entenderam que tivera uma visão no san­ tuário. E expressava-se por acenos e permane­ cia mudo. 23 Sucedeu que, terminados os dias de seu ministério, voltou para casa. 24 Passados esses dias, Isabel, sua mu­ lher, concebeu e ocultou-se por cinco meses, dizendo: 25 Assim me fez o Senhor, contemplando- me, para anular o meu opróbrio perante os homens. 26No sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado, da parte de Deus, para uma cidade da Galilcia, chamada Nazaré, 27a uma virgem desposada com certo homem da casa de Davi, cujo nome era José; a virgem chamava-se Maria. 28 E, entrando o anjo aonde ela estava, disse: Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo. 29 Ela, porém, ao ouvir esta palavra, per- turbou-se muito e pôs-se a pensar no que sig­ nificaria esta saudação. 30 Mas o anjo lhe disse: Maria, não temas; porque achaste graça diante de Deus. 31 Eis que conceberás c darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus. 32 Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, Lhe dará o trono de Davi, seu pai; 33 Ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o Seu reinado não terá fim. 34 Então, disse Maria ao anjo: Como será isto, pois não tenho relação com homem algum? 35 Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti o Espírito Santo, c o poder do Altíssimo te en­ volverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus. 36 E Isabel, tua parenta, igualmente con­ cebeu um filho na sua velhice, sendo este já o sexto mês para aquela que diziam ser estéril. « 37 Porque para Deus não haverá impossí­ veis em todas as Suas promessas. 730 666
  5. 5. LUCAS 1:1 38 Então, disse Maria: Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra. E o anjo se ausentou dela. 39 Naqueles dias, dispondo-se Maria, foi apressadamente à região montanhosa, a uma cidade de Judá, 40 entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. 41 Ouvindo esta a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre; então, Isabel ficou possuída do Espírito Santo. 42 E exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre! 43 E de onde me provém que me venha vi­ sitar a mãe do meu Senhor? 44 Pois, logo que me chegou aos ouvidos a voz da tua saudação, a criança estremeceu de alegria dentro de mim. 45 Bem-aventurada a que creu, porque serão cumpridas as palavras que lhe foram ditas da parte do Senhor. 46 Então, disse Maria: A minha alma en­ grandece ao Senhor, 47 e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador, 48 porque contemplou na humildade da Sua serva. Pois, desde agora, todas as gerações me considerarão bem-aventurada, 49 porque o Poderoso me fez grandes coi­ sas. Santo é o Seu nome. 50 A Sua misericórdia vai de geração cm ge­ ração sobre os que O temem. 51 Agiu com o Seu braço valorosamente; dispersou os que, no coração, alimentavam pen­ samentos soberbos. 52 Derribou do seu trono os poderosos e exaltou os humildes. 53 Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos. 54 Amparou a Israel, Seu servo, a fim de lembrar-Se da Sua misericórdia 55 a favor dc Abraão e de sua descendên­ cia, para sempre, como prometera aos nos­ sos pais. 56 Maria permaneceu cerca de três meses com Isabel e voltou para casa. 57 A Isabel cumpriu-se o tempo de dar à luz, e teve um filho. 58Ouviram os seus vizinhos e parentes que o Senhor usara de grande misericórdia para com ela e participaram do seu regozijo. 59 Sucedeu que, no oitavo dia, foram cir­ cuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome dc seu pai, Zacarias. 60 De modo nenhum! Respondeu sua mãe. Pelo contrário, ele deve ser chamado João. 61Disseram-lhe: Ninguém há na tua paren­ tela que tenha este nome. 62 E perguntaram, por acenos, ao pai do menino que nome queria que lhe dessem. 63 Então, pedindo ele uma tabuinha, escre­ veu: João é o seu nome. E todos se admiraram. 64 Imediatamente, a boca se lhe abriu, e, desimpedida a língua, falava louvando a Deus. 65 Sucedeu que todos os seus vizinhos fi­ caram possuídos de temor, e por toda a região montanhosa da Judeia foram divulgadas estas coisas. 66Todos os que as ouviram guardavam-nas no coração, dizendo: Que virá a ser, pois, este menino? E a mão do Senhor estava com ele. 67 Zacarias, seu pai, cheio do Espírito Santo, profetizou, dizendo: 68 Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e redimiu o Seu povo, 69e nos suscitou plena e poderosa salvação na casa de Davi, Seu servo, 70 como prometera, desde a antiguidade, por boca dos Seus santos profetas, 71 para nos libertar dos nossos inimigos e das mãos de todos os que nos odeiam; 72 para usar de misericórdia com os nossos pais e lembrar-Se da Sua santa aliança 73e do juramento que fez a Abraão, o nosso pai, 74de conceder-nos que, livres das mãos de inimigos, O adorássemos sem temor, 75em santidade e justiça perante Ele, todos os nossos dias. 731
  6. 6. 1 : 1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA 76 Tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor, prepa- rando-Lhe os caminhos, 77 para dar ao Seu povo conhecimento da salvação, no redimi-lo dos seus pecados, 78 graças à entranhável misericórdia de nosso Deus, pela qual nos visitará o sol nascente das alturas, 79 para alumiar os que jazem nas trevas e ^ na sombra da morte, e dirigir os nossos pés pelo caminho da paz. 80 O menino crescia e se fortalecia em es­ pírito. E viveu nos desertos até ao dia em que havia de manifestar-se a Israel. 1. Visto que. [Prefácio, Lc 1:1-4] Os v. 1 a 4, que constituem o prefácio de Lucas a seu evangelho, estão num esplêndido koinê literário, isto é, a “[linguagem] comum” da fala grega no mundo romano. Esta introdu­ ção está de acordo com os melhores mode­ los da literatura grega. Ela é polida, graciosa e modesta (sobre uma transição de estilo, ver com. do v. 5). A semelhança desta introdução com a do livro de Atos (At 1:1, 2), unida ao fato de que Atos retoma a narrativa no ponto em que o evangelho dc Lucas a deixou (ver Lc 24:50-53), sugere que Lucas pretendia que os dois livros formassem uma história da igreja cristã pri­ mitiva em dois volumes. Muitos. Não há como dizer se Lucas inclui Mateus e Marcos em sua referência a “muitos”, embora por várias razões pensa-se que pelo menos Marcos e, possivelmente, Mateus, já tivessem sido escritos (ver p. 165- 167). “Muitos” indica mais de dois e é prová­ vel que o termo, neste verso, inclua algumas outras histórias escritas além dos evangelhos. Lucas não poderia ter em mente os evange­ lhos apócrifos que existem hoje, porque eles não foram escritos senão muitos anos depois. Parece que pelo menos alguns dos escrito­ res anteriores foram “testemunhas oculares” das coisas que eles registraram e podem, por­ tanto, ter pertencido aos doze ou aos setenta (ver com. do v. 2). Empreenderam. Do gr. epicheireõ, lite­ ralmente, “colocar as mãos para”; por isso, “realizar” ou “tentar”. Alguns comentaristas entendem que a declaração de Lucas indica que os escritores a quem ele está se referindo prosseguiram por si mesmos, sem a orienta­ ção do Espírito Santo. No entanto, é claro, a partir do uso de epicheireõ no papiro, que tal conclusão é injustificável e que Lucas não tece comentários a nenhum dos auto­ res anteriores. Eles tinham boas intenções, e os relatos deles não foram rejeitados como fonte material histórica, embora as pessoas não fossem necessariamente divinamente inspiradas, como aconteceu com Lucas. Ele considera esses escritores numa perspectiva favorável e, de fato, se inclui entre eles, com a expressão “igualmente a mim” (v. 3). Narração. Do gr. diêgêsis, uma “narra­ tiva”. Ela é composta por duas palavras gre­ gas que significam, literalmente, “liderar o caminho através”. Coordenada. Do gr. anatassomai, "com­ pilar”, “arranjar”, “compor”. A ideia de ordem cronológica ou combinação não é neces­ sariamente indicada (comparar com o gr. •pathexês; ver com. do v. 3). Esses termos podem sugerir que os relatos dos escritores evangélicos anteriores estavam incompletos, mas de modo algum indica que eles eram imprecisos. 2. Transmitiram. Do gr. paradidõmi, “entregar”, “transmitir” ou “enviar”. Isto é, as “testemunhas oculares e ministros”. O pro­ nome implícito no verbo (eles) também pode se referir aos “muitos” do v. 1. Neste versí­ culo, refere-se simplesmente à transmissão de informação de uma geração ou grupo de pessoas para outro(a) (ver lCo 11:23; 15:3; 2Tm 2:2). Aqueles que “receberam” a verdade 732 667
  7. 7. LUCAS 1:3 deveriam “transmiti-la” a outros. Paulo e Lucas eram, por assim dizer, a segunda gera­ ção de cristãos, e “receberam” o que eles pas­ saram a outros. Os que. Em outras palavras, aqueles que “transmitiram” as narrativas eram as “tes­ temunhas oculares”, e não aqueles que as receberam. Desde o princípio. Isto é, do início do ministério público de Jesus, embora algumas das “testemunhas oculares” também podem ter conseguido relatar circunstâncias ligadas à infância de João Batista e de Jesus. Testemunhas oculares. Do gr. autop- tai, “aqueles que veem com seus próprios olhos”. João se referiu a si mesmo como uma testemunha ocular (Jo 1:14; 21:24; ljo 1:1,2). lodos os doze, os setenta discípulos e as mulheres que acompanharam e ministraram a Jesus e Seus discípulos foram testemunhas oculares, mais ou menos, “desde o início”. Em contraste, Lucas, Paulo e Timóteo podiam ser chamados “testemunhas audi­ tivas”, porque o conhecimento deles acerca da vida e do ministério de Jesus era derivado de outros. Essa aparente desvantagem, no entanto, de forma alguma diminui o valor do testemunho deles, porque receberam a infor­ mação por meio de testemunhas oculares e por meio de revelação divina (ICo 15:3-7; G1 1:11, 12). A modéstia manifestada neste versículo por Lucas é um excelente testemunho em favor da confiabilidade e validade do evan­ gelho que leva seu nome. Ele foi cuidadoso ao afirmar a verdade exata e não estabeleceu nenhuma pretensão de ser uma “testemunha ocular”, como seria de se esperar de um falsá­ rio. O próprio Lucas declara que sua própria compreensão dos fatos a respeito da vida e do ministério de Cristo se originou dos rela­ tos das testemunhas oculares. Assim, parece que o papel do Espírito Santo, no caso de Lucas, não era tanto transmitir a informa­ ção original como garantir a exatidão do que ele registrou do testemunho de outros. Lucas foi um historiador que partiu em busca das fontes originais, mas ele foi muito mais que isso, pois atuou como um historiador inspi­ rado por Deus (2Tm 3:16; 2Pe 1:21). Fica claro, a partir da experiência de Lucas, que o processo de inspiração fun­ ciona de um modo consistente com a ope­ ração natural das faculdades mentais e não à parte delas [para uma análise mais apro­ fundada, ver vol. 9, p. 26-66]. Trata-se de um escritor inspirado que foi dirigido pelo Espírito Santo para empreender um estudo diligente das fontes materiais escritas e orais disponíveis sobre a vida de Cristo e, então, combiná-las numa narrativa conectada à informação assim reunida (para considera­ ção adicional sobre como o Espírito Santo guia o instrumento humano na utilização dos documentos históricos existentes, ver Francis D. Nichol, Ellen G. White and Her Critics, p. 413-422). 3. A mim me pareceu bem. Pareceu apropriado a Lucas compor um relato autên­ tico, acurado e completo da vida de Cristo, talvez tendo em mente registrar alguns even­ tos que pudessem ter sido omitidos em regis­ tros anteriores, escritos por “muitos” (ver com. do v. 1). Essas palavras revelam o modo em que pelo menos alguns dos escritores bíbli­ cos foram dirigidos por Deus para preparar o registro inspirado. A impressão transmi­ tida à mente de Lucas pelo Espírito Santo fez que lhe parecesse apropriado e desejável uma determinada maneira de atuar. No registro do concílio de Jerusalém, em que foi conside­ rada a admissão dos gentios na igreja cristã, Lucas cita os apóstolos, dizendo que estes haviam escrito aos crentes de Antioquia o que lhes parecia hem (ver At 15:25). Os irmãos se aconselharam mutuamente, mas suas delibe­ rações foram guiadas pelo Espírito Santo, e eles explicaram confiantemente que “pare­ ceu bom ao Espírito Santo e a nós" (v. 28). Assim ocorreu com Lucas: o Espírito Santo 733
