Revista cerrado - GEPAAF

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Revista cerrado - GEPAAF

  1. 1. RESISTÊNCIA RESISTÊNCIATapuios – Atualmente com cerca de 280pessoas que vivem nos municípios de Ru- Licenciatura Intercultural Indígenabiataba e Nova América, em Goiás, opovo Tapuio constituiu-se a partir de umaldeamento criado em 1788. O aldeamentoCarretão de Pedro III, como também ficouconhecido, que chegou a abrigar cerca decinco mil indígenas, teve a população dis-persa em razão dos maus tratos e dos con-flitos com não-índios. Ali foram aldeadosKarajá, Kayapó e Xerente, que conviveramcom negros escravos e constituíram o povoTapuio. Sua língua oficial é o português e opovo, mesmo miscigenado, reconhece-se eé reconhecido pela Fundação Nacional do Protagonistas da realidadeÍndio (Funai) como indígena. Estudantes acompanham famílias em assentamentos e, juntamente com o exercício da assistência técnica, formam sua visão de mundo sobre a questão agrária brasileiraGuardiões do Cerrado – Os Avá-Canoei-ro são apontados por pesquisadores e pela ções, são uma constante”. Tão logo conquis- Com o objetivo de imergir nessa realida-historiografia como um dos povos indíge- tam seu espaço, os camponeses lidam com de e descobrir formas de trabalhar que con-nas do Brasil que mais resiste à domina- problemas para construir suas casas e realizar templem a vida de camponeses assentados,ção. Eles resistiram à política indigenista Alunos da turma especial que objetiva formar adequadamente professores para as aldeias indígenas benfeitorias para viabilizar uma produtivida- estudantes de Agronomia, Engenharia dede aldeamentos do século XVIII e estive- de minimamente satisfatória. Alimentos, Engenharia Florestal, Veterináriaram em conflito com a população não- Rosana foi convidada pela Escola de e Zootecnia da UFG propuseram a criação,-índia até por volta de 1860. As ações das A turma especial de Licenciatura Intercultural Indígena tem sede Agronomia e Engenharia de Alimentos em 2009, do Grupo de Ensino, Pesquisa ebandeiras punitivas e dos destacamentos na Faculdade de Letras da UFG e é um consórcio entre várias institui- (EA) para, na oportunidade do seminário Assistência à Agricultura Familiar (Gepa-policiais da época levaram os Avá-Cano- ções que formam docentes da educação escolar indígena. A iniciativa “O mundo da Agricultura Familiar em Goi- af). Com o apoio do Ministério do Desen-eiro à quase extinção. integra as ações afirmativas da UFG (que mantém ainda turmas espe- ás”, realizado em junho de 2011, falar sobre volvimento Agrário (MDA) e do Conselho Em meados do século XIX, parte dos ciais de Direito e de Pedagogia para assentados da Reforma Agrária) as perspectivas dos profissionais das ciên- Nacional de Desenvolvimento Científico eAvá-Canoeiro começou a se deslocar em e é destinada a povos indígenas da região dos Rios Araguaia e Tocan- cias agrárias no trabalho com assentados. Tecnológico (CNPq), o projeto consolidou-direção à Ilha do Bananal e parte per- Juliana Mascarenhas, Shara de Lima e Matheus tins. São povos que pertencem à família linguística Jê, com exceção Em seu pronunciamento, foi sincera: “Me -se em 2010 sob a coordenação do professormaneceu em território goiano, dando Celiak (EA/UFG) coletam insetos para estudo dos Avá-Canoeiro e Tapirapé que pertencem à família Tupi-Guarani, e pediram para falar do que é positivo, mas Gabriel Medina, estabelecendo uma dinâ-origem à divisão entre o grupo do Ara- que possuem elementos constitutivos de sua cultura familiarizada com é difícil, porque nós nos deparamos cons- mica de visitas a famílias residentes em doisguaia e o grupo do Tocantins. Mônica Patrícia da Veiga O o Cerrado. O objetivo é formar professores indígenas capazes