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rá a capacidade competitiva e inovativa
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Novo Desenvolvimentismo: Nordeste e Brasil na eletrônica de montagem

  1. 1. Especial O Nordeste na tomada do crescimento 26 CUSTO BRASIL
  2. 2. tecnologia É possível acabar com o déficit comercial no setor GUstavo antônio Galvão dos santos Economista do BndEs e doutor eletrônico e, ao mesmo tempo, igualar a renda per em Economia pela UFRJ José FRancisco sanchEs da silva capita do Nordeste a renda nacional. Trata-se de Economista do BndEs incentivar na região a instalação das indústrias de bens RodRiGo loUREiRo MEdEiRos Professor adjunto da UFEs duráveis, principalmente eletrônicos, da cadeia de EdUaRdo KaPlan BaRBosa peças de metal e de plástico específicas, e perseguir Economista do BndEs e mestrando em Planejamento Urbano na UFRJ metas de exportações. Para isso, recomenda-se BRUno Galvão dos santos aproveitar o amplo conhecimento adquirido nos 40 anos Economista do BndEs e doutorando em Economia da UFRJ de existência da Suframa. Uma das grandes barreiras ao de- de sua economia. Nossas propostas se senvolvimento nacional é a deficiência sustentam nos conceitos de Indústria produtiva do setor eletrônico. O Brasil Central e Pioneira, que tratam da dinâ- seria desenvolvido em uma geração, se mica espacial da indústria. a capacidade produtiva dessa indústria A metal-mecânica é o núcleo duro aumentasse a ponto de gerar superávit da indústria dos países desenvolvidos. em sua balança comercial. As exporta- As indústrias de bens de capital e bens ções do setor eletrônico foram um passo duráveis de consumo se concentram nos imprescindível no desenvolvimento do tradicionais centros industriais. Elas se Japão, Coréia do Sul, Taiwan e China. beneficiam de fortes economias de aglo- Transformaram o Leste Asiático em uma meração provenientes das atividades potência econômica. ligadas à metal-mecânica e dos efeitos A construção de um setor eletrônico simbióticos que essas atividades têm competitivo poderá gerar dezenas de com as indústrias químicas e eletrônica. bilhões em divisas, reduzir significa- Esses três complexos geram vantagens tivamente a vulnerabilidade externa, competitivas dinâmicas onde se con- aumentar muito a renda, o recolhimento centram. São a base material de quase de impostos e o emprego, multiplicar a todas as inovações. São responsáveis capacidade inovativa do país e melhorar por grande parte das exportações dos a distribuição regional da riqueza. países desenvolvidos e, portanto, são a Nossa proposta é acabar com o dé- base do poder econômico deles. Devem ficit comercial da eletrônica, industria- ser o principal foco de política industrial lizando o Nordeste. Boa parte dessa dos subdesenvolvidos. indústria está hoje isolada em Manaus. Uma política industrial eficaz deve Esse é um dos motivos do atraso da seguir alguns pontos: 1) ser pautada por eletrônica, que precisa ser realocada. um objetivo coletivo; 2) possuir metas Portanto, há um grande espaço para para avaliação e cobrança; 3) escolher crescimento dela no Nordeste1. Essa um foco de atuação para otimizar os indústria pode erguer a região. recursos; e 4) garantir o comando sobre Porém, como Manaus hoje depende instrumentos operacionais eficazes. dessa indústria para sobreviver, esse Para definir o foco de atuação da polí- processo deve ser concomitante com tica industrial, utilizaremos um modelo um trabalho intenso de reestruturação que relaciona competitividade de um CUSTO BRASIL 27
  3. 3. Especial território com a dinâmica industrial. Ele divide as indústrias em 2 tipos: Pionei- GRáFico 1 ras e Centrais. Pioneiras são aquelas que podem ser PRoPoRção das ExPoRtaçõEs dos tiGREs asiáticos PoR sEtoR (2007) instaladas em uma região não industrial com relativa facilidade e sem grande (sEtoREs GRavitados EM toRno do MEtal-MEcânico, oU indústRias cEntRais: PElo MEnos 70%, “dE azUl”) defasagem competitiva. Infraestrutura ou mão de obra são os determinantes de sua competitividade. Assim, se dividem Equip. de escritório em dois tipos: e de Telecom 1) Pioneiras com foco na infraestru- 36% tura (recursos naturais) 2) Pioneiras com foco na mão de obra Outras Manufaturas Aquelas com foco na infraestrutura 10% se baseiam em custos de transporte ou energia baratos ou acesso a recursos naturais. Incentivos fiscais e creditícios Primários podem favorecer sua instalação, mas 13% Mecânica não são determinantes. Os principais 23% exemplos estão na mineração, commodi- Intermediários* ties industriais e agropecuária intensiva 7% em terras. Exploração de minério, side- Químicos 11% rurgia, silvicultura, produção de grãos, cana mecanizada e pecuária bovina extensiva são casos típicos. Essas indústrias são capazes de elevar a renda de regiões pobres. Podem GRáFico 2 tornar ricas regiões pouco povoadas, porque o custo do trabalho não é o fator PRoPoRção das ExPoRtaçõEs EURoPEias PoR sEtoR (2007) competitivo principal. Assim, podem pagar bons salários. No entanto, empre- (sEtoREs GRavitados EM toRno do MEtal-MEcânico, oU indústRias cEntRais: PElo MEnos 55%, “dE azUl”) gam relativamente pouco, não podendo resolver a pobreza das regiões mais povoadas. Mecânica 31% Estimular as Pioneiras intensivas em mão de obra mostra-se uma solução mais eficaz para aumentar de forma equilibrada a renda em regiões densa- mente povoadas. Os exemplos clássicos Intermediários* 12% pertencem ao que genericamente se Químicos chama de indústrias tradicionais, como 15% têxtil, calçados e móveis e agricultura de hortifrutigranjeiros. Ao contrário do que Outras Manufaturas o senso comum leva a crer, há também 13% Equip. de escritório, Pioneiras intensivas em mão de obra de Telecom e científicos qualificada. Bons exemplos são os ser- 9% viços de software, indústrias baseadas Primários em atividades artesanais e atividades 19% criativas em geral que não dependem 28 CUSTO BRASIL
