UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE                CENTRO DE ESTUDOS GERAIS        INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA  ...
2                             Folha de Aprovação                   “OS FILHOS DA REVOLUÇÃO”      A JUVENTUDE URBANA E O RO...
3C1 Rochedo, Aline do Carmo.      “Os filhos da revolução”       A juventude urbana e o rock brasileiro dos anos 1980.    ...
4À memória de Alberto Rochedo
5                                    Agradecimentos       Sou grata à vida. Não foram somente dois anos de dedicação a uma...
6        Agradeço as companheiras acadêmicas e estimadas amigas Aline Martins eLívia Gonçalves Magalhães, apoios fundament...
7                                          ResumoROCHEDO, Aline do Carmo. “Os filhos da Revolução” A juventude urbana e o ...
8                                       AbstractROCHEDO, Aline do Carmo. “The Children of Revolution” The Urban Youth and ...
9                                      SumárioIntrodução                                                             11Cap...
10“Luz e sentido e palavra.”            Renato Russo
11I- INTRODUÇÃO           A História é um saber em construção, trabalhar com maneiras variadas depesquisa é uma condição n...
12Brasil. O objetivo foi acompanhar os principais debates da época, especialmente ascríticas e manifestações de apoio ao r...
13                          A educação destes será concentrada na transferência de tradição: seus                         ...
14        Na terceira parte desta dissertação, analiso as letras das músicas BRock, a partirda lógica social e do tempo hi...
15CAPÍTULO I- JUVENTUDES E ROCK: UMA HISTÓRIA DE INTEGRAÇÃO        O rock é uma arte que está ligada ao mecanismo de massa...
16conjugou a juventude como emblema, onde os jovens ocuparam posição central deprotagonismo.13        Segundo Paul Friedla...
17        A resistência ao gênero era evidente. Seja por sua origem negra, seja porquetransmitia uma tendência rebelde e l...
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19jovens brancos também ouviam tais programas e começaram a procurar pelos discosdestes artistas. Alan Freed, foi o mais c...
20responsabilidade pela ampliação da delinquência juvenil aos meios de comunicação demassa preferidos pelos jovens:       ...
21preocupado com temas sociais como a discriminação racial e a favor do pacifismo.27Embora não tenha criado inovações na e...
22primeira delas por Nora Ney30, numa versão original da música “Rock Around TheClock”.        Rita Lee, em 1980, cantava ...
23Nova, Jovem Guarda manifestou-se como cultura própria da juventude, reflexo de suastendências comportamentais representa...
24        A Jovem Guarda, por conta de um caráter comparativo ao novo estilo musicalque surgia, fora analisada pelos críti...
25regime civil-militar, adotou uma série de significantes contraculturais, as roupascoloridas, os cabelos compridos e, em ...
26beleza, leveza e relativa simplicidade dos arranjos, aliados ao impacto da figuraandrógina de Ney Matogrosso47, fizeram ...
27        Em parte, a grande influência vem do movimento punk52 anglo-americano e suasderivações surgidas em meados dos an...
28de uma revisão musical dentro do rock, e de um modo de vestir inusitado eextremamente “anormal”:                        ...
29Clash.57 Os adeptos eram principalmente garotos das classes trabalhadoras dossubúrbios que viviam no momento uma situaçã...
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36juventude atribui a sua realidade social. Evandro Mesquita e Rodrigo Santos relembramalguns fatos que ocorreram na infân...
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38        A opinião sobre o rock no período provocava polêmica e alguns periódicos oanunciavam como a volta da Jovem Guard...
Os filhos da revolução capítulo 1 páginas de 15 a 42
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  1. 1. UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE CENTRO DE ESTUDOS GERAIS INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA “Os filhos da revolução”A juventude urbana e o rock brasileiro dos anos 1980 ALINE DO CARMO ROCHEDO Orientador: Profª Drª Samantha Viz Quadrat Niterói 2011
  2. 2. 2 Folha de Aprovação “OS FILHOS DA REVOLUÇÃO” A JUVENTUDE URBANA E O ROCK BRASILEIRO DOS ANOS 1980 Aline do Carmo RochedoDissertação submetida ao corpo docente do Programa de Pós-Graduação em História daUniversidade Federal Fluminense-UFF, como parte dos requisitos necessários àobtenção do grau de Mestre.Aprovada por:__________________________________________- Orientador Profª. Drª. Samantha Viz Quadrat (UFF)__________________________________________Profª Drª Alessandra Carvalho (UFRJ)__________________________________________ Profª Drª Ana Maria Mauad Sousa Andrade Essus (UFF)Suplentes:__________________________________________ Profª Drª Denise Rollemberg (UFF)__________________________________________Profª Drª Maria Paula Nascimento Araujo (UFRJ) Niterói 2011
  3. 3. 3C1 Rochedo, Aline do Carmo. “Os filhos da revolução” A juventude urbana e o rock brasileiro dos anos 1980. Aline do Carmo Rochedo- 2011 152 f. Orientador: Samantha Viz Quadrat Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal Fluminense, 2011. Bibliografia: f. 145-152 1. Juventudes e Rock: Uma História de Integração 2. BRock: arte, expressão e influência no cotidiano juvenil. 3. Realismo e Utopias nas Letras do BRock. I. Quadrat, Samantha Viz II; Universidade Federal Fluminense. III. Título
  4. 4. 4À memória de Alberto Rochedo
  5. 5. 5 Agradecimentos Sou grata à vida. Não foram somente dois anos de dedicação a uma pesquisa.Foram dois anos de muitos horizontes, de novas conquistas, de conhecimento ecrescimento. Eu sou grata. Grata por todas as pessoas que eu conheci que me instruíram,orientaram e que agora, fazem parte da minha vida. Grata aos que me acompanham delonga data. Gostaria de agradecer à Universidade Federal Fluminense, onde eu pudeconhecer professores e amigos que apoiaram e nortearam meus propósitos comohistoriadora. Ao CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico eTecnológico) pela a bolsa fornecida ao longo desses dois anos. A professora Samantha Viz Quadrat, orientadora desse trabalho, pelagenerosidade e solicitude desde o primeiro contato. Pessoa cuja acolhida e instruçãofizeram-me acreditar ser capaz. Pelas palavras fundamentais e as repreensõesnecessárias à concretização deste processo. Pelos textos e entrevistas de sua própriapesquisa. Por ter se tornado uma pessoa querida, que admiro como professora epesquisadora. Ao Programa de Pós-Graduação em História, em especial aos coordenadores.Aos funcionários, Juceli, Silvana e Devid, sempre atenciosos e prestativos. Agradeço à banca de qualificação pelas considerações fundamentais a pesquisa.A professora Ana Maria Mauad, a quem devo o primeiro estímulo para que eu levasseesta proposta adiante. Meus sinceros agradecimentos pela importância que sua pessoarepresenta. Agradeço também a professora Alessandra Carvalho pelas sugestões que mepropiciaram novas questões e, em consequência, o enriquecimento da pesquisa. No decorrer dos dois anos de mestrado agradeço a todos que me indicaram oucompartilharam documentos e me colocaram em contato com pessoas que pudeentrevistar. Ao professor Arthur Dapieve- PUC, cujos livros e entrevista acompanharamtoda a análise desta dissertação. Agradeço aos artistas, jornalistas e integrantes das bandas do período estudado,que contribuíram de forma ímpar para o desenvolvimento e concretização destapesquisa. Em especial, Dado Villa Lobos, Bruno Gouveia, Evandro Mesquita, LéoJaime, Marcelo Bonfá, Philippe Seabra, Rodrigo Santos e Lucinha Araújo.
  6. 6. 6 Agradeço as companheiras acadêmicas e estimadas amigas Aline Martins eLívia Gonçalves Magalhães, apoios fundamentais no momento em que eu pensei nãoconseguir e nos conflitos acadêmicos aos quais passei. Pela presença indispensável e devalor infinito. Aos amigos de longo tempo, que viveram comigo os desafios e os deleites desteprocesso. Agradeço a Emanuel Terra, Cristiane Duarte, Jovan Ferreira, Luciane SimõesMedeiros, Vanessa Monteiro de Abreu. E a todos os amigos que estimularam eacompanharam minha trajetória acadêmica. A minha família, destacando minha mãe Jecy, a quem dedico esta dissertaçãojunto a meu paizinho Alberto, pelo carinho, estímulo e presença constante. A minhairmã Eliene pela paciência em ler uma, duas e dez vezes meus textos, e porcompreender meus momentos de crise, que foram muitos. Sabemos o quanto nosamamos. Sou grata a vocês sem variação de tempo.
  7. 7. 7 ResumoROCHEDO, Aline do Carmo. “Os filhos da Revolução” A juventude urbana e o rockbrasileiro dos anos 1980. Orientadora: Prof. Dra. Samantha Viz Quadrat. Niterói:UFF/ICHF/PPGH. Dissertação (Mestrado em História)A dissertação discute a trajetória do rock nacional a partir do momento em que estegênero é associado aos jovens, ocupando uma posição central na indústria fonográfica ena mídia brasileira. Analisando uma parcela da juventude da década de 1980 e suaprodução musical no contexto da transição à democracia para os primeiros anos daNova República, entende-se o produto musical a partir da lógica social e do tempohistórico em que foi construído. Proveniente da juventude que se autodenominava “osfilhos da revolução”, o rock manifesta força, na medida em que, ao produzir a rupturados padrões musicais anteriores, também rompe com as convenções sociais que ocercam. Os discursos nas músicas podem projetar fatos ligados aos anos de ditaduracivil-militar e caracterizam uma nova geração de jovens brasileiros, cuja visibilidade éatribuída ao rock, à geração Coca-cola.
  8. 8. 8 AbstractROCHEDO, Aline do Carmo. “The Children of Revolution” The Urban Youth and theBrazilian Rock in the 1980‟s”. Orientador: Samantha Viz Quadrat. Niterói:UFF/ICHF/PPGH. Dissertação (Mestrado em História)This dissertation discusses the trajectory of the Brazilian rock, departing from themoment when this musical genre is associated with young people, occupying a centralposition in the music industry and in the Brazilian media. Analyzing a portion of theyouth of the 1980‟s, and their musical output in the context which spans from thetransition to democracy to the first years of the “New Republic”, this musical product isunderstood from the social logic and historic time in which is was built. Coming fromthe youth of that time, who called themselves “the children of the revolution”, rockmusic in Brazil conveys strength inasmuch as it produces the rupture of former musicalpatterns and also breaks the social conventions that surround them. The lyrics in thesongs may project facts linked to the years of “civilian-military dictatorship” and depicta new generation of young Brazilian people whose visibility is deeply related to rockmusic, the so called “generation Coca-Cola”.