  8. 8. 1:4 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA o impeliu a escrever. No entanto, quando ele escreveu, foi de vontade própria, guiado por Deus (sobre o modo pelo qual o Espírito Santo guiou os vários escritores bíblicos, ver Ellen G. White, Material Suplementar sobre 2Pe 1:21). Depois de acurada investigação. Literalmente, “tendo buscado acurada­ mente”. A segunda razão de Lucas para escrever foi o desejo de transmitir a outros os benefícios que obteve por meio do estudo da vida e dos ensinos de Jesus. Aparentemente, Lucas começou pelo início e investigou tudo. Ele mostra sua narrativa evangélica como uma apresentação sistemática e acurada da história de Jesus. Essas são características da verdadeira erudição. Enquanto Mateus enfatiza os ensinos de Jesus, e Marcos, os incidentes de Sua vida ministerial, Lucas combina os dois elementos de modo mais completo e sistemático que o dos outros evangelistas. A declaração de Lucas a res­ peito de sua “acurada investigação” não é vã presunção; 43 das 179 seções da narrativa sinótica ocorrem apenas em seu evangelho (verp. 178-180). Desde sua origem. Isto é, da vida de Jesus. Como um explorador, Lucas traçou o fluxo dos eventos desde o início e seguiu o fluxo bem de perto por todo o seu curso. Consequentemente, ele apresenta as cir­ cunstâncias que cercaram o nascimento e a infância de Jesus com mais detalhes que os outros evangelistas. Apenas Lucas registra cinco dos seis eventos antes do nascimento de Jesus (ver p. 184-186). Excelentíssimo. Pronome de trata­ mento usado com frequência com relação a oficiais do alto governo, comparável ao atual “sua excelência”. O mesmo termo é usado para se referir aos procuradores romanos da Judeia (At 23:26; 24:3; 26:25). É notável encontrar um homem, aparentemente um alto funcionário, aceitando o cristianismo nesse período inicial. Teófilo. Literalmente, “amigo de Deus”. Há pouca evidência para apoiar a explicação popular de que o nome Teófilo não repre­ sentava uma pessoa, mas um nome geral usado por Lucas para os cristãos. Além disso, o título “excelentíssimo” parece indicar uma pessoa real. Teófilo foi, possivelmente, um converso gentio, como indica seu nome grego. Em ordem. Do gr. kathexês, “um após outro” ou “consecutivamente” (ver com. do < v. 1). O evangelho de Mateus consiste, em grande parte, dos discursos de Jesus arran­ jados em tópicos, enquanto Marcos lida com os eventos da vida de Jesus, agrupando-os de acordo com o tipo. O arranjo geral de Mateus e Marcos é cronológico, mas a sequência cronológica não é o principal objetivo deles. Eles rearranjaram a ordem de vários inciden­ tes cm harmonia com o propósito de cada evangelho. Lucas, por outro lado, segue uma ordem cronológica bastante rigorosa. Mateus c Marcos não atentaram a esse critério (ver p. 178-180). 4. Conheças (ARC). Do gr. epiginõskõ, “conhecer completamente”. Isto é, Teófilo conheceria mais do que já sabia sobre as “verdades” nas quais ele havia sido “ins­ truído”. Certeza. Do gr. asphaleia, que não falhará, de duas palavras s-phallõ, “camba­ lear”, “cair”, e o prefixo a, “não”. Há “certeza” quanto aos fatos da fé cristã e aquele que crê neles estará firme e seguro contra o erro. Foste instruído. Do gr. katêcheõ, “ins­ truir” ou “ensinar oralmente”; literalmente, “parecer sobre”. Katêcheõ é a origem da palavra portu­ guesa “catequese”. E traduzida como “infor­ mado” (At 21:21) e “instruído” (At 18:25; Cl 6:6). Esta palavra pode indicar que Teófilo tinha, até aquele momento, recebido ape­ nas instrução oral, como a que precedia o batismo. E possível que ele fosse um dos con­ versos de Lucas, alguém a quem Lucas “cate­ quizou”. Ou pode ser que Lucas escreveu 734 699
  9. 9. LUCAS 1:5 para refutar informações falsas contra o cristianismo. 5. Nos dias. [Zacarias e Isabel, Lc 1:5-7. Ver mapa, p. 211; gráfico, p. 224]. A data­ ção pelos anos de reinado era muito comum na literatura grega. Ao iniciar sua narrativa, Lucas deixa o estilo literário koinê dos v. 1 a 4, com sua linguagem elegante, e se volta para um estilo hebraico na forma, que faz lembrar narrativas do AT, como a do nas­ cimento de Samuel. Na verdade, Lucas 1:5 a 2:52 talvez sejam os mais “hebraicos” de todos os escritos de Lucas. Revelam as mar­ cas características de Lucas como autor. Diferentemente de outros evangelistas, Lucas relata detalhes de natureza íntima. Ele informa, por exemplo, que Maria “guar­ dava todas estas palavras, meditando-as no coração” (Lc 2:19). Em vista disso e pelo fato de que outros escritores dos evangelhos tive­ ram pouco a dizer sobre esses aspectos, é possível que a informação registrada neste versículo possa não ter sido de conhecimento geral entre os cristãos dos primeiros anos da igreja apostólica. Visto que Lucas se refere a muitas fon­ tes de informação orais e escritas (ver com. dos v. 1-3), alguns sugerem que ele pode ter sido informado sobre os eventos da inlân- cia de Jesus pela própria Maria. Parece que a narrativa é apresentada do ponto de vista dc Maria, assim como Mateus apresenta a narrativa do nascimento de Jesus do ponto de vista de José (Mt 1). A seção do nascimento (Lc 1:5—2:52) consiste de sete partes: (1) O anúncio do nascimento de João Batista (Lc 1:5-25); (2) o anúncio do nascimento de Jesus (v. 26- 38); (3) a visita de Maria a Isabel (v. 39-56); (4) o nascimento dc João Batista (v. 57-80); (5) o nascimento de Jesus (Lc 2:1-20); (6) a circuncisão e a apresentação de Jesus (v. 20- 38); e (7) a infância de Jesus (v. 39-52). Herodes. Ver p. 26-30; gráficos, p. 28, 231. O reinado de Herodes foi de crueldade e opressão para o povo judeu, apesar de o rei ter publicamente aderido à religião judaica. « Seu caráter dissoluto, mais ou menos típico na época em que ele viveu, é descrito em forte contraste com o caráter de Zacarias. Judeia. Escrevendo primeiramente aos leitores não palestinos, Lucas parece utili­ zar o nome “Judeia” como um termo geral para toda a Palestina (Lc 6:17; 7:17; At 10:37). Zacarias. Do heb. Zekaryah, “Yahweh lembra” ou “Yahweh tem lembrado”. Este nome foi utilizado pelo filho de Joiada (2Cr 24:20), pelo profeta Zacarias e por mui­ tos outros. Do turno de Abias. Davi dividiu o ser­ viço sacerdotal cm 24 turnos (lCr 24:1-18; 2Cr 8:14), dos quais o turno de Abias (ou Abia) era o oitavo (lCr 24:10). Dezesseis turnos eram cobertos pelos descenden­ tes de Eleazar e oito eram dirigidos pelos descendentes de Itamar, ambos filhos de Arão. Apenas quatro turnos foram repre­ sentados pelos sacerdotes que retornaram de Babilônia depois do cativeiro, e Abias não estava entre esses (ver com. de Ed 2:36). Mas os que retornaram foram divididos em 21 ou 22 turnos (expandidos para 24 no tempo do NT), e foram-lhes atribuídos os nomes dos turnos originais (ver com. de Ne 12:1). Segundo Josefo, esperava-se que cada turno de sacerdotes servisse por uma semana, de sábado a sábado (Antiguidades, vii.14.7 [365, 366]), semestralmente. Na Festa dos Tabernáculos, esperava-se que os sacerdotes de todos os 24 turnos estivessem presentes. As tentativas para se determinar a época do ano em que ocorreu o turno de ser­ viço de Abias, baseadas no turno de serviço na época em que os romanos destruíram o templo, em 70 d.C., são aparentemente de pouco ou nenhum valor, no que diz respeito à datação da narrativa de Lucas. Isabel. Do heb. ‘Elisheba’, significando “meu Deus jurou” ou “meu Deus é abundân­ cia”, o nome da esposa de Arão (Ex 6:23). 735 670
  10. 10. 1:6 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTÍSTA 6. Justos. Aparentemente, Zacarias e Isabel pertenciam ao pequeno grupo que avidamente estudava as profecias e aguar­ dava a vinda do Messias (DTN, 44, 47, 98). Entre os judeus, o termo “justo” chegou a ter um sentido técnico, referindo-se àqueles que observavam estritamente a lei ritual e as tradições rabínicas. E evidente, no entanto, que, em relação a Zacarias e Isabel, a justiça era muito mais que conformidade externa à lei. Eles não eram meros legalistas, mas conscientes e exemplares em seu firme pro­ pósito de adorar a Deus “em espírito e em verdade” (Jo 4:24). Outros membros deste pequeno e seleto círculo que aguardava a vinda do Messias eram José e Maria (ver com. de Mt 1:16-19), bem como Simeão e Ana (ver com. de Lc 2:25, 26, 38). Diante de Deus. Antes de sua conver­ são, Paulo considerava ter a “justiça que há na lei” (Fp 3:6; ver At 23:1). Mas a conversão trouxe a ele a percepção de que tal “justiça” não tinha valor (ver Rm 2:24, 25; lTm 1:15). No caso de Zacarias e Isabel, no entanto, a “justiça” deles excedia a dos escribas e fari­ seus (Mt 5:20), que faziam suas boas obras para serem vistos (Mt 6:1, 5). Zacarias e Isabel eram justos “diante de Deus”. Eram nobres sucessores a heróis da fé como Noé (Gn 6:9; 7:1; Hb 11:7), Abraão (Hb 11:8), Jó (Jó 1:8; 2:3) e Daniel (Dn 5:11, 12; 10:11), aprovados pela justiça do Céu (ver Ez 14:14). Preceitos e mandamentos. Nos dias de Zacarias e Isabel isto significava viver em harmonia com a lei moral e a lei de Moisés. Uma vez que todos os homens “pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3:23; ver também ljo 3:4), todos têm necessidade de que alguém os liberte da morte, que é a pena­ lidade da desobediência (Rm 6:23; 7:24). O Libertador é ninguém mais que Cristo Jesus (Lc 7:25-8:4). Mas até que o Salvador viesse ao mundo, Deus ordenou um sistema de sacrifícios (Hb 9:1), que Ele impôs “até ao tempo oportuno de reforma”, isto é, até que Cristo iniciasse Seu ministério sacerdotal (Hb 9:10, 11). Em outras palavras, Zacarias e Isabel se propuseram a obedecer a Deus, buscando a salvação através dos meios pre­ vistos e, como resultado, foram considerados como “justos diante de Deus”. 