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Organizações em Rede. Como são e como funcionam

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Livro de Geraldo Aguiar sobre as organizações em rede. Como são e como funciona.
enfoque crítico abrangente das relações que se dão no sistema mundo do capitalismo, no atual processo de globalização e de crise sistêmica, com atenção especial às relações empresariais em rede ou das organizações reticulares. De forma coloquial e didática expõe os conceitos e princípios básicos das empresas de transposição de fronteiras (TEAMNETs) com vistas a seus funcionamentos.

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Organizações em Rede. Como são e como funcionam

  1. 1. 2CONTRA-CAPA ORGANIZAÇÕES EM REDE Este livro apresenta um enfoque crítico abrangente dasrelações que se dão no sistema mundo do capitalismo, no atualprocesso de globalização, com atenção especial às relaçõesempresariais em rede ou das organizações reticulares. Deforma coloquial e didática expõe os conceitos e princípiosbásicos das empresas de transposição de fronteiras(TEAMNETs) com vistas a seus funcionamentos. Sob essa ótica,investiga, os fundamentos do direito comercial internacional, dosarranjos produtivos locais no fluir das organizações em rede,inclusive a tendência dos estados nacionais inserirem-se nosmegablocos econômicos tanto de integração quanto de livrecomércio. Busca, também, abrir espaço para o conteúdopedagógico, como disciplina, nos cursos de Comércio Exterior,Administração, Ciências Econômicas, Direito, RelaçõesInternacionais, Marketing e Negociações Internacionais nasescolas de nível superior e de pós-graduação no Brasil.
  2. 2. 3 Página reservada para: Logotipo da editora Código de barras Catalogação-na-fonte CDD CDU ISBN em solicitação. O livro encontra-se no prelo paraedição em 2007.
  3. 3. 4 AGRADECIMENTOS Externo aqui meus agradecimentos à minha esposaMauricéa Marta Bezerra Wanderley por ter me estimulado aser prudente e objetivo na importante, delicada e divertida tarefade transmitir conhecimento em sala de aula e ensaios escritos deforma a que o ledor não apenas seja receptor, mas,principalmente, produtor de conhecimento a partir de umaconsciência crítica abrangente. A minha querida sogra JosemiraBezerra Pontes pelo carinho, atenção e dedicação ao autor efamília. A Josemir Geraldo Bezerra pela excelência de seucaráter e solidariedade. Meus filhos: Eugênio, Milena, Tiago eLucas, também, são razões dessa minha novel tarefa de educador.A eles e a Marta dedico o livro. Fabrício Azevedo (esposo daminha querida linda flor gentil singela Milena) fica explícitosmeus agradecimentos pela sua atenção e estima. Meus netosThaís, Andrei e Ian Victor com todo meu carinho. A Tiago,agradeço o cuidado, a formatação e a atenção na digitação detodo o texto deste ensaio. Ao Pastor e amigo Anunciado peloincentivo e a decisão de colaborar na edição e ajudar na indicaçãoda editoração do livro. Ao professor Ericê por ter acreditado eprestigiado nossas idéias como conteúdo programático de umadisciplina no Curso de Comércio Exterior. A Lourdes Leite pelaalegria e incentivos. Externo, também, meus agradecimentos aosmeus alunos, das diferentes instituições, com destaques paraCristina Ferreira, Saulo Farias, Neide Kakakis, Luiz Moura,Roberto Tiné, Adriana Galantini, Antônio Farias e outros quemuito me incentivaram a publicar este livro. São dignos denossos agradecimentos todos os “dowline” da rede de MartaWanderley e seus “upline” Magaly Abreu e Pedro Cardoso.Fico no aguardo de suas lúcidas críticas. O autor
  4. 4. 5 PRÉFACIO A publicação do presente livro se deu pela inspiração deum artigo na Gazeta Mercantil de 18/08/2005 escrito por SérgioBuaiz membro do Comitê de Relações Acadêmicas daAssociação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas (ABEVD)e Diretor da Chance Network intitulado “Crescimento das vendasdiretas”. Ao ler e mostrar-me aquele texto Geraldo externou suavontade e seu projeto de juntar e reelaborar várias anotações desuas aulas e palestras (proferidas em diferentes instituições deensino ou não) sobre organizações em rede ou reticular parareacender esse termo usado por Peter Drucker em“Administrando em tempos de grandes mudanças”. Naquele artigo, o Dr. Buaiz buscava “uma aproximaçãomais efetiva com as principais instituições de ensino do País,com a intenção de incentivar a criação de uma cadeira de vendasdiretas ou mesmo pós-graduação nas faculdades deadministração de empresas”. Como lido com vendas diretas em multinível incentivei edei todo o apoio a Geraldo que não só teve, mas insistiu em seupropósito de ir além das vendas diretas e abordá-las à luz dasorganizações reticulares de transposição de fronteiras-TEAMNETs. Sua pretensão é a de trazer para discussão acadêmica ounão tão importante segmento empresarial não somente do pontode vista da administração, mas, principalmente, da economiapolítica e das ciências políticas em um contexto críticoabrangente sabendo ele que elas são, no Brasil, muito poucoconhecidas, estudadas e divulgadas. Dessa forma, acredito que Geraldo, neste seu livro, nãosomente traz um substantivo conteúdo pedagógico e andragógico(educação e didática para adultos) com vistas aos cursos deadministração, comércio exterior, relações internacionais,
  5. 5. 6ciências econômicas, ciências políticas, direito, história,publicidade e propaganda, marketing e outros. Sobre o capítulo “o que são vendas diretas e o que émultinível (MLM)”? tive a alegria de receber da ProfessoraM.Sc. Liliana Alves Costa, (tendo como orientadora aProfessora Dra. Maria Schuler), é autora da Dissertação deMestrado “O sistema de marketing de rede: uma estratégia deação mercadológica” (254 p.) defendida brilhantemente por ela,em Porto Alegre na UFRGS, e pelo que sabemos com os aplausosdo Dr. Sérgio Buaiz da ABEVD. Vejamos, pois, o que escreveLILIANA AVES COSTA, sobre este livro e especialmentesobre aquele capítulo. “No Brasil a literatura de marketing de rede oumultinível (MLM) é bastante limitada. Apesar de umaparticipação expressiva no setor, pouco material existe sobre oassunto. Observamos a necessidade de uma obra que tratasse oassunto de forma abrangente, com enfoque nas questõesmercadológicas e econômicas. Esta obra destaca desde a visão sistêmica do mundocapitalista ao entendimento do desenvolvimento da venda diretapelo sistema de marketing multinível, permitindo absorvergradativamente o conteúdo deste livro, por sugestões ouobservações do autor nos assuntos apresentados. A distribuiçãodos capítulos, seguida de uma seqüência lógica, é umametodologia facilitadora do aprendizado. A partir de uma visãogeral e prática de como as organizações em rede se constituem,destaca-se a abordagem de vários tópicos que compõem taisorganizações. Atualmente percebe-se que muitas empresas nãoconseguem uma sustentabilidade na vantagem competitiva.Muitas alcançaram momentos de superioridade temporária emseus mercados de atuação, provavelmente por um novo produtoou por uma campanha de marketing bem sucedida. Mas istonão resultou em algo contínuo e em longo prazo.
  6. 6. 7 Esse livro é sobre uma vantagem que não possui fim. Ésobre alcançar mais consumidores usando canais de vendaspara encontrá-los onde e como eles desejam realizar o negócio.É sobre a mudança de transações de vendas para canais decusto baixo em ordem a reduzir os custos de vendas de umaorganização. É sobre o aprimoramento do processo de retençãoe satisfação do consumidor, oferecendo-lhes meios maisflexíveis para realizar a transação. Finalmente, é sobre o uso decanais de vendas para um crescimento rápido em receita,lucratividade e participação de mercado. Através deste livro, seobtém todos os fatos sobre como e o que as empresas fizerampara almejar essa vantagem e os resultados alcançados. Aolongo da leitura, o autor fornece ferramentas, conceitos e idéiasdo sistema em suas iniciativas estratégicas em rede. Este livro, indicado para empresários, profissionaisatuantes e acadêmicos, fornece ao leitor um grande passo aoentendimento dessas organizações em rede ao uso de seusconceitos para o crescimento e obtenção de uma vantagemcompetitiva. Muitos questionam sobre como iniciar umaempresa de marketing multinível; como tornar um negóciolucrativo ou como tornar a empresa atual em um sistema derede multinível. Mesmo as grandes empresas que operam emoutro canal de distribuição desejam testar e ver como o canal demarketing de rede possa favorecer ou acrescentar seu canal dedistribuição. Outros empreendedores da arena internacionaltambém estão visando em participar desse canal. Não somentepelo sucesso de inúmeras empresas, mas visualizam a facilidadena forma de colocarem seus produtos no mercado. A intenção desse livro é de satisfazer a curiosidade eresponder tais questionamentos. Também proporcionará àspessoas envolvidas no negócio uma reavaliação de suasestratégias. Serve ainda como guia para iniciar e construir umaempresa legítima de marketing multinível. Eu acredito que estelivro irá proporcionar conhecimentos valorosos ao leitor,oferecendo extensos subsídios ao amplo entendimento sobremarketing multinível (MLM).
  7. 7. 8 Sendo realizada sua leitura, componentes dasorganizações em rede se tornam evidentes, demonstrando suaestrutura de liderança com valores comuns compartilhadosentre pessoas no âmbito local e global. Eu me sinto honrada emparticipar desta análise, podendo dividir os resultadossignificativos deste aprendizado com você leitor. Minhaexpectativa é que este aprendizado sirva como guia para asempresas e seus distribuidores, viabilizando ainda novosestudos na divulgação desta grande tendência organizacional, omarketing multinível”. Após essas opiniões da Professora de cursos de graduaçãoe de pós-graduação em Campo Grande/MS a M.Sc. LilianaAlves Costa, lembro aos leitores que Geraldo, além de estudar eexternar seus pontos de vista sobre os paradigmas das ciências,sobre a economia mundo e o sistema mundo capitalista, trata, notópico das TEAMNET, dos enfoques do direito comercialinternacional, da terceirização e da logística, das empresasassociativas, principalmente, cooperativas como elementos daterceirização no Brasil, das joint venture e das franquias. Vale destacar no livro de Geraldo sua visão sobre o quesão empresas de transposição de fronteiras (TEAMNET) e suacontextualização sobre arranjos produtivos locais (APL) e, muitoem particular, a metodologia de projetos, criada por ele. Chamo aatenção, também, para sua extensa bibliografia. Recomendo àqueles interessados por tão importanteproposição de Geraldo a leitura do livro de forma a perceberemou contextualizarem os capítulos apresentados, de maneirasinótica, porém, muito abrangentes quando apreendem arealidade em sua complexidade com uma visão holística esistêmica singular. Mauricéa Marta Bezerra Wanderley Geógrafa e M.Sc. em Desenvolvimento Urbano pela UFPE, Professora Universitária e, hoje, Distribuidora Independente da Herbalife.
