NúMero3

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Revista Sísifo
Artigo sobre TIC e Inovação Curricular de Guilhermina Lobato Miranda

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NúMero3

  1. 1. “O título escolhido para a revista também justifica uma explicação breve. A pessoa humana constitui o único ser existente busca permanentemente conhecê-lo, o que é inerente à sua sobrevivência e à afirmação da sua no universo que especificidade humana. Como Ser curioso, está condenado a aprender e a interrogar-se. É um trabalho permanente e inacabado que implica colocar em causa os resultados e recomeçar, sempre. A produção de conhecimento assume formas diversas, nas quais se inclui o saber científico. Este distingue-se pelo seu carácter sistemático, pela utilização consciente e explicitada de um método, objecto permanente de uma meta análise, individual e colectiva. O trabalho científico consiste numa busca permanente da verdade, através de um conhecimento sempre provisório e conjectural, empiricamente refutável. O reconhecimento da necessidade deste permanente recomeço é ilustrado historicamente quer pela redescoberta de teorias negligenciadas no seu tempo e recuperadas mais tarde (caso da teoria heliocêntrica de Aristarco), quer pela redescoberta de visionários que anteciparam os nossos problemas de hoje (Ivan Illich é um desses exemplos). É a partir destas características do trabalho a aventura humana do conhecimento à condenação pelos científico que é possível comparar Sísifo deuses a que foi sujeito de incessantemente recomeçar a mesma tarefa.” revista de ciências da educação Unidade de I&D de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa Direcção de Rui Canário e Jorge Ramos do Ó 03 · Mai | Jun | Jul | Ago · 2007 n.º > TIC e Inovação Curricular coordenação de Helena Peralta e Fernando Albuquerque Costa issn 1646-4990 http://sisifo.fpce.ul.pt
  2. 2. SíSifo Índice Editorial. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1-2 REvISTA DE CIênCIAS nota de apresentação. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3-6 DA EDUCAçãO DOSSIER n.º 03 TIC e Inovação Curricular Tecnologias Educativas. Análise das dissertações de mestrado realizadas em Portugal Fernando Albuquerque Costa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7-24 Edição Rentabilizar a Internet no Ensino Básico e Secundário Responsáveis Editoriais deste número: Dos Recursos e Ferramentas Online aos LMS Helena Peralta e Fernando Albuquerque Costa Ana Amélia Amorim Carvalho. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25-40 Director: Rui Canário Limites e possibilidades das TIC na educação Director Adjunto: Jorge Ramos do Ó Guilhermina Lobato Miranda. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41-50 Conselho Editorial: Rui Canário, As TIC na Escola e no Jardim de Infância Luís Miguel Carvalho, Fernando Motivos e factores para a sua integração Albuquerque Costa, Helena Peralta, Lúcia Amante. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51-64 Jorge Ramos do Ó O projecto “Educação Tecnológica Precoce” Colabor adores deste número: Uma oportunidade para implementar práticas de inovação curricular Ana Margarida veiga Simão, Belmiro Cabrito, Autoria dos artigos: Lúcia Amante, Ana Amélia Amorim Carvalho, Elisabete Rodrigues. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65-76 Belmiro Cabrito, Telmo Caria, Competência e confiança dos professores no uso das TIC Cristina Costa, Fernando Síntese de um estudo internacional Albuquerque Costa, Guilhermina Lobato Miranda, Carla Morais, Helena Peralta, Fernando Albuquerque Costa . . . . . . . . . 77-86 João Paiva, Helena Peralta, Mónica O Currículo numa comunidade de prática Raleiras, Elisabete Rodrigues, José Luis Rodríguez Illera e Ana Cristina Costa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87-100 Margarida veiga Simão. Simulação digital e actividades experimentais em Físico-Químicas Traduções: Robert G. Carter, Estudo piloto sobre o impacto do recurso “Ponto de fusão e ponto Thomas Kundert, Filomena Matos de ebulição” no 7.º ano de escolaridade e Tânia Lopes da Silva Carla Morais, João Paiva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101-112 Secretariado de Direcção: Gabriela Lourenço e Mónica Raleiras RECEnSõES Logotipo Sísifo Recensão da obra “A vida no Écrã. A identidade na era da Internet”, Desenho de Pedro Proença de Sherry Turkle [1997] Lisboa: Relógio d’Água Mónica Raleiras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113-116 Informação Institucional COnFERênCIAS Propriedade: Unidade de I&D de Ciências da Educação Como as comunidades virtuais de prática e de aprendizagem podem da Faculdade de Psicologia transformar a nossa concepção de educação e de Ciências da Educação, da Universidade de Lisboa Texto da conferência proferida na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação issn: 1646-4990 da Universidade de Lisboa, a 31 de Maio de 2007 Apoios: Fundação para a Ciência José L. Rodríguez . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117-124 e a Tecnologia OUTROS ARTIGOS Contactos A Cultura Profissional do professor de ensino básico em Portugal Morada: Alameda da Universidade, Uma linha de investigação em desenvolvimento 1649-013 Lisboa. Telmo H. Caria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125-138 Telefone: 217943651 Fax: 217933408 Sísifo, revista de ciências de educação: Instruções para os Autores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 139-140 e-mail: sisifo@fpce.ul.pt
  3. 3. s í s i f o / r e v i s t a d e c i ê n c i a s d a e d u c a ç ã o · n .º 3 · m a i / a g o 0 7 issn 1646 -4990 Editorial Paul Cézanne, um dos fundadores da pintura mo- necessidade e característica intrínsecas ao ser hu- derna cujas rupturas abriram caminho às vanguar- mano de realizar a “expressão de si”, se inscrevem das artísticas do início do século XX, artista ob- numa dimensão antropológica que não se acomoda sessivo na busca da perfeição e permanentemente ao efémero, ao imediato, ao utilitário, ao conjun- descontente e angustiado com a qualidade da sua tural. A criação supõe um tempo longo que inclui produção pictórica (tal como o terá retratado Émile uma memória, uma visão de futuro e a capacidade Zola no célebre romance “L’oeuvre”) afirmou, re- de explicitar uma narrativa coerente sobre uma tra- ferindo-se à sua obra, que pretendia produzir uma jectória. pintura “para os museus”. num autor sistematica- nos tempos que vivemos afirma-se uma cultura mente relegado para os “salões de recusados” pelos do efémero, do conjuntural, do precário, do utilitá- académicos de serviço e hostilizado pela crítica e rio, do curto prazo. nesta perspectiva não há pas- por grande parte do público, esta explícita procu- sado, nem futuro, mas sim a linha de horizonte que ra da construção de um novo classicismo só pode um personagem de um romance de Cormac McCar- exprimir a recusa de encarar a criação, neste caso thy (2007, p. 112) define nestes termos: “As pessoas estética, como algo de conjuntural e efémero. num estavam sempre a preparar-se para o futuro. Eu não plano completamente diverso, o militante e teórico acreditava nisso. O futuro não se estava a preparar comunista António Gramsci, durante os cerca de para elas. O futuro nem sabia que elas existiam”. dez anos que permaneceu nos cárceres de Musso- Esta cultura do “novo capitalismo” produz seres lini (de onde saiu para morrer), produziu uma obra humanos adaptados a uma total incerteza e tende a intelectual notável, nomeadamente sob a forma de retirar-lhes a possibilidade de viver em comunida- notas dispersas, reunidas nos “Cadernos do Cárce- de e de pensar e agir artesanalmente, ou seja, como re”, preparatórias de um projecto que nunca viria escreve Sennett (2007), “fazer uma coisa bem feita, ser concretizado. no entanto, apesar de desconhe- mesmo que não se obtenha nada com ela”. Acres- cida e não publicada durante várias décadas, a pro- centa Sennett que: “só este tipo de compromisso dução intelectual de Gramsci cumpriu o principal desinteressado pode enaltecer emocionalmente as desígnio da sua actividade de criação no cárcere, pessoas, caso contrário, sucumbem na luta pela so- comunicado por carta pouco depois da sua deten- brevivência” (p. 133). ção: a de produzir algo “para sempre”. Gramsci A publicação deste terceiro número da revista utiliza a expressão alemã “für ewig”, retomando de Sísifo coincide temporalmente com um processo de Goethe a noção de trabalho erudito desinteressado. avaliação global das Unidades e Centros de Investi- Com estes dois exemplos pretendo salientar como gação, nomeadamente no domínio das ciências so- os actos de criação (estética ou científica), enquanto ciais e das ciências da educação. As organizações e 1
