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O cotidiano peculiar, por taisa silveira

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Trabalhao apresentado por Taisa Silveira em 2010 no Seminário Territórios da Ficção, realizado no Centro das Artes, Humanidades e Letras da UFRB, em Cachoeira/BA.

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O cotidiano peculiar, por taisa silveira

  1. 1. O Cotidiano Peculiar Uma comunicação sobre o livro Os Bandidos Por Taísa Ágatha C. da Silveira O livro de Aramis Ribeiro Costa Os Bandidos, é um conjunto de contos urbanos,que nos leva a alguns pontos da cidade de Salvador. Através de uma descrição abrangente erica em detalhes, Aramis permite que o leitor reconstrua cada cenário, cada passo, e cadamovimento dos seus personagens.A narrativa é sempre fluida, e, através de uma linguagem clara, o autor busca explorar asdiversas faces do cotidiano, explicitando as emoções humanas exacerbadas, como no contoInácio, que mostra a vida pacata e até mesmo desinteressante de um funcionário, que apósser humilhado em público pelo chefe, passa a entrar em profunda crise e resolve se demitir.Após a curta discussão que Inácio trava com o seu chefe, é tomado de uma raiva intensa :“sentia-se aniquilado, impotente, cheio de ódio”(p.28). A partir deste momento, ele nãoconsegue pensar em mais nada : “na fila do ônibus, no longo trajeto até o largo dopapagaio, onde morava, Inácio apenas remoeu de forma insuportável a sua indignação a suavergonha, a sua cólera contra aquele homem estúpido” (p.29). Nas linhas seguintes somoslevados a acompanhar cada momento de agonia de Inácio, que não consegue fazer maisnada depois do incidente com seu chefe: Inácio sentou-se diante do televisor, como semprefazia, e ali ficou quieto, mudo,olhando sem ver, escutando sem ouvir(...) todo eleencolhido, o pensamento repetindo-se e repetindo-se, torturante e obsessivo, na cena dahumilhação”(p.30). O leitor mantêm-se na expectativa, esperando o desfecho daquela situação. É aíentão que o autor consegue com maestria prender o leitor, pois a reviravolta é quase sempreo inesperado, mesmo quando o desfecho nos parece óbvio, que no caso de Inácio é aentrega da sua carta de demissão. Através de seus doze contos, Aramis nos convida a questionar qual o lugar de cadaum na sociedade moderna e o que cada um de nós representa: um médico pode ser umcliente, e um acompanhante de paciente um objeto sexual? O conto A mulher de Negro trazà tona a vida de uma mulher do meretrício, e seu breve encontro com um estudante demedicina do quinto ano, que ao atender uma criança levada por ela entra em contato com
  2. 2. sua realidade sofrida e sente-se mal ao utilizar seus serviços sexuais “ Não sei o que disseeu, apenas me senti sórdido, como tudo ali (...)”(p.16).Muitas vezes é através dos olhos do personagem que vemos o mundo construído pelo autore somos levados a observá-lo sob a lente de quem está na história. No conto Ofélia, porexemplo, Aramis faz um jogo interessante entre a imagem refletida no espelho dapersonagem principal, e sua relação obsessiva com a vizinha - que dá nome ao conto. Aobservação é utilizada como forma de espelho que reflete quem observa, expondo suasmiséria intimas, seus medos: “Naquele momento, não me atrevi a olhar-me no espelho,sabia que a imagem que ele me devolveria, no seu frio reflexo de prata seria assustadora”(p.41). No conto Ofélia, somos levados a conviver no plano do pensamento da personagemque narra a história, e nos vemos tragados pela sua idéia fixa sobre sua vizinha, numbinômio sentimental estranho, que vai do ódio à inveja “ O pensamento de Ofélia noentanto, não se desgrudou de mim, como um vírus que toma o corpo e perturba os sentidos(...) Ofélia, porém, tornara-se uma obsessão, que eu perseguia não apenas naqueles brevesmomentos de fim de tarde, quando a observava da minha janela, mas de cada minuto daminha vida.”(p.38). Aramis consegue fazer com que também sintamos repulsa por Ofélia,compartilhando com a personagem principal suas angústias e sua imaginação acerca deuma mulher com a qual ela sequer fala, sequer conhece, apenas observa às tardes sempre nomesmo horário. O livro Os Bandidos explora as relações humanas e suas formas de comunicaçãopor vezes inexistente e/ou débeis, como no conto As últimas férias do Tio Edson. Tio Edsonmorre de forma quase inexplicável, apenas sendo percebido além de suas anedotas e faladivertida, pela sobrinha, que reflete “Mas quem era, na verdade o Tio Edson? O que sentia,o que pensava, o que queria da vida? São as perguntas que inutilmente me faço.” Como avelocidade da vida moderna é imensa muitas vezes não temos a possibilidade de falar eouvir verdadeiramente uns aos outros, como o Tio Edson, que aparentava levar a vida comouma grande brincadeira e convencia a todos de tal. Mas pode causar conseqüênciastrágicas, e é o que vemos no conto As últimas férias do Tio Edson.
  3. 3. Os Bandidos é um livro um tanto sombrio, pois em parte de seus contos, retrata aobsessão humana, suas perversões e instintos sensações que perpassam por inúmeros contose personagens. O prazer da leitura do livro Os Bandidos não está somente no fato de sentirmos queo lugar descrito nos contos nos é familiar, mas pela naturalidade como as coisas acontecem.São realmente situações cotidianas, que poderiam acontecer no prosseguir da vida urbanacontemporânea que é tão corrida e cheia de urgências. O autor nos faz parar e observar osdetalhes que estão nas entrelinhas do comum, e extrai dali situações que se desenrolam deforma tal ao ponde de algumas vezes tornarem-se surpreendentes. A melancolia da solidãodas cidades grandes, o amor perdido sem maiores explicações, o ódio e a obsessão deindivíduos que levam sua vida sem grandes sobressaltos, dá ao livro uma atmosferadiferenciada, e traz à tona o que o cotidiano das grandes cidades muitas vezes suprime doindivíduo: sua relação com sua própria subjetividade. Porém, muitas vezes essa subjetividade, que nos diferencia da multidão, faz comque a realidade seja distorcida, como é o caso de Ofélia. Lembranças, tristeza e melancoliapor situações que não se resolveram, e mantiveram-se suspensas no ar, são retratadas commuita sensibilidade, mas nem sempre são resolvidas, como no conto A imagem do espelho,que termina sem sabermos onde está Rosa, personagem que o narrador-personagem buscapor anos e anos sem êxito: “Não eu não queria mais nada. Renunciaria, inclusive, de muitobom brado, aos inúteis anos que me restam, apenas para saber o que houve com Rosa”(p.83). Os Bandidos mantêm um bom fluxo da narrativa, apesar de nos últimos contosperder um pouco do gancho proporcionado pelo suspense para a próxima cena, que Aramisconsegue manter nos contos anteriores, mas, que não prejudica em nada a fluidez do livro,que termina com um conto forte, Os Bandidos, sem o final feliz clássico, nos dando asensação de proximidade com o real.

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