7. Não tinham filhos. Entre os povos orientais a falta de filhos sempre era vista como uma grande aflição. Geralmente, os judeus consideravam a falta de filhos como punição divina para o pecado (ver com. de Lv 20:20). Entre os judeus, bem como entre os povos orientais de hoje, a falta de filhos é considerada motivo suficiente para a poliga­ mia e o concubinato, e é aceita como razão jurídica suficiente para o divórcio. Com frequência homens escolhidos antes do nascimento para realizar uma grande tarefa para Deus nasceram a despeito da idade ou esterilidade por parte de seus pais (ver Gn 11:30; 17:17; 18:11; 25:21; 30:22-24; ISm 1:2, 8, 11). Para o ser humano, muitas coisas são impossíveis, mas “para Deus não haverá impossíveis” (Lc 1:37). Muitas vezes, Deus leva as pessoas a se darem conta de sua própria fraqueza para que elas valorizem Seu poder quando a libertação ocorre. No caso de Isabel, houve uma razão dupla para não esperar filhos, porque além da esterilidade, ela tinha idade avançada. Avançados em dias. A expressão vem de um idiomatismo hebraico característico (ver Gn 24:1; Js 13:1), que quer dizer apenas “avançado em idade”. 8. Aconteceu que. [Predições refe­ rentes a João Batista, Lc 1:8-23. Ver mapa, p. 211; gráfico, p. 224]. Do gr. egeneto, de ginomai, “tornar” ou “estar”. A expressão, quando ocorre no início de uma seção narra­ tiva como neste verso, é o equivalente grego da fórmula heb. wayehi, “aconteceu que”, muito comum no AT. A expressão é consis­ tentemente omitida em algumas traduções modernas, visto que o sentido é claro e com­ pleto sem ela. 736 671
  11. 11. LUCAS 1:10 Seu turno. Ver com. do v. 5. Coube-lhe por sorte. Do gr. lagchanõ, “conseguir por sorte”. Devido ao grande número de sacerdotes, nem todos podiam oficiar em qualquer serviço. Por esse motivo, as sortes eram lançadas para se determinar quem participaria a cada manhã e tarde. Segundo a tradição judaica, os sacerdotes ficavam num semicírculo e cada um levan­ tava um ou mais dedos para serem contados. Dizendo algum número, tal como 70, o “pre­ sidente” começava contando e continuava até que o número selecionado indicasse quem foi escolhido. A primeira sorte determinava quem purificaria o altar de ofertas queima­ das e prepararia o sacrifício; e a segunda, quem deveria oferecer o sacrifício e purifi­ car o candelabro e o altar de incenso. A ter­ ceira sorte, que determinava quem ofereceria o incenso, era a mais importante. A quarta sorte determinava quem queimaria as par­ tes do sacrifício no altar e realizaria a parte final do serviço. Lançar sortes de manhã se aplicava também ao serviço da noite, exceto que a sorte fosse lançada mais uma vez para a queima de incenso. 9. Para queimar o incenso. A queima do incenso era considerada a parte mais importante e sagrada dos serviços diários matutinos e vespertinos. Esses momentos de adoração, nos quais um cordeiro era ofe­ recido (Ex 29:38-42) para a oferta queimada, eram conhecidos como “oferta queimada” ou “sacrifício” da manhã e da tarde (2Cr 31:3; Ed 9:4, 5) ou como a “hora do incenso’’ (Lc 1:10, ARC; ver Ex 30:7, 8). Eram momentos de oração para todos os israelitas, quer para os que estavam presentes no serviço, quer para os que estavam em casa ou em terras estrangeiras. Como o incenso subia do altar de ouro, as orações de Israel subiam com ele até Deus (Ap 8:3, 4; ver com. de SI 141:2) por eles mesmos e por sua nação, em con­ sagração diária (PP, 352, 353). Nesse ser­ viço o sacerdote oficiante orava pelo perdão dos pecados de Israel e pela vinda do Messias (DTN, 99). O privilégio de oficiar no altar de ouro em favor de Israel era considerado uma grande honra, e Zacarias era digno dela em todos os aspectos. Esse privilégio normalmente era dado a cada sacerdote apenas uma vez na vida, e era um grande momento. Geralmente, nenhum sacerdote poderia oficiar no altar mais que uma vez, e é possível que alguns deles nunca teriam essa oportunidade. O sacerdote escolhido por sorte para oferecer o incenso selecionava dois compa­ nheiros sacerdotes para auxiliá-lo: um para remover as brasas antigas do altar, e o outro, para colocar novas brasas, tiradas do altar de ofertas queimadas. Esses dois sacerdo­ tes saíam do lugar santo depois que termi­ navam suas tarefas, e o sacerdote escolhido por sorte arranjava o incenso sobre as bra­ sas enquanto intercedia por Israel. Ao subir a nuvem de incenso, ela enchia o lugar santo e passava por cima do véu para o lugar santís­ simo. O altar de incenso ficava diante do véu, « e, embora situado no lugar santo, parece ter sido considerado como pertencendo ao lugar santíssimo (ver com. de Hh 9:4). O altar de ouro era “um altar de intercessão perpétua” (PP, 353), porque dia e noite o santo incenso difundia sua fragrância por todos os sagra­ dos arredores do templo (PP, 348). 10. Multidão. Do gr. plêthos, uma pala­ vra favorita de Lucas, que a utilizou 25 vezes, em comparação com as sete vezes que os demais escritores do NT a utilizaram jun­ tos. Alguns comentaristas sugeriram que Zacarias estava oficiando no culto matutino; outros creem que oficiava no culto vesper­ tino. No tempo de Cristo, o sacrifício matu­ tino era oferecido aproximadamente às nove horas e o vespertino, às 15 horas. Nos dois períodos, uma multidão considerável se reu­ nia (ver At 2:6, 15). Talvez os idosos e pie­ dosos Simeão e Ana (ver com. de Lc 2:25, 36) estavam misturados e despercebidos no 737 672
  12. 12. 1:11 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENT1STA grupo de adoradores dessa reunião, e eleva­ ram os pensamentos em oração pela vinda do Messias. Fora. Isto é, Fora do santuário, mas den­ tro dos pátios sagrados do templo. 11. Eis que lhe apareceu. A partir do registro, parece que a aparição do anjo não foi apenas em visão, mas realmente visível às percepções normais dos sentidos. Anjo do Senhor. Lste era o anjo Gabriel (ver com. do v. 19), que mais de cinco séculos antes tinha aparecido a Daniel para anunciar o tempo da vinda do Messias (Dn 9:21, 25). Então, com a proximidade da vinda do Senhor, Gabriel surge para anunciar o nas­ cimento do profeta que prepararia o povo para a vinda do Prometido. À direita. Do altar. Este era o lado sul, a posição considerada do ponto de vista do altar que está com a frente para o leste. O lado direito era geralmente uma posição de honra (ver Mt 25:33; At 7:55, 56; Hb 1:3; etc.), e Zacarias deveria ter reconhecido a posição como uma indicação de favor, mas não o fez (DTN, 97, 98; ver PP, 351). 12. Apoderou-se dele o temor. A rea­ ção do idoso sacerdote dificilmente poderia ser considerada inesperada ou pouco natural (ver Jz. 6:22; 13:22; Lc 2:9; 9:34; At 19:17). 13. Não temas. Geralmente, estas são as primeiras palavras dos seres celes­ tiais quando se dirigem aos seres humanos (Gn 15:1; 21:17; Lc 1:30; 2:10). Os anjos estão constantemente trabalhando para remover o temor do coração de homens e mulheres consagrados (ver Hh 1:14; 2:15) e para subs­ tituí-lo pela “paz de Deus, que excede todo o entendimento” (Fp 4:7). A perfeita com­ preensão de Deus e o amor por Ele remo­ vem todo temor do coração (ver Mt 6:30-34; IJo 4:18). Foi ouvida. Alguns creem que foi ouvida a oração de Zacarias pela vinda do Messias. Por meio do estudo das profecias, principal- mente as de Daniel, Zacarias sabia que o tempo para o aparecimento do Messias estava próximo. Por muitos anos, ele tinha orado pela concretização da esperança de Israel, e então Gabriel lhe assegurou que o cum­ primento dessas profecias estava próximo (ver DTN, 98). Outros creem que a "oração” ouvida foi a anterior, em que Zacarias pediu por um filho. Nos anos anteriores, Zacarias orou por um filho (ver Gn 15:1, 2; 25:21; 30:22; iSm 1:10, 11; etc.). Não c provável, como sugerem alguns comentaristas, que Zacarias orasse por um filho naquela oca­ sião, porque sua resposta ao anjo (Lc 1:18) indica que ele já tinha desistido da esperança de ter um filho. João. Do gr. Iõannês, do heb. Yochanan, ou Yehochanan, significando "Yahweh é gra­ cioso". Várias pessoas tiveram esse nome (ver 2Rs 25:23; iCr 3:15; 26:3; 2Cr 17:15; Ed 10:6, 28; Ne 12:13; Jr 40:8). 14. Em ti haverá prazer e alegria. Os v. 14 a 18 estão na forma métrica caracterís­ tica da poesia hebraica, em que há ritmo e repetição, em vez de medida e som. O nas­ cimento de um filho a Isabel traria alegria a Zacarias, mas essa alegria se tornaria em alegria para todos que prestassem atenção à mensagem do filho e fossem "para o Senhor um povo preparado" (v. 17; Lc 2:32). 15. Será grande. Na estima do Céu, não é riqueza, posição, nobre descendência ou dons intelectuais que constituem gran­ deza. Deus valoriza a dignidade moral e apre­ cia os atributos do amor e da pureza. João era grande “aos olhos do Senhor" (ver Mt 11:11), « em contraste com Herodes, “grande” à vista dos homens que anseiam por posição, riqueza e poder. João foi um grande servo de seus companheiros; Herodes foi um grande tirano sobre eles. João viveu para os outros; Herodes viveu apenas para si. João foi grande do mesmo modo como Elias foi grande, em con­ verter “muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus” (Lc 1:16). Herodes foi grande do mesmo modo que Ninrode o foi (ver com. de 738 673