  4. 4. tecnologia de bases de conhecimento diversas e de processamento industrial. GRáFico 3 A atração de indústrias focadas na mão de obra é a etapa básica no proces- PRoPoRção das ExPoRtaçõEs dos EUa PoR sEtoR (2007) so de desenvolvimento um país ou região mais populosa. No entanto, um país não (sEtoREs GRavitados EM toRno do MEtal-MEcânico, oU indústRias cEntRais: PElo MEnos 64%, “dE azUl”) se torna desenvolvido apenas com elas, porque normalmente pagam salários relativamente baixos, principalmente Mecânica nas regiões mais pobres. Mesmo as in- 35% tensivas em mão de obra qualificada são incapazes de desenvolver uma região populosa, porque: 1) essas indústrias Outras Manufaturas ainda empregam relativamente pouco 12% no mundo; 2) o poder público local pode não ter orçamento para universalizar Equip. de escritório uma educação de qualidade; 3) para e de Telecom 16% se deslocarem plantas produtivas para países subdesenvolvidos, os salários Primários 17% precisam ser muito menores, 4) grandes deslocamentos de empresas desse tipo Químicos para países em desenvolvimento geram Intermediários* 13% 7% reações protecionistas. as indústRias cEntRais Desde a segunda Revolução Indus- trial, a principal base econômica dos pa- GRáFico 4 íses desenvolvidos foi e continua sendo sustentada no seguinte tripé setorial: PRoPoRção das ExPoRtaçõEs do JaPão PoR sEtoR (2007) 1) Metal-mecânica 2) Química (sEtoREs GRavitados EM toRno do MEtal-MEcânico, oU indústRias cEntRais: PElo MEnos 75%, “dE azUl”) 3) Elétrica (hoje, eletroeletrônica) Essas indústrias significam algo en- tre 55% e 75% das exportações dos países mais desenvolvidos e dos “tigres Mecânica 49% asiáticos”. Ver Gráficos 1 a 4. As exportações são o sustentáculo Primários 5% do crescimento e da estabilidade econô- mica dos países. Portanto, essas indús- Intermediários* trias são a base do poder e do status de 9% uma nação desenvolvida. Quem quer se tornar desenvolvido precisará ser com- petitivo nas Indústrias Centrais. Outras Manufaturas Foram assim nomeadas porque se 11% situam basicamente nos maiores centros Equip. de escritório Químicos industriais dos países centrais. Elas se e de Telecom 9% combinam no espaço. A indústria metal- 17% mecânica atrai a química e a eletrônica, e vice-versa. Quanto maior o porte e a CUSTO BRASIL 29
  5. 5. Especial Seria necessário construir mais três parques paulistas, pois hoje a indústria nacional é aproximadamente o dobro da paulista em valor agregado diversificação das concentrações in- dade. Trata-se de um problema porque brasileira fosse equivalente a cinco dustriais desses setores, maior tende o crescimento aumentará o peso das parques industriais do porte do atual a ser a competitividade das empresas indústrias centrais e as economias de parque paulista. Seria, portanto, ne- situadas nelas. Portanto, espera-se que aglomeração são mais intensas onde cessário construir mais três parques as Indústrias Centrais sejam mais con- elas já se concentram. É uma oportu- paulistas, pois hoje a indústria nacional centradas do que as Pioneiras. Podemos nidade porque essas indústrias ainda é aproximadamente o dobro da paulista ver essa expectativa confirmada no empregam pouco no Brasil3. em valor agregado. Gráfico 52. São Paulo tem 1/5 da população A primeira questão que surge é onde As Indústrias Centrais estão basi- brasileira. Se o resto do País desejasse devem se situar essas três novas indús- camente localizadas em São Paulo. Isso apenas ser tão próspero quanto São trias paulistas inteiras? Minas, Espírito se revela um problema e uma oportuni- Paulo, seria necessário que a indústria Santo e Rio têm entre 7 e 8% da PIA – GRáFico 5 PaRticiPação (%) dos Estados nas indústRias cEntRais E PionEiRas (MEdido EM Massa salaRial, Rais 2006) 65% 60% 55% 50% 45% 40% 35% % Indústrias Centrais % Indústrias Pioneiras 30% 25% 20% 15% 10% 5% 0% SP RS MG RJ SC PR AM BA PE GO CE ES AL DF MT PA PB MS RN MA SE PI RO TO AC AP RR 30 CUSTO BRASIL
  6. 6. tecnologia GRáFico 6 GRaU dE indUstRialização PoR Estado Massa salaRial indUstRial dividida PoR PoPUlação EM idadE ativa - Pia (18-65) R$ 160 R$ 140 Indústrias Centrais (densidade) R$ 120 Toda manufatura (densidade) R$ 100 R$ 80 R$ 60 R$ 40 R$ 20 R$ 0 SP SC RS PR AM MG RO RJ média AL é ES RN GO MT PE CE BA SE MS PB PA DF MA PI TO AP AC RR População em Idade Ativa trabalhando A solução é oferecer estímulos sig- eventos ainda fora do controle do go- na manufatura. São Paulo e Sul têm o nificativos para as Indústrias Centrais verno, como as decisões estratégicas dobro de industrialização, como pode- em outras unidades federativas, es- das montadoras. mos ver no Gráfico 6. pecialmente no Nordeste. Mas como Uma solução para o Nordeste pode- Os dados mostram que a expan- fazer isso se nem diferenças salariais, ria ser o primeiro passo para um novo são industrial deve se concentrar ao nem incentivos fiscais e creditícios – Brasil, pois vem de lá a maior parte da norte de SP. Em termos aproximados, existentes desde a criação da Sudene – miséria. Para o Brasil se tornar um país metade deve se dividir entre os outros conseguiram alterar significativamente apenas medianamente desenvolvido, o estados do Sudeste e o Centro-Oeste, e essa realidade? produto industrial precisa mais do que outra metade para o Norte e Nordeste. O Governo Federal está no caminho triplicar na região. O desafio é obter Isso significa que ao menos um parque certo, com a criação de refinarias, o mercado imediato para tanta indústria. industrial paulista deve ser somado à Estaleiro de Suape, a Transnordestina A solução é a instalação de um mega- indústria já existente no Nordeste para e a Transposição do São Francisco6. complexo