no 4         -   Ano 0                             Paraná, maio/junho de 2010Esta revista é gratuita, sendo proibido qualq...
Revista Literária                                               “O Voo da Gralha Azul”                                    ...
SUMÁRIOACADEMIAS                                                                       Victor Hugo ..........................
HAICAIS                                                                       A Carteira ....................................
Eliane Potiguara                                                     Cachecol. ..............................................
Higienização do Assoalho ..........................162               Trovas Infantis.........................................
7                                             Machado                                             de Assis                ...
8                                                         29 jun. 1855      Vem, ó anjo de candura,       Fazer a dita, a ...
9               prantos.                      A Musa que inspira meus versos de amor!   Saudades carpindo, que sinto por t...
10herança que meu pai me deixou. Mastambém é tanta praga que eu rogo paraele, que até o seu esqueleto deve dançarno caixão...
11               NUANÇA                              buscando-me a fisionomia —                                           ...
12        ARTE POÉTICA                      a vida é a contemplação daquela nuvem.                                        ...
13      O ESTIOLAR DAS COISAS                  multifacetada, seu raio de ação inclui,                                    ...
14        “Dir-se-ia que a voz do poeta,       dançarinos entediados, somos grãos defiltrada pelo sentimento do eu lírico,...
15chamava de cinco horas, porque era a          suicidou e a mãe, um tempo depois,hora que ela aparecia, e uma insônia    ...
16                                    Aquarela                                    de Trovas    Num tempo em que tanta guer...
17        Dona Sabiá também não tinha                ***sossego, e já estava magra de tanto                - Mamãe agora c...
18        - Este riacho me parece                   Chegando a sua casa debulhou oencantado, em todo lugar que vou        ...
19retornou para dentro da casa ainda                   E o bicho papão desiludido, virouenfumaçada.                       ...
20nariz, mas quando se aproximava com                  - Não diga! E como eu fareia boca aberta, sentia o fedor, fazia    ...
21      Dos poetas são os parceiros                   De saudades de você…        que versam o Paraná.                 NEI...
22estão em seu caminho. É a voz de nosso             LUPICÍNIO RODRIGUES – Portoquerido Paraná, é a voz do Brasil.        ...
23        A dama gorducha esgravatou             casariam! Laura não fazia mais do queentre amostras de moleton que levava...
24         Aquela      infelicidade    conjugal           Num lugar tranqüilo de certa rua,desceu até mim os olhos, quase ...
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4 revista o voo da gralha azul numero 4 maio junho 2010

  1. 1. no 4 - Ano 0 Paraná, maio/junho de 2010Esta revista é gratuita, sendo proibido qualquer tipo de comercialização de seus artigos sem autorização dos respectivos autores.
  2. 2. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” n0. 4 – Paraná, maio/junho 2010 Idealização, seleção e edição: José Feldman Contatos, sugestões, colaborações: pavilhaoliterario@gmail.comhttp://singrandohorizontes.blogspot.comQue a humanidade possa aprender com a nossa Gralha-azul e entender que oequilíbrio e o respeito ecológico entre fauna e flora é fundamental para a existênciado Homem na face da Terra!!! Prezado Prezado Leitor Esta revista não tem a pretensão e nunca poderá ser considerada como substituição aos livros,jornais, colunas, etc. que circulam virtualmente ou não, mas sim como mola propulsora de incentivo aocidadão para buscar novos conhecimentos, ou relembrar aqueles perdidos na névoa do passado. Por que o Voo da Gralha Azul? A poetisa norte-americana Emily Dickinson, que viveu no século XIX,diz “Não há melhor fragata do que um livro para nos levar a terras distantes”. No caso da revista, estafragata é a Gralha Azul, que assim como semeia o pinheiro, ela alça voo e semeia no coração de cadaum que alcançar, o pinhão da cultura, em todas as suas manifestações. Ao leitor, novos conhecimentos.Ao escritor ou aspirante a tal, sejam poetas, trovadores, romancistas, dramaturgos, compositores, etc.,um caminho de conhecimento e inspiração. Obrigado por me permitir dividir consigo estes breves momentos, José Feldman Esta revista é gratuita, sendo proibido qualquer tipo de comercialização de seus artigos sem autorização dos respectivos autores.
  3. 3. SUMÁRIOACADEMIAS Victor Hugo ............................................................. 131Academia Caetiteense de Letras CONCURSOS COM INSCRIÇÕES ABERTASCaetité: Terra das Letras ..........................91 Jogos Florais Casa do Sargento do Brasil - UBT Mage.. 164Escritores de Caetité .................................94 IV Concurso de Trovas "João Chaves" ....................... 165ANÁLISE DE OBRAS IX Jogos Florais do Rio de Janeiro – 2010................. 165João Guimarães Rosa .................................................. ..................33Sagarana .................................................. 33 XXX Concurso Estadual/Nacional e I Concurso Interno deSarapalha ..................................................34 Trovas da Academia de Trovas do Rio Grande do NorteO Burrinho Pedrês.....................................35 Natal/2010............................................................... 165A Hora e a Vez de Augusto Matraga.........37 V Concurso Literário Cidade de Maringá..................... 165Conversa de Bois .......................................40José Saramago 7o. Concurso Nacional de Poesia “Pérola da Lagoa” .... 166Memorial do Convento ..............................108 5o. Festival de Contos e Poesias de Santa Lúcia/SP ..... 167BIOGRAFIAS 3o. Concurso Cidade de Gravatal de Literatura (Conto eAdriana Falcão ..........................................................15 Poesia)..................................................................... 167Ângela Varela ...........................................................73 21o. Concurso de Contos Paulo Leminski .................... 168Antonio Augusto de Assis...........................................95 XVII Prêmio Cidade de Conselheiro Lafayete............... 169Antônio Brasileiro ....................................................13 Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio ........... 171Artur da Távola.........................................................89 Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody............... 173Carlos Nogueira Fino .................................................72 ENTREVISTACarlos Seabra ............................................................31 Dalila Teles VerasCláudio Willer ..........................................................127 A Escritora em Xeque ............................................... 114Dalila Teles Veras......................................................73 ESTANTE DE LIVROSDimas de Carvalho ....................................................30 Nora RobertsDorothy Jansson Moretti ............................................141 Luzes do Norte .......................................... 149 A Dama Negra........................................... 150Edgar Allan Poe ........................................................62 Tesouros Escondidos ................................. 150Eliane Potiguara........................................................143 A Villa........................................................ 150Glauber Rocha ..........................................................27 Trilogia das ChavesIrene Lucília .............................................................71 A Chave da Luz......................................... 151 A Chave do Saber...................................... 151José António Gonçalves ............................................70 A Chave da Coragem ................................ 151José Carlos Ryoki de Alpoim Inue...............................49 FOLCLOREJosé de Sainz-Trueva.................................................72 Espanhol Folclore EspanholJosé Ouverney...........................................................106 O Anão e o Gigante ................................... 66Leon Eliachar ...........................................................136 Folclore IndígenaMaria Aurora Carvalho Homem ..................................73 As Amazonas (Icamíabas)......................... 146 As Icamíabas e Orellana – A Lenda ......... 147Miriam Mermelstein ..................................................88 O Ódio das Amazonas ............................... 148Natália Bonito ...........................................................65 O Mítico Jurupari e As Amazonas............ 148Neida Rocha..............................................................52 Buscas Arqueológicas................................ 149Nora Roberts ............................................................151 Folclore do Japão Origens de Maneki-Neko .......................... 78O. Henry ..................................................................25 O Gato Assombrado de Nabeshima .......... 79Patativa do Assaré ....................................................43 João Cirino GomesPlínio Marcos ...........................................................121 Floresta Encantada................................... 16Roberto Protti...........................................................10 Esta revista é gratuita, sendo proibido qualquer tipo de comercialização de seus artigos sem autorização dos respectivos autores.