  9. 9. 9 SumárioIntrodução 11Capítulo 1: Juventudes e Rock: Uma História de Integração 151.1 O rock nacional 211.2 O movimento punk e sua influência no Brasil 271.3 Enfim, o BRock 30Capítulo 2: BRock: arte, expressão e influência no cotidiano Juvenil 432.1 O rock carioca 442.1.2 A Blitz 492.1.3 Barão Vermelho 522.1.4 Os Paralamas do Sucesso 552.2 Brasília, a capital do rock 582.2.1 Capital Inicial 622.2.2 Plebe Rude 632.2.3 Legião Urbana 652.3 O rock paulista 702.3.1 Titãs 702.3.2 Revolução por Minuto 732.3.3 Ultraje a Rigor 772.4 Os Periódicos 792.4.1 Video clip e os programas de televisão 812.5 Rock in Rio: O grande momento do BRock 84Capítulo 3: Utopias e Realismo nas Letras do BRock 953.1 O cotidiano 993.2 As relações afetivas 1113.2.1 Família 1113.2.2 Amor e o Sexo 1203.2.3 Ameaça do HIV 1263.3 Política e Sociedade 130Considerações finais 139Fontes 146Referências bibliográficas 149
  10. 10. 10“Luz e sentido e palavra.” Renato Russo
  11. 11. 11I- INTRODUÇÃO A História é um saber em construção, trabalhar com maneiras variadas depesquisa é uma condição necessária à riqueza e à multiplicidade da produção deconhecimento. Dentre elas, destaca-se a aproximação com uma renovada História,preocupada com as relações entre Memória, Cultura e Historiografia. Nesta novaabordagem, o esforço de recuperação do passado não hierarquiza um ou outro grupo,mas os qualifica estabelecendo operações específicas em cada caso, sem preconceitos deinferioridade ou superioridade. A relação entre teoria e pesquisa com fonte oral écomplexa e muitas vezes difícil, mas deve ser vista como um terreno fértil, propenso aoconstante diálogo. Desta forma, intuito suscitar e formular questões para a compreensãoda transição da ditadura civil militar e a abertura política brasileira através de umpassado recente nesta perspectiva. Condição necessária principalmente por almejartrazer para o debate a análise da geração dos anos 1980. A proposta visa ao estudo do BRock, sigla criada pelo jornalista Arthur Dapievepara designar o período em que o rock brasileiro se consolida e adquiri visibilidade: osanos 1980.1 O BRock está associado a uma parcela da juventude que desponta no meiocultural no contexto da transição para a democracia aos primeiros anos da NovaRepública. Como fontes de pesquisa, optei por realizei entrevistas com alguns artistas doperíodo e demais pessoas relacionadas como: familiares, jornalistas e escritores. Osartistas entrevistados, que nasceram entre os anos de 1960 e 1969, no Rio de Janeiro ouSão Paulo (exceto Dado Villa Lobos, Legião Urbana e Philippe Seabra, Plebe Rude)revelam a forma pela qual a experiência da transição política do período influenciousuas percepções de mundo. Lembrar, neste sentido, foi um ato que reconstruiu suashistórias. A análise das trajetórias e do trabalho destes artistas também foi realizadaatravés da pesquisa em periódicos da época, livros que abordam a relação do rock ejuventudes e a história do rock no âmbito internacional e nacional. Consultei a seçãodos acervos musicais do Museu da Imagem e do Som; de periódicos da BibliotecaNacional e da Associação Brasileira de Imprensa, com ênfase nas publicações da época,como as revistas: Bizz, Som Três, Veja e Isto é; e os jornais O Globo e Jornal do1 DAPIEVE, Arthur.BRock: o rock brasileiro dos anos 80. Rio de Janeiro: Editora 34,1996.
  12. 12. 12Brasil. O objetivo foi acompanhar os principais debates da época, especialmente ascríticas e manifestações de apoio ao rock. Busquei nesses periódicos o estudo doconjunto de representações impressas sobre o gênero musical rock, tal como foidifundido através delas na década de 1980 no Brasil. Neste sentido, tornou-se crucial para a pesquisa uma breve análise sobrejuventudes, termo que remete à mudança, flexibilidade, inquietude, transição, rebeldia econtestação. Ser jovem varia no tempo e no espaço e esta abordagem consiste emidentificá-lo no seu contexto histórico. A noção generalizada do termo refere-se a umperíodo de vida, uma faixa etária ao qual se completa o desenvolvimento físico,psicológico e social do indivíduo que posteriormente ingressará na vida adulta.Todavia, a noção de juventude e a função dos grupos etários são historicamentevariáveis: modifica-se de sociedade para sociedade e numa mesma sociedade, via suasdivisões internas e a maneira peculiar pelo qual as define e lhes atribui significado. Ajuventude é construída socialmente, na qual a idade é um dado biológico socialmentemanipulável e o fato de falar com jovens como se fossem uma unidade social, um grupoconstituído e dotado de interesses comuns, e relacionar a uma idade definidabiologicamente já constitui uma manipulação evidente.2 Assim, quando falamos em juventudes é preciso considerar a época e aconjuntura social em que está inserida. Nas sociedades modernas, as gerações maisjovens são elevadas em valor social, em outras sociedades, onde o ritmo de mudança ébastante lento, os mais velhos ainda são fonte da experiência e do saber com quem osmais jovens devem aprender.3 Bourdieu estabelece a noção de Juventudes na qualenfatiza a necessidade de analisar as diferenças entre as juventudes.4 A abordagemsinaliza o contexto para os quais a juventude terá que atuar e oferecer sua contribuição,ou que simplesmente estará à margem da sociedade em questão: Não é difícil conjeturar quais são as sociedades em que o prestígio cabe aos velhos e em que as forças revitalizantes da juventude não se integram em um movimento, permanecendo apenas como uma reserva latente. Acredito que as sociedades estáticas, que só se desenvolvem gradativamente e em que a taxa de mudança é relativamente baixa, confiarão, sobretudo na experiência dos mais velhos. Mostrar-se-ão relutantes em encorajar as novas potencialidades latentes dos jovens.2 BOURDIEU, Pierre. “A juventude é apenas uma palavra”. In: Questões de Sociologia. Rio de Janeiro:Marco Zero, 1983, p. 1133 CAVALCANTE, Maria Juraci Maia. “O mito da Rebeldia da Juventude-uma abordagem sociológica” in:Educação em debate. Fort, 13(1):jan/jun, 1987.pp. 11-234 BOURDIEU, op.cit.
  13. 13. 13 A educação destes será concentrada na transferência de tradição: seus métodos de ensino serão de mera cópia e repetição. As reservas vitais e espirituais da juventude serão deliberadamente negligenciadas visto não haver uma vontade de romper com as tradições existentes na sociedade.5 Desta forma, o primeiro capítulo da pesquisa se refere ao processo deconsolidação do rock como gênero musical associado à juventude. O objetivo daprimeira parte é analisar a trajetória do rock no âmbito internacional e nacional, desdeseu surgimento na década de 1950 nos Estados Unidos até sua chegada no final dadécada de 1950 no Brasil. As informações serviram para nortear as circunstânciashistórias e sociais as quais fizeram do rock um meio agregador de cultura jovem. Aoeleger o rock6 como elo identificador da juventude, foi importante revisar sua trajetóriainternacional que o eleva a gênero musical que torna indissociável a música e ocomportamento. Existem vários estilos de rock, do mais harmonioso melódico até osmais progressistas e radicais. A análise do crítico Paulo Pan Chacon é precisa quandoargumenta que o rock dos anos 1960 aponta para um sentido político amplo que incluirelação de poder e contestação de costumes numa nova forma de relacionamentomusical. O rock propõe a troca, a integração com o conjunto, estimulando o público asair da convencional passividade.7 As manifestações juvenis propiciaram o aparecimento público da juventude, e ojovem gradualmente foi assumindo o lugar de sujeito social específico. No segundocapítulo veremos que, través do rock, os jovens conseguiram veicular suas mensagensutilizando-se dos meios midiáticos e artísticos e dos espaços conquistados. Avisualização da época é necessária para contextualizar o momento histórico em que asbandas estavam inseridas, o que influenciou a maneira como as letras das músicas eramcriadas e como os grupos se configuraram. Destaquei neste capítulo as bandasconsideradas mais expressivas do BRock oriundas das cidades do Rio de Janeiro,Brasília e São Paulo, nas quais o rock adquire influências peculiares. Os jovens destascidades que formam as bandas, efetivamente corroboraram para a inserção do gênero nocotidiano através dos meios midiáticos que também estavam despontando.5 MANNHEIN, Karl. “O problema sociológico das gerações” in: FORACCHI, M. M. (Org.). Mannheim:Sociologia. São Paulo: Ática, 1982. pp. 48-49.6 O termo “Rock and Roll” foi idealizado pelo locutor Alan Freed ao qual designou o nome baseando-senas expressões empregadas por “blusmen” para descrever o ato sexual.7 CHACON, Paulo. O que é Rock. São Paulo: Nova Cultural, Brasiliense, 1985.
  14. 14. 14 Na terceira parte desta dissertação, analiso as letras das músicas BRock, a partirda lógica social e do tempo histórico em que foram escritas, a fim de registrar acontribuição destas bandas nas relações com o indivíduo e como elemento de umgrupo. As letras de músicas abordam política, economia, sociedade e relações pessoais.Revelam os questionamentos e as inquietações próprios da juventude da época. Asletras selecionadas derivam das bandas estudadas no segundo capítulo desta pesquisa,em álbuns lançados entre 1980 e 1989. Portanto, lidei também com discos, letras,vídeos, com o propósito de acompanhar o amadurecimento destes artistas ao longo dadécada. No BRock, o texto é acompanhado por melodias de acordes simples o quefacilita que outros jovens as reproduzam. No entanto, a nossa análise se deteve à leiturae não a musicalidade das composições. No início do aparecimento do rock, alguns críticos acusavam as letras, asmúsicas e o próprio comportamento dos artistas roqueiros de iniciar a juventude a serebelar contra seus pais e a sociedade. Outros defendiam o rock e aplaudiam a rebeldia,creditando às letras iniciadoras de mudanças culturais e políticas. 8 Com o BRock não foidiferente, os letristas imprimiram e cantaram seus desejos e insatisfações uma relaçãoconflituosa entre o que viviam e o que desejavam mudar: A única coisa que eu sei é o seguinte: as pessoas acompanham o que a gente faz não porque mostramos uma grande novidade, porque o rock não é nem um pouco original, e sim porque nós fazemos o que já estava dentro delas. Então, um garoto compra um disco do Legião, dos Titãs , do Lobão, ou quem quer que seja e antes de ir para o colégio ele vai ouvir aquela música, vai pensar na vida, no país, na situação caótica, em ecologia, em crimes, medos, angustias, felicidade. É legal você ter uma trilha sonora. 9 No caso específico do BRock, seus interlocutores protagonizaram caminhos detransformação na esfera cultural brasileira e representam uma parcela de juventude em seuuniverso de sonhos, desejos, questionamentos e esperança. Tendo em comum o fato de teremnascido e crescido durante o governo ditatorial, a discussão sobre a juventude diretamenteafetada pelos anos de chumbo, caracterizada por um comportamento irreverente, rebelde ediferente em relação às gerações que a antecederam. Nos anos de 1980, as mudanças quehaviam ocorridos na sociedade brasileira, afetam as formas de participação e definem umanova maneira de expressão jovem.8 FRIEDLANDER, PAUL. Rock and Roll: Uma História Social. Tradução de A. Costa. 4º ed, RJ: Record,2006.9 RUSSO, Renato. Conversações com Renato Russo, Campo Grande: Letra Livre. 1996.
