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J. i. packer O CONHECIMENTO DE DEUS

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J. i. packer O CONHECIMENTO DE DEUS

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J. i. packer O CONHECIMENTO DE DEUS

  1. 1. OO CCoonnhheecciimmeennttoo ddee DDeeuuss J. I. Packer Título original: “Knowing God” Tradução de Cleide Wolf e Rogério Portela 2 a Edição Editora Mundo Cristão ISBN: 85-7325-030-5 Digitalizado, Revisado e Formatado por: Skat WWW.PORTALDETONANDO.COM.BR/FORUMNOVO/
  2. 2. 2 S U MÁRI O Prefácio .......... ................................................................3 Apresentação................................................................. 8 PARTE I: CONHEÇA O SENHOR 1. O estudo de Deus.......................................................11 2. O povo que conhece seu Deus....................................18 3. Conhecer e ser conhecido ..........................................26 4. O único e verdadeiro Deus.........................................36 5. Deus encarnado .........................................................44 6. Ele dará testemunho...................................................58 PARTE II: CONTEMPLE O SEU DEUS 7. O Deus imutável........................................................66 8. A majestade de Deus..................................................74 9. Só Deus é sábio ....................................................... 81 10.A sabedoria de Deus e a nossa................................ 89 11.A tua palavra é a verdade........................................ 99 12.O amor de Deus......................................................106 13. A graça de Deus.....................................................119 14.Deus, o Juiz............................................................130 15.A ira de Deus .........................................................139 16.Bondade e severidade.............................................149 17.O Deus ciumento....................................................158 PARTE III: SE DEUS É POR NÓS... 18.O coração do Evangelho.........................................168 19.Filhos de Deus........................................................189 20.Tu, nosso guia ........................................................219 21.Estas provações íntimas..........................................233 22.A suficiência de Deus.............................................241
  3. 3. 3 P R E F Á C I O Assim como os palhaços almejam representar Hamlet, eu queria escrever um tratado sobre Deus. Este livro, porém, não chega a tanto, ainda que sua extensão possa dar essa falsa idéia. Quem pensar assim ficará desapontado. É mais uma fieira de contas: uma série de pequenos estudos sobre grandes assuntos, muitos dos quais apareceram na Evangelical Magazine [Revista Evangélica}. Embora tenham sido escritos como mensagens independentes, são agora apresentados em conjunto porque englobam uma só mensagem a respeito de Deus e de nossa vida. É seu propósito prático que explica tanto a seleção como a omissão de diversos tópicos e seu tratamento. Em A preface to Christian theology [Prefácio à teologia cristã], John Mackay1 ilustra dois tipos de interesse nos assuntos cristãos. Para isso usa a figura de pessoas sentadas na sacada de uma casa espanhola observando quem passa na rua. Eles podem ouvir a conversa dos transeuntes e mesmo conversar com eles, podem criticar seu modo de andar, ou discutir a respeito da rua: Como ela pode existir, ou para onde vai, o que 1 John Alexander Mackay (1889-1983). Ministro presbiteriano escocês (nascido em Iver-ness), foi um missionário ligado à educação (principalmente no Peru, Uruguai e México), presidente do Seminário Teológico de Princeton e líder ecumênico, proponente da Teologia do Caminho.
  4. 4. 4 poderia ser observado de diferentes pontos dela, e assim por diante; mas são apenas observadores, e seus problemas são teóricos. Os viajantes, pelo contrário, estão enfrentando problemas, que embora tenham seu ângulo teórico são essencialmente práticos — problemas do tipo "aonde ir" ou "como chegar lá", problemas que exigem não apenas compreensão, mas também decisão e ação. Observadores e viajantes podem refletir sobre o mesmo assunto, mas seus problemas diferem. Assim (por exemplo) em relação ao mal, o problema do observador é encontrar uma explicação que concilie o mal com a soberania e a bondade de Deus, enquanto o problema do viajante é como vencer o mal e se sair bem. Quanto ao pecado, o observador questiona a credibilidade da tendência humana ao pecado ou da perversidade pessoal, ao passo que o viajante, conhecendo o pecado por dentro, pergunta que esperança de libertação pode haver. Ou, em relação à divindade, enquanto o observador da sacada pergunta como é possível que um Deus seja três, que espécie de unidade pode haver em três, e como três — que são um — podem ser pessoas, os viajantes querem saber como poderão mostrar honra adequada, amor e confiança perante as três pessoas que agora estão unidas no esforço de transportá-los do pecado para a glória. Poderíamos continuar indefinidamente neste tom, mas este livro é para os viajantes e é com suas perguntas que ele lida. Foi escrito com a convicção de que a ignorância sobre Deus — ignorância tanto de seus recursos como da prática da comunhão com ele — tem relação direta com a fraqueza da igreja moderna. Duas tendências infelizes parecem ter produzido este estado de coisas. A primeira tendência é que a mentalidade cristã adaptou-se ao espírito moderno, ou seja, o que gera grandes idéias humanas e deixa espaço apenas para pequenos pensamentos sobre Deus. A atitude atual em relação a Deus é deixá-lo à distância, quando não o nega completamente. A ironia disto é que os cristãos modernos, preocupados em manter as práticas religiosas em um mundo sem religião, têm, eles mesmos, permitido que Deus se torne distante. Pessoas com uma visão mais clara das coisas, percebendo esta situação, são tentadas a se afastar da igreja, um tanto desgostosas, para buscar a Deus por si mesmas. Ninguém poderá culpá-las totalmente, pois os cristãos que buscam a Deus usando, por assim dizer, o lado errado do telescópio, reduzindo-o à proporção de um pigmeu, não podem esperar concluir seus dias senão como cristãos pigmeus. As mais esclarecidas querem naturalmente alguma coisa melhor. Além disso, pensamentos sobre a morte, a eternidade, o juízo, a grandeza da alma e as conseqüências duradouras das decisões temporais são "ultrapassados" para os modernistas. O triste é que a Igreja cristã, em lugar de levantar a voz para lembrar ao mundo o que está sendo esquecido, adquiriu o hábito de também menosprezar esses temas. Estas capitulações ao espírito moderno são realmente suicidas quando se referem à vida cristã. A segunda tendência é que a mentalidade cristã vem sendo confundida pelo ceticismo moderno. Por mais de três séculos o fermento naturalista da perspectiva renascentista tem agido como um câncer no pensamento ocidental. Os arminianos2 e os deístas3 do século xvn, assim como os socinianos4 no século xvi,
  5. 5. 5 negavam, em oposição à teologia da Reforma,5 que o controle de Deus sobre o mundo fosse direto ou total. Desde então, 2 Partidários do teólogo holandês Jacó Armínio (1560-1609), cujos escritos foram julgados postumamente pelo Sínodo de Dort (1618-1619), convocado pela Igreja Reformada Holandesa (da qual Armínio fora ministro), por negar a doutrina oficial calvinista sobre a predestinação absoluta, afirmando a incompatibilidade entre a soberania de Deus e o livre-arbítrio humano. 3 Adeptos de uma forma racionalista de explicar o relacionamento de Deus com o mundo. Costuma-se descrever o conceito deísta segundo a ilustração clássica criada por Nicolau de Oresmes (séc. XIV) de que Deus seria um "Relojoeiro", que inventou todas as engrenagens do relógio chamado Universo para trabalhar perfeitamente, deu corda e saiu para tratar de seus assuntos. 4 Seguidores de Fausto Socino (1539-1604) que negavam a divindade de Jesus, a onisciência divina e ensinavam a morte da alma. São os precursores do que se tornaria o unitarismo (séc. XVII) e a teologia aberta ou neoteísmo (séc. xx), escola de interpretação bíblica atualizada dos argumentos de Socino contra a onisciência absoluta de Deus. 5 Sucintamente descrita pela expressão "Cinco solas": Sola Scriptura (só a Escritura é a Palavra de Deus); Solus Christus (só Jesus Cristo salva mediante sua obra expiatória e substitutiva na cruz); Sola gratia (a salvação é decorrente única e exclusivamente da graça divina, sem nenhum merecimento por parte da humanidade decaída e pecadora); Sola fide (a salvação é outorgada só àqueles que têm fé, que também é dom divino) e Soli Deo gloria (todos os que foram alcançados pela mensagem exclusiva da Palavra de Deus e creram só em Jesus para a salvação, por terem sido beneficiados por Deus com sua graça e o dom da fé, darão eternamente glória e louvor exclusivos ao Senhor que os salvou).
  6. 6. 6 a teologia, a filosofia e a ciência têm em grande parte se unido para sustentar essa negativa. Como conseqüência, a Bíblia está sob fogo cerrado, assim como muitos outros marcos do cristianismo histórico. Os fatos fundamentais da fé são questionados. Deus se encontrou com Israel no Sinai? Jesus foi mais que um homem muito espiritual? Os milagres dos Evangelhos realmente aconteceram? O Jesus dos Evangelhos não será, em grande parte, uma figura imaginária? — e assim por diante. E isso não é tudo. O ceticismo a respeito da revelação divina e dos fundamentos cristãos deu margem ao questionamento mais amplo que abandona toda idéia da unicidade da verdade, e com isso qualquer esperança de unificar o conhecimento humano. Assim, é comumente aceito que minhas percepções religiosas não mantêm relação com meu conhecimento científico das coisas externas, porque Deus não está "lá fora" no mundo, mas apenas "aqui dentro" na psique. A incerteza e a confusão a respeito de Deus, características de nossos dias, são piores que qualquer ataque desde a tentativa da teosofia gnóstica6 de absorver o cristianismo no século II. É comum dizer-se hoje em dia que a teologia está mais forte que nunca, e em termos de especificação acadêmica, ou na qualidade e quantidade de livros publicados, isto talvez seja verdade. No entanto, faz muito tempo que a teologia não se apresenta tão fraca e inábil na tarefa básica de manter a Igreja dentro das realidades do Evangelho. Há noventa anos Charles Haddon Spurgeon7 descreveu como "declínio" as vacila-ções observadas então entre os batistas a respeito das Escrituras, da expiação e do destino humano. Se ele pudesse avaliar o pensamento 6 ''Conjunto de movimentos religiosos, sincréticos e esotéricos, anteriores à expansão do cristianismo, marcados pelo profundo apego ao "conhecimento secreto" (gnosis) e que misturavam misticismo e especulação filosófica. Foi um grande e perigoso adversário do cristianismo, principalmente quando gerações de cristãos provenientes do paganismo tentaram explicar suas novas crenças fazendo uso da nomenclatura e da cosmovisão gnóstica. 7 "Denominado o "Príncipe dos pregadores" (1834-1892). Nascido em Kelvendon (Grã-Bretanha), filho e neto de pregadores, Spurgeon foi um pastor batista calvinista que pregava a grandes audiências os princípios que extraía da teologia puritana. Foi um escritor prolífico e fundou também um seminário, orfanatos, sociedades assistenciais para diversas causas. Sua influência estende-se até o dia de hoje por meio de suas pregações e livros, que são impressos e distribuídos em todos os continentes.