  4. 4. HAICAIS A Carteira ................................................. 75 O. HenryCarlos Seabra Memórias de um Cachorro Amarelo......... 22Crianças.....................................................30Temporal....................................................30 Plínio Marcos O Pranto e o Canto pelos Anjos Caídos .... 117Boteco.........................................................30Cometa.......................................................30 Roberto Protti O Nome...................................................... 9Granizo ......................................................30Cabelo ........................................................30 Sandra M. Júlio Amanhecer dos Sonhos ............................. 65Caruma ......................................................30Nevada.......................................................30 Vicência Jaguaribe Motus Continuus....................................... 57Jornal.........................................................31Vassoura ....................................................31 POESIASTelefone......................................................31 Alba Krishna Topan FeldmanSerenata.....................................................31 Terra.......................................................... 102Furinho ......................................................31 Ângela VarelaMordomo ....................................................31 A Fala Das Coisas ..................................... 73Estrela .......................................................31 Corpo Mineral ........................................... 73Criado ........................................................31 Antonio BrasileiroQueda.........................................................31 Anotações Do Imemoriado ........................ 10Sombra.......................................................31 O Sim & Outros Achaques ........................ 10Corrida.......................................................31 Nuança ...................................................... 11Sapato ........................................................31 Cálice......................................................... 11Sabor..........................................................31 Soneto Do Amor Profano........................... 11NOTÍCIAS Cem Anos .................................................. 11 Concerto p/ Flauta de Canudo de Mamão ... 11Escritor Brasileiro recordista no Guiness com mais de mil A Noite Das Nove Luas............................. 11livros publicados.......................................................153 Arte Poética............................................... 12E-Book indígena divulga trabalho de 11 escritores em Tudo Que Somos ....................................... 12defesa de suas tradições ............................................154 Contemplação Da Nuvem ......................... 12 A Espuma Das Coisas ............................... 12Falecimento do escritor maringaense Emílio Germani, dia 2 Mnemósine Revisitada.............................. 12de junho, aos 92 anos de idade ..................................155 O Estiolar Das Coisas ............................... 13O ESCRITOR COM A PALAVRA O Ofício...................................................... 13Adriana Falcão Quadra ...................................................... 13O doido da garrafa.......................................... 14 Carlos de OliveiraAntonio Augusto de Assis Amazônia................................................... 98A Enchente ................................................84 Carlos Nogueira FinoAntonio Roberto de Paula “a ambigüidade não é a que insinua” ....... 72Campeonatos da Vida................................45 Dalila Teles VerasAparecido Raimundo de Souza Vida Murada ............................................. 81Conversa de Cavalos .................................144 Elemento Em Fúria .................................. 81Artur da Tavola Paisagem ................................................... 81Conversando com Deus .............................88 Forasteiros Registros Nordestinos............ 81Dimas Carvalho Performance .............................................. 82O Manuscrito .............................................28 Paisagem Marítima................................... 82Edgar Allan Poe Falsos Haicais ........................................... 82A Máscara da Morte Escarlate..................58 Subúrbio .................................................... 82José Carlos Ryoki de Alpoim Inue 10 De Junho .............................................. 82O Sebo ........................................................48 A Fotografar Vidas.................................... 82Laé de Souza Viuvez Sem Espera ................................... 83E Se o Mundo Acabasse? ...........................107 Sol Sem Aço............................................... 83Leon Eliachar Meu Pai – Retrato Falado......................... 83Conheça-se a Si Mesmo .............................134 Eliana PalmaMachado de Assis Hábeas – Pinho ......................................... 96
  5. 5. Eliane Potiguara Cachecol. ................................................... 54Oração pela Libertação dos Povos Indígenas .. 99 Viver Solitário ........................................... 55Glauber Rocha - Poemas Eskolhidos Bala Achada. ............................................. 55Kapital Song ..............................................26 Entre O Nascente E O Poente ................. 55Querido Tom ..............................................26 O Caminho De Cada Um. ......................... 55Desejo.........................................................27 "Internet Da Natureza"............................. 56Irene Lucília Sons Da Noite............................................ 56Sete Partidas .............................................71 Reencontro De Almas................................ 56Jeanette Monteiro de Cnop Nicodema Nicodema AlvesDualidades.................................................100 Caetité ....................................................... 101Joacir Zen Ranieri Patativa do AssaréSete Quedas ...............................................101 Saudade..................................................... 41JoséJosé António Gonçalves Aos Poetas Clássicos ................................. 41Pôr-Do-Sol..................................................71 Pedro Du Bois Sainz-José de Sainz-Trueva Humano..................................................... 98“De um só golpe” ........................................72 Silviah Carvalho“Mais secreto é o dia”.................................72 Hábeas Cor – Liberte Coração.................. 97José Viale Moutinho: Victor HugoAntimemória Com Funchal .......................69 Ontem A Noite .......................................... 128Machado de Assis Homem & Mulher ..................................... 128A Palmeira.................................................7 A Fonte ...................................................... 129Ela..............................................................7 O Sepulcro E A Rosa ................................. 129Teu Canto ..................................................8 Aparição .................................................... 129Um Anjo.....................................................8 As Contemplações ..................................... 130Minha Musa...............................................8 Os Cantos Do Crepúsculo ......................... 130Cognac!.......................................................9 " O Amor " ................................................. 130Maria Aurora Carvalho Homem Palavras Sobre A Duna............................. 130Um Jeito De Dizer Solidão ........................73 Mãe E Filho............................................... 131 Sá-Mário de Sá-Carneiro SOPA DE LETRASQuase ....................................................... 99 ....................................................... .......................99 Claúdio WillerMário Quintana Brasil e Portugal: nossa língua, nossasA Vida... .....................................................99 literaturas ................................................. 122Natália Bonito Dalila Teles VerasInspiração ..................................................63 Poesia Madeirense .................................... 68Apaixonantes Sensações............................64 Eliane PotiguaraIngrata Submissão ....................................64 Literatura Indígena: Instrumento deEstrofes Solitárias .....................................64 Conscientização......................................... 142Não Engano Meu Coração .........................65 Miriam MermelsteinFugaz Eternidade De Viver.......................65 Sobre o Gosto da Leitura na Escola.......... 85Neida Rocha Noções Básicas de Conservação de Livros ePorque Escrevo ..........................................50 DocumentosMeditação...................................................51 Introdução: a ordem dos fatores altera oEspelho ......................................................51 produto ...................................................... 156Escrever .....................................................51 Conservação Preventiva ........................... 157Apenas...Viver ...........................................51 Fatores Internos de Degradação............... 157Gestos E Olhares .......................................51 Fatores Externos de Degradação.............. 157Páscoa ........................................................52 Umidade e Temperatura........................... 157Angel. .........................................................52 Luz............................................................. 158Mãezinha. ..................................................52 Poluição atmosférica ................................. 158Meu Pai......................................................52 Insetos, Roedores e Fungos....................... 159Meus Medos. ..............................................53 A Ação do Homem como Fonte de DegradaçãoUma Mulher De Muitos Homens. .............53 do Acervo ................................................... 159Teu Chamado.............................................54 Higienização de Acervo ............................. 161Viagem Astral............................................54 Higienização de Documentos .................... 162Porque Sou Poeta.......................................54
  6. 6. Higienização do Assoalho ..........................162 Trovas Infantis.......................................... 141Melhoria Ambiental: Área de Guarda do Aquarela de Trovas .................................. 16 Trovas.................................. ................................Acervo ........................................................162 Izo GoldmanMelhoria das Condições Ambientais .........162 Trovas de Quem Ama a Trova .................. 47Desastres em Bibliotecas: Inundação e José OuverneyIncêndio .....................................................163 Palestra em Trovas: A Sogra .................... 104Montagem de Exposições: Recomendações Vânia Maria Souza EnnesTécnicas .....................................................163 Paraná em Trovas ..................................... 17Conclusão...................................................164 INDICAÇÃO DE SITES DE LITERATURATEATRO DE ONTEM E DE SEMPRE Projetos de Leitura (Laé de Souza)............................. 176A Casa de Chá do Luar de Agosto.............102 Simultaneidades (Andréa Motta)................................ 176A Morte do Caixeiro Viajante....................103 Falando de Trova (José Ouverney)............................. 176TROVAS Projeto Releituras (Arnaldo Nogueira Jr.) .................. 177Antonio Augusto de AssisTrovas ........................................................94 Domínio Público....................................................... 177Dorothy Jansson MorettiTrovas ........................................................140
  7. 7. 7 Machado de Assis Poemas A PALMEIRA Adeus, palmeira! ao cantorA FRANCISCO GONÇALVES BRAGA Guarda o segredo de amor; Sim, cala os segredos meus! Como é linda e verdejante Não reveles o meu canto, Esta palmeira gigante Esconde em ti o meu pranto Que se eleva sobre o monte! Adeus, ó palmeira!... adeus! Como seus galhos frondosos S’elevam tão majestosos RJ, 6 jan. 1855 Quase a tocar no horizonte! Ó palmeira, eu te saúdo, ELA Ó tronco valente e mudo, Da natureza expressão! Nunca vi, — não sei se existe Aqui te venho ofertar Uma deidade tão bela, Triste canto, que soltar Que tenha uns olhos brilhantes Vai meu triste coração. Como são os olhos dela! F. G. BRAGA Sim, bem triste, que pendida Tenho a fronte amortecida, Seus olhos que brilham tanto, Do pesar acabrunhada! Que prendem tão doce encanto, Sofro os rigores da sorte, Que prendem um casto amor Das desgraças a mais forte Onde com rara beleza, Nesta vida amargurada! Se esmerou a natureza Com meiguice e com primor. Como tu amas a terra Que tua raiz encerra, Suas faces purpurinas Com profunda discrição; De rubras cores divinas Também amei da donzela De mago brilho e condão; Sua imagem meiga e bela, Meigas faces que harmonia Que alentava o coração. Inspira em doce poesia Ao meu terno coração! Como ao brilho purpurino Do crepúsculo matutino Sua boca meiga e breve, Da manhã o doce albor; Onde um sorriso de leve Também amei com loucura Com doçura se desliza, Ess’alma toda ternura Ornando purpúrea cor, Dei-lhe todo o meu amor! Celestes lábios de amor Que com neve se harmoniza. Amei!... mas negra traição Perverteu o coração Com sua boca mimosa Dessa imagem da candura! Solta voz harmoniosa Sofri então dor cruel, Que inspira ardente paixão, Sorvi da desgraça o fel, Dos lábios de Querubim Sorvi tragos d’amargura! Eu quisera ouvir um — sim — ........................................ Pr’a alívio do coração! Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.4 – Paraná, maio/junho de 2010.