  4. 4. os investigadores (na sua vertente de equipas ou na o mínimo de riscos. A “bibliometria” que domina sua vertente individual) vêem a sua actividade sujei- a avaliação contribui para promover formas diver- ta a um escrutínio e a uma análise externas que tem, sas de redundância, para desencorajar a produção como ponto de partida, um balanço retrospectivo desinteressada e “para sempre”, desvalorizando os de natureza auto avaliativa. nada deverá ser con- “clássicos”, o que, felizmente, não consegue impe- siderado mais normal, nem mais desejável, do que dir que Platão continue a ser bastante citado, apesar encarar esse processo de explicitação e análise crí- de nada ter publicado nos últimos cinco anos. nes- tica das actividades de investigação como algo que, te contexto, acentua-se a tendência para a produção conduzido com rigor, clareza, na base de regras científica se centrar na especialização e na fragmen- criteriosas previamente estabelecidas e conhecidas tação do saber o que, paradoxalmente, contribui e num lapso de tempo razoável, é absolutamente para a sua inutilidade e para transformar o trabalho necessário ao desenvolvimento de uma actividade de investigação num trabalho alienado. Este rumo investigação fecunda, pertinente e que optimize os conduz a uma situação que, é Karl Popper (1999) parcos recursos disponíveis. A prática de uma ava- que o afirma, é trágica, ou mesmo desesperada, e liação externa, regular e exigente, constitui uma ne- induz por toda a parte “o jovem cientista desejoso cessidade imperiosa que só ganha plena legitimida- de seguir a última moda e o jargão mais recente” de se coexistir com a criação de condições favoráveis (p. 98). Cada vez mais candidatos a doutoramento e propiciadoras de uma actividade científica que, são sujeitos a um treino, mas não iniciados na tradi- para ser, simultaneamente, fértil do ponto de vista ção de “ser tentado e guiado por enigmas grandes da produção de novos saberes e socialmente perti- e aparentemente insolúveis”. Se prevalecerem estas orientações que desprezam de facto a ciência, meno- nente, apela a condições que não têm vindo a ser as- seguradas pelas instituições a quem isso competiria. rizando o seu carácter criativo, a tradição crítica e a A “nova cultura do capitalismo” entrou “rapi- produção de um conhecimento não imediatamente damente e em força” nas políticas de quem tutela a útil, isso conduzirá, continuamos a citar Karl Po- investigação, em nome, obviamente, da “moderni- pper, “a uma catástrofe espiritual de consequências zação”, da “produtividade” e da “competitividade”. comparáveis às do armamento nuclear” (p. 99). A crítica a estas modalidades de “modernização” não significa a defesa do “status quo”, nem satisfa- ção com o que tem sido realizado. Exprime, sim, a Referências bibliográficas McCarthy, Cormac (2007). A estrada. Lisboa: Re- preocupação e a consciência dos efeitos negativos da imposição de processos de incentivo à produção lógio de Água. Crehan, Kate (2004). Gramsci, cultura e antropo- científica inspirados na divisa “publish or perish”. logia. Lisboa: Campo da Comunicação. O campo da produção científica tende a instituir-se Gramsci, António (2004). Cadernos do cárcere. como um território onde impera uma espécie de da- rwinismo, de produção em série, taylorizada, com volume 1. Rio de Janeiro: Editora Civilização base numa “mão-de-obra” proletarizada e sujeita a Brasileira. Popper, Karl (1999). O mito do contexto. Em defesa da formas de trabalho cada vez mais precárias. O fi- ciência e da racionalidade. Lisboa: Edições 70. nanciamento determina e condiciona os temas e as Sennett, Richard (2007). A cultura do novo capita- conclusões do que se estuda (dizia-se, em França, lismo. Lisboa: Relógio de Água. que a criação do Prémio Goncourt fez florescer um estilo literário próprio para tentar ganhá-lo). Os in- vestigadores, em vez de uma comunidade de pares, tornam-se concorrentes e tendem a valorizar o ime- Rui Canário diato, procurando o máximo de rentabilidade com (Lisboa, 31 de Julho de 2007) 2 sísifo 3 | editorial
  5. 5. s í s i f o / r e v i s t a d e c i ê n c i a s d a e d u c a ç ã o · n .º 3 · m a i / a g o 0 7 issn 1646 -4990 nota de apresentação TIC e Inovação Curricular Fernando Albuquerque Costa Helena Peralta O terceiro número da Sísifo é especialmente dedi- Embora a proliferação de computadores tenha já cado a questões relacionadas com as tecnologias alterado um pouco a face da Escola, é reconhecido e a aprendizagem numa perspectiva de inovação que as práticas educativas continuam a ser, na gene- curricular. Surge numa altura de grandes transfor- ralidade dos casos, semelhantes ao que sempre se mações, nomeadamente em termos do poder das fez e como se fazia antes de os computadores serem tecnologias digitais de informação e comunicação e usados (Papert, 2000). Pelo menos na sua essência, após uma fase de renovado entusiasmo sobre a sua naquilo que é fulcral para definir a própria concep- integração e utilização na Escola. ção de Escola: a relação de poder que existe entre Transformações porque, com o surgimento da professor e aluno, a relação de ambos com o conhe- Internet, passa a ser possível concretizar ideias até cimento, o modo como esse conhecimento é enten- aí apenas imaginadas por alguns visionários e que dido, o modo como se entende a aprendizagem e, poderão vir a constituir, pelo menos potencialmen- não menos importante, o papel atribuído aos meios te, um valor de grande alcance em termos pedagó- na transferência de informação e na construção do gicos e didácticos. conhecimento. Entusiasmo renovado não apenas porque, tal Mantém-se, pois, o mesmo paradigma de en- como acontecera no passado com outras “novas” sino e os mesmos processos para estimular a tecnologias, se continua a acreditar que estas po- aprendizagem, apesar de uma nova concepção derão mudar a face da Escola tal como a conhece- emergente sobre o que é aprender, de uma retóri- mos, mas também porque, como defendem os mais ca francamente favorável à adopção de estratégias optimistas, nelas residirá o potencial necessário à alternativas e de recursos e infra-estruturas cada resolução dos problemas em que essa mesma Esco- vez mais evoluídos. la se encontra enredada e para os quais parece não É também o que se passa em Portugal, que é, haver solução. aliás, no panorama europeu, um dos países com ratios de alunos por computador mais elevadas Como vários estudos vêm demonstrando (Cuban, 1993, 2001; Franssila & Pehkonen, 2005; (à volta de 1 computador para 15 alunos) e com um OCDE, 2005; Paiva, 2002; Pelgrum, 2001; Wallin, nível dos mais fracos em termos de preparação dos 2005) a realidade é outra, tornando-se evidente que professores para o uso das tecnologias (European não basta introduzir mais computadores, por mais Commission, 2006), o que não é de estranhar dado poderosos que sejam, para que as mudanças acon- não existir qualquer atenção especial na formação teçam e se possa efectivamente tirar partido da sua de professores neste domínio, seja em termos de formação inicial ou de formação contínua (Brito et vertente mais forte que é a construção de conheci- al., 2004; Matos, 2004; Ponte & Serrazina, 1998). mento pelos próprios alunos. 3
