Canastra véia - Cosme F. Marques

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Livro prefaciado por Câmara Cascudo, da autoria do professor e poeta natural de Bananeiras - Pb, naturalizado santa-cruzense (RN) Cosme Ferreira Marques

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Canastra véia - Cosme F. Marques

  1. 1. JÉCA TABÚACANASTRA VÉIA VERSOS lataN arotidE 6491
  2. 2. JÉCA TABÚACANASTRA VÉIA VERSOS lataN arotidE 6491
  3. 3. Apresentando um Poeta LUIS DA CAMARA CASCUDO Apresento-vos ao poeta Cosme Ferreira Marques. Todos os seus versos estão reunidos,como vegetação legítima do sertão, flores, cardos, corimbos, folhas, no bôjo da canastra véiaacolhedora e uma. Vereis a simplicidade comunicativa do poeta e os elementos que ele dispôz para fazerouvir sua voz até as margens do mar, vinda do coração da terra norte rio grandense entre aspedras altas e brancas dos serrotes, dos taboleiros imensos, povoados pela estridência metálicada sariema Jeca Tabúa mora na cidade de Santa Cruz, um cento de quilômetro para o interior.Cercado de filhos, ganhou até poucos meses, vencimentos que seriam recusados por umasemana de trabalho urbano. Duzentos cruzeiros mensais! Com esse dinheiro, a família tradicionalmente viva, palpitante de inteligência e devibração, bem grande e bem resignada, o poeta não deixou de cantar e sonhar, entre pedras esofrimentos, numa atitude obstinada de exilado que teima em olhar, no horizonte longínquo, asombra da terra em que nasceu. Não haverá valorização mais alta, irrespondível e lógica que o perguntar-se ao criadorem que estado e circunstância psicológica realizou a sua criação. Certo é que o talento é determinador de maravilhas em qualquer posição tomada ante avida. Mas vamos pensar no que seria Alexandre Magno tendo nascido na Albânia ou Vitor Hugocidadão de Karthum. E se o elemento econômico, ambientador, não anima ou retarda o vôoluminoso da poesia. Ninguém discute que os poemas da Liberdade foram escritos na cadeia eque quase todos os mestres do Humorismo foram homens tristes, de vida triste. Cosme Ferreira Marques é poeta que, antes do livro, nos dá uma lição de perseverançae de fidelidade letrada. Tudo que o podia desanimar e vencer não o desanimou nem o venceu.Passou epidemia, tempestade, crise, desalento, como um avião atravessa nuvem ou, lembrandoum verso de Ferreira Itajubá: - um gume cortando polpas de maçãs maduras.
  4. 4. Quando muita gente desanimou e virou homem prático, acabando rico e dispéptico, JecaTabúa continuou poeta, poeta, poeta. Vereis, Leitor bem intencionado, que todos os temas desse livro são assuntos humanos,episódios domésticos, nomes de filhos, de amigos, de companheiros, ramos da paisagem doce eambiental que o cerca. Para Cosme Ferreira Marques, para sua inteligência sensível e grande coraçãoafetuoso, a Poesia é a grande consoladora, a luz serena, dando calor e guiando. Para ele a Poesia é sagrada e ritual, como Saadi, Omar Kaiíam, Tagore ou Mistral. Nada mais emocional que esse pai que não pode comprar um presente para oaniversário da filhinha, o mais simples, o mais pobre, o mais humilde presente. Para festeja-laescreve um soneto, uma canção e entrega à filha, como a oferta do seu sangue, a luz doespírito, o ritmo do coração. A pena, como o bico do pelicano clássico, abre o peito e a filhinharecebe um presente arrancado à alma que a gerou. Lembro que, na Idade Média, quando os trovadores e troveiros viajavam sempre,passando e repassando a muralha dos Pirineus, indo para os reinos de Castela, Aragão, Leão eNavarra, indo para a Provença, para o condado portugalense do conde Afonso Henrique, nãotinham, muitas vezes, uma só moeda na sacolinha pobre. Chegava o poeta, o felibre, o mestre cantor, na cabeça de uma ponte. Era preciso pagara travessia, o direito de pedágio. O poeta parava, erguia a citara ou o citolon, e cantava, ao ventotriste da tarde, uma canção. Era a moeda que Deus lhe dera para viver. Cantava e passava. Pagara o direito do pedágio. Assim Jeca Tabúa, Cosme Ferreira Marques. Quando a emoção lhe exige os direitos daimpressão mental, quando a família lhe pede a prova da alegria cordial, quando os amigosrecordam, inconscientemente, o dia de festa e de oferta, o poeta, sem a moeda que os homensfabricam e que vale tudo para a poeira do Mundo ergue a voz, cantando num verso simples, odireito de cunhar e circular a outra rutilante moeda cujos domínios estão em todos os espíritos. E assim passa, de coração em coração, para o Futuro...
  5. 5. DEDICATÓRIA Aos meus pais, José Maria Marques e Isabel Oscarlina dos Santos, um preito dedevotamento. A minha esposa, companheira de lutas e canseiras, um conjunto de admiração e amor. Aos meus idolatrados filhinhos José Maria Neto, Maria do Rosário Marques, JoséMaurício Marques, Maria Lúcia Marques, Maria do Socorro Marques e José Mário Marques, umbeijo paternal. À memória de todos aqueles que, já desaparecidos, ou ausentes, relembro nas pobrespáginas deste livro; á uns a minha saudade, á outros, a minha eterna lembrança. Ao meu irmão Francisco de Assis Marques e família, fraternal amizade. Aos companheiros de Repartição, um amplexo afetuoso. Ao Cel. Vivaldo Pereira de Araújo, o meu eterno reconhecimento.
