Apontamentos sobre consciência e realidade nacional

7,645 views

Published on

Sinópse da magnífica obra do filósofo brasileiro álvaro vieira pinto, intitulada “consciência e realidade nacional”, com paráfases, compilações e interpretações pessoais de Geraldo Aguiar.

Published in: Education
  • Be the first to comment

Apontamentos sobre consciência e realidade nacional

  1. 1. APONTAMENTOS SOBRE“CONSCIÊNCIA E REALIDADENACIONAL” DE ÁLVARO VIEIRAPINTO POR: GERALDO MEDEIROS DE AGUIAR Imagem fractal. Fonte: GOOGLE RECIFE, JUNHO DE 1978. (REVISITADO, MODIFICADO E REVISTO ENTRE DEZEMBRO DE 2011 E FEVEREIRO DE 2012) 1
  2. 2. ESTES APONTAMENTOS PROCURAM SER UMA SINÓPSE DA MAGNÍFICA OBRA DO SÁBIO FILÓSOFO BRASILEIRO ÁLVARO VIEIRA PINTO, INTITULADA “CONSCIÊNCIA E REALIDADE NACIONAL”, A PARTIR DE PARÁFASES, COMPILAÇÕES E INTERPRETAÇÕES PESSOAIS. REPRESENTA, AINDA, UM BREVE CONJUNTO DA OBRAACIMA CITADA PUBLICADA EM DOIS VOLUMES (1.077 PÁGINAS), NO RIO DE JANEIRO, EM 1960, PELO INSTITUTO SUPERIOR DEESTUDOS BRASILEIROS – ISEB DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA. HOUVE BREVES MODIFICAÇÕES NA: FORMA, CONTEÚDO E ITEMIZAÇÃO DOS TEXTOS ORIGINAIS. OS ERROS DE INTERPRETAÇÕES, DE PARÁFASES, DE COMPILAÇÕES E DE SÍNTESES MAL ELABORADAS, ENCONTRADAS NOS TEXTOS, AQUI DIVULGADOS, SÃO DENOSSA INTEIRA RESPONSABILIDADE E NÃO DAQUELE SAUDOSO E EMÉRITO PROFESSOR, FILÓSOFO E CIENTISTA. A ELE PRESTO MINHAS HOMENAGENS PÓSTUMASREVISITANDO E DANDO AO PÚBLICO FRAGMENTOS DE UMA DE SUAS OBRAS. GERALDO MEDEIROS DE AGUIAR ÁLVARO VIEIRA PINTO: NASCEU EM CAMPOS EM 11 DE NOVEMBRO DE 1909 E FALECEU NO RIO DE JANEIRO EM 11 DE JUNHO DE 1987. MÉDICO, MATEMÁTICO, POLIGLOTA E FILÓSOFO. PROFESSOR CATEDRÁTICO DA UNIVERSIDADE DO BRASIL (HOJE, UFRJ). EX- DIRETOR E PROFESSOR D0 ISEB (INSTITUTO SUPERIOR DE ESTUDOS BRASILEIROS) DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA (INCENDIADO PELOS MILITARES NO GOLPE DE ABRIL DE 1964). AUTOR DOS SEGUINTES LIVROS: Consciênia e Realidade Nacional. 2 volumes,1.077p. Ciência e Existência Sete Lições sobre Educação de Adutos O Conceito de Tecnologia. 2 volumes, 1.328p. Por que os Ricos não Fazem Greve? Ideologia e Desenvolvimento Nacional A Questão da Universidade A Sociologia dos Países Subdesenvolvidos 2
  3. 3. SUMÁRIOSumário ............................................................................................................................................. 3APRESENTAÇÃO ................................................................................................................................ 8I. CONSCIÊNCIA E SOCIEDADE...........................................................................................................10 Consciência privada e consciencia coletiva ...................................................................... 10 As modalidades da consciência ....................................................................................... 10 Necessário condicionamento de todo ponto de vista ........................................................ 10 As idéias da comunidade ................................................................................................. 10II. CONSCIÊNCIA E DESENVOLVIMENTO ...........................................................................................12 Fatores ideologicos na produção e condução do desenvolvimento .................................. 12 O subdesenvolvimento como contradição ........................................................................ 12 Componentes volitivos da consciencia ideológica e a intencionalidade da consciência coletiva ............................................................................................................................. 12 Comportamentos emocionais das massas ....................................................................... 13III. CONSCIÊNCIA OCUPADA E DESENVOLVIMENTO .........................................................................14 A consciência e a práxis do desenvolvimento .................................................................. 14 A prática no país subdesenvolvido ................................................................................... 14 O trabalho e a pràtica ....................................................................................................... 14 Trabalho e filosofia no país subdesenvolvido ................................................................... 14 As filosofias: existencialistas, estruturalistas e pragmatistas, como filosofias dos centros dominantes....................................................................................................................... 15 Conceito de amanualidade. O mundo como dado e como efeito ...................................... 15 A superação do subdesenvolvimento pela acumulação do trabalho ................................. 16 A filosofia da tecnica. A inércia da tecnica e a técnica como invenção ............................. 16IV. CONSCIÊNCIA INGÊNUA E CONSCIÊNCIA CRÍTICA. CONCEITUAÇÃO DAS FORMAS DACONSCIÊNCIA ...................................................................................................................................17 Distribuição social e histórica das modalidades de consciência ....................................... 17V. CONSCIÊNCIA POLITICA E DESENVOLVIMENTO ............................................................................19 Dois sofismas relativos ao desenvolvimento .................................................................... 19 Os profissionais liberais, os politicos e a consciência ingênua ......................................... 19 O trabalho, fator de transmutação da realidade e da consciência .................................... 19 A democracia e o processo de consciência nascente ...................................................... 20 O significado da educação para o desenvolvimento ......................................................... 20 O equivoco da predominância do técnico sobre o politico ................................................ 21VI. CONSCIÊNCIA DA MASSA E PENSAMENTO BRASILEIRO ..............................................................22 3
  4. 4. A ambiguidade do conceito de massa .............................................................................. 22 A constituição da massa no processo de desenvolvimento .............................................. 22 A massa como origem da ideologia do desenvolvimento ................................................. 22 A produção da ideologia a partir da massa....................................................................... 23 A conversão do pensamento à realidade nacional ........................................................... 23VII. A CONSCIÊNCIA INGÊNUA ..........................................................................................................24 1. DEFINIÇÂO GERAL E CARÁTER FUNDAMENTAL .................................................... 24 2. CARÁTER SENSITIVO ................................................................................................ 24 3. CARATER IMPRESSIONISTA ..................................................................................... 25 4. CONDICIONAMENTO PELO ÂMBITO INDIVIDUAL .................................................... 25 5. ABSOLUTIZAÇÃO DE SUA POSIÇÃO ........................................................................ 26 6. INCOERÊNCIA LÓGICA .............................................................................................. 26 7. IRASCIBILIDADE ......................................................................................................... 27 8. INCAPACIDADE DE DIALOGAR ................................................................................. 28 9. PEDANTISMO.............................................................................................................. 28 10. AUSÊNCIA DE COMPREENSÃO UNITÁRIA ............................................................. 29 11. INCAPACIDADE DE ATUAÇÃO ORDENADA............................................................ 30 12. MORALISMO ............................................................................................................. 31 13. IDEALIZAÇAO DOS DADOS CONCRETOS .............................................................. 31 14. APELO À VIOLÊNCIA ................................................................................................ 32 15. DESPREZO PELA MASSA ........................................................................................ 32 16. CULTO AO HERÓI SALVADOR................................................................................. 33 17. MESSIANISMO DA REVOLUÇÃO ............................................................................. 34 18. ADMISSÃO DA EXISTÊNCIA DE UM PROBLEMA SUPREMO ................................. 35 19. COISIFICAÇÃO DAS IDÉIAS ..................................................................................... 36 20. MALEDICÊNCIA E PRECIPITAÇÃO DE JULGAMENTO ........................................... 36 21. CRENÇA NA IMUTABILIDADE DOS PADRÕES DE VALOR .................................... 37 22. DESPREZO PELA LIBERDADE................................................................................. 38 23. INTELECTUALISMO NA CONCEPÇÃO DOS PROBLEMAS SOCIAIS...................... 39 24. CULTO AO BOM SENSO........................................................................................... 39 25. DEFESA DO PROGRESSO MODERADO ................................................................. 40 26. IGNORÂNCIA DO POTENCIAL POLÍTICO NA ATUAÇÃO INTERNACIONAL .......... 41 27. VISÃO ROMÂNTICA DA HISTÓRIA .......................................................................... 42 28. ROMANTISMO NA CONCEPÇÃO DAS RELAÇÕES ECONÔMICAS E POLÍTICAS . 42 29. PESSIMISM0 ............................................................................................................. 43 30. UFANISMO ................................................................................................................ 44 4