  8. 8. 9 SUMÁRIOAgradecimentos 04Prefácio 05Sumário 09Introdução 11I. Visão prévia e os novos paradigmas das ciências 14II. A economia mundo e o sistema mundo capitalista 21- A divisão do trabalho e um mundo sem empregos 21- A conjuntura do sistema mundo capitalista 33- Comércio mundial 43III. Enfoques do direito comercial internacional 55- Sociedades comerciais 57- Direito cambiário e de cheques 58- Falências e concordatas 58- Contratos internacionais 59- Padronização de fórmulas e expressões contratuais 59- Contratos tipos 61- A crise do direito positivista 62- A UNCTAD, o GATT e a OMC 65- Direito comercial internacional. Dilema da globalização 67- O direito comercial internacional no projeto nacional 69IV. O que são (TEAMNET)? 71- Ambiente de Teamnets 89- Ambiente de criação ou reinvenção da empresa 92- Ambiente da política da empresa 95- Ambiente do emprego e trabalho na empresa 97- Ambiente profissional e de aptidão na empresa 99
  9. 9. 10- Ambiente de educação para a empresa 102- Ambiente de saúde para a empresa 104- Ambiente do gerenciamento ecológico 105- Ambiente humano da empresa 107V. O que é terceirização e o que é logística? 113VI. O que são empresas associativas cooperativas? 121VII. O que são vendas diretas e o que é multinível? 127- Visão compartilhada em rede de venda multinível 133- Holismo em rede de vendas multiníveis 135- O marketing de rede multinível (MLM ou MMN) 136- Guia para marketing multinível 146- Plano de ação organizacional 147- Plano estratégico 148- Aspectos relevantes da empresa 153- Autodestruição da equipe Sociabilidade da equipe 155- Sociabilidade 156VIII. O que são “joint venture”? 158IX. O que são franquias? 164X. O que são arranjos produtivos locais-APL (clusters)? 169- Estudos fundamentais 171- Projetos multifuncionais e multissetoriais integrados 172- Projetos básicos 174- Projetos-modelo 176- Projetos complementares 177- Escopo metodológico do PMMI 178Bibliografia 180O autor 186
  10. 10. 11 INTRODUÇÃO O presente livro, escrito de forma simples e coloquial como propósito de instruir o leitor nos níveis mais elementares dasorganizações em redes, também, chamadas de reticulares ouempresas de transposição de fronteiras – TEAMNET, com vistasa possibilitar sua penetração no mundo dos negócios em redes,não tem intenções de aprofundar-se no assunto, mas ser umdiálogo produtivo entre o autor e o leitor sobre os temas tratados. No que pese sua informalidade, o objetivo é explicitar oconteúdo não somente do ponto de vista teórico, quando enfatizao sistema mundo do capitalismo, hoje, vivenciado por toda ahumanidade, mas também prático no fluir das orientações nosnegócios em redes. Seu enfoque didático é visto da seguinte forma: a) Visão prévia e paradigmas das ciências paracompreensão do sistema mundo do capitalismo b) Os enfoques do Direito Comercial Internacional c) Os conceitos e teorias das empresas de transposiçãode fronteiras “TEAMNETs” de maneiras a mostrar o que são ecomo funcionam: a terceirização; as cooperativas; os "jointventures"; as franquias; as vendas diretas, principalmente, emmultiníveis e, também, os arranjos produtivos locais. Tanto as franquias quanto os multiníveis, em seuspropósitos de transposição de fronteiras, recorrem às “Quinzeleis do triunfo” e ao livro “Pense e enriqueça”, ambos deNapoleon Hill, hoje, discutidos e tratados pela neurolingüista, eos livros “O Homem mais rico da Babilônia”, de Clasan e os“Sete hábitos das pessoas eficazes” de Covey, e outros livros deauto-ajuda. Os negócios reticulares não se restringem apenas àadministração, à economia e ao direito, mas transpõem asfronteiras da antropologia cultural; da sociologia; da história;
  11. 11. 12da ecologia; da psicologia; da filosofia e da economia política. Para entender e apreender as mudanças que estão emprocesso, neste início do século XXI, vale refletir sobre o queescrevem: MESZÁROS em “Para além do capital”,WALLERSTEIN em “El futuro de la civilización capitalista” eem sua “Utopística”; STIGLITZ em “A globalização e seusmalefícios”; RICUPERO em “Esperança e ação” e “O Brasil eo dilema da globalização”; FIGUEROA em “La economia delpoder” e “Argentina entrampada” e FARIA em “O direito naeconomia globalizada” para o ledor formar sua própriaconsciência crítica sobre os temas aqui contextualizados. No segmento de vendas diretas no 1º semestre de 2005, noBrasil, os resultados foram da ordem de 5,5 milhões devendedores/distribuidores autônomos. Esse fato é muitosignificativo na economia brasileira. Outrossim, segundo SérgioBuaiz da ABEVD (Associação Brasileira de Empresas deVendas Diretas) “todas as empresas têm dificuldades depreencher seus quadros internos porque não existe formaçãoespecífica em nenhuma universidade brasileira. Nem mesmodisciplinas extracurriculares, cursos de extensão ou estímulos àprodução acadêmica”. Sérgio Buaiz, quando interpreta e lembra o complexoprocesso desencadeado pelas empresas do ramo, conclui que“despertar interesse de compra em um cliente que não teve ainiciativa de se deslocar para o mercado gera um ciclocomercial, administrativo, jurídico, produtivo e logístico muitodesafiante, uma vez que sua força de vendas autônoma estápredominantemente espalhada por todo o mercado”. Esse fato,por si só, já desencadeia “uma carência cada vez maior deprofissionais conhecedores do assunto”. (Gazeta Mercantil de18/08/2005 f. A-3). Sendo novo o segmento, demanda inclusive estudiosos nocampo institucional/administrativo do estado e do governobrasileiro frente aos fatos desencadeados pelas empresas que, nonível mundial, movimentam 93 bilhões de dólares norte-americanos com destaques para os Estados Unidos e o Japão.
  12. 12. 13 Vale salientar que, no capitulo sobre multiníveis, houvegrande colaboração e participação da Professora MauricéaMarta B. Wanderley que faz parte da equipe tabuladora de umadas maiores corporações em multinível funcionando no Brasil.Quem dos leitores desejarem conhecer a prática do multinívelpode acessar a página: www.fiqueotimo.com da supraditacolaboradora. O Autor é Professor Universitário e ficaria muitíssimograto se as noções contidas no livro pudessem ser melhoradas ecriticadas pelos leitores que podem e devem remeter suasopiniões, críticas e contextualizações para o fax 081 3326-6428ou para o correio eletrônico: geraldoaguiar@br.inter.net
  13. 13. 14 I. VISÃO PRÉVIA E OS NOVOS PARADIGMAS DAS CIÊNCIAS O presente capitulo tem o objetivo de situar o leitor nacrise de percepção da vida e da ciência do paradigmacartesiano, (reducionista, mecanicista e determinista) e do seuprocesso de superação por um novo paradigma, que pode serchamado de holístico, ecológico ou sistêmico. Busca-se ahistoricidade da visão do mundo pelos entes humanos. Grosso modo, pode-se afirmar que, depois do apogeu daGrécia Antiga até os anos dos grandes descobrimentos (1.500), avisão do mundo era orgânica, isto é, vivenciava-se a naturezapela interdependência dos fenômenos naturais e espirituais emtermos de relações orgânicas, e prevalecia a subordinação dasnecessidades individuais às da comunidade. A Igreja,fundamentada na filosofia de Aristóteles e na teologia de TomásAquino, estabeleceu a estrutura conceitual do conhecimentodurante toda a chamada Idade Média. Aquela visão tinha porfinalidade apenas o significado das coisas e não exercia quaisquerpredições ou controle dos fenômenos naturais. Seu foco eram asquestões teístas voltadas para a alma humana e a moral. Outrossim, em pleno cisma da Igreja Católica ApostólicaRomana, nasce e cresce o hedonista(1) Francis Bacon, ferrenhocrítico de Aristóteles, de Platão, dos escolásticos e dosalquimistas, e reformula, por completo, a indução aristotélica,dando à mesma uma grande amplitude e eficácia. Dessa maneira,Bacon, em contraponto ao “Organun” aristotélico, expõe em suaobra “Novum organum” um método de investigação da naturezaa partir das ‘Tábuas de investigação”, que bem caracteriza suateoria da indução e seu empirismo.____________________________________________________ (1) Hedonista. Pessoa que considera o prazer e realizaçãoindividual o único bem possível como princípio e fim da vida.Reflete o caráter egoísta de formas a tirar vantagens individuais aqualquer preço, com ou sem serventia social.
  14. 14. 15 Em réplica a Platão, Bacon escreve a “Nova Atlântida”,em cuja utopia a ciência deixa de ser um exercício de gabinete ouatividade contemplativa para se transformar em um cotidiano deárdua luta contra a natureza. A partir desses escritos, Bacon redefine a visão orgânicado mundo, colocando o conhecimento em um novo planocientífico, cuja divisa máxima foi “saber é poder”, princípio quelhe permitiu construir um vasto, eficaz e virtuoso sistema deidéias para o seu método empírico de buscar a verdade. Em pleno processo da acumulação primitiva do capital norenascimento ou, ainda, iluminismo, surge, no continenteeuropeu, um dos grandes pensadores, o matemático e filosofoRené Descartes (Cartesius), que revo1uciona o mundo dopensamento e da ciência com a criação do método com base nametafísica e na mecânica. Seu método leva à laicização do saber,isto é, à universalização do conhecimento. Ao desenvolver oprincípio da causalidade, Descartes anuncia o advento de ummundo racional e positivo sobre o qual o ente humano proclamaseu reinado sobre as potencialidades da natureza. Na tentativa de organizar o mundo, em um domínio sobrea natureza, Descartes tenta integrá-la em um universo demáquinas que fundamenta a idéia da, hoje, conhecida visão oumétodo cartesiano. Dessa forma, ele desenvolve o tema daempresa inflectida na caça ao lucro e ao poder e a mecanizaçãodas relações humanas e a natureza fundamentando a ideologiacartesiana. Seu “penso logo existo” remete o pensar filosófico auma ordem natural inerente à progressão do conhecimento,alicerçado na matemática e na geometria cartesiana, ou seja, só seconsidera verdadeiro o que for evidente e intuitível com clareza eprecisão estocástica. Sua filosofia racional proclama auniversalidade do bom senso. A filosofia cartesiana explicita-se na máquina capaz deproduzir todos os fenômenos do universo, inclusive o corpohumano, e o relógio passa a ser seu ícone.