  15. 15. 15CAPÍTULO I- JUVENTUDES E ROCK: UMA HISTÓRIA DE INTEGRAÇÃO O rock é uma arte que está ligada ao mecanismo de massa e surgiu danecessidade da juventude enfrentar os padrões morais e comportamentais. A psicanáliseconsidera pertinente analisar os adolescentes e o rock e a introdução deste no seiofamiliar, considerando a experiência de jovens de diferentes classes sociais e suasperspectivas para ingressarem na esfera pública, assumindo responsabilidades sociais edando sentido as mesmas.10 Para falar dos jovens e adolescentes, é preciso distinguirperíodos históricos distintos, geracionais, com características sócio-políticas próprias.11 O fato de compor e ouvir as músicas remetia, imediatamente, a quebra dos ditospadrões convencionais: o rock se configurava enquanto um campo de informação doque o jovem dispunha. Para Carlos Feixa, as culturas jovens podem ser representadaspelos elementos da produção musical do rock: “la emergencia de las culturas juvenilesestá estrechamente asociada al nacimiento del rock and roll, la primera gran músicageracional.”12 Deste modo, o rock é utilizado pelos jovens como meio de auto-definição, um emblema para marcar a identidade do grupo. O rock foi criado no sul dos Estados Unidos pós Segunda Guerra Mundial, emum momento de bonança econômica e satisfação social. Mesclando gêneros musicais deorigem negra como o blues, na fusão entre uma vertente urbana, o “rhythm and blues”, euma vertente rural “country and western”, o rock surge no início dos anos 1950, nocontexto da Guerra Fria como gênero musical de origem negra. Em termos históricos, orock and roll significa uma ruptura geracional por despontar como um componente paraa concepção de juventude do pós-guerra na vida cultural e social. A música que os paisnão gostavam era a preferida dos filhos e houve uma divisão, uma fenda entre gerações:tratava-se de um gênero que refletia e falava à juventude num período marcado peladestruição das guerras, num mundo que sinalizava a emergência de uma nova forma defazer política. Para Marcelo Urresti, a luta contra as ditaduras e contra o totalitarismo10 GALPERI, Silvia; JELIN, Elizabeth; KAUFMAN, Susana. “Jóvenes y mundo público” in: Revista delInstitutoo de Investigaciones de la Facultad de Psicología, Universidad de Buenos Aires, año 3, No. 1,Buenos Aires:1988.11 GILBERTI, Eva.Hijos de del rock. Buenos Aires:Losada, 1996.12 FEIXA, Carlos. De jóvenes, bandas e tribus. Barcelona: Ariel. 1999.p.101.
  16. 16. 16conjugou a juventude como emblema, onde os jovens ocuparam posição central deprotagonismo.13 Segundo Paul Friedlander, os principais marcos identificáveis e divisórios dahistória do rock internacional são: primeiro, 1954-1955, com a explosão de rock and rollclássico; segundo, 1963-1964, a invasão inglesa; terceiro, 1967-1972, conhecido como aera de ouro (o amadurecimento sincrônico de artistas de vários gêneros, incluindo aprimeira invasão inglesa e a ascensão dos reis da guitarra); quarto1968-1969 com aexplosão hard rock; e quinto, 1975-1977 com a explosão punk.14 O rock, por meio dorádio, do cinema, da televisão, abreviou distâncias e possibilitou a incorporação denovos valores, códigos e hábitos. O artista, ou grupo de artistas, que interpretam essegênero contribuem de forma significativa para intensificar a identidade da juventude.Estes promovem um vínculo entre o estilo do rock, quem o representa e os que com elese identificam. Oferece um universo sonoro aberto para a vida, para a linguagem jovem,repleto de cor, cheiro e emoção. O rock foi adotado por uma geração de adolescentesque começava a questionar alguns dogmas da cultura dominante. Durante um lentoprocesso de desilusões, o novo grupo reconhecido, os adolescentes: “formulou questõesque uma década depois se tornariam gritos de protesto”.15 O rock ficou conhecido no cenário estadunidense via as telas de cinema atravésdo filme “The Blackboard Jungle”(1955) dirigido por Richard Brooks. O filme,considerado ousado para a década de 1950, foi o primeiro a apresentar o tema musicalrock and roll. Sua trilha sonora utilizava uma música que o conjunto Bill Haley and HisComets gravara um ano antes, “Rock around the clock”, com um ritmo contagiante queencantou de imediato o público, em especial os jovens. Independente das origens afro-americanas do rock nos EUA, o estilo musical atingiu especialmente a classe médiabranca estadunidense.16 Para os jovens americanos deste período, o que importava era adiversão. Pela primeira vez, muitos adolescentes não tinham que estudar para ajudarsuas famílias, além da escola, não lhes era atribuído muitas responsabilidades. E ainda,começaram a surgir como um grupo de consumo.13 URRESTI, Marcelo. “Paradigmas de participación juvenil: un balance Histórico”. In: BALARDINI, S.(org). La participación social y políticas de los jóvenes en el horizonte del nuevo siglo. CLACSO -Grupode Trabajo -Juventud, 200. p. 187.14 FRIEDLANDER, PAUL. op. cit.15 Idem. p.37.16 Existe uma longa discussão sobre o que seria a “domestificação” do rock nos EUA para que fosse maisaceitável pela comunidade branca do país que não entrarei em debate neste momento por conta da próprialimitação da dissertação.
  17. 17. 17 A resistência ao gênero era evidente. Seja por sua origem negra, seja porquetransmitia uma tendência rebelde e liberal entendida pelas autoridades como umaheresia e provocação. A música negra que os brancos escutavam só poderia ser vista“como uma forma de fazer os homens brancos e seus filhos descerem ao nível dospretos”17, assim declarou o secretário do Alabamba White Citizen Council em redetelevisiva na década de 1950. No período, a maioria dos pais de famílias brancasestadunidenses temia que seus filhos fossem influenciados pala música negra. Alémdisso, a imprensa e a mídia atacavam o rock e este foi banido em partes do país. Haviaum sentimento de repulsa ao rock, pelo qual as instituições públicas, a igreja, a polícia eas prefeituras relutavam muito em permitir que a juventude o ouvisse. Sobre a questãoracial inserida com o despontamento do rock, Chuck Berry,18 sinalizara que: Minha música quebrou as barreiras raciais. Eu tocava nos lugares e tinha a platéia branca e os brancos ficavam sentados lá em cima. Os negros embaixo porque minha banda era de negros. E os brancos pulavam dos camarotes e desciam até nós. A platéia começava a se misturar porque a música não tem fronteiras raciais.19 No ano em que Billy Haley & His Comets gravaram Rock around the clock(1954), o juiz da Suprema Corte Earl Warren, emitiu a decisão de que tornava ilegal asegregação racial nas escolas. Muitos estados se pronunciaram contra a medida e ogoverno precisou enviar tropas a fim de garantir a ida das crianças negras à escola. Em1955, outro episódio acentua o descrédito de uma parcela da nova geração americanaem relação aos adultos: na cidade de Montgomery, Alabama, a senhora Rosa Parks,recusou-se a ceder seu lugar para um branco na parte do ônibus reservada aos negros.Segundo a revista Veja, edição Extra publicada em abril de 1968: Ao lutar até o fim pelo direito de uma mulher negra se manter sentada em um ônibus de uma pequena cidade no Alabama, sem precisar entregar seu lugar a um passageiro branco, o até então desconhecido pastor batista desafiou o estado e conseguiu uma vitória impensável em um país ainda rachado pela segregação. Foi o primeiro passo de uma histórica jornada pela liberdade, que fez de King o grande líder17 Documentário:The history of rock „n‟ roll. Direção: David R. Axerold: EUA. Warner Bros VídeoFilmes, 1995. Volume I (121min.).18 Chuck Berry compositor, cantor e guitarrista estadunidense. Considerado por muitos artistas como o paido rock and roll.19 Little Richard- músico de rock estadunidense.Entrevista contida em dvd- The History of Rock „n‟ Roll.Direção: David R. Axerold: EUA. Warner Bros Vídeo Filmes, 1995. Volume I (121min.)
  18. 18. 18 da comunidade negra e um ícone da batalha ideológica pelos direitos civis ao redor do planeta.20 De certa forma, o processo de consolidação do rock se engajara ao movimentode Martin Luther King. As gravadoras recusavam os artistas negros e por vezes as letrase melodias eram regravadas por artistas brancos e somente desta forma atingiam o meiofonográfico. A princípio, pequenas gravadoras independentes e regionais gravavam,prensavam e distribuíam os discos de artistas negros. As grandes ignoravam os artistasnegros, mas executava as músicas através de covers, o que significava pagar royaltiespelos direitos de gravação de uma música, quase sempre trocando as letras eamenizando as partes supostamente impróprias, e lançar sua própria versão, gravada porum artista de renome da casa. Durante praticamente os anos de 1953-1955, essa pratica teve o efeito deobscurecer as versões negras originais. Houve uma espécie de enfraquecimento, comose o gênero perdesse a popularidade e a força visto à pressão dos adultos em recusá-lo,principalmente por não aceitarem a integração racial. A insistência da sociedade emrecusar o rock fez com que, após a explosão, que perdurou cerca de dois ou três anos, ogênero aparentasse estar enfraquecido. Tom Petty, músico de rock estadunidenserecorda alguns comentários do período: -Chuck? Na Prisão. -Buddy? Sumiu. Um “probleminha” na fronteira. -Elvis Presley? Vamos colocá-lo no exército para acalmar esse rapaz. Não há espaço nesta cidade para suas apresentações vulgares. -Jerry Lee? Noiva menor de idade. Enfim, todos tinham sumido e esta é a minha teoria para aquele período. O rock ficou selvagem demais depois se acalmou e foi tomado por empresários e homens de negócio.21 Enquanto versões originais negras fracassavam ao entrar na parada popular, oscovers de bandas brancas obtinham sucesso suficiente para o primeiro lugar.22 Seguindoo caminho das gravadoras independentes, estações pequenas de áreas urbanas comgrande concentração de população negra começaram a transmitir programas de rock. Os20 Revista Veja- Edição Extra-abril de 1968. http://veja.abril.com.br/historia/morte-martin-luther-king/pesadelo-americano-assassinato-tiro-memphis.shtml .21 Tom Petty- músico do rock estadunidense. Entrevista- contida em DVD Documentário: The History ofRock „n‟ Roll. Direção: David R. Axerold: EUA. Warner Bros Vídeo Filmes, 1995. Volume I (121min.)22 FRIEDLANDER, op. cit.
