RURIS: Revista do centro de estudos rurais - Volume 2 - Número 2 - Setembro 2008

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RURIS • REVISTA DO CENTRO DE ESTUDOS RURAIS é uma publicação do Centro Interno de Estudos Rurais (Ceres), do Instituto de Filosofi a e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH/Unicamp), cuja proposta é apresentar e discutir resultados de pesquisas realizadas em contextos nacionais e internacionais que envolvam atores e situações relacionados ao mundo rural, de forma a trazer para o leitor temas e questões que emergem dos processos sociais contemporâneos. A revista, seguindo o caráter interdisciplinar do Ceres, publica trabalhos inéditos realizados no âmbito de diferentes campos do conhecimento.

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RURIS: Revista do centro de estudos rurais - Volume 2 - Número 2 - Setembro 2008

  1. 1. ruris4-correções.indd 1 20/10/2008 11:12:57
  2. 2. RURIS • REVISTA DO CENTRO DE ESTUDOS RURAIS é uma publicaçãodo Centro Interno de Estudos Rurais (Ceres), do Instituto de Filosofia eCiências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH/Unicamp),cuja proposta é apresentar e discutir resultados de pesquisas realizadasem contextos nacionais e internacionais que envolvam atores e situaçõesrelacionados ao mundo rural, de forma a trazer para o leitor temas e questõesque emergem dos processos sociais contemporâneos. A revista, seguindo ocaráter interdisciplinar do Ceres, publica trabalhos inéditos realizados noâmbito de diferentes campos do conhecimento.Editores ANA CAROLINA BAZZO DA SILVA, ANA PAULA FRAGA BOLFE, CARMENSILVIA ANDRIOLLI, CRISTIANO RAMALHO, EMÍLIA PIETRAFESA DE GODOI,FERNANDA DE FREITAS GONÇALVES, FERNANDO ANTONIO LOURENÇO, JOSÉCARLOS ALVES PEREIRA, JULIANA BIONDI GUANAIS, MARIANA MIGGIOLAROCHAGURI, MARISA BARBOSA ARAUJO LUNA, NASHIELI RANGEL LOERA, SENILDEALCÂNTARA GUANAES, THAIS TARTALHA DO NASCIMENTO, VANDA APARECIDASILVA, VANDERCI RUSCHEL, VERENA SEVÁ NOGUEIRAComissão Editorial (Ceres/IFCH/Unicamp) EMÍLIA PIETRAFESA DE GODOI,FERNANDO ANTONIO LOURENÇO, MAURO WILLIAM BARBOSA DE ALMEIDA,NEUSA MARIA MENDES DE GUSMÃO, SONIA BERGAMASCOConselho Editorial AFRÂNIO GARCIA JÚNIOR (CRBC/EHESS – Paris),ALDENOR GOMES DA SILVA (UFRN), ALFREDO WAGNER BERNO DE ALMEIDA(Ufam), ANDREA CIACCHI (UFPB), ANDRÉ PIRES (PUC – Campinas), ANTONIOCARLOS DIEGUES (Nupaub/USP), ARIOVALDO UMBELINO DE OLIVEIRA (USP),CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (Unicamp), DARLENE AP. DE OLIVEIRA FERREIRA(Unesp), EDGARD MALAGODI (UFCG), EDSON LUIS BOLFE (Embrapa/Unicamp), ELIANE DA FONTE (UFPE), ELIDE RUGAI BASTOS (Unicamp), ELLENWOORTMANN (UnB), ERIC SABOURIN (Cirad – França), GUADALUPE RODRÍGUEZGÓMEZ (Ciesas – México), JOÃO DE PINA CABRAL (Universidade de Lisboa),JOHN CORDEL (Nupaub/USP), JOSÉ MACHADO PAIS (Universidade de Lisboa),JOSÉ MAURÍCIO ARRUTI (Cebrap), JOSÉ SÉRGIO LEITE LOPES (Museu Nacional),JOSEFA SALETE B. CAVALCANTI (UFPE), LEONILDE S. DE MEDEIROS (UFRRJ),LÍGIA MARIA OSÓRIO SILVA (Unicamp), LYGIA SIGAUD (Museu Nacional),MANOELA CARNEIRO DA CUNHA (Universidade de Chicago), MOACIR PALMEIRA(Museu Nacional), MARIA DE NAZARETH BAUDEL WANDERLEY (UFPE), MARIAAPARECIDA DE MORAES SILVA (Unesp), MARIA DO LIVRAMENTO (UFRN), MARIAJOSÉ CARNEIRO (UFRRJ), MARIA TEREZA D. P. LUCHIARI (Unicamp), MARILDAAPARECIDA DE MENEZES (UFCG), NEIDE ESTERCI (UFRJ), NEUSA MARIAMENDES DE GUSMÃO (Unicamp), RENATA MEDEIROS PAOLIELLO (Unesp),RUBEM MURILO LEÃO REGO (Unicamp), RUSSEL PARRY SCOTT (UFPE), SIMONEMALDONADO (UFPB), SONIA BERGAMASCO (Unicamp)Parecerista ad hoc deste número ELISA GUARANÁ DE CASTRO (UFRRJ), JOSÉMARCOS PINTO DA CUNHA (Unicamp), MÔNICA CASTAGNA MOLINA (UnB)Projeto gráfico ANA BASAGLIADiagramação RAFAEL FRANCO COELHOCapa VITOR LOURENÇOPreparação dos originais e revisão final VILMA APARECIDA ALBINOImpressão GRÁFICA DA UNICAMPruris4-correções.indd 2 20/10/2008 11:12:58
  3. 3. ruris4-correções.indd 3 20/10/2008 11:12:58
  4. 4. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)Ruris: Revista do Centro de Estudos Rurais / Universidade Estadualde Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. v. 2, n. 2.(2008). Campinas: Unicamp/IFCH, 2008.242 p.2008 (2)ISSN 1980-1998Título da capa: Ruris. Revista do Centro de Estudos Rurais1. Sociologia rural. 2. Desenvolvimento rural – Aspectos sociais.3. Agricultura – Aspectos ambientais. 4. População rural – Aspectosantropológicos. I. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filo-sofia e Ciências Humanas. Centro de Estudos Rurais. II. Título.CDD – 307.72ruris4-correções.indd 4 20/10/2008 11:12:58
  5. 5. "Este número de Ruris é dedicado à professora Vera Graziano"ruris4-correções.indd 5 20/10/2008 11:12:58
  6. 6. ruris4-correções.indd 6 20/10/2008 11:12:58
  7. 7. SUMÁRIOARTIGOSOS “TRONCOS VELHOS” E OS “QUILOMBINHOS” . . . . . . . . . . . . . 11MEMÓRIA GENEALÓGICA, TERRITÓRIO E AFIRMAÇÃO ÉTNICA EM BOA VISTA DOSNEGROS (RN)Julie A. CavignacA EDUCAÇÃO NO CAMPO E A SUA REALIDADE . . . . . . . . . . . . . . 43POR UM NOVO PATAMAR DE DISCUSSÃOAna Lúcia ValenteEDUCAÇÃO, GÊNERO E OS PROJETOS DE VIDA DOSJOVENS RURAIS DE BAIXADA DE SALINAS (RJ) . . . . . . . . . . . . . . 71Jorge Luiz de Goes PereiraA IGREJA CATÓLICA, O SINDICATO DOSTRABALHADORES RURAIS E O ESTADO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99MEDIAÇÃO E CONFLITO NA REGIÃO ARAGUAIA PARAENSEAirton dos Reis PereiraAGRICULTURA ORGÂNICA, REPRESENTAÇÃO TERRITORIAL EREPRODUÇÃO SOCIAL DA AGRICULTURA FAMILIAR . . . . . . . . . 137OS AGRICULTORES ECOLOGISTAS DA ENCOSTA DA SERRA GERAL EM SANTACATARINATatiana Ferreira Nobre de LacerdaPaulo Eduardo Moruzzi MarquesA DIFICULDADE EM GERAR CAPITAL SOCIAL . . . . . . . . . . . . . . . 159A QUESTÃO DA FALTA DE CONFIANÇA NUMA ALDEIA PORTUGUESARenato Miguel do Carmoruris4-correções.indd 7 20/10/2008 11:12:58
  8. 8. CAPITAL SOCIAL E DILEMAS DE AÇÃO COLETIVA . . . . . . . . . . . . 181ESTUDO DE CASO EM UM PEQUENO ASSENTAMENTO RURAL DE MINAS GERAISAna Paula Wendling GomesNewton Paula BuenoGEOTECNOLOGIAS NO PLANEJAMENTODE ASSENTAMENTOS RURAIS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 207PREMISSA PARA O DESENVOLVIMENTO RURAL SUSTENTÁVELJorge Luís Nascimento SoaresCarlos Roberto EspindolaRESENHASHISTÓRIAS SOCIAIS FEITAS À BEIRA-MAR . . . . . . . . . . . . . . . . . 229AS PRAIAS E OS DIAS: HISTÓRIA SOCIAL DAS PRAIAS DO RECIFE E DE OLINDARita de Cássia Barbosa de Araújo. Recife: Fundação de Cultura daCidade do Recife, 2007Cristiano RamalhoCONTENTS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 235PROCEDIMENTOS PARA PUBLICAÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . 237ruris4-correções.indd 8 20/10/2008 11:12:58
  9. 9. A R T I G O SA R T I G O Sruris4-correções.indd 9 20/10/2008 11:12:58
  10. 10. ruris4-correções.indd 10 20/10/2008 11:12:58
  11. 11. 1 1OS “TRONCOS VELHOS” E OS“QUILOMBINHOS”MEMÓRIA GENEALÓGICA, TERRITÓRIO E AFIRMAÇÃOÉTNICA EM BOA VISTA DOS NEGROS (RN)*JULIE A. CAVIGNAC– Pretinho de Angola,para onde vai?– Para a Conceição,vamo “festeja”! 1R E S U M O Durante a pesquisa visando à elaboração do relatório antropológicode Boa Vista dos Negros, comunidade quilombola do Seridó (RN), verificamos queo grupo conserva uma longa memória genealógica e que, apesar das mudançasocorridas na organização econômica e social do grupo, as principais formas desolidariedade foram mantidas. Queremos, aqui, refletir sobre a importância danoção de família, a transmissão dos nomes e da memória genealógica na definiçãodo território quilombola. Na ocasião, serão analisados como os elementos da culturatradicional são ressignificados ao longo do processo de afirmação étnica.P A L A V R A S - C H A V E Memória genealógica; Irmandade do Rosário;território quilombola.A B S T R A C T During research for the anthropological report of Boa Vista dosNegros, a quilombola community located in the Seridó region of Rio Grande doNorte (RN) state, we verified that the group maintains a long genealogical memoryand, in despite of changes occurred in the group’s economic and social organization,the main forms of solidarity have been kept. In this article we stress the role ofthe notion of family, of the name transmission and of the genealogical memoryin the definition of the quilombola territory. We have analyzed how elements oftraditional culture are re-elaborated through the process of ethnic affirmation.K E Y W O R D S Genealogical memory; Sisterhood of Rosário; quilombolaterritory.* Uma primeira versãodeste artigo foi apresen-tada na VII Reunião deAntropologia do Merco-sul (RAM), realizada emjulho de 2007, na cida-de de Porto Alegre, RioGrande do Sul, no GT 33:“Memória, Família e Re-lações Geracionais”. Doisalunos de graduação queparticiparam da pesquisaauxiliaram na elabora-ção preliminar do texto:Gilson José RodriguesJunior e Sebastião Geni-carlos dos Santos.1 “Pretinhos de Angola”,versão de canto religiosode Congo coletada porMário de Andrade (1982,p. 114-115) em 1928, du-rante sua viagem ao RioGrande do Norte. É inte-ressante notar que “Con-ceição” é o nome antigode Jardim do Seridó.ruris4-correções.indd 11 20/10/2008 11:12:58
  12. 12. 1 2R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8O presente artigo visa apresentar alguns resultados da pesquisaempreendida para a elaboração do relatório antropológicorealizadoaolongodoanode2007,numacomunidadequilombolalocalizada no município de Parelhas, no Seridó norte-rio-grandense.2Ao reivindicarem um território, os “negros da BoaVista” encenam práticas culturais próprias: são conhecidosem toda região por estarem ligados à Irmandade do Rosário,perpetuando um culto em louvor à santa. A narrativa fundadorado local e a memória genealógica funcionam também comomarcas identitárias, pois são constantemente acionadas parareivindicar a legitimidade da ocupação do território pelos seusherdeiros.Partindo de uma perspectiva que prioriza a memória,a representação nativa do passado e a história das famílias,analisaremos aspectos ligados à afirmação étnica e àterritorialidade. Serão analisados elementos da história local eda organização social que podem ser observados ou evocados,como as narrativas míticas e as versões explicativas da origem dogrupo, o sistema de nominação, as estratégias matrimoniais, oscontratos de trabalho, as formas de religiosidade etc.3Queremos,em particular, refletir sobre a importância da transmissãoda memória genealógica e a história das diferentes linhagensna ocasião da definição do território a ser titulado. Para isso,será preciso analisar o papel da solidariedade tradicional naconstituição da imagem do grupo e investigar os processos deafirmação étnica através de vias simbólicas como o conjuntonarrativo enunciado por nossos interlocutores. Dessa forma,veremos como a história de fundação de Boa Vista, os laços deparentesco, as formas de solidariedade operantes no interior daIrmandade do Rosário, as modalidades de transmissão do nome,a dança e o ritual religioso são definidores de uma identidadeétnica que é acionada regularmente nas diferentes situações que2 No quadro de um con-vênio celebrado entre aUFRN e o Incra (RN),foram alocados recursoscorrespondentes a trêsmeses de trabalho, paracomplementar e atualizaras informações coletadasem 1998 pelo pesquisa-dor A. Ratts, prazo que serevelou insuficiente, ten-do que ser estendido atéo final de 2007, sem com-plementação orçamentá-ria. De fato, sobretudo nocaso de uma pesquisa rea-lizada num contexto deconflitos, a familiarida-de e a confiança mútuasadquiridas no convíviocom os moradores apa-rece como essencial nagarantia da qualidade dasinformações coletadas,no conhecimento da rea-lidade cotidiana e na ob-tenção de uma visão clarada situação política local,tarefas que, certamente,requereriam um prazosuperior a três meses!3 Para tanto baseamosnossas reflexões nos prin-cípios da pesquisa antro-pológica e sociológica,sobretudo no que diz res-peito à memória genealó-gica (BOURDIEU, 1983,p. 11-106; CABRAL eLIMA, 2005; OLIVEIRA,1988, 1995; ZONABEND,1986, 2000). Utilizamosuma metodologia centra-da nas histórias de vida enas relações de parentes-co, como a desenvolvidaem trabalhos de outrospesquisadores que inves-tigam a realidade brasi-leira, especificamente noNordeste (MENEZES,1992; SIGAUD, 1993;WOORTMAN, 1995),com os aportes do méto-do regressivo adaptado àssociedades pós-coloniais(WACHTEL, 1990).ruris4-correções.indd 12 20/10/2008 11:12:58