  15. 15. 16 Sua magistral obra está explicita nos seus seguintesescritos: - “Discurso do método” - “Meditações” - “Objeções e respostas” - “As paixões da alma” - “Cartas”. No renascimento, surgem dois grandes sábios GalileuGalilei e Kepler, que conceberam a idéia de lei natural em toda asua amplitude e profundidade, sem entretanto, ser aplicada emoutros fenômenos além do movimento dos corpos em queda livree as órbitas dos planetas. A partir de 1666, vêm à luz a física e a mecânica celestede Isaac Newton, que matematiza e experimenta um método paraa ciência de forma a unir e superar o empirismo de FrancisBacon e o racionalismo de René Descartes. Aquele gênio damatemática, da física, da filosofia e da teologia, Isaac Newton,desenvolveu o método matemático das fluxões com o cálculodiferencial e integral, criou a teoria sobre a natureza da luz eas primeiras idéias sobre a gravitação universal, enunciando asleis e os princípios da física com ênfase à sistematização damecânica de Galileu e à astronomia de Kepler. Dessa forma crioua metodologia da pesquisa científica da natureza, que consistena análise indutiva seguida da síntese. Foi ainda, criador dateoria do tempo e do espaço absolutos. Note-se que,simultaneamente, a ele, Leibniz também desenvolveu o cálculodiferencial e integral. Vale dizer que os pensadores aqui, sinòticamenteapresentados foram os grandes formuladores dos paradigmascartesianos (reducionista, mecanicista e determinista) dasciências e que, somente a partir dos meados do século XX,começaram a serem superados com o desenvolvimento da teoriada relatividade e da física quântica, da biologia molecular eda simbiótica.
  16. 16. 17 Com os diferentes estudos e pensamentos de Darwin,Hegel, Marx, Engels, Einstein, Oparini, Haisenberg, Planck,Bohr, Chew, Rutenford, Broglie, Schrodinger, Pauli, Dírac,Lukács, Sartre, Bell, Habernas, Maturana, Varela, Bateson,Margulis, Grof, Lovelock, Serre, Morin, Capra e muitosoutros pensadores dá-se início à superação dos paradigmascartesianos por um outro que pode ser chamado de holístico,ecológico ou sistêmico que, sinteticamente, pode ser explícitopelos seguintes critérios de mudanças, ou paradigmas: Mudança da parte para o todo Tal critério objetiva apreender as propriedades das partesa partir do todo. As partes são vistas como um padrão em umemaranhado de relações inseparáveis em forma de uma teia ou deredes e profundamente sinérgicas e simbióticas. Mudança de estrutura para processo No diagnóstico e no prognóstico, tenta-se apreender arealidade na dinâmica da teia ou das redes, isto é, as estruturassão vistas como manifestação de um processo subjacente, e não apartir de estruturas fundamentais ou mecanismos que interagempara dar o nascimento ao processo. Mudança da objetividade real para um enfoque epistêmico A compreensão do processo de conhecimento nadescrição dos fenômenos naturais. Dessa forma, a objetividade doreal passa a conter uma dependência do observador humano ede seu processo de conhecimento. Por isso, afirma que aexistência tem que ser parte integrante de cada teoriacientífica.
  17. 17. 18Mudança de construção para rede como metáfora do conhecimento Com tal critério, tenta-se fugir das chamadas leis eprincípios fundamentais para uma metáfora em redes oureticulares e na medida em que a realidade é percebida como umarede de relações, conexões ou interfaces, passando as descrições aformar uma rede interconexa dos fenômenos observados. Dessamaneira, o enfoque reticular ou em rede não suportahierarquias ou alicerces.Mudança de descrições verdadeiras para descrições aproximadas É um critério do novo paradigma que não aceita a certezaabsoluta e final. Reconhece que conceitos, teorias, descobertascientíficas e inovações tecnológicas são limitadas e aproximadas. Diante da presente contextualização, vale desconectar asorganizações em redes dos paradigmas cartesianos com vistas aromper com os obstáculos que se interpõem nos caminhos dasmudanças das empresas reticulares. Há que se desconstruir asvisões: mecânicas, reducionistas e deterministas da empresaeconômica convencional do sistema mundo do capitalismo emfavor de outras que apreendem, pensam e têm como objetivo apartir do metabolismo do capital manipulá-lo com vistas aotimizar as pessoas, em uma concepção de desenvolvimentosustentável, em economias: pública, social-comunitária ousolidária. A seguir, apresentam-se alguns princípios da “teoria dacomplexidade”, exatamente para enfatizar as mudanças ou atransposição de paradigmas de um tipo de administração para umoutro que, certamente, ocupa cada vez mais espaços com arevolução do conhecimento e da informação. Mais ainda, com agestação de novas fontes de energia (biomassa, eólica, solar) e daeconomia do hidrogênio com vistas à substituição doscombustíveis fósseis, redistribuição não somente do lucro, mas
  18. 18. 19também, do poder entre os humanos. Estamos falando não mais da empresa convencional,mecânica e complicada, do sistema mundo do capitalismo, masde uma empresa viva que se auto-recria por ser capaz deaprender e pensar a partir das famílias que nela estão insertas,portanto, de uma empresa ou organização tão complexa como avida ou como a sociedade humana. Para maior inteligibilidade de como funcionam asorganizações em rede ou reticulares, apresentam-se,sinoticamente, os princípios ou características para uma visãocomplexa e holística com vistas à contextualização e apreensãodas citadas organizações: Dinâmica Com a observação dos campos de forças contrárias(impulsoras e restritivas) que pressupõem o devir e o fazer novoimbricados às categorias de: atividade, criatividade e agilidade. Não linear Esse princípio do pensar complexo embora aceite quetoda intervenção ou criação tecnológica seja linear, mas adecomposição de suas partes desconstrói o todo. É precisoentender que na parte está contido o todo. A não linearidadeimplica equilíbrio e desequilíbrio, que, geralmente, leva àsubstituição do velho pelo novo. Reconstrutiva Doa sentido a se produzir algo para além de si mesmo. Aluz pode ser matéria e onda dependendo do ponto de vista dequem a observa. Apenas na lógica formal linear 2+2 são iguais a4. O princípio de ser reconstrutiva sinaliza sentidos de:autonomia; aprendizagem; reconstrução e reformação.
  19. 19. 20 Processo dialético reprodutivo O computador não aprende, logo, não sabe errar. Éreversível. O cérebro humano possui habilidades reconstrutivas eseletivas que ultrapassam todas as lógicas reversíveis. É,portanto, irreversível. A vida não foi criada, ela mesma sereconstrói. É autocriativa. Dizia Heráclito em 2000 a.C. “vive-secom a morte e morre-se com a vida”. Irreversibilidade Nada se repete. Qualquer depois é diferente do antes. Énão-linearidade. É impossível voltar ao passado ou ir ao futuropermanecendo o mesmo. A irreversibilidade sinaliza o caráterevolutivo e histórico da natureza. O tempo-espaço são dimensõesirreversíveis. Intensidade de fenômenos complexos O que bem explicita esse fato é o chamado efeitoborboleta, ou seja, aquelas que esvoaçam em um continentecausam um ciclone em outro ou, ainda, o efeito dominó.Demanda relação de causa e efeito e ambivalência em suacontextualização. Ambigüidade/ambivalência dos fenômenos complexos Ambigüidade refere-se à estrutura caótica, isto é, à ordeme à desordem. Ambivalência diz respeito à processualidade dosfenômenos. O vir a ser. Argumentar é questionar, é penetrar nocampo de forças que constitui a dinâmica. A ambivalênciasubentende a existência e a simultaneidade de idéias com amesma intensidade sobre algo ou coisa que se opõemmutuamente.
  20. 20. 21 II. A ECONOMIA MUNDO E O SISTEMA MUNDO CAPITALISTA A titulo de esclarecimento tenta-se de neste capitulointroduzir o leitor, de forma sinótica, na complexidade dometabolismo do capital com o objetivo situá-lo nas recentesmudanças que apontam para o fim dos empregos e o surgimentodas empresas de transposição de fronteiras.A DIVISÃO DO TRABALHO E UM MUNDO SEM EMPREGOS A divisão do trabalho é no sistema mundo docapitalismo, a fonte de todas as alienações. As ciências daadministração e da economia política a têm sempre como pano defundo. Ela é discutida a luz da gestão da fábrica ou daorganização da intensidade e da produtividade do trabalho, daintensidade da produção e, particularmente, da cisão entre otrabalho intelectual e o braçal com vistas à hierarquização e àdisciplina insertas no parcelamento das tarefas e nos sistemas demonopolização da técnica e da ciência pelas gigantes instalaçõese centralização do poder das empresas transnacionais. Essa configuração foi, historicamente, montada pelometabolismo do capital em seu processo incessante deacumulação em suas diferentes fases. No dizer de André Gorz,“a monopolização da produção pelos aparelhos institucionais –trustes industriais, administrações – e das corporaçõesespecializadas (médicos, professores, corporações de Estado) fazcom que ela se submeta a produzir o que não consome, aconsumir o que não produz e a não poder produzir nem consumirconforme suas próprias aspirações individuais ou coletivas. Nãoexiste mais lugar onde a unidade dos trabalhos socialmentedivididos passa a corresponder à experiência da cooperação, datroca, da produção em comum de um resultado global. Essaunidade só é assegurada – de um lado, pelo mercado; do outro,
  21. 21. 22pelas burocracias privadas estatais. Ela se impõe aos indivíduos,portanto, como unidade exterior, como ‘uma força estranha daqual não conhece nem a origem, nem a finalidade’”. Em “A ideologia alemã”, ainda, segundo Gorz, KarlMarx explica o tema em lide quando explicitou que “enquanto aatividade não for, pois dividida voluntária, mas naturalmente, oato próprio do homem torna-se para ele uma força exterior que osubjuga, quando ele deveria dominá-la. Com efeito, desde que otrabalho passa a ser repartido, cada um tem seu currículo deatividade determinado, exclusivo, que lhe é imposto, do qual nãopode sair; seja ele caçador, pescador, pastor ou crítico – éforçado a continuar a sê-lo, se não quiser perder seus meios desubsistência; enquanto na sociedade comunista, onde cada umnão tem currículo exclusivo de atividade, mas pode aperfeiçoar-se em qualquer ramo, a sociedade regula a produção geral e dá-me, assim, a possibilidade de hoje fazer isso; amanhã, aquilo; decaçar pela manhã, pescar à tarde, cuidar da criação à noite, emesmo criticar a alimentação, a meu bel prazer, sem jamaistornar-me pescador, caçador, pastor ou crítico. Essaestabilização da atividade social, essa consolidação do nossopróprio produto numa força concreta que nos domina, que fogeao nosso controle, barra as nossas esperanças, anula nossoscálculos, constitui um dos principais fatores do desenvolvimentohistórico passado (...). A força social, ou seja, a força produtivamultiplicada, que resulta da colaboração dos diferentesindivíduos condicionados pela divisão do trabalho, aparece paraesses indivíduos – porque a própria colaboração não évoluntária, mas, natural – não como a sua própria força unida,mas como força estranha, situada fora deles, da qual nãoconhecem nem a origem, nem a finalidade, que eles, portanto,não mais podem dominar, mas que agora percorre, ao contrário,toda uma série de fases e de graus de desenvolvimentoparticular, independente da vontade e da agitação dos homens,até regulando essa vontade e essa agitação”. Em geral, os estudantes de administração e de economiapolítica têm em sua grade escolar de curso os ensinamentos de
  22. 22. 23Henri Fayol a partir de sua obra “Administração industrial egeral”, base de sua doutrina - o fayolismo - que trata dasnecessidades e possibilidades de um ensino administrativo e dosprincípios e elementos da administração com vistas à divisãoracional do trabalho, à autoridade, à responsabilidade, àdisciplina, à unidade de mando e à convergência de esforços naempresa. Outro clássico da administração é “Os princípios deadministração científica”, de F.W. Taylor, onde ele apresentasuas observações e experiências, particularmente, quanto àsformas de desperdícios, procura de homens eficientes, causas davadiagem no trabalho, lei da fadiga, seleção de pessoal e outrostemas relevantes que serviram de fundamentos à sua doutrina,conhecida como teilorismo. Uma das mais belas críticas aoteilorismo, como doutrina, vem do gênio do cinema mudoCharles Chaplin em seu belíssimo filme “Tempos modernos”,que se aconselha a ver, para divertir-se e contextualizar tãoimportante crítica. Tanto Fayol quanto Taylor em muito influenciaramHenry Ford, em sua indústria automobilista, onde, de fato,também criou sua doutrina administrativa mundialmenteconhecida como fordismo, que se fundamenta na linha demontagem com ou sem esteira rolante para a produção em série. Em tese, esses arautos da administração e da economiapolítica fabril ou empresarial Fayol, Taylor e Ford em suas idéiase obras camuflam ou dão uma “aparência científica àracionalização do trabalho de tal forma” a ocultar e negar ascríticas de Marx segundo as quais “toda produção capitalista,como geradora não só do valor, mas também da mais-valia, temesta característica: em vez de dominar as condições de trabalho,o trabalhador é dominado por elas; mas essa inversão de papéissó se torna real e efetiva, do ponto de vista técnico, com empregodas máquinas. O meio de trabalho, tornado autômato ergue-se,durante o processo de trabalho, diante do operário sob a formade capital, de trabalho morto, que domina e explora a força detrabalho viva”.