  19. 19. 19jovens brancos também ouviam tais programas e começaram a procurar pelos discosdestes artistas. Alan Freed, foi o mais conhecido dos Djs brancos a propagar o gênero. Todavia, embora grandes nomes da revolução musical do final dos anos 1950fossem negros como Litlle Richard e Chunk Berry, o artista consagrado como Rei doRock, foi Elvis Presley. Sua importância foi evidente na ruptura que promoveu nosistema segregador, no qual os brancos não reconheciam a música negra, assim como arecusavam da sociedade. Presley, integrado à música e aos artistas negros, conseguiuaglutinar dois estilos distintos, duas culturas afastadas pelo preconceito: fez com que osadultos brancos começassem a cantar rock. Textualmente, o rock não possuía um relato de resistência em sua temática, masesta era expressa na ação que promovia. Mesmo tendo suas raízes no blues, nãoexpressava o sofrimento e as insatisfações dos negros como este o fazia. Os letristas dorock geralmente se referiam ao cotidiano dos jovens como o colégio, os dilemasamorosos, os bailes, os conflitos com a família, a celebração da vida etc. O humor estápresente como elemento que diferencia o gênero, numa mensagem inofensiva como nascanções de Chuck Berry, Eddie Cochran, Carls Perkins, Little Richard. O processo deconsolidação do rock desponta como gênero novo que luta em definir sua identidade. Como já dito, rock é som, vibração e liberdade, no qual dançar e cantar sãomanifestações genuínas do público: se não houver reação corpórea, não há rock. É tãocorpóreo quanto dançar (mesmo que signifique pular) é cantar, não importando se o tomou mesmo a letra estão certos.23 O ritmo do rock, acompanhado de uma dança que osjovens balançavam e rodopiavam pelos salões, sacudiu a moral puritana dos EUA, poisera uma forma da juventude enfrentar os padrões morais e comportamentais. O rock foitambém uma das forças ativas na formação de uma nova mentalidade sexual noperíodo.24 A forma como Elvis dançava, as letras de Churry Berry, os gritos de LittleRichard provocaram uma mudança no comportamento sexual da juventude. Percebe-se no jovem um promissor consumidor, associando a produção àsideologias juvenis. O consumismo ofereceu um espaço para que manifestações juvenistivessem visibilidade, como também integrou muitos jovens no mercado de trabalho.Em contrapartida, a indústria fonográfica e cinematográfica americana despontou tendoo cinema e a música estreitamente ligados. A sociedade adulta atribui parte relevante da23 CHACON, op. cit.24 URRESTI,op. cit
  20. 20. 20responsabilidade pela ampliação da delinquência juvenil aos meios de comunicação demassa preferidos pelos jovens: A indignação era imensa em relação ao rádio e ao cinema, mas também contra revistas juvenis que difundiam ou defendiam músicas capazes de dar coesão e identidade à cultura juvenil. Dentre estas, sobretudo o significativo rock and roll e seus cantores como Bill Haley e Elvis Presley, que haviam absorvido a transgressão da música afro-americana, suas alusões à sexualidade, recriando-as outros estilos de vida.25 A partir do seu lançamento, a expressão rock and roll desponta como gênero damúsica popular estadunidense, em pouco tempo exportada ao mundo. Estilo e gêneroprotagonizados por jovens que cantam, tocam e compõem para jovens, mais que umaforma de expressar as ideias da juventude em um discurso sonoro é o meio de viveraquilo que se manifesta nas canções. O rock cresceu em diversos países acompanhadopor um público jovem e entusiasmado, se adequando às peculiaridades regionais.Admiradores dos astros Chuck Berry e Elvis Presley, os Beatles, quarteto mais famosoda Inglaterra, registrou o rock inglês. O Carvern Club era o lugar onde os jovens seencontravam e foi o clube de rock inglês no qual os Beatles fizeram as primeirasapresentações de suas composições. No primeiro período da explosão Beatles as letras remetiam ao universo juvenilda sensibilidade adolescente nas relações de amizade e namoro. Posteriormente, o grupoadquire um perfil mais amadurecido com letras e músicas mais elaboradas mostrandouma visão de mundo mais ampla. Criando uma linguagem musical própria, queinfluenciou o comportamento juvenil de sua época conquistando fãs em todas as partesdo mundo.26 Por sua vez, outro importante grupo, os Rolling Stones ao lado dos Beatles,protagonizaram a chamada “invasão britânica” dos anos 1960, que projetou os artistasingleses nas paradas dos EUA. Entre 1965 e 1970 várias bandas foram formadas,fermentando a mistura de folk- rock. No período, Bob Dylan, jovem estadunidense,configurou o rock ao seu estilo, com letras originais que refletiam um jovem25 PASSERINI, Luisa. “A juventude, metáfora da mudança social. Dois debates sobre jovens: a Itáliafascista e os Estados Unidos da década de 1950.” in: LEVI, Giovanni e SCHMITT, Jean-Claude (orgs).História dos Jovens. A época contemporânea. São Paulo: Cia das Letras, 1996. p. 36226 SALAS. Fabio. El grito del amor- Una actualizada historia temática del rock.Ed. Coleccion entreMares. Chiile. 1998. p 43.
  21. 21. 21preocupado com temas sociais como a discriminação racial e a favor do pacifismo.27Embora não tenha criado inovações na estética musical, suas letras extremamenteconscientes, poéticas e profundas influenciaram a utilização do rock como meio decontestação. No final dos anos 1970, importantes tendências econômicas e artísticas estavamafetando o modo pelo qual a música era criada e vendida. Gravadoras e programas derádio davam pouca chance a talentos desconhecidos, apostando somente nos artistas jáconsagrados. O público, cansado das mesmas músicas e do aumento do preço dosdiscos, começou a reagir.28 Assim, o surgimento da tecnologia da fita cassete, esta quepermitira a gravação caseira, aliado a outras variáveis econômicas e a perda do interessedo consumidor, causou uma queda nas vendas de discos. Foi neste contexto,economicamente orientado e controlado que explodiu o estilo simples, primário econtestador chamado punk- rock, que veremos adiante.1.1 O rock nacional O rock no meio artístico brasileiro enfrentou dificuldades para conquistar seuespaço. Antes da explosão nos anos 1980, sua trajetória passa por três momentosdistintos. Primeiramente, destaca-se a atuação dos artistas, na década de 1950 com osirmãos Campello. O segundo momento refere-se aos anos 1960 com a Jovem Guarda eo terceiro momento, nos anos 1970 com o movimento Tropicália, os Mutantes e RaulSeixas, até a formação do grupo Vímana, no final da década (que neste estudo nãoabordarei, pois seus integrantes, Lobão, Ritchie e Lulu Santos optaram pela carreira solona década de 1980).29 Estes momentos definidos por gerações distintas contribuíram para ofortalecimento do rock nos anos 1980. Na década de 1950, a versão em português dascanções americanas do rock introduziu o gênero no cenário brasileiro. Como aconteceuem seu país de origem, os Estados Unidos, o rock ao cenário nacional brasileiro via astelas de cinema através do filme já citado “The Blackboard Jungle” (1955). No Brasil, ofilme e sua trilha sonora ficaram conhecidos como “Sementes da Violência”, títulotraduzido do filme, e obteve tanta repercussão que reuniu adeptos e versões variadas a27 Mudança também observada em outros grupos, como o próprio Beatles, e que reflete também osacontecimentos do mundo daquele período.28 FRIEDLANDER, op. cit p.34629 DAPIEVE, op. cit
  22. 22. 22primeira delas por Nora Ney30, numa versão original da música “Rock Around TheClock”. Rita Lee, em 1980, cantava que o “roqueiro brasileiro sempre teve cara debandido”, mas a história revela que foram jovens muito bem comportados que seenvolveram com o rock no final dos anos 1950 e início de 1960. Os primórdios do rockbrasileiro remontam a Celly Campello, uma jovem criada no interior de São Paulo, queteve trajetória meteórica ao lado de seu irmão Tony Campello. Celly alçou repercussãoao gravar seu primeiro LP aos 15 anos e manter um programa de rádio no qual cantavadesde os doze. Tornou-se conhecida nas grandes cidades brasileiras no final dos anos1950 ao gravar versões de rocks americanos, como “Banho de lua” de 1968 e “EstúpidoCupido” de 1959.31 Pouco depois, na primeira metade dos anos 1960, surge o fenômeno da JovemGuarda, nome derivado de um programa de TV dominical que divulgava os artistasjovens. O país passava por um período de desenvolvimento econômico que foi refletidoem todas as áreas e também com o crescimento da televisão no Brasil. A linguagem própria, a qual foi chamada de “iê-iê-iê”32, atingiu repercussãoentre a juventude e se fez por meio de seu lançamento no programa de música jovem demesmo nome, “Jovem Guarda” exibido pela Rede Record entre 1965 e 1968. Oprograma, nas tardes de domingo, era apresentado pelo trio Erasmo Carlos, Wanderléa eRoberto Carlos, este último que assim a descrevera: “A Jovem Guarda foi umprivilégio. Surgiu de um programa de televisão e influenciou positivamente a juventudedaquela época”.33As figuras mais representativas do período eram os jovens: RobertoCarlos, Erasmo Carlos, Jerry Adriani, Ronnie Von, Wanderléa e Carlos Imperial comoprodutor. Dapieve sinaliza a distinção entre o rock dos Campello e o produzido pelaJovem Guarda: “A Jovem Guarda avançava em relação à geração dos Campello tantomusical quanto tematicamente. As músicas não eram mais suporte para os vocais, aguitarra ocupava cada vez mais agressivamente o seu espaço”.34 Neste período, as práticas visuais no Brasil estavam se consolidando através dadifusão da TV. Desta forma, dentre outros estilos musicais existentes, como a Bossa30 Nora Ney, cantora de jazz e samba-canção, acompanhada do Sexteto Continental, grava „Rock AroundThe Clock‟, em inglês, o primeiro registro de um rock gravado no Brasil em 24 de outubro 1955.31 É importante lembrar que Celly Campello abandonou a carreira para casar-se.32 A denominação iê-iê-iê origina-se da música dos grupo inglês Beatles denominada She loves you, naqual o grupo cantava: “She loves you/yeah, yeah, yeah (...).33 Depoimento do cantor e compositor Roberto Carlos contido no DVD Documentário: 40 Anos de RockBrasil- Jovem Guarda. Direção: J.C. Marinho: Brasil. Emi Music.2009. 2 filmes (229min.)34 DAPIEVE. op. cit. p.14
  23. 23. 23Nova, Jovem Guarda manifestou-se como cultura própria da juventude, reflexo de suastendências comportamentais representadas principalmente pela música. A indústriacultural percebe os anseios dessa juventude tanto na execução quanto narepresentatividade do estilo na moda, na discografia e nos meios de comunicação comoanteriormente mencionado. A Jovem Guarda foi o primeiro movimento brasileiro autilizar atividade de marketing como estratégia para divulgação do produto musical. Acantora Wanderléia lembra: Foram lançados uma série de produtos em expansão no marketing dentro da Jovem Guarda: revistinhas, roupas, papel de carta(...). Foi grande o momento de expansão da moda jovem no país porque o que antecedeu a nós era uma roupa criada pelos pais, era a mãe quem escolhia aquilo que o jovem iria usar. Eu me senti muito envolvida com a coisa de criar e projetar moda de uma maneira muito espontânea.35 A Jovem Guarda abriu caminho para que outros programas dedicados à músicajovem também fossem incorporados ao cenário midiático, apresentados por cantorescomo Ronnie Von em “O Pequeno Mundo de Ronnie Von”, o “Excelsior a Go-Go”,apresentado por Jerry Adriani e “O Bom”, apresentado por Eduardo Araújo e dirigidopor Carlos Imperial, cujo título remete à uma canção de Imperial, interpretada porEduardo Araújo, que passou a ser conhecido como o Bom. Paralelamente, o período brasileiro é marcado pela instauração da ditadura civil-militar (1964-1985). Neste contexto, o movimento estudantil adquiriu visibilidade vistaa participação de alguns artistas que compunham e cantavam músicas de protesto,originando outra vertente musical. O movimento da Jovem Guarda por sua vez nãotinha a pretensão de usar as canções para protesto em sua temática. Segundo Quadrat: En una época donde se exigía que los jóvenes demuestren un comportamiento comprometido con la política y en la que los grandes festivales consagraban los nombres de la MPB, la Joven Guarda fue objeto de prejuicios, tachada de alienada. Sin compromiso político pero con propuestas transgresoras de los comportamientos, la Joven Guarda fue un fenómeno de corta duración.3635 Depoimento da cantora Wanderléia contido DVD Documentário: 40 Anos de Rock Brasil- JovemGuarda. Direção: J.C. Marinho: Brasil. Emi Music.2009. 2 filmes (229min.)36 QUADRAT. Samantha. “El brock y la memoria de los años de plomo en Brasil democrático”. IN:JELIN, Elizabeth y LONGONI, Ana (comps.). Escrituras, imágenes y escenarios ante la representasión.Madrid, Siglo XXI, 2005. pp 93-117.