  13. 13. 1 3R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8os “negros da Boa Vista” vivenciaram ao longo da sua história.4A FUNDAÇÃO DE BOA VISTAA ampla memória genealógica compartilhada pelos quilombolasfornece uma legitimidade ao grupo que, até hoje, ocupa asterras da Boa Vista dos Negros. Apoiando-se na tradição oral, osquilombolas apresentam de forma unânime as circunstâncias dopovoamento inicial do lugar. A versão da história que se fixou nasmemórias coloca em cena grupos sociais e étnicos diferenciados,os brancos e os negros que ocuparam uma fazenda chamadaBoa Vista.5Assim, os “negros” afirmam-se como grupo étnico,distinguindo-se dos seus vizinhos “brancos” – os Barros e osLucianos. A evocação da narrativa de fundação informa tambémsobre as circunstâncias da chegada dos primeiros moradores nolocal, a repartição das terras entre os diferentes ocupantes, alémde revelar uma situação histórica de dominação. É na referênciaao encontro inicial entre uma “retirante” e um fazendeiro, assimcomo na reiteração da genealogia das famílias, que se consolida ese reelabora parte da identidade coletiva.Todos reconhecem um ancestral comum, Tereza, que teriasido “adotada” por um fazendeiro, o coronel Gurjão. Os maisvelhos, principalmente, conhecem a história de Tereza; narrativaque corresponde em vários momentos à evocação dos seus avôs ebisavôs.Assim,dona Chica e seu irmão ZéVeira, hoje falecido, seuManoel Miguel e dona Geralda mostraram um grande interesseem lembrar os feitos dos seus antepassados e em apresentar suasgenealogias que convergem para uma origem comum: Domingos,o filho de Tereza, é o nome mais evocado nas lembranças dasdiferentes genealogias. Todos retomam a versão contada por seuEmiliano (1911-2004), que era considerado como a pessoa dereferência nos assuntos ligados ao passado de Boa Vista. Grandecontador de histórias, dotado de uma memória extraordinária,o ancião era capaz de citar todos os nomes dos descendentes deTereza:4 Este artigo, de cunhoeminentemente etno-gráfico, não traz umadiscussão teórica maisaprofundada. Nosso ho-rizonte referencial, noentanto, é dado pelosautores que adotam emsuas análises a via de uma“antropologia simbólica”.A esse respeito consultar,principalmente, Castro,2002, Galinier, 1999, Lé-vi-Strauss, 2003, Sahlins1987, Wachtel, 1990.5 Há também algumasreferências feitas a índios(caboclos) que vieram dobrejo paraibano e se ca-saram com os “negros daBoa Vista”.ruris4-correções.indd 13 20/10/2008 11:12:59
  14. 14. 1 4R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8Essa aldeia de negro aqui começou de uma mulher. Come-çou de uma Luzia... Luzia, não, era Tereza, começou de umaTereza. Essa Tereza, dizem que era negra retirante, vinha denão sei d’aonde, vinha bem de lá (R). Porque ninguém sabed’adonde essa Tereza vinha.Agora, quando chegou, era um ano seco. O ano era secoquando chegou aqui. Tinha um tal de um coronel Gurjão.Essa Tereza ficou na casa dele, como criada, como sendoda casa, criada da casa. Ela não ficou como escrava. Ela ficoucomo criada da casa, e quando ele passou esses negócios deterreno aqui de Boa Vista para ela, esse coronel Gurjão, masninguém sabe quando foi isso... Porque minha avó é de 1825,a minha avó. E minha bisavó, de onde já vem? (R) Eu já souda quinta geração dela, dessa Tereza.A Tereza, o primeiro filho dela foi Domingo. De Domingo,foi Roberto. De Roberto, foi Inácio. De Inácio, foi Antônio,que justamente é meu pai.6Ninguém ouviu falar do maridodela. O filho, o primeiro foi Domingo, o outro foi Roberto eo outro foi Inácio, justamente meu pai era filho desse Inácio.Esse Inácio era bisavô de Francisca e ela é filha de Zé Vieira...Imbém era irmã do meu pai. O meu avô, por parte de pai,nasceu aqui e aí foi a família todinha... todinho nasceu aqui ese criando aqui (seu Emiliano, 1991).Retomando o relato detalhado de seu Emiliano eacompanhando a genealogia descrita por ele, voltamos,aproximadamente, para a segunda metade do século XVIII;momento em que a “retirante” teria chegado na casa do coronelGurjão.7Segundo uma versão edulcorada da história, o grandeproprietário que morava no sítio vizinho, no Maracujá, teriacedido uma parte das suas terras a Tereza e a seu filho, Domingos,dando início à “comunidade de Boa Vista dos Negros”. Na versãocontada por seu Emiliano, Tereza teve um caso com o fazendeiroe teve que ser afastada do domicílio do coronel Gurjão, após suaesposa saber da traição; porém, este teria presenteado a amantecom as terras da Boa Vista, para ela poder criar o filho, fruto doadultério.6 Seu Emiliano faz refe-rência a seu pai, AntônioFernandes da Cruz. O paide seu Emiliano é Antô-nio Moreno (1869-1954),irmão de Manoel Gino,de Theôdozio e de Im-bém, segundo o registrocartorial encontrado porseu Ulisses, seriam filhosde Domingos Fernandesda Cruz (1784-1857).7 Na verdade, há umadiferença de uma geraçãoentre a versão contadapor seu Emiliano e a deseu Manoel Miguel. Nes-se último caso, os des-bravadores de Boa Vistateriam chegado no iníciodo século XIX.ruris4-correções.indd 14 20/10/2008 11:12:59
  15. 15. 1 5R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8Seu Zé Vieira acrescenta detalhes à história do seu “tio”,seu Emiliano, e reforça a versão da união extraconjugal entre ofazendeiro e a retirante: segundo ele, Tereza veio acompanhadado pai e de duas outras irmãs.A família pediu ao proprietário umlugar para passar a noite e o coronel Gurjão solicitou a guardade Tereza. Não se sabe mais sobre o destino do pai, mas conta-se que as outras irmãs foram morar na Caatinga Grande e emJardim do Seridó.8Seu Zé de Biu, cunhado de Zé Vieira, afirmatambém que parentes de Tereza foram morar em sítios nosmunicípios vizinhos, Jardim do Seridó e Parelhas (Carnaubinha,Caatinga Grande e Olho d’Água do Boi). Estes, de fato, sãolugares onde encontramos registros históricos de escravos, comvárias referências a um passado de escravidão e onde ainda hoje éfestejada Nossa Senhora do Rosário.9É como se a desestruturaçãoda família nuclear original correspondesse ao desmembramentodasterraseaosurgimentodeváriosoutrosnúcleosdepovoamentona região. Assim, a tradição oral indica que as comunidadesquilombolas vizinhas teriam tido uma origem comum, poismantinham antigas relações de parentesco através dos laçosexistentes entre as irmãs abandonadas durante a seca. Tambémpodemos pensar a narrativa de fundação de Boa Vista como ametáfora da vinda dos ancestrais escravizados para o Brasil e dodestino dos quilombolas, que, ao chegarem, se “espalharam nessemeio de mundo, criando família”. Assim, a memória genealógicaremonta a um evento fundador e a um tempo primordial, épocaem que era preciso fugir da seca ou de um dono cruel. A saga deTereza torna-se mito, apagando referências a datas e a lugares,retendo somente o nome dos personagens, cristalizando-se numapalavra que todos têm por verdadeira (LÉVI-STRAUSS, 1973). Oevento desencadeador da situação,a seca,tem como conseqüênciadireta a povoação de Boa Vista dos Negros. O tempo evocadoremete à época em que as terras eram doadas10e existia umarelação amigável entre os grandes proprietários fundiários e osseus moradores. De qualquer modo, a saga de Tereza é a formaque os quilombolas escolheram para apresentar sua história:9 Seu Jozias da Silva,morador de Carnaúbados Dantas, entrevistadoem 20/10/2007, conta ahistória de sua avó queera escrava. O pai deseu Jozias, José AntônioMaria, conhecido tam-bém como João Teodora(1877-1960), gostava decontar a história de vidade Maria Negrinha ouMãe Negrinha, a MariaSabina da Conceição,parteira renomada naregião. Ela veio morarem Carnaúba, onde ca-sou e chegou a falecer em1954. Uma irmã de MãeNegrinha foi morar noOlho d’Água do Boi, lo-calidade situada no atualmunicípio de Parelhas. Éinteressante apontar queseu Jozias conta uma his-tória parecida à do mitode origem de Boa Vista,mostrando ter orgulhoda avó escrava, no entan-to, ignorando a existênciade laços de parentescodiretos com os morado-res da Boa Vista. Há ou-tras informações poucoprecisas sobre possíveisrelações de parentescoentre os negros da BoaVista e os escravos dafazenda Olho d’Água doBoi, membros de comu-nidades do brejo parai-bano e a família Caçote,que reside em Jardim doSeridó. Essas pistas deve-rão ser analisadas à luz daabundante documenta-ção histórica referente aescravos na região.8 Informação transmi-tida por Sebastião Ge-nicarlos dos Santos em6/5/2006.10 Pode ser uma refe-rência a uma época ante-rior a 1850, data em queé criada a Lei de Terras eem que o sistema colonialde sesmarias é abandona-do (MATTOS, 1985).ruris4-correções.indd 15 20/10/2008 11:12:59
  16. 16. 1 6R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8ao evocar o passado de Boa Vista, as referências à escravidãose apagam, pois todos insistem sobre a liberdade e a escolha deTereza para criar seu filho.11De qualquer modo, os diferentes relatos apontam para umasituação social em que uma jovem mulher,livre e pobre (retirante)recebe a ajuda de um homem rico e poderoso (coronel). A partirdaí, Tereza mudará de estatuto, pois se torna “criada da casa”,situação social inferior que encontramos com certa freqüênciaainda hoje na região.12Assim, trata-se de um estatuto ambíguo,que, por vezes, se assemelha ao trabalho doméstico ou mesmoescravo, pois não há relação monetária entre os interessados.A “hospitalidade”, forma de solidariedade quase obrigatóriaque encontramos no sertão, sobretudo no período das secasprolongadas,transforma-se numa relação de trabalho,baseada naconfiança e/ou no afeto.Além da morada e dos cuidados especiaisdispensados pelo coronel, Tereza é presenteada com as terrasda Boa Vista, lugar onde se estabelecerá e irá criar sua família –inicialmente composta por um único filho, herdeiro legítimo dasterras em linha materna.Esse relato,que contém vários elementosmíticos, tem como principal propósito informar sobre o estatutodas terras. A doação inicial por parte de um “coronel”, cujo nomeé conservado na memória dos moradores locais, um grandeproprietário de terras com um enorme poder econômico e umaforte influência política, dá legitimidade à ocupação do territóriopelos quilombolas.13De qualquer modo, retomando um dosensinamentos do estruturalismo que nos diz que as produçõesnarrativas não refletem a vida social, mas sua interpretação, ahistória de fundação da Boa Vista dos Negros apresenta umaexplicação plausível de como os quilombolas se tornaram donosda terra (LÉVI-STRAUSS, 1970, 2003). São hipóteses relativas àocupação do território por parte de populações que, de um modoou de outro,fugiam da escravidão.A história contada oferece umatradução narrativa de um fato histórico. Dessa forma, o ato dedoação de terra ficou gravado na memória do grupo e a narrativaprimeira informa sobre as relações de parentesco atuais.11 Dona Quintina, outrapessoa idosa da Boa Vis-ta, evoca a possibilidadede Tereza ter chegadográvida: “Pra minha lem-brança, eu acho que essefilho ainda veio guardado[...]”.12 O termo “criado”,polissêmico e ambíguo,revela a situação de de-pendência em que seencontram as populaçõespobres da região, sejameles negros ou brancos:designa um escravo, umagregado, uma criança/adolescente que faz com-panhia aos filhos dosdonos e realiza pequenosserviços domésticos, emcontrapartida da sua aco-lhida pela família.13 Da mesma forma, aversão contada por seuZé Vieira coloca em cenaa união extraconjugalentre Tereza e o coronel,união da qual nasceráum filho, Domingos, quereceberá as terras da BoaVista como herança.ruris4-correções.indd 16 20/10/2008 11:12:59