  8. 8. 8 29 jun. 1855 Vem, ó anjo de candura, Fazer a dita, a ventura UM ANJO De minh’alma, sem vigor; Donzela, vem dar-lhe alento, À MEMÓRIA DE MINHA IRMÃ Faz-lhe gozar teu portento, “Dá-lhe um suspiro de amor!” Se deixou da vida o porto Teve outra vida nos céus. TEU CANTO A. E. ZALUAR A UMA ITALIANA Foste a rosa desfolhadaÉ sempre nos teus cantos sonorosos Na urna da eternidade, Que eu bebo inspiração. Pr’a sorrir mais animada, Mais bela, mais perfumada DO AUTOR [“Meu Anjo”.] Lá na etérea imensidade. Tu és tão sublime Rasgaste o manto da vida, Qual rosa entre as flores E anjo subiste ao céu De odores Como a flor enlanguecida Suaves; Que o vento pô-la caída Teu canto é sonoro E pouco a pouco morreu! Que excede ao encanto Do canto Tu’alma foi um perfume Das aves. Erguido ao sólio divino; Levada ao celeste cume Eu sinto nest’alma, C’os Anjos oraste ao Nume Num meigo transporte, Nas harmonias dum hino. Meu forte Dulçor; Alheia ao mundo devasso, Se soltas teu canto Passaste a vida sorrindo; Que o peito me abala, Derribou-te, ó ave, um braço, Que fala Mas abrindo asas no espaço De amor. Ao céu voaste, anjo lindo. Se soltas as vozes Esse invólucro mundano Que podem à calma, Trocaste por outro véu; Minh’alma Deste negro pego insano Volver; Não sofreste o menor dano Minh’alma se enleva Que tu’alma era do Céu. Num gozo expansivo De vivo Foste a rosa desfolhada Prazer. Na urna da eternidade Pr’a sorrir mais animada Donzela, esta vida Mais bela, mais perfumada Se eu tanto pudera, Lá na etérea imensidade. Quisera RJ, out. 1855 Te dar; Se um beijo eu pudesse MINHA MUSA Ardente e fugace Na face A Musa, que inspira meus tímidos cantos, Pousar. É doce e risonha, se amor lhe sorri; É grave e saudosa, se brotam-lhe os Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.4 – Paraná, maio/junho de 2010.
  9. 9. 9 prantos. A Musa que inspira meus versos de amor! Saudades carpindo, que sinto por ti. RJ, 22 fev. 1856 A Musa, que inspira-me os versos COGNAC!... nascidosDe mágoas que sinto no peito a pungir, Vem, meu Cognac, meu licor d’amores!...Sufoca-me os tristes e longos gemidos, É longo o sono teu dentro do frasco;Que as dores que oculto me fazem trair. Do teu ardor a inspiração brotando O cérebro incendeia!... A Musa, que inspira-me os cantos de Da vida a insipidez gostoso adoças; prece, Mais val um trago teu que mil grandezas; Que nascem-me d’alma, que envio ao Suave distração — da vida esmalte, Senhor. Quem há que te não ame? Desperta-me a crença, que às vezes Tomado com o café em fresca tarde ‘dormece Derramas tanto ardor pelas entranhas,Ao último arranco de esp’ranças de amor. Que o já provecto renascer-lhe sente Da mocidade o fogo! A Musa, que o ramo das glórias enlaça, Cognac! — inspirador de ledos sonhos, Da terra gigante — meu berço infantil, Excitante licor — de amor ardente! De afetos um nome na idéia me traça, Uma tua garrafa e o Dom Quixote, Que o eco no peito repete: — Brasil! É passatempo amável! Que poeta que sou com teu auxílio!A Musa, que inspira meus cantos é livre, Somente um trago teu m’inspira um Detesta os preceitos da vil opressão, verso;O ardor, a coragem do herói lá do Tibre, O copo cheio o mais sonoro canto; Na lira engrandece, dizendo: — Catão! Todo o frasco um poema! ------------------- O aroma de esperança, que n’alma Fonte: recende, LEAL, Cláudio Murilo (org.). Toda poesia de Machado É ela que aspira, no cálix da flor; de Assis. RJ: Record, 2008. É ela que o estro na fronte me acende, Roberto Protti (O Nome)A cena se passou numa fila do INSS para – Mas eu tenho, infelizmente!recebimento do auxílio-doença, igual a – E como é que você se arranja com ummuitas que se vêem por este Brasil afora. nome desses?– Nome? – E o que é que eu posso fazer? Matar o– Colosflónio Único da Silva. meu pai? Ele já está morto há muito– Cavalheiro, não estou aqui para tempo! Foi ele quem botou esse nome embrincadeira! O nome certo? – falou, já mim, e eu, recém-nascido não podiameio bravo, o atendente do outro lado do protestar! Meu pai quis que seu filhoguichê. tivesse um nome inédito no Brasil! E me– Colosflónio Único da Silva. arranjou esse que só me dá encrenca. Já fui até parar na delegacia por terE o gajo já foi metendo quase nas fuças esbofeteado uma moça que fez chacotado funcionário sua carteira de identidade, do meu nome. Já apanhei e bati porpara comprovar o seu nome verdadeiro. causa do nome. Não passa um só dia em– Mas, isso é nome que alguém tenha? que não tenha de explicar essa maldita Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.4 – Paraná, maio/junho de 2010.
  10. 10. 10herança que meu pai me deixou. Mastambém é tanta praga que eu rogo paraele, que até o seu esqueleto deve dançarno caixão! Roberto Protti, nasceu na cidadeLogo atrás do infortunado, um homem de São Paulo, em agosto de 1923. Nos“gordo às pampas” ria e falava: seus oitenta anos, guarda muitas– Isso não é nada! Podia ser pior! recordações preciosas: da infância no bairro tumultuado e alegre, dos temposMas foi logo fulminado com o olhar de de Grupo escolar e Ginásio e de sua“poucos amigos” do proprietário do nome atividade como executivo de vendas, quee até a “autoridade” do guichê se o ajudou a aguçar seu senso depronunciou: observação. As reflexões que o– Cavalheiro, o assunto não lhe diz acompanharam nessa longa caminhadarespeito. Cale-se! e o hábito de ler bons livros despertaram seu interesse em escrever.Depois do atendimento ao único dono de Por duas vezes, participou do Concursotal nome no Brasil, que por sinal tinha de "Talentos da Maturidade", promovidovoltar, pois, como sempre, faltava um pelo Banco Real. Foi convidado adocumento para satisfazer o Instituto, lá participar de todas as edições seguintesse foi ele embora todo chateado. do concurso, mas declinou do convite por estar empenhado na composição daMurmurou entredentes o funcionário: presente obra. O embrulho inédito é seu“Cada nome que me aparece neste primeiro livro. "Inédito", portanto, naguichê!” autoria e não só no conteúdo.– O próximo. Nome?– Paquiderme Junqueira. Fonte: PROTTI, Roberto. O embrulho inédito. Osasco, SP: Novo Século, 2004. ps.75 Antonio Brasileiro Poemas ANOTAÇÕES DO IMEMORIADO onde os homens se congregam: A consciência, fiapo de quê, ninguém jamais sabe ao certo no mar da alma? onde o sim das grandes aves, (E o ter que contar os meus segredos, singramos por mares mansos que eu mesmo guardei que julgáramos esquecidos — e esqueci.) mas eis que a vida se perde O SIM & OUTROS ACHAQUES por falta de outros desígnios. A vida inteira anulada Ou não se perde: é só isto. por falta de outros desígnios, eis que voltamos ao parque Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.4 – Paraná, maio/junho de 2010.