  23. 23. 24 É do conhecimento público que, em todos os setores daeconomia (primário, secundário e terciário) o nível de empregotende a diminuir e, sem dúvida, não há um único segmentoindustrial, na última década, onde o emprego não tenha secontraído. A revolução do conhecimento e da informação viatelemática, biotecnologia, nanotecnologia, robótica, aeroespaciale agricultura molecular estão levando a mudança radicais naempregabilidade. Tanto o crescimento e o desenvolvimentoeconômicos se dão, hoje, à revelia da geração de empregos e,mais grave ainda, tornando-os obsoletos e o empregadodescartável. A reengenharia do trabalho foi criada pelas grandescorporações para eliminar cargos de todos os tipos e emquantidade maior do que em qualquer época do sistema mundocapitalista. Sua forma de eliminar empregos é comparável agrande crise mundial do capitalismo dos anos 29 e 30 do séculopassado. Note-se, também, que a reengenharia do trabalhoalimenta a queda do poder aquisitivo das comunidades peloimpacto do achatamento das gigantescas burocracias dastransnacionais, agora, funcionando em rede ou de forma reticularcom total e absoluta transposição de fronteiras, sejam elas quaisforem, ou seja, geográficas, culturais, raciais, religiosas, étnicasetc. Observe-se, também, que as grandes corporaçõesdesenvolvem diferentes estratégias de trabalho contigencial paraevitar os altos custos, para elas, de benefícios aos trabalhadores,tais como: aposentadorias, assistência médica, férias e licençasmédicas pagas, etc. Reduzem, portanto, seu núcleo detrabalhadores fixos, contratando trabalhadores temporários,estagiários universitários, todos com variações sazonais. Naprática, a mão de obra, como mercadoria, recebe todo o impactoda logística “just-in-time”, criada para atender o que há de maismoderno na circulação dos bens econômicos sob a égide damicro-eletrônica. Por mais que as corporações diminuam a duração de vidados produtos via acelerada depreciação moral e material dos
  24. 24. 25mesmos, com sua substituição em intervalos cada vez menores, acrise de empregabilidade se torna mais dramática, sem quaisquerajustes nos campos econômico-social e ambiental do modo deprodução capitalista, justificando o enunciado de Marx, feito em1857, de que “chegou o tempo em que os homens não mais farãoo que as máquinas podem fazer”. Dessa forma, vive-se, hoje, nosistema mundo do capitalismo, com a abolição do trabalhoobrigando os trabalhadores a disputar entre si as escassasoportunidades de emprego em vez de juntos se organizarem embusca de uma nova racionalidade econômica, política, social eambiental. Na prática, essa crise da empregabilidade tem servidode arma para os detentores de capital com vistas a estabelecercada vez mais hierarquia, obediência, disciplina na divisão dotrabalho nas empresas e corporações transnacionais. Segundo Gorz, a crise da empregabilidade tem levado osestados capitalistas ao ponto de em suas linguagens oficiaisafirmarem “não se trata mais de trabalhar para produzir, mas deproduzir para trabalhar (...) a economia de guerra e a própriaguerra que foram, até hoje, os únicos métodos eficazes paraassegurar o pleno emprego dos homens e das máquinas quando acapacidade de produzir ultrapassava a de consumir”. “O declínio inevitável dos níveis dos empregos e aredução da força global do trabalho”, é o subtítulo do livro,“ Ofim dos empregos”, de Jeremy Rifkin, que aponta para se deixarde lado a ilusão de retreinar pessoas para cargos já inexistentes epondera, institucionalmente, para a ação em um mundo que estáeliminando o emprego de massa na produção e nacomercialização de bens e serviços. Aconselha a intuir-se uma erapós-mercado em busca de novas alternativas e novas maneiras deproporcionar renda e poder aquisitivo com vistas à restauraçãodas comunidades e reconstrução de uma cultura desustentabilidade. Sinaliza, também, a necessidade de se iniciaruma grande transformação política, social, econômica eambiental com vistas ao renascimento do ser humano em toda suaplenitude.
  25. 25. 26 Em seu conhecido livro “A economia do hidrogênio”, omesmo Rifkin sinaliza que as células combustíveis energizadaspor hidrogênio possuída pelas comunidades possibilitarão todauma nova redistribuição do poder na medida em que qualquer serhumano poderá produzir sua própria energia. Essa “geraçãodistributiva”, preconizada por Rifkin, tornará o controleoligárquico e hierárquico das grandes corporações obsoleto.Afirma ele que “milhões de usuários poderão conectar suascélulas combustíveis locais, regionais e nacionais de hidrogênio,através dos mesmos princípios e tecnologia da world wide web,compartilhando e criando um novo uso descentralizado daenergia”. Seu otimismo chega a ponto de afirmar que “o hidrogêniopode acabar com a dependência do petróleo, reduzir a emissãode dióxido de carbono e o aquecimento global, além deapaziguar guerras políticas religiosas. O hidrogênio poderá setornar o primeiro sistema energético democrático da história”. Fritjof Capra, também, em sua obra “As conexõesocultas” aponta como tarefa desta e das futuras gerações “amudança do sistema de valores que está por trás da economiaglobal, de modo que passe a respeitar os valores da dignidadehumana e atenda às exigências da sustentabilidade ecológica”. Após essas breves divagações sobre a divisão do trabalhoprocura-se, agora, navegar ou proceder a conjecturas sobre ummundo sem empregos. Contextualizando o livro de William Bridges, “Ummundo sem empregos. JobShift. O desafio da sociedade pós-industrial”, pode-se, grosso modo, sinalizar os seguintes tópicospara a sua compreensão: 1. Da gênese e da evolução ou desenvolvimento, vê-seque o conceito de emprego não faz parte da natureza na medidaem que é uma criação humana. Durante séculos, apresentou-secomo arte ou ofício dos humanos nos modos de produçãoprecedentes ao capitalismo e, mesmo, em algumas fases deste.Passou a ter o significado que tem hoje a partir da revolução
  26. 26. 27industrial, através do advento das fábricas, das máquinas e dasburocracias institucionais e organizacionais tanto das empresasquanto dos estados nacionais. Não existem empregos fora dasorganizações fabris ou não-fabris – burocratas. Hoje, asorganizações que deram origem ou criaram os empregos estão emprocesso de mutação, ou seja, desaparecendo via processos deterceirizações (outsourcing) e serviços públicos terceirizados eprivatizados. O emprego nunca foi e não é um fato atemporal daexistência humana. É um artefato social próprio de determinadasetapas do desenvolvimento da economia mundo do capitalismo e,muito em particular, do metabolismo do capital. Do ponto de vista da psicologia social, o empregoproporciona à pessoa o seguinte: a) Uma ajuda à pessoa a dizer a si mesma e aos outros oque ela é b) Seu envolvimento em uma rede central de relações deamizades em um contexto social c) Uma estrutura de tempo onde se imagina apadronização dos dias, meses e anos de sua vida d) Um rol de papéis a serem desempenhados em tempohábil, ou seja, lugar e hora de comparecer, coisas a fazer,expectativa quanto a um padrão de carreira e propósitos diários e) Um significado e ordem de sua vida em função de umaremuneração e direitos sociais empregatícios. 2. Do mundo do emprego para o mundo sem emprego.Nesse processo de transição vale lembrar os seguintes tópicos: a) A força de trabalho insere-se no processo “just-in-time”, tornando-se fluida, flexível e descartável, e asoportunidades e situações de trabalho tendem para tempo parcial,temporalidade e flexibilidade b) As novas tecnologias facilitam e deslocam acolaboração entre empresas em redes e, também, a partir de
  27. 27. 28fornecedores terceirizados entre diferentes localizações de umamesma organização transnacional c) A economia desloca-se das velhas indústrias paranovas guiadas pela micro-eletrônica, biotecnologia, robotização eoutras informatizadas. A agricultura tradicional passa a dar lugarà agricultura molecular, agrônica e agrótica d) A reengenharia do trabalho altera significadamente omundo da divisão do trabalho tanto em seus aspectos qualitativosquanto quantitativos, remetendo para o mundo da administração eda gestão das organizações públicas e privadas o emprego, comoparte do problema e não da solução na medida em que o analisa eo vê como inibidor das mudanças e) O trabalho, informatizado e robotizado demanda umnúmero bem menor de empregados e desloca-se para todo equalquer lugar. Essa é a razão do fax, dos laptops, dos telefonescelulares transformarem qualquer ambiente em um escritóriocompleto f) O ex-empregado necessita, agora, vender suashabilidades, inventar novas relações com organizações paraocupar seu tempo de trabalho e aprender novas maneiras detrabalhar fora dos empregos, ou seja, nas organizações oucorporações sem empregos. 3. Desse processo de abolição dos empregos deduz-seque levam às mudanças as necessidades não-satisfeitas nosseguintes aspectos das organizações: a) No abrir dos espaços entre os recursos disponíveis b) Na criação de novas fronteiras e novas interfaces entreas organizações c) Na introdução de novas tecnologias e novas economiasa serem introduzidas no metabolismo do capital d) No obsoletismo dos arranjos técnicos, econômicos eorganizacionais.