  17. 17. 1 7R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8Se, como as pesquisas genealógicas e documentais apontam,os primeiros moradores negros da Boa Vista chegaram entrea segunda metade do século XVIII e o início do século XIX, épossível que o grupo tenha inicialmente ocupado o espaço semadquiri-lo legalmente, pois sabemos que, na região, pelo menosdurante o período colonial, o principal modo de acesso à terraera a doação e, depois de 1850, a herança (MATTOS, 1985, p.82-112). Apesar da ausência de estudos históricos sistemáticos,existem evidências que apontam para uma presença antiga dos“negros de BoaVista”; na sua origem,a comunidade era compostapor famílias afro-descendentes que tinham conseguido libertar-se e adquirir autonomia econômica, uma vez que, na região,conseguimos identificar proprietários de terra desde pelo menos1889,isto é,apenas um ano após a abolição da escravatura.14Dessaforma, a aplicação do método genealógico, em conjunto coma leitura dos parcos documentos encontrados, permite afirmarque já existia a Boa Vista dos Negros muito antes da abolição.Significa que, além da versão nativa, mostrando um fazendeirogeneroso ou movido por deveres morais, há várias possibilidadesque explicam o surgimento da comunidade: podem ser escravosda antiga fazenda que, com o seu trabalho, conseguiram comprarcartas de alforria – há documentos históricos comprovandoque escravos-vaqueiros conseguiam reunir capital em gado15–e continuaram a morar na antiga propriedade. Libertos podemter-se instalados numa terra devoluta ou, finalmente, podemser escravos fugidos que ocuparam um espaço esvaziado apósa grande epidemia de cólera que assolou a região por volta de1856. É provável também que se trate de uma combinação dessasdiferentes situações, como apontam alguns registros orais: naregião, sabia-se da existência de famílias negras livres em BoaVista, o que atraiu escravos fugidos ou recentemente libertosde outros lugares, como o exemplo de Cosme Miguel que veiomorar na “casa de pedra” depois da abolição e se casou com umamoça de Boa Vista. Assim, a versão local da história ensina queo destino dos remanescentes de quilombo mudou nos finais14 Maiores detalhes sãodescritos no relatório an-tropológico.15 Na região, não háregistros de libertos com-prando terras antes de1850 (MATTOS, 1985).ruris4-correções.indd 17 20/10/2008 11:12:59
  18. 18. 1 8R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8do século XIX: os antigos “cativos” adquiriram sua liberdadee, com ela, puderam-se tornar donos de terras. Dessa maneira,antes de ser um movimento político, a afirmação étnica passapelo reconhecimento de uma ancestralidade atrelada a umterritório e a um conjunto narrativo designado como a históriada comunidade. Como iremos ver agora, é também na existênciade uma “tradição” que se apóia a ancestralidade do grupo: adança dos“Negros do Rosário”é designada como uma“prova”daexistência histórica do grupo.IRMÃOS DO ROSÁRIO E GRITO DE GUERRAViva Nossa Senhora do Rosário!Viva São Sebastião!Viva as pessoas de bem!Viva a boa sociedade, tronco, ramos e raízes!16A Irmandade do Rosário abre caminhos para conhecer o passadoe a atualidade de Boa Vista, pois, como a narrativa de fundação,a dança do espontão tem um papel importante de legitimaçãodo pleito coletivo no processo de reivindicação étnica, insistindosobre os aspectos tradicionais do ritual. Mas, se a dança é aocasião do reconhecimento social de um grupo historicamentemarginalizado, é também um momento de festa durante a qualos corpos se mostram e se libertam. Assim, graças à Festa doRosário, sabemos da presença das populações afro-descendentesna região, desde o século XVIII até hoje. A festa, ao longo dosséculos, sofreu transformações: o rito religioso é visto pelasociedade envolvente como “folclore”, mas a devoção continuaviva entre os quilombolas. Atraindo curiosos e admiradores, ogrupo recebe o auxílio intermitente de agentes locais, sobretudodos moradores das cidades circunvizinhas, dos membros daigreja e das prefeituras envolvidas ou, mais recentemente, domovimento negro, sendo visitado regularmente há décadas porestudantes, professores, fotógrafos, antropólogos, militantes etc.16 Antônio Capitão,1o/1/2006, citado porGóis, 2006, p. 22.ruris4-correções.indd 18 20/10/2008 11:12:59
  19. 19. 1 9R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8Presentes em todo Brasil, as festas das irmandades pretasforam incentivadas pela Igreja como parte do esforço deevangelização e controle das populações escravizadas, sendoencontradas com grande freqüência ainda nos séculos XIX eXX, em todo território brasileiro (ABREU, 1994; CARVALHO,1998; CORD, 2003). No Nordeste, a Festa de Nossa Senhora doRosário dos Homens Pretos existe desde o fim do século XVII,com a primeira coroação dos Reis do Congo em Recife em 1674(CASCUDO, 1980, p. 44). Encontramos o primeiro registro dafesta em Caicó, no ano de 1771, e, no decorrer do século XIX, nasoutras cidades do Seridó (AZEVEDO,1962-1963,p.32; DANTAS,1961, p. 56-62; LAMARTINE, 1965, p. 69-80; MEDEIROS,1985, p. 25-26).17Podemos pensar que as irmandades negrasse desenvolveram, sobretudo no século XIX, com a cultura doalgodão, que fez a fortuna de famílias renomadas na região.Igreja do Rosário, Acari (RN) (J. Cavignac, fev. 2007).17 Inicialmente sob aproteção de Nossa Se-nhora da Guia, a atualIgreja do Rosário deAcari foi construída pelosargento-mor ManoelEsteves de Andrade entre1737 e 1738. Em 1863, édoada à Irmandade doRosário após a constru-ção da Matriz de NossaSenhora da Guia (ME-DEIROS FILHO, 1981,p. 109, 176). Até o fimdo século XX, havia umaFesta do Rosário.ruris4-correções.indd 19 20/10/2008 11:12:59
  20. 20. 2 0R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8O registro da festa em todo Seridó, tanto no Rio Grande doNorte quanto na Paraíba, comprova a presença histórica de umgrande número de escravos. Até as primeiras décadas do séculoXX, existiam fortes relações entre os integrantes das Irmandadesdo Rosário de diferentes lugares do interior do Rio Grande doNorte: em Caicó, em Jardim de Piranhas, em Jardim do Seridó,em Acari, em São Manáu, no Riacho de Fora, no Rio do Peixe,em São João do Sabugi. Também havia festas do Rosário emSanta Luzia, Pombal e Cajazeiras. Para a organização das festase das eleições anuais dos reis e das rainhas, havia trocas entre asdiferentes cidades.18Quando colocamos, num mesmo mapa, os registros dasirmandades negras e a referência geográfica dos lugares de origemde alguns moradores radicados no local e de parentes que moramlonge da Boa Vista, verificamos que existem correspondênciasentre o registro memorial e as referências relativas à ocorrência doritual. Este é um indício de que, em torno das irmandades, existiauma rede organizada de solidariedades, havendo, na ocasião dasfestividades, trocas entre os grupos, inclusive de informações.Ainda aqui, tudo converge para pensar que, pelo menos desde asegunda metade do século XIX, a mão-de-obra escrava e libertautilizada no cultivo do algodão teve uma importante contribuiçãopara a configuração da cultura e da economia da região, aindaque o número de escravos, localmente, tenha sido subestimado.De fato, em Jardim do Seridó, encontramos um livro de registroespecífico para os escravos nascidos entre 1871 e 1887, logo apósa proclamação da Lei do Ventre livre.1918 Informação co-letada em Caicó, em28/10/1990, com o porta-bandeira da irmandade,seu Paulo Mariano. Au-tores registram tambémfestas feitas em devoção asantos negros em outraslocalidades do estado:São Benedito, em Pau dosFerros, São Gonçalo, emPortalegre, Santa Efigênia(LIMA, 1988, p. 120; ME-DEIROS, 1978, p. 99).19 Encontramos donaInácia Maria da Concei-ção, chamada Inácia Ca-çote, que nasceu em 1916.Ela nos contou que suaavó morava no Sítio SãoRoque, em Ouro Branco,e conseguiu comprar suacarta de alforria.Tambéminformou que seu paiconstruiu a casa do Rosá-rio e chamou o grupo deBoa Vista para participarda sua festa.ruris4-correções.indd 20 20/10/2008 11:12:59
  21. 21. 2 1R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8Mapa – Lugares das festas do Rosário e origem dos quilombolas(Boa Vista).No Rio Grande do Norte, a Festa do Rosário é hoje celebradasomente em Caicó e Jardim do Seridó, em épocas diferentes –estratégia que permitia aos irmãos participarem das festividadesnas cidades vizinhas. Segundo registros orais, a primeira festaem Jardim do Seridó data de 1863 e a irmandade foi criada em1885. Todo ano, no dia 30 de dezembro, várias famílias da BoaVista têm costume de se deslocar até a casa do Rosário, situada nomunicípio vizinho, Jardim do Seridó: os irmãos vão ao encontroda família Caçote,para“pular”,rezar e“farrear”nas ruas de Jardimdo Seridó. Como em outras irmandades negras, é realizada umaeleição anual para escolher o rei e a rainha do ano, o juiz e a juízado ano, o escrivão, a escrivã, além do rei, da rainha, do juiz, dajuíza perpétuos.20Há também o porta-bandeira (bandeirista),que acompanha os dançarinos (lanceiros) comandados pelocapitão de lança, geralmente uma pessoa experiente. Finalmente,os caixeiros se juntam ao tocador de pífano de Jardim do Seridó,nem sempre presente. Essa hierarquia é cumprida rigorosamentepara que os irmãos possam dançar juntos e a tradição sejaseguida.20 A eleição para os car-gos ditos perpétuos só serealiza caso o titular seausente ou faleça.ruris4-correções.indd 21 20/10/2008 11:12:59
  22. 22. 2 2R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8Luís da Câmara Cascudo (1962, p. 297-298), que observoua festa de Jardim do Seridó em 1943, define a dança como “umbailado de guerra, ao som do tambor marcial”:Até 1944, havia no Jardim do Seridó, uma cerimônia alusivaou semelhante: coroação dos Reis (sem denominação do Rei-no), missa em lugar privilegiado, e nas ruas, um longo baila-do guerreiro, acompanhando a tambor a dança do Espontão,pequena lança, sem versos e sem cantos. Apenas um bailadoginástico de ataque e defesa, com lanças e à pé (CASCUDO,1980, p. 46).Até hoje, a roupa lembra soldados em campanha e a dançaensaia um combate armado, com gritos, pulos e muito ritmo. Aodesfilarem nas ruas, os dançarinos param em algumas residênciaspara pedir alimentos e dinheiro que irão ajudar nas despesas dafesta do ano: a lança que é colocada no ombro é um “convite”silencioso para que a pessoa colabore com comida, bebida oudinheiro. A ameaça ritual lembra a todos que devem participare ser solidários com os irmãos negros. Seguindo a tradição, otesoureiro continua a ser um homem branco, de estatuto socialelevado,mantendo uma afinidade com o grupo ao longo do ano –ele é responsável pela organização das finanças da irmandade naigreja – e recebendo os foliões em sua casa para fazer uma colaçãodurante a festa do ano.A dança do espontão se destaca em relação a outrasfestividades realizadas por irmandades negras por ser, antes detudo, uma dança masculina – em traje de guerreiros – ritmadapor percussões, sem canto:As músicas tocadas pelo pífaro (eles chamam “pifa”) comacompanhamento das caixas ou zabumbas, chamam-se“Baionada”, “Catingueira”, “Palmeirinha” e “Piauí”. São me-lodias vivas e alegres. Próprias da festa ou do grupo de BoaVista, pois nada ouvimos semelhante noutros folguedos doEstado. Interessante é que os negros não cantam nenhumamelodia. Tocam e dançam apenas, improvisando passos, gin-gando (MELLO, 1973, p. 132).ruris4-correções.indd 22 20/10/2008 11:12:59