  11. 11. 11 NUANÇA buscando-me a fisionomia — mas já passei, agora Meus caminhos, meus mapas, sou apenas poesia. meus caminhos. Vejo rostos que me amam Tudo está em ordem tentando saber quem fui — em minha vida. sou um retrato, miragem que o tempo dilui. Como se faltasse alguma coisa. Vejo braços que me acenam chamando-me insistentemente — CÁLICE para que, se a folha que passa passa tão de repente? A vida não tem roteiros, só velas que nos acenam CONCERTO P/ FLAUTA DE CANUDO do mar. DE MAMÃO Escuta, amiga, Vou cativar um beija-flor. o desfiar das horas: E sairemos por aí: elas te dirão é tua ele faz poesias, eu voo. é tua a vida. A NOITE DAS NOVE LUAS Toma-a (como se toma um cálice de rosas) Deixai-me com meus lírios e minhas luas. na mão. Andar é sempre a mesma luz SONETO DO AMOR PROFANO à frente. Não me consinta o amor tanta alegria, Vou explodir com os planetaspois, por não merecê-la, me constrange vou seguir a rota das galáxias o peito (já uma dor, não longe, me ai amor sussurra que este amor sem agonias estou prestes a me dissolver não há de consentir em tanta graça), no ar. eis que, perdidamente, já pressinto— e quanto, e quanto — que em amor, Mas deixai-me com meus lírios perdidos e interlúdios todos os lances, não há como obtê-lo nestes mares nunca mares calmos mares.de outro modo que não por sacrifícios / e eis que este, pois, gratuita dádiva, Deixai-me com meus lírios me chega às mãos de um modo tão e sonetos. profano, Vou explodir de luz um dia desses, que quase certo estou de que, se o amiga, um dias desses. tenho, Deixai-me com meus lírios já não o tenho por justo e dadivoso e sonetos.mas por amor que é fruto só de engano. Hás de me encontrar E não me engana um amor quando insone e louco enganoso. no meio dos trigais da inconsciência, ai, declamando CEM ANOS os versos que Van Gogh não escreveu. Vejo mãos que me folheiam Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.4 – Paraná, maio/junho de 2010.
  12. 12. 12 ARTE POÉTICA a vida é a contemplação daquela nuvem. E o mundoMeus versos são da pura essência uma forma de passar, que inventamos dos poemas inessenciais. para não ver que o mundo não é o mundo, Nada dizem de verídico mas uma nuvem não querem nada explicar. passando. Não narram o clamor dos peitos E uma nuvem passando não encaram a dor do mundo. ensina-nos mais coisas que cem pássaros mil livros um milhão de homens. Se por vezes falam alto é por puro gozo, júbilo. A vida é a contemplação daquela nuvem. E o mundo humor que brota de dentro uma forma de passar, que inventamos como se movem os astros. para não ver que o mundo não é o mundo, Eles, meus versos, são pura mas uma nuvem. floração de irresponsáveis Passando. flores nascidas nos mangues, (Cantar de amiga, 1996) por nascer — mas multicores, A ESPUMA DAS COISASlindas, não importa que os homens as conheçam ou não conheçam. A grande ilusão do insustentável. O lama e os não-desejos. (A Pura Mentira, 1982) A imensidão de um cosmos de brinquedo. O estrelejar do hoje versus TUDO QUE SOMOS o princípio. Ou o precipício. Tudo que somos, pouco sabemos. Sossega, peito meu, és só a espuma das coisas vãs gozadas uma a uma. Um poço imenso, cheio de sonhos. MNEMÓSINE REVISITADA Quando choramos, A memória do homem, coisa simples. não nos perdemos. Esquece-se de que somos esquecidos e cheios de saudades. Viver é um sonho, Saudades do que fomos e o que somos, Não esqueçamos. já esquecido em socavões de tardes. Como se hojes fossem inacabáveis Viver é a sombra, e não viessem cobri-los outros sonos. o assombro, o apenas. Ingratidão, memória, é teu nome. Tão frágeis somos! Frágeis e imensos. Tudo que somos vai virar saudade (não importa o peso, a pluma, a CONTEMPLAÇÃO DA NUVEM asperidade) de tudo que não fomos — e, eis, p/ Luis Alberto esplende. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.4 – Paraná, maio/junho de 2010.
  13. 13. 13 O ESTIOLAR DAS COISAS multifacetada, seu raio de ação inclui, além da literatura e das artes plásticas, Os sonos estão parados um sólido estudo de filosofia. Com vinte no portal do amplo oceano. e duas obras publicadas (poesia, ensaio, conto, romance, teatro), divide o resto Eis meus touros minotauros do tempo entre o amor pelos livros e a envoltos em vis novelos. música, a prática do tênis e o cultivo do ócio. E a lágrima perdida Brasileiro nasceu em 1944, em no amplíssimo deserto? Rui Barbosa, no sertão baiano, onde viveu até 1955, quando se transferiu O OFÍCIO para Salvador. Desde 1972 vive em Feira de Santana. Tem uma fazenda de No fim dos tempos, gado no Acre. É doutor em Letras pela vou estar numa casinha de palha, Universidade Federal de Minas Gerais uns livros, um lápis, [1999]. Dedicado praticante de tênis. papel almaço, a alma pura Faz ginástica e longas caminhadas e uns rabiscos pra ninguém ler, diárias. “Se eu não me cuidar, quem vai só cuidar de mim?” Seu cultivo do ócio me confessar. inclui música, leituras filosóficas, do tao e do zen, e conversas com os amigos. Ao deus dentro de mim, primeiramente. Ensina Teoria da Literatura na E a quem não interessar possa. graduação em Letras da Universidade Estadual de Feira de Santana. Mas não QUADRA faz desse ensino a exposição do que é chato, porque tem os olhos e os ouvidos Se alguém me espera? abertos para o que diz Goethe no Quem dera. Fausto: “Toda teoria é cinzenta, caro amigo. Só a verdadeira árvore da vida é Se o bonde veio? verde”. Mas cheio. Quarenta e um anos de poesia — com incursões na ficção e no ensaio — e Se ganhei na vida? 43 de pintura. Dos 22 livros que Feridas. publicou, considera como os mais importantes: Caronte [romance, 1995], Não vai dar? Deixa Antologia poética [1996], A história do estar. gato [conto, 1997], Da inutilidade da poesia [2002] e Poemas reunidos [2005]. Segundo Brasileiro "A rigor, a poesia nunca esteve “em alta”. Alguns nomes conseguem se tornar mais conhecidos, pouquíssimos ultrapassam Pintor e poeta baiano: é assim sua própria geração. Mas quantasque Antônio Brasileiro gosta de se pessoas mesmo, dessas que você vêdefinir. Mas não são essas poucas todos os dias trafegando por aí, sequerpalavras que melhor o definem. Figura ouviram falar de Drummond, nossoreferencial entre os nomes surgidos a maior poeta? E se ouviram, quantospartir doa anos 60, Antonio Brasileiro, dentre seus mil poemas conhecem?reconhecido nacionalmente pela sua Dois? Três? Isso é conhecer um poeta?produção poética, estreou na ficção com Não é só a poesia que resiste ào romance Caronte é também figura de mercantilização; há outros saberes."destaque como agitador cultural. Mente Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.4 – Paraná, maio/junho de 2010.