  6. 6. Paradoxalmente, ou talvez não, são os jovens domínio das Tecnologias Educativas. Síntese que quem mais partido parece tirar das tecnologias dis- nos permite construir um panorama geral do que é poníveis, fazendo-o de forma autónoma, sem apoio investigado e com que metodologias, quais os prin- dos professores, usando-as, aliás, para objectivos cipais objectos de estudo e quais os quadros teóri- que vão muito além das aprendizagens escolares e cos tomados como referência e, bem assim, perce- fazendo-o com um grau de eficácia surpreendente, ber de que modo essa investigação contribui para como parecem sugerir vários estudos nacionais e a criação de oportunidades de desenvolvimento da internacionais. É o caso, por exemplo, dos resul- própria Escola. tados do questionário aplicado juntamente com o Incidindo sobre as potencialidades da Internet PISA 2003 (OCDE, 2005) em que os jovens portu- para uso educativo, Ana Amélia Carvalho conduz- gueses de quinze anos de idade ocupam posições nos, no segundo texto, por uma leitura sustentada interessantes nos rankings relativos às atitudes, mas dos diferentes tipos de recursos e questões que a também aos saberes e competências necessários, sua introdução no ensino coloca, até às ferramentas on-line mais recentes, como é o caso dos sistemas precisamente, para o uso das tecnologias digitais. Saberes e competências quase sempre ignorados ou de gestão da aprendizagem e daquilo que tem vindo a ser designado globalmente como software social. desvalorizados pela instituição escolar e que con- tribuem para reforçar ainda mais o fosso existen- De carácter mais especulativo e com uma certa te entre o que a escola oferece, o que os alunos aí preocupação em termos de enquadramento histó- gostariam de ver tratado e o poder efectivo que as rico, Guilhermina Lobato Miranda elabora sobre tecnologias assumiram já na nossa sociedade. os limites e as potencialidades das tecnologias da informação e comunicação na educação no terceiro Os textos que compõem este dossier temático, abor- texto do dossier. dando aspectos muito diferenciados, têm como de- Lúcia Amante centra-se, no texto seguinte, na nominador comum a intenção de contribuir para utilização das tecnologias de informação e comuni- a reflexão sobre a problemática da utilização das cação em idades precoces, nomeadamente no Jar- tecnologias digitais nas escolas portuguesas. Uma dim de Infância, tentando identificar motivos que reflexão apoiada em perspectivas individuais sobre justificam a sua integração e factores a ter em conta o que implica a integração das tecnologias em con- quando se pretende introduzir os computadores texto educativo, mas também na investigação que é nesses contextos. feita em Portugal, nomeadamente ao nível de mes- no mesmo sentido de uma intervenção precoce, trado, e em propostas concretas de utilização dos embora com uma abordagem mais directamente re- computadores que vão desde o ensino pré-escolar lacionada com a preocupação da igualdade de opor- à formação profissional. Propostas que incluem as tunidades entre géneros no que respeita ao acesso e mais recentes tecnologias em rede e uma reflexão uso de tecnologias, o texto seguinte, de Ana Maria sobre o que elas permitem do ponto de vista pe- veiga Simão, Elisabete Rodrigues e Belmiro Ca- dagógico, passando pela análise das práticas dos brito, relata o trabalho desenvolvido num projecto professores ou de projectos didácticos em áreas internacional que envolveu diferentes instituições e disciplinares específicas, como é o caso da Físico- que teve como base a iniciação ao pensamento tec- -Química. Dito de outra forma, é um dossier que nológico de crianças em idade escolar. pôde contar com o contributo de colegas com áreas O sexto texto, de Helena Peralta e Fernando de interesse e de investigação muito distintas e que, Albuquerque Costa, resultante também de um pro- por isso mesmo, acabam por representar a diver- jecto internacional visando estudar a competência sidade de abordagens que tem caracterizado este e o grau de confiança, por parte dos professores, no campo nos anos mais recentes. uso das novas tecnologias para fins pedagógicos, no primeiro texto do dossier, Fernando Albu- apresenta os resultados de um estudo qualitativo, querque Costa apresenta uma síntese analítica do que viria a ser a base de trabalho de uma investi- conjunto das dissertações de mestrado realizadas gação mais ampla com o objectivo de comparar as em Portugal, nos últimos vinte e cinco anos, no realidades dos diferentes países envolvidos. 4 sísifo 3 | nota de apresentação
  7. 7. no texto seguinte, Cristina Costa descreve uma Cuban, L. (1993). Computers meet classroom: clas- comunidade de prática on-line de professores de sroom wins. Teachers College Record, 95, 2, pp. língua inglesa como língua estrangeira em que assu- 185-210. Cuban, L. (2001). Oversold and Underused. Com- me papel central o próprio processo de construção puters in the classroom. London: Harvard Uni- do currículo enquanto gerador de aprendizagens significativas e enquanto estratégia de formação versity Press. European Commission (2006). Benchmarking Ac- contínua de professores. cess and Use of ICT in European Schools 2006. O último texto do dossier, da responsabilidade Final Report from Head Teacher and Classroom de João Paiva e Carla Morais, descreve sumaria- Teacher. Surveys in 27 European Countries. mente um estudo em que os alunos são chamados a realizar trabalho experimental, na disciplina de Franssila, H. & Pehkonen, M. (2005). Why do Físico-Química, tendo como recurso principal a ICT-strategy implementation in schools fail and ICT-practices do not develop? In Media Skills simulação digital. and Competence Conference Proceedings. Tam- Tal como nos números anteriores e em comple- mento do dossier temático, publicam-se ainda uma pere, Finland, pp. 9-16. Matos, J. F. (2004). As tecnologias de informação e recensão e o texto que serviu de base à conferência comunicação e a formação inicial de professores proferida por José Luis Rodríguez Illera, da Uni- em Portugal: radiografia da situação em 2003. versidade de Barcelona, e que teve lugar na Facul- dade de Psicologia e de Ciências da Educação da Lisboa: Ministério da Educação, Gabinete de Universidade de Lisboa em Maio de 2007. Informação e Avaliação do Sistema Educativo. OCDE (2005). Are Students Ready for a Techno- A recensão de “A vida no Ecrã”, de Sherry logy-Rich World? What PISA Studies Tell Us. Turkle, da autoria de Mónica Raleiras, tem o méri- to de nos trazer um texto rico sobre as questões da OCDE. identidade na era da Internet, já traduzido em Por- Paiva, J. (2002). As Tecnologias de Informação e Co- municação: Utilização pelos Professores. Lisboa: tugal, e que talvez só agora estejamos em condições de compreender em toda a sua amplitude, dada a Ministério da Educação - DAPP. maior familiaridade com os ambientes virtuais e Papert, S. (2000). Change and resistance to chan- com o que eles implicam, quer do ponto de vista ge in education. Taking a deeper look at why School hasn’t changed. In A. Dias de Carva- pessoal, quer do ponto de vista educativo. lho et al., Novo conhecimento. Nova aprendiza- O texto, inédito, da conferência proferida por gem. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, José Luis Rodríguez Illera sobre comunidades vir- tuais de prática, analisa os conceitos centrais em pp. 61-70. torno dos quais se desenvolveu, nos últimos anos, Pelgrum, W. J. (2001). Obstacles to the integration esta nova problemática, articulando-a com uma of ICT in education: results from a worldwide educational assessment. Computers & Educa- nova perspectiva sobre o que é aprender e discutin- tion, 37, 37, pp. 163-178. do as suas implicações nomeadamente ao nível da Ponte, J. P. & Serrazina, L. (1998). As Novas Tec- educação e da teoria da educação. nologias na Formação Inicial de Professores. Lis- boa: DAPP-Ministério da Educação. Turkle, S. (1997). A Vida no Ecrã. Lisboa: Relógio Referências bibliográficas d’Água. Brito, C.; Duarte, J. & Baía, M. (2004). As tec- Wallin, E. (2005). The Rise and Fall of Swedish nologias de informação na formação contínua de Educational Technology 1960–1980. Scandina- professores. Uma nova leitura da realidade. Lis- vian Journal of Educational Research, 5, pp. boa: Editorial do Ministério da Educação. 437–460. 5 sísifo 3 | nota de apresentação
  8. 8. 6 sísifo 3 | nota de apresentação