  6. 6. Algumas palavras CANASTRA VÉIA... título pobre e desgracioso para um livro. Escolhi-o. O que é senão omeu livro, um baú de recordações? Os seus versos, se é que a essa mistura de frases rimadas, pode-se dar esse nome, sãocantos pobres, destituídos de floreios literários, representando apenas, imagens de pessoas ecoisas dos bons tempos da meninice. Quis, retratá-las, gravando em versos aquilo que tantoamei e continua fielmente impressa no meu Eu. A primeira parte do livro está constituída de “Pés Quebrados” numa linguagem matuta,toda regional. Procurei arremedar esta linguagem falada pelos nossos sertanejos sofredores;procurei pintar em versos, as imagens tão queridas, que rodeavam a minha existência, quandoainda criança; e, MEU CORAÇÃO, BAÚ VÉIO I CANÇADU, guarda no seu mais recôndito, noseu amago, tantas lembranças que ainda hoje povoam a minha fraca imaginação. A segunda parte, posso chamá-la de “Vibrações d’Alma”. São cantos desferidos aotoque de um sentimento, quer de afeição, de dedicação e de gratidão, a amigos, filhos eprotetores. É um heterogêneo de versos, quadras, acrósticos, sonetos etc. São pedaços daminha alma, ofertórios de meu coração; são lamentos, são festins oferecidos a todos a quem medirigi. Para oferecer ao público trabalho tão insignificante, recorri tão somente ao grandemestre “Sentimento”, cooperando com o mesmo, a linguagem regional tão costumeira entre onosso povo. Ofereço, portanto, não um livro, mas, retalhos de minha alma, repartidos entre osque recebam este sem outro fito, a não ser o de dispensar ao Jéca Tabúa, os defeitos e errosque aos montes se encontram no CANASTRA VÉIA. Com estas palavras apresenta-se O AUTOR
  7. 7. PARTE I
  8. 8. CANASTRA VÉIA ... Ao Afonso Geroncio da FonsecaCanastra véia... tú temdentro de tú bem guardado,as istóra dum passadu todo meu:Canastra, juro pru Deusinquanto vida tivédi zelá essis papé di lembrança:Minha vida di criança...adispôi a di rapás.daquelis tempus pra trás tempus bão:Baú di arrecordaçãoqui guarda tantas lembrança,tant’inluzão e isperança quêu tinha:
  9. 9. Canastra! Canastra minha, vô(*) ti dizê di verdade, sois, baú só di sódade i judiação: Também o meu coração, é um baú véio i cançadu... Más trái tudim bem féxado I siguro; Já tô* véio, tô* maduro, a morte logo mi arcança... más num carrega Sinhô a canastra de lembrança.(*) Escrito no original como vê e tê, em evidente erro tipográfico. No corpo do textoforam igualmente corrigidos erros análogos, em que foram acrescentados oscorrespondentes acentos circunflexo e agudo, para assinalar as palavras oxítonas oumonossílabos tônicos, ausentes por evidente erro de tipografia. No mais foi respeitadaa ortografia correspondente à linguagem matuta utilizada pelo autor, na primeira parteda obra, e, na segunda parte, aos hábitos ortográficos não uniformes, vigentes à épocaanterior à reforma ortográfica de 1943.
  10. 10. D. ZÉFINHA As Exmas. Sras. Iací Xavier e Hermilia G. Gonçalves BezerraSinhôras, mi alembru dela...da boa D. Zefinha,a dona de CAIÇARINHA tão falada...Arma grande, arma dotadaqui a guarde u Redentô,a munta gente curô na redondeza;Seus remédio, era certesaI tinhum munta valía..Ela dava méópatía pelo dôtô;a munta gente sarvôdûa morte agarantida,a muntos ela deu vida i saúde;
  11. 11. era chêa de virtude,era munto caridósaera a muié mais bondósa di redó;Morreu, foi mermo qui o Sófartár-nos durante o dia,Beladona...Jalapa...Nós-vomicaSuas dósa...méópatia... Março de 1938
  12. 12. VELHOS CARREIROS À memória do ilustre Abdias Gomes de Almeida Bezerra, o incentivador de RIMARIOS.Um carro a gemê e a chorádecendo numa ladêra..di vagá, ca priguicêra acustumada.Cantando...aquela tuadanua harmunia dólente,fazia gêmê a gente u seu canto;a tarde, era um quebranto,i naquela vagarêsa,du carro e da naturêsa era bunito;di vêz in quanto, um gritodu carrêro Bacuráu,cum o ferrão feito de pau na mão;
  13. 13. gritava, na solidãodo dia quase acabado,é Brioso...é Bordado é boi?!...Passado qui já se foi,a tempos cumo sois mau!Mais num apaga a lembrançaDi João Birro e Bacuráu. .
  14. 14. QUÉQUÉU Ao coronel José Rodrigues de CarvalhoMeu sinhô, mi iscute bem,mi preste toda atenção;é uma recordação di minino;Si num mi faiá u tino,inté num sô isquecido,u seu nome era Ocrido vurgo Quéquéu;a menininho incréu!era mermo artilôso,era muito perigoso i brigão;fazia judiaçãoera u dimonho in figuraera dessas criatura impossíve;
  15. 15. U minino era incriveerum perigo patrão,si paricia um tufão amolestado;ôje ta munto mudado,dizem qui é aviadô...o Quéquéu, já ta dereito...nun sei cuma indireitô.
  16. 16. MÃE ANINHA ohnirboS ahcoR leugiM oAEu vi ela; tanto tempoqui eu num via a véinha,assistente mãe Aninha Santiago;Na minmóra ainda tragou seu retrato instampado;pôs tombem eu fui pegado pur éla;Muntos hóme i donzelapur as mão dela passô,a muntos ela ajudô a vivê;Mãe Aninha, u meu prazê,Toda minha gratidão,vae inscrita nestes verçonum preito de dimiração.
  17. 17. GAMELEIRA VEIA... Ao compadre e amigo João Felipe Damasceno (Dadão)Quanta sódade q’ueu sinto,daquela arve frondáda,onde toda meninada si divirtia!Na sua sombra si uvía,u canto dos passarinhoqui nela fazia us ninho di amô;ô antão-se us Bêja-frôcas suas pena dórada,cherando as frô prefumada cun bico;as vêze cismando fico,pensando óras inteira,vendo a véia gamilêra tão arta;
  18. 18. in minh’arma si retrataus seus gaio agigantadoi dibáxo amoquecado nóis vivia;a gente si divirtia,era pagóde i fonção,sentado u véio Dadão assuviava,i u tempo assim si passavacumo um sonho di esperança...vida boa...vida ricanossa vida di criança.
  19. 19. CRIMEMatá um a férro frio,assaciná um cristão...dá facada bem nus vão dum sê,Sinfóicá só pru querêisfalicê dipindurado,ô antão se envenenando cum arsenu,inguli quarqué venenosomente pra s’ispichá,tê gosto di si matá pru gosto,pru via quarqué disgostoô antão-se ruêdêra...ô mermu cum lambedêra ô punhá,
  20. 20. Tê u gosto di matásomente pru marvadeza,marvado di natureza rim...pois tudo isso pra mim,num é crime meu patrão,crime, é ingratidão di muié;ela si torna um quicé,amolado i cortadô...mata a vida e u amô mas siguro;Meu patrão, aqui li juro,esse crime é sem perdão...diviria havê centençapru crime d’ingratidão.