  5. 5. 31. SAUDOSISMO ........................................................................................................... 45 32. PRIMARISMO POLÍTICO ........................................................................................... 46 33. AMBIGUIDADE E CONCILIAÇÃO DE IDÉIAS INCOMPATÍVEIS............................... 46 34. RECUSA DA ATRIBUIÇAO DE INGENUIDADE ........................................................ 47ViII. CONSCIÊNCIA CRITICA ...............................................................................................................49 1. CARÁTER GERAL ...................................................................................................... 49 2. CATEGORIA DE OBJETIVIDADE ................................................................................ 50 Alteração do real e a percepção das massas ..............................................................................50 O cuidado e a ocupação no país subdesenvolvido......................................................................51 3. A CATEGORIA DE HISTORICIDADE .......................................................................... 51 A realidade como processo .......................................................................................................52 O presente como dinamismo e virtualidade ..............................................................................53 Interação entre consciência e processo .....................................................................................53 4. A CATEGORIA DE RACIONALIDADE ........................................................................ 54 Sensibilidade social e pensar crítico ...........................................................................................55 Correlações causais e consciência útil ao desenvolvimento .......................................................55 A dialética da razão no país subdesenvolvido ............................................................................56 A) Inconveniência do pensamento formal .................................................................................56 B) Necessidade do pensamento dialético ..................................................................................56 c) A dialética das contradições no país subdesenvolvido ............................................................57 D) O “salto histórico" no país subdesenvolvido ..........................................................................58 E) A ação recíproca no país subdesenvolvido .............................................................................58 F) A unidade dos contrários no país subdesenvolvido ................................................................59 G) Peculiaridades dialéticas do subdesenvolvimento. "diferencial histórica" e progresso da consciência................................................................................................................................59 5. A CATEGORIA DE TOTALIDADE ...............................................................................................61 Objeções à concepção da totalidade .........................................................................................62 A totalidade como conexão de sentido ......................................................................................63 A insuficiência do conceito de “causalidade-circular" ................................................................64 A nação como totalidade envolvente ........................................................................................64 Estar no mundo e ser no mundo................................................................................................65 A ideologia do desenvolvimento é um humanismo....................................................................65 O mundo como nação ...............................................................................................................65 O desenvolvimento e a categoria de totalidade .........................................................................66 Generalidade, totalidade e doação de sentido ...........................................................................67 5
  6. 6. Revolução nacional e projeto de destino ...................................................................................68 Unificação do tempo histórico ...................................................................................................68 Uma consequência do conceito ingênuo de totalidade: o municipalismo ..................................696. A CATEGORIA DE ATIVIDADE ................................................................................... 69 Pensamento e ação ...................................................................................................................70 O trabalho e a nação como projeto ...........................................................................................71 A alienação internacional do trabalho .......................................................................................72 Ação e resistência à ação ...........................................................................................................72 Caráter histórico e social dos valores .........................................................................................74 A ética do desenvolvimento ......................................................................................................75 Responsabilidade individual na ética do desenvolvimento .........................................................75 A prática inautêntica e o romantismo revolucionário ................................................................79 7. A CATEGORIA DE LIBERDADE .................................................................................................80 Concepções ingênuas de liberdade............................................................................................80 O ato livre e o pertencimento ao mundo ...................................................................................81 A liberdade é o libertar..............................................................................................................82 A dialética da liberdade .............................................................................................................82 O equívoco da liberdade interior ...............................................................................................83 As “situações-limite” e sua superação histórica .........................................................................84 A existência autêntica ...............................................................................................................84 A liberdade concreta e a consciência política .............................................................................858. A CATEGORIA DE NACIONALIDADE ........................................................................ 86 O processo de formação nacional ..............................................................................................88 O nacionalismo como fenômeno histórico .................................................................................89 As supostas "contradições” do nacionalismo .............................................................................91 O nacionalismo como fenômeno de massa ................................................................................92 Conteúdo e sentido dos atos nacionalistas ................................................................................92 A expressão teórica do nacionalismo .........................................................................................93 O encontro das consciências no país subdesenvolvido...............................................................949. ALIENAÇÃO, FORMAÇÃO NACIONAL E REGIONAL ................................................ 94 A nação como universal concreto ..............................................................................................94 A relação de dominação ............................................................................................................95 A educação como instrumento de dominação ...........................................................................96 O nacionalismo como supressão da alienação ...........................................................................98 6
  7. 7. A nação como origem de significações e fundação da cultura brasileira...................................102 Desenvolvimento e problemas regionais .................................................................................102IX. PRINCÍPIOS DE UMA POLÍTICA NACIONALISTA..........................................................................109 1. A INCORPORAÇAO DO TRABALHO NACIONAL AO PAÍS ...................................... 110 2. A REPRESSÃO AO CAPITAL PRIVADO ESTRANGEIRO ESPECULATIVO ............ 113 3. O DESENVOLVIMENTO VISA HUMANIZAR A EXISTÊNCIA.................................... 116 4. O MONOPÓLIO ESTATAL DOS FATORES ECONÔMICOS BÁSICOS .................... 116 5. A DEFESA DA INDÚSTRIA NACIONAL AUTÊNTICA................................................ 117 6. A OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO NACIONAL ........................................................... 118 7. A REFORMA AGRÁRIA ............................................................................................. 119 8. AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS DE PLENA SOBERANIA ................................... 121 9. A EDUCAÇÃO POPULAR PARA O DESENVOLVIMENTO ....................................... 122 10. A CULTURA DO POVO ........................................................................................... 123 11. A SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL COM AS NAÇÕES EM LUTA PELA LIBERTAÇÃO POLÍTICA E ECONÔMICA ..................................................................... 124X. IDÉIAS PARA UM MODELO AUTÔNOMO DO DESENVOLVIMENTO BRASILEIRO .........................127XI. A DIVISÃO DO TRABALHO E UM MUNDO SEM EMPREGOS .......................................................144O AUTOR ........................................................................................................................................151 7