  24. 24. 24 A Jovem Guarda, por conta de um caráter comparativo ao novo estilo musicalque surgia, fora analisada pelos críticos correntes como um fenômeno de massasimplório, sem características próprias, uma mera derivação do rock anglo-americano eitaliano. Segundo Ezequiel Neves: “a Jovem Guarda não tinha a pretensão de ser uma 37coisa séria, por isso ela é sempre jovem, foi algo sem culpa.” Para os que estavamengajados da MPB, a Jovem Guarda representou a falta de comprometimento que esvaziava acabeça da juventude e a tensão entre os dois movimentos, em parte estimulada pela mídia, eracrescente. Em 1967, a briga chegou ao auge, motivando alguns episódios pitorescos como a“passeata contra as guitarras elétricas”, liderada por Elis Regina e Geraldo Vandré, quepercorreu as ruas do centro de São Paulo, em julho de 1967.38 Sobre as críticas recebidas, ocantor Jerry Adriani declara: Nós enfrentamos uma censura enorme, nós enfrentamos críticas porque a Jovem Guarda não era um movimento que falava de política e o Brasil atravessava um problema político grande na época, a ditadura. Mas a Jovem Guarda tinha o grande ideal de modificação na base, na estrutura e no comportamento. Os jovens, evidentemente, estavam na vanguarda.39 Segundo Dapieve, o movimento denominado Tropicalismo, mesmo a linguagempredominante não sendo o rock, pois havia samba e bolero, a postura grupal eraroqueira.40 Para entender a Tropicália, faz-se necessário inseri-la no contexto a partir de1967, quando na região de San Francisco e Berkeley ocorreram as primeirasmanifestações públicas dos “hippies” como foram rotulados os participantes pelaimprensa.41 O ponto de partida da sensibilidade do movimento foi a reação à guerra doVietnã.42 A rejeição à guerra levou uma fração da juventude de diversas partes domundo a adotar diferentes versões de pacifismo, várias delas influenciadas por religiõesorientais, notadamente o budismo. Todas essas correntes tinham em comum uma atitudecrítica em relação à sociedade de consumo. Seus comportamentos libertários e significantes mais visíveis difundiram-se parao mundo todo, inclusive o Brasil. O Tropicalismo, que surgiu na primeira fase do37 Depoimento de Ezequiel Neves compositor e produtor musical- contido no DVD Documentário: 40ANOS DE ROCK BRASIL- JOVEM GUARDA. Direção: J.C. Marinho: Brasil. Emi Music. 2009. 2filmes (229min.)38 NAPOLITANO, Marcos. Cultura Brasileira: utopia e massificação (1950-1980) 2ºed. São Paulo:Contexto, 2004.p. 5639 Depoimento de Jerry Adriani compositor e cantor- contido no DVD Documentário: 40 Anos de RockBrasil- Jovem Guarda. Direção: J.C. Marinho: Brasil. Emi Music.2009. 2 filmes (229min.)40 DAPIEVE. op. cit. p.1541 CORRÊA, Tupã G. Rock, nos Passos da Moda. Mídia: Consumo X Mercado. Campinas, Papirus, 1989.42 RIDENTI, Marcelo. “1968: rebeliões e utopias” in: REIS FILHO, Daniel, FERREIRA, Jorge e ZENHA,Celeste. O século XX: o tempo das dúvidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
  25. 25. 25regime civil-militar, adotou uma série de significantes contraculturais, as roupascoloridas, os cabelos compridos e, em destaque, as guitarras elétricas e outros elementosda linguagem do rock. O Tropicalismo foi agregando poetas e outros músicos,adquirindo visibilidade em especial no LP manifesto “Tropicália ou Parnis etcircencis”(1968). Sobre o LP, Napolitano destaca que: Fundindo tradições do cancioneiro nordestino, Bossa Nova e música pop (...) além das guitarras elétricas, instrumentos típicos do rock anglo-americano. As músicas traziam outras inovações, principalmente nas letras e na performance dos artistas.43 Atentos aos componentes subversivos nas manifestações musicais de algunsartistas, especialmente após a apresentação de Caetano e os Mutantes no 3º FestivalInternacional da Canção com a música: “É proibido proibir”, os militares começavam aentender a ameaça do Tropicalismo. Quando Gilberto Gil e Caetano Veloso forampresos no Natal de 1968, o movimento perdeu sua força. Ainda no mesmo ano, outrogrupo importante, os Mutantes, influenciados pelo Beatles pós “Revolver” gravara seuprimeiro LP.44 No final do ano de 1969 e início da década de 1970, o grupopotencializou o sucesso e gravou três LPs.45 A utilização de elementos do rock que fora introduzido pelas manifestaçõesjuvenis nos anos 1950 começou a se generalizar. Em meados dos anos 1970, percebe-sea junção da linguagem roqueira ou pop com a de músicas regionais. Dois conjuntos sedestacaram, obtendo inclusive grande sucesso de público: os Novos Baianos, formadopor Moraes Moreira (compositor, vocal e violão), Baby Consuelo (vocal), Pepeu Gomes(Guitarra), Paulinho Boca de Cantor (vocal), Dadi (baixo) e Luiz Galvão (letras) entreoutros.46 Dapieve sinaliza que foram Os Secos e Molhados, no qual a formação clássicaconsistia de João Ricardo (Vocais, Violão, Harmônica), Ney Matogrosso (Vocais), eGérson Conrad (Vocais, Violão), que quase estabeleceram de vez o rock dentro dopanorama brasileiro. E para o autor, talvez tivessem sobrevivido por mais tempo: “A43 NAPOLITANO, op. cit. p.6244 CALADO, Carlos. A Divina Comédia dos Mutantes. São Paulo: Editora 34, 1995.45 Tanto para o Tropicalismo como para os Mutantes há um debate dentro do meio artístico e até mesmoacadêmico se podemos ou não considerá-los rock ou grupos/movimentos que mesclam diferentestendências dentre elas o rock.46 Rock psicodélico: caracterizado o estilo de rock que incluíam músicas instrumentais muito longas eefeitos sonoros especiais.
  26. 26. 26beleza, leveza e relativa simplicidade dos arranjos, aliados ao impacto da figuraandrógina de Ney Matogrosso47, fizeram do grupo uma coqueluche nacional”.48 Ainda no período, após “Secos e Molhados”, Raul Seixas, que tinha comoparceiro letrista o poeta e hoje escritor Paulo Coelho, mesclou música regionalnordestina e rock psicodélico, trilhando um caminho diferenciado, com elementos derock dos anos 1950 e 1960 e letras elaboradas, sem escapar das influências regionais,como a do baião de Luiz Gonzaga. Atualmente reconhecido por alguns críticos e fãscomo o mais genuíno roqueiro e lembrado como o pai do rock brasileiro. SegundoDapieve, Raul se tornaria um ponto de referência para aqueles que insistiam em fazerrock: “Raul fazia rock temperado por seu sotaque nordestino”. 49 Apesar de válidos e ricos, esses movimentos não consolidaram o segmento dogênero rock na música brasileira. Afinal, nos anos 1960 e 1970, o rock no Brasilencontrou oposição tanto nas direitas, que considerava o estilo um atentado aos valoresmorais, ocidentais e cristãos, como nas esquerdas, que era alvo de patrulhas ideológicasque o consideravam como centro do colonialismo cultural imputado ao Brasil pelospaíses centrais, especialmente os EUA, como vimos no episódio das passeatas. 50 Nasdécadas supracitadas, não havia se consolidado uma indústria cultural do rock e umaparcela de juventude que se identificasse principalmente pelo rock. Todavia, o rockpresente no período foi fundamental para influenciar as pessoas que fizeram parte dajuventude dos anos 1980: Os 1970 foram de descobertas musicais vitais para minha formação musical e como ser humano. Tentar entender Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, Hendrix etc... Misturados com Roberto, Erasmo, Caetano, Chico, Gil, o humor e suingue de Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Moreira da Silva, Noel Rosa e muitos outros. Essas informações armazenadas e jogadas no nosso liquidificador para ser devorado antropofagicamente resultou no som que a BLITZ faz até hoje! Aprendi que música boa não tem prazo de validade.5147 Ney de Sousa Pereira adotou o nome artístico Ney Matogrosso e passou a integrar o grupo “Secos eMolhados”, que, em apenas um ano e meio de vida, tornou-se um fenômeno e se desfez. Ney Matogrossoprojetou-se com o sucesso da banda, chamando a atenção por sua voz e por sua performance teatral nopalco. Com o fim do grupo “Secos e Molhados” seguiu uma carreira individual de sucesso, ganhandovários Discos de Ouro e de Platina e se apresentando no exterior. Conhecido pela maneira extravagante dese apresentar, com maquiagem, roupas escandalosas, trejeitos e a voz aguda, criou polêmica, sendo um deseus sucessos "Homem com H" de Antônio Barros quando já estava na carreira solo.48 DAPIEVE, op. cit. p.2049 Idem, p.1950 QUADRAT. op. cit.p.9651 Entrevista com Evandro Mesquita, compositor e cantor da Blitz, realizada por Aline Rochedo em 25 deoutubro de 2009.