  7. 7. 7 protestante a respeito de Deus nos tempos atuais, creio que falaria em "afundamento"! "Ponham-se na encruzilhada e olhem; perguntem pelos caminhos antigos, perguntem pelo bom caminho. Sigam-no e acharão descanso" (Jr 6:16). Eis o convite deste livro. Não se trata de uma crítica aos novos caminhos, a não ser indiretamente; pelo contrário, é um chamado direto às sendas antigas, pois "o bom caminho" é ainda o mesmo. Não peço que meus leitores pensem que conheço perfeitamente o assunto de que estou falando. "Aqueles como eu", escreveu C. S. Lewis,8 "cuja imaginação ultrapassa de longe a sua obediência, estão sujeitos a um castigo justo. Imaginamos facilmente condições muito mais elevadas que aquelas que realmente chegamos a alcançar. Se descrevermos o que imaginamos poderemos fazer com que outros, e nós, acreditemos que na verdade estivemos ali"9 — e desse modo enganamos tanto aos outros como a nós mesmos. Todos os escritores e leitores de literatura devocional fariam bem em pesar as palavras de Lewis. Entretanto, "Está escrito: 'Cri, por isso falei'. Com esse mesmo espírito de fé nós também cremos e, por isso, falamos" (2Co 4:13); e se o que aqui está escrito for útil a alguém, do mesmo modo como as minhas meditações durante este trabalho me ajudaram, esta obra terá então realmente valido a pena. JAMES I. PACKER 8 Clive Staples Lewis (1898-1963) foi escritor e estudioso. Nasceu em Belfast, Irlanda. Especialista em literatura medieval inglesa, escreveu após sua conversão sobre ficção cristã e outros temas ligados ao cristianismo. Suas obras mais conhecidas são Cristianismo puro e simples e As crônicas de Nárnia. 9 ''Os quatro amores, Col. Pensadores Cristãos, 2a . ed., São Paulo: Mundo Cristão, 1986. p. 108.
  8. 8. 8 A P R E S E N T A Ç Ã O É com entusiasmo que recomendo a leitura desta obra. Embora esta segunda edição não contemple alterações substanciais, não perde para outros livros lançados mais recentemente. Desconheço outro escritor que tenha superado a qualidade teológica e a aplicação prática que J. I. Packer imprime em O conhecimento de Deus. Jesus afirma que conhecer a Deus eqüivale à vida eterna, portanto essa deve ser a prioridade. Esse tema nunca estará "fora de moda", pois não é possível exauri- lo. Como não tirar proveito de uma leitura tão edificante e informativa! Embora a designação best-seller não signifique necessariamente que seu autor escreve muito bem ou que o assunto seja da máxima importância, vemos ambas as características nesta obra. Com mais de um milhão de exemplares vendidos em uma dúzia de línguas, O conhecimento de Deus superou minhas expectativas. Dr. James Packer é escritor talentoso. Possui mente aguda e coração ardente, qualidades que se destacam em cada página. Teólogos podem ser, às vezes, complicados e tediosos. Embora detenham extenso conhecimento acadêmico, em geral não se revelam muito hábeis em desenvolver o tema a que se propõem de modo a fascinar os leitores. Este, porém, não é o caso de J. I. Packer. O conhecimento de Deus apresenta profundidade bíblica. Ao analisar diversas passagens das Escrituras, o dr. Packer tece discussões teológicas visando a desvelar verdades e pontos de vista antes despercebidos. Acredito que pastores e mestres da Bíblia aproveitarão muitas páginas deste livro para estimular seus alunos e suas ovelhas a conhecer melhor a Deus e a sua Palavra. O conhecimento de Deus apresenta abrangência teológica. Ainda que não se trate de uma teologia sistemática, recomendo esta obra a todos os estudiosos de teologia como sua melhor fonte de conhecimento paralelo. Além de reunir muita reflexão sobre Deus e sua atuação na história, é uma ferramenta de combate contra a tendência de muitos cursos de seminários de banalizar as verdades centrais da fé e desestimular a paixão pelo Senhor. O conhecimento de Deus ajuda a esclarecer doutrinas e práticas muitas vezes pouco compreendidas e, não raro, permeadas por erros. Muitos pastores e mestres da Palavra costumam repassar ensinamentos atraentes aos ouvintes sem analisar consistentemente sua veracidade ou seus fundamentos bíblicos. Para ilustrar a relevância deste aspecto, basta mencionar a discussão do dr. Packer sobre a proibição de imagens e o perigo que representam para os cristãos evangélicos. Utilitarismo e pragmatismo desviam facilmente as igrejas do caminho. O conhecimento de Deus apresenta-se ainda como fonte de orientação ética para os que enfrentam dilemas e precisam tomar decisões condizentes com a santidade. Muitas escolhas e decisões presentes na vida dos cristãos de hoje jamais foram concebidas pelo povo de Deus de dois mil anos atrás. Os desafios da modernidade, da vida urbana e do constante bombardeio da mídia requerem sabedoria. O leitor se sentirá grandemente estimulado ao acompanhar, por exemplo, o raciocínio do dr. Packer no capítulo 10, A sabedoria de Deus e a nossa, em que se evidencia sua capacidade de contextualizar a Bíblia.
  9. 9. 9 Poderíamos mencionar muitos outros aspectos importantes e interessantes desta obra mas assim como, creio, a melhor maneira de conhecer uma iguaria é prová-la, a melhor maneira de conhecer a qualidade superior do livro O conhecimento de Deus é mergulhar em sua leitura. A Deus toda a glória! DR. RUSSELL SHEDD
  10. 10. 10 Parte I Conheça O Senhor
  11. 11. 11 O ESTUDO DE DEUS Em 7 de janeiro de 1855 o ministro da capela da rua New Park começou seu sermão matinal do seguinte modo: Já foi dito por alguém que "o estudo adequado da humanidade é o próprio homem". Não me oponho à idéia, mas creio ser igualmente verdadeiro que o estudo correto do eleito de Deus é Deus; o estudo apropriado ao cristão é a divindade. A mais alta ciência, a mais elevada especulação, a mais poderosa filosofia que possa prender a atenção de um filho de Deus é o nome, a natureza, a pessoa, a obra, as ações e a existência do grande Deus, a quem chama Pai. Nada é melhor para o desenvolvimento da mente que contemplar a divindade. Trata-se de um assunto tão vasto, que todos os nossos pensamentos se perdem em sua imensidão; tão profundo que nosso orgulho desaparece em sua infinitude. Podemos compreender e aprender muitos outros temas, derivando deles certa satisfação pessoal e pensando enquanto seguimos nosso caminho: "Olhe, sou sábio". Mas quando chegamos a esta ciência superior e descobrimos que nosso fio de prumo não consegue sondar sua profundidade e nossos olhos de águia não podem ver sua altura, nos afastamos pensando que o homem vaidoso pode ser sábio, mas não passa de um potro selvagem, exclamando então solenemente: "Nasci ontem e nada sei". Nenhum tema contemplativo tende a humilhar mais a mente que os pensamentos sobre Deus... Ao mesmo tempo, porém, que este assunto humilha a mente, também a expande. Aquele que pensa com freqüência em Deus terá a mente mais aberta que alguém que apenas caminha penosamente por este estreito globo. [...] O melhor estudo para expandir a alma é a ciência de Cristo, e este crucificado, e o conhecimento da divindade na gloriosa trindade. Nada alargará mais o intelecto, nada expandirá mais a alma do homem que a investigação dedicada, cuidadosa e contínua do grande tema da divindade. Ao mesmo tempo que humilha e expande, este assunto é eminentemente consolador. Na contemplação de Cristo existe um bálsamo para cada ferida; na meditação sobre o Pai, há consolo para todas as tristezas, e na influência do Espírito Santo, alívio para todas as mágoas.
  12. 12. 12 Você quer esquecer sua tristeza? Quer livrar-se de seus cuidados? Então, vá, atire-se no mais profundo mar da divindade; perca-se na sua imensidão, e sairá dele completamente descansado, reanimado e revigorado. Não conheço coisa que possa confortar mais a alma, acalmar as ondas da tristeza e da mágoa, pacificar os ventos da provação que a meditação piedosa a respeito da divindade. Para este assunto chamo a atenção de todos nesta manhã. Estas palavras, proferidas há mais de um século por Charles Haddon Spurgeon (que nessa época contava, inacreditavelmente, apenas 20 anos), foram verdadeiras do mesmo modo como são agora. Elas constituíram o prefácio adequado para uma série de estudos sobre a natureza e o caráter de Deus. QUEM PRECISA DE TEOLOGIA? "Mas, espere um instante", alguém objetará, "diga-me uma coisa, será realmente necessário estudar isso? Nos tempos de Spurgeon, sabemos que as pessoas achavam interessante a teologia, mas eu a considero entediante. Por que alguém precisa hoje em dia perder tempo com esse tipo de estudo que você está propondo? Com certeza, pelo menos o leigo pode passar sem isso. Afinal de contas, este é o século xxi e não o xix!". Uma pergunta justa! Mas acho que há uma resposta convincente para ela. Essa questão é levantada por alguém que pressupõe claramente a impraticabilidade e a irrelevância do estudo da natureza e do caráter de Deus para a vida. Entretanto, este é, na verdade, o projeto mais prático de que alguém poderia ocupar-se. Conhecer a Deus é crucialmente importante para nossa vida. Do mesmo modo que seria cruel levar de avião um indígena da Amazônia até São Paulo e deixá-lo, sem nenhuma explicação, sem que entendesse a língua portuguesa, em plena Praça da Sé, para que ele cuidasse da própria subsistência; assim também seríamos cruéis conosco se tentássemos viver neste mundo sem saber nada a respeito do Deus que é dono e Senhor do Universo. Para quem não conhece a Deus o mundo se torna um lugar estranho, louco, penoso, e viver nele pode ser decepcionante e desagradável. Despreze o estudo de Deus e você estará sentenciando a si mesmo a passar a vida aos tropeções, como um cego, como se não tivesse nenhum senso de direção e não entendesse aquilo que o rodeia. Deste modo poderá desperdiçar sua vida e perder a alma. Ao reconhecer, então, que o estudo de Deus tem valor, preparemo-nos para começar. Mas, por onde começar? Obviamente temos de partir de onde estamos. Isto, entretanto, significa sair em meio a uma tempestade, pois a doutrina de Deus hoje em dia está no centro de uma verdadeira tempestade. O chamado "debate sobre Deus" com seus refrões surpreendentes: "nossa imagem de Deus deve desaparecer", "Deus está morto", "podemos recitar o credo, porém não podemos confessá-lo", está ecoando a nossa volta. Dizem-nos que "dogmatizar sobre Deus" como os cristãos têm feito ao longo da história é manifestar refinada insensatez e que o conhecimento de Deus é, na realidade, uma ficção. Os tipos de ensinamento que professam tal conhecimento são rejeitados como obsoletos: calvinismo, fundamentalismo, escolástica protestante, velha ortodoxia. Que devemos fazer? Se esperarmos a tempestade passar para depois iniciarmos a jornada, pode ser que jamais a comecemos.
  13. 13. 13 Minha proposta é a seguinte: Você com certeza conhece a história de O peregrino, de Bunyan,1 e de como ele tapou os ouvidos e correu gritando: "Vida, vida, vida eterna", quando sua esposa e filhos o chamaram de volta da viagem que estava para iniciar. Peço-lhe que feche por um momento os ouvidos para quem diz não haver caminho algum que leve ao conhecimento de Deus e ande um pouco a meu lado para verificar por si mesmo. Afinal de contas, só se prova o pudim comendo-o, e qualquer pessoa que esteja realmente viajando por uma estrada conhecida não ficará preocupada se ouvir um não-transeunte dizer que tal estrada não existe. Com tempestade ou sem ela, vamos começar. Mas como organizaremos nosso curso? Cinco verdades básicas — cinco princípios fundamentais do conhecimento de Deus que os cristãos possuem — determinarão todo nosso programa, como segue: 1. Deus falou aos homens, e a Bíblia é sua Palavra, que nos foi dada a fim de nos tornar sábios para a salvação. 2. Deus é Senhor e Rei deste mundo; ele governa todas as coisas para sua glória, mostrando sua perfeição em tudo o que faz, a fim de que homens e anjos possam louvá-lo e adorá-lo. 3. Deus é Salvador, ativo em amor soberano mediante o Senhor Jesus Cristo para salvar os crentes da culpa e do poder do pecado, adotá-los como filhos e assim abençoá-los. 1 Pastor e escritor puritano, John Bunyan (1628-1688) foi preso durante doze anos por pregar sem a autorização da Igreja Anglicana. Era independente, separatista e possuía convicções batistas acerca do batismo e da Igreja. Enquanto estava aprisionado escreveu sua obra-prima: O peregrino.