  8. 8. APRESENTAÇÃO O presente resumo com interpretações, paráfrases e compilações do livro"CONSCIÊNCIA E REALIDADE NACIONAL” (1º e 2º volumes), do professor, cientista efilósofo Brasileiro ÁLVARO VIEIRA PINTO publicado pelo Ministério da Educação e Culturaatravés do Instituto Superior de Estudos Brasileiros - ISEB se prende aos seguintes motivos: A partir de abril de 1964 (até os dias de 1978), além de vários revezes foramimpostos às forças nacionalistas e a consciência critica nacional, um controle arbitrário,inquisidor e despótico sem, porém, anular sua ação. Entretanto, durante todo esse triste eobscuro período aumentou e fortaleceu-se, mais ainda, o contingente daqueles quepassaram a adotar o modo critico de pensar que, por isso mesmo, nos incentivou a resumire parafrasear esta importante obra de ÁLVARO VIEIRA PINTO, em 1978, com o intuito deajudar àqueles que buscavam a essência da teoria nacionalista tão combatida pelas forçasretrógradas e reacionárias do Brasil. Outro motivo que muito nos incentivou a resumir e parafasear a supramencionadaobra filosófica foi à ansiedade que têm os estudantes das universidades nordestinas emcompreender e apreender os problemas concernentes à realidade braseira, deliberada econscientemente ocultadas e distorcidas pelas mídias falada, escrita, televisiva e, também,pelas autoridades docentes em comum acordo com os órgãos de repressão do EstadoBrasileiro. Assim sendo, acreditavamos que este resumo pode servir de estímulo e indicadorde numerosos estudos, teses e dissertações fundamentadas no sistema categorialapresentado nos textos. Com a agonia do chamado "milagre brasileiro" durante a ditadura e,conseqüentemente, a falência dos poderes despóticos e do estado de arbítrioinstitucionalizado, havia motivação e indução, na época, para elaborar o resumo, em tela,também, no propósito de servir de plataforma e conteúdo de um programa político-partidárionacional a ser criada com a esperada e almejada “abertura política” ou com o fim do estadode arbítrio. O maior incentivo, talvez, à elaboração do resumo, esteja no fato de a obra docitado filósofo, que foi publicada em 1960, ter passado por um severo crivo e, após anos,apresentar-se tão atualizada e autêntica como se tivesse sido escrita naquele ano de 1978.Fica aos leitores a opção de verificar a validade ou não desta assertiva retrocedendo umpouco no tempo. Cabe, ainda, esclarecer que existem pouquíssimos exemplares da obra em pauta oque, também, demandou este resumo expressando a esperança de que a obra sejareeditada num futuro próximo. Finalmente, este trabalho reflete direta e indiretamente a nossa experiência eideologia quer pela opção e necessidade de resumir em paráfrases a obra em apreço, querpelas modificações na sua forma e conteúdo. Entretanto, as omissões, os equívocos e faltade clareza de alguns trechos e parágrafos não cabem ao saudoso cientista e mestreALVARO VIEIRA PINTO e sim ao nosso esforço e nossas limitações nas sínteses einterpretações. Já a revisitação à obra com a revisão daquela 1ª versão deste ensaio(escrito em 1978) foi realizada em dezembro de 2011 a fevereiro de 2012 motivadas noEncontro Pedagógico de 2011 da Faculdade Boa Viagem quando a palestrante gaúcha,Cleoni Barbosa Fernandes, convidada para o evento, ao citar e comentar a obra do mestreÁLVARO VIEIRA PINTO ficou surpresa que, o Autor deste ensaio, professor daquelaFaculdade e presente à sua conferência, o havia conhecido e participado de várias palestrassuas no ISEB e que usava os conhecimentos daquele cientista e filósofo, na FBV, em suasaulas e nos seus escritos, conferências e trabalhos acadêmicos. Outro motivo foi que oAutor havia adquirido um mês antes do evento, em tela, à obra “Conceito de Tecnologia”de ÁLVARO VIEIRA PINTO (dois volumes) publicada no Rio de Janeiro, pela EditoraContraponto, no ano de 2008 (após o achado dos originais em 1974) e havia começado asua leitura. Também, vale lembrar que o livro “Consciência e Realidade Nacional” se 8
  9. 9. encontra de há muito esgotado (sem perspectiva de reedição) e muito dos seus exemplarespublicados pelo ISEB foram insinerados pelos militares em abril de 1964 quandoincendiaram aquela modelar e importantíssima organização do pensar crítico nacional eque, na época, era uma réplica a Escola Superior de Guerra (ESG). Nos APONTAMENTOS foram omitidos os textos referentes “ASISTEMATIZAÇÃO DA CONSCIÊNCIA CRÍTICA” e a “CONCLUSÃO” ambos constantes dosegundo volume da obra. Optou-se por se apresentar, em substituição àqueles capítulos,dois apêndices escritos pelo Autor (Idéias para um modelo de desenvolvimentoautônomo e a Divisão do trabalho e um mundo sem empregos) como inspiração,interpretação e aplicação das idéias da Obra do Grande Filósofo na contextualização daRealidade Brasileira de hoje (fevereiro de 2012). NOTA: Os APONTAMENTOS são apresentados em linguagemcoloquial do Autor e não sofreram quaisquer correções gramaticais e ortográficas.Servem como subsídios para seus trabalhos, aulas e conferências. 9
  10. 10. I. CONSCIÊNCIA E SOCIEDADE Consciência privada e consciencia coletiva A transformação da consciência privada em pública e coletiva tem suas raízes nopróprio atributo da consciência individual de assumir o duplo papel: exprimir julgamentopessoal e forjar para si o sentimento de estar exprimindo o que todos os outros pensam.Como coletiva, a consciência individual se converte em consciência de classes que seuniformiza pela comunidade dos fundamentos econômico-social em que repousam noprocesso de produção e circulação de mercadorias. A consciência individual quando se proclama coletiva assume caráter ideológicodesde que esteja ligada a realidade do país. Isto se dá pelo fato da consciência ser reflexo ejulgamento da sociedade sobre si mesma, por intermédio de quem acredita exprimir osentimento coletivo em cuja base material, física e social a consciência uniformiza-se. Em geral, o indivíduo acredita que exprime o que qualquer outro também pensa, emvez de admitir que a consciência comum seja produto do seu modo pessoal de pensaragregado ao de todos os demais humanos. As modalidades da consciência A consciência apresenta um conjunto de representações, reflexões, idéias econceitos organizados segundo estruturas caracterizadas por tipos ou modalidades e podeser sintetizada em dois tipos fundamentais: Consciência ingênua, quando desconhece ou nega seu condicionamento. Pode serculta, mas não ter objetividade quando refletem sobre o mundo apenas idéias enriquecidaspela observação e meditação Consciência crítica, quando procura e conhece o seu condicionamento. É sempreautêntica e pode ser esclarecida ou iletrada. Tem referência obrigatória na objetividade. A consciência, desde que não saiba do seu condicionamento, ou o negue, estaráexcluída da condição crítica, e assim poderá enriquecer-se do mais vasto conteúdo deerudição e sapiência, cogitar as mais profundas teorias científicas ou filosóficas, que, nempor isso, deixará de ser ingênua. A consciência crítica, mesmo nos graus iletrados, é sempre autentica, porquanto sóse faz portadora de uma idéia porque sabe ser levada a pensar pela situação em que seacha. Necessário condicionamento de todo ponto de vista Todo ponto-de-vista está necessariamente carregado de restrição posicional, dondedepende o maior ou menor grau de clareza na representação do condicionamento que afetaa toda posição, qualquer que seja essa posição. Todo o indivíduo, pela circunstância do seuexistir, é capaz de constituir um ponto-de-vista sobre o universo onde se encontra. Todocampo de visão pessoal é sempre limitado. A consciência iletrada não é menos rica emconteúdo do que a presunçosa que julga ver mais longe. Não é pelo diâmetro do horizonte intelectual que se deve achar o grau derepresentatividade da consciência da realidade nacional. A definição desse grau terá queser baseada na maneira como a consciência representa os fatores que a condicionam, ouseja, na menor ou maior clareza com que inclui na conceituação de um fato objetivo, apercepção simultânea das condições e influências que a determinam nesse ato a procedercomo procede. As idéias da comunidade As categorias da consciência crítica da realidade são determinadas por essamesma realidade. São induzidas empiricamente da objetividade do real e procedem doprocesso econômico-social. A consciência da realidade consiste na representação possuídapelo indivíduo em comunidade. Somente quando o pensamento do existente e 10
  11. 11. simultaneamente pensamento da existência, é que se revela a consciência da comunidade,pois nesta forma os aspectos do real são considerados com a significação de fatores datotalidade; só neste caso a reflexão cognoscitiva transcende os dados singulares imediatosda realidade para abrangê-la como todo. 11
  12. 12. II. CONSCIÊNCIA E DESENVOLVIMENTO Fatores ideologicos na produção e condução do desenvolvimento As idéias que a comunidade detém a respeito de si mesma configuram aautoconsciência da nação, cujo papel, no desempenho do trabalho, e a transformação darealidade. O processo de desenvolvimento nacional implica a presença de fatoresideológicos e, por isso mesmo, está sempre exposto ao imprevislvel. Fundamentando-se em fatores ideológicos, o processo de desenvolvimento éfunção da consciência que a nação tem de si mesma. A unidade ideológica não é mais quea disciplina do fator ideologico, de modo a que a comunidade possa enfrentar alternativashistóricas com respostas antecipadamente preparadas. A condição de processo consiste na formulação consciente do projeto dedesenvolvimento, envolvendo todas as iniciativas geradoras de progresso. Não há projetosocial sem ideologia, isto é, sem a suficiente unificação do pensamento e da vontadepopular, mediante representação objetiva da realidade e decisão de modificá-la. Os fatores ideológicos contribuem para produzir o processo e a ideologia é aconcepção de nova forma de ser para a existência comunitaria, em razão da qual secarregam de valores positivo e negativo todos os objetos, as idéias e os acontecimentos darealidade presente. A ideologia, portanto, torna-se fator que determina o desenvolvimento ámedida que o desenvolvimento se impõe como solução única. O subdesenvolvimento como contradição O subdesenvolvimento se constitui numa contradição no curso da história, isto é,pólo de uma contradição da qual o outro pólo é a nação hegemônica. No paíssubdesenvolvido, além das contradições fundamentais entre as classes sociais, osubdesenvolvimento, pelo seu estado geral na nação de um lado, e o comportamentoimperialista das nações desenvolvidas com os quais se relaciona, do outro, pode levar, emdeterminados momentos, que a criação ideológica exprima as condições não apenas à basedas classes sociais internas, mas também a base de nação espoliada versus naçãoespoliadora. Colonialismo e neocolonialismo identificam-se com processo desubdesenvolvimento, cujo poder se expressa na vinculação aos interesses estrangeiros e apolítica explícita e implícita, entre outras, em baixos salários, latifúndios, má redistribuiçãode renda e má representatividade política. Em geral, o subdesenvolvimento de uma nação está imbricado aos processos queincidem na economia e que tendem a manter o status quo da sociedade e da economia dopaís subdesenvolvido tais como: detereriorização dos preços das commodities que exporta,por um lado, e alvitamento dos preços dos produtos manufaturados e de tecnologias queimporta, pelo outro, processo de concentração monopolista da propriedade privada dasterras, absorção dos excedentes econômicos pelos países hegemônicos, etc. Componentes volitivos da consciencia ideológica e aintencionalidade da consciência coletiva A consciência só é fator de desenvolvimento quando deixa de ser simplesrepresentação para tornar-se projeto e origem de ação, isto é, de especulativa converter-seem política e ideológica. Assim é que a consciência se desenvolve no real na forma deprojeto de modificá-lo. Sem assumir feição poloítica-ideológica e sem tornar clara suaintenção objetivadora à consciência é inoperante. Quando a representação concreta do dado real se associa ao ímpeto da vontadeque propõe a transformação desse dado, cuja apreensão consciente é o projeto, aconsciência se constituiria em núcleos da ideologia que objetiva transformar o processo desubdesenvolvimento em processo de desenvolvimento. 12