  21. 21. JOÃO PINHEIRO Ao Dr. Odorico Ferreira de SouzaPatrão vaimicê se alembradu nego véi João Pinheiro,u mió aboiadêro i bóiadô?Si alembra seu Dôtôqui quando ele abóiavaas rua regurgitava di gente?inda trago bem patenteu abôio sintimentá,aquele abôio sem iguá no Norte...Guela chêa, peito fortetipo mermu du vaquero,mi alembro dôtô, mi alembrodu abôio di João Pinhêro...
  22. 22. DISEJOS... Ao Dr. Lourival Ferreira de Souza.Seu dôtô, eu num dêsejocasa boa nem riqueza;nem tómóve nem beleza nu falá;num desejo viajápru essis mundo ixtrangero,nem pru Rio de Janêro nem Baía;nem também tê regaliadi muita comódação...nem vuá nus avião di viadô;nem imbaicá nus vapôqui anda pur má afora,eu num desejo mióra ninhua;
  23. 23. eu num quero côsa arguadessas muderna inventada,di raido qui fás zuáda i falação;eu só queria patrão,nu mundo tê um prazê,duns óio, q’ueu sei mordê mastigá...pra u gosto dêsse óiáficá nas minha guéla(pois patrão, os óio dela...) a zóim!...
  24. 24. FABIÃO DAS QUÊMADA Ao Horacio Rocha Era piqueno, mi alembru du cantadô Fabião; su rébeca, seu baião gêmedô; Puéta provizadô; nêgo véi intiligente, perigoso nu repente da puizía; onde cantava, curria um povão pra iscutá u puéta sem iguá na rêbêra; I cantava a noite intêra históra de apartação, das vaquejada de então qui havia;
  25. 25. a sua rébéca gimiano seu Redondo sinhá,a gaiganta ritinianum canto sintimentá...
  26. 26. ARRITIRANTES... Ao Coronel Ezequiel Mergelino de SouzaCoroné num sadimiredu istado qui mi vê,venho di riba du quimquê, du sertão:mi arrepare meu patrão,a mizéra mi consome,dois fio morreu a fome nus caminho;aqui patrão, tô sosinho,morto di fome, cançado...a famia, ali nu quebrado mi ispéra,cum fome, mardita éraqui trás a seca terrive,é duro Patrão, é horrive, pra mim;
  27. 27. Eu nunca mi vi assim,nu istado qui mi vê,vendu meus fio morrê nus braço,foi pra mim cumo um pedaçotirado do coração,mi secorra coroné,uma ismola meu patrão.
  28. 28. QUEBRANTO Ao amigo José Josias BezerraTu num néga meu amigo,qui andas aduençado;ti vejo assim tão calado i triste!?...A móde qui já sintisteô antão-se tás sentindodentru di tú si bulindo um négóiço?Tem coidado, esse tróçoé doença, ti agaranto,é u marvado quebranto duenção,ele ataca u coraçãoméxe cum côipo da gente,não tem cristão c’aguente um mêi,
  29. 29. si agarra dua vêisfás da gente aquele móio,Quebranto, náce dus óio das cabôca;dá abrimento di boca,é aquela priguiçêra...fás da gente ua porqueira dus cão;Amigo, é duenção,u quebranto é di matá,i u réméido qui li séive,é cum éla si cazá.
  30. 30. AQUELA CASA! Ao Dr. Octacilio Ferreira de SouzaMeu patrão, aquéla casa,qui s’avista na ladêra,tão cheia de trepadêra du mato;vóis tá vendo seu matrato,aquele seu abadono,cumo uma casa sem dono insquicida?pôs ali já ôve vida,já teve folicidade;oje só resta a sódade i a tapéra;Pôs ali in ôtras érainzistiu um ninho di amô,aus rédó...tantas fulô... er’um jardim;
  31. 31. Seu moço, ói bem pra mimveja meu zóio a chorá,foi ali u meu artá meus bem querê;Meu patrão póde me crê,eu vivo assim na mizéraquinem aquela tapéra, disprezada;Vivo quá arma penada,pércurando uma inluzão...só mi encontro ca sódadeTAPÉRA DU CORAÇÃO.
  32. 32. MADRINHA AMALIA Á D. Nanita Ferreira de Souza.Patrôa, madrinha Amáiauma santa criatura,era a image da candura i piadade;arma chêa de bondade,a todos ela agradava,in sua casa, num fartava gente;munto carma, e paciente,cunversadera i risôna, i ingraçada...a morte levô-a; a marvada!a coração inpedrado!...minha madrinha, lá do céoabençôe seu afiado. Março de 1940
  33. 33. INVERNO Ao Dr. João Francisco Dantas SalesCai a chuva a noite intêra,ronca bem perto o truvão;já se alegra o meu sertão quirido;ai cuma é divertido,a gente ainda deitadovendu a chuva nu téiado batendo?Di menhã, a gente vendous campo dágua cuberto,u rio cheio, bem perto zuando...us bizerro iscramuçandonuma carrera danada,inté mermo a bicharada fica contente;
  34. 34. inverno é cá pra gentecuma ôro meu patrão...si transfóima mundo i gentecum inverno no sertão. Março de 1946
  35. 35. GRATIDÃOAs professoras Leonor Vasconcelos e Palmira Barbosa, de quem recebi os mais belos e Melhores ensinamentos. Donas me alembro bem... tinha seis ano interado, quando fui matriculado na iscóla; Eu tinha boa cachola dessas de intéligença, i junto ca paciença de vaimincês, aprendi in pocos mês lê, iscrevê i contá, aprendi a dézenhá tombem; minha mimóra inda tem lembrança i satisfação in lembrá as purfessôra qui me déro inducação. Maio de 1940
  36. 36. AMÔ SERTANÊJOAo poeta Abel Rodrigues de Carvalho na noite de 23 de Junho de 1940 em C. Novos. Nua noite cuma essa, cum um céo todo arrendado d’istrelas alumiado e luá... Dessas Lua sem iguá cum’otra num se vê, nessas noite eu vi nacê meu amô; Seu moço, vóis já provô, u gosto dessa paxão, das cabôca du sertão, tão bunita? A sódade aqui mi grita, num mi dêxa más falá... seu Abé, u amô nace duns óio qui sabe óiá.