  14. 14. 14 “Dir-se-ia que a voz do poeta, dançarinos entediados, somos grãos defiltrada pelo sentimento do eu lírico, areia na ampulheta, sozinhos, frente àamplia-se à medida em que encontra eternidade das coisas tão perenes,ressonância no sentimento do mundo. quando a vida é apenas um susto...”(...) A inquietação de estar no mundo (Myriam Fraga)permeia esta poesia. Uma poesia Convidado oficial da I Bienalmetafísica, no sentido mesmo de Internacional de Poesia de Brasília,perplexidade frente ao mistério da participa da antologia POEMÁRIO da Iexistência, da inutilidade de todas as BIP.coisas diante do tempo que passa,inexorável, em seu eterno fluir. A ironia Fontes:como que a mascarar a angústia de http://www.antoniomiranda.com.br/saber que o canto é tão inútil e tão http://blogs.abril.com.br/lenidavidnecessário e que nesta festa de http://www.litbr.com/entrevistas-antoniobrasileiro.htm Adriana Falcão O doido da garrafa Ele não era mais doido do que as da rua e do apressada. Geralmente ficavaoutras pessoas do mundo, mas as outras uma obra-prima.pessoas do mundo insistiam em dizer que Gostava muito de observar asele era doido. pessoas na rua, do cheiro de café, de Depois que se apaixonou por uma cantar e de ouvir música. Não gostavagarrafa de plástico de se carregar na muito do fato de ter pernas, mas acaboubicicleta e passou a andar sempre com se acostumando com elas. De cabelo eleela pendurada na cintura, virou o Doido gostava. Em compensação, tinhada Garrafa. verdadeiro horror a multidão, bermudão, O Doido da Garrafa fazia tubarão, ladrão, camburão, bajulação,passarinhos de papel como ninguém, mas afetação, dança de salão, falta deera especialista mesmo em construir educação e à palavra bife.barquinhos com palitos. Batizava cada Escrevia cartas para ninguém,barco com um nome de mulher e, umas em prosa, outras em poesia, comoenquanto estava trabalhando nele, morria mero exercício de estilo.de amores pela dona imaginária do nome. Tinha mania de dar entrevistasDepois ia esquecendo uma por uma, para o vento e já sabia a resposta detodas elas, com exceção de Olívia, uma qualquer pergunta que porventuranau antiga que levou dezessete dias para alguém pudesse lhe fazer um dia.ser construída. Ajudava o dicionário a explicar as Batucava muito bem e vivia coisas inventando palavras necessárias,inventando, de improviso, músicas como dorinfinita.especialmente compostas para toda e Adorava álgebra, mas tinhaqualquer finalidade, nos mais variados particular antipatia por trigonometria, poisgêneros. Uai aí aquela da mulher de blusa não encontrava nenhum motivo para severde atravessando a rua apressada, e o pegar pedaços de triângulos e fazerDoido da Garrafa imediatamente contas tão difíceis com eles.compunha um samba, uma valsa, um Conhecia mitologia a fundo.rock, um rap, um blues, dependendo da Tinha angústia matinal, umamulher de blusa verde, do atravessando, depressão no meio da tarde que ele Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.4 – Paraná, maio/junho de 2010.
  15. 15. 15chamava de cinco horas, porque era a suicidou e a mãe, um tempo depois,hora que ela aparecia, e uma insônia tomou uma dose fatal de comprimidoscrônica a quem chamava carinhosamente para dormir.de Proserpina. Formada em Arquitetura, logo Sentia uma paixão azul dentro do após formar-se voltou para o Rio depeito, desde criança, sempre que olhava Janeiro junto com João Falcão, seuo mar e orgulhava-se muito disso. marido, que se mudou para lá a fim de Acreditava no amor, mas tinha fazer teatro. Lá começou a escrever osvergonha da frase. diálogos, e os atores começaram a Às vezes falava sozinho, Preferia gostar de seus diálogos e a usá-los nastristeza à agonia. peças. Nunca exerceu a profissão de Todas as noites, entre oito e dez e arquiteta, pois logo descobriu suameia, era visto andando de um lado para vocação para a literatura.o outro da rua, método que tinha Seu primeiro livro, voltado parainventado para acabar de vez com a o público infantil, "Mania depreocupação de fazer a volta de repente, Explicação", teve duas indicações para oquando achava que já tinha andado o Prêmio Jabuti/2001 e recebeu o Prêmiosuficiente. (Preferia que ninguém Ofélia Fontes — "O Melhor para apercebesse que ele não tinha para onde Criança"/2001, da Fundação Nacionalir.) Enquanto andava, repetia dentro da do Livro Infantil e Juvenil. Em 2002,cabeça incessantemente a palavra publicou "Luna Clara & Apolo Onze",ecumênico sem ter a menor idéia da seu primeiro romance juvenil. Seurazão pela qual fazia isso. romance "A Máquina" foi levado aos Durante o dia o Doido da Garrafa palcos por João Falcão. Na televisão,trabalhava numa multinacional, era Adriana colaborou em vários episódiossujeito bem visto, supervisor de de "A Comédia da Vida Privada",departamento, ganhava um bom salário e "Brasil Legal" e "A grande família",gratificações que entregava para a mulher todos da Rede Globo. Adaptou, comaplicar em fundos de investimento. Guel Arraes, "O Auto da Compadecida", No fim do ano ia trocar de carro. de Ariano Suassuna, para a TV, Era excelente chefe de família. posteriormente levado ao cinema. Não era mais doido do que as Outros livros da escritora:outras pessoas do mundo, mas sempre “Pequeno dicionário de palavras aoque ele passava as outras pessoas do vento” (2003); “A tampa do céu” (2005)-mundo pensavam, lá vai o Doido da ilustrações de Ivan Zigg e, em conjuntoGarrafa, e assim se esqueciam das suas com outros escritores,”Histórias dospróprias garrafas um pouquinho. tempos de escola: Memória e aprendizado” (2002); “Contos de estimação” (2003); “A comédia dos anjos” (2004); “PS Beijei” (2004); “Contos de escola” (2005); “O Zodíaco – Doze signos, doze histórias” (2005); “Tarja preta” (2005); "Sonho de uma noite de verão" (2007) e "Sete históriasSolidão é uma ilha com saudade de para contar" (2008).barco(Adriana Falcão) Fontes: http://www.releituras.com.br/ Roteirista e escritora brasileira. http://pt.wikipedia.org/Nasceu no Rio de Janeiro, e mudou-se http://www.pensador.info/para Recife aos 11 anos de idade. Teve FALCÃO, Adriana. O doido da garrafa. SP: Ed. Planetauma história de vida trágica: o pai do Brasil, 2003. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.4 – Paraná, maio/junho de 2010.
  16. 16. 16 Aquarela de Trovas Num tempo em que tanta guerra O meu sonho é que na terra enche o mundo de terror, as guerras cheguem ao fim benditos os que na Terra, e todo o campo de guerra semeiam versos de Amor! se transforme num Jardim... (A.A de Assis - PR) (lzo Goldman - São Paulo) As trovas são diamantes A morte é como a partida, que certo ourives, um dia, pela porta da saudade... com suas mãos operantes, Que se fecha para a vida cravou no anel da poesia. e se abre pra eternidade... (Giselda Medeiros - CE) (Emílio Leão de Mattos Sounis – Paraná) Tenho andado esquecido tão esquecido estou Haveria paz na terra, que esqueço se tenho ido não seria a vida inquieta, se estou vindo ou se vou de a criança em vez de guerra, (Silmar Bohrer - SC) brincasse de ser poeta (Luiz Otávio 1916-1977) João Cirino Gomes Floresta Encantada Os moradores da floresta - Não sei, mas vamos ver -encantada viviam em festa e fantasia. respondeu Douradinho. Cascudinho e Douradinho eram Em seguida, viram a dona Anta, edois peixinhos, e moravam em um suas duas filhas, Antônia e Antonieta que seriacho que cortava a floresta. aproximavam... Depois de saciarem a sede, Naquela tarde ensolarada os elas se sentaram na relva e se puseram adois amiguinhos brincavam de pular. conversar. Douradinho se dizia campeão de Em dado momento, Antônia pediu: -salto em altura. Como Cascudinho não Mamãe; conta àquela estória do meninoqueria ficar atrás, começou a disputa. que era desobediente? A cada pulo olhavam pra fora da - É mesmo mamãe! - Concordou suaágua, apostando quem enxergava mais irmã Antonieta toda empolgada.longe. Depois de algumas insistências, Na volta diziam o que tinham dona Anta começou: - Era uma vez umvisto. garoto branquinho, que morava com sua Depois de vários saltos, mãe na floresta. A mulher era muitoDouradinho voltou com a novidade. bondosa, mas seu filho se tornou um - Esta chegando alguém. peralta. João de Barro é quem o diga. O - Quem será? - Perguntou garoto vivia o perseguindo.Cascudinho que era curioso. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.4 – Paraná, maio/junho de 2010.