  13. 13. A consciência não tem existência em si, independente, destacada da coisa querepresenta, mas é sempre consciência de algo; tende sempre para aquilo que é a cadainstante o seu objeto e se conforma exclusivamente no momento de representá-lo. O caráter da intencionalidade da consciência, sendo constitutivo do ser daconsciência, deve espelhar-se em todos os seus modos de ser em face do estado social;deve haver, portanto modalidades de intencionalidade, segundo as quais se configurarão osdiferentes comportamentos do sujeito, em presença daquilo que representa a si, comosendo a realidade nacional, ou seja, deve haver formas ingênuas e críticas deintencionalidades. Comportamentos emocionais das massas O problema capital da teoria da ideologia é a investigação dos modos e dascondições segundo os quais uma imagem da realidade e um projeto de transformação setornam conteúdo da consciência geral. É indício de ressentimento aristocrático acusar asmassas de incompreensão. A receptividade do espírito das massas aos planos políticos editada por causas reais e objetivas, que são parte do processo que esses planos pretendemalterar. Por outro lado uma consciência esclarecida não desconhece os fatores psicológicos,mas não se comporta apenas psicologicamente. O vício fundamental que invalida certas ideologias, e a suposição de queconseguirão assegurar o triunfo de seus projetos pelo efeito da propaganda maciça,constante e profunda. Tais ideologias caem ou se esfacelam porque acabam poracreditarem na propaganda que preparam para os outros. Reconhecida pela consciênciadas massas como autêntico pensamento de que carecia para exprimir o seu projeto deexistência, a ideologia assume caráter operatório e desencadeia forças criadoras, que afazem transformar-se de vivência subjetiva em fator dinâmico. 13
  14. 14. III. CONSCIÊNCIA OCUPADA E DESENVOLVIMENTO A consciência e a práxis do desenvolvimento A apreciação que a cada momento a consciência faz do estado da realidade écondição de possibilidade de novo projeto. O projeto de desenvolvimento nacional e umasucessão de projetos mantidos em continuidade pela intenção geral. O elenco de medidasque produzem o desenvolvimento pode ser estabelecido na e pela prática. Só a vivência dascondições efetivas da realidade permite ao individuo constituir-se em autor de suatransformação. Quem não está preso ao problema por um vínculo prático, por mais que dele seocupe, seja por simpatia moral, seja por obrigação profissional, nunca terá a vivênciaindispensável à revelação de possibilidade de solução que apenas a inteligência, por maisarguta, não será capaz de discernir. A prática no país subdesenvolvido A noção de prática não admite ser estabelecida em termos universais e não temconteúdo idêntico em todos os contextos históricos. A prática de um país subdesenvolvido está na grande maioria do povo que o habita.Para o homem do povo que habita na miséria de sua situação primitiva, não há outra práticasenão o sofrimento cotidiano e não há outro critério de verdade senão a transformaçãoobjetiva de seu modo de existência. No país subdesenvolvido, as elites, enquanto classe são também afetadas pelosubdesenvolvimento, mas, enquanto indivíduos vivem fora dele. Na situação de subdesenvolvimento as classes ricas são restritas e se achamsubmetidas a pressões sociais, por parte das classes oprimidas, com maior intensidade quenas situações de pleno desenvolvimento. O trabalho e a pràtica Os determinantes da "práxis" com relação ao individuo, são: A sua posição numa estrutura social dinâmica com estrato se classes diferenciadasem sentido econômico, ou em hierarquia administrativa. Natureza, quantidade e qualidade de trabalho que exerce na posição que ocupa. Pela posição, o indivíduo participa de uma "praxis" coletiva; pelo trabalho, encontraefetivamente a realidade. O trabalho é causa modificadora da realidade e é sempre açãotransformadora. A consciência é determinada pela prática social, primordialmente medianteo trabalho. A consciência e, na verdade, a percepção da existência do mundo enquantoespaço para a ação, campo de projetos possíveis. O trabalho é fator constitutivo do serhumano e é através dele que cada um constrói a consciência da realidade. O trabalho é a essência da prática, e seu caráter transformador é a via de acesso arealidade pela técnica inerente a natureza do ser humano. A adequação do pensamento arealidade material se faz mediante o ato humano de transformar esta realidade, e este ato éque se chama trabalho. Todo processo de produção pelo qual o ente humano busca resolver suacontradição básica com a natureza e criar-se a si próprio é revelado pelo processo detrabalho no qual também, se produz as mercadorias. Trabalho e filosofia no país subdesenvolvido As tarefas do filosofo do país subdesenvolvido são específicas e refletem acondição da realidade de que o pensador participa. Os filósofos pertencentes aos centrosdominantes da cultura contemplam o mundo do centro de dominação histórica. O pensador do mundo subdesenvolvido tem de pensar o real concreto, aquele queefetivamente se defronta e sobre o qual é obrigado a agir. O pensador do país da periferiacontempla sua realidade sem o direito de distrair-se na criação de concepções de cunho 14
  15. 15. abstrato. Até os seus mais legítimos interesses pessoais o obrigam a constituir-se emintérprete do país a que pertence. Em um dos apêndices o Autor dos Apontamentos ensaia uma discussão sobre ummundo sem emnpregos onde o processo de trabalho é objeto de reflexões. As filosofias: existencialistas, estruturalistas e pragmatistas, comofilosofias dos centros dominantes O filósofo do país subdesenvolvido é um homem em face do Tudo o quanto ele estápor fazer no mundo que é o seu. Portanto, para ele não há o Nada. Não tem direito afutilidade intelectual, quando está diante da imperiosa exigência e necessidade detransformação do mundo a que pertence. O pensador do país subdesenvolvido não pode, por isso, refletir o modo de existirde quem pensa a partir dos centros dominadores da cultura ou daqueles que se julgamdetentores da universalização do mundo. Deve denunciar a insuficiência da filosofia estruturalista, que apresenta asestruturas de forma mecânica, da filosofia existencialista, que ignora os aspectos objetivosdo existir humano, e do pragmatismo que se resume em proclamar a prática sem teoria. Há que se ter todo o cuidado em depurar os traços alienantes das filosofiasoriundas das metrópolis ou centros de dominação. Serve como uma breve advertência asnefastas conseqüências da cosciência reflexa importada dos países cêntricos colonizadores. Conceito de amanualidade. O mundo como dado e como efeito A tese central de uma filosofia para um país emergente-subdesenvolvido ouperiférico no modo de produção capitalista está na afirmação: é o trabalho que revela arealidade, na medida em que a modifica. Todas as demais formas de especulações quedesviam a atenção deste conceito central estão em oposição aos interesses internos dasnações que conformam esses países. O conceito de amanualidade (não se encontra nosdicionários) está, pois, na determinação de que os entes humanos no mundo se dão comoalgo que "está à mão", isto é, o manus, us ou man(i/u). Este conceito não deve ser usado naconcepção da filosofia existencialista que o criou, mas do ponto de vista da lógica dialéticaque o adotou. O amanual do objeto é visto como resultado de operação laboriosa, ao cabo daqual é dado porque foi feito. A qualidade de "feito" incorpora ao objeto o esforço humano.“O amanual do objeto é sempre produto da mão que o faz, dado a mão que o conhece. Osobjetos que se revelam como coisas, em virtude do caráter amanual, são na verdadeobjetos fabricados”. (Vieira Pinto) A noção do valor econômico (valor, valor de uso, valor de troca e valordesenvolvimento) do objeto ou bem econômico reflete-se, na realidade do artefato comouma das manifestações do ser humano pelo processo de trabalho. A revelação do mundo,pelo amanual das coisas, se faz, portanto, trazendo sempre caráter histórico da manufaturae se refere às forças de produção, as relações de produção e ao grau de avanço intelectualexistentes. O mundo contemporâneo é cada vez mais um mundo de fabricados e de símbolos.Quando o ente humano desenvolve a sua prática vital, por meio do processo de trabalho, apartir de determinada posição social, esta mesma posição é resultado do trabalho dasgerações anteriores. A essência da prática é o trabalho, agora no duplo sentido: de trabalhoindividual e de trabalho histórico acumulado (trabalho pretérito). O amanual de fazer objetos não muda apenas o modo de vida; muda oconhecimento do mundo. É com a instalação de um parque fabril com tecnologia nacionalque se dá a transformação qualitativa do contorno vital do ser humano, porquanto aindustrialização conduz o indivíduo e a comunidade a terem, de si e do mundo, umaconsciência qualitativamente diferente da que tinham nas fases primárias dodesenvolvimento. 15
  16. 16. A superação do subdesenvolvimento pela acumulação do trabalho O movimento de acumulação do trabalho social é a única maneira de elevar anação aos planos mais altos da existência cultural e do bem-estar humano. A importância da distinção entre tipos de acumulação do trabalho está no discernir,quando uma atividade social se aplica conscientemente a não a produzir um mais, porém aproduzir um novo. Não é apenas a acumulação quantitativa de trabalho social que gera odesenvolvimento, e sim a qualitativa. O que define em qualidade de um modo de fazer é oque se chama de técnica cuja virtualização foi e é parte do processo de humanização doanimal Homo sapiens sapiens. O desenvovimento de tal pensamento é objeto do apêndice sobre as idéias para umdesenvolvimento autônomo apresentado no primeiro anexo deste ensaio. A filosofia da tecnica. A inércia da tecnica e a técnica comoinvenção A essência da técnica, bem como sua natureza de processo, lhe é, como já sedisse conferida pela acumulação qualitativa do trabalho. A técnica é o know-how, isto é, omodo de “fazer nova alguma coisa”. A inércia da técnica está no “fazer bem”, quandoaprovado pelo consenso geral como vantajoso e produtivo, e tender a resistir àsmodificações que visem a melhorar os seus resultados. A essência da técnica não está no“fazer bem”, e sim no "fazer novo” que é, por natureza, invenção. A técnica afeta o proceso e o modo de trabalho existente e sobre ele deposita omodo novo e mais perfeito. Além de ser uma acumulação qualitativa de trabalho, é umasedimentação histórica de maneiras de trabalho distintas qualitativamente e superpostascomo camadas, revelando a natureza de processo do desenvolvimento técnico. A técnica revela-se através do jogo de ensaios e erros, no qual a imaginaçãodialoga com a realidade, até que, no curso desse confronto e dessa tensão, a inteligênciacapta nova propriedade do real ou nova possibilidade de agir, até então desconhecida. Énecessário alterar o modo de produzir, proporcionando outro nível de existência econômica-social. É, portanto, de natureza qualitativa, e não apenas quantitativa, a alteraçãoindispensável. A técnica é a criação do novo a partir do antigo; é, pois, desenvolvimento. É,também, a maneira pela qual o ser humano sistematicamente tenta resolver suascontraições com a natureza e o cosmo é, assim, processo de hominização. 16