  27. 27. 27 Em parte, a grande influência vem do movimento punk52 anglo-americano e suasderivações surgidas em meados dos anos 1970, denominadas pós-punk ou new wave. Omovimento exerceu grande influência sobre os jovens da geração de 1980, pois propõe acomposição de uma música por acordes simples, sem a necessidade de grandes aparatose virtuosismo característicos do rock progressivo. O punk trouxe as questões docotidiano social em suas letras carregadas de críticas à opressão do capitalismo.1.2 O movimento punk e sua influência no Brasil Os grupos punks anglo-americanos, como The Ramones e Sex Pistols,desprezavam o apuro técnico-formal da música utilizando poucos e fáceis acordes. Ospunks acreditavam numa arte crua que atingisse o público e mexesse com suas emoções.Para os artistas envolvidos no processo de consolidação desta vertente do rock, todainterpretação do mundo devia passar pela perspectiva punk. Punk, que em inglês significa lixo, ou coisa podre, também pode significarestopim. Foi termo denominado pela impresa do período para se referir a tais grupos, oque significara “emprestáveis e obscenos”. Segundo Corrêa, os Sex Pistols foramcoerentes até mesmo com relação ao significado do estilo que representaram na suaefêmera existência: “Os Sex Pistols em breve tempo ficaram famosos como o„apocalipse musical‟ por causa da total ausência de perspectivas que se detonava emsuas músicas”.53 Com isso, identificaram toda uma tendência existente entre os milharesde jovens desempregados que constituíam sua audiência. Nos Estados Unidos, a história do punk começou com Iggy Pop, artista quechocava a crítica por conta de suas apresentações marcantes. As letras falavam sobre avida nas ruas ligadas às experiências dos jovens. O som era barulhento e semaprimoramento técnico, por isso muitos grupos tiveram um breve percurso deexistência. Os Ramones, grupo estadunidense, influenciou as bandas que surgiramdepois e tornou-se uma referência para o gênero. Segundo Abramo, o fenômeno punkaparece como uma nova sub-cultura juvenil que se articula ao mesmo tempo em torno52 Denomina-se punk o estilo que tem como princípio de autonomia do faça você mesmo sendoo interessepela aparência agressiva, a simplicidade, o sarcasmo e a subversão da cultura. Ver: BIVAR, Antonio. Oque é punk. São Paulo: Brasiliense, s/d. e ESSINGER, Silvio. Punk: anarquia planetária e a cenabrasileira. São Paulo: Editora 34, 1999.53 CORRÊA, op.cit. p 85.
  28. 28. 28de uma revisão musical dentro do rock, e de um modo de vestir inusitado eextremamente “anormal”: São grupos fundados em atitude como a rejeição de aparatos grandiosos e de conhecimento acumulado, em troca da utilização da miséria e aspereza como elementos básicos de criação, o uso da dissonância e da estranheza para causar choque, o rompimento com os parâmetros de beleza e virtuosidade, a valorização do caos, a cacofonia de referências e signos para produzir confusão, a intenção de provocar, de produzir interferências perturbadoras na ordem.54 Na Inglaterra, de meados a final dos anos 1970, num outro cenário econômico, odesemprego e a falta de esperança desencadearam o movimento, o punk inglês,exemplificado aqui pelo grupo Sex Pistols, que expunham em suas canções ainsatisfação entre os jovens. O grupo compunha com apenas três acordes e os fãs, emsua maioria jovens moradores da periferia, tinham a possibilidade de fazem suaspróprias músicas e formarem novos grupos de rock. Apesar das dificuldades nadivulgação, surge no cenário do ano de 1977, atraindo um significativo número dejovens: O movimento punk foi, sem dúvida, vitorioso, pois o cenário musical inglês foi significativamente alterado. Londres fervilhava uma proliferação de bandas de estilos múltiplos (...) os selos independentes se multiplicavam e as rádios piratas invadiam.55 O punk estadunidense assumiu uma forma diferente do punk inglês, sendoprotagonizado por jovens moradores da periferia. Todavia, tanto nos EUA quanto naInglaterra, a música punk surge como uma reação ao estrelismo do rock progressivo dosanos de 1970: uma música que faz sentido para os jovens e suas experiências reais.56 O movimento punk brasileiro surgiu no final da década de 1970 e início de 1980dos subúrbios de São Paulo e posteriormente Rio de Janeiro. Tanto os punks paulistasquanto os cariocas tratavam de temáticas sociais criticando o modelo político de suaépoca em destaque o imperialismo do Presidente americano Ronald Reagan. No Brasil,o movimento primeiro repercutiu no segmento social no qual nascera na Inglaterra: noproletariado, este que se familiarizou com a revolta politizada dos Sex Pistols e do The54 ABRAMO, Helena Wendel. Anotações finais. In: Cenas juvenis: punks e darks no espetáculo urbano.São Paulo: Scritta, 1994. p.43.55 GUERREIRO, Goli. Retratos de uma tribo urbana: rock brasileiro, Salvador, UFBA.1994.p124.56 ABRAMO, op. cit, p.44
  29. 29. 29Clash.57 Os adeptos eram principalmente garotos das classes trabalhadoras dossubúrbios que viviam no momento uma situação de desesperança: A crise econômica e os índices de desemprego atingem duramente os jovens proletários que ao saírem do ciclo básico, não encontram emprego. (...) Assim, transforma-se num “movimento de revolta adolescente” de “uma geração que insatisfeita com tudo, invoca o espírito da mudança”.58 As primeiras bandas de punk paulistas despontaram timidamente a partir de1978 dentre elas: Restos do nada, AI5, Condutores de Cadáver. Tais bandas nãochegaram sequer a gravar. Seus shows eram sempre na periferia da cidade, para umnúmero mínimo de pessoas. Estes se reuniam num salão conhecido como Templo doRock, na zona leste de São Paulo. As brigas frequentes que ocorriam entre um ou outromais exaltado, as roupas que geralmente eram jaquetas militares, camisetas rasgadas ecoturnos e o corte de cabelo agressivo deram a eles a fama de violentos estandoconstantemente sob a vigilância da PM. Os grupos de punk não alcançaram um lugarprestigiado no cenário brasileiro. Para a jornalista Ana Maria Bahiana, a virada punk éexatamente isso: “rock é coisa para qualquer um, seja um astro por quinze minutos, vireao avesso essa música corrompida, mostre na carne, no cabelo, na roupa quem você é, ea partir dela, se reativam os fogos das tribos e seus rituais específicos”.59 A partir dos anos de 1980, mais precisamente 1982, a imprensa começa adivulgar o movimento punk. Neste período, os grupos punks existentes já tinhamconquistado um público fiel, códigos próprios, letras e roupas. Nessa época, existiammais de 20 bandas na periferia de São Paulo, várias outras no Rio e em Brasília. É apartir desse período que alguns grupos como “Inocentes”, “Cólera”, “Ratos de Porão”dentre outros, conseguem gravar seus primeiros discos: Essas bandas não tinham espaço nas gravadoras, nos canais de televisão, ou nas danceterias, que então proliferavam, mas que apresentavam apenas as bandas já consagradas. Por isso, começaram a buscar locais menores, menos equipamentos (...) na maior parte das vezes porões, bares e boates com frequência mais marginal e57 DAPIEVE, op. cit.58 Idem. p.4559 Ana Maria Bahiana- Revista Som Três, 1981. apud BRYAN, Guilherme. Quem tem um sonho nãodança: cultura jovem brasileira nos anos 80. Rio de Janeiro, Record, 2004, p.95
  30. 30. 30 montaram um circuito referido com Underground, denominação que servia também para designar o grupo.60 Neste mesmo período, desponta no cenário carioca uma movimentaçãodenominada new wave, no final dos anos de 1970, que como vimos é uma vertente domovimento punk. O movimento também influenciou o surgimento de bandasbrasileiras, tendo o cerne do punk na matriz dos grupos de BRock.611.3 Enfim, o BRock Como falamos na introdução desta dissertação, o BRock foi o nome criado porArthur Dapieve na imprensa para designar o amadurecimento do rock no Brasil nadécada de 1980.62 Para o autor, o nome remete ao período do despontamento do novorock brasileiro. O rock cresceu e amadureceu como mobilizador de uma parcela dajuventude brasileira e firmou-se no decorrer da década, com diferentes estilos. Ementrevista, Dapieve sinaliza que: Uma das características mais importantes do BRock eram as letras em português, isso é uma característica importante, não que não houvesse letra de rock português antes, mas era como se rock só pudesse ser cantado em inglês. O instrumental tosco, a princípio como proposta estética mesmo, derivada do punk. E num segundo momento, como realidade de quem estava tocando. Com o tempo as pessoas foram melhorando. Todos estavam começando, aprendendo a tocar. Alguns viriam a se tornar grandes músicos.63 No início dos anos 1980, ocorreram os últimos festivais da Canção transmitidospela Rede Globo, que eram os geradores de artistas e músicos da década anterior. Emmarço de 1980, iniciaram-se as eliminatórias do Festival da Música Popular Brasileira ediferente do que ocorreu nos anos anteriores, em que as apresentações revelavam novosnomes do meio musical, houve uma mudança no perfil durante este período. Osfestivais passaram a abrigar artistas como os já reconhecidos Oswaldo Montenegro eRaimundo Sodré, e novos estilos musicais, como o próprio rock.60 Idem. p.128.61 DAPIEVE, op. cit.62 O jornalista uniu B de Brasil ao nome rock.63 Entrevista com Arthur Dapieve, jornalista, crítico musical e professor PUC-Rio, realizada por AlineRochedo em 21de maio de 2009.