  37. 37. SECA...Ao Dr. Eloi de Souza, ilustre batalhador sertanejo. Seu dôtô, vóis já conhece u fragelo du sertão? Vaimincê já viu patrão a seca? Qui tem sido toda a pêica di nós pobre sertanejo, é quinem aquele bêjo de Juda? Farça, ruim, úriuda marvada...inquelemente, acaba cas nossa gente e cuns bicho?... A dimonha tem capricho de tudo í insfolando, povo e gado dizimando sem dó;
  38. 38. Seu dôtô, é más mióa gente num ispricáus grande e terrive má das criza;trás a fome, cumo brizaseu vento, nicícidadei toda calamidade vem cum ela;é bem feia a cara dela,num tem nada di bom trato,isso eu li juro patrão,pois já vi u seu retrato. Fevereiro de 1941
  39. 39. LUA CHÊA Ao Dr. Camara Cascudo.Moço, seu fosse inducado,tivesse munto sabê,minha vida er’inscrevê, prus jorná;Falava nesse luádessas Lua qui lumêa,qui nu sertão quilarêa, inté a gente;a móde qui ela senteu ca gente ta sentindo;ela só véve sirrindo meu patrão;a lua cá du sertão,parece qui é dotada,foru más bem trabaiada póde crê;
  40. 40. Quando a lua vem nacê,nu tempo qui ela é chêa,é bunita cumo bêia seu dôtô;Seu CATULE discantô,a lua du Ciará,más moço, u meu luá... u meu luá...Eu sô capás di jurá,cum ele num tem parêa,o brio dele patrãointé a arma alumêa. Agosto de 1941.
  41. 41. A SEU PUDESSE!Ao grande iniciador radiofônico Luis Romão. Seu môço, eu uvi dizê qui a munto já si criô, n’argença Pernambucana um tar dum Indicadô? A móde quinem um raido, qui fala pras murtidão, inspricando as boa nova pru meio di falação? A seu moço seu pudêsse, tombem nu bicho falá!.. Amostrava u meu sertão Prus povo das Capitá; Dibuiavá a vida véia qui nós leva nessa terra... dizia todas beleza das verdura cá da serra.
  42. 42. Quiria moço dizêda lindeza dus luá,da lua tamãe dum bombola nu céo a lumiá.A seu tivesse córáge,í dinheiro seu tivesse,só pra í lá nus Natá,A SEU MOÇO SEU PUDESSE! Agosto de 1941.
  43. 43. OIA’ DI FÔGOAo ilustre poeta Jaime dos Guimarães Vanderley Teus óio cabôca, são duas chama qu’incandêa, dois óio de Só d’inverno dois brio di Lua chêa... Duas véla si quêmando, duas braza di aroêra duas lús di óstrómóve duas boca di caêra. dois vurcão s’incendiando duas lús qui dóe nas vista duas róda di festejo dessas di fogo de vista. Duas chalêra fervendo, fervendo cum água quente... teus óio cabôca quêmam, inté a arma da gente... Agosto de 1941.
  44. 44. FLOR HUMANA....A D. Auta Brandão, no estagio, realizado no D. E. E. em Dezembro de 1941 Sá dona, u mundo véio, é um imenso jardim, é grande, é munto gránde parece num tê más fim. I penso qui o jardinêro qui esse jardim fabricô, iscuiêu dona, as muié, pra sê dele suas fulô. Tem di toda versidade, tem fulô feia i catita, i vóis sa dona sois uma du bróco das mai bunita. Carculo, qui as outra frô, véve chêa di ciúme, pruquê vós tem más carrego nu vosso chêro i préfume.
  45. 45. Sá dona, vóis tem más vida,nesses óio tão faguêro...u disgosto qui mi mata,é eu num sê jardinêro...Don’Auta, peço perdãoPru essa minha artitude,más sá dona, é du matuto,(Falá verdade, é vértude).
  46. 46. CARIDADE...Ao Doutor Mariano coelho, o benemerito Médico da zona sertaneja. Patrão, vaimencê amostra da caridade a figura; a pois é a criatura más bondosa, a arma más caridosa qui já viu esses meus óio, seu dôtô vóis sois um móio de bondade; vóis retrata essa bérdade a más santa das virtude, vóis tem salucitude di pai; nessa rêbêra, num ai um más mió qui o sinhô, todo mundo seu dôtô, li qué bem;
  47. 47. I nesses verço tombem,amostro a sastifação,levum dôtô Marianotoda minha gartidão. Janeiro de 1942.
  48. 48. CABÔCA DU SERTÃO Ao compadre e amigo Luís Patriota. Teus cabelo são pretinho, quinem aza de caraúna, tem um brio da rizina do tronco da baraúna. Teus óio, são tão iscuro quinem fruita di quixaba, tem a lúa da Lúa chêa briante qui nun se acaba. Tua boca é piquinina dentes branco qui alumia, teus lábios, são paricido ca porpa da melancia... Tens a vós da juriti quando canta nu baxío, tem u saluço das água, das água mança du rio.
  49. 49. Infim cabôca, tu soisa vida qui mi incanta,Sois todinha amodeladapur um mudelo di Santa. Outubro de 1943.
  50. 50. DEPOIS DAS FESTAS Ao ilustre casal, JOSÉ C. FIUZA-MARIETA BEZERRA, o meu humilde mas sincero parabém, pela data tão significativa de suas Bodas de prata.Cheguei tarde, eu ricunheço,u meu vagá, minha tardança;más vaimicês mi discurpemtô véio quinem as gança...Más imbora mermo tarde,a vóis um verço dirijo,os meu sinceros imbórapelo vosso arrigusijo.Pru vossa sastifaçãonesse dia, um tesôro...meus voto qui vóis assista,as vossas Boda de Ôro.
  51. 51. Eu quis pessoarmenteo meu abraço levá...más...num diga a ninguémnum tinha rôpa pra i lá.
  52. 52. CUNHICIMENTOPara Dr. Djalma Marinho e Teodorico Bezerra. Seu coroné Tidurico, fez travá cunhicimento, cum Bacharé de talento, létrado; Dôtô, Djarma, falado, um moço di numiáda, qui fás questão increcada si acaba; Num sô dôtô, num sei falá, sô matuto aferventado, más moços, sô divógádo di ceitação; eu só resôrvo questão, sem fala, sem briga, sem guerra... encrencas qui vem dus óios, das cabôca de minha terra. Março de 1944.
  53. 53. NOITE DE SÃO JOÃO Ao amigo Nestor Galhardo.Seu môço, eu vejo S. João,mais um S. João sertanejo,um S. João qui sempre vejo Toda vida,O mato, di fronte erguidalá na frente du têrrêro,infêitado, esguio, lampêro contente;Vêno u povão, toda gentein seu rédó frótiandoi u fuguêrão si quémano a vontade;S. João di felicidadedi fartura i di discançu,brandu como u remanço Dûa canção;
  54. 54. ai quanta arrecordação daquelis tempus passadu! hôje tá tudo mudado nem parece.um fôgo num aparéce,fuguêra já num inziste,até a inmage du Santoarrepare qui tá trixte.