  14. 14. 14 4. Deus é triúno. Há em Deus três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo; e a obra da salvação é operada pelos três ao mesmo tempo: o Pai propõe a redenção, o Filho a assegura e o Espírito a aplica. 5. Piedade significa responder à revelação de Deus com confiança, obediência, fé, adoração, oração, louvor, submissão e serviço. A vida deve ser vista e vivida à luz da Palavra de Deus. Isto, e nada mais, é a verdadeira religião. A luz dessas verdades gerais e fundamentais, vamos agora examinar com detalhes o que a Bíblia nos mostra da natureza e do caráter do Deus sobre o qual estamos falando. Nossa situação é comparável à dos viajantes que, depois de estudarem de longe uma grande montanha, andando a sua volta e observando como domina a paisagem e determina o tipo de região a seu redor, se aproximam dela, com a intenção de escalá-la. OS TEMAS BÁSICOS O que está envolvido nessa escalada? De que temas nos ocuparemos? Vamos tratar da divindade, as qualidades que separam Deus dos homens e que marcam a diferença e a distância entre o Criador e suas criaturas, qualidades como: existência própria, infinitude, eternidade e imutabilidade. Trataremos dos poderes de Deus: onisciência, onipotência e onipresença. Estaremos envolvidos com a perfeição divina, os aspectos de seu caráter moral manifestados por seus atos e palavras: santidade, amor, misericórdia, verdade, fidelidade, bondade, paciência e justiça. Precisaremos anotar o que lhe é agradável, ofensivo, o que lhe desperta ira, o que lhe dá satisfação e alegria. Para muitos de nós, estes termos não são conhecidos, mas nem sempre foi assim com o povo de Deus. Houve um tempo em que o tema dos atributos divinos (como se chamavam então) eram considerados tão importantes que foram incluídos nos catecismos ensinados a todas as crianças nas igrejas, e que todos os membros adultos deveriam saber. Assim, a quarta pergunta de O breve catecismo de Westminster— "O que Deus é?" — tem a seguinte resposta: "Deus é espírito, infinito, eterno e imutável em seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade",2 uma declaração que o grande Charles Hodge descrevia como "provavelmente a melhor definição de Deus que o homem já fez". Hoje, entretanto, poucas crianças conhecem O breve catecismo de Westminster e poucos adoradores modernos chegarão a ouvir uma série de sermões abrangendo a doutrina do caráter divino compararável com o extenso Discourses on the existence and attributes of God [Discursos sobre a existência e os atributos de Deus], de Stephen Charnock (1682).3 Poucos também terão a oportunidade de ler qualquer coisa simples e direta a respeito da natureza de Deus, pois tal tipo de publicação é bem rara atualmente. Podemos esperar, portanto, que uma exploração do tema acima mencionado traga muitas idéias novas sobre as quais pensar, e muitas novidades para serem consideradas e assimiladas.
  15. 15. 15 CONHECIMENTO APLICADO Por esta simples razão, antes de começarmos a subir nossa montanha, precisamos parar e fazer-nos uma pergunta fundamental — pergunta que, na verdade, devemos fazer sempre que nos dispusermos a estudar qualquer assunto na santa Palavra de Deus. Essa questão diz respeito a nossos motivos e intenções como estudantes. É preciso indagar de nós mesmos: Qual o alvo final e a razão de eu estar ocupando a mente com estas coisas? Que pretendo fazer com o conhecimento de Deus que vou adquirir? Pois o fato que teremos de enfrentar é este: A busca por conhecimento teológico como um fim em si mesmo talvez nos prejudique, tornando-nos orgulhosos e convencidos. A própria magnitude do assunto nos embriagará e chegaremos a pensar que somos bem melhores e superiores aos demais cristãos dado nosso interesse no assunto e a compreensão dele. Olharemos com superioridade para aqueles cujas idéias 2 São Paulo: Cultura Cristã, 2001, 6. ed., p. 10. 3 Pregador puritano (1628-1680), nascido em Londres, cujo ministério em conjunto com Thomas Watson em uma congregação presbiteriana em Bishopsgate foi marcado por suas mensagens tocantes e piedade pessoal. A data da publicação deste sermão indica seu caráter póstumo.
  16. 16. 16 teológicas nos pareçam rudes e inadequadas, pondo-as de lado com desprezo. Isso se conforma às palavras de Paulo aos presunçosos cristãos de Corinto: "O conhecimento traz orgulho [...] Quem pensa conhecer alguma coisa ainda não conhece como deveria" (1Co 8:1 b,2). Preocupar-se em adquirir conhecimento teológico como um fim em si mesmo, aproximar-se da Bíblia para estudá-la sem nenhum motivo além do desejo de saber todas as respostas é o caminho direto para o auto-engano complacente. Precisamos proteger o coração contra essa atitude e orar para que isso não aconteça. Como já vimos antes, não pode haver saúde espiritual sem conhecer a doutrina, mas é igualmente verdadeiro que ela não será alcançada com esse conhecimento, se for buscado com propósitos errados e avaliado segundo padrões falsos. Deste modo o estudo da doutrina pode se tornar um perigo para a vida espiritual; e nós hoje precisamos estar atentos a esse respeito, tanto quanto os antigos coríntios. "Mas", diz alguém, "não é um fato que o amor à verdade revelada de Deus e o desejo de saber o máximo sobre isso é normal em toda pessoa que tenha nascido de novo?". Veja o salmo 119: "Ensina-me os teus decretos", "Abre os meus olhos para que eu veja as maravilhas da tua lei", "Como eu amo a tua lei!", "Como são doces para o meu paladar as tuas palavras! Mais que o mel para a minha boca!", "dá-me discernimento para compreender os teus testemunhos" (v. 12b, 18,97A ,103,125). Não é verdade que, assim como o salmista, todo filho de Deus quer conhecer o máximo possível a respeito de seu Pai Celestial? Não é, na verdade, o fato de termos recebido "o amor à verdade" uma prova de que nascemos de novo? (v. 2Ts 2:10). E também não é justo que procuremos satisfazer ao máximo esse desejo dado pelo próprio Deus? Sim, naturalmente que sim. Mas se você se reportar ao salmo 119 verá que o interesse do salmista em obter conhecimento de Deus não era teórico, mas prático. Seu desejo supremo era conhecer e comprazer-se no próprio Deus, e considerava esse conhecimento de Deus um simples meio para alcançar um fim. Ele queria entender a verdade divina a fim de que seu coração pudesse corresponder a essa verdade e viver de acordo com ela. Observe a ênfase dada nos primeiros versículos: Como são felizes os que andam em caminhos irrepreensíveis, que vivem conforme a lei do SENHOR! Como são felizes os que obedecem aos seus estatutos e de todo o coração o buscam! [...] Quem dera fossem firmados os meus caminhos na obediência aos teus decretos (v. 1,2,5). Ele estava interessado na verdade e na ortodoxia, nos ensinamentos bíblicos e teológicos não como um fim em si mesmos, mas como meios práticos de aperfeiçoamento da vida e de santidade. Sua preocupação maior estava em conhecer e servir o grande Deus, cuja verdade procurava entender. Esta deve ser também nossa atitude. Ao estudar a divindade, nosso alvo deve ser conhecer melhor ao próprio Deus. Nosso objetivo deve ser expandir nosso conhecimento não apenas da doutrina dos atributos de Deus, mas também do
  17. 17. 17 Deus vivo a quem pertencem esses atributos. Já que ele é o tema de nosso estudo e nosso ajudador nesta tarefa, deve ser também o fim em si mesmo. Ao estudarmos Deus, devemos procurar ser conduzidos a ele. A revelação nos foi dada com esse propósito, e devemos usá-la com essa finalidade. MEDITAR SOBRE A VERDADE Como faremos isso? Como podemos transformar nosso conhecimento sobre Deus em conhecimento de Deus? A regra é simples, mas rigorosa. Devemos transformar cada verdade aprendida sobre Deus em assunto de meditação diante de Deus, conduzindo-nos à oração e ao louvor a Deus. Temos alguma idéia a respeito do significado da oração, mas o que é meditação? É uma boa pergunta, pois a meditação é uma arte esquecida hoje em dia, e o povo cristão sofre dolorosamente por ignorar sua prática. Meditação é o ato de trazer à mente as várias coisas conhecidas sobre os procedimentos, as peculiaridades, os propósitos e as promessas de Deus; pensar, deter-se nelas e aplicá-las à própria vida. É a atividade do pensamento santo, conscienciosamente apresentado diante de Deus, sob seus olhos, com seu auxílio e como meio de comunhão com ele. Seu propósito é esclarecer nossa visão mental e espiritual de Deus e deixar que sua verdade produza um impacto total na mente e no coração do indivíduo. É o modo de falar consigo mesmo a respeito de Deus e de si próprio; é, na realidade, um meio de raciocinar consigo mesmo em ocasiões de dúvida e apreensão até chegar ao claro entendimento do poder e da graça de Deus. O resultado deve ser nos humilhar, enquanto contemplamos a grandeza e a glória divinas e nossa insignificância e pecaminosidade, e nos encorajar e tranqüilizar — "confortando-nos", no velho e forte sentido bíblico da palavra —, enquanto contemplamos as riquezas insondáveis da divina misericórdia manifestada no Senhor Jesus Cristo. Estes foram os pontos salientados por Spurgeon na passagem que citamos no início, e eles são verdadeiros. À medida que penetramos mais e mais profundamente nessa experiência de sermos humilhados e exaltados, nosso conhecimento de Deus aumenta, e com ele nossa paz, força e alegria. Que Deus nos ajude a pôr em uso nosso conhecimento sobre ele, e que possamos todos, na verdade, "conhecer o Senhor".