  28. 28. 29 4. Do trabalho ou ocupação no mundo sem empregostorna-se necessário que a pessoa ou trabalhador redefina e recicleseus dados pessoais quanto: a) Às expectativas sob a ótica das incertezas b) Aos hábitos sociais, técnicos, econômicos e criação decenários alternativos c) Às regras pessoais quanto à qualificação, atitudes,capacidades, temperamento e ativos d) À estrutura da integridade/identidade doando limites aspossibilidades do que se cogita na jornada da vida e) À estrutura da realidade em constante e permanentemudança f) À criação de um novo sentido com vistas às condiçõesinternas e externas para lidar com esse novo mundo. Nestes tópicos sobre a divisão do trabalho e sobre ummundo sem empregos, vale, aqui, transcreverem-se as novasatitudes ou estratégias apresentadas por William Bridges em seulivro, acima citado, resumidas no seguinte: “1. Aprenda a encarar toda situação potencial detrabalho, tanto dentro quanto fora de uma organização, como ummercado. Até mesmo pessoas que atualmente estão sem trabalhodescobrirão, ironicamente, que muito das melhores perspectivaspara as futuras situações de trabalho encontram-se naorganização que as demitiu de emprego ou as induziu a umaaposentadoria precoce”. “2. Pesquise seus DADOS (ou seja, suas Aspirações,Capacidades, Temperamento e Pontos Fortes) e recicle-os numproduto diferente e mais ‘viável’. Todo mercado está cheio depessoas à procura de produtos, mesmo quando nenhum empregoestá sendo anunciado. Você precisa aprender a transformar seusrecursos naquilo que está sendo procurado”. “3. Pegue os resultados do nº2, construa um negócio(vamos chamá-lo de Você & Co.) em torno do mesmo aprenda a
  29. 29. 30dirigi-lo. Nos anos vindouros, você vai obter menosquilometragem de um plano de carreira no sentido antigo do quede um ‘plano comercial’ para sua própria empresa. Quer vocêesteja empregado ou não naquilo que costumava chamar deemprego, daqui para frente você está num negócio próprio”. “4. Aprenda sobre os impactos psicológicos da vida nestenovo mundo do trabalho e monte um plano para lidar com elescom sucesso. Não bastará saber para onde você vai se você nãopuder suportar as pressões do lugar quando chegar lá”. No ambiente das empresas e organizações pós-emprego, os cargos tornam-se obsoletos e são substituídos poratribuições de tarefas além de se ter em conta o ócio criativo euma economia pública. Daí sua estrutura tender para conter osseguintes elementos: a) Empregados essenciais b) Fornecedores e subcontratantes c) Fregueses e clientes d) Trabalhadores temporários e) Contratações por prazo limitado. Nos escritórios e departamentos de empresas que antesestavam repletos de empregados, hoje se limita a um númeropequeno de pessoas fazendo previsões para clientes reais epotenciais ou indivíduos mandando pedidos via fax de seus“laptops” e celulares em veículos, hotéis, etc. Muitas dessaspessoas são distribuidores independentes do sistema de vendasdireta, contratantes individuais ou trabalhadores temporários parao fluxo de negócios. A questão de uma organização ou empresa pós-empregoé qualitativamente diferente daquela baseada em cargos. Ascarreiras são reconceitualizadas e reinventadas desde adisponibilidade de acoplamento tecnológico até as questõesidiossincrásicas como são as responsabilidades familiares daspartes como as condições de ir e vir ao autoemprego,
  30. 30. 31autonegócios ou trabalho. Há que se rever e refazer o estado emfunção das empresas ou organizações não-governamentais (ONG)economia social-comunitária. No pós-emprego das empresas trabalho e lazer tambémfogem ou se divorciam do cálculo do emprego permanente. Otempo livre não é mais parte do horário de serviço, mas algoinserto nas atribuições de tarefas ou contratos de projeto eaposentadoria torna-se uma questão individual que nada tem aver com a política organizacional. A economia do hidrogêniocertamente provocará a redistribuição do poder no mundoglobalizado. As tendências das empresas ou organizações pós-emprego são três: a) Expansão dos ganhos para participação dosresultados b) Pagamento por habilidades c) Autogestão na direção dos negócios, isto é, acesodireto às informações que antes eram do domínio das pessoas quetomavam as decisões. Hoje se observa que a economia tende aconectar células combustíveis de hidrogênio com geraçãoautônoma e resdistribuitiva. Ainda no ambiente da empresa ou organização pós-emprego, a pessoa faz aquilo que precisa ser feito parafacilitar, honrar e realizar a missão, a visão e os valores daorganização onde cada pessoa administra o todo e não apenasa sua parte. O hidrogênio como fonte de energia pode se tornar oprimeiro sistema energético democrático, libertador e eqüitativoda história humana. Nas organizações pós-emprego, consegue-se que aspessoas: a) Tomem decisões gerenciais que eram restritas aosgerentes b) Tenham acesso às informações para tais decisões
  31. 31. 32 c) Sejam capacitadas e treinadas para entender asquestões comerciais e financeiras da empresa d) Interessem-se pelo fruto de seu trabalho como formade compartilhar com a organização e participar dos seuslucros e) Possam na economia do hidrogênio compartilhar e criarum novo uso descentralizado da energia e do bem estar. Para administrar a transição da sociedade industrialpara a sociedade da informação, onde predominam asorganizações pós-emprego, há que se reinventarem também osprogramas de capacitação e treinamento. Essas ações devem: a) Objetivar a leitura dos mercados, identificar asnecessidades oriundas das mudanças e definir o produto de oupara alguém de acordo com as necessidades b) Identificar outros vendedores de bens ou serviços queestão fazendo aquilo que a organização pretende fazer e comoalcançam resultados c) Induzir a melhorar continuamente a qualidade daquiloque se pretende fazer; d) Gerir seu tempo pessoal e do “joint-venturing” pessoalna organização. A criação da economia do hidrogênio deve levarà redistribuição do lucro e do poder como forças motrizes de umnovo modo de produção. O novo sistema circulatório da organização pós-empregorequer para a redisposição de recursos: a) Capacitação e treinamento em como administrar aprópria carreira e oportunidades de negócios b) Estímulo, motivação e entusiasmo para açõesmultiníveis (networking) e acesso “on line” às oportunidades denegócios ou de oportunidades de trabalho ou autoemprego c) Desenvolvimento de estratégias de a própria pessoaatuar como um negócio
  32. 32. 33 d) Informações de como dispor da ajuda para a carreira,em termos de cursos, bancos de dados, serviços de avaliação ecoisas afins e) Com o hidrogênio, como fonte de energia, a geopolíticado sistema mundo do capitalismo entrará em colapso dando lugara uma política biosférica inserta em uma antropolítica. Vale lembrar que o Centro de Políticas Sociais daFundação Getúlio Vargas, em seu recente levantamento sobreemprego no Brasil, aponta que “uma em cada três pessoas vaiperder o emprego nos próximos dois anos”. (Ver Revista Épocanº. 427 de 24/07/2006). Comenta, ainda, a revista em tela queaqueles que pretendem manter seu emprego têm de cuidar dasseguintes habilidades: a) Entender o que é sucesso, conhecendo os valores daempresa b) Não prometer demais de forma a apreender a cultura daempresa c) Controlar o tempo como maneira de focar o trabalho eser produtivo e dar resultados d) Ser político, isto é, participar da vontade do time,mesmo que dele não faça parte de forma a externalizar habilidadepolítica e liderança e) Fazer marketing pessoal de maneira que as pessoasachem que seu trabalho tem a ver com o sucesso em manter seuemprego ou carreira na empresa. A CONJUNTURA DO SISTEMA MUNDO CAPITALISTA Hoje, em pleno século XXI e início do terceiro milênio,quando se vive o chamado processo de globalização, há, noBrasil e no sistema mundo do capitalismo as seguintescaracterísticas distintivas:
  33. 33. 34 a) Integração dos mercados financeiros mundiais b) Crescente presença de empresas transnacionais naeconomia do país c) Internacionalização das decisões d) Incrível mobilidade de massa de capitais financeiroscom sentidos especulativos e) Manipulação da política monetária e cambial f) Mobilidade das empresas transnacionais semcompromisso com os países que sediam suas atividades g) Constrangimento do poder dos estados nacionais h) Fabricação de diferentes partes do produto emdiferentes países à custa de baixas remunerações “marketingclearing” i) Relações intracapital ou (cachos de empresas)“producer-driven” j) Incrível velocidade de transmissão de dados einformações que fazem a dimensão espacial-demográfica perderimportância e com impactos instantâneos l) Obsoletismo do emprego com transformação noconceito de ocupação e de geração de incontrolável exclusãosocial a partir de entes humanos supérfluos ao sistema capitalista m) Obsoletismo da superestrutura, isto é, do direitopositivo, e a ele contrapondo um direito em rede e a arbitragem,ou ainda, o “direito reflexivo e o direito social”. A economia mundo do sistema mundo capitalista dá-se,hoje, com as relações dialéticas concentração versusfragmentação e exclusão versus inclusão. De um lado, assiste-se a necessidades de “network” em forma de “TEAMNETs”(empresas de transposições de fronteiras) que basicamentedecidem o que, como, quando e onde produzir os bens eserviços em forma de marcas e redes globais que forçam oprocesso de concentração nas cadeias de produção. De outrolado, a participação no mercado “market share” e o processo deacumulação levam as organizações a terceirizar, franquear,associar-se e agir em multinível, dando oportunidades a uma
  34. 34. 35grande quantidade de organizações menores (fragmentação), quealimentam as cadeias produtivas do sistema mundo docapitalismo. Imbricado à contradição supra, estabelece-se outra que seexplicita no desempenho estrutural crescente dentro de umadinâmica de uma queda de preços dos produtos em níveisglobais na tentativa de incluir aqueles que estão às margens doconsumo oriundos do processo de exclusão pela ausência deemprego provocado pelas intensas inovações tecnológicas dentroou fora dos arranjos produtivos locais (clusters). Diante de tais contradições, as organizações levam àsultimas conseqüências a estratégia do suprimento intrafirma“intra-firm sourcing” em empresa-rede “network” globais. Asconseqüências dessa estratégia fazem multiplicação do trabalhourbano informal flexível em detrimento do trabalho jornal. Portodos esses motivos, os cidadãos passam a recriar e reinventarsua própria ocupação ou seus autonegócios na medida em que oemprego some e tenta sobreviver no processo de exclusão socialem massa ou buscar proteção no sistema de cooperativas e demultiníveis. Na lógica da economia mundo ou economia do poder(militar, monetário e comunicação) no sistema mundo capitalista,o fracionamento das cadeias produtivas, vital para asorganizações, incorpora e desenvolve bolsões de trabalho malremunerados, em nível global, com tendências cada vez maioresde concentração de renda e exclusão da maioria absoluta doscontingentes populacionais nos países centrais e principalmente,nos periféricos. É importante discernir que o sistema mundo capitalista apartir do G7 é, agora, um império que domina a totalidadeeconômico-social-espacial do planeta. Não tem limites: temporal;social; espacial; e independe do estado-nação como base depoder, como aconteceu na economia mundo do capitalismo ondeo imperialismo (europeu e norte americano) tinha como base docentro do poder, exatamente, no estado-nação ou no estadointervencionista.