  9. 9. s í s i f o / r e v i s t a d e c i ê n c i a s d a e d u c a ç ã o · n .º 3 · m a i / a g o 0 7 issn 1646 -4990 Tecnologias Educativas: Análise das dissertações de mestrado realizadas em Portugal Fernando Albuquerque Costa f.costa@fpce.ul.pt Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa Resumo: Reconhecendo a importância que a investigação científica pode ter em termos de funda- mentação, orientação e avaliação das práticas de uso das tecnologias em contexto educa- tivo, é natural que se aprofunde também o conhecimento sobre a investigação neste do- mínio realizada. É o que nos propusemos fazer, no âmbito de um colóquio recentemente realizado em Portugal sobre a temática da Investigação em Educação1. Tomando como ponto de partida o mote do próprio colóquio – a Investigação em Educação entre 1960 e 2005 – decidimos debruçar-nos sobre o que tem sido investigado no âmbito das Tecnologias Educativas, no nosso país. Cedo nos apercebemos, no entanto, da quase inexistência de estudos neste domínio, antes das universidades portuguesas passarem a assumir um papel activo, também no campo das tecnologias educativas, nomeadamente depois do aparecimento dos primei- ros cursos de mestrado, em 1987, na Universidade do Minho. Embora não conheçamos nenhum estudo exaustivo que caracterize a investigação científica desenvolvida nesta área em Portugal, são diversos os autores portugueses que de alguma maneira se referem a esta mesma constatação (Abrantes, 1981, 1998; Blanco & Silva, 1993; Caldas, 2001; Fer- nandes, 1969; Ponte, 1994; Silva, 2000). Porque constatámos, por outro lado, que é precisamente ao nível desse grau académi- co que se situa uma parte significativa da investigação realizada no nosso país neste cam- po específico, decidimos centrar aí a nossa análise. neste artigo, apresentamos, pois, o resultado do estudo das dissertações de mestrado realizadas em Portugal, tendo em vista compreender melhor quais as problemáticas estudadas, os quadros teóricos e metodoló- gicos em que se situam, as universidades onde se realizam e quem faz essa investigação, as técnicas de recolha e análise de dados utilizadas, para apenas referirmos alguns dos aspectos em que incidiu a análise. Uma análise exploratória e de âmbito restrito, mas que esperamos possa contribuir para um conhecimento mais profundo das práticas de investigação neste domínio parti- cular das Ciências da Educação em Portugal. Palavras-Chave: Tecnologias educativas, Tecnologias em educação, Investigação científica, Dissertações de mestrado, Paradigmas, Tendências, Portugal. Costa, Fernando Albuquerque (2007). Tecnologias Educativas: análise das dissertações de mes- trado realizadas em Portugal. Sísifo. Revista de Ciências da Educação, 03, pp. 7-24. Consultado em [mês, ano] em http://sisifo.fpce.ul.pt 7
  10. 10. InTRODUçãO Em segundo lugar, parece persistir também uma certa confusão sobre o que interessa verdadeira- A investigação realizada no domínio da integração mente investigar e como fazê-lo, sendo colocada em das tecnologias em contexto educativo é, reconhe- causa, em muitas situações, a própria credibilidade cidamente, tal como noutros campos e áreas das dos estudos realizados. Fragilidades em termos de Ciências da Educação, condicionada por múltiplos delimitação do quadro teórico de suporte, falta de e variados factores. clareza na definição dos objectos de estudo ou ina- Reconhecendo a importância fulcral que essa dequação ou insuficiências em termos metodológi- mesma investigação pode ter na superação das am- cos são algumas das principais críticas apontadas biguidades e insuficiências no que diz respeito à (Coutinho, 2000a; Reeves, 1995, 1997, 2000) e que integração das tecnologias na escola e uma vez que contribuem para uma maior ou menor qualidade da um dos objectivos do Colóquio referido era contri- investigação realizada. buir para o balanço histórico sobre a investigação Do ponto de vista epistemológico as fragilidades realizada nas diferentes áreas das Ciências da Edu- situam-se pelo menos em dois planos (Salomon, cação, parece-nos adequado começarmos por tecer 2000, 2002). Em primeiro, porque continua a exis- algumas considerações sobre os desafios com que a tir a crença de que o uso de determinados meios investigação científica se confronta, nesta área es- produz melhores resultados na aprendizagem que pecífica. outros, conduzindo a práticas de investigação po- Uma das primeiras considerações que gostaría- sitivistas, segundo o autor desadequadas, uma vez mos de fazer está directamente relacionada com os que são na maior parte das vezes desanimadores resultados da própria investigação no domínio das os resultados a que se chega e porque, por isso, em tecnologias educativas e que, de acordo com alguns nada contribuem para a valorização e aceitação do estudos analíticos, não são conclusivos, antes pelo potencial revolucionário (Walker, 1994) das tecno- contrário. Efeitos positivos modestos na aprendiza- logias na Educação. Em segundo, pela insistência gem (Pelgrum, 2001; Pelgrum & Law, 2004; Plomp em se avaliarem os mesmos tipos de produtos e & Pelgrum, 1991; Walker, 1994) e a inexistência resultados que a escola tradicionalmente privile- de “diferenças significativas”, com ou sem uso das gia. na opinião de Salomon é precisamente aí que tecnologias, são algumas das conclusões mais sa- reside o erro fundamental, uma vez que, podendo lientes quando se analisa o conjunto de estudos em constituir ferramentas poderosas ao serviço de ou- que o uso do computador é comparado com outros tro tipo de finalidades, mais exigentes do ponto de meios tradicionalmente usados na aprendizagem vista cognitivo, seria de esperar que a investigação (Russell, 1999). incidisse noutros objectos empíricos e adoptasse 8 sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
  11. 11. metodologias mais adequadas e consistentes com não sendo este o lugar para aprofundarmos os esses novos objectos de estudo2. aspectos relacionados com as dúvidas e interroga- nessa linha, faria sentido, aliás, como sugerem ções sobre a crescente atenção atribuída aos dados alguns autores, que a investigação se deslocasse para qualitativos e com as reservas de credibilidade o estudo dos contextos em que a aprendizagem tem apontadas às abordagens qualitativas, por exemplo, lugar, procurando sobretudo compreender como em termos de validade, objectividade, neutralida- é que esses contextos deverão ser estruturados, de de, parece-nos fazer sentido, no entanto, a chamada forma a estimular os alunos a utilizarem o máximo de atenção para o que isso pode significar para o do seu potencial cognitivo (de Corte, 1996) e pode- investigador em termos de necessidade acrescida rem alcançar, consequentemente, melhores resulta- de rigor no processo e de garantia da cientificidade dos também em termos escolares. dos métodos utilizados. Esta é uma forma de ver o problema da inte- A insatisfação com os resultados globais da in- gração dos computadores no processo de ensino e vestigação a que já nos referimos, bem como os aprendizagem que exige que a observação e a re- movimentos no sentido de uma abertura do pon- colha de dados, numa perspectiva ecológica, tenha to de vista metodológico verificados nas discipli- como base a exploração do potencial das tecnolo- nas afins, acabam por criar condições favoráveis gias por alunos e professores e suas implicações na para que também aqui essa oposição se esbatesse actividade de uns e de outros. Uma observação na e evoluísse para o compromisso e conjugação entre acção, em que faz sentido uma abordagem mais in- as duas filosofias subjacentes, dando origem a um dutiva e de cariz etnográfico, acompanhando, aliás, referencial metodológico próprio, porquanto mais os movimentos nessa direcção que a partir dos anos adaptado à investigação em contextos de aprendi- noventa se fazem sentir na investigação em geral e zagem enriquecidos com o potencial das novas tec- na investigação nas Ciências da Educação em par- nologias (Coutinho & Chaves, 2001). ticular. Este aspecto conduz-nos, aliás, a última ques- Assim, em vez das técnicas de análise quantita- tão sobre a qual nos parece relevante tecer algumas tiva utilizadas nos estudos correlacionais e expe- considerações, na medida em que pode estar ligada rimentais clássicos (baseadas exclusivamente em ao maior ou menor impacto e influência da inves- dados quantificáveis e mensuráveis), passa a justifi- tigação nas práticas educativas. Embora aceitemos car-se, pois, a utilização de técnicas e métodos que que não seja um aspecto que diga directamente res- permitam a captação da complexidade do real e a peito ao investigador, não deixa de ser importante subjectividade dos actores (Figueiredo, 2005). Mais referenciá-lo, uma vez que pode afectar a decisão do que a explicação dos fenómenos (construção sobre o “que” investigar e “para quê” (pertinência de leis e teorias), importa compreendê-los (identi- e relevância social da investigação) e a consequente ficação de regularidades, padrões, contradições, justificação em termos dos custos que envolve a sua etc.) à luz do significado que os indivíduos lhes realização (análise do custo-benefício). atribuem e da forma como os actores os percebem