  17. 17. IV. CONSCIÊNCIA INGÊNUA E CONSCIÊNCIA CRÍTICA. CONCEITUAÇÃO DAS FORMAS DA CONSCIÊNCIA O número de pontos-de-vista sobre a realidade é, em princípio, infinito, porém nãoa tal ponto que não se possa delinear e divisar grupos definidos pela posse decaracterísticas comuns. Quando analisados em função da realidade, esses pontos-de-vistapodem ser agrupados em dois conjuntos de modalidades fundamentais de consciência, aquidesignadas de consciência ingênua e de consciência crítica. A consciência ingênua é, por essência, aquela que não tem consciência dos fatorese condições que a determinam ou conformam. Seus atributos principais, entre outros, são osseguintes: Ter disponibilidade e independência em face dos acontecimentos Ser isenta de julgamento com intenção de rigorosa fcidelidade aos fatos Interpretar os fatos segundo as leis da lógica formal, metafísica e da moral Declarar-se incondicionada por considerar a lógica e a moral como forma dosaber às suas afirmações Submeter a realidade as suas afirmações e intenções Ser detentora de critérios absolutos de julgamento Sentir-se satisfeita consigo mesma, fechando-se ao diálogo Ser crente no valor perene de suas afirmações. A consciência crítica é, por essência, aquela que tem clara consciência dos fatorese condições que a determinam ou a conformam. Seus principais atributos são, entre outros,os seguintes: Está ocupada em descobrir os determinantes do seu conteúdo É dirigida para a objetividade Vê-se a si própria em função do real e do atual Explica-se em termos de dependência histórica Sente-se condicionada pelo processo social Sente-se variável no seu conteúdo Seus enunciados não possuem a vigência de verdades perene. A consciência ingênua é reacionária por princípio. Ela julga estar falando em nomede uma verdade que nada mais é que a defesa de regalias de estratos ou classes sociais desituações econômicas privilegiadas. Ao contrário, a consciência crítica é a tal pontoantireacionária que pode dizer–se ser antecipadora e libertadora. Deriva da reflexãoreveladora dos motivos que constantemente a determinam. A certeza desta motivação ésuficiente para dar-lhe a compreensão da sua validade temporal, para criar a expectativa deuma alteração sempre possível dos fatores objetivos a que está relacionada, embora sochegue à especificação de quais sejam os que a influenciam, em cada fase, por viaanalítica. Distribuição social e histórica das modalidades de consciência A consciência, em presença contínua do subdesenvolvimento, não pode deixar deser ingênuo em função de o real ser sempre idêntico a si mesmo. O subdesenvolvimento éinercial tende por si a conservar-se, a causar-se a si próprio. A modificação do real cria uma percepção qualitativamente nova, e está, por suavez, incentivada a substituição dos seus suportes materiais subdesenvolvidos. A naçãohegemônica perde a sensibilidade para a história, que lhe aparece como um relato deacontecimentos destinados a sancionar a dominação que ostenta e não tem outro interessenão encerrar a historia. O modo como tenta fazê-lo e tapar os ouvidos a voz da consciência 17
  18. 18. que foi sua e agora lhe molesta. Olvida o seu efetivo passado, ao vê-lo do ápice dopresente, pois interpreta as etapas atrasadas vencidas como meros obstáculos de valorlúdico, que se compraz em referir apenas com o fim de melhor gozar, por contraste, dasriquezas que atualmente possui. Fechando-se à história, na intenção ilusória de estabilizar os privilégios queconquistou, fecha-se não só a si própria, mas também a consciência dos outros. Torna-se,assim, reacionária para consigo mesma e para com os outros. 18
  19. 19. V. CONSCIÊNCIA POLITICA E DESENVOLVIMENTO Dois sofismas relativos ao desenvolvimento O primeiro sofisma descansa na suposição de que só alguns países têm o poderde realizar a revolução emancipadora. Sua nocividade está expressa nas seguintesconstatações: Desconhecer uma chance histórica de desenvolvimento para todos os países Negar o gesto emancipador dos países periféricos e sua capacidade virtual quelhes permite deflagrar o processo de desenvolvimento autônomo Negar e reprimir a formação de uma consciência nacional emancipadora que, nabase nos seus recursos materiais, formule a solução de desenvolvimento autônomo Desconhecer que a relação internacional centro-periferia só subsiste dentro deuma conjuntura, que é a atual, mas nunca é a definitiva. O segundo afirma que o desenvolvimento de um país subdesenvolvido tem de serfeito por outro que esteja em condições de pleno desenvolvimento. Igualmente, ao anterior éaltamente nocivo porquanto: Nega que existem, na realidade nacional, forças expansivas capazes detransformar a nação e de elevá-la a um ou vários graus mais altos Desconhece o desequilíbrio de uma estrutura de relações objetivas, como leinormal do desenvolvimento Perpetua o regime de relação centro-periferia, que encobre a essência dahegemonia das nações dominantes Nega aos países subdesenvolvidos a posse de fatores intrínsecos e endógenosde desenvolvimento autônomo Desconhece que o desenvolvimento econômico-social pode ser feito empequena parte com o capital estrangeiro, mas nunca pelo capital estrangeiro Desconhece que o investimento de capitais e técnicas no país subdesenvolvidosó tem efeito salutar no seu processo nacional em condições de plena soberania. Os profissionais liberais, os politicos e a consciência ingênua Uma das graves deficiências da nação ser subdesenvolvida reside no fato de queseus intelectuais, particularmente economistas, advogados, sociólogos, bacharéis em direitopor estarem, na maioria das vezes, nos setores mais representativos da consciênciaingênua, sucumbem facilmente à sedução dos proveitos da corrupção e da docilidade àsmanobras das corporações e empresas multinacionais ou transnacionais. Sem a intervenção de profissionais (economistas, sociólogos, engenheiros, etc.)portadores de uma consciência crítica, é difícil planejar os grandes empreendimentos que anação carece. Quando não são dotadas de consciência autêntica, as respostas que dão aosproblemas nacionais serão com freqüências simplórias, pois analisam o processo dedesenvolvimento nacional de fora para dentro e não de dentro para fora. Tendo, em geral,uma formação nos livros das nações hegemônicas, esses profissionais resistem emdespojar-se do saber adquirido que cegamente o empregam á realidade, em vez de reduzí-lo ou, ainda, induzir do real nacional as categorias efetivas com que devem apreendê-lo. O trabalho, fator de transmutação da realidade e da consciência Desenvolver-se é introduzir na realidade em repetição contínua de novos fatorescausais, a fim de gerar o mais ser do futuro em relação ao ser do presente. A transformaçãoem que o desenvolvimento consiste é devida ao trabalho humano aplicado à realidade 19
  20. 20. material. O processo de trabalho, neste aspecto, é considerado na função de fator detransformação da consciência da realidade. É assim que o trabalhador, em dado momento, toma consciência de que asmudanças do real são efeitos do seu trabalho esse valoriza e passa a exigir participação dosbenefícios da transformação. A partir desta mudança qualitativa, altera-se a perspectivaconsciente do trabalhador e sua visão do mundo, sensibilidade aos fatos, escala de valorese órdem de exigências. Daí a qualificação da obra se refletir na qualificação da pessoa. Ao incrementoquantitativo do produto corresponde um incremento qualitativo do produtor. O trabalhadorfaz a descoberta do mecanismo determinante do desenvolvimento da realidade material aoperceber que este não é outro senão o seu prõprio trabalho. A democracia e o processo de consciência nascente A formação do pensar crltico é sempre mais retardada que o avanço do processode desenvolvimento. É inteiramente descabido pensar em exigirem-se políticos superiores emaio grau de consciência posslvel relativo à etapa em que o processo da realidade se acha.A eleição no estado democrático refuta a ilusão aristocrática em supor que são os melhoresque fazem o melhor. Discerne-se facilmente o idealismo desta concepção; não existem os"melhores", nem o "melhor” abstratamente, a não ser para os representantes do pensaringênuo. O caráter de "melhor", aplicado a pessoas ou as ações, só admite ser definidoconcretamente, em função de uma circunstância histôrica particular e em relação ao dadopresente da realidade. Pensar em "criar llderes" e organizar especialistas em "relações humanas"representa a institucionalização do conhecimento ocioso ou da "mào-sem-obra”, isto é, umsistema educacional para atividades de valor nulo. O aspecto grave destas atividades devalor nulo está em que consomem ponderável montante de recursos sociais, representando,assim, um parasitismo dos bens da comunidade. O significado da educação para o desenvolvimento É ingênuo pensar que o Brasil possa ter índice educacional melhor do que opermitido pela etapa do desenvolvimento em que se encontra o processo de transformação.A educação não precede o processo de desenvolvimento, acompanha-o. A educação é aconsciência de atuar em cada etapa da realidade a fim de transformá-la em outraqualitativamente superior. O "pedagogismo", a "educação mais difundida" ou "educaçãomais funcional”, são termos de caráter abstrato nas infindáveis propostas de reforma doensino "para melhor atender as nossas necessidades". O essencial é mudar a perspectivaem que são colocados, ou seja, transferidos do plano do pensar ingênuo para o ponto-de-vista da consciência crltica da realidade, que consiste em ações concretas e complexas aexecutar sobre uma realidade material diflcil de se penetrar e de entender. A aceitação desses desafios, e seu cumprimento, não é coisa que se façaintuitivamente, sem preparo, sem projeto e sem consciência. A educação é justamente aconsciência das ações e a mobilização dos meios e recursos adequados a executá-la. Arealidade é que suscita o conteúdo da educação conveniente para determinado momentohistórico, cabendo apenas a pedagogia, como ciência, estabelecer os meios e osprocedimentos próprios a possibilitar a transmissão da matéria que o constitui. Existem duasmodalidades ou dois sistemas pedagogicos, a saber: O oficial, de carâter formal, sempre imposto de cima para baixo O real, imposto pelos fatos na pressão que exercem sobre o pensamentoministrado no processo mesmo de desenvolvimento. A educação adequada ao país subdesenvolvido é a autoreprodução da reflexãocritica, mediante a transmissão de um individuo a outro. Educar para o desenvolvimento édespertar, no educando novo modo de pensar e de sentir a existência, em face das 20