  55. 55. MARGARIDA... Ao Miguel Andrade.Seu moço, a Margarida,aquela véia véinha,ricurvada i bem pretinha quinem caivão;aquela véia patrão,trabaiava noite i dia,i criô grande famia na fartura;Inté qui pra sepurturaseu coipo véio baxô,num sei si arguem chorô pur ela;Morte bunita a dela,Morreu cum’uma criança...Margarida, toma esses verçoTua corôa di lembrança. Março de 1944.
  56. 56. SOFRER Ao Cícero Pinto, amigo de lutas.Môço, a vida véiaé um má di sufrimento,é cabeça sem idéiaé idéia sem alento.U mundo, véia candêiatrás a gente acorrentado,inxãme grande di abêianum vivê atribulado.U rico récrama a vida,pru tê feito mau negóiço,u pobre coisa perdidaarrecrama seus distróço.Carcule meu véio amigo,a vida de um poeta!Arma sôrta sem perigo,Êle num véve, végéta.
  57. 57. U ISTAJO NO RETRATO... Eu venho dôtô Anfilóco Nessis verço aprezentá, Us agente da Sigunda Qui vinhéro istagiá. I apruveito a monção, Prus Sinhô agradicê, As lição tão pruveitosa Qui vinhemu arrecebê. Nossos agradicimentos... Si torne tombem patente, A tôdus daqui da casa I us dôtôris assistentes. Tôdus elis si mostraro, Chêis de dedicação. Cum paciença incinaro Istatisca in prufuzão.
  58. 58. In nome dus companhêrusDa sigunda vô falá...Dizejâno a vaimincêsFilis ano, bons Natá.Cuntinuano a verçada,Dô uma coipa fié,Cumeço cum Zé FarnandeAgente di São Tumé.U seu Bizerra LinhareDi Currai Nóvo é agente,U Ivã dos AcariNunca fêi vergonha a gente.A Naí, das Serra NêgaDas Parêa, a Guiomá,Jucurutú tombem vêiNosso amigo Precevá.O Arnaldo druminhôco,Dus Jardin du Siridó,U Perera das FulôresAdemá, dus Caicó.Mai u batuta da Turma,Gerente, dôtô di fato...É u Zé Luí di FrançaLá di Santana dus Mato.
  59. 59. Di Báxa Verde é o Pedro,Bem franzino u rapagóte,Da istatisca ele éO mai novo, é u fióte.U úrtimo, u du finá,Dêssi istajo tão falado,Sô eu, u de Santa Crui,Químbáxo vô assinado. Natal, 22 de Dezembro de 1941.
  60. 60. ESTAGIO DE CURRAES NOVOSAo Delegado Regional, aos Delegados Seccionaes e Secretario e aos Delegados Municipais da 2ª. Zona. Senhor doutor Anfiloquio Venho pedir permissão Para do estagio fazer A rude apresentação Seu Dôtô seu Anfiloqo Vei fazer encerramento Do ta Recenseamento Do Istago: Dôtô Óto, cum seu trajo De terno branco agajota É delegado de nota i num é sonso: O Monsenhô Palo Éronso É um pade delegado Quim unto tem trabaiado Nos laboro:
  61. 61. O ôtro munto simploro(é gente do mió pano)Dôtô Zé Merenciano É um valôO seu Jorfi é um pavô,É nos trabaio incansaviSão este qui fóima a chave Da dereção;Inda tem u cidadãoo sinhô Mané CuêioQui do censo é um istêo Bão:Pra uvi as instruçãoDa dereção rifirida,A trinca foi reunida Dos Delegado:Dos municipio do IstadoIsso é, de todos nãoAguenhite notu os quistão No cerramento;O premeiro é no momentoU valô ca du SertãoSeu Sobrinho-confusão Preguntadô:
  62. 62. Aparece ótru SinhôSabidão di dimiráSeu Olavo dus Jorná... Dêrêtô:Dus otro é um valôNem qui seja nesa listaSeu Geronso o charadista TopadoSeu Laro de ané passadoÉ dôtô de grunumiaNos Boletim de famia é pesado:Lá vai outro delegado,Ese é bom qui nem se fala...Zé Santa so fala im bale Dos Caicó:Seu elampe eu tenho dóDesse pobe delegadoNem drumí póde o coitado só pensandoôtro é só preguntandoP’ra das lição cuiê frutoAprigio, sub-produto Industriá...
  63. 63. Terminando vô faláCum veidade e cum certezaSeu Bizerra, das impreza... Da istatisca:E pru fim seguindo a riscaDesse trabaio braçá...O colega de BizerraP’ra baixo vae se assiná * *****Dotores vão discuipando,O geitão cuma eu pensoA refém desse tá censo NacionáNós vihemos si ajuntáP’ra uvi uma lição,Dos dôtô cá da sessão SecionáÉ um serviço braçáCuma dixe um delegadoNas capitá do Istado Ôtro dia
  64. 64. Tem sido tanta ingrisiaDe dimirá todo povo,Uveia ta pondo ovo! Avali:Foi coisa que nunca viCuma ta tudo mudadoSó mermo prus delegado Do censo:Só tendo o juízo mensoÉ preciso que se ajeiteSi não galinha da leite é um horror:Nesse caso MonsenhôO censo vai p’ra dois anoSeu dôtô Merenciano Qui diga:Tudo isso é uma ispigaPur isso qui o povo berraSó seu dôtô Oto Guerra IspricandoMonsenhô vá discurpandoEssa linguage rastêra,Embaixo vou assinandoJéca Tabúa Pêrêra.
  65. 65. PARTE II
  66. 66. MEU PRESENTE A minha esposa no seu natalício.Muito embora nada possa ofertar-te,Ao transpores mais um aniversario,Recebe ao menos, este verso tão sem arteIncolor...mas, nele se reparteA minha alma, à ti ó meu sacrário.Mil castelos formulei em minha vida,Ilusões, quimeras, quantas lembranças!Nessa luta intermina, ó querida,Há um gênio tutelar, minha guaridaAonde guardo todas as esperanças.E hoje, nesse dia tão feliz,Sinto cousa alguma te ofertar...Pobre de mim, apenas dar-te-heiO meu verso, mas, ele vae levarSorrisos, paz, amor e alegriasA ti Maria, anjo do meu lar. 5 de Maio de 1942.
  67. 67. ACROSTICOS Ao Cel. Vivaldo Pereira de Araujo, a quem devo a publicação do presente livro, toda minha gratidão.Venci, senhor, porem a vós o dêvo,Ingrato sería, senão o confessasse,Venci, eis o meu maior enlêvoA lira velha quase a espatifar-seLesta, ágil, pululando de ccontente,Diz da gratidão assim publicamenteO meu sonho realisou-se finalmente.Publiquei o meu livro, quanta emoção!Em vê-lo espalhado por toda parte!Reuni em versos, o meu próprio coraçãoEmbora despido de retórica e de arte.Imaginei-o infiltrando-se pelos laresRetrovertendo alegrias e pesaresÁ terra, ás gentes, aos céus e mares. Santa Cruz, 26 de julho de 1946.