  35. 35. 36 Desconhecendo onde começa e termina sua áreainfluência e dominação transnacional, o império do sistemamundo capitalista, provoca um novo código de éticamulticutural, onde não mais se separam as esferas públicas e asesferas privadas, podendo, em conseqüência, impulsionar forçasmotrizes que tendam a um direito à cidadania global e a umarenda mínima para uma sobrevivência do cidadão/mundo. Essahipótese é o contraponto do principio de exclusão, ora existente,onde 80%, da população mundial, se tornam descartáveis paraque o sistema mundo capitalista possa sustentar apenas os 20%que são do sistema e o controla na perspectiva de decidir quemsobrevive e quem deve desaparecer por causa da “destruiçãocriadora”, maquinada pela atual estratégianeoliberal/monetarista/consumista do império. Sabe-se que as causas do fenômeno do globalismo sãovárias, outrossim, vale mencionar aqui as principais: a) A Revolução Mundial de 1968 que revelou ao mundoa reversão do conflito Leste x Oeste para o conflito Norte x Sulou Ricos x Pobres e provocou o destronamento das ideologiasdo liberalismo, conservadorismo e socialismo de estado, cujasconseqüências e efeitos são de longo prazo e se espraiam na atualcrise do sistema mundo do capitalismo b) A crise do padrão monetário mundial decididounilateralmente pelo governo Norte-americano, em 1971, com ainsustentabilidade da paridade dólar com o lastro ouro c) Os choques do petróleo de 1973/1974 e de 1978/1979,que desnivelaram os preços relativos da produção dos bens eserviços, em escala global, com radicais descontroles nasbalanças de pagamentos dos países e a quebra unilateral dos EUAdo acordo de Bretton Woods d) Os acontecimentos de 11 de setembro em Nova Yorke as guerras no Afeganistão e no Iraque sob uma coalizãoliderada pelos Estados Unidos por sobre as resoluções da ONU edas explosões de bombas nas vias férreas de trens e metrôs(Espanha e Inglaterra) e nos sofisticados recantos turísticos
  36. 36. 37(Indonésia e Egito) levam ao extremo a insegurança social. No intricado processo da crise, logo após a revoluçãomundial de 1968, dar-se-á o fim do fordismo e o início datransformação de empresas multinacionais em empresastransnacionais. Observa-se a conversão das ciências e dastecnologias em meio básico de produção de bens e serviços, emtoda a ordem econômica mundial, dando como resultado odecrescente ciclo de vida útil dos bens e o acúmulo de lixo epoluição ambiental de toda ordem e forte processo de exclusãosocial. Daí surge, em nível global, um novo padrão deestratificação no processo de acumulação de capital e em seuincessante rendimento em forma de lucro via capital financeiro erentista com radical aprofundamento das desigualdades entrepessoas e entre países oriundos dos novos fluxos de intercâmbioscomerciais; pagamentos; tecnológicos; informações; entreeconomias nacionais e economias regionais e entre capitaismercantis, financeiros, produtivos e rentistas. Surgem asorganizações “TEAMNETs” (transposição de fronteiras emredes). Frente a tais fenômenos, a nova ordem (e os novosparadigmas) do processo de reprodução incessante de capital dosistema mundo capitalista passa a ser condicionada pelosseguintes fatores: a) Radicais diferenças entre os países cêntricos (G7), asemiperiferia e a periferia do sistema b) Emergência e consolidação de novo paradigma da“especialização flexível da produção”, “pós-fordista” em“revolução da gestão do conhecimento” que relativiza asvantagens comparativas dos países que fazem parte dasemiperiferia e da periferia do sistema mundo capitalista c) Padrão de estratificação relacionado à dinâmica daoferta e da procura pós-investimentos diretos e indiretos noâmbito ou interior do sistema financeiro internacional, que geramcapacidades produtivas de bens e serviços sob a égide das
  37. 37. 38transnacionais, agora organizadas em: muitos centros; cadeiasprodutivas; redes; organicidades; processos; interações; muitoscanais decisórios e de recursos de informações d) Estreito monitoramento do sistema por organizaçõesmundiais tais como: OMC, FMI, BIRD e BIS sob a égide doúnico país que tem plena soberania e pleno poder de doar sentidoao sistema mundo capitalista que são os EUA e seu consorte G7,onde suas ordens são convalidadas para o sistema mundo. A partir do cenário acima, há que se buscar uma inserçãodo Brasil no sistema mundo capitalista, sem sacrifício daidentidade nacional e com sustentabilidade em termos dedesenvolvimento. Para tanto, não se deve olvidar que a dimensãoeconômica do globalismo se reificada pode levar a um tipo dereducionismo que oculta outros fatores de ordem política, culturale ambiental. Por isso é que a inserção do Brasil não pode se darnos termos dos EUA ou da União Européia, mas, talvez, como ada China, a da Rússia e a da Índia. Para tanto, há que se garantircondições mínimas de interdependências e de soberania paradecidir a doação de sentido que deve ter a política e a economianacional, sem interferências externas, como as do FMI, as doBIRD e mesmo as dos EUA. Os conceitos de nação, estado e soberania estãoimbricados aos processos econômicos, sociais, políticos eculturais na medida em que: i) a nação expressa no meio políticoa integração de pessoas com a mesma identidade coletiva, com amesma historicidade e base econômico-cultural; ii) o estadoaponta ou indica um ordenamento e um controle induzidos pelaexpansão do capital para estabelecer a unificação de estruturas depoder territorial com aplicação e regras de direito válidas paratodo e qualquer habitante cujo contorno institucional, político,burocrático e jurídico dá-se no século XIX; iii) a soberania tratado poder de mando numa determinada sociedade, política,econômica, social e cultural, que é julgada exclusiva,independente, inalienável e suprema. Está relacionada à essênciada política expressa internamente pela ordem, e externamente
  38. 38. 39pelas negociações internacionais e até mesmo pelas guerras. No contexto do sistema mundo induzido pelastransnacionais, no processo de globalização, as contradições docapital e, principalmente, do capitalismo apresentam fortetendência para o crescente esvaziamento das regras ou normas dodireito constitucional dos estados nacionais frente aos novosesquemas regulatórios e, também, das novas formasorganizacionais e institucionais supranacionais expressas pelatendência da formação dos megablocos econômicos. No pensamento de WALLERSTEIN, existe no sistemamundo do capitalismo as seguintes tendências que apontam àagonia do sistema mundo capitalista que o levam para suabifurcação dissipativa ou de sua substituição: a) Desruralização do mundo b) Crise ecológica mundial c) Democratização do mundo d) Reinvenção ou reversão do estado-nacional e) Militarização e autodestruição das forças produtivas f) Financeirização do capital com o abandono da produçãode riquezas. Todas essas tendências batem de frente ou se opõem àsforças motrizes do sistema mundo capitalista, que são o lucro e opoder, ambas, resultantes do processo de acumulação incessantede capital. É conveniente enfatizar que as organizações reticulares,tratadas neste livro, sofrerão profundas mudanças dentro dasturbulências do sistema mundo do capitalismo onde sedestacam: Fim dos combustíveis fósseis entre 2015 e 2025 Geração de energias alternativas e de biomassa para gerarenergia elétrica com vista à produção de células combustíveis dehidrogênio. Profundo impacto nas economias muito dependentes
  39. 39. 40da matriz energética dos combustíveis fósseis. Quais os cenáriospara o Brasil, e a Região Nordeste sob a ótica das empresas detransposição de fronteiras? Cassino Global Desregulamentação ou regulamentação unilateral dosmercados com especuladores de toda ordem (bancos, fundo depensões, paraísos fiscais, seguradoras, etc.) organizados para amanipulação financeira, via Internet, em meta rede mundial deinterações tecnológicas e de turbulências. Quais situações, noâmbito das organizações reticulares, prospectam-se para o Brasile nele as regiões Nordeste e Norte? Relação capital/trabalho O capital, hoje, é global e excludente no sistema mundodo capitalismo. O trabalho via emprego é local, fragmentado,descartável com tendência ao obsoletismo. A hipótese 20/80, oraem construção pelo sistema capitalista, tende a aumentar apobreza ao extremo no processo de exclusão social a partir dofundamentalismo de mercado idealizado pelo G7. O que fazerpara mitigar tal tendência com o funcionamento das organizaçõesreticulares no nível local, estadual, regional e nacional compropósitos de inclusão social? Impacto ou crise ecológica Comprometimento da biosfera e da vida no planeta.Esgotamento dos recursos naturais ou dos bens livres. Guerramundial dos ricos contra os pobres a partir da unilateralidade dosEUA, como centro do sistema, no processo incessante deacumulação de capital, cujo metabolismo se resume em duasforças motrizes: o lucro e o poder. Quais suas implicações noBrasil e na Região Nordeste e que papel desempenharão as
  40. 40. 41organizações reticulares na crise? Redes criminosas globais Paraísos fiscais, jogos e outras atividades criadas comofonte de lavagem de dinheiro. Tráfico de drogas e de armas sobsalvaguarda do judiciário e com alianças estratégicas com oestado nos países cêntricos e periféricos. Papel dos celulares elaptops nas redes criminosas tanto internas quanto externas.Como podem os princípios ou intenções da Agenda 21 da ONU ea Nacional ou mesmo local e os Planos Diretores Municipaisoriundos do Estatuto da Cidade apreender ou ter visão de talproblema com vistas às organizações reticulares? Reversão do estado nacional em estado emredes Formação dos megablocos sob a égide de mega redesfinanceiras internacionais. Ligação intermodal de transporte doAtlântico com o Pacífico, na América do Sul, e consolidação deum megabloco de integração no continente levará ou não aoobsoletismo dos estados federados do Brasil. Criação de estadosem redes. Como procederem tais cenários para o funcionamentodas organizações reticulares com vistas à inclusão social? Transformação cultural A Internet aberta e a Internet fechada. As mídias: faladas,escritas, televisas e cinematográficas. Agências de informaçõescontroladas pelo centro hegemônico do sistema. Manipulações desímbolos e códigos culturais. Como ficam as organizaçõesreticulares no Brasil inclusas, também, no processo, a luz dasagendas 21 locais, e os paradigmas do Estatuto da Cidade e deuma ética das aparências e de responsabilidade?