eletrônico situado nas gran- que essa região tenha uma renda per Mas ainda é pouco. É necessário in- des cidades entre Fortaleza e Ilhéus. capita similar à paulista atual. duzir que novas montadoras se insta- Esse é o setor ideal porque há grande e Essa é a síntese da proposta.4 Não é lem preferencialmente no Nordeste. De crescente espaço no mercado interno e ousada em termos de comparação inter- qualquer forma, todas essas políticas exportações aquém do potencial. nacional, mas seria um grande desafio são insuficientes, ou porque não geram O Brasil começa 2009 com uma para o Nordeste, que precisaria triplicar muitos empregos, como as refinarias situação quase calamitosa na sua conta o tamanho da sua indústria. O desafio é e o estaleiro, ou se concentram nos corrente, com déficit esperado de 25 superar economias de aglomeração das setores pioneiros, como a Transposição bilhões de dólares. Isso revela sinais Indústrias Centrais 5. e a Transnordestina, ou dependem de de vulnerabiliade e estagnação eco- CUSTO BRASIL 31
  7. 7. Especial GRáFico 7 sUPERávit na Balança coMERcial dos sEtoREs indUstRiais Básicos (BilhõEs Us$) 50 Indústria tradicional e agroindústria Indústria total 40 Insumos básicos Metal mecânico Eletroeletrônico 30 Químico 20 10 0 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 -10 -20 -30 nômica. A tendência à estagnação se rado com maciça produção industrial, relativamente atrasado no Brasil e em mostra mais preocupante pelo déficit não há possibilidade de se escapar da São Paulo, o que significa espaço para nas Indústrias Centrais, como mostra estagnação. o Nordeste. o Gráfico 7. É necessário, portanto, investir nas O metal-mecânico é muito difícil de O Brasil obteve em 2008 um déficit Indústrias Centrais. Mas como o Nor- ser introduzido em larga escala pela de quase 50 bilhões de dólares apenas deste pode superar as economias de intensidade das economias de aglo- na química e eletrônica, que, juntamente aglomeração já acumuladas pelos países meração. Porém, no Brasil, ele já é à metal-mecânica, são os setores mais desenvolvidos e Leste Asiático? diversificado. A química nem tanto, pois dinâmicos e com maior elasticidade- é o setor mais difícil de ser introduzido. a PERna FRaca do tRiPé renda da demanda. O Gráfico 8 mostra o Têm barreiras técnicas, institucionais e dinamismo desses setores, classificados A resposta para esse desafio é sim- concorrenciais expressivas. como alta tecnologia7. ples e decorre do reconhecimento de Os eletrônicos mostram-se mais Dada alta elasticidade-renda desses uma grande oportunidade. Entre as acessíveis, porque o conhecimento sobre setores, se o Brasil resolvesse crescer a Indústrias Centrais, a eletrônica é a que sua manufatura é disponível e os custos taxas elevadas, em cinco anos só o défi- possui menores barreiras à entrada8 e de capital são reduzidos. O Gráfico 10 cit comercial deles poderia ultrapassar maior crescimento de mercado, podendo evidencia a maior facilidade em ocupar 100 bilhões. Se nosso atraso nas In- dar respostas mais rápidas. Por “sorte”, market-share no comércio de eletrô- dústrias Centrais ou de alta tecnologia, o setor é a perna que falta para termos nicos, bem usada pelos asiáticos nos evidenciado no Gráfico 9, não for supe- uma Indústria Central competitiva. Está últimos trinta anos. 32 CUSTO BRASIL
  8. 8. tecnologia Desenvolver a eletrônica fortalece- rá a capacidade competitiva e inovativa GRáFico 8 nos setores de progresso mais difícil, mecânico e químico. Nossa competiti- cREsciMEnto do coMéRcio MUndial dE MERcadoRias vidade é frágil na mecânica fina, que é PoR intEnsidadE tEcnolÓGica, 1885-2006 (%) especialmente demandada pela eletrô- nica. Se eletrônica consumisse mais de mecânica fina de origem nacional, essa Produtos de alta tecnologia 12,4 teria maior competitividade, gerando Produtos de média tecnologia divisas e favorecendo também outros 9,5 setores. Produtos de baixa tecnologia 9,7 A mecânica fina é peça fundamental Prod. prim., prod. baseados 8,5 em rec. nat.,exceto petróleo para alavancar a capacidade inovadora Petróleo e produtos de petróleo 9,5 do Brasil. A maioria das inovações Produtos baseados em 9,3 mundiais está associada às Indústrias recursos naturais Produtos primários 8,3 Centrais, pois requerem algum trabalho em material típico dessas indústrias. As Comércio mundial 9,8 inovações nesses setores, por sua vez, dependem de uma capacidade de proto- Fonte: Fonte: Carta IEDI n. 331 - Crescimento e Transformação Produtiva na América Latina tipagem e testes ágil e barata. Todas as indústrias que utilizam plástico, vidro parte os dois tipos de know-how. Des- qüentemente, as exportações eram e metal no produto ou processo têm a sa forma, uma região precisa possuir limitadas, prejudicando ainda mais os capacidade de inovação dependente da capacidades técnicas nos três setores, ganhos de escala. agilidade e da diversidade de técnicas para ser inovadora. Em síntese, a pro- No momento da abertura, apesar de trabalho mecânico. Um bom exemplo ximidade, densidade e atualização das das empresas brasileiras dominarem encontra-se na indústria de alimentos, Indústrias Centrais é fundamental para a tecnologia de produto, não puderam uma das mais inovadoras. a competitividade de um país. Portanto, competir em preço, pois tinham altos Nosso setor petroquímico possui pe- a deficiência competitiva na eletrônica custos. As tecnologias de processo mais quena produção de plásticos especiais, limita o desenvolvimento brasileiro. automatizadas eram de fácil adoção. fruto da baixa demanda do nosso setor Mas as empresas não possuíam capital eletrônico. Se consumíssemos mais, REsERva dE MERcado suficiente para mudar tão rapidamente aumentaríamos o escopo e a escala da A política de reserva de mercado o processo industrial de toda