  68. 68. II A Eunice Pereira, virtuosa, culta e incansável trabalhadora pró Reinado Social de Cristo.Currais Novos, Jerusalem da zona sertaneja,Recebes cheia de fé a sacrossanta lei,Irradiada de luz, que a brancura alveja;Sois exemplo fiel de pacificadora grei.Tens os olhos, voltados para a Igreja,O teu estímulo e força está em Cristo Rei.Reine em ti eternamente o decálogo de Moizés,E na confusão ilusória e sofistica desta era,Inflamados de amor em Cristo, gritem os fieis:Cristo vence, Cristo reina, Cristo impera. Currais Novos, 9 de Julho de 1946.
  69. 69. III Ao amigo Elpidio e família no centésimo vigésimo dia do desaparecimento do seu inesquecível filho, um preito de gratidão.Geraldo, botão de rosa desabrochado,em um jardim de roseiral em flor,respiraste, o ar odorificadoaspiraste da vida o seu odor;lutaste qual antigo cavaleirodivisando o porto alvissareiroouvindo o canto sublime do amor.Até um dia, a carpa traiçoeira,tétrica, horrível, sem piedade,arrastou-te, levando-te a fogueiraimensa, de sua grã calamidade;dormes em paz, e sobranceiraeleva-se tu’alma para a eternidade.Padeceste na terra, sem um lamento,estoico, sereno, imensamente forte,resististe heroico a tanto sofrimentoentregando-te a Deus, á própria sorte;imaginavas já perto o teu momento,risonho, em dor atroz mostras alentoabraçando sorrindo, o espectro da morte. Santa Cruz, 6 de junho de 1946.
  70. 70. IV Ao casal Francisco Tales Bastos e Alice Bastos, oferece o autor.Jóia humana, presente do bom deus,Ouro engastado e unido por dois élos;Sois presente dos anjos, vindo dos céusÉs objeto e amor, ciumes e desvelos.Levem estes versos, todos meus desejos,E os teus dias se multipliquem em anos,O teu caminho seja um florir de beijosNa tua vida nunca encontres desenganos.Alcances feliz, o trajeto da vitóriaReazlises os teus sonhos, na existência,Deixes um nome emoldurado pela glóriaO teu guia perene seja a inocência. Santa Cruz, 26 de julho de 1946.
  71. 71. MEUS PARABENS Ao benemérito casal-Gregorio e Mocinha Barroca, na passagem de suas Bodas de Prata.“Badalam os sinos nos zimbórios dos tempos”“BOuve-se alegre, os seus carrilhões,Duas almas escutam unidas em laçosAo som compassado de seus coraçõesSonhando felizes jungidas em abraços.Duas almas... dois sonhos... duas vidas...Eternamente felizes eternamente unidas.Parabens eu vos dou, na data de hoje,Relembra a saudade do dia feliz,Aos pés do altar num jura de amoresTecido de rosas, de meigo matiz...Aceitai neste verso, meu jarro de flores. 3 de Março de 1944.
  72. 72. MEU MELHOR PRESENTE Para meu filho José Maria Neto, no seu terceiro aniversário.Jamais meu filho esquecerei,O dia do teu aniversario;Sempre em versos relembrareiÉste dia, no tempo milenário.Mais um ano, assistes prazenteiro,Aumentando o florir d’uma existência,Reina em ti, o élo verdadeiro,Inquebrantavel jugo; a inocênciaAmparando-se do mundo traiçoeiro.Neste dia, meu filho, eu te ofereçoEstes versos, o meu melhor presente...Têm eles anjinho, todo meu aprêçoO amor, minh’alma, tudo finalmente. 12 de Agosto de 1942.
  73. 73. E A HUMANIDADE PASSA! Ao reverendo Padre Severino Bezerra.Ei-lo! o mesmo quadro cruel de há mil anos!Evocativo... soberbo... extraordinário...O Cristo, o Redentor do gênero humanoSofre, agonisa, expira no Calvario.Passam-se dias, quantos desenganos!Corre veloz o tempo milenário,e Jesus contempla a terra de enganoschora os pecados deste val mortuario,Cada hora se repete essa agonia,O Cristo sofre; quem sua dor alivia?E a humanidade passa, sem ver tanta aflição.O DEUS, O JUSTO, o meigo NAZARENOOlha-a, olhar tão puro tão serenoLança mais uma vez, o seu grande perdão. Maio de 1942.
  74. 74. A MINHA FILHA MARIA DO ROSARIO (NO SEU TERCEIRO ANIVERSARIO)Tres anos de existência vaes galgandona escala ascendente desta vida;linda flôr, no jardim desabrochandominha rosa entre as demais querida,E hoje, teu natal comemorandoo teu lar, a tua pobre guarida,sente-se feliz, seu anjo adorando,Rainha da festa, tão bela, tão garrida.Queiras pois, minha filha, aceitareste verso, como a melhor lembrançade um dia de tua vida de creança.É meu presente, é o que posso te ofertar,guarda-o no coração, o teu sacrário,guarda-o bem, Maria do Rosario. 17 de Agosto de 1943.
  75. 75. MEU VERSO Ao meu filho José Mauricio na passagem de seu primeiro natalício.Meu filho, eis o teu primeiro anono ciclo do tempo vertiginoso;sorris tão satisfeito, tão ufanoqual rei, em seu trono majestoso.Alheio a todo sofrimento humano,alheio ao momento angustioso,meu filho, péde ao bom Deus tão soberanoa paz para o Brasil laborioso.Nesta hora terrível e angustiosaque o mundo em peso se estraçalha,vês tudo meu filho, cor de rosa;Guarda pois Mauricio este meu verso...nêsse transe que o mundo se amortalhapéde a Cristo a paz para o Universo. 22 de Agosto de 1942.
  76. 76. MEUS ANOS Á mim no meu 34º aniversario.Sem festa, sem musica e sem flores,assisto o dia de meu aniversario;ao lado de Maria, esposa dos amores,dos filhos, minha mãe e um amigo solitário.Ao parco almoço, teço meus louvores,aos pratos de sabor extraordinário...pratos excelentes, desprendiam olores...- galinha substitue o meu feijão diário.-Sentia-me alegre, satisfeito e bem disposto,pois assim demonstrava o próprio rostoe o apetite voraz com o qual estava.Guardarei deste dia, grata lembrança,pois ainda mandei que enchessem a pançade um pobre faminto que passava. 6 de Outubro de 1942.