  18. 18. 18 O POVO QUE CONHECE SEU DEUS Eu passeava ao sol com um professor que havia perdido efetivamente suas possibilidades de avanço na carreira acadêmica, por ter entrado em choque com os dignitários da Igreja a respeito do evangelho da graça. "Mas isso não tem importância", afirmou, "pois eu conheci a Deus, e eles não". Essa declaração foi um mero parêntese, um comentário a respeito de algo que eu tinha dito, mas que me ficou gravado na mente e me fez pensar. Não creio que muitos de nós possamos dizer com espontaneidade que conhecemos a Deus. Essas palavras implicam uma experiência definitiva e verdadeira, à qual, se formos sinceros, temos de admitir que somos ainda estranhos. Afirmamos isso talvez para dar testemunho e poder contar a história de nossa conversão como o melhor deles: dizemos que conhecemos a Deus — isto, afinal de contas, é o que se espera que os evangélicos digam. No entanto, será que nos ocorreria dizer, sem hesitação, e em referência a acontecimentos particulares de nossa história pessoal, que realmente conhecemos a Deus? Duvido, pois suspeito de que para a maioria de nós a experiência de Deus jamais foi assim tão vivida. Penso que muitos de nós nem poderíamos dizer com naturalidade que as decepções do passado e as tristezas do presente, como as vê o mundo, são irrelevantes quando comparadas ao conhecimento de Deus que viemos a alcançar. A realidade, porém, é que para muitos de nós elas têm significado real, são nossas "cruzes" (como as chamamos). Ficamos constantemente entristecidos, amargurados e apáticos quando nos lembramos delas, o que fazemos com freqüência. A atitude que mostramos ao mundo é um tipo de estoicismo frio, a quilômetros de distância da alegria "indizível e gloriosa" que Pedro confiava estarem sentindo todos seus leitores (lPe 1:8). "Pobres almas", nossos amigos dizem a nosso respeito, "como têm sofrido" — e é justamente isso o que sentimos! Essa tendência para fazer o papel de mártir, porém, não tem lugar na mente de quem conhece a Deus de fato. Eles nunca se preocupam com o que poderia ter sido; nunca pensam nas coisas que perderam, apenas nos ganhos. "Mas o que para mim era lucro, passei a considerar como perda, por causa de Cristo", escreveu Paulo. "Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar a Cristo e ser encontrado
  19. 19. 19 nele [...] Quero conhecer Cristo [...]" (Fp 3:7-10). Quando Paulo diz que considera "esterco" tudo o que perdeu, não só afirma que não dá nenhum valor a essas coisas, mas que tampouco permanecem constantemente em seus pensamentos. Que pessoa normal passa seu tempo sonhando nostalgicamente com esterco? Entretanto, é o que na realidade muitos de nós fazemos, e isso mostra como temos pouco conhecimento de Deus. CONHECIMENTO RETÓRICO VERSUS CONHECIMENTO REAL É necessário fazer uma auto-análise sincera neste ponto. Somos, talvez, evangélicos ortodoxos. Podemos explicar o evangelho com clareza e podemos sentir o cheiro de doutrina falsa a quilômetros de distância. Se alguém nos perguntar como os homens podem conhecer a Deus, de imediato apresentamos a fórmula certa: que chegamos ao conhecimento de Deus mediante Jesus Cristo, o Senhor, graças à cruz e a sua mediação, confiados nas promessas de sua palavra, pelo poder do Espírito Santo, por meio do exercício pessoal da fé. Entretanto, a alegria, a bondade, a liberdade de espírito, que constituem as marcas de quem conhece a Deus, são raras em nosso meio — mais raras talvez do que em outros círculos cristãos, onde, se fizermos uma comparação, a verdade do evangelho não é conhecida com tanta clareza e tão completamente. Aqui também pareceria que os últimos poderiam ser os primeiros e os primeiros, os últimos. Um pequeno conhecimento de Deus vale bem mais que um grande conhecimento a respeito dele. Para salientar melhor este ponto, quero dizer duas coisas: 1. Pode-se saber bastante sobre Deus sem conhecê-lo muito. Tenho a certeza de que muitos de nós nunca pensamos realmente nisto. Descobrimos em nós um profundo interesse pela teologia (que é, por sinal, uma ssunto dos mais fascinantes e intrigantes — no século xvii era o passatempo de todos os cavalheiros). Lemos livros de exposição teológica e apologética; aprofundamo-nos na história cristã e estudamos o credo cristão; aprendemos a descobrir nosso caminho nas Escrituras. Outros apreciam nosso interesse por essas coisas e somos convidados a dar nossa opinião em público a respeito de diversas questões cristãs, a dirigir grupos de estudo, escrever artigos, fazer conferências e geralmente aceitar responsabilidade, formal ou informal, de agir como mestres e árbitros da ortodoxia em nosso círculo cristão. Nossos amigos nos dizem como apreciam essa contribuição e isso nos leva a explorar mais ainda as verdades de Deus, de modo a podermos atender às exigências que nos fazem. Tudo isso é muito bom. Entretanto, o interesse em teologia — conhecimento sobre Deus — e a capacidade de pensar com clareza e falar bem sobre temas cristãos não são o mesmo que conhecer a Deus. Podemos saber tanto quanto Calvino a respeito de Deus — na verdade, se estudarmos suas obras com diligência, cedo ou tarde isso vai acontecer —, contudo durante todo o tempo (ao
  20. 20. 20 contrário de Calvino) saberemos bem pouco a respeito de Deus. 2. Pode-se saber bastante sobre piedade sem ter muito conhecimento de Deus. Isso depende dos sermões ouvidos, dos livros lidos e do círculo de amigos. Nesta era analítica e tecnológica não faltam livros nas bibliotecas das igrejas, nem sermões nos púlpitos sobre como orar, testemunhar, ler a Bíblia, dar ó dízimo, ser um jovem cristão, ser um velho cristão, ser um cristão feliz, tornar-se consagrado, levar pessoas a Cristo, receber o batismo do Espírito Santo (ou, em alguns casos, como evitar esse batismo), falar em línguas (ou como explicar satisfatoriamente a manifestação do Pentecostes) e geralmente como cumprir todo o programa que os professores em questão associam com a vida do crente. Tampouco faltam biografias narrando as experiências dos cristãos do passado para nosso exame atento e interessado. Independentemente do que se diga sobre a questão, é certamente possível aprender muito, de segunda mão, sobre a prática cristã. Além disso, se alguém tiver uma boa dose de senso comum pode fazer uso do que aprendeu para ajudar cristãos vacilantes, de temperamento menos estável, a readquirir firmeza e desenvolver o senso analítico quanto a suas dificuldades, ganhando deste modo para si mesmo a reputação de bom pastor. Entretanto, alguém pode ter tudo isso e não conhecer realmente a Deus. Voltamos, então, ao ponto em que começamos. Não está em jogo a questão de sermos bons em teologia, ou "equilibrados" (palavra horrível e pretensiosa), em nossa abordagem dos problemas da vida cristã. O caso é este: podemos dizer, com simplicidade e franqueza, não porque sentimos ser nosso dever como evangélicos, mas por tratar-se de um fato real, que conhecemos a Deus, e que por esse conhecimento os despra-zeres que tivemos ou os prazeres que não tivemos, pelo fato de sermos cristãos, não nos afetam? Se conhecêssemos realmente a Deus, seria isto o que estaríamos dizendo, e se não o fazemos, significa que precisamos encarar com mais precisão a diferença entre conhecer a Deus e o mero conhecimento sobre ele. EVIDÊNCIA DO CONHECIMENTO DE DEUS Dissemos que quando um homem conhece a Deus as perdas e as "cruzes" deixam de ter importância; o que ele ganhou simplesmente afasta-lhe da mente essas coisas. Que outros efeitos o conhecimento de Deus produz nos homens? Várias partes das Escrituras respondem a esta pergunta apresentando diferentes pontos de vista, mas talvez a resposta mais clara e direta seja aquela encontrada no livro de Daniel. Podemos resumir esse testemunho em quatro proposições: 1. Os que conhecem a Deus têm grande força por meio dele. Em um dos capítulos proféticos de Daniel lemos: "o povo que conhece ao seu Deus se esforçará e fará proezas" (11:32; ARC). A versão revista e atualizada diz: "o povo que conhece ao seu Deus se tornará forte e ativo". No contexto esta definição inicia com "mas" e faz o contraste entre a atividade do "ser desprezível" (v. 21)
  21. 21. 21 que estabelecerá o "sacrilégio terrível" e corromperá com palavras suaves e lisonjas aqueles cuja lealdade ao Deus da aliança tenha falhado (v. 31,32). Isto nos mostra que aquele que conhece a Deus toma a atitude de reagir à tendência antideus que vê operando a seu redor. Não consegue descansar enquanto seu Deus é desafiado ou desprezado, sente que precisa fazer alguma coisa. A desonra imposta ao nome de Deus o impele à ação. É exatamente isso que vemos acontecer nos capítulos de Daniel, onde são narradas as "proezas" do profeta e de seus três amigos. Eram homens que conheciam a Deus e, em conseqüência, sentiam-se compelidos, de tempos em tempos, a posicionar-se ativamente contra as convenções e os preceitos da irreligião e da falsa religião. Daniel, em particular, mostra-se incapaz de relevar esse tipo de situação; sente-se obrigado a desafiá-la abertamente. Em lugar de correr o risco de tornar-se ritualmente impuro ao consumir as iguarias do palácio, ele insiste em uma dieta vegetariana, para grande consternação do chefe dos oficiais da corte (1:8-16). Quando Dario proibiu, sob pena de morte, que fossem feitas orações durante um mês, Daniel não só continuou orando três vezes ao dia, voltado para Jerusalém, como também o fazia diante de uma janela aberta, de modo que qualquer pessoa pudesse ver o que estava fazendo (6:10). Isto me fez lembrar o bispo Ryle1 inclinando-se para a frente em 1 John Charles Ryle (1816-1900), ministro ordenado da Igreja Anglicana, foi indicado em 1880 o primeiro bispo da recém-criada diocese de Liverpool (Inglaterra). Escritor prolífico de livros de caráter devocional, suas obras refletem profunda influência puritana. Era extremamente zeloso pela sã doutrina em uma época em que sua igreja havia posto de lado a própria confissão de fé denominada Trinta e nove artigos de religião.
  22. 22. 22 seu assento na Catedral de São Paulo para que todos pudessem ver que ele não se virava para o leste na hora do credo! Tais gestos não devem ser mal interpretados. Não é que Daniel, ou o bispo Ryle, fossem pessoas desagradáveis ou intratáveis que tivessem prazer na rebelião e só se sentissem felizes se provocassem acintosamente o governo. Significa apenas que quem conhece seu Deus é sensível às situações em que a verdade e a honra de Deus são direta ou tacitamente prejudicadas. Assim, em vez de, por negligência, deixar que tudo continue como está, força a atenção dos homens para o assunto e procura levá-los a mudar de atitude — mesmo que possa sofrer algum risco pessoal. Essa força por Deus não se resume em atitudes públicas, na realidade também não começa aí. Os homens que conhecem seu Deus são, antes de tudo, homens de oração, e o primeiro ponto em que seu zelo e sua força para a glória de Deus são expressos é nas orações. Em Daniel 9, lemos como o profeta, ao entender "pelas Escrituras" que o tempo do cativeiro de Israel estava chegando ao fim e compreendendo igualmente que o pecado da nação ainda era tal que poderia levar Deus a condená-la em vez de ter misericórdia, decidiu-se a buscar a Deus "com orações e súplicas, em jejum, em pano de saco e coberto de cinza" (v. 3). Daniel orou pela restauração de Jerusalém com veemência, paixão e agonia de espírito às quais muitos de nós somos completamente estranhos. Ainda mais, o fruto invariável do verdadeiro conhecimento de Deus é a força para orar pela causa divina — força, na verdade, que só poderá encontrar saída e alívio da tensão interna quando canalizada em tal tipo de oração. Quanto maior o conhecimento, maior a energia! Este pode ser um teste para nós. Talvez não estejamos em posição de realizar atos públicos contra a incredulidade e a apostasia; talvez sejamos velhos ou doentes, ou de algum modo limitados por nossa condição física. Todos, porém, podemos orar a respeito da incredulidade e apostasia que nos rodeia diariamente. Se, entretanto, houver pouca energia nessa oração e, conseqüentemente, pouca prática, é com certeza o sinal de que ainda conhecemos bem pouco nosso Deus. 2. Os que conhecem a Deus pensam grandes coisas sobre ele. Não há espaço suficiente aqui para reunir tudo o que o livro de Daniel nos diz sobre a sabedoria, o poder e a verdade do grande Deus que comanda a história e mostra sua soberania em atos de condenação e misericórdia para com indivíduos e nações, de acordo com sua vontade. É suficiente dizer que não há talvez em toda a Bíblia outra apresentação mais vivida ou firmada dos muitos aspectos da realidade da soberania de Deus. Em face do poder e do esplendor do Império Babilônico, que engolfou a Palestina, e da perspectiva de outros grandes impérios mundiais que se seguiriam, minimizando Israel segundo qualquer padrão humano de cálculo, o livro todo relembra de forma dramática que o Deus de Israel é Rei dos Reis e Senhor dos Senhores. Lembra também que "os Céus dominam" (4:26); que a mão de Deus está na história em todos os momentos; que a história, na verdade, não é nada mais que "sua história", o desdobramento de seu plano eterno, e que o reino triunfante, no final, será o reino de Deus.