  21. 21. condições nacionais com as quais se defronta. A cultura não é a acumulação earmazenamento do saber, mas a sua assimilação, segundo uma perspectiva que éconsciente dos fundamentos e exigências, a partir dos quais incorporou os produtos doconhecimento de uma época anterior e os pensa com o saber atual. O equivoco da predominância do técnico sobre o politico É ingenuidade desligar da esfera da decisão politica certo numero de questões, soba alegação de que, por sua natureza técnica e complexidade, só devem ser discutidos porespecialistas e iniciados. A perspectiva critica acentua o significado do político de todaproposta de transformação das instituições e dos procedimentos sociais vigentes. Subordinaas decisões que acaso afetem o conteúdo objetivo da realidade à deliberação dosrepresentantes politicos da comunidade. A decisão da comunidade deve caber aos que seacham investidos da representação política. O ideal da "tecnizaçã” e o da “economização”da função política é uma manifestação da ingenuidade ideológica. Uma das deturpações conceituais, a que está sujeita a teoria do desenvolvimento,consiste em julgar que, pelas funções desempenhadas pelas elites, pelops plutocratasdirigentes e empreendedoras, a estas devam ser atribuídos os méritos, asresponsabilidades, as honras, e, portanto, os lucros maiores das iniciativas progressistas,reduzindo-se a um papel de fundo, a uma ação exclusivamente material e anônima, otrabalho das camadas proletárias. 21
  22. 22. VI. CONSCIÊNCIA DA MASSA E PENSAMENTO BRASILEIRO A ambiguidade do conceito de massa Na medida em que se pensa em transformar a nação brasileira, hojesubdesenvolvida, em uma nação desenvolvida o conceito de massa se diferencia daqueleutilizado pelo pensamento dos países hegemônicos e, também, daquele que se proclamamsocialistas. O conceito de massa não é de conteúdo subversivo como deseja e apregoa aconsciêcia primária e muito menos exprime a mesma realidade social em toda parte ou emtodas as nações, particularmente, quando são desenvolvidas ou subdesenvolvidas. Qual o conceito de massa que convém a formação do Brasil como uma nação parasi? A massa para os brasileiros é constituída pelo contigente da população nacional quelabuta no chamado setor informal, assim como, nas atividadades formais primárias,secundárias e terciárias para aferirem até três salários mínimos/mês. Mesmo reconhecendoa ambigüidade do termo “massa”, no contexto sócio–econômico do Brasil, é a essecontingente populacional que, na nossa avaliação, pode ser aplicado o termo ou conceito de“massa”. É para ela que se advogam os investimentos nacionais com vistas a contribuir paraa solidificação e a ampliação do mercado interno que pode e deve visar à sustentabilidadeda nação na medida em que o restante da população vive arabescamente e são arautos doconsumismo dos produtos e das tecnologias dos países cêntricos-imperialistas que nossubjulgam economicamente, ditando o sentido da economia nacional. Essa fração mínimada população brasileira que está por sobre a massa é aquela que vive numa economia dedesperdícios, viajando sempre e fazendo gastos suntuosos no exterior que chegam a serum acinte e desrespeito a virtuosa massa brasileira. A constituição da massa no processo de desenvolvimento Com vistas a esse aspecto da realidade nacional é válido considerar no contextosocial da nação o seguinte: Definir e qualificar a efetiva participação da massa no processo dedesenvolvimento brasileiro Demonstrar e doar sentido a ideologia do desenvolvimento nacional umconteúdo que venha atender o bem-estar da massa Explicar e doar sentido as ações da massa naquilo que pode e deve alavancar odesenvolvimento do país. É necessário que se tenha a devida consciência que no processo dedesenvolvimento do país a massa não preexiste a ele, mas tem início a sua existênciaquando se configuram progressivamente os alicerces da formação de uma nação para sicomo, hoje, se assiste no cenário nacional. A massa é entidade social não somente pela força de trabalho que representa, masigualmente pelo pensar unificador de que é sede. É sabido que o trabalho que executa geracosciência particular e, portanto, um ponto-de-vista sobre o estado da realidade nacional.Esse trabalho, pelas comunidades de avanço técnico, de condições materiais e econômicasfaz com que o processo de desenvolvimento tenda a coletivizar a consciência em umarepresentação uniforme e crítica. A massa como origem da ideologia do desenvolvimento A massa quando formada e consolidada na totalidade nacional é reconhecidacomo doadora de sentido da autêntica teoria do desenvolvimento do país. Por issodesencandeia ações eficazes para o desenvolvimento com vistas a conformar uma naçãopara si. É, portanto, no seio das massas populares que se encontram os pontos deaplicações de todos os vetores desenvolvimentistas no âmbito da nação. 22
  23. 23. Ao assumir a vanguarda do processo de desenvolvimento a massa se torna origemda política e ideologia desenvolvimentista por duas razões básicas: A primeira, por que é ela que executa as tarefas materiais e sócio-econômicaspara tal sentido A segunda, por que os efeitos de tais ações redundam em proveito dela e danação como totalidade. Estamos, hoje, assistindo os primórdios da ação da massa em proferir o seu ideáriopara o desenvolvimento nacional. O processo está em marcha e a criação política eideológica que lhe deve corresponder é inevitável no que pese a crise sistêmica do sistemamundo capitalista, hoje, vivenciada em nível global. É notório, no Brasil, que somente amassa está em condições de possuir a iniciativa e a consciência da realidade nova do paísdetendo as idéias gerais que serão sistematizadas na política e na teoria dodesenvolvimento autônomo nacional. A produção da ideologia a partir da massa O ajustamento do pensar político-ideológico da massa aponta que nas condiçõespresentes, a cada momento histórico, não é instantâneo, antes se dão com atrasos cujarazão é encontrada em dois fatos: A rapidez com que muda a realidade do país que entrou decididamente em fasede desenvolvimento autônomo quando as alterações que se dão na estrutura básica e demodo acelerado sem dar tempo a que se compreenda logo à significação do que nelas estáimplicado A construção de novo aspecto da natural inércia político-ideológica nasolciedade e a existência de mecanismos psicológicos refreadores e que operam a favor oucontra as representações adquiridas. A produção da ideologia a partir da massa deve ter implícito o hábito do pensar arealidade para no futuro revelar a inteligência e a consciência para vencer todo e qualquerestigma e resquício da ideologia do colonialismo. Esse hábito se revela valioso quando ainteligência e a consciência passar da fase reflexa para a fase da consciência autônoma. Já se vislumbram nos horizontes das massas brasileiras grandes exigências desuperação do atraso educacional do país e a necessidade de se criar centros eorganizações de desenvolvimento da tecnociência capaz de criar a sociologia, a engenharia,a economia poilítica e a filosofia que lhe possa ofertar a consciência crítica da realidadebrasileira em contra ponto a consciência reflexa das metrópolis estrangeiras. A conversão do pensamento à realidade nacional No Brasi já se costata que as massas já dispendem energia no sentido de realizara mutação de qualidade de passar de uma forma de existência a outra distinta como espéciee não apenas em grau, cujo comando e expansão reinvidica para si. Essa conversão dopensamento à realidade brasileira visa radical mudança de qualidade no processo deproduzir com vistas ao estatuto ontológico de ser-para-sí nos campos: político, econômico esocial. Para tanto, busca, praticar a prévia conversão dos enunciados de procedênciaforânea ao mundo que é o seu. Deve a massa brasileira se precaver contra o engano de supor a necessidade deum único problema como objetivo e valor absoluto quando se sabe que este só é sentido emfunção de um contexto histórico-social muito particular. É somente em razão do avanço dodesenvolvimento nacional que as massas se configuram como tais com caráter objetivo paraa solução dos seus problemas. 23
  24. 24. VII. A CONSCIÊNCIA INGÊNUA 1. DEFINIÇÂO GERAL E CAR ÁTER FUNDAMENT AL A consciência ingênua é, por essência e por definição, aquela que não temconsciência dos fatores que a condicionam, que se julga origem não originada e causaincausada sobre o ser das coisas, a significação dos acontecimentos e ao valor das ações. A consciência ingênua julga-se origem absoluta, donde não precisa obedecer àrealidade, mas pensa que a realidade é que lhe deve obedecer. Com respeito à suaingenuidade ela é, em muito, de natureza reflexa oriunda dos centros hegemônicos dosistema mundo do capitalismo. As massas brasileiras devem levar em conta que uma coisaé reconhecer a necessidade de adaptar os conceitos estrangeiros, outra é saber comoredefiní-los e com que critérios fazê-los. A postura ou forma básica de localização e interpretação da realidade chamada deingênua está inserta, geralmente, em enfoques eurocêntricos, americanocêntricos eetnocêntricos da realidade brasileira. Sua consciência é emocional, linear e divorciada daobjetividade e dos fatores e condições que a determinam. Encontra-se em disponibilidade eindependente das coisas e dos acontecimentos. É isenta de julgamento com a intenção derigorosa fidelidade aos fatos. Interpreta-os, segundo os princípios da lógica metafísica formal, da moral e dapaixão. Julga-se incondicionada por considerá-los, a síntese do saber, no que se refere, àssuas afirmações às quais submete a realidade. Sente-se satisfeita consigo mesma. Detémcritérios absolutos de julgamento. É fechada ao diálogo. Atribui valor perene ás suasassertivas. Tem vários atributos quando condicionada pelo seu caráter eurocêntrico eetnocêntrico, como sejam: a visão mitológica da realidade, a ausência de compreensãounitária, o condicionamento pelo âmbito individual, a incoerência lógica, a absolutização desua posição, a incapacidade de atuação ordenada, além da idealização dos dadosconcretos, do moralismo, da irascibilidade, do pessimismo, do ufanismo, do saudosismo,apelo à violência e muitos outros qualificados. A seguir se apresenta uma ordem de atributos e caracteres da consciência ingênuaou cândida parafraseada ou extraída da obra do sábio Álvaro Vieira Pinto, intitulada"Consciência e realidade nacional" (MEC-ISEB). 2. CARÁTER SENSITIVO Através deste caráter, a consciência ingênua fundamenta-se em percepçõessuperficiais, o que a faz tomar irrefletidamente a aparência, o sensível com que se defrontacomo expressão última da realidade. Reduz, assim, o real ao dado imediato, e este énaturalmente o que a impressiona no momento.Tem percepções superficiais. Valoriza a aparência. Reduz o real ao dado imediato.Impressiona-se pelo momento. Interpreta a realidade de acordo com as vantagens eprejuízos que lhe causa. Perde-se em mimetismo. Transmite emoções de outros. É passiva,imitativa e reflexa. Está disponível a influência alheia.Contentando-se em exprimir seu estado emocional julga estar emitindo conceitos válidospara a realidade como um todo. Desta forma, exprimindo seus interesses materiais, em vezde examinar racionalmente, segundo uma compreensão total, a relação dos seus interessescom o estado geral do processo, reage emotivamente o combate de situações criadas epassa a interpretar o conjunto do processo de acordo com as vantagens ou prejuízos quelhe causa. 24