de atuar tantemente com muitos problemas e eles assentamentos da reforma agrária em Goiás:Pechincha lembra exemplos de resis- em escolas indígenas interculturais bilíngues. nos marcam”. Ela listou ainda os problemas Dom Fernando, localizado em Itaberaí, e Pal-tência aos não indígenas, “parte dessesgrupos só foi contatada pela Funai apósmuitas tentativas, oito deles do grupo do De acordo com o vice-coordenador Leandro Rocha, o curso bus- ca a formação profissional em uma perspectiva não eurocêntrica, que O contato com agricultores assentados pode ser uma experiência decisiva para estudantes das Ciências Agrárias na es- relacionados com a educação, o transporte e até a burocracia para conquistar direitos mares, no município de Varjão. É premissa do grupo que a assistência rompa com a concepção de que a ciência ocidental é a única que leva de comercialização do que é produzido nas deve ser feita de acordo com as condiçõesAraguaia, em 1974 e, em 1983, quatro colha de caminhos profissionais. Afinal, um ao conhecimento verdadeiro e funcional. “O que tentamos nesse curso terras destinadas à reforma agrária. socioeconômicas nas quais estão inseridosAvá-Canoeiro do Tocantins”. O primei- trabalhador rural que vive nessas condições é relativizar a hegemonia da ciência construída no Ocidente, que aca-ro grupo vive na aldeia Javaé de Canoa- pode ter sido um dia boia-fria, posseiro, ex- ba por destruir saberes locais. Trata-se de uma formação em que os sa-nã, na Ilha do Bananal, no Tocantins, o propriado da terra, marginalizado nos cen- beres tradicionais da nossa cultura e das culturas indígenas dialoguem O casal Césaroutro vive no norte do estado de Goiás, tros urbanos, já tendo passado por diversas de forma autônoma”, ressaltou o professor. de Carvalhoem uma reserva de 38 mil hectares. Atu- situações de discriminação e violência. Os Em dezembro de 2011, a UFG forma a primeira turma especial de e Sheila Reisalmente, esse povo soma 18 pessoas, ha- assentamentos são espaços que resultam de Licenciatura Intercultural Indígena. Atualmente, a instituição mantém recebe osvendo notícias de grupos Avá-Canoeiro um conflito de tripla dimensão – política, quatro turmas para essa formação, os participantes vêm à universidade integrantes doisolados. São considerados os Guardiões social e econômica: a disputa pela posse da para aulas presenciais nos períodos de férias do calendário acadêmico e Gepaaf em suado Cerrado, tanto do ponto de vista cul- terra. E, segundo Rosana Fernandes, uma retornam às aldeias com material para estudo. casa. A relaçãotural quanto oficial, por pesquisadores, das líderes do Movimento dos Trabalhado- estabelecidaautoridades e agentes de órgãos e enti- res Rurais Sem-Terra (MST) em Goiás, “as entre eles édades de proteção indígena. disputas não acabam com o fim das ocupa- de diálogo e colaboração Pág 46 - Afirmativa Afirmativa - Pá g 47
  2. 2. RESISTÊNCIA RESISTÊNCIA os camponeses. Assim, os estudantes bus- cam compreender, antes mesmo de ques- Percalços da luta pela terra contudo, não é das mais fáceis, como ressal- tou Elisneia: “Levamos os produtos de bici- tões técnicas, histórias de vida. “Alguns cleta, quando é perto. Ou então arrumamos vieram da cidade e não dominam as técni- algum transporte, como ônibus ou carona”. cas de produção. Outros até já tinham vín- Com 27 anos de existência, o nacional. No estado de Goiás, de 2003 Elisneia e Elismar começaram a pro- culo com o campo, mas no dia a dia demo- Movimento dos Trabalhadores Rurais a 2009, a média anual de ocorrências duzir orgânicos, mas não tiveram condi- ram a retirar o sustento da terra e precisam Sem-Terra (MST), vinculado à enti- foi de 26. Em 2010, baixou para 11. ções de levar os planos adiante. Na casa