De facto, segundo alguns autores, os efeitos da num dado momento e num dado contexto (Pour- investigação na prática educativa são na maior parte tois & Desmet, 1988). Mais do que um plano rígido das vezes lentos e indirectos (Atkinson & Jackson, e estandardizado, é uma perspectiva que exige do 1992; Holloway, 1996), embora isso possa aconte- investigador uma grande flexibilidade e uma ati- cer por razões muito diversas. Poderá depender tude clínica, podendo contar com uma grande di- não apenas da maior ou menor qualidade e credi- bilidade da investigação realizada, mas também se versidade de técnicas de recolha e análise de dados e como essa investigação é posteriormente utilizada (incluindo procedimentos quantitativos) e em que está em jogo sobretudo a sua capacidade para criar (Holloway, 1996). no caso da investigação no do- uma estratégia própria e adequada para abordagem mínio das tecnologias educativas, a constatação é dos problemas em estudo, em função do terreno e de que pouca mudança tem havido ao nível da sala dos objectivos de investigação (Pourtois & Desmet, de aulas, apesar de não serem muitos os estudos sis- 1988; Taylor & Bogdan, 1984). temáticos e em profundidade sobre o seu uso nas 9 sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
  12. 12. práticas quotidianas de professores e alunos (Costa ções de mestrado ou teses de doutoramento) como & Peralta, 2006). as que aqui analisamos, ou para progressão na car- Por um lado, parece haver uma relação entre a reira académica. Uma investigação em certa medida amplitude dos estudos realizados e o grau de in- estéril não apenas em termos dos resultados a que fluência que essa variável é susceptível de exercer chega (vide o que se disse sobre a inconclusividade ao nível da decisão política e, consequentemente, dos resultados), mas principalmente em termos de embora que de forma indirecta, ao nível micro, nas utilidade prática e influência objectiva nos contex- práticas concretas de ensino e aprendizagem. De tos em que foi desenvolvida que, em geral, não irá acordo com Holloway (1996), os estudos visando além de eventuais mudanças a nível individual por a descrição e caracterização da realidade (compre- aquele ou aqueles que a conduziram. ender o grau de difusão e explicar o quê, onde e porquê da aceitação ou rejeição das tecnologias em Educação), normalmente realizados em grande es- QUESTõES DE PESQUISA E OBJECTIvOS cala, através de inquéritos (“surveys”), acabam por ter mais influência ao nível dos “decision makers”, Como contributo para a caracterização da actividade que as investigações sobre realidades de âmbito de investigação científica realizada em Portugal, no mais restrito (o que se passa na escola ou na sala domínio das Tecnologias em Educação, no período de aulas, por exemplo), muito menos conhecidos compreendido entre 1960 e 2005, pareceu-nos perti- em geral e menos considerados (reconhecidos) em nente colocar algumas questões nucleares, em torno termos de decisão política (Holloway, 1996). Com das quais se organizam também os critérios de análi- base numa revisão da investigação recentemente re- se e a apresentação dos resultados: Que problemáti- alizada, o autor defende a ideia de que a maior par- cas são estudadas? Com que quadros teóricos de re- te desses estudos criam uma visão dos problemas ferência? e Com que metodologias de investigação? mais “centrada no equipamento”, no “potencial das no que diz respeito à análise das problemáticas tecnologias” e nas questões técnicas, acabando por estudadas, interessava-nos principalmente com- fornecer pouca informação sobre as mudanças ope- preender se é uma investigação determinada sobre- radas na escola e sobre o modo como a própria in- tudo pelas necessidades da prática, isto é, investi- vestigação afecta essas mudanças (Holloway, 1996). gação com origem nos problemas e questões que Há, por outro lado, a preocupação referida por o uso das tecnologias veio introduzir no processo Thomas Reeves (2000), de as revisões de litera- de ensino e aprendizagem, ou se, pelo contrário, é tura e as meta-análises nesta área geralmente não principalmente uma investigação determinada pelo fornecerem orientações práticas claras e suficien- modo como as diferentes perspectivas e ideologias temente esclarecedoras, em grande parte devido a (explícitas ou implícitas) entendem o acto educati- uma insuficiente qualidade dos estudos em que se vo e o papel que os meios tecnológicos aí podem baseiam. Segundo o autor, apesar de um cada vez desempenhar. Pretendíamos ainda identificar as maior número de investigadores venha perseguin- temáticas em que incide a investigação, os objectos do objectivos de interpretação e compreensão dos empíricos e a finalidade com que são estudados: se fenómenos e de resolução de problemas práticos e os estudos visam principalmente a análise e descri- adoptando metodologias de orientação mais quali- ção da realidade, se têm como propósito a interven- tativa, há ainda pouca evidência de que a qualidade ção, ou se visam sobretudo a concepção e realização da investigação tenha melhorado, com as naturais de materiais ou quaisquer outros recursos de apoio implicações daí resultantes. à comunicação ou à aquisição de conhecimento. Em seu entender isso deve-se também ao facto Relativamente à identificação dos quadros teó- de grande parte da investigação neste domínio ser ricos de referência, procurámos encontrar marcas realizada por investigadores isolados, ser uma in- que permitissem classificá-los dentro das princi- vestigação raramente ligada a linhas ou agendas de pais perspectivas tradicionalmente utilizadas neste investigação mais robustas, e desenvolvida sobre- campo, isto é, perspectivas behaviorista, cognitiva, tudo no âmbito de trabalhos académicos (disserta- construtivista, sistémica, comunicacional, multi- 10 sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
  13. 13. média, etc.. Sem prejuízo de referências explícitas assumir uma atitude exploratória que permitisse, a outras abordagens, pretendemos perceber até que sobretudo, compreender a evolução verificada, ponto a investigação realizada em Portugal acom- tentando evidenciar as grandes áreas e tendências panha as grandes tendências da que é realizada da investigação. Conscientes da complexidade da internacionalmente e quais as suas especificidades tarefa, em grande medida resultante da complexi- em termos do suporte teórico em que assentam. dade própria das Ciências da Educação, quer do no que respeita à caracterização das metodolo- ponto de vista da multiplicidade e inter penetração gias de investigação, e uma vez que é uma dimensão de quadros teóricos de referência, quer do ponto directamente relacionada com o próprio estatuto de vista estritamente metodológico, de que seria de epistemológico da investigação realizada, impor- todo impossível desligarmo-nos, pretendemos estar ta fazer aqui uma chamada de atenção particular, atentos à articulação com a evolução verificada nas em articulação, aliás, com os aspectos acabados diferentes áreas afins (do ponto de vista da evolução de mencionar. na verdade, este é um aspecto de dos quadros teóricos de referência), e às tendências crucial importância, uma vez que é aí que muitos que internacionalmente se foram afirmando em ter- autores encontram razão suficiente para as severas mos de metodologias de investigação propriamente críticas feitas à qualidade da investigação realizada ditas (evolução dos paradigmas de investigação). neste domínio. Se bem que, tal como afirma Ree- ves, não seja mais pobre que a investigação em Edu- Corpo documental cação em geral (Reeves, 2000), a qualidade efectiva Como tivemos oportunidade de referir, apresentar- da investigação desenvolvida nesta área continua se-ão no âmbito deste artigo os resultados da análi- a ser uma das principais fontes de controvérsia e se realizada às dissertações de mestrado que, desde deve-se em muito, segundo o mesmo autor, à con- há cerca de década e meia, vêm sendo realizadas nas fusão entre “investigação fundamental” (“basic Universidades portuguesas. O corpo documental research”) e “investigação aplicada” (“applied rese- recenseado até ao momento é constituído por 254 arch”). Embora não tenhamos, obviamente, como dissertações (ver Quadro 1 – Corpo documental objectivo imediato proceder à avaliação da qualida- recenseado). de da investigação produzida, até pelas limitações