  13. 13. LUCAS 1:16 Gn 10:9-12), em levar pessoas a duvidar e a se opor a Deus (Gn 10:9, 10; ver Lc 11:2-4; ver p. 27-30; ver com. de Mt 11:13, 14). Vinho. Do gr. uinus (ver com. seguinte). Bebida forte. Do gr. sikera, uma pala­ vra emprestada do aramaico shikra’ e do heb. shekar (ver com. de Nm 28:7). Shekar pode ser vinho ou alguma bebida intoxicante como o vinho, caso seja feita de cevada ou des­ tilada de mel ou tâmaras. A raiz do verbo hebraico significa “beberão máximo”, “beber até a hilaridade” ou “estar bêbado”. Alguns comentaristas têm pensado que o uso que Lucas faz destes dois termos oinos, “vinho”, e sikera, "bebida forte”, indica que bebidas intoxicantes feitas de uvas não estão incluí­ das no termo sikera. Mas essa distinção não é justificada porque: (1) sikera é apenas uma transliteração grega do heb. shekar, que inclui todas as bebidas intoxicantes; (2) a forma poética dos v. 14 a 17 não justifica uma dis­ tinção quanto à classificação entre “vinho” e “bebida forte”, assim como ocorre entre “ale­ gria” e “regozijo", no v. 14. Quando falamos em trabalhar com “poder e princípio” não nos referimos a duas fontes de poder separadas e distintas; apenas nos referimos ao exercício de todas as forças. Do mesmo modo, Lucas ou melhor, o anjo Gabriel, usa os dois ter­ mos simplesmente para enfatizar a exclusão de qualquer coisa intoxicante. Como Sansão (Jz 13:4, 5) e Samuel (ver com. de lSm 1:22), João Batista era nazi- reu de nascimento (DTN, 102). Em todos os momentos, um nazireu (ver com. de Gn 49:26; Nm 6:2) deveria manter os apeti­ tes e paixões sob estrita sujeição ao princí­ pio (ver com. de Jz 13:5). A importante tarefa atribuída a João Batista, exigia força mental e discernimento espiritual, para que ele per­ manecesse como um exemplo diante do povo de sua época. De modo semelhante, aque­ les que participam na tarefa de proclamar a segunda vinda de Cristo devem purificar sua vida “assim como Ele é puro” (IJo 3:3). Cheio do Espírito Santo. Em vez de bebida forte (ver Ef 5:18). Quando os após­ tolos estavam “cheios do Espírito Santo” no Pentecostes (At 2:4, 15-17), foram acusa­ dos de estar “embriagados” (At 2:13). Com aqueles a quem Deus escolheu para Seu ser­ viço não deve haver dúvida quanto ao tipo de estímulo que os move à ação. O estímulo de tipo inferior exclui o de natureza supe­ rior. João devia ser iluminado, santificado e guiado pela influência do Espírito Santo. Em seu evangelho e no livro de Atos, Lucas menciona o Espírito Santo mais de 50 vezes, muito mais do que os outros evangelistas jun­ tos, que fizeram 13 referências a Ele. Já do ventre materno. A existência de João foi devida à vontade e ao poder de Deus, não do ser humano. Ele veio ao mundo com a missão de sua vida já designada, e deveria ser dedicado a Deus desde o princí­ pio. Eoi possível ao Espírito Santo “encher” João desde o nascimento, pois o Espírito pri­ meiro “encheu” a mãe de João, Isabel, diri­ gindo sua vida. Durante os primeiros anos das crianças, os pais estão no lugar de Deus para eles (PP, 308). “Felizes são os pais cuja vida é um verdadeiro reflexo da Divindade” (PR, 245). Foi por meio do Espírito Santo que Maria recebeu sabedoria para cooperar com os agentes celestiais no desenvolvimento e educação de Jesus (DTN, 69). As mães, hoje, que escolhem viver em comunhão com Deus podem esperar que o divino Espírito Santo molde seus pequenos filhos, "já desde os pri­ meiros momentos” (DTN, 512). Desta forma, nossas crianças, como João Batista, podem desfrutar o feliz privilégio de ser “cheios do Espírito Santo” (ver com. de Lc 2:52). 16. Converterá muitos. Isto é, por meio do arrependimento. O batismo de João era um “batismo de arrependimento” (Lc 3:3; ver também Mc 1:4; At 13:24; 19:4). Arrependimento, ou conversão do pecado, era a parte mais importante de sua mensagem. Os seres humanos precisam se 739
  14. 14. 674 1:17 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA arrepender caso queiram estar preparados para o dia do Senhor (Lc 1:17) e para entrar em Seu reino (ver Mt 3:2; 4:17; 10:7). A obra ► de joão era persuadir as pessoas a abando­ nar seus pecados e exortá-las a buscar ao Senhor, seu Deus. Essa era a obra que Elias realizava (ver com. de lRs 18:37). A narra­ tiva do AT termina (ver Ml 3:1; 4:5, 6) e a do NT começa com o tema dos “filhos de Israel ’ voltando “ao Senhor, seu Deus” (ver Lc 1:16). 17. Irá adiante do Senhor. Como profetizado especificamente por Isaías (ver com. de Is 40:3-5) e Malaquias (ver com. de Ml 3:1). Essa é a tarefa atribuída à igreja remanescente hoje. Nos v. 16 e 17 encontra-se uma pérola da verdade. Nos v. 16 e 17 Lucas afirma que joão Batista converteria muitos dos filhos de Israel ao Senhor, e então segue imediata­ mente com o comentário: “Ele [joão Batista] irá diante d Ele” [obviamente o Messias, mas também o “Senhor, seu Deus”, do v. 16]. É evidente que Lucas aponta à divindade do Messias, mesmo que de forma indireta. No espírito e poder de Elias. A intré­ pida coragem de Elias em dias de aposta­ sia e crise (ver lRs 17:1; 18:1-19, 36-40) fez do profeta um símbolo de completa reforma e lealdade a Deus. Uma obra simi­ lar era necessária a fim de converter o coração das pessoas à fé de seus pais (ver jo 8:56; IPe 1:10, 11). A obra de João Batista como precursor do Messias tinha sido pre­ vista pelos profetas (ver Is 40:1-11; Ml 3:1; 4:5, 6), como sabiam aqueles que estuda­ vam as profecias. Até os escribas reconhe­ ceram que “Elias deveria vir primeiro”, antes da vinda do Messias (Mt 17:10; Mc 9:11, 12). Sua mensagem era de reforma e arrependi­ mento (ver Mt 3:1-10). João se assemelhava a Elias não apenas na obra que ele deveria fazer e na coragem com que deveria procla­ mar a verdade (ver lRs 21:17-24; Mt 3:7-10), mas até mesmo em seu modo de vida e em sua aparência externa (ver Mt 3:4; ver com. de 2Rs 1:8). Ambos os profetas sofreram per­ seguição (ver lRs 18:10; 19:2; Mt 14:10). As profecias a respeito do precursor do Messias foram tão notavelmente cumpri­ das em João Batista que o povo e seus líde­ res reconheceram a semelhança entre João e Elias (ver Jo 1:19-21). Mesmo depois da morte de João, sacerdotes, escribas e anciãos não negaram que João tinha sido um profeta (Mt 21:24-27; Mc 11:29-33; Lc 20:3-7). Nem o cruel Uerodes ousou tirar a vida de João até que as circunstâncias aparentemente o leva­ ram a executá-lo (Mt 14:3-11; Mc 6:17-28; DTN, 222). João negou ser Elias em pes­ soa (Jo 1:21), mas Jesus afirmou que João veio em cumprimento das profecias da vinda de Elias (Mt 11:9-14; 17:10-13). Esse fato foi totalmente compreendido pelos discípulos (Mt 17:13). A obra de Elias e João Batista é necessá­ ria hoje. Nestes dias de corrupção moral e cegueira espiritual há necessidade de vozes que corajosamente proclamem a vinda do Senhor a toda a Terra. O chamado dessa hora é para homens e mulheres que ordenarão suas vidas como fez João e o Elias da anti­ guidade, e que convidarão outros a fazer o mesmo. Há a necessidade de uma obra de reforma sincera, não apenas fora da igreja, mas dentro dela. Deus convida a todos que O amam e O servem para irem “no espírito e poder de Elias" (T3, 61). Coração dos pais. O contexto neste versículo e em Malaquias 4:5 e 6 sugere o emprego de uma linguagem figurada. A men­ sagem de Gabriel foi dada na forma literá­ ria da poesia hebraica, em que o ritmo do pensamento é usado em vez da métrica (ver vol. 3, p. 1-13). Os “filhos de Israel” deveriam ter voltado para o “Senhor, seu Deus”, o Pai celestial deles (Lc 1:16); os “desobedientes”, para a “prudência dos justos” (v. 17). A obra de Elias era converter o coração dos desobe­ dientes filhos de Israel em sua geração para a sabedoria do justo Pai celestial, chamando 740
  15. 15. 675 LUCAS 1:18 a atenção para as experiências de seus “pais” (ver lCo 10:11). Esta foi a obra que Elias rea­ lizou (ver lRs 18:36, 37). Como descenden­ tes espirituais de nosso pai Abraão (G1 3:29) deveríamos, em fé, volver nosso coração para Deus (Hb 11:8-13, 39, 40) e sempre lembrar o modo pelo qual Ele conduziu os “pais” no passado (ver LS, 196). A declaração de Malaquias, citada neste versículo por Lucas, também tem sido expli- ► cada literalmente como aplicada à respon­ sabilidade paterna de educar os filhos “na disciplina e na admoestação do Senhor” (Ef 6:4). Um dos primeiros resultados da verdadeira conversão é o fortalecimento dos laços familiares. A reforma genuína sempre faz isso. O lar certamente está incluso na obra de reforma descrita neste verso, como sendo um importante aspecto para levan­ tar “para o Senhor um povo preparado” (ver com. do v. 15). Prudência. Do gr. phronêsis, “compreen­ são”, “intenção”. A “prudência” da qual o anjo fala é do tipo que leva a pessoa a se converter da desobediência para a obediência, da injus­ tiça para a justiça. Essa transformação ocorre não tanto em resultado de conhecimento intelectual, mas de uma mudança de mente (ver Rm 12:2) que acompanha a mudança de coração (ver Ez 11:19; 18:31; 36:26). É ape­ nas quando a pessoa ama a Deus que ela deseja obedecê-Lo (Jo 14:15; 15:10). Quando as afeições são postas “nas coisas lá do alto” (Cl 3:2), a verdadeira “prudência” se apodera do coração e da vida. Um povo preparado. As pessoas dos dias de Noé não estavam preparadas para o dilúvio (Lc 17:27), nem as pessoas de Sodoma estavam preparadas para a destruição que atingiu aquela cidade. Os filhos de Israel que deixaram o Egito não estavam prepara­ dos para entrar na terra prometida (Hb 3:19). O povo dos dias de Cristo não estava pre­ parado para encontrá-Lo e, portanto, “não O receberam” (ver Jo 1:11). No entanto, devido em grande parte ao ministério de João Batista, houve alguns que estavam prontos para recebê-Lo. Da mesma forma, somos aconselhados a estar “prontos” (Mt 24:44), porque aqueles que estiverem “prontos” irão com Cristo para as bodas (Mt 25:10). O cristão que mantém acesa a esperança do retorno do Senhor em seu coração é que estará “preparado para o Senhor” quando Ele vier (ver Hb 9:28; 2Pe 3:11, 12; ljo 3:3). 18. Como saberei isto? A promessa parecia muito boa para ser verdade! Não há dúvidas de que, por anos, Zacarias orou por um filho (ver com. de Lc 1:13) e quando sua oração estava prestes a ser respondida, sua fé não foi suficientemente grande para aceitar a resposta. Quantas vezes as pessoas veem dificuldades no modo do cumprimento das promessas de Deus, esquecendo que “para Deus não haverá impossíveis” (Lc 1:37). Assim foi com Sara (ver Gn 18:11, 12), com Moisés (ver Ex 4:1, 10, 13), com Gideão (ver Jz 6:15-17, 36-40) e com os crentes que ora­ ram na casa de Maria em prol da libertação de Pedro (ver At 12:14-16). Até Abraão, que “nãoduvidou, por incredulidade, da promessa de Deus” (Rm 4:20), sentiu a necessidade de evidência tangível sobre a qual estabelecer sua fé (ver Gn 15:8; 17:17). Eu sou velho. A idade de aposentadoria para os levitas era de 50 anos (ver com. de Nm 8:24). No entanto, os sacerdotes se apo­ sentavam do serviço ativo apenas quando a idade ou a doença os impossibilitava fisica­ mente para ministrar no altar. Abraão e Sara foram descritos como “avançados em idade” quando tinham 99 e 89 anos, respectiva­ mente (Gn 18:11). Por volta de 92 anos de idade, Josué foi chamado de “idoso, entrado em dias” (ver com. de Js 13:1), embora ele tenha vivido até os 110 anos (Js 24:29). Foi dito que Davi era “velho e entrado em dias” (lRs 1:1), na época de sua morte, no seu 71° ano (2Sm 5:4, 5). E seguro concluir que 741