cadeia, petroquímica, o que geraria inclusive para informática nos anos 80 acertou pois haviam adquirido e contabilizado capacidade de exportação e inovação. na prioridade, mas errou na tática. seu capital a preços de reserva de mer- Inovações na química melhoram o de- Baseou-se na a proteção do mercado, cado. Não faltava capacidade técnica sempenho da indústria mecânica e ele- que foi eficaz para introduzir a metal- e organizacional, apenas capital, que trônica. Ademais, a competitividade da mecânica e petroquímica, mas não a equivocadamente não foi provido pelos química depende de processos contínuos eletrônica. Nela, o dinamismo tecno- governos Collor e FHC. automatizáveis e de alta exigência de lógico, com ciclos de vida muito curtos O grande erro da reserva de mer- segurança, resistência e controle9. Por- para os produtos, altas escalas na cado foi focar apenas no domínio tec- tanto, seu desenvolvimento tecnológico produção de peças e grande variedade nológico sobre o produto e ter dado depende muito de habilidades mecâni- de componentes de difícil substituição relativamente pouca atenção aos custos. cas, metalúrgicas e eletrônicas. tornam o mercado interno insuficiente A forma ideal de construir uma indústria A maioria dos produtos que utilizam para viabilizar uma cadeia competi- atenta aos custos é investir no esforço habilidades mecânicas também exige tiva. A reserva de mercado ainda fez exportador, como o fizeram os asiáticos. competências eletrônicas. Isso vale com que surgisse um grande número Infelizmente, a visão de política para tanto para os produtos quanto para de empresas, limitando os ganhos de o setor ainda encontra-se organizada os processos. Quase toda inovação, escala e elevando os custos. Conse- segundo os princípios da substituição de na química em especial, requer em CUSTO BRASIL 33
  9. 9. Especial importações, sem cuidado com custos. Poucos países na época produziam cir- genuinamente exportador... Esse ponto Precisamos, porém, lembrar que as cuitos integrados, computadores de deve ser, de imediato, realçado, uma táticas utilizadas na política da reserva grande porte, robôs e quase todos os vez que os incentivos inerentes ao de mercado foram consequência do tipos de equipamentos de informática, enclave industrial, aliados a sua predo- estrangulamento externo que o Brasil eletrônicos e equipamentos de automa- minante especialização local, acabaram sofreu nos anos 80. Era proibido auto- ção. O Brasil produzia em escala e até por atrair numeroso contingente de em- móveis, e havia forte proteção também exportava. Quase todo esse conhecimen- presas estrangeiras, notadamente da a outros setores. Em 1987, houve mo- to foi jogado fora por motivos ideológicos eletrônica de consumo, concentrando ratória da dívida externa por falta de e equívocos de política. uma parcela substancial da produção dólares. Além disso, o Executivo não nacional naquela região.” dEFiciência coMPEtitiva tinha orientação estratégica, prevalecia Desde o início, a ZFM é uma inu- conflito e confusão na sociedade e nos A Zona Franca de Manaus – ZFM sitada “maquila” de importação. Em meios políticos. destruiu a vinculação fundamental entre comparação com as maquiladoras de A reserva de mercado teve também os eletrônicos de consumo e o parque exportação mexicanas, ela é um de- méritos, que poderiam ter sido aprovei- metal-mecânico no Centro-Sul, inviabili- sastre em termos de contas públicas e tados para tornar o Brasil um grande zando o potencial competitivo do setor. externas. No México, geram empregos exportador de produtos de informática, Segundo Nassif (2002)10 “a ZFM foi e impostos que não existiriam sem elas, se não fossem os equívocos da política originariamente concebida para tornar- aqui deixam de gerar milhões de em- neoliberal. Construiu-se raro know-how se pólo exportador, tendo em conta a pregos diretos e indiretos e bilhões em na produção de eletrônicos e uma massa completa isenção dos impostos de im- impostos por falta de competitividade do de trabalhadores e empresas capacita- portação e sobre valor adicionado (IPI) tripé das Indústrias Centrais. das a produzi-los. Estávamos anos-luz dos insumos utilizados na produção A explosão da demanda mundial à frente da China, Coréia do Sul, Taiwan para exportação de quaisquer bens... nos últimos 20 anos levaria o Brasil e até da maioria dos Estados europeus. Porém, a ZFM jamais atuou como pólo a ter uma trajetória de Tigre Asiático, se a eletrônica fosse exportadora. Não haveria décadas perdidas e a renda per capita seria duas vezes maior. GRáFico 9 Os defensores do livre comércio e os desenvolvimentistas são críticos aos PRodUtos dE alta tEcnoloGia incentivos à ZFM. Os desenvolvimen- EM % das ExPoRtaçõEs totais tistas defendem incentivos fiscais para instalação de indústrias infantes que 60% precisam de proteção inicial e que pode- rão competir normalmente no futuro. Os 50% incentivos da ZFM existem há 40 anos e são permanentemente renovados. 40% Foram recentemente prorrogados para 2023. Porém, nada indica que a eletrô- 30% nica será um dia competitiva na ZFM. No resto do mundo e na teoria, in- 20% centivos à importação só devem existir em Zonas Especiais de Exportação. 10% Eles desestimulam o desenvolvimen- to produtivo nacional. Além disso, é 0% Cingapura Taiwan Costa Rica EUA Malásia Hong Kong Israel Japão Suécia Tailândia China México Brasil necessário que a indústria eletrônica se desloque para onde for mais com- petitiva, os locais com vocação para Produtos de alta tecnologia Produtos sofisticados de alta tecnologia polos metais-mecânico. No entanto, isso Fonte: Cepal (2008), pág. 102 deve ser feito sem destruir Manaus e o 34 CUSTO BRASIL