já anteriormente referidas, estaremos atentos a esta Quadro 1 questão, tentando recolher dados que nos permi- Corpo documental recenseado Tipo de publicação Nº de textos* tam voltar a ela mais tarde. nessa medida, para se poder responder global- Dissertações Mestrado 254 mente à questão das metodologias de investigação Doutoramento 23 utilizadas, pareceu-nos pertinente: distinguir os ob- * Dados recenseados até Dezembro de 2005 (actividade em progresso) jectivos de investigação enunciados em termos de “ex- plicação” versus “compreensão” dos fenómenos ver- Critérios de análise sus “resolução de problemas”; caracterizar os designs Dada a natureza do “corpus”, utilizámos, numa metodológicos utilizados dentro do binómio “expe- primeira abordagem, os procedimentos normais rimental” versus “não-experimental”; caracterizar o de análise documental para classificação e indexa- tipo de análise de dados (“qualitativo” versus “quan- ção dos textos identificados. Isso permitiu também titativo”); identificar as técnicas de análise utilizadas; a organização de uma base de dados de referência e, por último, caracterizar a amplitude da amostra so- nesta área, facilitando o acesso e posterior actuali- bre a qual incidem os estudos (macro, meso, micro). zação dos dados. numa segunda etapa, procedeu-se à análise qualitativa do conteúdo dos textos recolhidos, in- METODOLOGIA cidindo sobretudo nos resumos dos mesmos, de forma a identificar os elementos que permitissem não estando nos nossos propósitos imediatos pro- “situar” cada investigação com base em critérios ceder a uma análise histórica exaustiva, decidimos 11 sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
  14. 14. previamente estabelecidos. Esses critérios, que de investigação utilizadas, este critério aplica-se serão apresentados, com mais detalhe no ponto à descrição que, em cada trabalho, é feita sobre seguinte, estão directamente relacionados e foram a natureza, fundamentos e técnicas de recolha derivados dos objectivos atrás enunciados para de dados, bem como os procedimentos metodo- este estudo. lógicos adoptados na sua planificação, análise Sem prejuízo de alguns ajustes a que fomos pro- e interpretação. Tal como no critério anterior, cedendo em resultado da necessidade de acomodar considerámos diferentes aspectos concorrentes algumas categorias emergentes, foi construída uma para a caracterização das opções metodológicas: os objectivos da investigação (procura da expli- estrutura de análise organizada em torno dos três eixos centrais anteriormente referidos: problemáti- cação, procura da compreensão, descrição do real, resolução de problemas); o plano metodoló- cas estudadas, quadros teóricos de referência e op- gico (experimental, não experimental); a análise ções metodológicas. Critério 1 - Problemáticas estudadas. Tendo de dados (quantitativa, qualitativa); as técnicas e instrumentos utilizados e a amplitude da amostra como objectivo identificar as principais proble- máticas estudadas, este critério aplica-se essen- considerada (ver Quadro 4 - caracterização das cialmente à formulação da questão central de metodologias utilizadas). pesquisa (determinante para a selecção do objecto de estudo, mobilização de um quadro teórico de referência, definição dos objectivos ou formulação Quadro 2 de hipóteses de investigação e elaboração de um identificação e caracterização plano de recolha de dados empíricos). no sentido das problemáticas estudadas de melhor se compreender o alcance da investiga- Imagem, Audiovisuais Tecnologias da Informação ção desenvolvida, explicitámos algumas facetas Tema Ensino e Aprendizagem central deste critério, de forma a permitir a identificação Formação de Professores não apenas do tema central estudado, e do campo Outros Linhas de investigação empírico onde são recolhidos os dados (objecto de Origem Problemas concretos do real estudo), mas também a própria origem da investi- Outros Objectivo: gação (linhas de investigação, problemas do real) Análise Identificar Intervenção e a sua finalidade última (análise do real, inter- Finalidade as principais Concepção e desenvolvimento venção, concepção e desenvolvimento). Incluímos Outras problemáticas ainda um critério referente ao contexto estudado, O aluno estudadas O professor de forma a perceber o tipo de distribuição dos es- Os materiais Objecto tudos entre contexto profissional e escolar e, den- O processo de ensino de estudo e aprendizagem tro deste, pelos diferentes níveis de ensino (ver A formação de professores Quadro 2 - Identificação e caracterização das Outros problemáticas estudadas). Escolar (nível de ensino) Critério 2 - Quadros teóricos de referência. Com Contexto Profissional Outros o objectivo de identificar os quadros teóricos usa- dos como suporte da investigação, este critério apli- ca-se às referências feitas pelo investigador sobre as As frequências de cada uma das categorias de áreas científicas, teorias ou autores específicos, seja análise e respectivas percentagens foram calcula- para esclarecimento da questão de pesquisa, para das com o SPSS. De forma a garantir a validade orientar a recolha de dados ou servir de fundamen- do processo de categorização, procedeu-se a uma to à sua interpretação (Quadro 3 - identificação e segunda classificação de uma amostra aleatória de caracterização dos quadros teóricos de refe- dissertações, tendo-se obtido um coeficiente de rência). 83,50% no teste de equivalência entre as duas clas- Critério 3 - Opções metodológicas. Por último, sificações obtidas. com o objectivo de caracterizar as metodologias 12 sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
  15. 15. Quadro 3 identificação e caracterização Quadro 5 dos quadros teóricos de referência Dissertações por Universidade Distribuição de frequências e percentagens Perspectiva comportamentalista (Skinner, Freq. % UnIvERSIDADES Gagné, Bloom…) U. Aberta 41 18,1 Perspectiva comunicacional, Objectivo: U. de Aveiro 25 11,1 Multimédia (Shannon e Identificar Weaver, Mayer…) U. de Lisboa 54 23,9 os principais Referentes Perspectiva sistémica quadros U. do Minho 98 43,4 teóricos* (Bertalanfy, Romiszovsky…) teóricos de U. nova de Lisboa 8 3,5 referência Perspectivas cognitiva e Total 226 100,0 usados como construtivista (Bruner, Piaget, suporte da Giardina, Papert…) investigação. Abordagem hipermédia e flexibilidade cognitiva (nelson, A Universidade do Minho destaca-se das restan- Spiro…) tes, uma vez que aí foram realizadas quase metade Outros das dissertações analisadas (43,4%), seguindo-se a * Classificação sistematizada por Chaves (1998) e Pereira (1993). Universidade de Lisboa com 23,9%. Podemos aliás, concluir que nestas duas Universidades se situam três quartos da investigação académica realizada em Quadro 4 Portugal no domínio das Tecnologias Educativas, caracterização das metodologias utilizadas ao nível de mestrado. Se, num mero exercício de Procura da explicação Objectivos da Procura da compreensão análise, excluirmos a Universidade Aberta 4, parece investigação Resolução de problemas legítima a associação entre as Universidades mais Outros (mera descrição…) recentes (Aveiro, Minho, nova) e o maior volume Experimental Plano metodológico não experimental de investigação aí realizada: Cerca de dois terços, Objectivo: Misto Caracterizar contra cerca de um terço realizada na Universidade Quantitativa as Tipo de de Lisboa, a única representante das Universidades Qualitativa metodologias análise de Mista ditas “clássicas” no universo considerado. Facto investigação Análise estatística… que poderá ser entendido em abono da hipótese de utilizadas Observação, entrevistas o aparecimento de novas Universidades, a partir da Técnicas não estruturadas, análise documental… década de oitenta, ter constituído um factor deter- Mistas minante no desenvolvimento desta área científica. Macro Amplitude da Meso amostra Micro Como evolui o número de dissertações? De forma a permitir verificar a evolução no tempo desde o aparecimento dos primeiros estudos de- APRESEnTAçãO E DISCUSSãO senvolvidos no âmbito de cursos de mestrado5 até DE RESULTADOS hoje, procurámos perceber como se distribuem as dissertações pelos quatro períodos de cinco anos Onde se realiza a investigação? em que dividimos as duas últimas décadas. Para melhor se compreender o panorama global da Assim, com base no Quadro 6 (Evolução do investigação realizada, começamos por apresentar a número de dissertações), é possível observar um informação relativa à distribuição das dissertações crescendo da investigação em termos gerais, sendo pelas universidades onde foram realizadas. Como particularmente nítida a passagem da década de oi- se pode observar no Quadro 5 (Dissertações por tenta (com apenas 8 dissertações concluídas) para a Universidade), o universo das dissertações con- década de noventa, como mais de metade das teses sideradas na análise (226) concentra-se em apenas analisadas (136), ou seja, 60,2% do total. cinco universidades portuguesas3. 13 sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