  17. 17. 17 Dona Sabiá também não tinha ***sossego, e já estava magra de tanto - Mamãe agora conta àquela estóriafugir das pedradas do menino. Com sua do bicho papão? - Pediu Antonieta.perversidade o malvado tirava a paz de - Vamos para casa, pois já estatodos os moradores da floresta. Muitas ficando tarde. Amanhã eu conto - concluiuvezes o garoto tentou derrubar a dona anta, e saiu, sendo seguida por suascasinha, que João de barro construíra filhas.com sacrifício. Os dois amiguinhos também se Sua maior magoa, era ver João despediram.de barro e Joaninha cantarem felizes da E quando iam se afastando,vida, sobre os galhos da paineira. apareceu "Odoro", tio de Douradinho, que Certa tarde, depois de muito chegava para fazer uma visita a sua irmãmatutar, o menino resolveu que Dorotéia.acabaria com aquela alegria. Escondido - Ao avistar o sobrinho, Odoroda mãe pegou um tição no fogão, e foi perguntou: - Que você esta fazendo atépara a floresta. estas horas longe de casa menino? Todo empolgado juntou um - Tio eu e meu amigo Cascudinhomonte de folhas, e acendeu uma estávamos ouvindo a dona Anta contar afogueira junto ao tronco da paineira, estória de um menino muito levado, que seonde morava João de barro. chama Saci Pererê. Ele era malvado, e não - Eles vão ver comigo - dizia o obedecia a sua mãe, e talvez por isso tenhaperverso, esfregando a mão de recebido um castigo.contentamento. - Quando eu era jovem, ouvi falar Deitou-se na relva, e ficou deste menino - disse Odoro.olhando para o alto, esperando o - O que você ouviu titio?resultado da sua perversidade. Mas - Vamos pra casa, chegando lá eupegou no sono, e as chamas conto.começaram a se alastrar. Então Douradinho abanou a cauda João de barro e Juaninha mais rapidamente, e devido a sua grandepercebendo o perigo; cantavam curiosidade pediu: - O tio vai contando pelotentando desperta-lo, mas nada do caminho! - Fique calmo guri, eu vou contar,menino acordar. agora ande vamos! Quando as chamas lamberam Nem bem entraram por entre asseu calcanhar, ele se levantou e pensou pedras, onde morava Dorotéia, e o garotoem fugir, porem já era tarde... já estava ao lado do tio, pedindo ansioso: -Desesperado tentou subir na arvore Agora conta!para se livrar das labaredas. Quando se Diante da insistência, Odoroagarrou em um galho foi ao chão e começou a narrativa.quebrou a perna. Então aumentou seu - Certa tarde eu nadava na maiordesespero; não conseguia se levantar, tranqüilidade, quando notei dois pescadorese começou a gritar. se aproximando em uma canoa. Tanto gritou que sua mãe veio Ao invés de prestarem atenção noao seu socorro. que estavam fazendo, eles remavam Depois de enfrentar as chamas, distraidamente, conversandoa bondosa senhora o pegou no colo, e animadamente.o levou para a casa. Eu aproveitei estas distrações, e tirei Mas o malvado tinha se a isca do anzol deles por varias vezes. Masqueimado, e estava pretinho como um não querendo abusar da sorte, e já decarvão. barriga cheia, fiquei ouvindo suas Desde então, ganhou o apelido conversas.de Saci Perere. O mais velho disse: Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.4 – Paraná, maio/junho de 2010.
  18. 18. 18 - Este riacho me parece Chegando a sua casa debulhou oencantado, em todo lugar que vou milho e colocou na panela. Pegou seupescar, nunca perco uma fisgada, cachimbo encheu de fumo, e o deixou sobrequando puxo sai uma lasca de um o fogão.peixão, e aqui já puxei varias vezes; Deitou-se na rede, e ficou ali comperdi varias iscas e não peguei nada. um olho fechado e o outro aberto, fingindo - Como assim encantado? - que cochilava.Perguntou o pescador mais novo, ao Logo escutou um assobio. Emcontador de prosa, que usava um poucos instantes um menino pretinhochapelão de palha. chegou pulando numa perna só. Entrou - Rapaz, eu tenho um compadre porta adentro e foi direto ao fogão. Encheuchamado Bentinho, que cuida de uma a mão de pipoca, e levou a boca. Lambeuroça pra estas bandas, - disse o velho. os beiços, e despejou o restante da pipoca Certa vez ele me contou, que dentro da toca.quando voltava do trabalho, resolveu Depois pegou uma brasa colocou nopegar umas espigas de milho. cachimbo, deu uma baforada e saiu.Chegando a casa debulhou o milho e Já no terreiro, deu uma gargalhadacolocou numa panela. Em seguida e sumiu.encheu o cachimbo com um fumo que - Então é isso seu safado? - pensouele mesmo cultivava, e começou a meu compadre.meditar: Eu estouro pipoca; você vem e - Depois de comer um punhado come, fuma meu cachimbo, e ainda saide pipoca, dou uma tragada no meu dando risada?cachimbo e vou descansar. - Há, mas eu vou te dar uma lição; Com estes pensamentos, deitou- vou sim, pode esperar seu danado!-Dissese na rede e ficou balançando, meu compadre; que estava bravo feito umaesperando a pipoca estralar. onça. E como estava cansado, meu No dia seguinte, fez à mesma coisa,compadre adormeceu. escolheu três rechonchudas espigas de Quando acordou, foi até o milho, com belas cabeleiras ruivas, e foifogão, e notou que não havia nenhum para casa.grão de pipoca na panela. Então ele Lá chegando, debulhou o milho eficou cismado. colocou na panela. Pegou seu cachimbo, e nele Só que ao invés de por fumo notambém não tinha fumo. cachimbo, colocou pólvora. Deitou - se na - Eu não lembro de ter fumado, rede, e ficou fingindo que cochilava...- pensou ele. Não demorou muito ouviu o assobio, Olhou para um canto, olhou logo o pretinho entrou sorridente pulandopara o outro, coçou a cabeça, e numa perna só. Foi para o fogão,perguntou a si mesmo, - será que estou experimentou um punhado de pipoca ecaducando? Não pode ser; também não despejou novamente o restante dentro dacomi pipoca, e tenho certeza que eu toca. Pegou o cachimbo, e quando otrouxe milho. A maior prova disso são ascendeu e deu uma tragada, a pólvora seas palhas que estão aqui! incendiou e, bumm! Naquela noite meu compadre Com a explosão, e a fumaceira, oficou matutando até tarde. Saci tomou um susto e caiu de costas. No dia seguinte foi para a roça, Meu compadre deu um grito, e sóe trabalhou o dia todo pensativo. viu o vulto que se engatinhou por baixo da À tarde quando saiu do rede e fugiu.trabalho, olhou para o milharal, e Bentinho foi até a porta e gritou: -pegou outras espigas. Viu seu safado, quem ri por ultimo ri melhor! Em seguida deu uma gargalhada e Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.4 – Paraná, maio/junho de 2010.
  19. 19. 19retornou para dentro da casa ainda E o bicho papão desiludido, virouenfumaçada. uma fera. Quando já se deitava na rede, Chamou o Bicho Preguiça de lerdo,notou que na sua pressa, o Saci tinha de irresponsável... E o Bicho Preguiçaesquecido a toca cheia de pipoca. chateado com as ofensas respondeu: O dia seguinte amanheceu - Se você ficar me criticando, e mefazendo muito frio, e Bentinho resolveu apressando; eu não vou entregar droga dedormir até mais tarde. convite nenhum. Assim que o sol começou a Então o Bicho Papão se afastousurgir, escutou um choro. resmungando, mas não desistiu. Saiu para o quintal, e viu o saci No dia seguinte, resolveu organizarchorando. uma nova festa. - Porque chora seu peralta? - Desta vez, o macaco que era maisPerguntou Bentinho. ágil, é quem iria entregar os convites. -É que eu estou com muito frio. Só tinha um inconveniente,Por favor, seu moço me devolva minha precisavam de um barco, pois a festançatoca. Sem ela eu não tenho magia. seria em uma ilha. - Então você esta querendo a E os animais da floresta, semtoca de volta, para continuar desconfiar das intenções do Bicho Papão,aprontando das suas em? começaram a trabalhar na construção do - Não seu moço, eu prometo barco.não fazer mais artes. No dia da festa, o Pavão apareceu - Se for assim eu devolvo. todo empolgado com sua plumagem Depois de colocar a toca na colorida.cabeça, o Saci agradeceu e se foi. Daí O Coelho e dona Coelha, davamem diante ninguém mais ouviu falar saltos de alegria.nele! Todos entraram no barco e seguiram *** em direção a ilha. - Tio, amanhã a dona Anta vai A festa estava animada.... Acontar uma estória do bicho papão, bicharada dançava, pulava e batia palmas.será que ele existe mesmo? O macaco batucava, a cigarra - Já faz muito tempo que não chiava, a coruja cantava e tocava sanfona,ouço falar nele! - Respondeu Odoro. e o bode corria entre os convidados, - Há muito tempo atrás, o rei fazendo a maior farra.Leão autorizou o Bicho Papão comer E o Bicho Papão em um canto,todas as crianças desobedientes. Matutava: Com medo do Bicho Papão, as - Vou embebedar a todos... Assimcrianças se tornaram boas, e não será mais fácil come-los!desobedeciam mais seus pais. O Gambá foi o primeiro a ficar Desta forma aconteceu que o bêbado, e queria brigar com o Tatu.Bicho Papão ficou sem alimentação, Então Bicho Papão apartou a briga epois o rei tinha autorizado ele comer disse:somente as crianças teimosas. - Eu levarei o compadre ao riu para Com fome; Bicho Papão que era se refrescar. Abraçou-se ao Gambá e secheio de astúcia, resolveu fazer uma afastaram. - Este é o primeiro que voufesta. Sua intenção era convidar todos comer, - pensou ele.os animais, e come-los um a um. Assim que chegaram ao rio, viu que O Bicho Preguiça ficou tanto ele quanto o Gambá estavamincumbido de entregar os convites. fedendo. Quando chegou o dia da festa, Por mais que o esfregasse aquelenenhum convite ainda tinha sido mau cheiro persistia. Varias vezes tentouentregue. engolir o gambá, chegou até a tapar o Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.4 – Paraná, maio/junho de 2010.