  10. 10. tecnologia GRáFico 10 MaRKEt shaRE das ExPoRtaçõEs chinEsas EM sEtoREs dE alta tEcnoloGia Amazonas, cujas economias dependem nordestina. Para tanto, as Indústrias trais. Ademais, a participação dessas desses incentivos. Pioneiras não são suficientes. O Nordes- indústrias no consumo é crescente, pois O objetivo, bem-sucedido, da criação te já possui 20% da Indústria Pioneira tem alta elasticidade renda. Se o projeto da ZFM foi a proteção do território. A nacional11, 4% de sua PIA (18-65)12 tra- é dobrar o PIB per capita, a participação escolha do setor eletrônico decorreu balha nesse setor. Porém, a região tem delas deverá ser muito maior do que é por ser à época pouco dependente de apenas 11% das Indústrias Centrais, hoje, reforçando a necessidade de se- grandes escalas e logística. O oposto da correspondendo a 1% da sua PIA. rem maioria do acréscimo da indústria situação atual. Se o crescimento industrial nordes- nordestina. Hoje a manutenção desses incentivos tino for de Indústrias Pioneiras, a região Chegamos a um grande desafio: re- decorre da inércia política que o neolibe- concentraria mais da metade dessas tirar os incentivos que mantêm as in- ralismo implantou no Brasil. A obsessão indústrias. Não haveria mercado interno dústrias eletrônicas em Manaus e mais pelo superávit primário impede que o para tantos sapatos, roupas, móveis e que dobrar a indústria brasileira, fo- Governo Federal se disponha a oferecer commodities. O mercado internacional cando nas Indústrias Centrais e fora do garantias de recursos para essa transi- também não poderia absorver volume Centro-Sul. Sem incentivos territoriais ção, que inevitavelmente trará grandes tão grande desses produtos, pois nossas o peso relativo do Centro-Sul dobraria dúvidas para o povo do Amazonas. exportações já têm crescido lentamente nesse processo, pois as economias de e, nas commodities, o Nordeste tem aglomeração lá são substanciais. O noRdEstE pouco potencial. crescimento seria drenado para lá e boa Para que o Nordeste atinja uma Concluímos que a maior parte do parte da população não se beneficiaria renda per capita igual a de São Paulo, parque industrial a ser implantado de- ou teria que se mudar, retomando o pro- faz-se necessário triplicar a indústria veria ser constituída de Indústrias Cen- cesso de metropolização desordenada CUSTO BRASIL 35
  11. 11. Especial que ocorreu durante a industrialização A oportunidade é clara, mas tam- marcas, tecnologia e desenho próprios. brasileira entre 1950 e 1980. Para com- bém o desafio. Qual o segredo da com- A manufatura ainda não estava desvin- plicar, a Petrobras descobriu reservas petitividade dos eletrônicos asiáticos? culada do controle sobre marcas. Ainda gigantescas de petróleo no rico Centro- Certamente não é só uma questão de assim, iniciaram com importação de se- Sul do Brasil. trabalho barato, pois países de mão micondutores. Mas como competir com Os asiáticos usaram o setor eletrô- de obra mais cara como Japão, Coréia os norte-americanos, se importavam de nico para se introduzirem em massa e Taiwan são superavitários nesses lá componentes que correspondiam por nas Indústrias Centrais e no comércio produtos. E a maioria dos países de parte significativa do valor agregado? internacional, aproveitando-se das me- mão de obra barata também não tem O custo do trabalho é uma respos- nores barreiras à entrada. Neste ponto, competitividade. ta apenas parcial. O Brasil também os equívocos da ZFM, da Reserva de A teoria tradicional defende que o investia no setor e tinha baixos custos Mercado dos anos 80 e da abertura foco da política para o setor deve P&D, trabalhistas. Todavia, os produtos ja- inconseqüente nos anos 90 podem ser pesquisa universitária e produção de poneses eram mais baratos. O foco no aproveitados como oportunidade. Elas semicondutores. Todavia, essa não foi esforço exportador explica a diferença levaram ao encolhimento da eletrôni- a estratégia asiática inicial. A estra- de resultados. As metas de exportação ca nacional, que teria se concentrado tégia asiática se baseou na produção obrigavam os japoneses a buscar custos em São Paulo. Por isso, há hoje um em massa de produtos finais. Sempre baixos. grande espaço para expansão dela no importaram semicondutores dos EUA. No Brasil, tarifas de importação ao Nordeste. Aproveitaram que o setor não era pro- longo da cadeia acumulavam margens de tegido nos países centrais e possuía lucro acima dos custos dos insumos im- sUPERávit coMERcial? baixas barreiras à entrada e alta taxa de portados, “impostos” sobre “impostos”. Deslocar boa parte da eletrônica crescimento da demanda. Assim, suas Nosso custo tornou-se elevado, limitan- para o Nordeste não é o único desafio. as exportações cresceram a taxas muito do o mercado interno e as exportações Hoje poucos acreditam que o Brasil altas, sendo fundamentais para seu de- e impedindo a obtenção de ganhos de possa ser importante exportador. O senvolvimento. Para compreender como escala. Nessa época, os sul-coreanos, déficit desse setor em 2008 chegou a eles construíram sua competitividade, taiwaneses e chineses de Hong Kong quase 25 bilhões de dólares. Prova- vamos dividir a cadeia de eletrônicos em estavam muito atrás do Brasil em ter- velmente, nenhum país no hemisfério quatro grupos: mos de tecnologia, porém já estavam ocidental obtém superávit no comércio 1) Componentes semicondutores começando a exportar grandes volumes de eletrônicos e seus componentes, 2) Montagem de produtos eletrônicos de eletrônicos simples obtendo ganhos com exceção apenas de países peque- 3) Desenho e comercialização de de escala em toda cadeia. nos com fábricas de chips, como Costa produtos eletrônicos Eles importavam os componentes Rica e Irlanda. 