trabalhar como diaristas em outras fazendas dade internacional Via Campesina, Conforme o relatório da CPT, em to- de Valmir Santos e Keila Pereira, que Para Juliana Mascarenhas, o trabalho com os assentados deve ser feito com “responsabilidade, compromisso e amor” ou até mesmo na cidade. No entanto, ar- organiza a situação fundiária e a vida dos os estados da federação essa média conquistaram sua terra em 2004, também risco dizer que um dos maiores problemas produtiva de mais de um milhão e meio decresceu, no mínimo, para a metade. há essa expectativa. “Valmir desenhou é a autoestima”, descreveu Marco Aurélio de comunicação que se estabeleceu, os César confirmou: “Em 2010, vendemos as de brasileiros. Em Goiás, nove regio- A respeito das ações especifica- todo o seu projeto de horticultura, apenas Pessoa, engenheiro agrônomo. agricultores disseram o que gostariam de aves que criamos antes do período de chu- nais dividem a responsabilidade por 36 mente lideradas pelo MST, ainda de fizemos um diagnóstico e oferecemos su- produzir ou implantar em suas terras e vas. Gostaríamos de repetir”. assentamentos que abrigam 2,6 mil fa- acordo com o relatório da CPT, entre gestões”, completou a agrônoma Shara de Experiência – A reportagem da revista os estudantes tentaram dar respostas. As A estudante Marina Rafael de Paiva, mílias e 23 acampamentos que reúnem 2004 e 2010, o número de famílias mo- Lima. Há no Gepaaf a ideia de desenvol- UFG Afirmativa viajou com cinco inte- dúvidas foram encaminhadas aos encon- do curso de Engenharia de Alimentos, mil famílias. Somando esse quantitati- bilizadas baixou de 76 mil para 17,8 ver um potencial espaço de trabalho que, grantes do Gepaaf até o assentamento de tros semanais realizados na EA, para que iniciou uma conversa com Sheila sobre vo à ação de outros movimentos cam- mil. O MST justifica a redução das uma vez desvinculado do agronegócio, Palmares, a 75 km de Goiânia, cuja área de pudessem ser resolvidas juntamente com a preparação de sucos para congelar. No pesinos, é possível localizar no estado ofensivas pela dificuldade em negociar possa fornecer subsídios para a transição 1,1 mil hectares abriga cerca de 60 famílias professores de diversas áreas. terreno da família havia tamarindo, caju, 14, 7 mil famílias assentadas em 287 es- com o governo federal o reconheci- agroecológica, tal como na experiência e dispõe de um espaço comum para o culti- Na residência de César de Carvalho cajá, acerola, caja-manga, banana, jabu- tabelecimentos. Esses dados correspon- mento de acampamentos que há mais com pequenos produtores rurais de Itapu- vo de arroz, milho e feijão. O local habita- Silva, Mara Sheila Almeida Reis e suas três ticaba e hibisco. Sheila disse considerar dem a um histórico de luta pela reforma de dois anos esperam resposta. ranga (veja reportagens sobre o tema no do pelos agricultores era antes a Quinta da crianças, por exemplo, já se praticava algo essa possibilidade, para não precisar tra- agrária, mas também por condições de Em notícia veiculada na página do intervalo entre as páginas 32 e 39). Bicuda, propriedade que pertencia a Antô- de horticultura e fruticultura, mas somente balhar como faxineira em Varjão. An- sobrevivência e autonomia no campo. movimento na Internet, é revelado que nio Damásio, preso pela Polícia Federal em para a subsistência. A renda da família é tes de chegar a Palmares, o casal viveu Rosana Fernandes, uma das líderes há 90 processos de desapropriação sem 2006 durante a Operação Caravelas, por costumeiramente garantida pelos serviços em Aparecida de Goiânia, mas já havia estaduais do MST, informou que tam- resposta. Além disso, os investimentos envolvimento com narcotráfico internacio- que César presta como