  23. 23. 23 A verdade central — que "o Altíssimo domina sobre os reinos dos homens" (4:25; cf. 5:21) — foi ensinada por Daniel a Nabucodonosor nos capítulos 2 e 4, e também a Belsazar no capítulo 5 (v. 18-23), verdade essa que Nabucodonosor reconheceu no capítulo 4 (v. 34-37) e que Dario confessou no capítulo 6 (v. 25- 27). Ela também foi a base para as orações de Daniel nos capítulos 2 e 9 e de sua confiança ao desafiar a autoridade nos capítulos 1 e 6, e de seus amigos, que agiram do mesmo modo no capítulo 3. Essa verdade se constituiu na matéria- prima de toda a revelação que Deus fez a Daniel nos capítulos 2,4,7,8,10,11 e 12. Deus sabe e prevê todas as coisas, e sua presciência é predestinação. Ele, portanto, terá a última palavra, tanto na história como no destino de cada homem; seu reino e sua justiça finalmente triunfarão, pois nem os homens, nem os anjos poderão opor-se a ele. Eram esses os pensamentos sobre Deus que tomavam a mente de Daniel, como testemunham suas orações (sempre a melhor evidência da idéia que o homem tem de Deus): Louvado seja o nome de Deus para todo o sempre; a sabedoria e o poder a ele pertencem. Ele muda as épocas e as estações; destrona reis e os estabelece. Dá sabedoria aos sábios [...] conhece o que jaz nas trevas, e a luz habita com ele" (2:20,21,22). Ó Senhor, Deus grande e temível, que manténs a tua aliança de amor com todos aqueles que te amam e obedecem aos teus mandamentos [...] Senhor, tu és justo [...] O Senhor nosso Deus é misericordioso e perdoador [...] O SENHOR, O nosso Deus, é justo em tudo o que faz [...] (9:4,7,9,14). É assim que pensamos sobre Deus? É essa a idéia de Deus que nossas orações expressam? Será que essa tremenda consciência de siia santa majestade, perfeição moral e graciosa fidelidade nos mantém humildes e dependentes, respeitosos e obedientes, como acontecia com Daniel? Por este teste podemos também medir quanto ou quão pouco conhecemos a Deus. 3. Os que conhecem a Deus são ousados por causa dele. Daniel e seus amigos eram homens que aceitavam riscos. Isso não era temeridade. Eles sabiam o que estavam fazendo, tinham calculado o preço e considerado o perigo. Sabiam qual seria o resultado de suas ações, a menos que Deus misericordiosamente interferisse — o que, por sinal, ele fez. Mas isto não os perturbava. Uma vez convencidos de que sua atitude estava certa e que a lealdade a Deus assim exigia, como disse Oswald Chambers,2 eles "sorridentes lavavam as mãos quanto às conseqüências". "É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens!", disseram os apóstolos (At 5:29). "Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão-somente puder terminar a 2 Ministro escocês (1874-1917) que veio à fé pela instrumentalidade das pregações de Charles H. Spurgeon, bastante conhecido por seus escritos devocionais. Sua principal obra é Tudo para ele.
  24. 24. 24 corrida", disse Paulo (At 20:24). Era esse precisamente o espírito de Daniel, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, e é também o espírito de todos os que conhecem a Deus. Ainda que possam achar terrivelmente difícil essa determinação de seguir o caminho certo, uma vez decididos, aceitam-na ousadamente e sem hesitação. Não lhes importa se outros que pertencem ao povo de Deus vejam o assunto de modo diferente e não tomem posição com eles (Sadraque, Mesaque e Abede-Nego foram os únicos judeus que se negaram a adorar a imagem de Nabucodonosor? Nenhuma das palavras ditas por eles e que foram registradas sugerem que soubessem do fato ou que ao menos se importassem com isso. Seu curso de ação estava claro para eles, e isso lhes bastava). Com este teste podemos também medir nosso conhecimento de Deus. 4. Os que conhecem a Deus têm grande alegria nele. Não existe paz comparável à da pessoa que tem a mente imbuída da plena certeza de conhecer a Deus, e de que Deus o conhece. Este relacionamento garante o favor de Deus na vida, na morte e para sempre. Esta é a paz da qual Paulo fala em Romanos 5:1: "Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo", e cuja substância ele analisa completamente em Romanos 8: Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus [...] O próprio Espírito testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus. Se somos filhos, então somos herdeiros [...] Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam [...] aos que justificou, também glorificou [...] Se Deus é por nós, quem será contra nós? [...] Quem fará alguma acusação contra os escolhidos de Deus? [...] Quem nos separará do amor de Cristo? [...] Pois estou convencido de que nem a morte nem vida [...] nem o presente nem o futuro [...] será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor (v. 1,16, 17,28,30,31,33,35,38,39). Esta é a paz que Sadraque, Mesaque e Abede-Nego conheciam; Essa era a razão do contentamento e da calma com que firmaram sua posição diante do ultimato de Nabucodonosor (Dn 3:15): "[...] Mas, se não a adorarem, serão imediatamente atirados numa fornalha em chamas. E que deus pode livrá-los das minhas mãos?". A resposta deles (3:16-18) é clássica: "Não precisamos defender-nos diante de ti" (Sem medo!). "... o Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos, e ele nos livrará das tuas mãos, ó rei" (cortês, mas indiscutível — eles conheciam seu Deus!). "Mas se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos teus deuses" (não importa! Não faz diferença! Vivendo ou morrendo, eles estavam contentes). As tuas mãos dirigem meu destino, Ó Deus de amor, bom é que seja assim! Teus são os meus poderes, Minha vida, em tudo, eterno Pai, dispõe de mim!
  25. 25. 25 Meus dias sejam curtos ou compridos, Passados em tristeza ou prazer, Em sombra ou luz é tudo como queres, E é tudo bom, se vem do teu querer. A extensão de nosso contentamento é outro critério pelo qual podemos julgar se conhecemos a Deus de verdade. PRIMEIROS PASSOS Desejamos tal conhecimento de Deus? Então, vejamos duas condições: Primeiramente, precisamos reconhecer como é pequeno nosso conhecimento sobre Deus. Precisamos aprender a nos medir, não pelo nosso conhecimento de Deus, nem pelos dons e pelas responsabilidades que tenhamos na igreja, mas pelo modo como oramos e por aquilo que vai em nosso coração. Muitos de nós, creio, não têm idéia de quão pobres somos neste sentido. Peçamos que Deus nos mostre isso. Em segundo lugar, precisamos buscar o Salvador. Quando ele estava na terra convidava os homens a acompanhá-lo; desse modo vinham a conhecê-lo e, conhecendo-o, conheciam o Pai. O Antigo Testamento registra manifestações do Senhor Jesus Cristo antes da encarnação, fazendo o mesmo — acompanhando os homens, como o anjo do Senhor, a fim de que pudessem conhecê-lo. O livro de Daniel conta dois fatos que parecem ser dois desses exemplos — pois quem era o quarto homem que "se parece com um filho dos deuses" (3:25), e passeava com os três amigos de Daniel na fornalha? E quem era o anjo que Deus mandou para fechar a boca dos leões quando Daniel estava na cova dos leões (6:22)? Embora o Senhor Jesus Cristo agora não esteja presente em corpo, espiritualmente isso não faz diferença; ainda podemos encontrar e conhecer a Deus buscando e achando sua companhia. Os que buscarem o Senhor Jesus até encontrá-lo — pois a promessa é que se o buscarmos de todo o coração com certeza o encontraremos — poderão levantar-se diante do mundo para testificar que conhecem a Deus.
  26. 26. 26 CONHECER E SER CONHECIDO Para que fomos feitos? Para conhecer a Deus. Que alvo devemos estabelecer para nós na vida? Conhecer a Deus. O que é a "vida eterna" dada por Jesus? O conhecimento de Deus. "Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (Jo 17:3). Qual é a melhor coisa na vida, que traz alegria, prazer e contentamento acima de todas as outras? O conhecimento de Deus. "Assim diz o SENHOR: 'Não se glorie o sábio em sua sabedoria nem o forte em sua força nem o rico em sua riqueza, mas quem se gloriar, glorie-se nisto: em compreender-me e conhecer-me, pois eu sou o SENHOR" (Jr 9:23, 24a). Das situações em que Deus vê o homem, qual lhe dá mais prazer? O conhecimento dele. "... quero [...] conhecimento de Deus, mais do que holocaustos", diz Deus (Os 6:6; RA). Dissemos muitas coisas nestas poucas sentenças. O ponto que queremos evidenciar é aquele que aquece o coração de cada cristão, embora o adepto da religião apenas formal não seja afetado por ele. (Justamente por este fato evidencia sua condição não-regenerada.) O que dissemos proporciona instantaneamente o alicerce, a forma e o alvo de nossa vida, além de um princípio de prioridades e uma escala de valores. Uma vez que você se convença de que a principal razão de sua estada aqui é conhecer a Deus, muitos dos problemas da vida se enquadrarão devidamente. O mundo está cheio de vítimas do mal devastador que Albert Camus1 denominou absurdismo ("a vida é uma piada sem graça") e da doença que chamaremos "febre de Maria Antonieta"2 ("nada tem gosto"), já que foi ela que encontrou essa frase para descrevê-la. Essas enfermidades prejudicam toda uma vida: tudo de repente se torna um problema e um aborrecimento, porque nada parece valer a pena. Mas os vermes do absurdismo e a "febre de Maria Antonieta" são doenças às quais, pela própria natureza, o cristão está imune, exceto por momentos ocasionais de perturbação, quando o poder da tentação deforma-lhe a mente; mas estes, graças a Deus, não duram muito. O que dá valor à vida é ter um grande objetivo, alguma coisa que prenda nossa imaginação e conserve nossa fidelidade; e isto o cristão tem como ninguém. Pois haverá objetivo mais alto, mais exaltado e mais estimulante que conhecer a Deus?
  27. 27. 27 De outro ponto de vista, entretanto, ainda não dissemos muita coisa. Quando falamos sobre conhecer a Deus, usamos uma fórmula verbal, e as fórmulas são como cheques, não têm nenhum valor a menos que saibamos como sacá-los. Sobre o que falamos ao usar a expressão conhecer a Deus? Sobre certo tipo de emoção? Arrepios na espinha? Um sentimento irreal, como em um sonho? A sensação de entorpecimento e euforia procurada pelos viciados em drogas? Ou conhecer a Deus é um tipo de experiência intelectual? Ouvimos vozes? Temos visões? Pensamentos estranhos começam a passar pela mente? Ou o quê? Estes assuntos devem ser discutidos especialmente porque, segundo as Escrituras, trata- se de uma área na qual é fácil ser enganado, e às vezes se pensa conhecer a Deus quando 1 Filósofo de origem argelina (1913-1960), radicado na França. Foi um dos principais proponentes do existencialismo. Seus livros são marcados pela visão desesperançada e niilista da condição humana. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1957. 2 Mulher de Luís xvi, rei da França. De ascendência austríaca (1755-1793), era odiada por muitos franceses. Conhecida por sua vida regalada e por debochar dos desafortunados, foi guilhotinada durante a Revolução Francesa.
  28. 28. 28 isso não é verdade. Perguntamos então: que tipo de atividade, ou acontecimento pode ser propriamente descrito como "conhecer a Deus"? O QUE O CONHECIMENTO DE DEUS ENVOLVE Logo de início está claro que "conhecer" a Deus é necessariamente um assunto mais complexo que "conhecer" uma pessoa, assim como "conhecer" meu vizinho é mais complexo que "conhecer" uma casa, um livro ou uma língua. Quanto mais complexo o assunto, mais difícil é obter conhecimento sobre ele. Conhecer algo inanimado, como o Ben Nevis3 ou o Museu Britânico, é possível mediante a inspeção e a exploração. Essas atividades, embora exigentes em termos de esforço concentrado, são relativamente fáceis de descrever. Quando se trata, porém, de coisas vivas, conhecê-las se torna muito mais complicado. Não se conhece realmente algo vivo enquanto não se souber, além da história passada, como costuma reagir e se comportar em certas circunstâncias. Uma pessoa que diz "Eu conheço este cavalo" normalmente não está indicando apenas que "já o viu antes" (embora possa ter só esse significado). O mais provável, entretanto, é que a pessoa queira dizer: "Conheço o comportamento dele e posso dizer-lhe como deve ser conduzido". Tal conhecimento só ocorre depois de algum contato anterior com o cavalo, vendo-o em ação e tentando conduzi-lo. No caso de seres humanos, a situação é mais complicada ainda, porque, diversamente dos cavalos, as pessoas fazem segredo e não mostram aos outros tudo o que lhes vai no coração. Poucos dias são suficientes para conhecer completamente um cavalo, mas você pode passar meses e anos convivendo com outra pessoa e ainda dizer: "Eu realmente não a conheço bem". Reconhecemos graus de conhecimento acerca de nossos semelhantes; nós os conhecemos "bem", "não muito bem", "só nos cumprimentamos", "intimamente" ou "pelo avesso", de acordo com o grau de abertura deles para conosco. Assim, a qualidade e a extensão de nosso conhecimento sobre outras pessoas depende mais delas que de nós. Nosso conhecimento é mais o 3 A montanha mais alta da Escócia (Reino Unido), com 1 343 metros.