  23. 23. 2 3R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8Ainda hoje não há letras nem melodias, o ritmo ocupa todoo espaço musical e o pífano pode ser dispensado. A performanceé inteiramente realizada pelos homens, pois a participação dasmulheres na celebração oficial e religiosa limita-se a acompanharo grupo de músicos e de dançarinos. Durante a festa, elas sãoencarregadas de cuidar da alimentação dos irmãos, dos filhos, daorganização da casa do Rosário, sobretudo no que diz respeito àdistribuição do espaço destinado a cada família.A Festa do Rosário representa um dos eventos maisimportantes dos quilombolas de Boa Vista e da cidade de JardimdoSeridó,umavezquemobilizaosmoradoresdessaslocalidadeseos“filhos ausentes”, sobretudo os parentes que residem na capital,Natal. Em cooperação com a igreja, desde o mês de novembro,são organizadas novenas e arrecadados fundos para subsidiaras despesas da festa do fim do ano: os uniformes dos irmãos, acomida, o transporte, entre outros, são fornecidos aos membrosda irmandade e seus familiares que vêm especialmente paraJardim do Seridó para a ocasião. A tradição é mantida com muitocuidado, os integrantes do grupo ficando sob a responsabilidadedo membro mais antigo, hoje Zé de Bil, “chefe dos negros”, quedirige o grupo nas suas apresentações: José Fernandes do Amaralocupa o cargo de chefe há 20 anos, foi juiz perpétuo durante 45anos e é um dos mais antigos a continuar participando da festade Jardim do Seridó. Além de ser um ator principal da Festado Rosário, é também leiloeiro durante as festas de Jardim doSeridó e de Carnaúba dos Dantas, no Monte do Galo, tendo umaautoridade incontestada.21Assim, a devoção a Nossa Senhora doRosário é automaticamente associada aos quilombolas, são elesos principais precursores do evento do fim do ano em Jardimdo Seridó, deslocando-se nos últimos dias do ano, em númeroelevado, para passar três dias na “casa do Rosário”, mantendoacesa a chama que lembra o passado. Ocasião, também, de reatarlaços de parentesco reais ou rituais e de afirmar a diferença. Defato, a dimensão festiva e ritual não esconde o caráter étnico damanifestação cultural, que ensaia um cortejo real ao som dos21 Hoje, Zé de Bil é oresponsável da organiza-ção do grupo, inclusiveda casa em Jardim do Se-ridó, durante as festas.ruris4-correções.indd 23 20/10/2008 11:12:59
  24. 24. 2 4R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8zabumbas. Após ter indicado a importância da irmandade negrana organização social do grupo, é preciso observar outras formasde transmissão da história da Boa Vista.OS REFLEXOS DA MEMÓRIA: NOMES E REGISTROSObservamos um paralelismo entre os relatos orais e os diferentesregistros históricos encontrados: os documentos recolhidos aolongo da pesquisa documental, sejam eles oriundos dos cartóriosou dos fóruns (certidões, inventários post-mortem, títulos eregistrosdeterras),ouaindaprovenientesdosarquivosparoquiaisde Jardim do Seridó e de Parelhas (nascimentos, casamentos,obituários), convergem parcialmente com a versão oral do grupo.Assim,o final do século XVIII parece ser a época em que BoaVistados Negros foi fundada, um século antes da abolição. De fato, osregistros da memória genealógica e os documentos encontradossobre os antigos moradores da Boa Vista datam dessa época.Mais que uma análise da narrativa de fundação de Boa Vista,podemos fazer uma leitura das genealogias coletadas com osmoradores mais antigos da comunidade à luz da documentaçãoencontrada. Seguindo o raciocínio do detentor da memória dogrupo com quem tínhamos conversado em 1991, seu Emiliano,seriam,hoje,nomínimoseisgeraçõesdepessoasqueteriamnascidona Boa Vista, incluindo Domingos, o filho de Tereza. A referênciaà avó que nasceu no local, em 1825 [Joana de Jesus Cassimiro(1825-1896)?], mostra a longa memória dos moradores que, comessa referência, comprovam a antiguidade da presença do grupono local.22Constatamos, ainda, a reiteração dos nomes de famíliatanto na memória das pessoas entrevistadas, nas genealogias,quanto nos registros escritos. Porém encontramos distorçõesentre as duas fontes, pois nem sempre as datas correspondem e,como são evocados nomes de pessoas que morreram há 20 ou até50 anos, é natural que haja trocas e imprecisões na atribuição dolaço de parentesco. Mas a leitura dos documentos encontradosdesperta o interesse dos nossos interlocutores, reconhecendo22 Os pais de seu Emi-liano eram Maria Luizada Conceição, ou MãeGaldina (filha de An-dré Fernandes Vieira) eAntônio Fernandes daCruz, Antônio Morenoou Toto, filho de InácioRoberto da Cruz. Segun-do dona Chica e ManoelMiguel, Inácio Robertoteria nascido nos anos1820 e tinha um irmãochamado André, casa-do com Isabel (Cabel).Inácio Roberto e Andréeram filhos de AntônioLotério. Encontramosum registro, em 1859, deAntônio Eleotério, sol-teiro, que é testemunhado casamento realizadoem Parelhas de JoaquimManoel Fernandes (filhode Manoel Fernandes daCruz, que teve seus bensinventariados em 1859)com Antônia Maria daConceição, supostamentefilha de André e Cabel.ruris4-correções.indd 24 20/10/2008 11:12:59
  25. 25. 2 5R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8nomes de ancestrais e lamentando a não-transmissão de suashistórias por seus pais. A experiência, no entanto, como veremos,é enriquecedora.Ao analisar a atribuição do nome das pessoas, encontramosuma lógica que corresponde a uma divisão entre os universosmasculino e feminino, que nos ajudam a pensar os modos detransmissão do patrimônio fundiário: no caso dos homens,constatamos uma freqüente repetição do nome e do sobrenomede uma geração para outra. Por exemplo, existem três José Vieira(pai, filho, neto). Existem também vários registros orais e escritosa respeito de Manoel Fernandes da Cruz, Theôdozio Fernandesda Cruz ou de André Fernandes da Cruz. Podemos pensar quea repetição dos nomes é uma estratégia para conservar umpatrimônio fundiário e simbólico centrado no nome do pai, poisas mulheres aparecem pouco na relação terra–família. Tambémencontramos uma seqüência lógica na atribuição dos nomes: asmulheres, normalmente, adotam “Maria da Conceição” comosobrenome, incluindo algumas raras variantes: “de Jesus”, “doAmor Divino”, “do Sacramento”, “da Incarnação”.23Os homensadotam invariavelmente o sobrenome“Vieira”,“FernandesVieira”ou “Fernandes da Cruz”. Algumas alcunhas ou primeiro nomeparecemterincorporadoosnomesdefamília:Gino,Timbu,Mariada Conceição ou Miguel. Como o relato de seu Emiliano indica,apesar da fundadora de Boa Vista ser uma mulher, podemosperceber que só os homens transmitiam o nome e, ao que tudoparece, são eles que herdam preferencialmente as terras, poissão eles que cultivam; como veremos a seguir, no levantamentoda memória relativa à distribuição interna das terras, não hánenhuma mulher constando como herdeira.24Assim,parece haverum esforço para conservar os sobrenomes “Fernandes da Cruz”ou “Vieira”, adotados pela maioria dos homens de Boa Vista, ecorresponderia a uma estratégia de conservação do patrimôniofundiário.Desse modo,por exemplo,na genealogia de seu ManoelMiguel Fernandes, encontramos um caso interessante: a mãe delechamava-se Severina Maria da Conceição e o pai dele,João Miguel23 Nos registros paro-quiais também encontra-mos uma mesma pessoacom nomes diferentes.24 Ver mapa a seguir.ruris4-correções.indd 25 20/10/2008 11:12:59
  26. 26. 2 6R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8ou João Arcanjo da Cruz. Assim, Manoel adotou o nome do pai(Miguel) e do avô materno (Fernandes), mas não herdou o nomediretamente da sua mãe. Os arranjos da memória e a repetiçãona atribuição dos nomes, a recorrência dos sobrenomes em linhamasculina e feminina mostram que existe um intenso trabalho dememorização. Geralmente, os membros das famílias são capazesde citar no mínimo três gerações, em linha direta e colateral.Indicam ainda uma vontade de conservação da identidade dogrupo que está inscrita no espaço, pois os nomes dos ancestraisservem para memorizar os terrenos que serão herdados. Assim,nos registros documentais, aparecem freqüentemente osancestrais dos atuais moradores da Boa Vista, sendo indicadostambém, às vezes, a filiação e o cônjuge: existem inventários nosquais os bisavós dos anciãos aparecem como herdeiros de terras,de casas velhas, de cabeças de gado ou de utensílios; os livros deregistros paroquiais informam sobre os momentos importantesda vida dos descendentes dos libertos (nascimento, casamento,morte) e indicam laços sociais importantes para a consolidaçãodo grupos, como os padrinhos de batizado ou as testemunhasdos casamentos. Porém nem sempre é possível reencontrar umacorrespondência entre os membros das famílias que têm umregistro oficial e os que coletamos na memória dos entrevistados.No entanto, graças à indicação e à repetição dos nomes, sabemosque se trata dos bisavós dos nossos quilombolas, mesmo seexistem confusões entre as diferentes pessoas citadas.A reiteraçãodos nomes mostra ainda que as memórias dos grupos familiaresse constituem de maneira relativamente autônoma, cada gruposelecionando indivíduos e eventos em função de interessesparticulares.Para iniciar a viagem no tempo, partimos da leitura deinventários datados do meado do século XIX. Há um documentoreferente a Manoel Fernandes da Cruz (17??-1849), que eracasado com Victorina Maria da Conceição. Esse inventário queé datado de 1859 registra uma propriedade agrícola “no Olhod’Água do Boi” e uma terra em Boa Vista (do rio Cobra), naruris4-correções.indd 26 20/10/2008 11:12:59
  27. 27. 2 7R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8época, pertencente a Jardim do Seridó. Além das propriedadesfundiárias, há poucos bens relacionados. Quando a herançaé comparada com o número de herdeiros, verificamos que setratam de pequenos proprietários: à viúva de Manoel Fernandesda Cruz e a seus dez filhos se dividem duas partes de terras –uma no Sítio Boa Vista e outra no Sítio Olho d’Água do Boi –,“uma casa muito ruim”, três pares de argolas de ouro, duas caixasvelhas, uma mesa velha, um veio de roda e um varão, uma caixa“encourada com broxas”, “duas vacas, três novilhotas e duasgarrotas”.Não seria prudente afirmar categoricamente que se tratados ancestrais dos quilombolas atuais. Porém constatamos haveruma imensa repetição de nomes que indicam uma relação como grupo estudado: Manoel Fernandes da Cruz e Victorina Mariada Conceição podem pertencer à mesma linha genealógica dos“negros da Boa Vista”, libertos que conseguiram uma autonomiaeconômica antes da abolição, como também podiam serproprietários de escravos que doaram seus nomes a seus cativos.Essa hipótese nos parece menos provável, sabendo da presença donome Manoel Fernandes da Cruz na memória dos mais antigoscomo um ancestral.26Existe ainda outro inventário no nome de DomingosFernandes da Cruz (1784-1857),que morreu de cólera aos 73 anosem Parelhas.27Nesse documento,os ancestrais dos quilombolas deBoa Vista aparecem como herdeiros: Manoel Gino que tambémse chamava Manoel Fernandes da Cruz e era conhecido comoManuel Timbu; Antônio Fernandes da Cruz (1869-1954) ouAntônio Moreno, pai de seu Emiliano; e, finalmente, TheôdozioFernandesdaCruz(1866-1951),que,segundonossolevantamentogenealógico, era casado com Leocádia, nascida em 1864, filhade André Fernandes Vieira com Antônia Maria da Conceição.28Um registro de nascimento encontrado por seu Ulisses Potiguarindica que Theôdozio era filho de Inácio Fernandes Vieira (ouda Cruz) com Maria Galdina da Conceição.29Por sua vez, MariaSerafina da Conceição – Imbém (1840-1946) – é apresentadapor nossos interlocutores como irmã de Theôdozio, de Antônio26 O inventário de1859 está no Labordoc–CERES–UFRN, Caicó.Esse mesmo processo foiencontrado pelo doutorUlisses Potiguar.27 O inventário foi en-contrado pelo doutorUlisses Potiguar.28 A reconstituição ge-nealógica de dona Chicaapresenta Inácio Rober-to casado com Antônia.Outras pessoas afirmamque era André. Também,encontramos na genea-logia de Manuel Migueloutra Antônia Maria daConceição, conhecidacomo Antônia Miguel,que adotou o nome doseu marido. Precisamostambém desconfiar dosregistros cartoriais, pois,no século XIX, poucaspessoas sabiam ler e es-crever, razão talvez deencontrarmos situaçõescomo a da mesma pessoaser registrada em diversasocasiões com nomes di-ferentes.29 Fala-se de uma “Tiaou Mãe Galdina”, quenasceu na Boa Vista em1864.ruris4-correções.indd 27 20/10/2008 11:13:00