  16. 16. Quadro 6 investigação realizada em contexto académico e, Evolução do número de dissertações eventualmente, abrir novos horizontes pelo me- Distribuição de frequências e percentagens nos em termos de relevância social, ou seja, como contributo para a inovação e mudança dos modos Freq. % PERÍODOS 1986-1990 8 3,5 de ensinar e aprender nas nossas escolas. Os qua- 1991-1995 77 34,1 dros seguintes referem-se concretamente a cada um 1996-2000 59 26,1 desses eixos de análise, isto é: aos principais temas 2001-2005 82 36,3 tratados; à origem dos problemas que motivaram a Total 226 100,0 investigação; às finalidades enunciadas pelos auto- res das investigações; aos objectos de estudo con- cretos e, por último, aos contextos observados e no último período considerado, já neste milé- estudados. nio, ou seja entre 2001 e 2005, situam-se 82 disser- tações (36,3%). O conjunto dos resultados parece Principais temas tratados apontar para a continuação do ritmo de investigação Com base na análise do Quadro 7 (Temas tra- neste grau académico, podendo mesmo nos próxi- tados na investigação) pode dizer-se que existe mos anos ser fortemente reforçado com a produção uma predominância do estudo de temas relaciona- científica resultante de outros cursos entretanto ini- dos com as “tecnologias de informação” enquanto ciados, como é o caso do Mestrado em Informática ferramenta e como meio passível de ser estudado Educacional oferecido pela Universidade Católica independentemente de poder estar ligado (ou não) Portuguesa e que, como é sabido, talvez por se rea- a objectos de estudo específicos, isto é, ao serviço lizar predominantemente a distância, atingiu níveis da aprendizagem por parte do aluno, ao serviço do assinaláveis de adesão na sua primeira edição. professor, ao serviço do próprio processo de ensi- Estes resultados e a elevada procura de pós-gra- no e de aprendizagem, em geral (41,1%). no caso duações neste domínio, nomeadamente por parte de não estar ligado a outros objectos de estudo, as de professores, para além de ser um bom indicador “tecnologias de informação” surgem, elas próprias, do ponto de vista da quantidade da investigação enquanto objecto de análise (avaliação de software, realizada no nosso país, pode representar cenários por exemplo), objecto de desenvolvimento, como é mais favoráveis também no que diz respeito à utili- o caso dos estudos tendentes à criação e desenvol- zação propriamente dita das tecnologias para fins vimento de novas aplicações para fins específicos educativos. Principalmente pela massa crítica que (uma aplicação multimédia sobre Desenho Infantil, esses professores e outros intervenientes no fenó- para referir um exemplo concreto). meno educativo passam a constituir e pelo impacto que a sua acção possa vir a ter num futuro próximo, nomeadamente se devidamente enquadrados em Quadro 7 termos de projectos de intervenção específicos e Temas tratados na investigação criados com esse intuito. Distribuição de frequências e percentagens Freq. % TEMA CEnTRAL Que problemáticas são estudadas? Audiovisuais 39 17,8 Tal como tivemos oportunidade de explicitar ante- Tecnologias de Informação 90 41,1 riormente, para a caracterização das problemáticas Ensino e Aprendizagem 47 21,5 estudadas, tomámos como referência um conjunto Formação de Professores 20 9,1 diversificado de critérios, de forma a conseguirmos Outros 23 10,5 Total 219 100,0 matizar a investigação realizada e, desse modo, contribuir para um conhecimento mais profundo do que se investiga, porque se investiga, em que É, de facto, grande a distância relativamente contexto e para quê. A ideia é, pois, que a análise ao estudo dos “audiovisuais” (com apenas 17,8%), articulada destes eixos venha a fornecer uma pers- confirmando o crescente interesse pelas tecnologias pectiva de conjunto sobre o esforço depositado na 14 sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
  17. 17. digitais e a importância assumida por estas, relati- Minho as “tecnologias e informação” são de longe vamente ao audiovisual e às tecnologias analógicas o tema preferido (22,83%); o mesmo acontece na que lhe estão associadas e que, como se compreen- Universidade de Aveiro, ainda que em menor per- de, predominam até ao momento em que os compu- centagem relativa (5,94%); na Universidade Aberta tadores ganham expressão efectiva e generalizada o tema mais estudado é “imagem e audiovisuais” na sociedade nos tempos mais recentes. (8,22%), seguido de perto pelas “tecnologias da in- Apenas 9,1% dos estudos se debruçam sobre o formação” (7,31%); na Universidade de Lisboa o in- tema “formação de professores” (20 dissertações), teresse principal é o “ensino-aprendizagem”, com a mas cerca de um quarto tem o processo de “ensino e “formação de professores” em segundo lugar. aprendizagem” como foco principal da observação Origem da investigação e análise. Dois resultados interessantes, sobretudo pelo que cada um significa em si mesmo, mas tam- no que diz respeito à selecção dos temas estudados, bém pelo facto de apontarem em direcções opostas. é possível observar, com base no Quadro 8 (Origem Se por um lado é vital que se desloque a atenção para da investigação), que são os “problemas do real” a o estudo dos modos como as tecnologias são integra- determinar o que vai ser investigado. De facto, pre- das no processo de ensinar e aprender, é preocupan- dominam de forma muito clara, na quase totalidade te o facto de se continuar a verificar a pouca atenção dos estudos (94,2%), razões que podemos associar dada aos contextos em que seria de esperar que os ao interesse dos autores em aprofundarem o conhe- professores também fossem preparados na dimen- cimento sobre as questões ou problemas com que são profissional que implica a integração e uso des- de alguma maneira já se confrontaram na sua acti- sas mesmas tecnologias nas suas práticas lectivas. vidade profissional. Embora estejamos conscientes que não será no âmbito de estudos académicos de natureza indivi- Quadro 8 dual que isso deva ser feito, não deixa de ser um in- Origem da investigação Distribuição de frequências e percentagens dicador da situação crítica em que nos encontramos e que é caracterizada pela ausência completa de uma Freq. % ORIGEM Linhas de Investigação 2 0,9 visão integrada e articulada de desenvolvimento Problemas do real 213 96,8 profissional dos professores neste domínio. Curio- Outros 5 2,3 samente, como claramente evidenciam os poucos Total 219 100,0 estudos realizados sobre esta problemática (Costa & Peralta, 2006; Matos, 2005; Ponte & Serrazina, 1998; Ponte et al., 2000), também isso acontece ao Como talvez fosse de esperar, dado o tipo de relação esporádica que é estabelecida com as Uni- nível da própria formação inicial, o que, quanto a versidades para a obtenção deste grau académico, nós, é um dos factores mais preocupantes no con- são quase nulas as investigações em que é clara e texto nacional. Embora em sintonia com o que se expressamente assumida a sua inserção no âmbito passa internacionalmente em termos do impacto da de uma determinada “linha de investigação” exis- formação inicial nas novas gerações de professores (Brett et al., 1997; ITRC, 1998; Makrakis, 1997; tente, por exemplo, num determinado centro ou unidade de investigação. Willis & Mehlinger, 1996), mas com a agravante de em Portugal isso não constituir de todo objecto Principais finalidades de intervenção estruturada, consistente e assente De acordo com os resultados no Quadro 9 (Fina- na reflexão prévia, aprofundada, sobre o papel das lidades da investigação) e em sintonia com o que tecnologias na aprendizagem. se disse sobre a origem da investigação, pode afir- Do ponto de vista da “geografia” dos temas, isto mar-se que a principal motivação para a realização é, da sua distribuição pelas universidades em que do trabalho de pesquisa desenvolvido nas disser- as dissertações foram realizadas, a observação dos tações analisadas é claramente a compreensão dos resultados sugere algumas preferências que pode- fenómenos, situações ou contextos observados. De rá ser interessante explorar: na Universidade do 15 sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