  16. 16. 676 1:19 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA Zacarias tinha entre 60 e 70 anos de idade, talvez próximo à última. Avançada em dias. Ver com. do v. 7. 19. Gabriel. Do gr. Gabriel, do heb. Gabriel, significando “homem de Deus”. A palavra hebraica usada para “homem” é geber, indicando um “homem forte”. Gabriel ocupa a posição da qual Lúcifer caiu (DTN, 693; GC, 493) e está próximo, cm honra e posição, ao próprio Cristo (DTN, 98, 99, 234; Dn 10:21). Foi Gabriel que apa­ receu a Daniel (Dn 8:16; 9:21) para anunciar a vinda do “Ungido”, o “Príncipe” (Dn 9:25). Nos tempos do NT, ele apareceu a Zacarias (Lc 1:19), a Maria (v. 26, 27) e, possivelmente, a José (ver com. de Mt 1:20). Foi Gabriel quem fortaleceu a Cristo no Getsêmani (DTN, 693), que interveio entre Ele e a mul­ tidão (DTN, 694), que abriu a tumba e cha­ mou o Salvador (DTN, 779, 780). Gabriel também foi um dos dois anjos que acompa­ nhou a Cristo durante Sua vida (DTN, 793) e apareceu aos discípulos no monte das Oliveiras enquanto Cristo ascendia ao Céu (DTN, 832; cf. 780). Foi Gabriel que apare­ ceu a João em Patmos (DTN, 99; ver com. de ► Ap 1:1) e que falou de si mesmo como “con­ servo teu, [conservo] dos teus irmãos, os pro­ fetas” (Ap 22:9). Assisto diante. Esta expressão é utili­ zada no AT para os altos oficiais que minis­ travam no palácio (IBs 10:8; 12:6; Pv 22:29; Dn 1:19). Por meio desta simples declaração que revela a honrada posição que ele ocupa no Céu, Gabriel apresenta-se a Zacarias como um representante de Deus. Diz-se dos anjos que eles “veem incessantemente a face” do Pai celeste (Mt 18:10). Gabriel é, por assim dizer, o “primeiro ministro” do Céu, o líder da hoste angélica “para serviço a favor dos que hão de her­ dar a salvação” (Hb 1:14). Ele é, num sen­ tido especial, o embaixador celestial nesta terra (DTN, 99). Gabriel não manteve comu­ nhão apenas com pessoas justas na terra; ele também se associou com outras pessoas. Foi justamente ele quem atuou no palácio persa para influenciar Ciro e Dario a emi­ tirem o decreto autorizando a reconstrução do templo (Dn 10:13, 20; 11:1). Ele é o anjo da profecia que foi comissionado pelo Céu para organizar os assuntos dos seres huma­ nos em harmonia com a vontade de Deus. Segundo a tradição judaica, Gabriel é o anjo do juízo e um dos quatro arcanjos que possuem acesso à presença divina perma­ nentemente. Trazer-te estas boas-novas. Do gr. euaggelizõ, “proclamar boas novas” ou “anun­ ciar boas-novas” (ver com. de Lc 2:10). 20. Ficarás mudo. Zacarias expres­ sou dúvida na palavra do anjo. Então, ele recebeu um sinal de confirmação que tam­ bém era uma penalidade pela descrença. Sua falta de fé trouxe juízo e bênção. Sua descrença foi curada imediata e completa­ mente. Simultaneamente, sua aflição foi um meio de atrair a atenção do povo para o anúncio do nascimento do precursor do Messias. A condição de Zacarias não ape­ nas atraiu a atenção da multidão reunida no pátio do templo (v. 22) como lhe deu a opor­ tunidade de comunicar o que ele tinha visto e ouvido (DTN, 99) de uma forma que eles nunca esqueceriam. Em alguns aspectos, a experiência de Zacarias é semelhante à de Ezequiel no que se refere a ficar mudo (ver Ez 3:26) e perma­ necer assim (Lc 24:27) até o cumprimento de sua mensagem (Lc 33:22). Não acreditaste. Embora não fosse fácil para Abraão compreender a realidade da pro­ messa divina de que seu próprio filho deve­ ria ser seu herdeiro (ver Gn 15:2, 3; 17:17, 18), ele estava pronto para acolher a palavra do Senhor (ver Gn 15:6). Ele tinha uma fé forte e “não duvidou, por incredulidade, da promessa de Deus” (ver Rm 4:19-22). Parece que Zacarias, embora “justo” e "irrepreensí­ vel” diante de Deus (Lc 1:6), não estava à 742
  17. 17. 677 LUCAS 1:24 altura cie Abraão quando chegou o tempo de exercer a fé. 21. Estava esperando. Zacarias per­ maneceu sozinho no lugar santo mais tempo do que o normal. A tradição exigia que o sacerdote que oferecia incenso nas horas de oração matutinas e vespertinas não deveria prolongar sua permanência no lugar santo, temendo que as pessoas tives­ sem oportunidade para a ansiedade. Além disso, o povo não ficava livre para sair até que o sacerdote oficiante saísse para pro­ nunciar a bênção de Arão (ver Nm 6:23-26). Segundo o Talmude, o oferecimento de incenso no altar de ouro deveria ser feito com rapidez. 22. Não lhes podia falar. Quando o sacerdote oficiante saía do lugar santo depois de oferecer incenso, esperava-se que ele levantasse as mãos e pronunciasse uma bênção sobre a multidão expectante. Tivera uma visão. Quando Zacarias saiu, seu rosto brilhava com a glória dc Deus (DTN, 99). Sua aparência, dc certo modo, era uma bênção silenciosa, porque a fórmula da bênção incluía as palavras: "o Senhoií faça resplandecer o rosto sobre ti" (Nm 6:25) e “o Senhor sobre ti levante o rosto” (Nm 6:26). A primeira representava a benevolên­ cia de Deus, e a segunda, Seu dom de paz. Sem dúvida, muitos dentre os adoradores reunidos pensaram em Moisés ao retornar do monte Sinai (ver Êx 34:29, 30, 35). Expressava-se por acenos. Melhor seria, “ele continuou acenando”, isto é, fazendo gestos num esforço de explicar ao povo o que tinha acontecido. Eventualmente, e talvez escrevendo enquanto gesticulava, ele conseguiu comunicar-lhes o que tinha visto ► e ouvido (DTN, 99). Mudo. Do gr. k&phos, “embotado” ou "opaco”. Isto poderia se referir à fala, à audi­ ção ou a ambos. A narrativa parece indicar que Zacarias se tornou surdo e mudo (ver com. do v. 62). 23. Ministério. Do gr. leitourgia, uma palavra grega comum denotando “serviço público”. Na LXX, leitourgia é extraída do ministério do sacerdote em favor da congre­ gação. O termo é usado em Hebreus 8:6 e 9:21 para o “ministério” de Cristo no san­ tuário celestial. Cada “turno” de sacerdotes se mantinha no plantão do templo de sábado a sábado. Segundo a tradição judaica, era costume que o grupo de sacerdotes aposentados ofe­ recesse o incenso matutino no dia de sábado, c o grupo que chegava oferecia o incenso ves­ pertino. Portanto, o turno de Abias, ao qual Zacarias pertencia (ver com. do v. 5), perma­ neceu no seu posto até o sábado seguinte. Zacarias pode ter considerado que sua expe­ riência com o anjo justificava sua aposenta­ doria precoce e o retorno para casa. Mas ele escolheu permanecer em seu posto desig­ nado até ser liberado do serviço. O texto do v. 23 indica fortemente que ainda restavam vários dias de seu prazo de dever, e que, por­ tanto, a aparição do anjo não ocorreu no dia de sábado. Voltou para casa. Na “região monta­ nhosa” da Judeia (v. 39). Das oito cidades da Judeia atribuídas por Josué aos sacerdo­ tes (ver com. de Js 21:9; cf. lCr 6:57-59), Hebrom e Hilem (Holom) parecem se qua­ lificar melhor para a localização na “região montanhosa”. Não se sabe se Hilem foi reconstruída depois do cativeiro e se as cida­ des originalmente atribuídas aos sacerdotes por Josué eram deles no tempo de Cristo (ver com. de Lc 1:39). 24. Ocultou-se. [A felicidade de Isabel, Lc 1:24, 25. Ver mapa, p. 211; gráfico, p. 224J. A razão de Isabel se ocultar por cinco meses de gravidez não está clara. Nenhum costume judaico poderia ter exigido dela agir assim e o contexto indica que ela fez isso voluntaria­ mente. Alguns comentaristas sugerem que ela permaneceu em casa até que ficasse evi­ dente que seu “opróbrio” (ver com. do v. 25) 743
  18. 18. 1:25 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA fora removido. Outros pensam que a men­ ção de um período de cinco meses é inse­ rida simplesmente em antecipação da visita de Maria no sexto mês. Pode ser, no entanto, que, em antecipação da vida dedicada que João viveria como nazireu (ver com. do v. 15), Isabel procurou se retirar dos contatos cos­ tumeiros com a sociedade e refletir e estu­ dar para a responsabilidade de educar um filho a quem tão importante tarefa como a de João seria confiada. Esse motivo estaria em perfeita harmonia com o caráter de Isabel (ver v. 6). 25. Opróbrio. Isto é, a infelicidade de não ter filhos, segundo os judeus, era a maior desgraça que poderia sobrevir a uma mulher (Gn 30:1; lSm 1:5-8; ver com. de Lc 1:7). Acreditava-se que a esterilidade era um cas­ tigo de Deus (ver Gn 16:2; 30:1, 2; lSm 1:5, 6), e a oração era, em tais circunstâncias, feita para buscar Seu favor (ver Gn 25:21; lSm 1:10-12), para que Ele Se “lembrasse” dos que foram assim afligidos. Quando a concepção ocorria depois de orações desse tipo, dizia-se que Deus havia se lembrado deles (ver Gn 30:22; lSm 1:19). Por todas as Escrituras acredita-se que os filhos são uma bênção concedida por Deus (ver Gn 33:5; 48:4; Êx 23:26; Js 24:3; SI 113:9; 127:3; 128:3). Em contraste, entre as nações pagãs, os filhos eram normalmente expostos ou ofe­ recidos como sacrifício aos deuses. 26. No sexto mês. [Predito o nasci­ mento de Jesus, Lc 1:26-38. Ver mapa, p. 211; gráfico, p. 224j. Isto é, o sexto mês depois da aparição de Gabriel a Zacarias (v. 11) e a concepção de Isabel (v. 24), como especifica­ mente declarada pelo anjo (ver v. 36). Gabriel. Ver com. dos v. 11, 19. Nazaré. Uma obscura cidade galileia não mencionada no AT nem no Talmude, nem incluída por Josefo na lista de 204 cidades da Galileia (ver com. de Mt 2:23). A infância e juventude de Jesus, um período sobre o qual as Escrituras são silentes, foram passadas numa localidade sobre a qual não há registros históricos disponíveis. Numa pequena comunidade, Jesus estava livre da influência rabínica dos grandes cen­ tros judaicos, bem como da cultura grega pagã que permeava a “Galileia dos gentios” (Mt 4:15). A atitude frequente dos judeus com relação a Nazaré é refletida na resposta incisiva de Natanael a Filipe: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (Jo 1:46) e dos fariseus a Nicodemos: “Examina e verás que « da Galileia não se levanta profeta” (Jo 7:52; ver fotos, p. 549). O fato de Lucas situar Maria e José como vivendo em Nazaré e especificamente chamá-la de “sua cidade” (Lc 2:39) é evidên­ cia da exatidão histórica da narrativa evan­ gélica. Tivesse ele ou outros de quem ele recebeu informação (v. 1-3) inventado a his­ tória, e teriam procurado situar Maria e José em Belém durante toda a narrativa da con­ cepção e do nascimento de Cristo, em vez de situá-los numa cidade da Galileia, em vista da reputação desfavorável da Galileia, em geral, e de Nazaré, em particular. O fato de Mateus não mencionar Nazaré em conexão com os eventos anteriores ao nascimento de Jesus (ver Mt 1:18-25) atesta igualmente a natureza independente da evidência registrada nos dois evangelhos. Tivesse havido conluio entre os vários escritores dos evangelhos, com inten­ ção de enganar, eles teriam tomado muito cuidado para pelo menos dar aos seus relatos a aparência de semelhança superficial, o que não é o caso. A nota explicativa de Lucas de que Nazaré era “uma cidade da Galileia” pode evidenciar, como alguns creem, que Lucas escreveu para não residentes na Palestina, que não estariam familiarizados com uma cidade tão desconhecida. 27. Uma virgem. Ver com. de Mt 1:23. O fato de Lucas não mencionar os pais de Maria ao apresentar um relato tão deta­ lhado das circunstâncias do nascimento de Jesus sugere que eles poderiam estar 744 678