  41. 41. 42 A Biotecnologia e a biossegurança A engenharia genética com o patenteamento e aprivatização da vida. Ignorância e descaso de todas asconsiderações bioéticas e morais. A biologia molecular e aconcepção da estabilidade genética. A simbiogênese. A ética daclonagem. A biotecnologia na agricultura. Transformação da vidaem mercadoria. Como podem as empresas de transposição defronteiras abordarem a visão dessa atual problemática nasempresa ou sociedades reticulares? As resistências globais A situação das lutas no mundo. As questões do fim dopetróleo e a escassez da água potável. A dívida externa e a rapinasobre as riquezas e recursos humanos dos países periféricos. Aluta contra a exclusão social, a fome e a miséria na nova ordemou desordem mundial. Os movimentos das mulheres (outramundialização). A militarização do mundo. Novas condições paraa paz. Polarização capitalismo imperial x capitalismo tardio nospaíses periféricos. Projeto hegemônico Norte Americano e suaunilateralidade. Posições do Brasil, da China, da Índia, da Áfricado Sul, da Rússia e da União Européia e os movimentos quecontrapõem um Tribunal Internacional de Inadimplência aoBIRD; uma Organização Internacional de Finanças ao FMI, bemcomo, a criação de uma Organização pela ResponsabilidadeEmpresarial. As Pesquisas e Iniciativas de Emissão Zero (ZERI).Construção econômica de células combustíveis de hidrogênio(processo de descarbonização). Quais os papéis das organizaçõesreticulares frente às resistências ou a esses movimentos globais? As tendências demográficas do Brasil
  42. 42. 43 Perigo de regressão populacional e fragmentaçãonacional. A Amazônia como principal alvo do Império e do G7.As investidas internacionais sobre a Amazônia. Devem ou não asorganizações reticulares ignorar tais cenários e como podem agircontra tais tendências? COMÉRCIO MUNDIAL Com a expansão européia por meio das invasões nosnovos e velhos continentes, a partir do Século XVI, criaram-se asdoutrinas mercantilistas, que prescreviam: exportar o máximo eimportar o mínimo de mercadorias de forma a ter uma balançacomercial superavitária. Claro que todas essas doutrinas tinhamcomo objeto a acumulação de capital nos países cêntricos daEuropa à custa do saque das colônias das Américas, da África eda Ásia. O aparecimento, em 1776, do livro de Adam Smith, “Ariqueza das nações”, surge a teoria das vantagenscomparativas que reza o mito de quanto maior a vantagem, tantomenor o custo da mercadoria. Nela se imbricam as chamadasvantagens naturais como as vantagens adquiridas queprovinham de determinadas especializações em linhas deprodução manufatureiras e industriais. A grande novidade dateoria de Smith é a negação da importância de acumulação detesouros de metais preciosos para a acumulação de capital, namedida em que o conceito de riqueza, para esse autor, é obter osbens de uso necessário ao consumo da população com o menoresforço ou gasto de tempo de trabalho humano. Entretanto, David Ricardo aprimorou a teoria dasvantagens comparativas “ao demonstrar que cada país deveriaespecializar-se na produção das mercadorias em que tivessemaiores vantagens relativas, ainda que para tanto tivesse queimportar mercadorias por um valor mais alto de que lhe custariafabricá-los”. Ricardo afirmava “mesmo que se um país tivessegrandes vantagens naturais e adquiridas em todas as esferas deproduções, a especialização apenas nos ramos em que suas
  43. 43. 44vantagens relativas fossem maiores lhe traria mais vantagens doque a auto-suficiência econômica”. (Citado Paul Singer). O próprio Ricardo, no aprimoramento dessa teoria,introduziu o chamado padrão-ouro para combinar o livrecâmbio com equilíbrio da balança comercial de todos os países.Praticamente, o comércio natural da economia mundo docapitalismo em grande parte no Século XIX se orienta pela teoriadas vantagens comparativas de Smith, devidamente aperfeiçoadapor Ricardo que, também, nela introduziu uma divisãointernacional do trabalho pelas especializações advindas darevolução industrial, desequilibrando as vantagens naturais emfavor das vantagens adquiridas. No pós 2º guerra mundial, surge, na CEPAL (ComissãoEconômica para América Latina) organismo da ONU, a teoria dadeteriorização dos termos de intercâmbio em relação aospaíses periféricos ou subdesenvolvidos, formulada por RaulPrebisch e desenvolvida por Celso Furtado, que contrariou,totalmente, a teoria das vantagens comparativas até então semcontraponto. A crítica da CEPAL passa a tomar importância nãosomente nos países periféricos, mas também nos paísesdesenvolvidos e hegemônicos. Tanto isso é verdade que oeconomista francês Emanuel reformula a teoria das vantagenscomparativas contrapondo a ela outra teoria, a das trocasdesiguais. Segundo Singer, a teoria das trocas desiguais, a partirda teoria formulada por Prebisch e Celso Furtado, agora,aperfeiçoada por Emanuel, mostra “que, numa economiacapitalista internacional em que os capitais se transferemfacilmente de um país para o outro, os termos de intercâmbio têmque determinar para os países em que os custos de produção(com particular ênfase no salário) tendem a cair em relação aosparceiros de intercâmbio”, por conta da rigidez da divisãointernacional do trabalho. Durante toda a chamada guerra fria (1945 a 1990) osdebates não somente no âmbito das Nações Unidas aumentaram,mas também evoluiu a partir do acordo mundial do GATT(General Agrement on Tariffs and Trade) antecessor da OMC
  44. 44. 45(Organização mundial do Comércio) para ampliação do conceitoda divisão internacional do trabalho até chegar-se ao que seconvencionou chamar de Política do Status Quo que se explicitaa exploração dos ricos sobre os pobres. Isso a partir dos termos deintercâmbio em nível mundial que, ainda hoje, (dez.2005)estende-se na rodada de Doha da OMC, que, junto com o FMI e oBIRD, tendem a manter e sustentar, no sistema mundo capitalista,suas contradições quanto a: i) produção versus consumo; ii)produção versus controle; e iii) produção versus circulação debens e serviços aprofundando, via processo de globalizaçãoeconômica, a exclusão social, a pobreza, a miséria, não somentenos próprios países hegemônicos, mas, principalmente, nos paísesperiféricos, levando-os ao propalado conflito Norte x Sul, oumelhor, entre o centro do sistema e os novos bárbaros. Nesse imbróglio, fluem, cada vez mais, as contradiçõesdas crises: i) ecológica mundial, ii) demográfica intra einternacional, iii) da sobrevivência humana em termos dealimentação, saúde, habitação e saneamento, iv) da afirmaçãosocial em termos de educação, profissão, emprego e cultura, v) deliberdade social quanto à: mobilidade, à iniciativa, à informação eao lazer; e vi) política econômica que além de envolver ascontradições do sistema mundo do capitalismo o encaminha paraproblemas cruciais, como por exemplo: o energético, a inflação, arecessão, o desemprego ou o fim do emprego, as dívidasimpagáveis, e a reversão ou a reinvenção dos estados nacionaisnos chamados blocos econômicos e, finalmente, o que podemoschamar de quarta guerra mundial. Defendendo a construção de um Brasil grande deincluídos, é inevitável primar pelos objetivos nacionaispermanentes apresentados no diagrama formulado por ÊnioLabatut em seu livro “Política de comércio exterior”, publicadopela editora Aduaneiras. Ver diagrama a seguir. AVALIAÇÃO ESTRATÉGICA PERMANENTE
  45. 45. 46 Análise dos Fatores Políticos Psicossociais Econômicos Militares Síntese: Premissas Básicas Conceito Estratégico Nacional Diretrizes Governamentais Estratégia Estratégica Estratégia Estratégia Política Econômica Psicossocial Militar COMÉRCIO EXTERIOR Premissas Específicas Estratégica de Comércio Exterior Política de Comércio Exterior ASPECTOS Comercial Financeiro Administrativo e Iniciativas do Regulamentar Estado Do ponto de vista da Política de Comércio Exterior, para oBrasil, acredita-se que o leitor pode e deve produzirconhecimentos nos seguintes pontos de análises com vistas àconstrução de sua base de conhecimento: Sociedade brasileira no quadro do sistemamundo do capitalismo
  46. 46. 47 Sob essa ótica, deve o Brasil adotar uma política decomércio exterior inteligente e autônoma capaz, de buscar osseguintes objetivos: i) definir estratégias iniciando com umplanejamento estratégico situacional a partir do conhecimentopleno de seus objetivos nacionais permanentes e da integração daAmérica do Sul; ii) ter perfeito conhecimento dos campos a serconquistados, fazendo um levantamento das necessidades paraalcançar os objetivos explícitos nas estratégias do planejamentosituacional; iii) envidar conhecimento amplo e perfeito dasnecessidades dos países cêntricos do G7 e da ComunidadeEuropéia, dos países emergentes e subdesenvolvidos,particularmente, dos africanos com vistas à expansão docomércio Sul-Sul; iv) levantar com detalhes o “portfólio” dosprodutos e serviços de que dispõe possíveis de serem negociadose trocados no comércio mundial; e v) buscar o conhecimentoamplo e adequado dos mercados compradores e da capacidade dereação e retaliação dos países cêntricos como, por exemplo, oque, agora, fazem os Estados Unidos com as exportações doscrustáceos brasileiros, particularmente nordestinos, que têmaltíssima produtividade e competitividade. Os problemas econômicos, sociais,demográficos e ecológicos No âmbito de negociações nacionais e mundiais. Eles têma ver com um modelo autônomo de desenvolvimentosustentável. Nele além da economia privada competitiva docapitalismo (excluidora de força de trabalho) há que se constituiruma forte economia pública estatal ou não capaz de mediar osefeitos da exclusão social em benefício de outra economia social-comunitária com viés de incluir as pessoas marginalizadas pelaseconomias privadas competitivas capitalistas com vistas aerradicar as assimetrias de renda entre as pessoas e entre osespaços dinâmicos e letárgicos do Brasil.