  18. 18. facto, em quase dois terços dos estudos (70, 4%) nos casos das Universidades do Minho (26,39%), de a finalidade dominante é a “análise”, seguida, da Lisboa (24,55%), de Aveiro (8,33%) e nova (3,70%), “concepção e desenvolvimento” que aparece em e pelo “desenvolvimento” de materiais na Universi- segundo lugar, embora a grande distância, com dade Aberta (11,57%), mas também na Universida- 25,5% dos casos, ou seja um terço das investigações de do Minho (10,65%). consideradas. Principais objectos de estudo Quadro 9 Da análise dos resultados apresentados no Quadro Finalidades da investigação 10 (Objectos de estudo) é visível que os “mate- Distribuição de frequências e percentagens riais” são o principal foco da investigação desen- volvida no âmbito das dissertações de mestrado Freq. % FInALIDADE Análise 152 70,4 analisadas, com 37,1% dos estudos, ou seja 79 dis- Intervenção 9 4,2 sertações6. Concepção e Desenvolvimento 55 25,5 O foco no “processo de ensino e aprendizagem” Total 216 100,0 surge em segundo lugar, com 22,5% dos estudos (48 dissertações). Conjugando este valor com o conjun- Ambos os valores parecem fazer sentido, na to das teses que se debruçam mais especificamente perspectiva de que estamos a referir-nos a algo mui- sobre o “aluno” (considerado individualmente e em to recente, em constante evolução e cujos contornos relação directa com a aprendizagem), com 11,3% (24 não são, como vimos anteriormente, muito nítidos, teses), e sobre o “professor” (estudos sobretudo re- pelo menos para quem é confrontado pela primeira lacionados com as atitudes face às tecnologias ou vez com as dificuldades e implicações inerentes à visando conhecer o tipo de uso que fazem das tec- utilização e integração de máquinas num ambiente nologias), com 15,5% (33 dissertações), é possível até então quase exclusivamente reservado à acção observar também o especial interesse que merecem e interacção humanas. Poderia ser, aliás, um bom os tópicos relacionados, não propriamente com as indicador de desenvolvimento deste campo e das tecnologias em si mesmo, mas com o contexto em suas aplicações práticas, se fosse outro o impacto que é suposto serem usadas, com os seus utilizado- do conjunto das investigações realizadas para ob- res mais directos e com o papel que podem ter na tenção de grau académico. aprendizagem. Talvez devido à fragilidade do estatuto dos au- tores dessas investigações que, como já tivemos Quadro 10 oportunidade de referir, são na sua maioria profes- Objectos de estudo sores que procuram, a título individual, a obtenção Distribuição de frequências e percentagens de um grau académico que lhes permita progredir Freq. % OBJECTO DE ESTUDO profissionalmente, não seria expectável que fosse Aluno 24 11,3 Professor 33 15,5 significativo o número de dissertações visando a Materiais 79 37,1 “intervenção” propriamente dita. Pelo menos uma Ensino e Aprendizagem 48 22,5 intervenção com carácter estruturado e com um Formação de Professores 13 6,1 determinado suporte institucional, por exemplo Outros 16 7,5 ao nível de uma escola ou conjunto de escolas. O Total 213 100,0 elevado grau de aplicabilidade desta área contrasta, aliás, com a baixa percentagem verificada em es- tudos com essa finalidade (4,2%, ou seja, apenas 9 Por outro lado, apenas 6,1% dos estudos incidem dissertações), o que não deixa de estar em sintonia na “formação de professores”, sendo esse, aliás, o com o que se disse no parágrafo anterior. valor mais baixo verificado nesta categoria de análi- no que se refere à associação entre universida- se. Apontando na mesma direcção e corroborando des e finalidades, os resultados apontam para a pre- o que se disse anteriormente sobre a formação de ferência pela “análise” e compreensão da realidade professores, é interessante verificar que apenas tre- 16 sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
  19. 19. ze dissertações têm como foco central de observa- as que analisámos, é importante conhecer os referen- ção e estudo, o processo e as práticas de formação tes teóricos usados na investigação, de forma a poder de professores, o que não deixa de ser um aspecto avaliar-se quais são as tendências predominantes num curioso a reter, até porque esse é, reconhecida e in- determinado momento e como se distribuem pelas contornavelmente, uma pedra-de-toque nesta como universidades onde essa investigação é acompanhada. em outras áreas das Ciências da Educação. De acordo com os resultados apresentados no Em termos da geografia dos objectos de estudo, Quadro 12 (Quadros Teóricos de referência), é é interessante verificar as preferências das Universi- possível concluir que a maior parte das dissertações dades do Minho (18,78%), Aberta (11,74%) e Aveiro (53,6%) não toma como referentes teóricos aqueles (5,63%) por estudos que incidem nos “materiais”. que tínhamos tomado como ponto de partida para a no caso da Universidade de Lisboa a preferência re- análise e que, como referimos anteriormente, se ba- parte-se de igual modo por dois dos objectos de es- seavam nas perspectivas que tradicionalmente são tudo mais directamente relacionados com a situação mobilizadas para estudar a problemática das tecno- didáctica em si mesma, isto é, o “professor” (7,98%) logias em Educação. Para além da dificuldade que e o “processo de ensino-aprendizagem” (7,98%). tivemos, nalgumas investigações, em identificar o enquadramento teórico tomado como referência, Contexto em que a investigação incide quer por falta de clareza na sua explicitação, quer Como já por mais de uma vez referimos, são princi- por não ser clara também a opção apenas por uma palmente os professores que procuram a concreti- das perspectivas consideradas no nosso plano de zação de pós-graduações no domínio das Ciências análise, incluímos também nesta categoria (“outros da Educação e, em particular, as que directamente referenciais”) os estudos que apresentavam quais- possam estar relacionadas com a reflexão estrutu- quer outras estruturas teóricas de enquadramento que não as que havíamos definido a priori. rada sobre a relação entre as tecnologias e o seu uso para fins educativos, nomeadamente ao nível de mestrado. Talvez por isso, o contexto “escolar” Quadro 12 represente, no corpus aqui considerado, a quase to- Quadros Teóricos de referência Distribuição de frequências e percentagens talidade das investigações realizadas (200 disserta- ções, 95,7%), com apenas um valor residual (3,3%) Freq. % REFEREnTES TEÓRICOS Comunicação e Multimédia 32 22,9 de dissertações desenvolvidas em contexto “profis- Cognitivismo e Construtivismo 16 11,4 sional” fora da Escola (ver Quadro 11 - Contextos Hipermédia e Flexibilidade Cognitiva 17 12,1 em que a investigação é realizada). Outros 75 53,6 Total 140 100,0 Quadro 11 Contextos em que a investigação é realizada Uma possível interpretação para este resultado, Distribuição de frequências e percentagens nomeadamente no que se refere à última alternati- Freq. % COnTEXTO va, pode estar relacionada com o empréstimo pro- Escolar 200 95,7 Profissional 7 3,3 curado em outras áreas científicas, nomeadamente Outros 2 1,0 as que estão directamente ligadas às temáticas e Total 209 100,0 objectos de estudo específicos, como é o caso da Formação de Professores. Se uma determinada dissertação tem como principal tema e objecto de estudo a formação de professores, é natural que o Principais quadros teóricos de referência investigador procure fazer o respectivo enquadra- A robustez do suporte teórico é um dos atributos mento teórico à luz do conhecimento actual sobre fundamentais da investigação científica e, como não modelos de formação de professores, por exemplo. poderia deixar de ser, uma garantia da qualidade e Estaríamos assim numa situação, quanto a nós de credibilidade dos estudos realizados. no caso das grande interesse do ponto de vista interdisciplinar, dissertações para obtenção de grau académico como 17 sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado

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