  28. 28. 2 8R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8Moreno e de Manoel Gino, embora não conste no inventário.Quando escutamos os mais velhos contarem a história dosseus pais, dos seus avós, ou mesmo dos seus bisavós, voltamos,às vezes, 150 anos. Trata-se do período de fundação da cidadede Parelhas, ocasião da epidemia de cólera. Foi preciso elaborarum inventário dos bens de Domingos Fernandes da Cruz, sendonecessário conhecer os seus herdeiros: ao todo, contam-se seispessoas que receberam uma parte da herança de Domingos.Como na há referência a um passado escravo, é bem provável queo velho Domingos fosse liberto.Assim, mesmo se as relações de parentesco entre osindivíduos encontrados nos registros e os que levantamos nasgenealogias nem sempre correspondem, surgem alguns elosentre as famílias de Manoel Fernandes da Cruz e de DomingosFernandes da Cruz: dois filhos de Manoel Fernandes da Cruz,falecido dois anos anteriormente – Joaquim Manoel Fernandes[da Cruz] e Antônio Fernandes da Cruz –, provavelmente apósterem recebido sua parte do inventário, se casam em 1859,possivelmente, com pessoas da Boa Vista, pois as testemunhasdos casamentos foram identificadas pelos mais idosos: AntônioEleotério da Cruz e André Fernandes Vieira,30que irá casar comAntônia Maria da Conceição. Assim, parece bastante razoávelpensarmos que, como os quilombolas não se cansam de repetir,os herdeiros de Domingos são todos membros da comunidadee são detentores da terra há várias gerações.31Também,provavelmente, Domingos era negro, pois todos os descendentesdos seus herdeiros se reconhecem como quilombolas: AntônioMoreno, Theôdozio e Manoel Gino, que foram respectivamentereconhecidos como o pai de seu Emiliano, o irmão de Imbém eproprietário de terras, o avô materno de Zé de Paulina, membroatual da comunidade. Porém Domingos Fernandes da Cruz,que encontramos nos registros cartoriais, não era escravo, poisencontramos um inventário no seu nome e outro de um dos seusherdeiros, Manoel Fernandes da Cruz, que também deixa bens eterras ao morrer. Ainda acompanhando a versão oral da história,30 Era também conheci-do como André Lotério.31 Areconstruçãogenea-lógica não é mais segurapara a primeira metadedo século XIX, sabendoa distância temporal quesepara os detentores damemória de Boa Vistados seus ancestrais.ruris4-correções.indd 28 20/10/2008 11:13:00
  29. 29. 2 9R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8percebemos como a hipótese do estabelecimento definitivo defamílias libertas numa terra pouco cobiçada se confirma, poistodos os moradores do Sítio BoaVista insistem sobre o fato de queos seus ancestrais não conheceram a escravidão, mesmo sabendoque fora da Boa Vista existia. O exemplo dos irmãos Theôdozio,Antônio Moreno e Imbém, falecidos entre os anos 1940-1950 econhecidos dos moradores mais velhos, mostra que era possívela permanência de libertos em terras devolutas ou daqueles quepossuíam um estatuto similar em pleno período escravista. Aexistência de inventários de negros libertos em que há registrode propriedade fundiária parece ser um fato novo que deve serinvestigado sistematicamente pelos historiadores. De fato, senão encontramos documentos cartoriais em nome de escravos,existem raros inventários de libertos que conseguiram capitalizaro bastante para comprar sua liberdade e se estabelecer em terrascompradas. Assim, no caso das terras da Boa Vista, a hipótese dadoação faz sentido,sabendo da presença de ancestrais das famíliasatuais antes da Lei de Terras (1850).32Finalmente,podemos pensarque a epidemia de cólera de 1856 provocou uma súbita deflaçãopopulacional, o que deixou espaço para libertos sem terras seinstalarem em locais pouco valorizados, como é o caso do leitopedregoso do rio da Cobra e da serra do Marimbondo.Os herdeiros de Theôdosio: Zé de Paulina e Sandro (maio 2007).32 Assim, Mattos (1985,p. 225), o qual fez umapesquisa sistemática nosarquivos da freguesia deCaicó, que incluía o atualmunicípio de Parelhas,encontra alguns inventá-rios em que há o registrode “liberto”. Dessa forma,a pesquisadora reproduzo inventário da libertaMariana, datado de 1877,em que são registradas11 cabeças de gado: nãoconstam terras, deixaapenas bens móveis esemoventes (animais).Sabemos também, gra-ças a Juvenal Lamartinee a Olavo Medeiros, queo liberto Feliciano eraproprietário da FazendaCacimba de Cabras (Aca-ri) nos meados do séculoXVIII (LAMARTINE,1965, p. 56, 99; MEDEI-ROS FILHO, 1981, p.125-126).ruris4-correções.indd 29 20/10/2008 11:13:00
  30. 30. 3 0R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8Finalmente, encontramos uma escritura privada datada de1889: dona Geralda conservou ao longo dos anos um “papel daterra”queseupailhetransmitiu.Éoregistrodecomprade“quatropartes de terras no sítio Boa Vista do Monte do rio Cobra”, queTheôdozio Fernandes da Cruz comprou para sua sogra, AntôniaMaria da Conceição; é a mesma Antônia que era casada com otio paterno de Theôdozio, André Lotério. Assim, através desseexemplo,descobrimos a existência de uma estratégia matrimonialendogâmica, que tem como principal conseqüência evitar oparcelamento da propriedade e possibilitar a reprodução dogrupo doméstico que gozava de uma certa autonomia: Theôdoziodetinha um capital acumulado numa época em que o algodão eraabundante e valioso. Dessa forma, parece difícil pensar que, umano após a abolição, um jovem de 23 anos, que, provavelmente,já tinha filhos para criar, conseguisse comprar terras, se fosse umescravo recentemente saído da condição servil.33Curiosamente,há um registro de partilha dos bens de Domingos Fernandes daCruz(1784-1857)somenteem1906–possivelmentenaocasiãodamorte de um dos herdeiros, provavelmente José Fernandes Vieira.Aliás, quase todos os inventários apontam para que Domingosfosse o primeiro dono de Boa Vista, o que vem corroborar aversão oral da história.Seria necessária uma pesquisa aprofundada e sistemáticaem arquivos, para poder reconstruir fielmente a genealogia dasfamílias. Porém verificamos que uma leitura conjunta dos relatosorais e dos documentos históricos aponta para a ancestralidadedo grupo no local, permitindo uma visão mais completa dahistória.Da mesma forma,encontramos sinais de uma autonomiaeconômica de grupos domésticos aparentados que desenvolviamestratégias para aumentar o seu domínio fundiário.PATRIMÔNIO: TERRITÓRIO E FAMÍLIAAnalisando as genealogias e escutando as histórias das famílias,podemos perceber estratégias endogâmicas na escolha dos33 A vendedora Antô-nia Maria da Conceiçãoera casada com CosmeMiguel. Os vizinhos são:André Fernandes Vieirae José Marcolina da Silva.Ainda hoje existem con-flitos com os descenden-tes deste último.ruris4-correções.indd 30 20/10/2008 11:13:00
  31. 31. 3 1R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8cônjuges, mesmo se verificamos alianças matrimoniais realizadasno exterior do grupo. Assim, as relações de parentesco formama base da organização social, espacial e política do grupo.Quando indagados, todos, sem nenhuma exceção, reconhecemuma ancestralidade comum, invocando o nome de Tereza e deDomingos, e sabem como se tornaram parentes. Assim, os laçosconsangüíneos produzem limites territoriais e desenham umespaço legitimado pela presença dos ancestrais, produzem regrase direitos no que se refere à ocupação e à reivindicação do direitosobre o território tradicionalmente ocupado (ARRUTI, 2003a,p. 35). A regra de filiação bilateral, reforçada pela reiteraçãodos nomes, aplica-se no caso da herança das terras, mesmo seos homens parecem privilegiados por serem designados comoherdeiros, determinando a repartição e o uso do território.Dessa forma, a lógica que rege as relações de parentesco e atransmissão do patrimônio encontra-se materializada no solo, naforma da distribuição das terras coletivas, que, antes das invasõesfeitas pelos vizinhos, não eram cercadas. A leitura das árvoresgenealógicas e das narrativas do grupo possibilita vislumbrar ahistória da divisão das terras entre as famílias quilombolas.Com oauxíliodealgunsmoradores,tentamosrepresentaradistribuiçãodasterrasentreosherdeiros,comseutamanhorespectivoindicadoembraças, que reflete o uso da terra até os anos 1970, momentoem que a economia algodoeira irá afundar, provocando umamutação drástica das condições de vida dos moradores. O usotradicional do território é múltiplo, o que corresponde à lógicado sítio, definido como um “espaço total complexo, constituídode espaços menores articulados entre si,correspondendo cada umdestes limites a determinadas atividades igualmente articuladas,como que numa relação de insumos-produtos” (WOORTMAN,1998, p. 167).A situação que encontramos hoje em Boa Vista é o retratoda utilização intensa de um espaço natural que está aindaclaramente dividido entre moradia, cultivo, coleta e criação deanimais, em particular o gado e as cabras. Mesmo se as condiçõesruris4-correções.indd 31 20/10/2008 11:13:00
  32. 32. 3 2R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8socioeconômicas foram modificadas, os quilombolas continuamrealizando trabalhos agrícolas, ainda que não tirem mais a receitaprincipal do grupo doméstico do cultivo da terra e lamentema não-possibilidade de acessar as partes do seu território queforam invadidas. As famílias dos primeiros herdeiros continuaminstaladas nas terras, com habitações agrupadas em torno da“casa-mãe”, o que revela uma tendência à escolha de uma lógicaresidencial matrifocal: as casas dos filhos são construídas nosarredores ou nos quintais, o que permite a realização de pequenosserviços domésticos mútuos e proporcione uma vida social maisintensa. Notamos que existe uma intensa circulação dos vizinhosque se deslocam para fazer uma visita aos familiares, mandarum recado, assistir à televisão ou pedir um serviço. Durante odia, as casas ficam de portas abertas, sendo fechadas unicamentequando a família se recolhe para dormir. Assim, a segmentaçãodo grupo leva à formação de linhagens e à constituição depatrimônios familiares que são inscritas no espaço: cada núcleofamiliar é formado por uma casa central, de onde sairão os filhosque irão estabelecer-se nos arredores, conforme a lógica do“sítio camponês”. Desse modo, em Boa Vista, o acesso à terra e àmoradia se faz essencialmente por herança ou pela inclusão de ummembro novo a um núcleo residencial. Coloca-se em açãoum sistema complexo, obedecendo a regras de descendênciae de aliança que determinam os direitos do uso do solo. Aqui,como em todo sertão nordestino, a unidade elementar (a famílianuclear) se espelha numa unidade maior, o “sítio”, que é vistocomo o território do conjunto das unidades familiares que sãointerligadas por laços de parentesco (WOORTMAN, 1995).A noção, muito próxima do “estabelecimento” de M. Mauss(2003, p. 437) ou da acepção atual de território, permite analisarconjuntamente elementos da organização social e os aspectossimbólicos das manifestações culturais.34De fato, a noção de casaelaborada por Claude Lévi-Strauss (1991) pode ser aplicada aonosso caso, com algumas modificações. A “casa” seria antes detudo um princípio organizador em torno do qual as sociedades,34 A leitura simbólicado território está presen-te em autores clássicos detradição francesa comoMaurice Halbwachs(1990) e Maurice Lee-nhardt (1971).ruris4-correções.indd 32 20/10/2008 11:13:00