  19. 19. LUCAS 1:27 mortos na época e que Maria poderia estar morando com alguns de seus parentes (ver DTN, 144, 145). Quase sem exceção, os escritores judeus identificavam aqueles de quem falavam como filhos e filhas de deter­ minadas pessoas citadas. Desposada. Ver com. de Mt 1:18. A sequência de eventos neste versículo é digna de nota. O anjo fez o anúncio do nascimento de Jesus depois do noivado de Maria. Se ela fosse informada que geraria uma criança quando não havia planos de casamento, isso a angustiaria muito. Por outro lado, se o anúncio tivesse sido depois do seu casamento com José, até mesmo Maria e José teriam considerado Jesus como seu filho. Atestar o nascimento virginal teria sido difícil, senão impossível. A intenciona­ lidade na sequência de eventos testifica do plano divino e da providência soberana de Deus. Se José estava pronto para se divor­ ciar de Maria ao ouvir que ela estava grá­ vida (Mt 1:18, 19), e se foi impedido de o fazer pela revelação de Deus (v. 20, 24), pos­ sivelmente teria sido muito mais difícil har­ monizá-lo com a ideia do casamento, se ela já estivesse grávida (v. 19). O planejamento divino facilitou ao máximo a situação para Maria e José. Maria era de fato uma vir­ gem, mas ela estava noiva. Deus já havia providenciado a ela um ajudante e prote­ tor antes de lhe anunciar o esperado nasci­ mento de Jesus. José. Ver com. de Mt 1:18. Pouco se sabe de José além de sua descendência daví- dica (Mt 1:6-16), sua pobreza (ver com. de Lc 2:24), seu ofício (Mt 13:55), o fato de ele ter quatro filhos (Mt 12:46; 13:55, 56; DTN, 87) e que ele morreu antes que Jesus iniciasse Seu ministério (ver DTN, 145). O último evento registrado de José ocor­ reu quando Jesus tinha 12 anos (Lc 2:51). A ausência de qualquer referência adicional a José atesta a possibilidade de que ele mor­ reu antes que Jesus iniciasse Seu ministério (ver com. de Lc 2:51). O fato de, na cruz, Jesus ter confiado o cuidado de Sua mãe a João (Jo 19:26, 27) é uma evidência convin­ cente de que a morte de José ocorreu antes daquela época. Casa de Davi. Isto é, da família real (ver com. de Mt 1:1, 20). As opiniões diver­ gem quanto à possibilidade de a expressão '‘da casa de Davi”, neste versículo, se refe­ rir a Maria ou a José. A repetição da pala­ vra ‘Virgem” na última oração do versículo indica que a frase em questão se refere a José em vez de Maria. De qualquer maneira, a descendência davídica de José é claramente declarada em Lucas 2:4. No entanto, Maria também era da casa de Davi (ver com. de Mt 1:16; Lc 1:32; DTN, 44). Por intermé­ dio de Maria, Jesus literalmente “segundo a carne, veio da descendência de Davi” (Rm 1:3). Em Lucas 1:32 e 69 está claro que Maria era descendente de Davi. Essas e outras declarações das Escrituras perde­ riam muito de sua força e sentido se Maria « não pudesse afirmar que Davi era seu ante­ passado. A referência no v. 36 a Isabel como “prima” (ARC) não serve de base para a ideia de que Maria era da tribo de Levi (ver com. do v. 36). Tanto Maria quanto José eram de descendência real, assim como Zacarias e Isabel eram de linhagem sacerdotal (v. 5). Maria. Ver com. de Mt 1:16. Lucas apre­ senta a narrativa do nascimento de Jesus do ponto de vista de Maria, fato que alguns comentaristas consideram uma indicação de que Lucas ouviu pessoalmente a história dos lábios dela ou de alguém que falou com ela (ver com. dos v. 1-3). Os muitos detalhes e a requintada beleza da narrativa de Lucas sugerem familiaridade com os latos, seja por contato direto com pessoas que os testemu­ nharam (v. 2) ou por inspiração. Sendo que consultou testemunhas oculares (Lc 1:2), é possível que os dois fatores estavam envol­ vidos: o relato de uma testemunha ocular, garantido, naturalmente, pela inspiração. 745 679
  20. 20. 1:28 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA 28. Alegra-te [...]! Do gr. chaire, uma forma comum de saudação na antiguidade (ver Mt 28:9) que expressava estima e boa vontade. A palavra assim traduzida é a forma imperativa do verbo chairõ, “regozijar” ou “ser agradecido”. Esta forma de saudação pode ser comparada com a saudação: “Paz seja con­ vosco” (Lc 24:36; etc.), uma forma comum de saudação no Oriente atualmente, bem como nos tempos antigos. Muito favorecida! Literalmente, "do­ tada com graça”. Esta expressão designa Maria como quem recebia o favor divino ou a graça, não a despenseira dele. A frase plena gratia, da versão latina Vulgata, é tra­ duzida como “cheia de graça” por Wyclif, Tyndale e por vários tradutores católicos. Se essa frase for tomada para indicar que Maria foi, a partir daquele momento, uma despenseira da graça divina, em vez de alvo dessa graça, essa afirmação contrariaria a declaração do anjo. Gabriel não a dotou de mérito pessoal para ser distribuído a ou­ tros. O que o anjo outorgou a Maria está disponível a todos os crentes em Cristo. A mesma palavra grega para o verbo dotar é utilizada em Efésios 1:6, em que Paulo de­ clara: “Ele |o Pai] nos concedeu” (literal- mente, dotou-nos] gratuitamente em Cristo - não “em Maria”. A mãe de Jesus foi ape­ nas “muito favorecida”, como o anjo expli­ cou, porque o Senhor estava com ela. Maria achou graça diante de Deus (Lc 1:30) e foi literalmente “dotada com graça”. Em nenhuma outra parte da Bíblia Maria é chamada “abençoada”, exceto por Isabel (v. 42), por uma mulher desco­ nhecida (Lc 11:27) e pela declaração que Jesus fez pessoalmente a seguir para reti­ ficar isso (v. 28). Ele sempre tratou Sua mãe com cortesia e consideração (ver com. de Jo 2:4), mas nunca a exaltou acima de outros que ouviram e creram nEIe (Mt 12:48, 49). Na cruz, Ele não Se referiu a ela como a “Mãe de Deus” ou mesmo como “mãe”. Apenas a chamou de “mulher”, um título de respeito (ver com. de Jo 19:26). Nenhum escritor do NT atribui a ela algum mérito extraordinário ou influência diante de Deus. A exaltação católica de Maria não tem base na Escritura. Está fundada completa­ mente sobre as lendas fantásticas dos evan­ gelhos apócrifos, aos quais até os católicos negam um lugar no cânon sagrado. Nos pri­ meiros séculos cristãos, essas lendas foram combinadas com mitos pagãos a respeito da Rainha dos Céus oriental (ver Jr 7:18; 44:17, 18; etc.), consorte dos deuses e da Magna Mater ou Grande Mãe, da Ásia Menor. O conceito católico de Maria como a “Mãe de Deus” é basicamente pouco mais que esta divindade feminina pagã vestida na termi­ nologia cristã, transformada em dogma no Concílio de Efeso, em 431 d.C. Efeso, foi o lar de Diana, do gr. Artemis; não a virgem deusa grega Artemis, mas uma deusa mãe asiática algumas vezes identilicada com a "Grande Mãe”. Segundo a tradição, Maria passou seus últimos anos em Efeso, no lar do apóstolo João. As palavras da saudação do anjo têm sido pervertidas pela igreja católica numa ora­ ção endereçada a Maria como intercessora. Segundo a Catholic Encyclopedia, ela é com­ posta (1) das palavras do anjo, com a adição (antes de 1184) das (2) palavras iniciais da saudação inspirada de Isabel a Maria, encon­ trada no v. 42; na adição posterior (em 1493) de (3) um pedido por oração; e ainda (4) uma última adição, feita em 1495 e incluída no catecismo do Concílio de Trento, com a lorma completa reconhecida oficialmente < no Breviário Romano de 1568. Assim, cons­ truída artificialmente, a Ave Maria é tradu­ zida como segue: [1] Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco. [2] Bendita sois vós entre as mulheres, e Bendito é o Fruto do vosso ventre, Jesus! 746 680
  21. 21. LUCAS 1:32 [31 Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, [4] Agora e na hora de nossa morte. Amém! Está contigo. A palavra “está" tem sido acrescentada pelos tradutores, já que no grego ela geralmente é compreendida em vez de expressa. Talvez “seja contigo” seja pre­ ferível a “está contigo”. Essa era uma forma comum de saudação nos tempos do AT (ver Jz 6:12; Rt 2:4). Abençoada és tu entre as mulheres. Evidências textuais favorecem (ef. p. 136) a omissão desta frase. Ela é declarada, no entanto, no v. 42 (ver com. do v. 42). 29. Perturbou-se. Do gr. diatarassõ, “agitar grandemente” ou “perturbar-se gran­ demente”. Maria estava perplexa com a súbita e inesperada aparição do anjo, mas ainda mais pela alta honra expressada na extraordinária saudação que o anjo lhe fez. Ela estava “perturbada”, mas se manteve serena. Pôs-se a pensar. Embora “perturbada”, Maria procurou pensar no que estava ocor­ rendo e descobrir a razão para esta expe­ riência incomum. Sob tais circunstâncias, muitas pessoas perderiam, momentanea­ mente, a capacidade de raciocínio. Maria parece ter sido não apenas uma donzela vir­ tuosa e devota, mas alguém de inteligência notável. Ela não apenas tinha uma familia­ ridade incomum com as Escrituras, como também refletia sobre o sentido das várias experiências que a vida lhe proveu (ver Le 2:19, 51). Ao contrário de Zacarias, que temeu (Lc 1:12), Maria parece ter mantido a presença de espírito. 30. Não temas. Ver v. 29; ver com. do v. 13. Dirigindo-se a ela como “Maria”, o anjo revelou que conhecia a personalidade dela. Esta e a declaração seguinte foram designa­ das a inspirar confiança. Graça. Do gr. charis, “graça,” gcralmcnte considerada como originada do mesmo radical de chairõ, “regozijar” (ver com. do v. 28), palavra muito usada pelos primeiros cristãos. Deus Se deleitou ao encontrar em Maria alguém que se aproximava bastante do ideal divino. 31. Conceberás. A redação do v. 31 se assemelha um pouco com Gênesis 16:11, em que foi feita uma promessa semelhante a I lagar. O anjo anunciou o cumprimento da promessa feita a Eva (ver com. de Gn 3:15). Como o Rei do universo poderia e con­ descenderia em ser feito “carne" (Jo 1:14), ser “nascido de mulher" (G1 4:4), “em seme­ lhança de homens” (Fp 2:7), é um mistério insondável e incompreensível que a Bíblia não revela. Com que temor e reverência o Céu deve ter observado o Filho de Deus "des­ cer do trono do Universo" (DTN, 23), partir das cortes de glória e condescender em tomar sobre Si a humanidade, ser feito "em todas as coisas (...) semelhante aos irmãos” (Hb 2:17), humilhar-Se e ser “reconhecido em figura humana” (Fp 2:7; ver com. de Fp 2:7, 8; ver também Nota Adicional a João 1). Com temor e reverência também deve­ mos contemplar o amor incomparável de Deus ao doar Seu único Filho para tomar nossa natureza (jo 3:16). Por Sua humilha­ ção Cristo “ligoLi-Se à humanidade por um laço que jamais se partirá” (DTN, 25). Neste maravilhoso dom, o caráter de Deus per­ manece em completo contraste com o cará­ ter do maligno que, embora um ser criado, desejou se exaltar e ser como o Altíssimo (ls 14:14). Chamarás pelo nome. Ver com. de Mt 1:21. 32. Este será grande. Há uma notável semelhança entre os v. 32 e 33 e Tsaías 9:6 e 7; um texto é uma clara reflexão do outro. Seis meses antes Gabriel disse a Zacarias que João seria “grande” (Lc 1:15). Chamado. Neste verso, tem o sentido de “reconhecido” ou “conhecido”, como em Mateus 21:13. A divina filiação de Cristo 747