  31. 31. 31 A inquietação que o rock propunha facilitava o contato e por isso aidentificação entre os jovens, teve impacto considerável, uma vez em que a platéia nãotinha uma atitude apenas de expectador, ela participava. O gênero, que no Brasilesperou praticamente três décadas para constituir-se como um movimento em solobrasileiro, finalmente ganhava espaço. Em um dos últimos festivais da Canção, esterealizado no Maracanãzinho, Lucinha Lins, a vencedora do MPB-Shell Especial, ouviu,ao ser anunciada como melhor intérprete com a música Purpurina, de Jerônimo Jardim,uma sonora vaia que durou 15 minutos. O público preferia Planeta Água, de GuilhermeArantes (que também fora integrante de um grupo de rock progressivo nos anos 1970chamado „Moto Perpétuo‟). Neste mesmo festival, realizado em 1981, o grupo Gang 90& As Absurdetes64, com Júlio Barroso65, a frente, era o tímido representante do rockque estava pouco a pouco despontando. Júlio Barroso havia tomado contato com a cenanew wave quando morou em Nova York, por volta de 1980. Dapieve lembra esteperíodo: Havia uma repulsa ideológica, a priori do rock. E havia também uma dificuldade de material à posteriori, necessitava de instrumentos de qualidade, estúdios de gravação. Para um disco importado chegar no Brasil na década de 60 devia ser um problema grave, difícil. Eu peguei a partir dos anos 70 e já era difícil conseguir um disco importado, cuja qualidade era muito melhor. Quando apareceu o rock era visto como uma coisa extraterrestre, alienígena.66 O BRock, realizado e consumido por jovens, estabelece uma relação depercepção de mundo no processo de transição política pelo qual o país atravessava.Grupos que desfrutavam do bom humor em tempos tão rígidos esboçavam o rock queestava surgindo. Estes jovens começam a ingressar na vida pública por seus própriosmeios de expressão, sendo um deles o fazer e ouvir rock. No início, formar uma banda64 Banda rock, da linha new wave liderada pelo compositor e ensaísta Júlio Barroso, despontou em 1981no festival MPB-Shell, exibido pela TV Globo. O grupo ficou conhecido primeiramente com a música"Perdidos na Selva", lançada em compacto pelo selo Hot, em 1981. Dois anos depois, com formação umpouco diferente, veio o LP "Essa Tal de Gang 90 e Absurdettes", com o hit "Nosso Louco Amor", temade novela global.65 Júlio Barroso foi editor da revista "Música do Planeta Terra" durante a década de 1970, na qualcolaboraram Caetano Veloso, Gilberto Gil, Sergio Natureza e Salgado Maranhão, entre outros. Participouda revista "Som Três" com artigos, entrevistas com personalidades do meio musical e uma colunachamada "Toda taba ateia som". Tornou-se conhecido nacionalmente a partir da apresentação no "MPB-Shell 81" com o seu conjunto Gang 90 & As Absurdettes. Em 1982, viajou para os EUA, retornando noano seguinte para desenvolver as atividades da banda. Com problemas sérios com droga e alcoolismo,caiu da janela do seu apartamento no 11º andar, em São Paulo, encerrando prematuramente a sua carreira,no auge do sucesso. A maior hipótese corrente é de que a queda tenha sido acidental.66 Entrevista com Arthur Dapieve, jornalista, crítico musical e professor PUC-Rio, realizada por AlineRochedo em 21 de maio de 2009.
  32. 32. 32era apenas uma forma de diversão, porém os grupos formados foram amadurecendo aolongo da década, como músicos profissionais. O BRock estava despontando comautonomia e força, sinalizando, de certa forma, uma ruptura de estilo em relação à MPB.Para a jornalista Beatriz Silva, que acompanhou o despontamento do rock no início dadécada, “não houve uma ruptura entre a MPB e o BRock”67. O jornalista Dapieve, porsua vez, defende que: É um dos mitos da música brasileira, uma queda de pressão meio evolutiva da MPB, como se a música andasse em linha reta. Há ruptura o tempo todo dentro das décadas. Há ruptura sim porque houve uma ruptura da música lá fora e tem uma cisão muito clara no começo dos anos 70 quando John Lennon declara que o sonho acabou, aí passou a ser um outro tipo de música, um outro astral digamos assim. No Brasil é a mesma coisa, os anos 60 estavam imbuídos com uma idéia libertária e nos anos 70 todo mundo ficou totalmente baixo astral e o rock brigava com isso.68 As bandas que iniciavam e estavam de certa forma no circuito Rio/São Paulotraduziam a liberdade da linguagem que dispunham no momento. Seguindo os mesmopassos da Gang 90, o integrante do grupo de teatro carioca Asdrúbal Trouxe oTrombone, Evandro Mesquita, junto com o baterista Lobão, que antes participara dogrupo Vímana ao lado de Lulu Santos, tiveram a idéia de montar uma banda de rockcom uma pitada teatral que pudesse ter mais leveza e jovialidade: O rock é a linguagem mais direta, resgata a poesia de rua, traduz o jeito de falar e pensar de uma época. É simples e a idéia de juntar uns três ou quatro caras e começar um trabalho é próxima de quase qualquer um. E as bandas motivam o estilo “faça você mesmo”.69 Uma parte deste BRock, influenciado pelo “faça você mesmo” do punk-rocksinalizava uma forma de expressão artística criativa e original, simbolizando a quebraentre um modelo de repressão aos meios fonográficos e a livre expressão. Em seuprocesso, o jovem BRock logo foi alvo de críticas que se posicionavam de maneirasdiferentes. Durante os primeiros anos da década de 1980, registram-se nos periódicosbrasileiros as críticas de jornalistas que não viam o rock como um movimento positivo,67 Entrevista com Beatriz Silva, jornalista do Jornal O Globo do período, realizada por Aline Rochedo em16 de maio de 2009.68 Entrevista com Arthur Dapieve, jornalista, crítico musical e professor PUC-Rio, realizada por AlineRochedo em 21 de maio de 2009.69 Entrevista com Evandro Mesquita, cantor e compositor da Blitz, realizada por Aline Rochedo em 25 deoutubro de 2009.
  33. 33. 33tendo-o como produto auge do processo de americanização da cultura nacional. Dentreestes críticos destacamos nomes como José Ramos Tinhorão e José Nêumanne Pinto.Estes, nas páginas dos jornais e revistas em que escreviam, criticavam a explosão dorock nacional. Neste exemplo, duas opiniões distintas dividem espaço num mesmojornal: Esta nova onda representa uma safra de equívocos. O rock tupiniquim não veio para ficar. É apenas uma jogada mercadológica. Como foi a jovem Guarda.70 (...) acusar a atual geração de mistificadora é um insulto contra jovens é um insulto contra jovens que estão fazendo um trabalho honesto e criativo, a partir das influências que receberam de um gênero musical externo, a que recorreram e adaptaram porque não encontraram nada que os satisfizesse no Brasil. O rock responde a uma nova visão de mundo que a geração pós- Hiroxima não encontrou na MPB, muito preocupada em cantar baixinho, num cantinho, ao violão, enquanto o mundo está explodindo na maior transformação tecnológica de toda a história.71 Dos que apoiavam o rock, destacamos jornalistas como Jamari França, no Jornaldo Brasil, Ana Maria Bahiana, do jornal O Globo e da revista Pipoca Moderna, eMaurício Kubrusly, na revista SomTrês e na rádio Excelsior FM, de São Paulo. Estesaproveitavam os espaços à sua disposição para argumentar em favor do BRock. Dapievedestaca estes jornalistas como importantes figuras para a consolidação do rockbrasileiro. Apesar de desfrutar na época de prestígio e experiência em escrever sobremúsica brasileira, foram receptivos às novas bandas roqueiras e acabaram alcançandoreconhecimento profissional sobre o gênero. Os críticos, que acompanharam eparalelamente especializaram-se em rock, paulatinamente conquistaram notoriedadedentro da imprensa em colunas de jornais e em revistas especializadas. As informaçõesde fora levavam muito tempo para chegar ao Brasil. Discos internacionais eramdisputados, tanto quanto as publicações brasileiras de música, de pouquíssimas ediçõese lidas avidamente. Entre elas, estava o Jornal Canja (onde escreveu Paulo RicardoMedeiros, futuro RPM), e as revistas com a participação da jornalista Ana MariaBahiana, na versão Brasileira da Rolling Stone, pela qual passou Ezequiel Neves, dentreoutros.72 Dapieve destaca a atuação destes jornalistas:70 Jornal do Brasil-José Nêumanne Pinto, 25 de outubro de 1983.71 Jornal do Brasil- Jamari França, 26 de outubro de 1983- Fonte JB online.72 BRYAN,op. cit. p. 30
  34. 34. 34 Eu diria que cada cidade tem seu encorajador. Aqui no Rio eu citaria dois em particular: a Ana Maria Bahiana e o Jamari França do JB ele é o criador de uma expressão que é um sinônimo pra BRock que é Rock Brasil, expressão do Jamari. A Ana também e o Jamari, embora sejam de outra geração, imediatamente entenderam como era o aparato daquela coisa, compraram aquela idéia (...). A Ana Maria patrocinou, por exemplo, o começo da carreira pública do Tom Leão e do Carlos Albuquerque do Rio Fanzine. O Maurício Kubrusly repórter da Globo, na época era diretor da rádio Excelsior FM e rádio FM naquele tempo era rádio que tocava direto. E, além disso, ele também editava uma revista que foi a grande revista de música na virada de década que era SomTrês, da editora Três, onde praticamente todo mundo que eu consigo me lembrar de importante em atividade naquele momento escrevia. 73 No cenário nacional, o regime civil-militar paulatinamente vinha enfraquecendo,apresentando a ausência de legitimidade política. O momento era de instabilidadepolítica, falta de perspectivas e grande incerteza. Quadrat sinaliza o motivo pelo qual orock despontara justamente neste período: ¿Por qué surgió el BRock en el período de transición de inícios de los años ochenta, y no en los “años de plomo”, entre finales de los años sesenta e inicios de los setenta? En primer lugar, como música de protesta, el rock seguramente no hubiera sido tolerado por los militares. Para éstos, todo lo que chocara con el patrón de moralidad occidental y cristiano que defendían era “cosa de comunistas”. En segundo lugar, era también importante el fuerte “control ideológico” que realizaba la izquierda en materia de cultura, en este caso relacionando el rock y su caráter alienante con su origen en los Estados Unidos Así, nen la derecha nen la izquierda veían con agrado la existência de un movimiento rock en el Brasil.74 Segundo Quadrat, a geração de 1980 que cresceu durante os anos de ditaduramilitar foi educada em um momento de desarticulação política. 75 A escolatransformava-se no lugar de aprendizagem na qual o Estado pretendia fixar suaideologia e organizar os jovens para suprir suas próprias necessidades. O cantor LéoJaime caminha neste mesmo sentido ao reconhecer essa nova forma de comportamentoem relação ao processo político do país.76 Segundo ele, a esquerda os odiava quase tantoquanto a direita. Eram os filhotes da ditadura, os burgueses sem religião, a geração73 Entrevista com Arthur Dapieve, jornalista, crítico musical e professor PUC-Rio, realizada por AlineRochedo em 21 de maio de 2009.74 QUADRAT, op. cit.p.9675 QUADRAT, op.cit p.10076 Entrevista com Léo Jaime, compositor, cantor e jornalista, realizada por Aline Rochedo em 23 desetembro de 2009.