  20. 20. 20nariz, mas quando se aproximava com - Não diga! E como eu fareia boca aberta, sentia o fedor, fazia compadre? Eu não quero ser levado peloânsia e se afastava. vento! - Disse o Bicho Papão temeroso. Depois de muito tempo dentro - Nós vamos nos amarrar nasda água gelada, o bicho papão arvores! - Informou o macaco.começou a espirrar. - Atichim... - E o compadre pode me amarrar?-Atichim... Revoltado, e com fome, Perguntou o Bicho Papão.abandonou o bêbado em um canto, e - Sim! Só que você será o ultimo! -decidiu voltar para o baile. Falou o macaco, que era muito maroto. Antes, porem, resolveu soltar o - Eu sendo o dono da festa, tenho obarco na correnteza. direito de ser amarrado primeiro! - Enquanto desamarrava o barco Questionou o Bicho Papão.dizia: - Agora ninguém mais sai daqui. - Então vamos consultar osE quando eu sarar desta gripe, vou convidados, - disse o macaco. - Se todoscomer todos, um após o outro. estiverem de acordo, faremos a sua Mas o Pavão que estava de vontade!ressaca, foi beber água no rio. Ao ouvir Só tem um inconveniente,o que o bicho papão dizia, voltou precisamos de um cipó bem forte.voando para a festa, e lá chegando -Pode deixar que eu pego o cipó! -contou para bicharada o que tinha visto Falou o bicho papão.e ouvido. Entrou na floresta, e logo retornou De madrugada a coruja com uma braçada de cipó.começou a cantar um estranho refrão: Então os animais amarraram o Bicho - Coitado de quem não sabe? Papão em um tronco, e lhe deram uma E a bicharada respondia: - Ainda surra com vara de marmelo.bem que estou sabendo! Depois jogaram o tronco na E o refrão continuava. - Coitado correnteza.de quem não sabe...! - Ainda bem que E o Bicho Papão se foi rio abaixo.estou sabendo... Se ainda existe não sei. Mas que - Atichim... Que musica é esta? - existiu, existiu! Isso eu falo e afirmo! - DissePerguntou o Bicho Papão. Odoro. - Então o compadre não sabe? -Vem vindo um temporal ai, e o vento Fontes:vai levar tudo pelos ares - respondeu o Colaboração do autor.macaco. http://www.autores.com.br/ Vânia Maria Souza Ennes (Paraná em Trovas)artigo por José Feldman Em 19 de junho de 2010, em um edição, ocasião esta que tive a honra dejantar integrante das festividades dos conhecer pessoalmente esta trovadora,Jogos Florais de Curitiba, a presidente da plagiando a definição do irmão trovadorUnião Brasileira dos Trovadores do maringaense Assis, "encantadora".Paraná, Vãnia Maria Souza Ennes realizouuma noite de autógrafos, ao lançar o seu Encantada olho os pinheiros,livro Paraná em trovas, em sua 3a. Formosos! Iguais? não há. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.4 – Paraná, maio/junho de 2010.
  21. 21. 21 Dos poetas são os parceiros De saudades de você… que versam o Paraná. NEIDE ROCHA PORTUGAL (Bandeirantes) (VÃNIA M. S. ENNES) Ao Paraná, imagino, dentro da graça altaneira, Vânia Ennes, filha do Paraná, o pinheiro é como o Hinocomo uma regente que comanda a sua ou como a própria Bandeira.orquestra, sob o movimento de sua FERNANDO VASCONCELLOS (Pontabatuta faz com que nos embriaguemos Grossa)em instantes de pura emoção. Atravésdas trovas contidas no livro vivemos osacordes dos noturnos de Chopin, a Mas, Vânia não pára por aí. SeuPastoral de Beethoven, a Cavalgada das livro é uma Arca de Noé que carregaValquírias de Wagner, a Marcha Triunfal, todos que estão em seu caminho,da Aída, de Verdi. Sejam nas trovas, ou Pernambuco, Minas Gerais, Rio demesmo em textos de sua lavratura, Janeiro, São Paulo, etc. e mesmo outrospodemos sentir a beleza que há no países como Estados Unidos, Portugal,mundo que nos rodeia. Sempre otimista, Panamá, México, e outros, famosos eessas trovas são o nascer do sol em toda nem tão famosos.a sua magnitude, o cantar dospassarinhos ao despontar da aurora, é o Como já dizia a poetisa norte-dia morno a nos aquecer o coração, é o americana Emily Dickinson (1830-1886)final da tarde quando muitos de nós após “Não há melhor fragata que um livro paraum dia intenso de trabalho nos sentamos nos levar a terras distantes”, e Vâniana varanda a saborear um tererê ou comanda esta fragata por este Brasilchimarrão. É a noite, não a escuridão, imenso levando os trovadores nestanão a tristeza que muitos buscam nela, viagem e trazendo até nós toda estamas uma noite onde ela descortina uma paisagem exuberante, vencendolua brilhante envolvida por um véu de fronteiras nacionais e internacionais,estrelas. carregando a bandeira desfraldada da Trova “por mares nunca dantes Quando sopra o vento sul, navegados”. a trova viaja e vai fundo. Seu caminho é o céu azul… O livro possui em seu bojo cerca Espalha-se pelo mundo! de 400 trovas. Trovadores do Paraná, de (VÂNIA M. S. ENNES) outros Estados do Brasil, de outros Países e de trovadores já falecidos que imortalizam as suas trovas nesta obra. Paraná em trovas é um livro, onde Nomes do quilate de, além da autora,esta fantástica trovadora reúne Antonio Augusto de Assis, Amália Max,trovadores paranaenses que deixam a sua Dinair Leite, Gerson Cesar Souza, Josémarca no livro da história de nossa Westphalen Corrêa, Lairton Trovão deliteratura tão vasta. Por seu intermédio Andrade, Fernando Pessoa, Carlosmostra que neste estado verdejante, de Drummond, Mario Quintana, Joséterra vermelha, existe um povo que sabe Ouverney, Glédis Tissot, entre tantoscantar os seus momentos de emoção, outros.com todo sentimento que pode sercontido em uma trovinha de quatro Como ela mesma diz “saber viverversos setessilábica. é saber quebrar as durezas normais da existência, ao conseguir enxergá-las com Vem trovador, vem correndo, os olhos da alma e da serenidade de ao meu Paraná, porque espírito.” É assim que é Vânia, tranquila O Pinheiro está morrendo… cativando com seu sorriso a todos que Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.4 – Paraná, maio/junho de 2010.
  22. 22. 22estão em seu caminho. É a voz de nosso LUPICÍNIO RODRIGUES – Portoquerido Paraná, é a voz do Brasil. Alegre/RS--------------------------------- Tudo muda, tudo passa,A seguir algumas das trovas de seu livro Neste mundo de ilusão: Vai para o céu a fumaça, Que a amizade não se meça Fica na terra o carvão. por sorrisos e elogios, GUILHERME DE ALMEIDA – Campinas/SP mas por ser, sem que se peça, o sol em dias sombrios. Diz uma lenda tinguiDOMINGOS FREIRE CARDOSO – Portugal que Tupã, Deus dos guerreiros, enterrando a lança aqui O poeta é um fingidor. fez nascer muitos pinheiros… finge tão completamente HARLEY CLÓVIS STOCCHERO – que chega a fingir que é dor, Curitiba/PR a dor que deveras sente. FERNANDO PESSOA – Portugal Pescador, pensa, avalia… e diga se ainda crê Linda musa brasileña na graça da pescaria, llena de amor y bondad se o peixe fosse você… eres princesa risueña HERIBALDO BARROSO – Acari/RN que me da felicidad. ___________ JOSELITO FERNÁNDEZ TAPIA – Perú Fonte: – ENNES, Vânia Maria Souza (organizadora). Paraná Este é o exemplo que damos em Trovas: Seleção de Trovas. 3a. Edição revisada e aos jovens recém-casados: ampliada. Curitiba: ABRALI, 2009. que é melhor se brigar juntos – Comentário: José Feldman do que chorar separados! O. Henry Memórias de um Cachorro Amarelo Não creio que a nenhum de vós num canto sobre um velho vestido deincomode ler o que diz um cão. Kipling e cetim: o mesmo em que a dona derramoumuitos outros demonstraram que os vinho do Porto, em banquete oferecidoanimais podem expressar-se num inglês por Senhora Longshoremen.sofrível e, hoje em dia, não se imprime Vim ao mundo como umrevista alguma que não publique a cachorrinho amarelo. A data, local,história de um animal; somente as genealogia e peso me são desconhecidos.revistas mensais de feição antiga O que primeiro me recordo é que umacontinuam pintando os horrores de Bryan velha me tinha metido numa cesta, e quee Monte Pelado. estava em entendimentos de me vender a Entretanto, não deveis procurar uma robusta dama da Broadway.aqui literatura aborrecida, como a do A velha, mamãe Hubard,urso, do tigre ou da serpente da selva enaltecia-me, dizendo que eu era um fox-antilhana. Pode-se esperar qualquer terrier da Pomerânia - hambletoniano -surpresa de um cachorro amarelo que irlandês roxo - Conchinchina - Stoke -passou a maior parte de sua vida num Pogis.sobrado barato de Nova Iorque, dormindo Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.4 – Paraná, maio/junho de 2010.