  25. 25. Daí a vociferar valorações genéricas do tipo: "o país vai bem" esgotando-se no mundo deemoções que lhe é peculiar, ou seja, em torno de vantagens e prejuízos que lhe trazem osacontecimentos.Por achar que o mundo é um conjunto de objetos e pessoas destinadas a lhe causar bem-estar perdem-se no mais vil mimetismo, atrelando-se às emoções de outrasintelectualidades igualmente ingênuas e passa a refletí-la em seus conceitos de valores. Poreste caráter de transmitir as emoções dos outros, assume postura passiva, imitativa, reflexa,estando, portanto, sempre disponível a influência alheia. Sua principal fonte de idéias é apaixão que lhe serve sempre como critério de verdade. 3. CARATER IMPRESSIONIST A Tem valor de simples impressão pela aparência. Sente os acontecimentos de formaemocional. Não pensa a realidade. Justifica-se a si própria. Interpreta a realidadeindependentemente de quaisquer conexões racionais. Encerra-se na subjetividade e naaparência dos fenômenos. Reflete sentimento das idéias e estados de ânimos. É cega àsrelações entre os fatos e entre as coisas.Por ignorar os fundamentos de sua apreciação, seus enunciados têm o valor de simplesimpressões, tomadas dessa aparência, que não consegue apreender na sua exatasignificação. Sua disposição natural não é de pensar sobre os acontecimentos, mas a desenti-los intensamente. Identificada por estes atributos, quando é colocada frente aosacontecimentos, ela através deste contato emocional, justificar-se a si própria.A partir daí, sua essência se expressa em demonstrar interesse pela realidade, vivendo-anum processo de percepções singulares, independentemente de quaisquer conexõesracionais. Por isso mesmo, é cega às condições que lhe permitiriam descobrir o significadológico dos fatos, estabiliza-se em uma atitude impressionista, elevando-a a categoria deprocedimento metodológico.Este tipo de procedimento é altamente indesejáveis e graves, quando afeta o pensamentode técnicos, docentes e especialistas, pois, sendo portador de cegueira e obstinação nocampo das idéias, cai, fatalmente, numa condição de confinamento e perde por completoquaisquer percepções críticas do conjunto da realidade. É por esta postura impressionistaque se vê a candura do pensamento de muitos acadêmicos, especialistas, políticos,jornalistas e intelectuais, quando no trato de questões econômico-social.Seu traço principal é seu encerramento na subjetividade. Contentando-se com asaparências, ela transporta para o plano do subjetivo o que, de fato, é conteúdo dotado delógica própria. Fechando-se a captação das razões objetivas seu raciocínio limita-se asformas de sentimento das idéias e de estados de ânimos que lhes dão os substratos dasapresentações no plano da subjetividade.Por esse mecanismo de pensar, ela ignora as conexões materiais que constituem a lógicainterna da realidade e, portanto, não vê as relações entre os fatos ou entre as coisas querepresentam a pertença verdade da realidade. Por isso mesmo, a sonoridade de suasformulações pretensiosamente universalista cai, fatalmente, em construções irreais querepresentam seu caráter cândido impressionista. 4. CONDICIONAMENTO PELO ÂMBITO INDIVIDUAL Apreende a realidade de um ponto de vista individual. Tem visão limitada e julgainterpretar o real. Confunde o visto com o existente. Confina-se no seu próprio âmbitoindividual. Desconhece e ignora os processos históricos das transformações da realidade. 25
  26. 26. A consciência ingênua está sempre condicionada pelo âmbito individual privado. Apreende arealidade a partir de um ponto de vista do individuo, isto é, limita-se à área da existência dequem a constitui. Representa uma visão limitada, que julga ser contemplação de todo real eatual.Em linhas gerais, recusa que toda consciência é, naturalmente, um "ponto-de-vista", ou seja,uma unidade de representação do real que a consciência critica vê em totalidade eatualidade mediante a aquisição de noções que transpõem ou circula a existência de cadaser humano individualmente. Por isso mesmo, a postura ingênua confunde o visto com oexistente, pois, não tendo consciência da sua "situação" e do seu condicionamento, falta-lhea possibilidade de ver a sua posição no conjunto mais geral da sociedade, e admitir que hajamúltiplas regiões da realidade que lhe são desconhecidas.O que acontece ao técnico, ao político, ou especialista qualquer, quando se confina no seupróprio âmbito individual e a partir dele, se propõe, sem a devida compreensão metódica, acaptar a realidade inteira: é o arquiteto que pensa somente como arquiteto, é o urbanista,para quem os problemas sociais são os exclusivamente de sua especialidade; é o políticoque reduz as lutas econômicas e sociais contra as ações exógenas das naçõeshegemônicas, a problemas de subversão, etc.Pelo caráter do condicionamento pelo âmbito individual, a consciência ingênua revela-seatravés de conceitos "universalistas" do tipo: “inquietação do nosso tempo", "crise espiritual""rearmamento moral”, etc. Estes conceitos impressionistas não têm correspondência algumacom o processo histórico das transformações da realidade. 5. ABSOLUTIZAÇÃO DE SUA POSIÇÃO Acredita ser absoluta. Não vê como é possível pensar diferente. Não está dispostaa discutir o significado e as razões de sua posição. Não discute, contenta-se em responder.Sua formulação é abstrata, pois só assim consegue ser absoluta. Falta-lhe a percepção dasdeterminações históricas; por isto absolutiza o ponto de vista de sua classe, do seu país, dasua raça, da sua posição ideológica, Considera-se sujeito da história, para o qual todos osdemais indivíduos são objetos.A consciência ingênua é, particularmente, nociva quando passa a exaltar certos princípios eideais elevados a verdades eternas, pois, coincidindo com os interesses individuais de quemas cultiva diretamente ligado a vantagens pessoais ou indiretamente às do seu grupo ounação, chega a descambar diretamente para o fascismo, desconhecendo o direito deexpressão à consciência discordante, ou eliminando-a por métodos violentos, genocidas oude torturas.Por outro lado, este caráter de absolutização da sua posição pode levar também aconsciência ingênua a enveredar-se pela inatividade e pelo fatalismo, isto é, sua percepçãoa-histórica dá-lhe todas as facilidades de sentir-se segura em seus enunciados, e quem estáseguro do que sabe, não achando motivos para dúvidas, não se dispõe a provar a realidade,dispensa o contato com os fatos, tende, por conseguinte a não agir.Pelos motivos expostos, o caráter de absolutização de sua posição pode levar a consciênciaprimária, como ativa, ao mais desenfreado fascismo, ou, como passiva, ao fatalismo. 6. INCOERÊNCIA LÓGICA É surda e incoerente às formulações lógicas. É dogmática. Não tem precisão delinguagem e de pensamento. É cega às matizes da realidade. É insensível à argumentaçãoobjetiva. Foge a qualquer objetivo que contradiga suas afirmações. Acham importante e 26
  27. 27. digno de atenção, apenas, os seus julgamentos. Tem aversão às formulações críticas. Ésilogística e escolástica. É hostil aos princípios de racionalidade.A consciência ingênua é surda as formulações lógicas, insensíveis as matizes nadiferenciação dos conceitos. Por ser dogmática exibe constante imprevisão de linguagem epensamento. É imprecisa pela falta de contato com o real. Emprega repetidamenteexpressões indefinidas como: “tal e qual”, ”tal é a coisa”, “etc e tal”.Por ser cega as matizes da realidade a consciência cândida busca somente efeitos estéticosda realidade e, portanto, limita-se em zombar daqueles que procedem a investigar os dadosempíricos. Pela absolutização de sua posição, fica insensível à argumentação objetiva, àsanálises e demonstrações matemáticas. Tem aversão a discutir em termos concretos e fogea qualquer objetivo que contradiga alguma de suas afirmações. O que lhe é importante, sãoos seus julgamentos e, assim, torna-se impermeável as razões do adversário que, a priori, jásabia ser pessoa equivocada. Não argumenta quando suas atitudes estão em jogo,porquanto, elas, ao seu modo de ver, são as certas e verdadeiras. Tem horror àsformulações criticas e, por isso mesmo, taxa pejorativamente de “teóricos” a todos aquelesque pensam criticamente.Desconhece e nega que o pensar crítico seja a tradução, interpretação e apreensão doconcreto ou do empírico em linguagem racional, porque é procedente da incorporação arepresentação subjetiva da lógica imanente ao processo.Muitas vezes, por ser culta erudita e simplista a consciência cândida apresenta propensão aargumentar, mas de forma silogística e escolástica, interessando-se apenas em explorar asconexões abstratas entre as idéias e, por isso mesmo, é hostil aos princípios deracionalidade e de crítica, pois julga definir-se pela clareza e logicidade, que supõe serobjetiva. 7. IRASCIBILIDADE É reclamadora e deblatedora. Substitui os nexos reais por ligações entre estadospsicológicos. Vive indignada contra os fatos e atitudes dos humanos. Decepciona-se deestar num mundo que não lhe obedece, isto é, teima em ser o que não deveria ser. Éfanática e irascível. Inverte a existência em acusação normal contra a realidade.Por ser contra aos acontecimentos, deblatera contra tudo e contra todos. Substitui os nexosreais das coisas por ligações entre estados psicológicos dos agentes. Grita contra aestupidez, a incompetência e, sobretudo, a desonestidade dos responsáveis pelos negóciospúblicos, não acredita em corrigir a realidade na medida em que se substituem os autores.Sendo fechada, circunscrita, tendenciosa, por sistemática reação a exaltar-se, ela vive nadecepção de estar num mundo que não obedece ao que para ela seria racional. Por issoacusa a realidade, desligando-se da ação causal dos fatores objetivos e inverte a existênciaem acusação moral contra a realidade. Ignora que a moral é uma defesa do coletivo socialhumano contra o indivíduo. Daí passa o mundo a ser, para ela, um depósito de perversidadee de malícia, porquanto, teima em ser o que não devia ser. É por excelência fanática.Por ser colérica, ela apregoa que a ignorância e a imoralidade estão por toda parte;portanto, a ela cabe promover a purificação das almas e separar o "joio do trigo", ou seja,condenar todos aqueles considerados maus.Para a sua ressonância ou acústica recíproca, ela cria e alimenta tendência do "escritoringênuo e público-ingênuo”. Por isso se alicerça na deblateração desenfreada e no vitupérioque lança contra o esta candura do pensar mágico. É levada a se julgar no dever de clamar, 27