  35. 35. 35coca-cola.77 A censura os proibia e a esquerda os achincalhava nos jornais: “E mesmoassim tudo o que a gente fazia resultava em um sucesso inexplicável e espetacular.Depois acho que foram entendendo que não éramos nem terroristas e nem defensores doimperialismo ianque. Éramos uma legião” 78 A lembrança destes artistas remete a um clima de ufanismo e exaltação aonacionalismo. Quadrat nos lembra que eles recebiam as informações políticas e culturaisdo governo, porém este comportamento estava chegando a um fim.79 Os cantores ecompositores Léo Jaime e Rodrigo Santos recordam o período quando na escola tinhamque cantar o hino e levantar quando os professores entravam e que: “havia também umcerto ufanismo brasileiro com a música e o futebol ganhando mundo. Era uma épocamuito interessante, os anos 60. Aí veio o AI - 5 e a barra ficou muito mais pesada. Tudoera dito nas entrelinhas. Nas ruas e em casa”.80 Eu era muito pequeno e não me davam tantas informações. Certa vez um tio meu se escondeu lá em casa com um rádio-amador. Eu fiquei vidrado no rádio-amador!Não tinha noção de quantas mortes estavam acontecendo. O colégio segurava informação, era a época do milagre brasileiro, do Médici e os álbuns de figurinhas tinham sempre aquela lavagem cerebral da exaltação a bandeira, dos símbolos nacionais, da pátria, ou até mesmo ao exercito. Por isso eu sempre preferi os álbuns de futebol.81 A experiência do tempo vivido traz à tona uma narrativa presente nos relatosdesta geração que são similares em muitos pontos. Aqui, Dapieve descreve como sesentiam em relação às informações que lhes chegavam: “Minha percepção do momentoera cerceada pela falta de informação e pelo fato de ser criança. Eu tive um primo presopelos militares. Parte da família tendia a esquerda. Isso me dava certa consciência doque acontecia”.82 No processo de consolidação do rock, nos é apresentado uma série deexperiências vividas, possibilitando o entendimento dos sentidos que esta parcela de77 Entrevista com Léo Jaime, compositor, cantor e jornalista, realizada por Aline Rochedo em 23 desetembro de 2009.78 Entrevista com Léo Jaime, compositor, cantor e jornalista, realizada por Aline Rochedo em 23 desetembro de 2009.79 QUADRAT. op. cit.p.10680 Entrevista com Léo Jaime, compositor, cantor e jornalista, realizada por Aline Rochedo em 23 desetembro de 2009.81 Entrevista com Rodrigo Santos, Baixista do Barão Vermelho, realizada por Aline Rochedo em 18 denovembro de 2009.82 Entrevista com Arthur Dapieve, jornalista, crítico musical e professor PUC-Rio, realizada por AlineRochedo em 21 de maio de 2009.
  36. 36. 36juventude atribui a sua realidade social. Evandro Mesquita e Rodrigo Santos relembramalguns fatos que ocorreram na infância: Minha mãe era totalmente politizada para pavor de meu pai. Ela participava de passeatas e encontros sigilosos lá em casa. Junto com a Henriete Amado foi uma das que criaram o colégio experimental André Maurois, do qual tive a felicidade de estudar. Minha mãe chegou a “esconder” em casa alguns professores e alunos perseguidos pela ditadura. Eu ainda não entendia direito o que estava acontecendo e achava um pouco chato as reuniões políticas.83 Meu pai era diretor do estaleiro Naval Emaq (da mesma safra que o governo fez quebrar na década de 80) e dava aulas da história do Jazz e Blues, sem nunca ter tocado um instrumento. Minha família era de intelectuais e sempre tinha muita gente lá em casa, inclusive tios foragidos -de esquerda - em que dávamos abrigo por uns dias. Eu sabia o que acontecia quando via um tio escondido lá em casa, mas não tinha a dimensão exata.84 A comparação em relação à geração que a antecedeu, como a única chave deinterpretação, limita a compreensão do período e do protagonismo musical da geraçãode 1980, ainda vítima desta tendência, era classificada insistentemente pelo sensocomum como alienada, desqualificada e enfraquecida politicamente. Em seu trabalho, osociólogo Marcelo Urresti85 analisa as gerações de 1960/70 em contraste com as de1980/90 para observar que talvez as comparações não sejam aceitáveis, visto que oaspecto a ser destacado é o jovem em seu contexto histórico, compreendendo-o em seutempo. Evandro Mesquita recorda que: O jovem e o “papo jovem” que antes era tido como alienado e vinha grifado nos jornais, passou a arrastar multidões sedentas para se verem nas músicas. Deu grana e prazer. Falávamos de política sem ser panfletário ou didático (...). Era direcionada pra nossa geração. 86 Vivia-se o início da abertura política e neste sentido, a politização da juventudeque fazia rock da década de 1980 era a negação do sistema, não como a defesa dedireitas ou esquerdas, mas a manifestação do momento social em que o jovem estava.Segundo Dapieve, se a politização da década de 1960 tendia à esquerda, a politização dadécada de 1980 tendia ao anarquismo. A ruptura com a geração que a antecedeu estava83 Entrevista com Evandro Mesquita, compositor e cantor da Blitz, realizada por Aline Rochedo em 25 deoutubro de 2009.84 Entrevista com Rodrigo Santos, Baixista do Barão Vermelho, realizada por Aline Rochedo em 18 denovembro de 2009.85 URRESTI. op. cit. p. 177-20586 Entrevista com Evandro Mesquita, compositor e cantor da Blitz, realizada por Aline Rochedo em 25 deoutubro de 2009.
  37. 37. 37clara e a ação política tinha outra conotação: “Então são rupturas, claro que dá praanalisar o contínuo, mas, tem momentos chave, de renegação. De renegar aquilo quevem antes.” 87 A formação de uma linguagem, neste contexto, é um elemento indispensável,pois é através dela que se fixa e se mantêm o contato. Os jovens envolvidos com o rocksentem-se parte de um coletivo, onde a linguagem musical traduz o seu cotidiano.Segundo o senso do IBGE (Instituto brasileiro de Geografia e Estatística), a populaçãojovem de 14 a 24 anos que vivia nos centros urbanos era próxima aos 68,3% dos jovensdo país.88 Este número diz respeito aos jovens que tinham maior contato com asmudanças e com novidades nos meios midiáticos e fonográficos. O rock surge, de certaforma, como um dos elementos de agregação de grupos juvenis, pelo qual a busca porinformações, discos e instrumentos faziam com que fossem criados elos de identificaçãoentre os que se interessavam pelo gênero. Os depoimentos de Bruno Gouveia e RodrigoSantos sobre o primeiro contato que tiveram com o rock são bastante esclarecedores: Eu só vim a conhecer rock para valer aos meus 14 anos através de um amigo meu que começou a me incentivar a ouvir rádio. E aí aconteceu uma explosão (...) eu quis mergulhar para entender o que era aquilo. Correr atrás de pelo menos 20 anos, de 60 a 80 para entender quem fez o que e como. E foi um mergulho. Sendo que eu não tinha muito dinheiro para comprar os discos e então ia para casa dos amigos e gravava o que eles tinham em fita cassete (...). O rock foi pra mim um fenômeno musical muito mais do que exatamente uma manifestação contra o sistema, contracultura. Eu tinha quatorze anos e não tinha a menor ideia. Foi algo musical.89 Conheci o rock lá de fora dos 60 e 70 com os Beatles, Bob Dylan e Stones por conta dos discos dos meus irmãos mais velhos. Já o rock dos anos 50 foi por conta do meu pai que ouvia toda essa parte ligada a big-bands-blues-jazz-rock a billy-boogie woogie. Já a fase anos 80 fui eu mesmo que descobri e participei: a new wave. Os anos 80 estabeleceram uma nova linguagem em todas as áreas, desde a moda até as artes plásticas, passando óbvio, pela mais forte delas nesse período: a música. Todos estavam muito antenados com a necessidade de mudança.9087 Entrevista com Arthur Dapieve, jornalista, crítico musical e professor PUC-Rio, realizada por AlineRochedo em 21 de maio de 2009.88 Censo demográfico 1980. Dados gerais, migração, instrução, fecundidade, mortalidade. Brasil. Rio deJaneiro: IBGE, v.1, t. 4, n.1, 1983; Censo demográfico 1991. Características gerais da população einstrução. Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, n.1, 1996; IBGE, Contagem da População 1996, microdados.89 Entrevista com Bruno Gouveia, compositor e vocalista da banda Biquíni Cavadão. Realizada por AlineRochedo em 17 de setembro de 2009.90 Entrevista com Rodrigo Santos, Baixista do Barão Vermelho, realizada por Aline Rochedo em 18 denovembro de 2009.
  38. 38. 38 A opinião sobre o rock no período provocava polêmica e alguns periódicos oanunciavam como a volta da Jovem Guarda, ao caracterizar prematuramente o rocknacional dos anos 1980 tão avassalador quanto passageiro.91 Os derivados do fenômenoBRock refletem uma geração que diferia das anteriores em vários ângulos. As formas deexpressão no rock foram apropriadas por grupos de jovens como um emblema paramarcar a identidade do grupo. Nascidos a partir dos anos de 1960 confirmaram suaexperiência em um contexto social, tecnológico econômico diferente de seus pais:“Nasci em 1964! Carioca e Flamenguista desde o nascimento, sempre tive queda por 92desenho, música e esporte” ; “Eu nasci em 1965(...) Fui criança tendo contato comessa coisa toda de seguranças e foi fortíssimo”.93Nos diversos depoimentos e em obrasjornalísticas sustenta-se que, através do rock, os jovens desta década conseguiram criar umperfil de associação, a exemplo do jornalista Dapieve: A minha idade regula totalmente com o pessoal da chamada geração 80 do rock brasileiro. Eu nasci em 63, sou três anos mais novo que o Renato Russo, por exemplo, um ano mais velho que o Dado Villa- Lobos. Então eu acompanhei isso que não é um movimento, na medida em não havia uma organização, pelo lado primeiro do estudante, que ia a shows, que comprava discos, que estava ligado nisso e só num segundo momento como jornalista. Eu me formei praticamente na metade da década, no meio de 85, então a primeira metade eu acompanhei isso, de show, como um fã de música. E depois, a partir da minha formatura, passado um tempinho (...) eu comecei a acompanhar como repórter e crítico, e aí voltei a lidar com os meus colegas de geração que não eram meus amigos, mas, que eram pessoas que eu conhecia, por conta de ir aos shows. E aí, acho que essa visão complementar, dos dois lados do processo, me ajudou a ter um entendimento melhor, do que foi a música produzida na década de 80.94 Em 1980, a maioria destes jovens rondava seus 18-20 anos. Em novembro destemesmo ano, foi aprovada a emenda que restabelecia eleições diretas para governador, oque não acontecia desde 1965 e que viria a ocorrer somente em 1982. A oposiçãofortalecida exigia a redemocratização completa do país, principalmente uma assembléiaConstituinte e eleições diretas para presidente. O governo não permitia que issoocorresse, significaria perda do poder, pois sentia que a opinião pública daria vitória à91 GUERREIRO. op. cit.92 Entrevista com Rodrigo Santos, Baixista do Barão Vermelho, realizada por Aline Rochedo em 18 denovembro de 2009.93 Entrevista com Dado Villa Lobos, guitarrista e compositor da banda Legião Urbana, realizada por AlineRochedo em 6 de outubro de 2009.94 Entrevista com Arthur Dapieve, jornalista, crítico musical e professor PUC-Rio, realizada por AlineRochedo em 21 de maio de 2009.

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