  77. 77. BENEDICTUS QUI VENIT IN NOMINE DOMINE Ao neo-sacerdote, Francisco das Chagas Neves Gurgel, como lembrança do dia de sua primeira Missa. Ser Padre, é possuir muito heroísmo, uma fé inquebrantável e tão forte... ser Padre, é encarar com estoicismo. Esse val de dores, sem luz e sem norte. Ser Padre, é ser grande, vencendo o abismo, a dor, a humanidade, até a própria sorte; Ser Padre...pregar o cristianismo, a pobresa da vida, a belesa da morte... Ser Padre, é a tarefa rude e espinhosa de mostrar a outrem a estrada gloriosa do Calvario, da justiça e do amor. A vós Padre Francisco, alma generosa, Santa Cruz diz genuflexa e radiosa, BENDITO O QUE VEM EM NOME DO SENHOR! 22 de Novembro de 1942.
  78. 78. A MOEMA No seu natalicioMoema, linda tupida grã nação tabajara,tens a alvura da garçaa belesa da YARA... Soiois a eleita da tribo protegida de TUPAN, sejas sempre nessa Taba a IAUPÊ-JAÇANÃ.que cresças forte e viril,como a nossa Baraúna,são os desejos que votao velho IRÊRÊ-UNA. Santa Cruz, 23 de Outubro de 1943.
  79. 79. FUNCIONÁRIOS Aos Colegas de repartição e aos do Brasil inteiro Oferece o AutorVida de Trabalho, áspera e dificultosa,é a dura vida amigos, que levamos;A carestia surge negra e assombrosa,agora sim a um tempo nós exclamamos.Nossos filhos e esposa carinhosasofrem; com qual esforço lutamospara vencermos a estrada escabrosa,com o pouco ordenado que ganhamos!Mas, nem por isso, de estarmos a morrerDeixaremos de cumprir nosso deverComo se percebêssemos grandes honorários.E unidos pediremos ao sempiternoE também ao nosso papae governo,Tenha pena dos pobres funcionários! Santa Cruz, 26 de julho de 1946
  80. 80. FELICIDADES A minha filha Maria Lucia Marques, no seu terceiro aniversario.Lucinha , eis o teu terceiro ano,na rosa dos ventos, da existência:o teu lar, hoje sente-se ufano,festejando teu natal de inocência.A minha lira coitada se esmaece,cada ano, cada hora, cada instante:mas, coração de pae nunca envelheceneste dia, assim tão fulgurante.E repuxando as cordas dessa lira,arranco-lhe sons, a alma delira,em lamentos de um velho trovador...São lamentos, que para ti, ainda brilhae um pai beijando a sua filhaem extasis de paternal amor. Santa Cruz, 14 de maio de 1946.
  81. 81. MEU PRESENTE A minha esposa no seu trigésimo aniversario.Maria, minha adorada companheira,assistes hoje, mais um feliz natal...apenas dar-te-ei, minha alma inteira,como presente, mimo de valor real.De meu jardim, és a rosa altaneira,das flores, és rainha sem igual,és conforto, nos dias de canseiraés meu lírio de puresa virginal.és alma de minha alma, és farol,és meu guia, és meu grande soliluminando com refulgentes brilhos.és meu tudo, és meu diáfano arcanjo,emfim Maria, és meu sublime anjoa meiga e terna mãe de meus filhos. Santa Cruz, 5 de maio de 1946.
  82. 82. FELICIDADES A’ Maria do Socorro, no seu primeiro Natalicio, Oferece seu Pai.Eis querida filha, o teu primeiro ano:Um fulgir de auroras, uma alvorada,Um tremeluzir de azas, diáfano,Um romper alegre de loira madrugada.Um raiar de sol, lindo e soberano,Um azul de ceu todo estrelado,Lesta viração, ao longo do OceanoUm murmúrio alegre de chirear alado.Um jardim em flor, todo perfume,Um amor puro, santo, sem ciúme,Mais um astro no ceu, novo luzeiro.E neste dia filhinha, o mundo imersoNuma esperança de paz para o Universo,Tens o teu natal, no solo brasileiro. Santa Cruz, 21 de Setembro de 1945.
  83. 83. MEUS SINCEROS EMBORAS Ao compadre e amigo José Bezerra, no seu natalício. oferece o Autor.Queria possuir aquela luz,Coruscante de chamas que alumia;Queria amigo, ter força de obuzna minha esquelética poesia.Queria versos derramar a flux,Queria musicas só de harmonia,Queria a sapiência de JesusPara festejar o teu alegre dia.No entanto, caminho por escombrosuma lira velha a pesas-me aos hombrose um rasto apagado de meu verso.Aceita-o, talvez, cinzas de lembrança,um centavo, de uma era de esperança,no Cruzeiro imenso do Universo. Santa Cruiz, 21 de Setembro de 1945.
  84. 84. RAMALHETE A minha filha Maria do Rosario, no dia de seu segundo aniversario. Oferece seu pae.Minha filha, neste dia tão felizque assistes, dois anos de existênciaeu almejo minha linda flor de Liso bafejo perene da inocência.Minha filha, hoje eu bem quizeraauferir-te todos meus desejosaceita pois ó linda primaveraum ramalhete formado só de beijos.Muita cousa Lálo eu te dariatuas mãos de mimos encheriasi pudesse, até o Universo...mas, nada tenho, coitado de teu pai!minha filha, ao menos aceitaia misérrima estrofe deste verso. Santa Cruz, 17 de agosto de 1942.
  85. 85. CARA PRETA Ao Sr. João Ferreira de SouzaSurgiu como um fantasma na cidade;vindo talvez de um pequeno povoado,cantar, eu única felicidadee cantava, sublime triste e maguado: -“Quando o sol nace é rei, a mei dia ele é mórgado, di tarde é isfalecido di noite é sepurtado”-Durante muito tempo, sua vóz se ouvia,ao belo alvorecer de um novo diaou a bela tardinha o ocaso quase posto:Uma manhã calou-se para sempre o canto,ele morrera, partira sem um prantoao raiar de uma formosa manhã de agosto. Agosto de 1945.