4) Componentes estruturais ou con- e peças sem tarifas de importação, A maioria das pessoas vê essa evi- dutores de plástico e metal montando-os e vendendo para o mundo dência como um desafio intransponível. A teoria convencional foi incapaz de todo. A partir de um ponto, a escala Isso é uma forma inadequada de inter- definir políticas de sucesso no Brasil, foi suficiente para produzir as peças pretar os fatos. Se quase a totalidade porque desconsiderava que o fator mais de plástico e metal. Essas peças são dos países ocidentais se encontra am- fundamental para a localização da ele- produzidas com enormes ganhos de plamente deficitária nesses produtos, trônica são os componentes de plástico escala, especialmente as de plástico. A gozam de grande abertura comercial. e metal produzidos a baixo custo por um mão-de-obra barata passou a fazer uma Produzir no Ocidente traz ainda maior pólo metal-mecânico próximo. diferença maior à medida que crescia rapidez na entrega, fluxo favorável dos A eletrônica nasceu nos EUA apoia- a cadeia internalizada. Aos poucos, al- contêineres, ou seja, menores custos da pelo setor militar. A competitividade cançaram a escala norte-americana e logísticos. Há também vantagens geopo- manufatureira era menos importante no acabaram dominando todo o mercado líticas. As empresas e países ocidentais início. O acesso à tecnologia era capital. mundial do setor. temem concentrar todo abastecimento Os japoneses fizeram grande esforço Dizem que o bonde já passou, que na China e vizinhos, por risco de confli- para produzir a partir dos anos 60. Na não há mais chances de o Brasil possuir tos, potencial de hostilidade e desrespei- época, tratou-se de um grande desa- uma eletrônica importante. Isso é um to a patentes e segredos industriais. fio, porque era necessário vender com equívoco, porque: 36 CUSTO BRASIL
  12. 12. tecnologia É aconselhável que o Brasil faça como a China, elegendo as cidades prioritárias e coordenando a expansão industrial para evitar caos urbano • A localização do setor depende em gestão de política industrial para o de impostos de importação será baseada dos custos de manufatura de peças de setor eletrônico e de bens duráveis. A não mais no que Manaus pode produzir, metal e de plástico e não da produção competência da Suframa se ampliaria mas no que o Brasil pode produzir. de semi-condutores para a administração das vocações tec- O foco será a Nordeste, pois quase • As linhas de produto são sempre nológicas de todo o Norte e Nordeste15, tudo o que o Brasil pode produzir em renovadas e isso abre espaço para no- através dos seguintes instrumentos: termos de peças e componentes, o Nor- vas fábricas em locais de baixo custo de • Definição de incentivos de IPI, deste também pode, pois possui uma manufatura e logística Imposto de Renda, PIS/PASEP e Confins população de 52 milhões de habitantes, O Brasil pode entrar competitiva- para indústrias infantes de alto conteú- similar a grandes nações como França, mente no setor quando quiser, pois do tecnológico com vocação competitiva Alemanha, Coréia e Itália. os ganhos de escala são limitados em no Norte e Nordeste Diferentemente das atuais isenções decorrência de ciclos de vida de pro- • Definição e administração de Zo- de impostos de importação, os incenti- dutos curtos e da diversidade de peças nas temporárias de processamento de vos a indústrias vocacionadas no Norte específicas. Exportações e Parques Tecnológicos e Nordeste não impediria o desenvol- Nossa indústria metal-mecânica e • Coordenação das atividades de vimento delas e seus fornecedores em química têm competência suficiente capacitação tecnológica e formação de outras regiões. Esse tipo de isenção para tornarmos um grande exportador trabalhadores realizadas por centros tem ainda como vantagem desestimular de eletrônicos13. Essa é a solução para de pesquisa, universidades, escolas os incentivos de ICMS, instrumento da o rápido crescimento necessário para técnicas e empresas guerra fiscal. acabar com a pobreza nacional e a falta Não será mais permitida a concessão As Indústrias Centrais são compe- de perspectivas do Nordeste. Nossa de isenções de imposto de importação titivas quando estão próximas, forman- proposta tem 2 objetivos: diferenciados por critérios territoriais16. do grandes centros industriais. Nesse • Acabar com o déficit comercial no Com isso obtêm-se a isonomia em todo sentido, é aconselhável que o Brasil setor eletrônico território nacional com relação aos im- faça como a China, elegendo as cidades • Igualar a renda per capita do Nor- postos de importação e acaba-se com a prioritárias e coordenando a expansão te e Nordeste com a renda per capita principal causa das distorções criadas industrial para evitar super-aglomera- nacional14 pela ZFM e que prejudicaram sensi- ção, caos urbano e destruição ambiental A estratégia consiste em: velmente o desenvolvimento produtivo e paisagística, especialmente no litoral 1) Incentivar a instalação das indús- brasileiro no setor eletrônico. nordestino. O planejamento deve estar trias de bens duráveis, principalmente A ZFM sobrevive basicamente pelo atento à seguinte divisão das Indústrias eletrônicos, no Nordeste privilégio de importar certos produtos Centrais: 2) Incentivar a internalização da sem impostos de importação. Com o 1) Montagem de bens duráveis e de cadeia de peças de metal e de plástico fim das isenções de imposto de impor- capital específicas tação diferenciadas por território, as 2) Fabricação de peças 3) Perseguir metas de exportações indústrias e fornecedores passarão a 3) Química O instrumental consistirá em: se instalar na parte do país que possui As indústrias de montagem e quími- Aproveitar o amplo conhecimento vocação para menores custos de produ- ca devem se situar nos pontos centrais adquirido nos 40 anos de existência da ção, fortalecendo a competitividade de do território, onde se aproveitam de Suframa – Superintendência da ZFM toda a indústria brasileira. A definição menores custos de transporte a jusante CUSTO BRASIL 37