  29. 29. 29 resultado da permissão para que as conheçamos que de nosso esforço nesse sentido. Quando nos encontramos, devemos dar-lhes nossa atenção e demonstrar interesse, manifestando boa vontade e nos abrindo de maneira amigável. A partir desse ponto, entretanto, são as outras pessoas que decidem se vamos chegar a conhecê-las ou não. Imagine agora que seremos apresentados a alguém que sentimos ser "superior" a nós, quer em posição, distinção intelectual, habilidade profissional, santidade pessoal quer de outro modo qualquer. Quanto mais consciência tivermos de nossa inferioridade maior será a sensação de que nosso papel é apenas ouvir respeitosamente e deixar que a pessoa tome a iniciativa da conversa. (Pense em um encontro com a rainha da Inglaterra ou com o presidente do Brasil.) Gostaríamos de conhecer pessoas assim importantes, mas sentimos que isso depende mais da decisão delas que da nossa. Se elas se restringirem ao protocolo, não poderemos reclamar, ainda que fiquemos desapontados, pois, afinal, não tínhamos nenhum direito a sua amizade. Mas se, ao contrário, elas começarem a fazer confidências e a falar francamente o que pensam sobre assuntos comuns, se nos convidarem para algum programa particular que tenham planejado e pedir que estejamos permanentemente disponíveis para esse tipo de colaboração sempre que precisarem de nós, então nos sentiremos tremendamente privilegiados e nossa perspectiva mudará completamente. Se a vida até então parecia sem importância e monótona, não o será mais, agora que essas grandes personagens nos incluíram entre seus assistentes pessoais. Que grande novidade para transmitir à família — e uma boa razão pela qual viver! Respeitadas as diferenças, esta é uma ilustração do que significa conhecer a Deus. O poderoso e justo Deus disse por meio de Jeremias: "mas quem se gloriar, glorie-se nisto: em compreender-me e conhecer-me..." (Jr 9.24a) — pois conhecer a Deus é um relacionamento capaz de fazer vibrar o coração humano. O que acontece é que o Criador todo-poderoso, o Senhor dos Exércitos, o grande Deus diante de quem as nações são como uma gota no oceano, se aproxima de você e começa a falar-lhe por meio das palavras e verdades das Sagradas Escrituras. Talvez você já conheça a Bíblia e as verdades cristãs há muito tempo, mas não tenham muito significado. Um dia, porém, você desperta para o fato de que Deus está realmente falando com você — você! — por meio da mensagem bíblica. Enquanto você ouve as palavras de Deus, sente-se cada vez mais diminuído, pois Deus lhe fala sobre seu pecado, sua culpa e sua fraqueza, sua cegueira e sua insensatez e o leva a considerar-se sem esperança e indefeso, e a implorar por perdão. Mas isto não é tudo. À medida que ouve, você compreende que Deus está realmente lhe abrindo o coração dele, tornando-se seu amigo e aceitando-o como companheiro — segundo a expressão de Barth, um parceiro da aliança. É um fato desconcertante, mas verdadeiro — o relacionamento em que seres humanos pecaminosos conhecem a Deus é tal que Deus, por assim dizer, os aceita como seus assistentes para serem daí por diante seus cooperadores (v. 1Co 3:9) e amigos pessoais. O ato divino de tirar José da prisão e torná-lo primeiro- ministro do Faraó ilustra o que ele faz com todo cristão: de prisioneiro de
  30. 30. 30 Satanás, vê-se transferido a uma posição de confiança a serviço de Deus. Sua vida é transformada imediatamente. A diferença entre sentir orgulho ou vergonha da condição de servo depende daquele a quem se serve. Muitas pessoas falaram do orgulho de prestar serviços pessoais a sir Winston Churchill na Segunda Guerra Mundial. Quão maior deveria ser o orgulho e a glória de conhecer e servir ao Senhor do céu e da terra! O que então está contido no ato de conhecer a Deus? Juntando os vários elementos incluídos neste relacionamento, já delineados, podemos dizer que o conhecimento de Deus envolve inicialmente o ato de ouvir a Palavra de Deus e recebê-la de acordo com a interpretação do Espírito Santo ao aplicá-la a nós. Em segundo lugar, prestar atenção à natureza e ao caráter de Deus revelados em sua Palavra e obra; em terceiro lugar, aceitar seu convite e obedecer a suas ordens e, em quarto lugar, reconhecer o amor demonstrado por Deus e alegrar-nos nele. Com isso, o Senhor se aproxima de nós e nos atrai para sua divina companhia. CONHECER JESUS A Bíblia complementa essas idéias usando figuras e analogias. Ela nos fala que conhecemos a Deus como o filho conhece seu pai, a esposa seu marido, o súdito seu rei e a ovelha seu pastor (estas são apenas quatro das muitas analogias usadas). Todas mostram a relação em que o conhecedor "procura" aquele que é conhecido, e este se responsabiliza pelo bem-estar daquele. Isto faz parte do conceito bíblico de conhecer a Deus; os que o conhecem — isto é, os que ele permite que o conheçam — são amados e cuidados por ele. Falaremos mais adiante sobre este assunto. A Bíblia acrescenta, então, outro ponto: só podemos conhecer a Deus deste modo, mediante o conhecimento de Jesus Cristo, que é Deus manifestado na carne: "... não me conhece ...? ... Quem me vê, vê o Pai", "Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim" (Jo 14:9,6). É importante, portanto, que tenhamos bem claro na mente o que significa conhecer Jesus Cristo! Para os discípulos que conviveram com Jesus, conhecê-lo era diretamente comparável ao conhecimento do grande homem de nossa ilustração. Os discípulos eram simples galileus, sem nenhuma razão especial de interesse por Jesus. Mas Jesus, o mestre que falou com autoridade, o profeta que era mais do que profeta, o Senhor que despertou neles crescente respeito e devoção até que o reconheceram como seu Deus, os encontrou, chamou-os a si, confiou neles e os designou como seus agentes para proclamar ao mundo o Reino de Deus. "Escolheu doze, designando-os apóstolos, para que estivessem com ele, os enviasse a pregar" (Mc 3:14). Eles reconheceram quem os havia escolhido e chamado de amigos como "o Cristo, o Filho do Deus vivo" (Mt 16:16), o homem nascido para ser rei, o portador das "palavras de vida eterna" (Jo 6:68). O senso de lealdade e privilégio que este conhecimento trouxe transformou completamente a vida deles. Quando o Novo Testamento fala que Jesus Cristo ressuscitou, um dos significados desta declaração é que a vítima do Calvário está agora, por assim dizer, livre. Qualquer pessoa, em qualquer lugar pode desfrutar do mesmo tipo de
  31. 31. 31 relacionamento com ele que os discípulos tiveram durante o tempo em que viveu entre nós. As únicas diferenças são estas: primeira, sua presença entre os cristãos não é física, mas espiritual e, portanto, invisível aos olhos físicos. Segunda, baseado no testemunho do Novo Testamento, o cristão, desde o início, sabe as verdades sobre a divindade e o sacrifício de Jesus que os primeiros discípulos foram aprendendo gradualmente no decorrer dos anos. Terceira, Jesus não fala agora conosco mediante palavras novas, mas aplica a nossa consciência suas palavras registradas nos evangelhos, junto com todo o testemunho bíblico a seu respeito. Conhecer Jesus permanece uma relação definida de discipulado pessoal, como o foi para os doze quando ele estava na terra. O Jesus que anda pelas histórias do Evangelho também anda com os cristãos agora, e conhecê-lo significa seguir com ele, tanto agora como antes. "As minhas ovelhas ouvem a minha voz", diz Jesus, "eu as conheço, e elas me seguem" (Jo 10:27). Sua "voz" é sua afirmação, sua promessa e seu chamado: "Eu sou o pão da vida [...] a porta das ovelhas [...] o bom pastor [...] a ressurreição" (Jo 6:35; 10:7,14; 11:25). "... Aquele que não honra o Filho, também não honra o Pai que o enviou. Eu lhes asseguro: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna..." (Jo 5:23b, 24a). "Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim [...] e vocês encontrarão descanso..." (Mt 11:28,29). A voz de Jesus é "ouvida" quando sua afirmação é reconhecida, quando cremos em sua promessa e respondemos a seu chamado. Desse momento em diante, Jesus passa a ser conhecido como pastor, e os que confiam nele são reconhecidos por ele como suas ovelhas. "[...] eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna, e elas jamais perecerão; ninguém as poderá arrancar da minha mão" (Jo 10:27,28). Conhecer a Jesus é ser salvo por ele do pecado, da culpa e da morte, nesta vida e na vida futura.
  32. 32. 32 UMA QUESTÃO PESSOAL Recordando agora o que foi dito sobre o significado de "que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste", podemos destacar os seguintes pontos: Primeiro, conhecer a Deus é uma questão pessoal, como acontece com qualquer relacionamento humano. Conhecê-lo é mais que obter conhecimento sobre ele; é relacionar-se com ele enquanto se revela a você; é ser dirigido por ele à medida que toma conhecimento de você. Conhecê-lo é uma precondição para confiar nele ("E como alguém pode ter fé no Senhor se não ouvir falar dele?" [Rm 10:14; VFL]), mas a extensão de nosso conhecimento a seu respeito não pode servir de medida para a profundidade desse conhecimento. John Owen4 e João Calvino5 sabiam mais teologia do que John Bunyan ou Billy Bray,6 mas quem poderá negar que os últimos conheciam seu Deus tão bem quanto os primeiros? (Os quatro, é claro, eram profundos pesquisadores da Bíblia, o que vale mais que qualquer conhecimento teológico). Se o fator decisivo fosse o conhecimento da doutrina, naturalmente os maiores estudiosos da Bíblia conheceriam a Deus melhor que os outros. Mas não é isso o que acontece; você pode guardar na mente a doutrina correta, sem jamais provar em seu coração suas realidades. O simples leitor da Bíblia e ouvinte de sermões cheio do Espírito 4 Ministro puritano, nascido em Stadham, Inglaterra (I6l6-1683). Uma das mentes mais brilhantes de sua época. Dissidente do anglicanismo, serviu como capelão de Oliver Cromwell apesar de sua simpatia pelas igrejas independentes (mais próximas do con-gregacionalismo). Suas obras mais famosas são: Por quem Cristo morreu? e A display of arminianism. 5 Reformador e teólogo francês (1509-1564), foi o grande condensador do pensamento protestante. Famoso por suas publicações, das quais se destacam As institutas da religião cristã e seus comentários bíblicos, Calvino foi ainda o maior defensor da doutrina agostiniana da predestinação. Aliás, todo o sistema das doutrinas da graça passou a ser designado calvinismo. Foi também o responsável pela modernização de Genebra (Suíça), cidade na qual ajudou a reformar não só a Igreja, como o próprio Estado. 6 William Trewartha Bray (1794-1868) nasceu em Twelveheads, Inglaterra. Pregador metodista, famoso por seu estilo pessoal pouco convencional para a época (sempre pregava gritando, pulando e batendo palmas), não possuía educação formal, e seu ministério se deu entre os trabalhadores de minas de sua região. Um verdadeiro exemplo de alegria no Senhor e de devoção pessoal a Cristo.