diarista às fazendas passado pelo assentamento de Canudos, bém têm sido prioridade do movimento em infraestrutura também estariam nal. Na ocasião, o imóvel foi desapropriado da região. Mas o casal demonstrou interesse onde vivem os pais de Sheila. as campanhas de incentivo às práticas “parados”. “Relatório interno do Incra e negociado pelo Instituto de Colonização e em reverter a situação, alcançando uma au- Na terra de Elisneia Cardoso da Fon- agroecológicas. Além disso, projetos aponta que apenas 10% do orçamento Reforma Agrária (Incra), distribuindo 12,5 tonomia mínima para comercializar o que seca e Elismar Gonçalves, a situação en- educacionais e de mídia ganham es- do órgão destinado às obras de infra- hectares para cada família. produz. Segundo informou Juliana Masca- contrada foi diferente. Com uma produção paço dentro de acampamentos e as- estrutura para os assentamentos foram Ao longo de um dia, o grupo visitou renhas, estudante de Agronomia, o desejo adiantada de hortaliças, o casal disse comer- sentamentos, como forma de garantir utilizados. Dos R$ 159 milhões progra- cinco residências, buscando observar hor- da família, na ocasião, era poder “comercia- cializar alface, rúcula, pimentão, almeirão, formação humana, política e técnica mados, somente R$ 16 milhões tinham tas e criações de pequenos animais, como lizar banana e criar poedeiras para venda de espinafre, jiló, salsinha e chuchu nas feiras para as famílias. “Temos, atualmente, sido aplicados”, afirma a notícia, dis- aves e suínos. No decorrer do processo pintinhos de galinha caipira e codornas”. de Varjão, Cezarina e Guapó. A logística, 1,8 mil escolas de ensino fundamental ponível em: www.mst.org.br e 50 de ensino médio atendendo nos- Na segunda quinzena de novem- sos camponeses”, anunciou, durante o bro de 2011, como resposta ao silêncio, seminário “O Mundo da Agricultura as regionais goianas do MST ocuparamEquipe do Gepaaf acompanha o desenvolvimento da horticultura de Valmir Santos Família de Valmir e Keila, assentada em Varjão desde 2004 Familiar em Goiás”. por uma semana o entorno da sede do Com o desafio de promover a redis- Incra e também realizaram manifesta- tribuição de terras no país, mas também ções em agências do Banco do Brasil Matheus Celiak, também estudante de pressionar o poder público para que em todo o estado. Na pauta de reivin- de Agronomia, participava das atividades os camponeses tenham condições de dicações, além da regularização fundiá- do Gepaaf pela primeira vez. Quase sempre produzir e retomar suas vidas, o MST ria estava a necessidade de liberação de calado, observou os detalhes, demonstran- vive momentos brandos com relação créditos para viabilizar assessoria téc- do interesse. “É um contato que temos com às ações ofensivas. De acordo com o nica e benfeitorias em áreas coletivas e a prática, por isso penso ser interessante”, último relatório da Comissão Pastoral individuais de produção. resumiu. Juliana Mascarenhas, uma das lí- da Terra (CPT) sobre o Brasil rural, “Sem um investimento inicial, as deres do grupo, descreveu com mais deta- referente a 2010, o índice de ocupa- famílias, que geralmente são assentadas lhes o que, para ela, representam as visitas ções temporárias e acampamentos foi o em áreas de pasto, têm muitas dificul- quinzenais a Varjão: “Mesmo enfrentando menor dos últimos dez anos: respecti- dades para começar a produzir”, explica dificuldades, desentendimentos e, às vezes, vamente, 180 e 35 em todo o território o professor da EA, Gabriel Medina. problemas de comunicação, conseguimos resolver as atribulações com conversas, res- ponsabilidade, compromisso e amor”. Pág 48 - Afirmativa Afirmativa - Pá g 49

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