  13. 13. Especial e a montante, proximidade de portos e de transporte rodoviário, uma rodovia ponsável pela reestruturação da vocação aeroportos e melhor oferta de serviços federal duplicada, terras férteis para ténico-produtiva de Manaus e da Amazô- e trabalho especializado. prover alimentos frescos de qualidade nia. Lá serão incentivadas as Indústrias O Nordeste tem três pontos centrais: para grande população, a maior rede de Pioneiras de alto valor agregado focadas Salvador, Fortaleza e Recife. As indús- universidades, a mais antiga tradição no aproveitamento das potencialidades trias de montagem mais pesadas devem industrial da região e ainda se situa na da floresta, atividades de serviços que se situar próximas a essas metrópoles. parte geograficamente central do litoral fornecem a longa distância como softwa- Lá tem menores custos e desenvolvem nordestino. Sua vocação é centralizar a re e telemarketing, e atividades de P&D melhor suas capacitações tecnológicas indústria nordestina, porém isso não sig- com foco na floresta, em saúde ou em e criativas. As indústrias de montagem nifica que Recife será um pólo industrial defesa. Essas atividades ou não afetam mais leves, a química mais simples e as maior do que Fortaleza ou Salvador, não ou se beneficiam da “floresta em pé”. refinarias de petróleo podem se situar será. Mas a grande região entre Natal e A prioridade inicial será Manaus. Lá, nas outras capitais e eventualmente Aracaju pelo litoral e entre Mossoró e além dos incentivos setoriais adequados nos outros pólos importantes do inte- Arapiraca pelo interior, será a principal a sua vocação, garantiria-se a renda rior, como Ilhéus, Petrolina e Juazeiro base metal-mecânica e a principal for- com transferências federais durante do Norte, até para promover melhor o necedora de peças do Nordeste. a transição. O governo federal teria a desenvolvimento do interior. Essa região de apoio, que pode se obrigação de garantir a renda de todos A produção de peças deve ser in- aproveitar dos baixos custos de vida do os possíveis demitidos nesse processo, centivada em áreas próximas, porém interior, de alta densidade demográfica e enquanto passam por um processo de fora das regiões metropolitanas para de boas condições logísticas é fundamen- requalificação, assim como, garantir a não supercongestioná-las. Criariam-se tal para o desenvolvimento de um grande estabilidade e crescimento da receita áreas de apoio em cidades menores que pólo metal-mecânico capaz de competir do governo do estado do Amazonas e possuem menor custo de vida e menor com o Centro-Sul e com outros países. É da capital. A Amazônia é riquíssima, a demanda por pesadas obras de infra- exatamente isso que Manaus não pode renda per capita de Manaus pode ser estrutura urbana. dar, a menos que se destrua a floresta. muito acima da nacional, sem que se Nesse espírito, a principal área de No sertão, deve ser incentivado prin- prenda o setor eletrônico lá. apoio deve ser constituída na Região da cipalmente as Indústrias Pioneiras e a O turismo será uma das principais Zona da Mata e Agreste entre Arapiraca agricultura irrigada, que – por deman- vocações incentivadas. Se o governo e Campina Grande, podendo chegar a darem bom suprimento de água – de- desse um crédito de 200 reais para cada Mossoró e o interior de Sergipe. Essa pendem do Projeto de Transposição do turista estrangeiro que chegasse em região – centralizada em Recife – deverá São Francisco para se desenvolverem. É Manaus para serem gastos na região, ser a principal região industrial nordes- importante, investir na industrialização poderia gerar uma demanda de empre- tina, porque é a mais densamente povoa- do semiárido, porque a população dessa gos que cobriria sozinha a perda com a da, abarca cinco portos de cargas gerais região é grande e precisa ter boa qua- emigração das indústrias eletrônicas. e o maior da região, quatro aeroportos lidade de vida, caso contrário, migrará Isso seria muito mais barato que os para aviões de grande porte, ferrovia, para as metrópoles, agravando os já incentivos atuais. tem boa disponibilidade de água para críticos problemas urbanos. Outra prioridade deve ser P&D, o uso industrial, a melhor infraestrutura A Nova Suframa também seria res- Brasil ainda não se beneficiou da bio- A produção de peças deve ser incentivada em áreas próximas, porém fora das regiões metropolitanas para não supercongestioná-las 38 CUSTO BRASIL
  14. 14. tecnologia diversidade da região. Deve-se criar mentares e medicinais. Possui uma con- Para isso, é necessário constituir um grandes centros federais de pesquisa centração de flavonóides 33 vezes maior arcabouço administrativo adequado. biotecnológica em Manaus, o que atrairia do que o vinho tinto. Os flavonóides re- Propomos que a diretoria da Nova Su- centenas de indústrias farmacêuticas e de duzem os radicais livres, que retardam frama preste contas para um conselho comésticos para aproveitar os resultados o envelhecimento e previnem o câncer e de política industrial que traçará sua das pesquisas. Incentivos fiscais podem doenças do coração. O açaí requer pro- estratégia, sua política operacional e ser o empurrão básico para criação de cessamento local, o que gera emprego que será formado por representantes um pólo mundial da indústria farmacêu- e atrai indústrias de fornecimento de dos seguintes órgãos: Sudene, Sudam, tica e de comésticos em Manaus. equipamentos, manutenção e embala- Ministério do Desenvolvimento Indús- A indústria de alimentos também gens. Além disso, é matéria-prima de tria e Comércio, Ministério da Ciência será prioridade. Hoje parece uma uto- uma infinidade de produtos prontos, o e Tecnologia, Ministério da Educação, pia imaginar o Amazonas como grande que demanda outras matérias-primas e