  33. 33. 3 3R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8sobretudo as camponesas,se organizam.É uma“[...] pessoa moraldetentora de um domínio, que se perpetua pela transmissão doseu nome, da sua fortuna e de seus títulos em linha real ou fictícia,considerada como legítima somente na condição de que essacontinuidade possa se expressar na linguagem do parentesco ouda aliança e, na maioria dos casos, das duas em conjunto (LÉVI-STRAUSS, 1991, p. 186).Em nosso caso, o patrimônio é essencialmente compostopor um domínio fundiário e por bens imateriais (direitos, nomes,crenças, tradições): a história da fundação e a devoção a NossaSenhora do Rosário caracterizam-se como os bens culturais maisvalorizados, devido à ancestralidade e à importância que tempara a vida social e política do grupo. Dessa forma, não se podepensar um grupo social fora da sua inscrição num determinadoespaço geográfico, desvencilhado das condições ecológicas emateriais em que se encontra. Além disso, as dimensões culturaisdevem ser levadas em conta, pois, como demonstramos, em BoaVista, a dança do espontão reforça uma fronteira étnica que éreproduzida ao longo das gerações. Encontramos, na história defundação de Boa Vista, na atribuição dos nomes e nas estratégiasmatrimoniais, elementos constitutivos de um sistema culturalpróprio ao grupo. Esses elementos tendem a convergir nummesmo sentido, o da conservação do patrimônio fundiário e dacontinuidade do grupo no território.Elaboramos um mapa a partir das indicações coletadasem campo que permite visualizar os limites do territóriotradicionalmente ocupado pelo grupo; fronteiras geralmentemarcadas por acidentes naturais (rio, serra, pedras) ondeaparecem monumentos históricos (a cruz do escravo, a casa dapedra, uma fonte d’água etc.) e casas dos antigos moradores:ruris4-correções.indd 33 20/10/2008 11:13:00
  34. 34. 3 4R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8Mapa elaborado com base nos relatos orais coletados.Constatamos hoje que os descendentes de Theôdozio,de Massimino, de Antônio Moreno e de Zé Vieira continuammorando e plantando nas terras dos seus avós, com exceção daserra que não é mais utilizada, em parte por causa da invasãodas terras por vizinhos inescrupulosos. Assim, a memorizaçãoda genealogia parece responder a uma lógica de preservação e decontrole das terras herdadas de modo preferencial pelos homens.Porém não podemos caracterizar o grupo como tendo umadescendência agnática, pois a transmissão do nome e o direito àterra são herdados de forma indiferenciada, em linha masculinaou feminina. No entanto, trata-se de parentes consangüíneos. Demodo geral, o homem comanda o trabalho da terra (roçado eanimais de criação), a mulher, os filhos e os colaterais “ajudam”,realizando tarefas consideradas auxiliares. Assim, uma dasprincipais funções da longa memória genealógica encontradaem Boa Vista é determinar o acesso à terra, pois a lógica desua transmissão diz respeito, de maneira estrita, aos laços deparentesco.Assim, o parentesco e as relações sociais construídasruris4-correções.indd 34 20/10/2008 11:13:00
  35. 35. 3 5R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8historicamente com as outras comunidades definem umaidentidade diferenciada, desenham os limites do grupoquilombola e legitimam sua ocupação espacial. Porém oterritório tradicionalmente ocupado até início do século XXfoi drasticamente reduzido, quando os esbulhos de terras seacentuaram. De modo progressivo, chegamos à situação atualem que o território já não corresponde mais àquele ocupadopelos primeiros herdeiros de Domingos.35Além disso, o territórioquilombola encontra-se numa das áreas mais críticas dedesertificação da região. Como conseqüência direta, observamosuma redução drástica das atividades agrícolas desde os anos 1990,levando, assim, os segmentos mais jovens a sair da Boa Vista paraprocurar empregos nas cerâmicas circunvizinhas e morar na sededo município, nas cidades vizinhas, nas capitais da região e doSudeste.36Verificamos também que muitas mulheres deixaramde morar em Boa Vista por falta de opção de trabalho. Assim,Boa Vista perdeu sua frágil autonomia que era constituída poruma economia primitiva (coleta, caça, pecuária, agricultura)combinada a um trabalho assalariado. Hoje, configura-se comoum bairro rural destinado a oferecer moradia para as famíliasquilombolas – encontramos muitos aposentados e crianças – eacolher os parentes menos favorecidos.Asredesdesociabilidadequetêmcomofundamentoafamíliaampliada continuam operatórias para construir novas alianças.Essas são reativadas nos casos de necessidade econômica ouduranteasfestividades,comoéocasodaFestadoRosário.Aanálisedas representações e do parentesco, para ser completa, deverá serampliada para um nível extracomunitário, pois verificamos queo acesso e o uso da terra estão ligados a uma lógica tradicionalfixada na memória dos mais velhos. Essa vem sendo alteradaem parte com as mudanças da realidade econômica da regiãoe a intensa circulação das pessoas. Até os que se afastaram dasatividades agrícolas ou que migraram para as cidades e mantêmuma relação episódica com a Boa Vista, continuam a considerá-lacomo um lugar de referência: a “comunidade” desempenha um35 Ouvimos diversashistórias sobre a venda deterras na Boa Vista “tro-cadas por cachimbo defumo” (Manoel Miguel).36 Segundo Tereza (45anos), há muitas famíliasoriginárias da Boa Vistamorando em São Paulo,na Favela do Rubacão.ruris4-correções.indd 35 20/10/2008 11:13:00
  36. 36. 3 6R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8papel crucial na história individual dos membros da família erepresenta uma alternativa em caso de necessidade, cada um sabeque pode contar com a ajuda dos parentes. Essa situação revelamecanismos complexos de solidariedade que se articulam entreeles e são regularmente reativados, sobretudo, durante o maiormomento festivo do ano que reúne os membros das linhagens.É também a ocasião de verificar que os grupos domésticos semantêm interligados por um sistema complexo de prestações econtraprestações, ainda que os indivíduos não residam em BoaVista.Essesistemaarticulaumconjuntoderelaçõesexistenteentreos membros da comunidade que continuam tendo obrigações desolidariedadeentreeles.NocasodaBoaVista,concretizam-secoma lembrança da história de fundação, da ascendência comum, dosnomes de família, dos lugares históricos, das marcas delimitandoas terras etc. (AUGUSTINS, 1998, p. 16-18). Assim, as formas deorganização social-contemporâneas devem necessariamente serentendidas a partir da dinâmica existente entre os vários gruposdomésticos que se perpetuaram ao longo dos últimos séculos eque encontramos o registro nos documentos históricos.A DANÇA DOS QUILOMBOSNo final da análise, aparece que a mobilização étnica observadadurante o processo de regularização fundiária se fortalece naocasião da reiteração das marcas identitárias tradicionalmentereivindicadas pelo grupo. A identidade coletiva que se inscrevenuma estreita relação com o território tradicionalmente ocupadoencontra-se reforçada com a reiteração da lenda da fundação deBoaVista, a memória dos domínios fundiários dos seus ancestraise, em particular, a perpetuação do culto a Nossa Senhora doRosário. Assim, o sentimento que liga os quilombolas à terra, anarrativa de fundação, os laços de parentesco e a festa religiosaservem de referência tanto para os “quilombinhos” quanto paraos “quilombos velhos”.Mesmo se, entre os mais jovens, sobretudo os homens, háruris4-correções.indd 36 20/10/2008 11:13:00
  37. 37. 3 7R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8pouco interesse para a história do grupo e para a discussão dosassuntos políticos,percebemos,no entanto,uma forte consciênciaétnica que se expressa nos cuidados com a aparência física e apreocupação em continuar a “dança do espontão”.37Apesar dasmudanças sociais e econômicas ocorridas no final do século XX,as manifestações culturais e a memória não foram apagadas:ao sair do domínio sagrado, a narrativa de fundação e a dançaaparecem como sinais de afirmação étnica e de mobilizaçãopolítica.38Constatamos ainda que, apesar dos homens deteremo poder econômico por serem os provedores do lar, as mulheresocupam a cena política: são elas que estão à frente dos principaiscargos de representação e têm responsabilidades, pois, além dotempo disponível e da disposição para enfrentar situações novas,existe uma disparidade entre homens e mulheres quanto aonível educacional e profissional. As mulheres são professoras,enfermeiras, membros da associação comunitária que tem umtrânsito facilitado nos órgãos municipais, representando ainda aBoa Vista nos eventos quilombolas em nível estadual ou nacional.Estão à frente das decisões coletivas e dos projetos comunitários,inclusive na discussão sobre o território a ser pleiteado. Poréma atuação das mulheres no campo político interno e externonão implica uma mudança radical das relações de parentesco –sobretudo na escolhas dos cônjuges – e na divisão sexual dotrabalho.Assim, sem menosprezar o fenômeno político na análise dasdinâmicas sociais, é preciso que a dimensão simbólica e culturalesteja presente na análise dos grupos étnicos, pois essa tem umpapelimportante:sãoexperiênciasreligiosas,culturaisehistóricascompartilhadas – ainda que alguns de seus elementos sejamtambém utilizados parcialmente pelos grupos vizinhos. Assim,sabemos, desde Barth (1988) e outros autores, como N. Wachtel(1990) ou Galinier e Molinié (2006), que a identidade étnica ésimbolicamente construída e acionada de modo diferenciado,dependendo dos contextos sociais e políticos em que os agentesa reivindicam. Aqui, o auto-reconhecimento como quilombola37 Grande parte dasmulheres adultas e váriosjovens têm um cuidadoespecial com os cabelos,adotando a moda “afro” econtando com a ajuda deparentes que moram emSão Paulo para trazer fiosde cabelos que servirãopara fazer os penteados.38 A prova disso é queos “negros do Rosário”recebem constantementeconvites para se apre-sentarem em eventoslocais e foram incluídoscomo atração no roteirodo Seridó elaborado re-centemente pelo Sebraelocal. Com o auxílio daPrefeitura de Parelhas,foi formado um grupode dança composto porcrianças, os Quilombi-nhos, que se apresentamem eventos. Recentemen-te, as mulheres criaram ogrupo de dança africana,as Perólas Negras, comreferências claras a pas-sos, figurinos e cabelos deinspiração africana.ruris4-correções.indd 37 20/10/2008 11:13:00