  33. 33. 33 Santo desenvolverá um relacionamento mais profundo com seu Deus e Salvador que o estudioso mais erudito que se contenta apenas por estar teologica-mente correto. A razão disto é que o primeiro entrará em contato com Deus a respeito da aplicação prática da verdade em sua vida, enquanto o último não terá essa preocupação. Segundo, conhecer a Deus é uma questão de envolvimento pessoal que abrange a mente, a vontade e os sentimentos. Caso contrário, não seria um relacionamento completo de fato. Para conhecer outra pessoa você precisa envolver-se com seus interesses, procurar sua companhia e estar pronto a se identificar com suas preocupações. Sem isso seu relacionamento com ela será apenas superficial e insípido. "Provem, e vejam como o SENHOR é bom", diz o salmista (Sl 34:8). "Provar", como bem sabemos, é "experimentar" um pedaço de alguma coisa com a intenção de apreciar o sabor. Um prato pode parecer delicioso e ser bem recomendado pelo cozinheiro, mas não saberemos suas reais qualidades enquanto não o provarmos. Do mesmo modo não conheceremos as reais qualidades de alguém enquanto não tivermos "experimentado" sua amizade. Os amigos estão, figuradamente, comunicando sabores um ao outro todo o tempo, seja quando compartilham atitudes (pense nas pessoas que se amam) seja em relação a interesses comuns. À medida que abrem o coração um ao outro, pelo diálogo ou pelas ações, um "prova" as qualidades do outro, na alegria ou na tristeza. Eles se identificaram com as preocupações mútuas, envolvendo-se, portanto, pessoal e emocionalmente nelas. Sentem e pensam um no outro. Trata-se de um aspecto essencial do conhecimento entre amigos, e o mesmo se aplica ao conhecimento do cristão sobre Deus, o qual, como já vimos, é em si mesmo um relacionamento entre amigos. O lado emocional do conhecimento de Deus tem sido constantemente desestimulado nos últimos tempos, por medo de desenvolver uma introversão piegas. É verdade que não existe nada mais irreligioso que a religião ensimesmada. É preciso salientar constantemente que Deus não existe para nosso conforto, nossa felicidade, nossa satisfação, ou para nos proporcionar "experiências religiosas", como se isso fosse o mais interessante e importante na vida. É necessário também destacar que se qualquer pessoa, baseando-se em "experiências religiosas", disser: '"Eu o conheço', mas não obedece aos seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele" (1Jo 2:4; cf. v. 9,11; 3:6,11; 4:20). Mas, apesar de tudo isso, não devemos desprezar o fato de que o conhecimento de Deus é uma relação emocional, assim como intelectual e volitiva, e não seria de fato um relacionamento profundo entre duas pessoas se não houvesse emoção. O cristão é, e deve ser, emocional-mente envolvido nas vitórias e vissicitudes da causa de Deus no mundo, como os auxiliares imediatos de sir Winston Churchill estavam envolvidos com as oscilações da guerra. O cristão se alegra quando Deus é honrado e vindicado e sente profunda angústia quando o vê escarnecido. Quando Barnabé chegou a Antio-quia "vendo a graça de Deus, ficou alegre" (At 11:23), ao contrário do salmista, que escreveu
  34. 34. 34 "Rios de lágrimas correm dos meus olhos, porque a tua lei não é obedecida" (Sl 119:136). Do mesmo modo, o cristão sente vergonha e tristeza quando se convence de ter negado seu Senhor (v., p. ex.: Si 51 e Lc 22:61,62), e de tempos em tempos conhece enlevos de alegria quando Deus de alguma maneira lhe faz sentir a glória do seu eterno amor com o qual tem sido amado ("vocês estão cheios de uma alegria radiante que não pode ser descrita com palavras", lPe 1:8; VFL). Este é o lado emocional e experimental da amizade com Deus. Por mais verdadeiros que sejam os pensamentos do ser humano sobre Deus, se ele ignorar essa parte emocional, na realidade, não conhece o Deus que lhe ocupa a mente. Em terceiro lugar, conhecer a Deus é uma questão de graça. Trata-se de um relacionamento cuja iniciativa pertence completamente a Deus — como deve ser mesmo, pelo fato de ele estar tão acima de nós e de termos perdido totalmente qualquer direito a seu favor por causa de nossos pecados. Nós não fazemos amizade com Deus; ele se torna nosso amigo levando-nos a conhecê-lo e tornando seu amor conhecido por nós. Paulo expressa esta idéia da prioridade da graça em nosso conhecimento de Deus quando escreve aos gálatas: "Mas agora, conhecendo a Deus, ou melhor, sendo por ele conhecidos" (Gl 4:9). O que transparece nesta frase é a compreensão por parte do apóstolo de que a graça veio primeiro e permanece fundamental na salvação dos leitores dele. O conhecimento de Deus era conseqüência de ter Deus tomado conhecimento deles. Eles o conhecem pela fé porque ele os havia escolhido primeiro pela graça. "Conhecer", quando usada em relação a Deus, é uma palavra da graça soberana e mostra que ele tomou a iniciativa de amar, escolher, redimir, chamar e preservar. Que Deus está perfeitamente consciente a nosso respeito, "conhecendo- nos pelo avesso" por assim dizer, é com certeza parte do significado, como se vê pelo contraste entre nosso conhecimento incipiente de Deus e seu perfeito conhecimento sobre nós em 1Coríntios 13:2; mas não é o significado principal, pois este realmente surge nas passagens que se seguem: O SENHOR disse a Moisés [...] porque tenho me agradado de você e o conheço pelo nome (Êx 33:17). Antes de formá-lo [Jeremias] no ventre eu o escolhi; antes de você nascer, eu o separei (Jr 1:5). Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem [...] e dou a minha vida pelas ovelhas [...] As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço [...] jamais perecerão (Jo 10:14,15,27,28). Aqui o conhecimento de Deus sobre os seus está associado ao propósito da graça salvadora. É um conhecimento que implica afeição pessoal, ação redentora, fidelidade à aliança e proteção providencial para os conhecidos de Deus. Em outras palavras, isto implica salvação, agora e para sempre, como já aludimos anteriormente.
  35. 35. 35 SER CONHECIDO Portanto, o que importa realmente, em última análise, não é o fato de que conheço a Deus, mas uma idéia muito mais ampla está subentendida — o fato de que ele me conhece. Estou gravado nas palmas de sua mão, e nunca estou longe de seu pensamento. Todo o meu conhecimento dele depende de sua iniciativa contínua de me conhecer. Eu o conheço porque ele me conheceu primeiro e continua a fazê-lo. Ele me conhece como amigo — alguém que me ama muito e cujos olhos e atenção jamais se afastam de mim. Por nenhum momento seu cuidado me faltará. Estamos falando de um conhecimento significativo. Há um conforto indescritível — o tipo de conforto que nos estimula, seja dito, e não debilita — em saber que Deus está constantemente atento a mim com amor, e velando por mim para meu benefício. Há um alívio tremendo em saber que seu amor é profundamente realista. Cada ponto baseia-se no conhecimento prévio do que há de pior sobre mim, de modo que agora nada pode desapontá-lo a meu respeito — como acontece muitas vezes comigo, pois estou sempre me desiludindo sobre mim mesmo —, nem extinguir sua determinação de me abençoar. Há, certamente, grande motivo de humilhação em pensar que ele vê tudo o que há de errado em mim que outros não vêem (e isto me alegra!), e que ele vê mais corrupção do que eu mesmo vejo em mim (o que, em sã consciência, é bastante). Há, entretanto, igualmente um grande incentivo para adorar e amar a Deus porque, por alguma razão inson-dável, ele me quer por amigo, e quer ser meu amigo, pois entregou seu Filho para morrer por mim a fim de cumprir esse propósito. Não podemos desenvolver essas idéias aqui, mas sua simples menção já basta para mostrar como é importante saber não apenas que conhecemos a Deus, mas que ele nos conhece.
  36. 36. 36 O ÚNICO E VERDADEIRO DEUS O que a palavra idolatria lhe sugere? Selvagens prostrados diante de um poste- ídolo? Estátuas com faces cruéis nos templos hinduístas? Danças religiosas dos sacerdotes de Baal ao redor do altar levantado por Elias? Tudo isto clara e certamente é idolatria, mas precisamos pensar na existência de formas bem mais sutis de idolatria. Veja o segundo mandamento. Ele diz "Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás culto, porque eu, o SENHOR, O teu Deus, sou Deus zeloso..." (Êx 20:4,5). Sobre o que este mandamento está falando? Se ele estivesse isolado, seria natural supor sua referência à adoração de imagens de outros deuses além de Jeová — os ídolos da Babilônia, por exemplo, que Isaías ridicularizou (Is 44:9; 46:1), ou o paganismo do mundo greco-romano dos tempos de Paulo, sobre os quais ele escreveu em Romanos 1:23-25: "e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes, e répteis [...] Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em lugar do Criador...". Em seu contexto, porém, é pouco provável que o segundo mandamento esteja se referindo a este tipo de idolatria, pois se assim fosse só repetiria o pensamento do primeiro mandamento sem lhe acrescentar nada. Assim, tomamos o segundo mandamento — como tem sido sempre feito — como indicativo do seguinte princípio (citando Charles Hodge): "... a idolatria consiste não só no culto a falsos deuses, mas também no culto ao verdadeiro Deus através de imagens".1 Na aplicação cristã isto quer dizer que não devemos fazer uso na adoração de nenhuma representação visual ou pictó-rica do Deus triúno, nem das pessoas da Trindade. O mandamento não se refere ao objeto de nossa adoração, mas à maneira como esta é feita; nenhuma estátua ou figura daquele que adoramos deve ser usada como auxílio à adoração. O PERIGO DAS IMAGENS À primeira vista parece estranho que tal proibição esteja colocada entre os dez
  37. 37. 37 princípios básicos da religião bíblica, pois não vemos, de imediato, muita razão para isso. Que mal pode haver, perguntamos, se o adorador rodear-se de estátuas e quadros se eles o ajudam a elevar o coração a Deus? Acostumamo-nos a tratar o tema sobre se tais objetos devem ser usados ou não, como uma questão de temperamento e gosto pessoal. Sabemos que muitas pessoas possuem crucifixos e figuras de Cristo no quarto. Dizem que olhar para esses objetos ajuda-as a focalizar os pensamentos em Cristo. Sabemos que muitas pessoas se julgam capazes de adorar com mais liberdade e facilidade em igrejas cheias desses ornamentos que em igrejas sem eles. Bem, que há de errado nisso? Que mal esses objetos podem causar? Se as pessoas os acham realmente úteis, que mais há para dizer? Que propósito há em proibi-los? Diante dessa perplexidade, alguém poderá sugerir que o segundo mandamento se aplica apenas a representações imorais ou degradantes de Deus, tiradas dos cultos pagãos, e a nada 1 Teologia sistemática, São Paulo: Hagnos, 2001, p. 1 239.