ABDI, BNDES, FINEP. exportador de alimentos prontos para outras indústrias de alimentos. Esperamos com nossa proposta ao consumo. Mas não é, se lembramos O açaí é uma fração do potencial de menos despertar o interesse das pesso- da incomparável biodiversidade, dis- produção de alimentos das plantas da as para essas questões e possivelmente ponibilidade de terras e da enorme Amazônia. Há também grande potencial suscitar uma discussão um pouco mais produtividade por hectare das plantas para produção de móveis finos com ma- abrangente sobre o futuro. Isso nor- amazônicas. deira certificada e mesmo cultivada em malmente só acontece em momentos O açaí é um bom exemplo. Ele ainda regiões já degradadas. de crise. será um dos principais itens de nossas Compreendemos, assim, que a mu- eduardo.barbosa@bndes.gov.br exportações agroindustriais, porque dança dos incentivos não será pre- medrodrigo@gmail.com jsanches@bndes.gov.br – além do atraente sabor, cor e cremo- judicial para Manaus, se o processo bsant@bndes.gov.br sidade – tem incríveis propriedades ali- for conduzido com responsabilidade. gustavo.santos@bndes.gov.br notas Outros produtos minerais não-metálicos, Produtos 1. Se ela tivesse se desenvolvido com robustez nos ras e somadas têm uma importância muito maior que metálicos, Indústria de baixa tecnologia (IV): Produtos anos 80 e 90, hoje estaria quase toda no Centro-Sul os 8,8% que correspondem da PIA no Brasil. manufaturados n.e. e bens reciclados, Madeira e seus do país e haveria uma maior barreira à entrada do 4. Mas nada impede que o Brasil deseje ser um dia produtos, papel e celulose, Alimentos, bebidas e tabaco, Nordeste no setor. ainda mais próspero do que é São Paulo hoje. Mas Têxteis, couro e calçados nesse caso, será necessário um crescimento da 2. O gráfico mostra que o peso que São Paulo em 8. Quando nos referimos ao setor eletrônico, não produção industrial ainda maior. termos de número de empregados nas Indústrias Cen- estamos querendo dizer microeletrônica, mas apenas trais chega a 44% do total de empregos brasileiros no 5. Como exemplo, duas grandes montadoras asiáticas a produtos eletrônicos finais e eletrônica embarcada. setor, enquanto que tem apenas 27% de participação já definiram que construirão suas novas fábricas em Ou seja, bens de consumo durável e bens de capital. nas Pioneiras. Minas e Rio ainda têm um peso nas São Paulo, que hoje já tem quase 70% da produção Indústrias Centrais levemente superior ao respectivo 9. Válvulas e instrumentos por exemplo. brasileira de automóveis. Ora, foram algumas monta- peso nas Pioneiras. Para os estados do Sul, Espírito doras que fizeram o ABC paulista ser o que é hoje. Se 10. Nassif, André (2002) BNDES 50 Anos - Histórias Santo e Bahia, a situação se inverte, com um peso li- nada for feito para contrabalançar essas economias Setoriais: O Complexo Eletrônico Brasileiro geiramente maior para as Pioneiras. Para quase todo de aglomeração, quando o Brasil voltar a crescer rá- o resto do Brasil a participação nas Centrais passa 11. Medidos em trabalhadores, Rais 2004. pido na direção de se tornar desenvolvido, quase 90% a ser significativamente inferior à das Pioneiras, da população acabará morando no Sul e Sudeste. 12. Censo 2000. confirmando nossas expectativas. A grande exceção é o estado do Amazonas, onde o peso das Indústrias 6. Outra inicitiva louvável do governo foi a criação do 13. O custo de nossa mão-de-obra para esse tipo de Centrais em relação ao país é 75% maior do que o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada qualificação não é muito superior à chinesa e bastan- peso das Pioneiras. O Amazonas consegue inclusive a (Ceitec) em Porto Alegre. Mas ao menos um escri- te inferior a dos Tigres. proeza de superar São Paulo nesse indicador. Apenas tório de desenho de circuitos dessa empresa deveria 14. Hoje a renda per capita do Nordeste é quase 4 como base de comparação com um estado com perfil ser instalado no Nordeste. vezes menor que a de São Paulo. semelhante ao Amazonas, o Pará, essa diferença é 7. Padrão internacional: Indústria de alta tecnologia (I): 64% negativa. Obviamente, essa é uma distorção 15. Em termos mais precisos, seria interessante Aeronáutica e aeroespacial, Farmacêutica, Material de causada pelos incentivos da Zona Franca de Manaus. que a área de abrangência da Nova Suframa seja escritório e informática, Equipamentos de rádio, TV e Mais à frente vamos falar sobre isso. exatamente as áreas da Sudene e Sudam, permitindo comunicação, Instrumentos médicos de ótica e preci- que esses órgãos façam políticas coordenadas. Seria 3. O volume de empregos, nas Indústrias Centrais, são, Indústria de média-alta tecnologia (II) : Máquinas salutar a alteração do nome da Superintendência é de apenas 3,2 milhões em 2004. Esses mesmos e equipamentos elétricos n. e., Veículos automotores, para a ampliação da abrangência. À medida que a 3,2 milhões representam muito pouco perante os 99 reboques e semi-reboques, Produtos químicos,excl. far- industrialização do Nordeste e o ajustamento da milhões de pessoas em idade ativa – PIA (18-65 anos) macêuticos, Equipamentos para ferrovia e material de economia do Norte a suas vocações for sendo bem- em 2000. Além disso, correspondem a apenas 37% transporte n. e. , Máquinas e equipamentos mecânicos sucedida, a Nova Suframa poderia ampliar o número dos 8,7 milhões de empregos industriais no Brasil n. e.,Indústria de média-baixa tecnologia (III) : Constru- de regiões sob sua competência. (manufatura). Nos países desenvolvidos as Indústrias ção e reparação naval, Borracha e produtos plásticos, Centrais são majoritárias sobre as Indústrias Pionei- 16. Os drawn backs são as possíveis exceções. Produtos de petróleo refinado e outros combustíveis, CUSTO BRASIL 39

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