  86. 86. SACERDOTE Ao Revmo. Padre Alair Vilar, uma pálida lembrança na passagem de seu natalício.Padre, síntese da grandesa e da verdade,deixada pelo meigo e Divino NazarenoPadre, páramo grandioso de sublimidade,de justiça fecunda, de espírito sereno.Padre, poema milenário da cristandade,escrito em frases de estilo tão amenoPadre, escrutínio de virtude e santidadeés grande demais para um mundo tão pequeno.Padre Alair, que o dia feliz destes teus anosseja para vós e vossos fieis paroquianosuma data feliz, santa alegre e jubilar.Que Santa Cruz, em peso, una, genuflexaao seu pároco querido e estimado, peça,as graças perenes que o ceu lhe pode dar. Santa Cruz, 6 de junho de 1946.
  87. 87. A MINHA FILHA MARIA DO ROSARIO (NO SEU QUINTO ANIVERSARIO)Nos teus anos, nada te ofereço,nada filhinha eu posso dar-te,apenas, esta data não esqueçode cedinho minha filha, abraçar-te.inda dormias risonha no teu berçoo meu premio filha, foi beijar-te;com mimo, eu dou-te este versomimo tão pobre, coitado tão sem arte.mas ele, minha filha, tem valor...tem meu coração, cheio de amorque para os filhos, é santo hostiário.Meu anjinho, eu peço-te, aceitarcomo pálida lembrança de teu pai,um beijo paternal, MARIA DO ROSARIO. Santa Cruz, 17 de Agosto de 1945.
  88. 88. CARITAS BONITAS Ao ilustre amigo Dr. Mariano, cujo lema “Caridade e Bondade” está gravado em outro, nos corações dos que conhecem a palavra gratidão.A vossa vida é um poema do trabalho,vossas virtudes, um saltério salutar:a vossa casa, é para os pobres agasalho,da profissão fizestes o vosso altar.Doutor, eu bem sei que nada valho,no entanto eu não posso ocultar,e neste verso borrifado de orvalhoda gratidão imensa, infinda sem par.Cansada e paupérrima, a minha lira,fala bem alto ao homem que admira,ao protetor do pobre ser humano;ela ainda sente, lampejos de harmonia,e faz brotar esquelética poesia,em honra insigne ao Doutor Mariano. Currais Novos, 6 de julho de 1946.
  89. 89. JESUS NO HORTO Ao monsenhor Paulo H. de MeloEil-o, sublime, grande na sua dor,Prostrado em terra, em humilde oração;Pedindo ao mundo, um pouco de amorpara aliviar seu torturado coração.E como no Horto continua, sofredor,Triste ao ver tanta ingratidão:No sacrário a sós, o meu SenhorNuma eterna e palpitante oração.Como no Horto, Jesus está orando...Ao mundo ingrato, ainda implorando,Cansado, triste...solitario e exangue!Oh mundo desvairado, quanta tortura!Quereis dar-lhe mais taça de amargura?Quereis Vel-O ainda a gotejar SANGUE? Santa Cruz, 15 de Setembro de 1944.
  90. 90. RAMILHETE A minha filha Maria Lucia, no seu primeiro natalício.Um ano completasMimosa flor,élo paternode puro amor. Risonha e linda fragrante essência Meu branco lírio só de inocencia.Aceita filhaos meus desejos,um ramilhetede quentes beijos. Santa Cruz, 14 de Maio de 1944.
  91. 91. POÉTA Ao culto espirito de Clovis J. de Andrade.Rimas, abecedário cheio de harmoniapensamentos de um cérebro portentoso,sentir em verso, a própria poesíade um ser inteligente e ardoroso.Ser Poéta, é caminhar numa viade um sonho tão lindo e majestoso,é lançar ao mundo, um canto de magíao ninho dum rimário glorioso.Ser Poéta, é sentir a dor, a alegriaé rimar numa suprema agonia,uma vida, um mundo, um Universo;Ser Poéta, é amar, gosar, sofrer,ser Poéta, é em sonhos revivervida e alma na estrofe de um verso. Santa Cruz, 25 de agosto de 1944.
  92. 92. AO MEU FILHO JOSÉ MAURICIO (NO SEU 2.º NATALICIO)Meu filho, completas hoje dois anos,de uma vida tão cheia de inocência...desconheces ainda, os grandes desenganosdesconheces ainda a própria existencia.Estás alheio, ao erro dos humanosdesta vida tão cheia de inclemência,deixando rastros de horríveis danos,A guerra, a dor e a prepotência.Inocencia qual lindo beija-flora voejar a procura de um odor,desconheces meu filho, até a vida:Um dia, já crescido, e bem felizhas de ler estes versos que te fizlembrando a ti, essa data tão querida. Santa Cruz, 22 de agosto de 1943.
  93. 93. AO MEU FILHO JOSÉ MARIA NETO (NO SEU 4.º ANIVERSARIO NATALICIO)Mais um ano de existência, tú alcançasnesse mundo sombrio e complicado;Paira em ti, as fulgidas esperançasDe um mundo melhor, mais desejado...Mais um passo nesta vida tú avançasem caminhos de roseiraes juncado,a vida é para ti, um mar de bonançasé um céo de estrelas fulgurado.Queira Deus, meu filho, que um diaa senda da vida, venhas galgarForte, sobranceiro e sem porfia.E hoje comungo da harmoniaQue reina como sempre em nosso larNo evento dessa data de alegria. Santa Cruz, 12 de agosto de 1943.
  94. 94. HOSTIA SANTA Ao Paulo Eduardo no dia de sua primeira Comunhão. Oferece o autor.Eis Paulinho, o anhélo do Cristão,Receber a Jesus na Eucaristia...E Ele satisfeito, em teu coração,Descança de sua eterna agonia.Parabens Paulo, que este dia,Relembres com grã satisfaçãoSeja a data perene de alegriao dia da primeira Comunhão.És inocente, e o meigo Nazareno,Gosta imensamente dos pequenos...És para Êle a linda Flor de Lis;Ama-O, Paulinho, com todo teu ardor,Seja Êle, teu guia, teu Senhor,PAULO EDUARDO, Deus te faça feliz. Santa Cruz, 4 de fevereiro de 1945.
  95. 95. LAGRIMAS Ao Sr. José Ferreira de Medeiros e filhos, no trigésimo dia Do desaparecimento da inesquecível esposa e mãe Téca.Não, não choro a viuvez de um maridonão choro dos filhos a orfandade,verto lagrimas que têm outro sentidolagrimas santas, rebentos da saudade.A morte é certa; quem não há carpido.este transe repleto de crueldade?Quantas lagrimas já não tem vertidodesde o principio, toda humanidade?Morreu Teresa, a esposa tão querida,perdeu-se mais uma preciosa vidaque os anjos a sua alma acompanhe.Pae e filhos, aceitae este meu verso,como vós eu vivo também na dôr imersopor ver partir mais uma esposa MÃE. Santa Cruz, 27 de Agosto de 1946.

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