  28. 28. cessar, e manter uma eterna vigilância contra os desvios da história. Jamais pode entenderque o preço da vigilância de países hegemônicos pode ser também, o preço da eternaescravidão. 8. INCAPACIDADE DE DIALOGAR Nega o diálogo como ação concreta. É impenetrável à comunicação. Demonstraque a consciência discordante vem à discussão sem estar de posse da verdade que é sua.Não admite a verdade como valor social. Recusa que no âmbito da comunicação coletiva aprática se torna fundamento da verdade. Vive em busca de aplausos. Contenta-se com suasaclamações emotivas e multiplica-se sem se reproduzir.Tendo assumido a validade absoluta do seu ponto de vista, considera aberração mentalqualquer posição diferente da sua. É profundamente antidialógica. A procura da verdade éum escândalo intelectual e uma fraqueza moral. O convite ao debate, a tentativa de ordenarracionalmente as idéias, procurando estabelecer os problemas e investigá-los de modometódico, tudo isso lhe parece recurso tendencioso, indício de falta de certeza em quem outiliza; demonstra que o adversário vem à discussão sem estar ainda de posse da verdade,mas quer procurá-la enquanto analisa a questão em apreço, revelando sua debilidadeperante a qual já está seguro de possuir aquilo que o outro penosamente vem buscando.Impenetrável á comunicação, é conduzida a ver na consciência discordante permanenteintenção maliciosa, demonstrada na repetida negação das idéias e fórmulas que lheparecem às únicas justas.Vocifera e não aceita que o diálogo é condição existencial do ser humano, e que, por issomesmo, não pode ser exercício imaginário. Por essa postura, não vê o diálogo como umdrama concreto, travado entre existências que ocupam, no espaço e tempo social, posiçõesdistintas e, às vezes, antagônicas, em virtude de razões que afetam, existencialmente, umae outra.Pela sua incapacidade de dialogar, a consciência ingênua não aceita que a verdade é umvalor social, exigindo a participação de/ou por outro que a deve aceitar, mediante condiçõesque lhe sejam próprias; do contrário, seria elucubração solipsista.Não permitindo que a verdade adquira significado social de caráter crítico, escapa-lhe osignificado do existir objetivo. Por isso, desconhece que, só no âmbito da comunicaçãocoletiva, a prática se torna fundamento da verdade, pois, não é na experiência pessoalisolada que se estatui o vínculo de conhecimento entre o pensar e o ser.A consciência primária tem, ainda, uma característica de transferir ao interlocutor aincomunicação de que padece pelas definições que tem de si e dos seus condicionamentos.Vive à cata de aplausos contentando-se com aclamações emotivas e, assim, ela multiplica-se sem se reproduzir. Instalada entre espelhos, na repetição ao infinito da própria imagem,considera o reflexo de si mesma satisfatória aprovação. 9. PEDANTISMO É receptora da cultura alheia eurocêntrica ou universal. Divorcia-se da relação quedeveria ter com sua existência social. Valoriza o que sabe e o problema com empáfia.Apregoa e divulga a recepção da cultura. É por natureza eurocêntrica, americanocêntrica ouetnocêntrica. Vive a busca de: elogios, cargos, títulos, medalhas, honorárias e honrarias.A consciência ingênua tem, por fundamento, a falsa compreensão do papel da consciênciaem relação à realidade a que está ligada que, da sua maneira de ser, das suas 28
  29. 29. peculiaridades subjetivas, inclinações psicológicas e interesses pessoais, dos quais devemderivar os acordos para que desempenhe a função intelectual.Importa-lhe valorizar o que sabe e proclamá-lo com empáfia. Confia na ignorância alheiamais que na própria ciência. Conquistada a áurea de personagem importante, desinteressa-se do estudo e se entrega à luta pela conquista de elogios, cargos, títulos, medalhas,honorários e honrarias em geral. Esse caráter da consciência ingênua não é outra coisasenão uma das faces da alienação cultural, específica do intelectual do paíssubdesenvolvido.Consumada a desvinculação com a realidade, a modalidade pedante da consciênciaingênua se autofecunda e descamba na série cômica e ridícula de atitudes, que bem sedistingue, em grande parte, dos nossos acadêmicos e renomados intelectuais ou “homensde ciência”.A função básica da consciência pedante é servir de mediadora do saber entre os centrosestrangeiros universais e os restritos e atrasados centros cultural nacionais, produzindo, nomeio local, livros que traduzem ou refletem o conteúdo dos livros estrangeiros.Sendo receptora da cultura alheia ou universal, o modo pedante de pensar da consciênciaingênua não percebe ou divorcia-se da relação que deveria ter com sua existência social e,por isso mesmo, apregoa e divulga a "recepção da cultura”, não somente no sentido dereceber de fora, mas, também, no de festa. É, portanto, neste sentido, que o conceito de"recepção da cultura", peculiar ao pedantismo da consciência primária, induz o pedante,quando demonstra seu vasto cabedal de conhecimentos, a nada mais fazer que vestir aindumentária intelectual para comparecer à festa alheia.O próprio hábito de ostentar os anéis de formatura é típico do intelectual do paíssubdesenvolvido, pois é sabido que o uso de tais anéis se destinava, no passado, a indicaras pessoas que não precisavam utilizar as mãos para o trabalho pelo privilégio de serviremapenas como escribas. 10. AUSÊNCIA DE COMPREENSÃO UNIT ÁRIA Nega seu fundamento histórico e nacional. Ignora que a problemática é darealidade e não do pensamento. Assume posições opostas e afirma conceitos desajustáveispor ausência de compreensão unitária. Julga-se expressão da verdade imparcial. Nega ocontexto político, econômico e social da nação que exprime a realidade. Ignora a unidade depensamento e ação. É incapaz de atuar ordenadamente.Por ter índole contraditória e não tendo disto a menor percepção, a consciência ingênuatorna-se incapaz de indagar o que constitui os seus fundamentos. Situa-se na subjetividadee se fecha a oportunidade de assimilar a racionalidade imanente aos acontecimentos.Substitui a racionalidade pelo raciocínio abstrato, formal, limitando-se a pensar relaçõesentre idéias. Contenta-se com o mundo de especulações que constrói e que habita,tornando-o como reprodução fiel do exterior. O real passa a ser algo estranho do qual, devez em quando, se aproxima.Movida por ímpetos irrefletidos, é capaz de assumir satisfeitas, posições opostas e afirmarconceitos inajustáveis, os quais, não sendo submetidos à análise que lhes denunciaria aincompatibilidade, podem coexistir, desde que sustentados por motivos irracionais. A razãodesta ausência de compreensão unitária descansa na ignorância de que o real possui osmeios de sua retificação porque a problematicidade é da realidade e não do pensamento. 29
  30. 30. Em função da criação, em nosso tempo, de um grande número de instituições estrangeirase internacionais e de várias espécies, deparam-se, hoje, os países subdesenvolvidos, comum sem número de especialistas recrutados por esses organismos, que os transfere a umplano fictício do anacional puro e que produzem inúmeros documentos de natureza política,econômica, social, ambiental, literária ou científica. Dispondo de grandes somas de recursose de técnicos de notória capacidade, essas instituições protornacionais são chamadas apronunciar julgamentos sobre problemas específicos da validade de todos os países. Essespronunciamentos e julgamentos, por virem desse mundo de ninguém, se inculcam comoexpressão da verdade imparcial. Por esse equívoco, a atitude de imparcialidade abstratadeixa de ser vaidade de alguns pensadores românticos, para encontrar um pequeno exércitode realizadores práticos. É provável que muito tempo se passe até que a consciêncianacional venha a ter clara compreensão deste fato.O pensar crítico não aceita esta prática de imparcialidade; ao contrário, sustenta que, parahaver imparcialidade, é necessário que o pensador veja a realidade a partir dos interessese/ou necessidades da comunidade a que pertence, pois lá está a plena representação docondicionamento imparcial. Não pensando independentemente de qualquer determinação, opensador sabe que a perspectiva na qual se coloca não conduz a alteração do conteúdo dofato, mas, ao significado do fato.Por isso mesmo é que o pensar crítico defende a tese de que compete ao filósofo,economista, sociólogo ou outro especialista social assumir o significado interior dos dadosdo contexto econômico-social da nação, tal como se apresentam a consciência que os vê dedentro e que exprimem o estado real que é o seu, e não outro qualquer. Acredita que sóassim, gera-se a imparcialidade de natureza concreta. Todo este conceito de imparcialidadederiva do fato da inalienável condição de o humano ser um ente no mundo histórico, noâmbito do seu país e de, neste, ter lugar o fato em apreço.Muitos dos especialistas internacionais resvalam para a ingenuidade, mesmo quando no afãde superar o que chamam de "estreiteza do seu horizonte familiar”. 11. INCAPACIDADE DE AT UAÇ ÃO ORDENAD A A consciência ingênua não exige o reconhecimento ponderado da verdade de suasassertivas. Não se empenha em conquistar sólida penetração na sua consciência ena alheia. Não defende senão com calor verbal a veracidade do que diz, porque é ágil emsubstituir qualquer pronunciamento a outro, evitando o ônus das laboriosas demonstrações.Não se interessa pelas próprias soluções que apresenta. Limitando-se a proposição, nãocompreende que toda realização concreta implica unidade de pensamento e ação.Por faltar-lhe a compreensão do que seja a prática social, filosoficamente entendida, aconsciência ingênua idealiza mecanismos e motivos que acionam os seus julgamentosterminando por desprezar o aspecto prático da existência e a consideração dos fatoresobjetivos. Quando privada do comando político, a consciência cândida se acha sempre nodireito de um dia atuar e alterar a face das coisas.Daí assumir atitudes conhecidas como de "políticas da oposição", geralmente embebidanuma visão singela da realidade nacional. Por supor a permanente divisão entrepensamento e prática, aceita como natural o esquema da divisão social das atividades deacordo com o qual alguns se reservam a parte do pensar puro, deixando a outros aincumbência da realização.Através deste cunho intelectualista e aristocrático, e em virtude da percepção da própriainoperância, assume para com o real, indiferente ou rebelde, a atitude moralista. 30

×