  22. 22. 681 1:33 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA foi anunciada por Deus aos anjos celestiais (Hb 1:5, 6), confessada por Seus discípulos (Mt 16:16; Jo 16:30) e pelos escritores do NT (Rm 1:4; Hb 4:14; ljo 5:5; etc.). Filho do Altíssimo. Ver v. 35. No ► batismo, o Pai declarou que Jesus era Seu Filho (Lc 3:22). A mesma declaração foi feita novamente, poucos meses antes da crucifixão (Mt 17:5). Todos os que fazem “o que é agradável diante dEle” (Hb 13:21) têm o privilégio de ser chamados “filhos do Altíssimo” (Lc 6:35; ver com. dejo 1:1-3; ver Nota Adicional a João 1). O trono. Segundo o profeta Isaías, o Príncipe da Paz deveria sentar sobre o trono de Davi para administrar Seu reino (Is 9:6, 7). O “trono” representa o reino eterno de Cristo, não uma restauração do reino literal de Davi no mundo atual, como está evidente em todo o NT (ver Jo 18:36; etc.; ver com. de Lc 4:19). Davi, Seu pai. Ver com. de Mt 1:1, 16, 20; Lc 1:27. A descendência literal de Jesus da linhagem de Davi é claramente afir­ mada tanto no AP como no NT (SI 132:11; At 2:30; Rm 1:3). Mesmo os inimigos de Cristo não negaram que o Messias deveria ser “filho de Davi” (Lc 20:41-44). O glorioso reino de Davi se tornou, para o profeta, um símbolo único da vinda do reino messiânico (Is 9:6, 7; cf. 2Sm 7:13; SI 2:6, 7; 132:11; ver vol. 4, p. 17, 18). A expressão “Davi, seu pai” é significa­ tiva. Jesus poderia ter sido o Filho de Davi como o Filho de José, ou de Maria, ou de ambos. Maria obviamente compreendeu que o anjo quis dizer que a concepção de Jesus seria apenas pelo Espírito Santo (v. 34, 35). A declaração do anjo em apontar a Davi como o “pai” de Jesus poderia ser entendida como significando que a própria Maria era descendente de Davi (ver com. de Mt 1:16; cf. DTN, 44). 33. Ele reinará. L digno de nota. que, nas mensagens angélicas e proféticas dadas com relação ao nascimento de Cristo, pouca indicação foi dada acerca do papel de Cristo como o sofredor. Neste versículo, por exem­ plo, Gabriel olha para frente, ao glorioso clímax do plano da salvação, passando por cima de qualquer referência à crucifixão. Talvez o regozijo no Céu pelo nascimento do Salvador, bem como daqueles poucos na terra que O reconheceram e receberam, lez parecer impróprio mencionar a cruz que precederia a coroação. O próprio Senhor, “o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que Lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da igno­ mínia, e está assentado à destra do trono de Deus” (Hb 12:2). Com que frequência os profetas do AT elevaram olhos inspira­ dos da angústia trazida pelo pecado para a glória final do universo purificado de todos os traços do mal! Casa de Jacó. Isto é, os descendentes de Jacó. No sentido espiritual, estes incluem todos os que creem em Cristo, quer sejam judeus ou gentios (Rm 2:25-29; Cl 3:26-29; IPe 2:9, 10; etc.). Não terá fim. Literalmente, “pelas eras” (ver com. de Mt 13:39). Os homens san­ tos da antiguidade olharam adiante para o tempo quando as coisas transitórias da Terra dariam lugar às realidades eternas. Os rei­ nos da terra que, do ponto de vista humano, geralmente parecem se elevar majestosa­ mente um após o outro, desaparecem como casas de gelo sob o sol de verão. As pessoas lutam por permanência e segurança; mas essas coisas nunca serão alcançadas até que Cristo estabeleça Seu reino, o qual nunca será destruído (Dn 2:44), que “não passará” (Dn 7:14), que será eterno (Mq 4:7; ver com. de SI 145:13). A promessa do Pai de que o reino de Seu filho deveria ser “para todo o sempre” (Hb 1:8) não era desconhecida aos judeus dos dias de Cristo (SI 45:6, 7; cf. Jo 12:34). 34. Como será isto [...]? O contexto indica que Maria creu resolutamente no 748
  23. 23. 682 LUCAS 1:35 anúncio do anjo. Numa fé simples, ela per­ guntou como ocorreria o futuro milagre. Não tenho relação. Isto é, relação sexual. Maria poderia perguntar como uma donzela pura, afirmando sua virgindade (ver com. de Mt 1:23). O modo dela de expressar esse fato é o idiomatismo hebraico comum para a castidade pré-marital (ver Gn 19:8; Jz 11:39; etc.). Como Ele faz conosco hoje, Deus primeiro deixou Maria se tornar completamente consciente do fato de que o evento antecipado estava além do poder humano, que era impossível do ponto de vista humano antes de apresentar a ela os meios pelos quais isso ocorreria. É assim que Deus nos leva a apreciar Seu poder e bondade e nos ensina a ter confiança nElc ► e em Suas promessas. A tentativa de ler um voto de virgindade perpétua nessas palavras de Maria é comple­ tamente injustificada (ver com. de Mt 1:25). Permanecer virgem perpetuamente era geralmente considerado pelos judeus como uma reprovação, não uma virtude. A inca­ pacidade de gerar filhos era sempre ocasião de desgosto e remorso por parte da esposa (ver Gn 30:1; iSm 1:4-7; etc.). A ideia de que ela permaneceu sempre virgem surgiu nos séculos posteriores, possivelmente de um sentido pervertido do que constitui a vir­ tude. Acreditar dessa forma indica que o lar, uma instituição divinamente ordenada, não representa o ideal supremo da vida social (ver com. de Mt 19:3-12). 35. O Espírito Santo. Ver com. de Mt 1:18, 20. Descerá sobre ti. Uma expressão geral- mente usada para descrever a recepção do poder do Espírito Santo (Jz 6:34; ISm 10:6; 16:13). Poder. Do gr. dynamis, "força” ou “habi­ lidade” enquanto contrastada com exousia, “poder”, no sentido de autoridade. Dynamis é normalmente usada nos evangelhos para se referir aos milagres de Cristo (Mt 11:20-23; Mc 9:39; etc.). Neste verso, o “poder do Altíssimo” é paralelo ao “Santo Espírito”, não significando, entretanto, que o Espírito Santo é apenas a expressão do poder divino, mas que Ele é o agente por meio do qual o poder divino é exercido. As palavras do anjo foram ditas no estilo hebraico poético, em que há um ritmo de pensamento, em vez de rima e métrica (ver Lc 1:32, 33, 35; ver tam­ bém vol. 3, p. 8). Filho de Deus. Neste versículo, o anjo Gabriel afirma a divindade de Jesus Cristo, ainda que a divindade seja inseparável de Sua humanidade. O Filho de Maria seria o Filho de Deus porque a concepção ocorreu pelo “poder do Altíssimo”. Desta passagem e de outras nas Escrituras alguns concluíram que o título Filho de Deus foi aplicado primeiramente a Cristo na encarnação. Outros concluí­ ram que o título é descritivo da relação pré-encarnada de Cristo com o Pai. Outros ainda consideram o termo Filho de Deus como adequadamente usado para o Cristo pré-encarnado, num sentido proléptico, ou em ligação com Seu papel no plano da salvação. Os escritores e editores deste Comentário, no entanto, não creem que as Escrituras apoiam algum desses pon­ tos de vista em linguagem clara e inequí­ voca. Assim, falar dogmaticamente sobre o assunto seria ir além do que Deus tem revelado. Neste versículo, o silêncio vale ouro. Os vários nomes e títulos dados a Cristo na Escritura são designados a auxiliar na compreensão Sua relação conosco nos vários aspectos de Sua obra salvífica. Alguns erro­ neamente aplicam esses nomes relativos à obra salvadora de Cristo em relação a Suas absolutas e eternas relações com seres sem pecado do universo. Fazer isso pode levar à falácia de aceitar a linguagem humana como uma completa e adequada expressão do mistério divino. 749
  24. 24. 683 1:36 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA As Escrituras apontam para a ressurrei­ ção como um evento que confirma o título Filho de Deus. O salmista escreveu: “Tu és Meu Filho; Eu, hoje, Te gerei” (SI 2:7). Paulo cita esta “promessa feita a nossos pais” e acrescenta imediatamente que "Deus a cum­ priu plenamente a nós, seus filhos, ressus­ citando a Jesus” (At 13:32, 33; cf. Mt 28:18; Rm 1:4; Fp 2:8-10; FIb 1:5-8). Jesus raramente Se referiu a Si próprio pelo título “Filho de Deus” (Jo 9:35-37; 10:36), embora Ele frequentemente indi­ casse a relação entre Ele e o Pai (Mt 11:27; Lc 10:21; Jo 5:18-23; 10:30; 14:28; etc.). Antes de “descer do trono do Universo” (ver DTN, 23; PP, 64), Cristo era “igual a Deus" (Fp 2:6), “um com o Pai” (DTN, 19; ver tam­ bém Jo 10:30). Na encarnação, Ele volun­ tariamente Se humilhou e assumiu uma posição subordinada ao Pai (Fp 2:7; Hb 2:9). Várias declarações de Cristo enquanto esteve na Terra testif icam de Sua renúncia voluntá­ ria e temporária de prerrogativas, embora não de natureza, à divindade (Fp 2:6-8), como quando Ele disse: “O Pai é maior que Eu” (Jo 14:28) ou "O Filho nada pode fazer de Si mesmo” (Jo 5:19; ver com. de Lc 2:49). O Pai confirmou a filiação de Cristo em Seu nascimento (Lc 1:35; FIb 1:5, 6), ► no batismo (Lc 3:22), na transfiguração (Lc 9:35) e novamente na ressurreição (SI 2:7; At 13:32, 33; Rm 1:4). João Batista também testemunhou dEle como “Filho de Deus” (Jo 1:34) e os doze O reconheceram como tal (Mt 14:33; 16:16). Mesmo os espí­ ritos maus admitiram que Ele era o Filho de Deus (Mc 3:11; 5:7). Depois de curar o homem que nasceu cego, Cristo testifi­ cou diante dos líderes que Ele era o “Filho de Deus” (Jo 10:35-37). Foi Sua afirmação de ser o “Filho de Deus” que finalmente trouxe sobre Ele a condenação e a morte (Lc 22:70, 71). Cristo Se referiu a Deus como “Meu Pai” (Mt 16:17). Ele deseja que aprendamos a conhecer a Deus como “Pai nosso” (Mt 6:9) e entendamos o que Deus pensa de nós (ver com. de Mt 6:9). “Cristo nos ensina a diri­ girmo-nos a Ele por um nome novo [...] Concede-nos o privilégio de chamar o infi­ nito Deus de nosso Pai ”, como “um sinal de nosso amor e confiança para com Ele e um penhor de Sua consideração e parentesco conosco” (PJ, 141, 142; ver também PJ, 388). De Cristo, Deus diz: “Eu Lhe serei Pai, e Ele Me será Filho” (FIb 1:5). E daquele que, pela fé, é adotado na família celestial como filho do Pai, Deus diz novamente: “Eu lhe serei Deus, e ele Me será filho" (Ap 21:7). Aquele que "é nascido de Deus”, o apóstolo João afirma, “vence o mundo” porque Cristo venceu, e “não vive em pecado” (ljo 5:4, 18). O grande objetivo do plano da salvação é levar “muitos filhos à glória" (FIb 2:10; cf. ljo 3:1, 2; ver Nota Adicional a João I; ver também com. de Mt 16:16-20; Mc 2:10; Lc 2:49). 36. Parenta. Do gr. suggenis, “parenta”. Suggenis não significa necessariamente “prima” (ARC), porque a palavra grega não indica o grau de parentesco. A lei fez provisão para casamentos entre as tribos (ver com. de Nm 36:6), e os membros das tribos de Levi e de Judá geral mente casavam entre si. Isabel era da tribo de Levi (ver com. de Lc 1:5); Maria, de Judá (ver com. dos v. 27, 32). Se Maria era de Judá, parece que o pai de Maria também seria de Judá, e é possível que a ligação de Maria e Isabel fosse por meio da mãe dela ou da mãe de Isabel. A palavra “prima” foi usada primeiramente na tradu­ ção de Wyclif, quando a palavra não tinha o significado específico que tem agora. Não há um termo exato no grego, hebraico ou aramaico para denotar o que descrevemos como uma “prima”. Uma má compreensão do problema tem levado alguns comentaris­ tas à conjectura de que Jesus seria descen­ dente tanto de Levi como de judá. Não há, no entanto, evidência para indicar que Maria 750