  47. 47. 48 Rodadas de negócios no âmbito da OMC e dosblocos econômicos Devem seguir rigorosamente o sentido hoje doado peloItamaraty nas negociações internacionais, particularmente naquiloque foi discutido e que obteve consenso na UNCTAD XI, emjunho de 2004, na cidade de São Paulo. Uma boa política decomércio exterior, para o Brasil, poderia obedecer aos seguintesrequisitos: i) isenção de impostos às exportações de produtosindustrializados, principalmente de alta tecnologia, ii) baixastaxações dos produtos do agronegócio e agropastoril excetomadeiras de lei, iii) altas taxações e altos impostos na exportaçãode produtos minerais estratégicos, sem valor agregado, iv)isenção de impostos à importação de insumos básicos e produtosindustrializados sem similar nacional, v) altas taxações e altosimpostos sobre importações de manufaturados, e vi) taxas eimpostos reduzidos às importações de bens de capital ou deprodução sem similar nacional. Tudo isso sem ferir os princípiosjá acordados na OMC e com o MERCOSUL. Desenvolvimento da ciência, da tecnologia, e dacriatividade Com vistas a mitigar e anular a forma mais cruel dedominação e exploração dos países cêntricos sobre os paísespobres, quando colocam o conhecimento, a ciência e a tecnologiacomo fatores de produção no processo de acumulação incessantede capital, além daqueles preconizados por Smith (natureza,trabalho e capital). Ao impor ao mundo a privatização de dadoconhecimento, da ciência e da tecnologia, inclusive da vida, pelaspatentes, o centro hegemônico do sistema mundo do capitalismocria e aplica uma nova e sofisticada modalidade de colonialismosobre as nações periféricas do sistema. Portanto, cabe aosbrasileiros desenvolver sua criatividade, sua ciência e suastecnologias com vistas a romper com as amarras do centro
  48. 48. 49hegemônico que controlam e submetem aos seus interesses asorganizações internacionais a partir de suas empresastransnacionais que fazem rapacidade generalizada sobre os paísespobres, tal e qual aconteceram no passado pelo velho edesmoralizado colonialismo. Aspectos da economia brasileira com vistas aocomércio mundial Descansam no rompimento dos grilhões que entravam suapolítica econômica nacional e a atrelam aos interesses alienígenasem vez de terem um caráter libertador de seu povo. É sabido quetanto o Ministério da Fazenda quanto o Banco Central e o sistemafinanceiro são geridos de fora para dentro, pelo centrohegemônico do sistema mundo do capitalismo, capitaneado peloFMI, o BIRD e a OMC. Eles, à luz do chamado e propalado“mercado”, ditam o sentido da economia nacional frontalmentecontra as necessidades da maioria absoluta da populaçãobrasileira. Essa é a razão da existência da política de jurosextorsivos que alimenta uma dívida interna e externa impagável eque drena as energias e a mais valia de toda a nação para osespeculadores, de toda ordem, sejam eles estrangeiros ounacionais. Há que se ter criatividade e coragem para modificaressa situação neocolonial que faz dos brasileiros um povoprostituído ou possuído em sua essência pela alienação, nãosomente de sua força de trabalho, mas também, pela exclusãosocial que lhe é imposta de fora para dentro. Sem dúvida, essaordem ou desordem mundial imposta pelo sistema mundo docapitalismo via G7, FMI, BIRD e OMC é a unilateralidade dosEstados Unidos aos países emergentes e pobres do planeta éinsustentável e tão brutal quanto o tão propalado terrorismo oraexistente no mundo. É possível que a atual política econômicanacional seja, apenas, um reflexo e um espectro do terrorismo deestado imposto pelos nortes americanos ao chamado mundo livre.Cabe ao Brasil, em matéria de comércio exterior, em sua política
  49. 49. 50econômica: i) proceder a uma auditoria em suas dívidas interna eexterna, ii) produzir mais e melhor, iii) reduzir custos deprodução em seu sistema produtor de mercadorias paraexportação ao tempo que deve consolidar uma forte economiapública e uma economia social comunitária voltada para seumercado interno e a inclusão social, iv) abastecer o mercadointerno sem as formas assimétricas ora existentes e exportar todosos excedentes, v) continuar com a política de substituição deimportações, e vi) escapar das pressões norte-americanas sobre oacordo de patentes e da ALCA nos termos por eles colocados. Necessidade de se programar e implementar oplanejamento estratégico situacional Com vistas à totalidade nacional e, em particular, aocomércio mundial do Brasil em contraponto à propalada edivulgada “mão invisível do mercado”, cujo objetivo é perpetuara política do status quo dos países hegemônicos no comérciomundial. Para tanto, deve o Brasil desenvolver sua astrofísicacom veículos lançadores de satélites, os submarinos atômicas esofisticadas tecnologias aeroespaciais com vistas a sua soberaniana Amazônia (com suas riquezas de água, da fauna, da flora, dosminerais, principalmente nióbio), no espaço aéreo nacional e naplataforma submarina. A defesa e o uso do aqüífero Guarani, bemcomo da América do Sul, deve ser tema constante doMERCOSUL e, também, do Pacto Amazônico. No plano acadêmico, há que se tratar dos seguintesaspectos referentes à Política brasileira de comércio exterior: a) Contextualização das teorias e da política de comércioexterior, particularmente da teoria do status quo empregadas epraticadas pelos países desenvolvidos. Deve ser revista e a elacontrapor-se uma outra com vistas a incorporar novos paradigmasoriundos da UNCTAD XI, da ampliação do MERCOSUL e darodada de Doha da OMC
  50. 50. 51 b) A legislação brasileira de comércio exterior necessitaser contextualizada, reformada e atualizada de forma democráticapelas universidades brasileiras e entidades públicas e privadasvinculadas ao setor, inclusive antes de ser votada pelo CongressoNacional c) O MERCOSUL e as negociações com o ALCA devemobedecer aos princípios de integração, semelhantes aos da UniãoEuropéia, para os países da América do Sul e, quiçá, da AméricaLatina. Quanto à ALCA, o Brasil e os demais países da Américado Sul devem contrapor-se aos interesses neocolonialistas dosEUA/Canadá e, levando de reboque, o México a partir doNAFTA d) A OMC e a política brasileira de comércio exterior.Quanto a esse tema, há que se buscar, nas negociações, aerradicação dos subsídios agrícolas em um tempo não-superior adez anos, de todos os países, particularmente dos Estados Unidos,da União Européia e do Japão. Deve, também, fortalecer oMERCOSUL e o comércio SUL-SUL conforme foi amplamentediscutido no âmbito da UNCTAD XI, em junho de 2004 na cidadede São Paulo e) A UNCTAD, o comércio e o desenvolvimento dospaíses pobres. Sob esse aspecto, há que se fortalecer eimplementar os consensos obtidos por ocasião da UNCTAD XI,em São Paulo, e as novas medidas de um possível acordo noâmbito da OMC. No plano prático vale lembrar, ao ledor, que em matériade Política de comércio exterior, onde o chamado mercado livreserve apenas ao domínio e ao controle dos países cêntricos sobreos países periféricos todos os negócios se dão de formamonopolizada como negação do mercado livre. Desde os anos de1980, dá-se inicio a uma tendência de reversão do processo decontrole dos países cêntricos que naquele ano consumiam 69%das exportações dos países periféricos ou em desenvolvimento.Em 2001, com o crescimento dos países asiáticos (China, Índia,Coréia do Sul, etc.), aquela proporção caía para 57%, ou seja,
  51. 51. 5212% em 20 anos. Segundo RICÚPERO (quando Secretário Geral daUNCTAD, em artigo na Folha de São Paulo 7/12/03), essatendência vai acentuar-se pelos próximos anos não pelo fato deque “os ricos vão ficar menos ricos, mas porque inelutavelmenteestão ficando menos numerosos. O declínio demográfico noJapão, na Itália, na Espanha, na Europa, em geral, vai encolheruma população que já está próxima a saturação ao nível deconsumo. ... os EUA que continuam a crescer ainda graças aperto de 1 milhão de imigrantes legais ou não por ano. Empoucas décadas, 90% dos jovens, os mais prósperos a consumirestarão no Sul. ... O comércio Sul-Sul parecia promessa para ofuturo, quase ficção científica. Hoje, ele é realidade compotencial que começa somente ser arranhado. ... É tempo deolhar mais para os parceiros do Sul, nossos sócios no G3 ou noG20. Esses não nos exigem concessões em propriedadeintelectual em investimento como condição para o que é de nossointeresse mútuo: explorar a complementaridade de nossaseconomias. Em outras palavras, são gentes como a gente, quenão nos exigem que vendamos a alma”. A rodada de Doha da OMC. A conferência deHong Kong Na rodada do Uruguai, nos anos 80 e 90 do séculopassado, o GATT foi transformado em Organização Mundial doComércio (OMC), com uma conseqüente redução das tarifas dosbens industrializados. No reboque da rodada, houve verdadeiracapitulação dos países periféricos em relação às suasreivindicações frente aos países hegemônicos que pela via de umacordo comercial injusto praticaram e, ainda, praticam umincomensurável saque, pilhagem ou confisco de renda dos paísespobres. A partir daquela rodada, além de prevalecer a política dostatus quo nas relações comerciais mundiais, em muito, os países
  52. 52. 53desenvolvidos aumentaram seus subsídios aos produtoresagrícolas tanto no lado da produção quanto no da circulação dosbens produzidos pelos chamados países em via dedesenvolvimento. Hoje, dezembro de 2005, os subsídios oficiaispraticados pela União Européia e os Estados Unidos ultrapassama US $ 50 bilhões por ano o que implica uma incomensurávelpilhagem à economia dos países pobres. Dentro desse contexto, teve início a rodada de Doha ondeestão em jogo os seguintes interesses: a) Estados Unidos e União Européia forçam os paísesem desenvolvimento a abrir mais seus mercados para os produtosde suas empresas transnacionais e se negam a abrir seus mercadose põem barreiras aos produtos agrícolas (que eles fortementesubsidiam) aos países em desenvolvimento. São dois pesos e duasmedidas contra os pobres, por eles praticados, que resultam napilhagem supra dita b) G 20 (Brasil, Índia, África do Sul, China e outrospaíses em desenvolvimento) liderados pelo Brasil, quer o fim dossubsídios praticados pelos países ricos e o corte das tarifas quedificultam o acesso de bens agrícolas aos mercados dos ricos c) Países ricos superprotecionistas como Japão, Coréiado Sul, Suíça e Noruega que protegem seus subsídios e altastarifas, ao tempo em que resistem a abrir seus mercados agrícolas,exigem dos países pobres que abram mais seus mercados a seusbens industriais e de serviços d) Países em desenvolvimento mais pobres, que a partirdos resquícios do período colonial têm acesso “privilegiado” aosmercados dos países colonialistas e ricos por meio de cotas e quetemem concorrer com outros países caso percam essas “esmolasou privilégios” e) Países que têm grande produção agrícola eeconomia aberta como Austrália, Nova Zelândia e Chile quedefendem abertura em todos os setores da economia. Frente a esses conflitos de interesse, entram em jogo, pelaprimeira vez, as negociações sobre o setor serviço. Na medida em

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