  23. 23. 23 A dama gorducha esgravatou casariam! Laura não fazia mais do queentre amostras de moleton que levava em comer bombons e tomar sorvetes desua bolsa até que encontrou uma nota de amêndoa, falar com o orchateiro durantecinco, e entregou-lha. Desde aquele meia hora, ler um maço de cartas antigas,momento fui o favorito mimado da dama comer uns quantos picles, beber duasgorducha. Diga-me, gentil leitor: alguma garrafas de cerveja maltada e passar asvez em tua vida, uma gorducha de 200 horas mortas olhando para o andar dalibras de peso, de hálito misto de queijo frente através de um buraco feito naCamembert e couro te levantou no ar e cortina. Vinte minutos antes da hora embamboleou, enquanto esfregava teu que o marido devia regressar do trabalho,corpo com o nariz, dizendo ao mesmo começava ela a pôr tudo em ordem,tempo palavrinhas como: Amor! Encanto! inclusive sua dentadura postiça, e tiravaRiqueza! etc.? uma porção de roupa a fim de passá-la De cachorrinho amarelo de raça em dez minutos.fui crescendo até me converter num cão Eu, naquela casa, levava uma vidaamarelo vira-latas, parecendo descender de cachorro. A maior parte do diado cruzamento de gato angorá com caixa passava deitado no meu canto,de limões. Porém, minha dona jamais observando como a gorducha matava ohesitou: sempre imaginou que os dois tempo. Algumas vezes dormia, e sonhavaprimitivos cães que Noé meteu na arca que perseguia gatos até fazê-lospertenciam a um ramo colateral de meus desaparecer nos portões, e que rosnava aantecessores. Fiz com que dois guardas todas as velhas que usavam luvas negrasimpedissem que minha proprietária me com os dedos de fora: coisas próprias deapresentasse no jardim do Madison um cachorro. Depois, a dona me davaSquare para que eu concorresse ao palmadinhas com melosa bajulação e meprêmio dos podengos siberianos. beijava no focinho. Porém, que podia eu Vou contar algo a respeito daquele fazer? Um cachorro não pode comerpavimento. A casa era como o são pedra.ordinariamente em NY: de mármore no Comecei a compadecer-me deporão e seixos nos pavimentos Hubby, o marido; pareciamo-nos tanto,superiores. Ao nosso, era preciso trepar que a gente o manifestava quandoao invés de ascender. Minha dona o saíamos juntos. Em amável companhiaalugou desmobiliado, e instalou nele uma visitávamos as ruas que percorre o carroantiga sala de estar estofada, de 1903, de Morgan, e pisávamos as últimas nevesumas gravuras a óleo com gueixas numa que dezembro deixava nas vielascasa de chá, plantas artificiais e o marido. habitadas pela gente pobre. Eis um bípede que me causava Uma noite, quando passeávamostristeza! Era um homem pequeno, de assim, enquanto procurava adotar acabelos amarelados como os meus. Era aparência de um são-bernardo premiadoum dominado, um boneco que enxugava e meu amo tratava de parecer uma louça e escutava a mulher falar mal da homem incapaz de assassinar o primeirovizinha do segundo, de quem dizia que organista que executou a marcha nupcialusava capa de peles de esquilo mas que a de Mendelssohn, levantei para ele aroupa interior era barata e esfarrapada e cabeça e disse-lhe, a meu modo:tinha a ousadia de exibi-la, pendurando-a - Por que tendes esse gesto dea secar. E todas as noites, enquanto ela amargura? Ela não vos beija. Não tendesceava, fazia com que o esposo me que sentar-vos sobre seu regaço nemlevasse a passeio, amarrado à ponta de escutar sua tagarelice, essa tagareliceuma corda. capaz de fazer que a letra duma opereta Se os homens soubessem como pareça o livro de máximas de Epíteto.passam o tempo as mulheres quando Deveis agradecer por não seres umestão sozinhas em casa, nunca se cachorro. Dai o fora na melancolia. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.4 – Paraná, maio/junho de 2010.
  24. 24. 24 Aquela infelicidade conjugal Num lugar tranqüilo de certa rua,desceu até mim os olhos, quase com soltei a corda de meu guardião em frenteinteligência canina em seu semblante. a uma atraente e refinada taberna. - Que há, cachorrinho? Olha-me Empurrei com a cabeça as portas,como se fosses capaz de falar. Que é que ladrando como um cão que avisahá? Gatos? urgentemente à família que a pequena E claro que não podia Alice caiu ao arroio quando estavacompreender-me. Aos humanos é vedada colhendo flores.a linguagem dos animais. O único terreno - Ou estou cego, disse meu amo,comum de comunicações em que homens fazendo um muxoxo - ou este bicho mee cachorros estão de acordo é o da está dizendo que tome um gole. Háficção. quanto tempo não gasto as solas dos No andar em frente ao nosso meus sapatos pisando o chão destesmorava uma dona que tinha um fox- estabelecimentos! Se...terrier com manchas negras e marrons. O Vi que era meu. Tomou assento amarido daquela senhora punha-lhe a uma mesa e serviram-lhe uísque quente.corrente e levava-o a passear também Ali esteve uma hora tomando goles.todas as noites, mas sempre regressava a Permaneci ao seu lado, batendo com acasa satisfeito e assobiando. Um dia cauda para que o empregado acudisse,juntei meu focinho com o do fox-terrier comendo uma rica merenda, jamaismalhado e pedi-lhe que fizesse um igualada pelos condimentos caseiros queesclarecimento. mamãe Hubbard comprava numa - Escuta - disse-lhe eu - já sabes tendinha oito minutos antes de papaique é coisa imprópria de verdadeiros chegar em casa.homens fazer o papel de ama-seca com Quando se esgotaram os produtosum cachorro em público. Eu nunca vi um da Escócia, exceto o pão de centeio, oque, indo com o cachorro, não pareça velho me desamarrou da perna da mesasenão querer bater em quantos olham e tirou-me dali como um pescador tira ospara ele. Porém teu amo volta a casa salmões. Já fora da casa, arrancou-me atodos os dias tão galhardo e bem posto coleira e atirou-a a rua.como um prestidigitador diletante que - Pobre cachorrinho! Já não tefizesse o truque do ovo. Como faz isso? beijará mais essa sem-vergonha! Vai-te,Não me venhas dizer que lhe agrada. cachorrinho! Corre, e sê feliz! - Ele - respondeu o fox-terrier - Não quis abandoná-lo e comecei ausa o Próprio Remédio da Natureza. traquinar e pular em volta dele, contenteQuando saímos de casa é tímido como como um luluzinho sobre um tapete.um coelho. Mas depois de termos - Mas não vês, cabeça de bobo,passado por umas oito tavernas, tanto se imbecil, que não quero deixar-te? Nãolhe dá que o que leva na extremidade da compreendes que ambos somos oscorrente seja um cachorro ou um peixe. meninos perdidos no bosque e que tuaJá perdi duas polegadas de cauda entre mulher é o tio cruel, que nos persegue, aas portas de vaivém desses ti, com o pano de cozinha e a mim, com aestabelecimentos. pomada para matar pulgas e a fita Pus-me a meditar sobre o que me encarnada para me enfeitar a cauda? Pordisse o fox-terrier. que não cortas de uma vez essas coisas Uma tarde, lá pelas seis horas, pela raiz e seremos camaradas toda aminha ama ordenou ao seu marido que vida?desse banho em seu Amante. Ocultei até Direis talvez que não meagora meu nome, porém era assim que compreenderia; talvez assim fosse. Maseu me chamava. Aquele nome era para ficou pensativo um pouco, ereto, apesarmim uma espécie de lata amarrada ao dos goles que levava no corpo, e disse-rabo do meu próprio respeito. me: Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.4 – Paraná, maio/junho de 2010.

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