  25. 25. 684 LUCAS 1:39 não era descendente direta de Davi (ver com. do v. 27). Na sua velhice. Ver com. do v. 7. 37. Não haverá impossíveis. O pen­ samento deste versículo é manifestado repetidamente por toda a Escritura. A Abraão foi feita a pergunta: “Acaso, para o Senhor há coisa demasiadamente difícil?” (Gn 18:14; ver com. ali). Por meio de Isaías, Deus pro­ clamou: “Assim será a palavra que sair da Minha boca: não voltará para Mim vazia” (Ts 55:11). 38. Aqui está a serva. Não um imperativo, mas uma expressão de submissão à vontade de Deus. O assunto foi resolvido por Maria as­ sim que ficou claro para ela qual era a vontade de Deus. Em seguida, ela recebeu informação suficiente para habilitá-la a realizar sua parte de modo inteligente. Que se cumpra em mim. Maria se expressa ainda num espírito manso e sub­ misso. A delicadeza, simplicidade, pureza e dignidade naturais com que Lucas relata a história evidencia a marca do fato histórico, não de origem imaginativa. Os esforços de alguns para envergonhá-la, e de outros, para deificá-la são igualmente injustificados pelos fatos da Escritura. 39. Dispondo-se Maria. [Maria visita a Isabel, Lc 1:39-45. Ver mapa, p. 211]. A visita de Maria ao lar de Isabel ocorreu quase ime­ diatamente após o anúncio do nascimento de Jesus, porque o anúncio foi dado no sexto mês da gravidez de Isabel, e Maria permane­ ceu com ela por três meses (ver Lc 1:26, 56). Além disso, Maria viajou “apressadamente”. Naqueles dias. Isto é, logo depois do anúncio do nascimento de Jesus. À região montanhosa. Ver com. do v. 23. O relevo montanhoso de Judá estendia- ► se de Jerusalém, ao norte, até Hebrom, ao sul (ver Js 21:11). Apressadamente. Neste versículo, a expressão parece se referir não tanto à rapidez com que Maria empreendeu a viagem, mas à vontade dela de encontrar Isabel. Maria aca­ bara de ouvir um dos maiores segredos dos tempos eternos (ver Rm 16:25) e deve ter sentido um desejo intenso de conversar a respeito com alguém que a compreendesse. Ninguém estaria em melhor situação para entendê-la do que Isabel, que, segundo o anjo, experimentava em si mesma um mila­ gre. Além disso, os anos de devoção de Isabel à vontade de Deus conforme as Escrituras a capacitariam não apenas a ouvir com simpa­ tia, mas a dar orientações e conselhos valio­ sos a Maria, uma jovem que se deparava com problemas e responsabilidades maiores (ver com. do v. 7). Maria não viajou para desco­ brir se o que o anjo dissera era verdade, mas porque creu nas palavras dele. A amizade de alguém que compreende nossos sentimentos é um dos tesouros mais preciosos da vida. O valor da amizade e da comunhão cristã está além de qualquer ava­ liação. Os pais e as mães em Israel, em particular, têm uma obrigação solene de compartilhar sua experiência a respeito da vontade e dos caminhos de Deus com os mais jovens. Esses jovens, como Maria, bus­ cam conselho dos mais experientes para defi­ nir um plano de ação que trará alegria a seu coração e sucesso a seus empreendimentos. Nenhum cristão deve estar muito ocupado que não possa se relacionar com aqueles que necessitam de auxílio, se ele tiver condição de ajudá-los. Uma cidade de judá. Segundo a tra­ dição, esta era a cidade de Hebrom, a prin­ cipal dentre nove cidades atribuídas aos sacerdotes nas tribos de Simeão e “Judá” (ver Js 21:13-16; lCr 6:57-59). Este foi o primeiro território que Abraão possuiu cm Canaã (ver Gn 23:17-19) e ali Davi foi ungido rei (ver 2Sm 2:1, 4). Alguns sugerem que “Judá” deve ser uma variação ortográfica no hebraico para “Jutá” (Js 15:55; 21:16), outra cidade sacerdotal aproximadamente oito quilômetros ao sul de Hebrom. No entanto, 751
  26. 26. 1:40 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA essa identificação não é sustentada por qual­ quer evidência escriturística, histórica ou arqueológica. Além disso, Lucas se refere a Nazaré como “uma cidade da Galileia” (Lc 1:26), e parece mais provável que a expres­ são paralela, “uma cidade de Judá” fizesse de Judá uma província e não uma cidade. 40. Saudou Isabel. Maria e Isabel ime­ diatamente se viram unidas por um laço comum de simpatia. Estava evidente para Maria que o sinal dado pelo anjo (v. 36) era de fato verdadeiro, e isso confirmou sua fé. Além disso, Zacarias ainda não falava e, sua mudez que se prolongava por seis meses, confirmava a aparição do anjo a ele e servia como uma reprovação contínua a sua inicial falta de fé. 41. Estremeceu. Do gr. skirtaõ, a mesma palavra encontrada na LXX com rela­ ção a Jacó e Esaú antes do nascimento deles (Gn 25:22). Os movimentos uterinos de um bebê são muito comuns; mas, nesta ocasião Isabel, por inspiração, corretamente inter­ pretou o movimento (Lc 1:41-43) como tendo mais que um sentido comum. Isabel ficou possuída. Nesta ocasião, foi Isabel quem “ficou possuída do Espírito Santo”. O anjo contou a Maria sobre Isabel (v. 36), mas até esse momento Isabel apa­ rentemente não sabia nada sobre o ocorrido com Maria. 42. Bendita. Do gr. eulogeõ, “aben­ çoar”, derivado de eu, “bem”, e logos, “pala­ vra”. “Bendita és tu” é uma expressão baseada no costume do AT (ver jz 5:24; Rt 3:10). 43. Meu Senhor. No coração de Isabel não havia inveja de Maria, mas apenas humildade e alegria. Uma confissão de fé semelhante foi feita mais tarde por Pedro (Mt 16:16), algo que lhe ocorreu por revela­ ção. Paulo declarou que somente por meio do Espírito Santo uma pessoa pode dizer que Jesus é o Senhor (ICo 12:3). 44. De alegria. Figura de linguagem, atribuindo esta emoção ao feto. 45. Bem-aventurada a que creu. Isto é, Maria, que neste versículo é parabenizada por sua fé e pela grande honra que lhe fora -« concedida. Talvez Isabel estivesse pensando na descrença de seu esposo e na evidência do desfavor divino que resultou disso. Deus é honrado e agradado quando Seus filhos aceitam Suas promessas numa fé humilde e incondicional. “Bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20:29). Que. Do gr. hoti, que possui dois signi­ ficados básicos: “que” ou “porque”. Os dois significados fazem sentido neste versículo. 46. Disse Maria. [O cântico de Maria, Lc 1:46-56. Ver mapa, p. 211]. O dom de pro­ fecia agora parece recair sobre Maria, que fala calma e majestosamente. Todas as ideias, até mesmo suas próprias palavras, refletem o que os homens inspirados escreveram no passado. O cântico de Maria (v. 46-55) é con­ siderado um dos hinos mais sublimes de toda a literatura sacra, um poema lírico de requin­ tada beleza e digno de Davi, o antepassado dela. Ele está permeado com um espírito de humilde adoração e gratidão, e glorifica o poder, a santidade e a misericórdia de Deus. Ele expressa a emoção e a experiência pes­ soal dela enquanto meditava na mensagem do anjo Gabriel. O cântico de Maria é frequentemente designado Magnificat, “engrandece”, a partir de sua primeira palavra na Vulgata Latina. A primeira metade da canção está relacio­ nada à gratidão pessoal de Maria (v. 46-50); a segunda está ligada ao agradecimento nacio­ nal (v. 51-55). Este cântico revela o caráter de Deus e enfatiza Sua graça (v. 48), onipotên­ cia (v. 49, 51), santidade (v. 49), misericórdia (v. 50), justiça (v. 52, 53) e fidelidade (v. 54, 55). A qualidade poética do cântico se torna mais impressionante quando é impressa em forma poética. O cântico está dividido em quatro estrofes, como se segue: 1. (v. 46-48) Nestes versículos, Maria pensa primeiramente em si mesma, em seus 752 685
  27. 27. LUCAS 1:48 sentimentos de adoração e santa alegria. Ela foi escolhida e honrada acima das demais mulheres e se admira de que Deus a tenha levado em consideração e passado de largo as outras. Ela está ciente de que nada a reco­ mendaria a Deus. 2. (v. 49, 50) Nesta estrofe, Maria glo­ rifica o poder, a santidade e a misericórdia de Deus. 3. (v. 51-53) Estes versículos apresentam um nítido contraste entre os valores de cará­ ter exaltados por Deus e pelo ser humano. A concepção de Deus a respeito do que cons­ titui a verdadeira grandeza é a antítese do que o ser humano tem em consideração. 4. (v. 54, 55) O cântico de Maria termina com uma nota de gratidão pela fidelidade eterna de Deus a Seu povo escolhido. O cântico de Maria tem sido comparado ao de Ana (ver ISm 2:1-10), que foi uma ora­ ção de gratidão por Samuel. Ambos exalam fé e alegre adoração, mas o de Maria reflete, talvez, um conceito mais elevado sohre Deus. As palavras foram extraídas do melhor que os profetas haviam escrito. O cântico de Maria é também uma reminiscência do cântico de Moisés (ver Ex 15), do cântico de Débora e Baraque (ver Jz 5) e é semelhante em espírito aos Salmos 113 e 126, entre outros. Uma evidência textual (cf. p. 146) atribui este cântico a Isabel e não a Maria. Indiscutivelmente, porém, este cântico foi de Maria. O cântico de Maria reflete o pensamento das seguintes passagens do AT: Lc 1:46 (1 Sm 2:1; SI 103:1); v. 47 (ISm 2:1); v. 48 (Gn 30:13; ISm 1:11); V. 49 (Dt 10:21; SI 111:9); v. 50 (SI 103:17); v. 51 (SI 89:10); v. 52 (ISm 2:7-10; Jó 5:11; 12:19); v. 53 (ISm 2:5; SI 107:9); v. 54 (SI 98:3; is 41:8); e v. 55 (2Sm 22:51; Mq 7:20). A minha alma. Em vista do fato de que o alegre cântico de Maria é poético na forma, e porque a poesia hebraica consiste essencialmente em repetição de pensamento com palavras diferentes, parece haver pouca validade na afirmação que alguns têm feito de que há diferença entre “alma” no v. 46 e “espírito” no v. 47. Nas duas declarações, Maria está apenas se referindo a sua aprecia­ ção mental, emocional e espiritual da honra concedida a ela como mãe do Messias. Engrandece. Do gr. megalunõ, “fazer [ou declarar] grande”, “exaltar” ou “enal­ tecer”. As pessoas nada podem fazer para aprimorar a grandeza e majestade de Deus, mas com uma melhor compreensão do ca­ ráter, da vontade e dos caminhos de Deus elas deveriam estar conscientes, como Maria, de uma revelação mais gloriosa. “Engrandecer” ao Senhor significa declarar Sua grandeza. 47. Em Deus, meu Salvador. Como qualquer outro ser humano, Maria neces­ sitava de salvação. Nunca lhe ocorreu que-* ela nascera sem pecado, como argumentam alguns, em desacordo com as Escrituras. Os escritores do AT falam da “Rocha” da sua salvação (Dt 32:15; SI 95:1), do “Deus” da sua salvação (SI 24:5) e com frequência se referem a Deus como “Salvador” (Is 63:8; etc.). 48. Porque contemplou. Ao coração humilde é maravilhoso que Deus, que guia as órbitas celestiais através do espaço infi­ nito, condescenda em habitar com o “con­ trito e abatido de espírito” (ver Is 57:15). Ele não apenas observa nossa baixa condição de pecado, mas tem empregado, para nossa sal­ vação, recursos celestiais ilimitados. Humildade. Do gr. ta-peinõsis, “baixeza”, “baixa condição" ou “humilhação”. A pala­ vra se refere à modesta condição social de Maria e não ao seu espírito de humildade. No entanto, mesmo em sua “baixa condi­ ção” Maria “encontrou favor diante de Deus”, e isso foi mais valioso para ela do que todos os tesouros c toda honra e respeito que o mundo podia lhe oferecer. Considerarão bem-aventurada. Isto é, pensariam nela como feliz e honrada. 753 686

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