  38. 38. 38 mais. Mas as palavras do mandamento eliminam tal suposição. Deus diz categoricamente: "Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem" para ser usada em adoração. Essa afirmação categórica proíbe não apenas o uso de figuras e estátuas representando Deus como animal, mas também o uso de figuras e imagens que o representam como a mais elevada criatura que conhecemos — o homem. Proíbe também o uso de figuras e imagens de Jesus Cristo como homem, embora o próprio Jesus tenha sido e permaneça homem. Toda figura ou imagem é necessariamente produzida à "semelhança" do homem ideal, como o imaginamos, e portanto está sob a proibição imposta pelo mandamento. Ao longo da história, os cristãos têm divergido a respeito da proibição do segundo mandamento, de vetar o uso de figuras de Jesus com propósitos didáticos e instrutivos (por exemplo, na escola dominical). Embora a questão não seja fácil de resolver, não há dúvida de que o segundo mandamento nos obriga a dissociar a adoração tanto pública como particular de qualquer figura ou estátua de Jesus, como de qualquer representação de seu Pai. Neste caso, que razão há afinal para essa proibição tão ampla? Pela ênfase dada ao próprio mandamento com as assustadoras sanções ligadas a ele (proclamando o zelo de Deus, punindo com severidade os transgressores), supõe-se que deve ser de importância crucial. Mas será realmente? A resposta é sim. A Bíblia mostra que a glória de Deus e o bem espiritual do homem estão diretamente ligados ao mandamento. Duas linhas de pensamento se nos apresentam e juntas poderão explicar amplamente por que este mandamento deve ser tão enfaticamente destacado. Estas linhas de pensamento não se referem ao auxílio real ou alegado das imagens, mas à verdade delas. São as seguintes: 1. As imagens desonram a Deus, pois obscurecem sua glória. A semelhança das coisas celestes (sol, lua, estrelas), terrestres (homens, animais, pássaros, insetos) e marítimas (peixes, mamíferos, crustáceos) não corresponde exatamente à semelhança de seu Criador. "A verdadeira imagem de Deus", escreveu Calvino, "não é encontrada em nenhuma parte do mundo; conseqüentemente [...] sua glória é profanada, e sua verdade corrompida pela mentira, sempre que ele nos é apresentado de forma visível [...]. Portanto, projetar qualquer imagem de Deus é por si só irreverência, porque mediante essa corrupção sua majestade é adulterada, e ele é representado de modo diferente da realidade".2 O ponto aqui não é apenas que a imagem representa Deus com corpo e membros, o que na realidade ele não tem. Se fosse apenas esta a base da objeção às imagens, as representações de Cristo não seriam erradas, mas a realidade é muito mais profunda. O cerne da objeção às figuras e imagens está no fato de ocultar inevitável e quase totalmente a verdade sobre a natureza pessoal e o caráter do Ser divino representado. Para ilustrar: Aarão fez um bezerro de ouro (isto é, a imagem de um boi). Com a intenção de manter um símbolo visível de Jeová, o Deus poderoso que havia tirado Israel do Egito. Não há dúvida de que a intenção era honrar a Deus, criando um símbolo de sua grande força. Entretanto não é difícil ver que esse símbolo é um insulto a Deus, pois que idéia
  39. 39. 39 de seu caráter moral, justiça, bondade e paciência poderia ser depreendida da observação de sua imagem retratada por um boi? A imagem de Aarão escondeu a glória de Jeová. De modo semelhante, as impressões exteriores geradas pelo crucifixo obscu- recem a glória de Cristo, pois ofuscam sua divindade, a vitória na cruz e a realidade do Reino. Ele aponta apenas a fraqueza humana, porém esconde sua força divina; representa a exatidão da dor, mas não mostra a realidade de sua alegria e força. Em ambos os casos o símbolo perde valor pelo que deixa de transmitir. O mesmo acontece com as outras representações visuais da divindade. 2 João CALVINO, Harmony of the law, v. 2, http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom04.iii.i.i.html.
  40. 40. 40 Não importa o que pensemos a respeito da arte religiosa do ponto de vista cultural, não devemos olhar para as representações divinas à procura de sua glória e de estímulo à adoração, pois na verdade sua glória jamais é encontrada nesses quadros. Por isso Deus acrescentou sobre si no segundo mandamento a referência "zeloso" e vingador de quem não lhe obedece, pois o "ciúme" de Deus, na Bíblia, é seu zelo em manter a própria glória, posta em jogo quando imagens são usadas na adoração. Em Isaías 40:18, depois de haver declarado vivamente a grandeza incomensurável de Deus, a Escritura pergunta: "Com quem vocês compararão Deus? Como poderão representá-lo?". A indagação não espera resposta, apenas o silêncio reservado. Seu propósito é lembrar o absurdo e a impiedade de pensar que a imagem modelada necessariamente à semelhança de alguma criatura possa ter paridade com o Criador. Esta não é a única razão pela qual somos proibidos de usar imagens na adoração. 2. As imagens enganam os homens ao projetar idéias falsas a respeito de Deus. A representação inadequada perverte nossos pensamentos sobre Deus e nos incute na mente erros de todos os tipos sobre seu caráter e sua vontade. Ao representar a imagem de Deus na forma de bezerro, Aarão levou os israelitas a pensar nele como um Ser que podia ser adorado por meio de devassidão frenética. Conseqüentemente, a "festa dedicada ao SENHOR" organizada por Aarão (Êx 32:5) transformou-se em orgia vergonhosa. Ainda mais, a história provou com fatos que o uso do crucifixo como auxílio à oração levou o povo a equiparar a devoção com a meditação sobre os sofrimentos corporais de Cristo. Isso os tornou mórbidos em relação ao valor espiritual da dor física, impedindo-os de conhecer o Salvador ressurreto. Estes exemplos mostram como as imagens falsificaram a verdade divina na mente humana. Do ponto de vista psicológico é correto afirmar que, se os pensamentos estiverem constantemente focalizados na imagem ou figura do ser a quem as orações são dirigidas, você pensará nele e orará a ele conforme a representação da imagem. Assim, neste sentido você estará "se curvando" e "adorando" sua imagem. A medida que essa imagem falha em representar a verdade sobre Deus, você também deixará de adorá-lo em verdade. Esta é a razão pela qual Deus proíbe o uso de imagens e figuras como auxílio à adoração. IMAGENS ESCULPIDAS E IMAGENS MENTAIS A compreensão de que imagens e figuras de Deus afetam nossos pensamentos sobre ele sinaliza um campo mais avançado da aplicabilidade da proibição do segundo mandamento. Ele tanto nos proíbe de fazer imagens de Deus como de criá-las mentalmente. Imaginar pode ser uma infração tão real do segundo mandamento quanto idealizá-lo mediante o trabalho manual. Ouvimos muitas vezes expressões como esta: "Eu gosto de pensar em Deus como o grande Arquiteto (Matemático, Artista)". "Eu não penso em Deus como
  41. 41. 41 juiz: gosto depensar nele simplesmente como Pai". Sabemos por experiência como essas expressões servem de prelúdio à negação de algum ensinamento bíblico a respeito de Deus. É necessário afirmar com a maior ênfase possível que quem se considera livre para pensar em Deus como gosta infringe o segundo mandamento. Na melhor das hipóteses, pode pensar em Deus apenas como homem — talvez o homem ideal ou um super-homem —, mas Deus não é igual a nenhum tipo humano. Embora tenhamos sido feitos a sua imagem, não podemos pensar em Deus de acordo com ela. Pensar em Deus desse modo é mostrar ignorância a respeito dele, e não conhecimento. Toda teologia especulativa, baseada em arrazoados filosóficos e não na revelação bíblica, erra nesse ponto. Paulo nos conta onde termina esse tipo de teologia: "[...] o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana" (1Co 1:21b). Seguir a imaginação de alguém no campo da teologia é o modo de manter-se ignorante a respeito de Deus e tornar-se idólatra — o ídolo neste caso seria a falsa imagem mental de Deus criada pela especulação e imaginação humanas. Tendo em vista este fato, o propósito positivo do segundo mandamento torna- se claro. Negativamente, é uma exortação à adoração e à prática religiosa que desonram a Deus e falsificam sua verdade. Positivamente, ele nos convoca a reconhecer que Deus, o Criador, é transcendente, misterioso e inescrutável, além do alcance de qualquer conjectura filosófica. Daí a convocação para nos humilharmos, ouvi-lo e aprender dele; assim, ele mesmo nos ensinará como é e como devemos pensar sobre ele. "Os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês", ele nos diz, "nem os seus caminhos são os meus caminhos [...] Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os seus pensamentos" (Is 55:8,9). Paulo fala do mesmo modo: "Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e inescrutáveis os seus caminhos! Quem conheceu a mente do Senhor?" (Rm 11:33,34). Deus não é parecido conosco. Sua sabedoria, seus objetivos, sua escala de valores e seu modo de proceder diferem tanto do nosso que não temos possibilidade de comparar nossos caminhos com os dele nem inferi-los pela analogia do homem ideal. Não podemos conhecê-lo a menos que ele se pronuncie e nos fale sobre si mesmo. Na realidade, ele tem falado. Falou aos profetas e apóstolos — e por meio deles — e tem falado nas palavras e atos de seu Filho. Mediante sua revelação, disponível nas Sagradas Escrituras, podemos formar a noção verdadeira sobre Deus; sem essa revelação jamais conseguiríamos. Parece, portanto, que a força positiva do segundo mandamento está na exigência de formar nossos conceitos so- bre Deus com base em sua santa Palavra, e em nada mais. Pelo modo como foi enunciado, parece claro ser este o impulso positivo do mandamento. Tendo proibido a produção e a adoração de imagens, Deus se declarou "zeloso" ao punir não apenas os adoradores de imagens, mas todos os
  42. 42. 42 que o "odeiam", isto é, quem desobedece a seus mandamentos de forma geral. Pelo contexto, seria natural e esperada a ameaça apenas aos idólatras; por que então a ameaça divina é generalizada? Certamente é para percebermos que quem faz imagens e as utiliza na adoração inevitavelmente extrai delas sua teologia, incluindo a negligência de todos os pontos da vontade de Deus revelada. A mente que admite imagens não aprendeu ainda a amar e a ouvir a Palavra de Deus. Quem espera ser guiado a Deus por imagens feitas pelos homens, materiais ou mentais, por certo não leva a sério como deveria nenhuma parte de sua revelação. Em Deuteronômio 4, o próprio Moisés interpreta a proibição de imagens na adoração exatamente desse modo, contrapondo a fabricação de imagens à atenção aos mandamentos e à palavra de Deus, como se ambas fossem mutuamente excludentes. Ele lembra ao povo que, embora tivessem visto sinais da presença divina no Sinai, não contemplaram nenhuma representação visível do próprio Deus, apenas ouviram sua palavra. Moisés os exorta a continuar vivendo como se estivessem ao pé da montanha, com a própria palavra de Deus ecoando-lhes nos ouvidos para dirigi-los, e sem nenhuma suposta imagem de Deus para distraí-los. A idéia é clara. Deus não lhes apresentou nenhum símbolo visível de si mesmo, mas falou com eles; portanto, agora eles não deveriam procurar símbolos visíveis de Deus, mas simplesmente obedecer a sua Palavra. Caso se diga que Moisés estava com medo de que os israelitas tomassem emprestados modelos de imagens das nações idólatras a sua volta, nossa resposta é sem dúvida positiva. Este é exatamente o ponto: todas as imagens de Deus feitas pelos homens, sejam esculpidas ou mentais, são realmente emprestadas do mundo ímpio e pecador, e com certeza não estão de acordo com a santa Palavra do próprio Deus. Fazer uma imagem dele é buscar inspiração em recursos humanos e não em Deus; este é realmente o erro da produção de imagens. OLHANDO PARA O VERDADEIRO DEUS A questão suscitada por esta linha de pensamento é: Até que ponto estamos guardando o segundo mandamento? Por certo não temos imagens de bezerros em nossas igrejas e talvez nem crucifixos em casa (embora possamos ter alguma figura de Cristo na parede — sobre a qual deveríamos pensar com cuidado redobrado). No entanto, mas temos certeza de que o Deus que adoramos é o Deus da Bíblia, o Jeová triúno? Adoramos o único e verdadeiro Deus? Ou nossa concepção dele demonstra a realidade de não crermos no Deus do cristianismo, mas em outra divindade professada por muçulmanos, judeus ou testemunhas de Jeová? Você talvez se pergunte: Como posso saber? Bem, o teste é este: O Deus da Bíblia falou através de seu Filho. A luz do conhecimento de sua glória nos é dada na face de Jesus Cristo. Será que olho habitualmente para a pessoa e para a obra do Senhor Jesus Cristo como a revelação da verdade final sobre a natureza e a graça de Deus? Vejo todos os propósitos de Deus centralizados nele? Se fui capacitado para ver isto e, na mente e no coração, ir até o Calvário e

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