  38. 38. 3 8R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8passa pela reiteração da narrativa que conta história das famílias,a execução pública da dança do espontão, a devoção a NossaSenhora do Rosário e o sentimento em relação à terra. Todosesses elementos apontam para uma identidade em constantereelaboração a partir de um fundo cultural comum.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASABREU, Marta. Festas religiosas no Rio de Janeiro: perspectivasde controle e tolerância no século XIX. Estudos Históricos, 7, 14,p. 183-203, 1994.ANDRADE, Mário de. Danças dramáticas do Brasil. BeloHorizonte: Editora Itatiaia, 1982, v. 2.ARRUTI, José Mauricio. Relatório técnico-científico sobre acomunidade remanescente de quilombos da ilha de Marambaia,município de Mangaratiba (RJ). Rio de Janeiro: Koinonia,Fundação Cultural Palmares, 2003a.AUGUSTINS,Georges.Laperpétuationdesgroupesdomestiques.Un essai de formalization. L’Homme, 38, 148, p. 15-45, 1998.BARTH, Frederik. Grupos étnicos e suas fronteiras. In:POUTIGNAT, Philippe; STREIFF-FENART, Jocelyne (Orgs.).Teorias da etnicidade. São Paulo: Unesp, 1988, p. 187-227.BOURDIEU, Pierre; CHAMBOREDON, Jean-Claude;PASSERON, Jean-Claude. Le métier de sociologue. Paris: Mouton,1983.CABRAL, João Pina; LIMA, Antónia Pedroso de. Como fazeruma história de família: um exercício de contextualização social.Etnográfica, IX (2), p. 355-388, 2005.CARVALHO, José Jorge. A tradição mística afro-brasileira. SérieAntropológica, UnB, 238, 1998, <http://www.unb.br/ics/dan/Serie238empdf.pdf>.CASCUDO, Luís da C. Dicionário do folclore brasileiro, 2aed. Riode Janeiro: Instituto Nacional do Livro, MEC, 1962, v. I, II.______. História da cidade do Natal, Natal, 2aed. Rio de Janeiro:ruris4-correções.indd 38 20/10/2008 11:13:00
  39. 39. 3 9R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8Prefeitura do Município do Natal, Civilização Brasileira, 1980.CASTRO, Eduardo Viveiros de. A inconstância da alma selvagem.São Paulo: Cosac Naify, 2002.CORD, Marcel Mac. Identidades étnicas, Irmandade do Rosário eRei do Congo: sociabilidades cotidianas recifenses – Século XIX.Campos, 4, p. 51-66, 2003.GALINIER, Jacques. L’entendement mésoaméricain. Catégorieset objets du monde. L’Homme, 39, 151, p. 101-121, 1999.GALINIER, Jacques; MOLINIÉ, Antoinette. Les néo-indiens. In:Une religion du IIIomillénaire. Paris: Odile Jacob, 2006.GÓIS, Diego Marinho de. Entre estratégias e táticas: enredosdas festas dos negros do Rosário em Jardim do Seridó. 2006.Monografia de fim de curso (História) – Universidade Federal doRio Grande do Norte, Ceres, mimeo.HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: EditoraRevista dos Tribunais, 1990.LAMARTINE, Juvenal. Velhos costumes do meu sertão. Natal:Fundação José Augusto, 1965.LEENHARDT,Maurice.[1947] Do Kamo,la personne et le mythedans le monde mélanésien. Paris: Gallimard, 1971.LÉVI-STRAUSS, Claude. Les structures élémentaires de la parenté.Paris: PUF, 1949.______. A gesta de Asdiwald. In: Antropologia estrutural dois. Riode Janeiro: Tempo Brasileiro, 1970, p. 152-205.______. Anthropologie structurale deux. Paris: Plon (rééd.), 1973.______. [1950] Introduction à l’oeuvre de Marcel Mauss. In:MAUSS, Marcel. Sociologie et anthropologie, 8aed. Paris, PUF,1983.______. Minhas palavras. São Paulo: Brasiliense, 1991.______. Antropologia estrutural, 6aed. Rio de Janeiro: TempoBrasileiro, 2003.LIMA, José Ayrton de. A escravidão negra no Rio Grande do Norte.Natal: Cooperativa dos Jornalistas de Natal, 1988.MATTOS, Maria Regina Mendonça Furtado. Vila do Príncipe –1850-1890.Sertão do Seridó,um estudo de caso da pobreza. 1985.Dissertação (Mestrado) – Instituto de Ciências e Filosofia, Centrode Estudos Gerais, Universidade Federal Fluminense, Niterói.ruris4-correções.indd 39 20/10/2008 11:13:00
  40. 40. 4 0R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8MATTOSO, Katia de Queirós. Les inégalités socioculturelles auBrésil à la fin du XIX siècle: Salvador de Bahia, vers 1890. In:MATTOSO, K. de Queirós; SANTOS, Idelette F. dos; ROLLAND,Denis. Matériaux pour une histoire culturelle du Brésil. Objets,voix et mémoires. Paris: L’Harmattan, 1999, p. 21-35.MAUSS,Marcel.Ensaio sobre as variações sazonais das sociedadesesquimó. In: Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac Naify,2003.MEDEIROS, Tarcisio. O negro na etnia do Rio Grande do Norte.Revista do Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Norte,70, 1978.MEDEIROS FILHO, Olávo de. Velhas famílias do Seridó. Brasília:Centro Gráfico do Senado Federal, 1981.______. Cronologia seridoense. Mossoró: Fundação GuimarãesDuque, 2002, v. 1.268, coleção Mossoroense.MELLO, Veríssimo de. Ensaios de antropologia brasileira. Natal:Imprensa Universitária, 1973.MENEZES, Marilda Aparecida de (Org.). Histórias de migrantes.São Paulo: Loyola, CEM, 1992.OLIVEIRA,RobertoCardosode.Sobreopensamentoantropológico.Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1988.______. O lugar (e em lugar) do método. In: Série antropológica,Brasília, 1995, <http://www.unb.br/ics/dan/Serie190empdf.pdf>.SAHLINS, Marshall. Ilhas de história. Rio de Janeiro: Zahar,1987.SIGAUD,Lygia.Des plantations aux villes: ambiguités d’un choix.Études Rurales, 131-132, p. 19-37, 1993.WACHTEL, Nathan. Le retour des ancêtres: les indiens Urusde Bolivie, XXe-XVIe siècle. In: Essai d’histoire regressive. Paris:Gallimard, 1990.WOORTMANN, Ellen Fensterseifer. Herdeiros, parentes ecompadres: colonos do Sul e sitiantes do Nordeste. São Paulo:Hucitec; Brasília, Edunb, 1995.ruris4-correções.indd 40 20/10/2008 11:13:00
  41. 41. 4 1R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8WOORTMANN, Ellen Fensterseifer. Família, mulher e meioambiente no seringal.In:NIEMEYER,Ana Maria;GODOI,EmíliaP. de. Além dos territórios. Para um diálogo entre a etnologiaindígena, os estudos rurais e os estudos urbanos. Campinas:Mercado de Letras, 1998, p. 167-200.ZONABEND, Nicole. La mémoire longue, temps et histoires auvillage. Paris: PUF, 1986.______.Les maîtres de parenté.Une femme de mémoire en Basse-Normandie. L’Homme, 154-155, p. 505-524, 2000.JULIE A. CAVIGNAC é do Núcleo Câmara Cascudo de Estudos Norte-Rio-Gran-denses, Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, Natal, ConvênioIncra SR 19, <cavignac@interjato.com.br>.ruris4-correções.indd 41 20/10/2008 11:13:01
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  43. 43. 4 3A EDUCAÇÃO NO CAMPO E A SUAREALIDADEPOR UM NOVO PATAMAR DE DISCUSSÃOANA LÚCIA VALENTER E S U M O Objetiva-se contribuir no debate sobre a educação no campo,procurando recuperar alguns conceitos elaborados pela ciência antropológica,na qual se acumularam conhecimentos sobre a diversidade cultural, e destacaranálises produzidas na área da história da educação, que trazem à luz informaçõespouco conhecidas que permitem a compreensão de alguns processos em andamento.Parte-se da análise de documentos oficiais que reivindicam a especificidade dessaeducação voltada para o alunado marcado pela diversidade cultural e que vive noespaço rural, para proceder à crítica de certo enfoque sobre a temática, sinalizandopara a necessidade de tratamento teórico mais rigoroso.P A L A V R A S - C H A V E Educação no campo; crítica à razão dualista;diversidade cultural.A B S T R A C T A contribution to the debate over rural education is intended,seeking to recuperate some concepts elaborated by social anthropology, which hasbeen producing studies over cultural diversity. This article aims highlight someanalysis produced by history of education, that will clarify ongoing processes. Itbegins with an analysis of some official documents claiming educational specificity,concerning cultural diversity and rural students, and proceeds criticizing certainapproach to this theme, signalizing the need of a more rigorous theoreticaltreatment.K E Y W O R D S Rural education; critique of dualism reason; cultural diversity.ruris4-correções.indd 43 20/10/2008 11:13:01
  44. 44. 4 4R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8INTRODUÇÃOEm abril de 2002, foram instituídas as Diretrizes Operacionaispara a Educação Básica nas Escolas do Campo. Dentre os artigosque compõem a Resolução da Câmara de Educação Básica doConselhoNacionaldeEducação(BRASIL,2002),quatromerecemdestaque. São eles:Art. 2oEstas Diretrizes, com base na legislação educacional,constituem um conjunto de princípios e de procedimentosque visam adequar o projeto institucional das escolas docampo às Diretrizes Curriculares Nacionais para a EducaçãoInfantil, o Ensino Fundamental e Médio, a Educação de Jo-vens e Adultos, a Educação Especial, a Educação Indígena,a Educação Profissional de Nível Técnico e a Formação deProfessores em Nível Médio na modalidade Normal.Parágrafo único. A identidade da escola do campo é defini-da pela sua vinculação às questões inerentes à sua realidade,ancorando-se na temporalidade e saberes próprios dos estu-dantes, na memória coletiva que sinaliza futuros, na rede deciência e tecnologia disponível na sociedade e nos movimen-tos sociais em defesa de projetos que associem as soluçõesexigidas por essas questões à qualidade social da vida coletivano país.Art. 5oAs propostas pedagógicas das escolas do campo, res-peitadas as diferenças e o direito à igualdade e cumprindoimediata e plenamente o estabelecido nos artigos 23, 26 e 28da Lei 9.394, de 1996, contemplarão a diversidade do campoem todos os seus aspectos: sociais, culturais, políticos, econô-micos, de gênero, geração e etnia.Art. 7oÉ de responsabilidade dos respectivos sistemas deensino, através de seus órgãos normativos, regulamentar asestratégias específicas de atendimento escolar do campo ea flexibilização da organização do calendário escolar, salva-guardando, nos diversos espaços pedagógicos e tempos deaprendizagem, os princípios da política de igualdade.ruris4-correções.indd 44 20/10/2008 11:13:01
  45. 45. 4 5R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8§ 1oO ano letivo, observado o disposto nos artigos 23, 24 e 28da LDB, poderá ser estruturado independente do ano civil.§ 2oAs atividades constantes das propostas pedagógicas dasescolas, preservadas as finalidades de cada etapa da educa-ção básica e da modalidade de ensino prevista, poderão serorganizadas e desenvolvidas em diferentes espaços pedagógi-cos, sempre que o exercício do direito à educação escolar e odesenvolvimento da capacidade dos alunos de aprender e decontinuar aprendendo assim o exigirem.Art. 13oOs sistemas de ensino, além dos princípios e dire-trizes que orientam a Educação Básica no país, observarão,no processo de normatização complementar da formação deprofessores para o exercício da docência nas escolas do cam-po, os seguintes componentes:I – estudos a respeito da diversidade e o efetivo protagonismodas crianças, dos jovens e dos adultos do campo na constru-ção da qualidade social da vida individual e coletiva, da re-gião, do país e do mundo;II – propostas pedagógicas que valorizem, na organização doensino, a diversidade cultural e os processos de interação etransformação do campo, a gestão democrática, o acesso aoavanço científico e tecnológico e respectivas contribuiçõespara a melhoria das condições de vida e a fidelidade aos prin-cípios éticos que norteiam a convivência solidária e colabo-rativa nas sociedades democráticas.Evidencia-se na leitura desses artigos a preocupação com“a identidade da escola do campo, as questões inerentes à suarealidade, a diversidade do campo, as estratégias específicasde atendimento escolar do campo” e mesmo uma formaçãocomplementar de professores dessas escolas que contemplemessas “especificidades”. Portanto, chama-se a atenção para o queseria específico e/ou singular.No atual governo, o Ministério da Educação propôs aconstrução de uma política nacional de educação do campo, apartir do “diálogo com as demais esferas da gestão do Estado eruris4-correções.indd 45 20/10/2008 11:13:01
  46. 46. 4 6R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8com os movimentos e organizações sociais do campo brasileiro”1.Entre os eixos teórico-políticos orientadores da política emconstrução (BRASIL, 2006b), tendo como “pano de fundo [...] adiversidade étnico-cultural como valor, ou, dito de outra forma, oreconhecimento do direito à diferença e a promoção da cidadaniana vida da República”, merece destaque:a) Construção de uma base epistemológica. Consiste nabusca da construção de uma base conceptual de superaçãoda dicotomia campo-cidade. Uma crítica ao que, no Brasil,tem orientado as políticas públicas, fazendo-as voltadas aodesenvolvimento econômico e social em franco privilégio aoespaço humano citadino ou, mais que isso, em detrimento davida no chamado meio rural. A busca de nova base implicaações no sentido de se instalar nas instituições processos deapoio à pesquisa de base e aplicada que tenha como temáti-ca a questão do campo e da educação do campo, mormente,educação e desenvolvimento sustentável.Embora esse eixo teórico-político sinalize a necessidade desuperação do dualismo campo–cidade, causa estranheza queoutros documentos ministeriais de mesma origem reafirmemque “a educação no campo tem características e necessidadespróprias para o aluno do campo no seu espaço cultural”(BRASIL,2006a). Superado o dualismo, qual a razão da reivindicada“especificidade”?O objetivo deste trabalho é contribuir para a discussão sobrea temática, na perspectiva de colocar em xeque a esquizofreniateórica que parece abater-se sobre aqueles que se têm dedicado àquestão. Procura-se, assim, estabelecer um diálogo crítico comesses documentos que foram escritos, tudo indica, a partir deidéias desconexas, em que são mencionados conceitos como“especificidade” e “identidade”, sem qualquer preocupaçãoexplicativa. E como oferecer diretrizes para a educação no campose as problemáticas que os envolvem não são discutidas? Se osconceitos empregados podem revestir-se de significados diversos1 Foi criada a Secretariade Educação Continuada,Alfabetização e Diversi-dade e em sua estruturaa Coordenação Geral deEducação do Campo,responsável pela mobili-zação capaz de gerar essapolítica.ruris4-correções.indd 46 20/10/2008 11:13:01
  47. 47. 4 7R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8em opções teóricas diferentes? Nem sempre são avaliadas asconseqüências dessas opções, que podem conduzir à defesa deidéias que contrariam as intenções de quem as defende.Paraisso,procura-serecuperardemaneiradidáticaeacessívelalgumas contribuições do campo antropológico, no qual seacumulou conhecimento sobre a diversidade cultural, bem comoformulações e análises produzidas no campo educacional quecompartilham o mesmo aporte.Parte-se de um aporte teórico quenão contrapõe o singular ao universal, cuja explicitação mesmoque sucinta permite recolocar o debate em novo patamar.O SINGULAR E O UNIVERSALAdvoga-se que o específico, o singular e o universal são níveisdiferenciados e não-excludentes da produção do conhecimento.As relações e mediações entre essas instâncias são necessidade edesafio à compreensão científica e acadêmica. O específico, emgeral, refere-se aos objetos de pesquisa; o singular, ao contextosocial mais abrangente no qual o objeto está inserido; e o universalexpressaastendênciashistóricasdaorganizaçãosocialdominante,ou seja, do modo de produção capitalista (VALENTE, 1996). Demaneira mais sistematizada, Alves (2003, p. 28) apresenta suacontribuição ao debate, explicando que[...] o singular é sempre uma forma de realização do univer-sal [sua expressão acabada é o modo de produção capitalis-ta]. Logo, o singular refere-se, também, à escala adotada pelopesquisador para realizar a abordagem da realidade huma-na: uma cidade, uma região, um país, um continente, etc. Osingular é manifestação, no espaço convencionado, de comoleis gerais do universal operam dando-lhes uma configuraçãoespecífica. Universal e singular, nessa perspectiva, são indis-sociáveis.O autor assim conclui seu ensaio metodológico sobre aabordagem científica do regional, em que pese ter iniciado oruris4-correções.indd 47 20/10/2008 11:13:01
  48. 48. 4 8R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8texto com um duro combate ao estudo da especificidade, dosingular e da diferença. Para Alves, o debate centrado naquilo quenos singulariza perde de vista a unidade concreta da realidadehumana e cita Martí – que afirma ser um pecado contra ahumanidade tudo o que divide, especifica, afasta e encurralaos homens. Admite que a realidade humana possua carátercomplexo e multifacetado e que, por isso, é um despropósito falarem realidade latino-americana, realidade brasileira, realidadesul-mato-grossense, realidade do índio, realidade do negro etc.Mesmo as especificidades das diferentes nações latino-americanase mesmo de distintas regiões brasileiras não são excludentes ouintrínsecas porque são determinadas pelo capital.Considerando-se que a referência a um universal tautológicotampouco faz avançar o conhecimento, o cerne do problema sãoas mediações entre esse nível de análise e o singular que nemsempre podem ser percebidas, captadas e discutidas em suacomplexidade numa primeira aproximação com o objeto dereflexão. Disso decorre que o singular jamais será abandonadocomo ponto de partida das investigações científicas, máximauniversalmente aceita por todos os campos do conhecimento.Mas só como ponto de partida.Como foi destacado linhas acima, as discussões em torno daeducação no campo trazem à baila questões relativas à diversidadecultural. Uma breve digressão conceitual permite precisaras relações da cultura e da educação, de maneira a facilitar aexposição das contribuições da antropologia no tratamento dessatemática.O PROCESSO CULTURAL E EDUCACIONALA criação e a transmissão contínuas do conhecimento conformamo processo cultural que é inseparável da condição social humana.Ao implicar o conhecimento e o aprendizado, é um processoeducacional. Porque se transforma ao longo do tempo, éhistórico e, por ser comum a todos, é considerado universal. Oruris4-correções.indd 48 20/10/2008 11:13:01
  49. 49. 4 9R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8homem é sujeito desse processo. Desse modo, pode-se definir aeducação como processo histórico universal, como a ação queprocura reafirmar a condição do homem como um ser que sedistingue de todos os outros no conjunto da natureza. Dissodecorre que a educação é expressão do social e da cultura quecaracteriza universalmente todos os seres humanos e, por serhistórica,transforma-se.Nessa perspectiva,processo educacional,produção cultural e “natureza” social humanos são experiênciascoincidentes.Os homens não podem ser compreendidos como seresdissociados da sociedade, da cultura e da educação construídoshistoricamente por eles próprios. Isso porque o homemuniversal é ele mesmo histórico, transformando-se. Entretanto,para além do universalismo e da historicidade do homem, umaspecto aparentemente contraditório resgata uma perspectivarelativizadora de sua presença no mundo. A pluralidade deexperiências interativas e reflexivas vividas pelos homens emdiferentes meios e condições de sobrevivência faz com que asociedade, a cultura e a educação ganhem contornos singulares.Na verdade, a singularidade não deixará de ser expressãoda historicidade e universalidade humanas, mas por vezesesses aspectos vão aparecer na história como se estivessemdissociados.Em diferentes meios os homens têm necessidadesdiferenciadas, buscam soluções diversas para atendê-las, queresultam em experiências e conhecimento singulares. Essaafirmação, desacompanhada de explicações devidas, poderiasinalizarodeslizeparaumaarmadilhaevolucionista:aperspectivateórica que marcou o início da antropologia.AS CONTRIBUIÇÕES DA ANTROPOLOGIAEssa ciência se constituiu historicamente com a preocupação decompreender as diferentes culturas humanas. Mas é, ela mesma,fruto de necessidades humanas, nascendo comprometida com oruris4-correções.indd 49 20/10/2008 11:13:01
  50. 50. 5 0R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8contexto histórico que a originou e se transformou. Embora ohomem tenha sempre buscado interrogar-se a si mesmo,o projetode fundação da antropologia como ciência do homem é recente.Apenas no final do século XVIII é que o próprio homem começaa ser tomado como objeto do conhecimento antropológico. E,no século XIX, a antropologia define como objeto de estudoas populações que não pertenciam à civilização ocidental, aschamadas “sociedades primitivas”.No século XVI são descobertos e explorados espaçosdesconhecidos. Já no século XVIII, o movimento iluministaprocura organizar o discurso, até então veiculado pelos viajantes,sobre os habitantes do Novo Mundo. O século XIX, época em quea antropologia se constitui como disciplina autônoma,é o períodode uma nova conquista colonial. Nesse movimento de conquista,os passos do antropólogo vão acompanhar os do colonizador.Os colonizados, possuidores de culturas diferentes, passam a servistos como “primitivos”, ou seja, os ancestrais dos civilizados eindissociavelmente ligados à origem da civilização.Assim,todas asformas de organização social evoluiriam de formas mais simplesem direção às mais complexas, rumo ao progresso.O pensamento evolucionista, ao defender a existênciade uma espécie humana idêntica que se desenvolveria emritmos diferentes, passando pelas mesmas etapas até alcançar a“civilização”, aparece, hoje, como etnocêntrico e colonialista.Isso porque se procurou medir o suposto atraso das “sociedadesprimitivas” em relação aos critérios ocidentais, com o progressotécnico e econômico sendo considerado como “prova” daevolução histórica.Dessa maneira,o evolucionismo aparece comojustificativa teórica do colonialismo. Associam-se também a ele adefesa de determinações do meio físico e as determinações raciaisque explicavam o maior ou menor “avanço”, a inferioridade e asuperioridade das culturas existentes.Pelo menos três razões nos afastariam das concepçõesevolucionistas do século XIX, quando afirmamos que o homemem diferentes meios tem necessidades diferenciadas, buscaruris4-correções.indd 50 20/10/2008 11:13:01
  51. 51. 5 1R U R I S | V O L U M E 2 , N Ú M E R O 2 | S E T E M B R O D E 2 0 0 8soluções diversas para atendê-las que resultam em experiênciase conhecimento singulares. Não se podendo negar a existênciade diferentes expressões da natureza, dificilmente se poderiadizer que os homens respondem da mesma maneira aos desafioscolocados pelo meio. Considerando a universalidade humana,não acreditamos que as transformações produzidas na interaçãohomem–meio possam sofrer qualquer tipo de medição capaz deavaliar seu avanço ou superioridade. Essas transformações sãodefinidas na própria relação dos homens com meios diferenciadosque resultam em respostas particularizadas. Por outro lado, seatribuímosimportânciaprimordialaoshomenseàsuacapacidadetransformadora, não se pode pensar em apenas determinação domeio, mas também em determinações humanas, no atendimentode suas necessidades.Do mesmo modo, defendida a universalidade humana –ou, se quiserem, uma espécie humana idêntica –, não se podejustificar que determinações raciais, isto é, biológicas, possamintervir no processo diferenciado de transformação do meio.Por fim, se, como dissemos anteriormente, a ciência se redefine,comprometida com o contexto histórico, nada justificariaque o nosso olhar sobre a diversidade cultural de nosso tempofosse moldado com a perspectiva teórica elaborada no séculoXIX. Como já foi afirmado, o conhecimento produzido sobre arealidade se transforma porque essa realidade é transformadapela ação humana. Por isso, a nossa opção teórica deve sercompreendida com base no conhecimento acumulado e à luz dahistória da própria antropologia.Representando um avanço em relação às perspectivasetnocêntricaseevolucionistasdaantropologia,noiníciodoséculoXX,acorrentedepensamentoculturalistapropôsumanovaformade abordagem das chamadas sociedades primitivas. Propunhao esforço de compreensão da diversidade humana, negandoque ela pudesse ser explicada por determinações biológicasou geográficas. Para essa corrente, as fontes dessa diversidadeestariam na cultura e no particularismo histórico. Dessa maneira,ruris4-correções.indd 51 20/10/2008 11:13:01

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