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Mayrant gallo por costa pinto

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Trabalho apresentado por Costa Pinto em 2010 no Seminário Territórios da Ficção, na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia em Cachoeira.

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Mayrant gallo por costa pinto

  1. 1. A Essência da Visão Aquela noite tinha se tornado um tormento. A mais longa noite de suavida. Quase não dormiu. Deitou cedo, mas só conseguiu dormir muito tarde. Aansiedade e angústia o consumiam. Dar conta de sua vida pessoal e profissional não era fácil, principalmentepela cobrança que fazia a si. Mas ele acreditava que aquele dia se tornariaespecial. Acordou muito cedo, não por vontade, seu estômago fritava. Levantoude uma só vez, não fez rodeios, não fazia nunca. Lavou o rosto, se olhou noespelho, pensou em desistir, a torneira aberta. Falou “não” em voz alta, comose tentasse se convencer disso. Foi à cozinha fez café e tomou puro, tomoubanho, arrumou o material que iria usar em sua apresentação, ficou aflitonovamente. Percebeu que sua roupa estava machucada, pensou um pouco,mas não havia tempo para lamentações. Passou a roupa, vestiu e, já molhadode suor, saiu. Sua manhã ainda encontrou outras dificuldades. Seu transporte atrasou,esqueceu dinheiro e cartões, faltou a duas reuniões, tropeçou e quase sujoutoda roupa. Mas vencidas as batalhas, era hora de findar a guerra. Chegando ao local da apresentação ficou sentado nos degraus quedavam acesso ao auditório, de cabeça baixa, absorto. Por quase duas horasesteve assim, até que uma voz chamou seu nome, dilacerando seuspensamentos, trazendo ele novamente à realidade. Calmamente ele respondeu que já ia. Levantou-se, pegou seus livros etrancado em imenso silêncio entrou no auditório. * * * O homenageado da tarde entrou com um livro nas mãos e foi recebidopor amigos, colegas de trabalho e os alunos do curso de Comunicação e
  2. 2. Letras. Sentou em um lugar previamente reservado para ele. Faziacomentários a pé de ouvidos com os colegas professores e sorriatranquilamente. Um dos organizadores, após fazer a abertura do evento, chamou oestudante para apresentar seu trabalho. Calmamente o estudante se dirigiu à mesa. Tinha olhar firme, certo,passos firmes, calmos, trajava um blaser moderno e jeans, nas mãos um livro,uma caneta e seu trabalho. Por dentro, cacos, cacos e cacos. Estava empedaços, mas os anos de teatro o ensinaram a fingir bem, e assim o fez. Arrumou o material que estava em suas mãos sobre a mesa, apertou asmãos, esfregou-as, enxugou o buço, pôs as mãos espalmadas sobre a mesa,olhou o público. Pensou em desistir. Lembrou que há alguns dias havia dito auma amiga que ela jamais deveria desistir, olhou para ela que estava presente,resolveu enfrentar. Olhou novamente o público, olhou para baixo e continuouem silêncio. Seu orientador não entendeu. Eles se olharam e o aluno fez umleve sinal com a cabeça. Rompeu o silêncio dizendo: - Viver esse livro, penetrar nesse mundo, é como pegar um ônibus aesmo e sair registrando todas as experiências, nossas e alheias, é como criarum mundo completo nos recortes de vidas, é se apropriar de todas as vidas eestudá-las com métodos estritamente científicos. Não julgar, não condenar.Viver e deixar viver, entregar cada um à própria sorte. A maneira com que o autor trata suas histórias, sem a necessidade debuscar compreender o comportamento de suas personagens, sem pesar oumedir as atitudes que cada uma toma, deixando que se expressemnaturalmente, sem condenação, denuncia um tom de amoralidade por parte doautor. Aliás, é freqüente esse posicionamento do escritor diante de sua criação.É notória a falta de preocupação dele com o que se considera padrão moral denossa sociedade. Também o seu distanciamento das situações, sem adjetivá-las, possibilitando ao leitor tirar suas próprias conclusões, usando o acúmulo desuas experiências, seus traumas e dores, suas convicções e padrão moral,suas cercas e muros. Podemos observar também que essa amoralidade, esse comportamentoquase indiferente, suas loucuras e devaneios, abrem espaço a uma punição
  3. 3. quase inconsciente, quase despercebida, uma espécie de taxa, uma cobrançaque a vida impõe a cada um de nós, o outro lado da moeda, o efeito da causa,ou as intempéries a que estão expostos todos os seres humanos. * * * Podemos citar, por exemplo, “O Amor Como Deve Ser” e “ImperativoSábado”, onde, no primeiro, o escritor narra o relacionamento incestuoso daadolescente Cátia com seu pai, demonstrando um acordo sem palavras entreos dois. Esse romance é narrado com uma naturalidade tão intensa quemesmo o leitor de comportamento mais tradicional não se surpreende ao lersobre o toque do pai por dentro da saia da menina, ou do prazer e amor queela sentia por ele, os beijos no carro e os segredos dos fins de semana que oquarto guardava. Mas no final é reservado para eles, de forma subentendida,um acidente fatal. No segundo conto, o pai confessa em um bar, seurelacionamento incestuoso, dizendo para Victor que a menina que eleconhecera era sua filha e o bebê que ela carregava também. O preço para amenina grávida foi o suicídio e para seu pai foi ter que viver carregando essedemônio sobre seus ombros. Mas esse trabalho ainda é marcado por outras características além daamoralidade e indiferença. É comum, por exemplo, a presença da solidão dosdias atuais, o velho sozinho narrado em “Gravidade”, a mulher abandonada em“Pés Quentes nas Noites frias”, a mãe solteira vista em “Jornada de umMenino”, a separação vivida por Virgínia em “Vacina”, também aparece o mau-caratismo e dissimulação dos nossos dias. Ainda acho pertinente falar que, das muitas particularidades, destacam-se principalmente as histórias que surgem de cada um desses contos, pois elesnos permitem vários desfechos e interpretações. No conto “Porque nãoAmasse Mais Ninguém”, Mauro era sozinho e por isso passou a criar umafêmea de canário. Certo dia os vizinhos perceberam que ele tinhadesaparecido e quando a polícia arrombou sua casa não o encontrou, mas na
  4. 4. gaiola onde antes havia simplesmente um canário, um casal surgiu. Em “VarrerRua”, a história encerra no momento em que Rodrigo Paulo faz um cerco auma linda universitária, não sendo narrado o resto do conto, e apesar dasclaras más intenções de Rodrigo, o desfecho fica por conta de cada um, oprazer, dor ou asco também. Já em “Mais um idiota”, Quele, um negro comroupas estranhas, surge de repente e repentinamente se vai, após umacartomante ter dito que era para ele ir embora porque era a melhor noite paraisso, e ele se foi para o nada em uma máquina “esquisita” e “desequilibrada”. Em alguns casos como “Água escoando” nos sentimos como parte dahistória. Todos nós temos histórias reais e fantásticas que por vezes nosquestionamos se são realmente reais. Assim foi com o velho Dovico, queninguém acreditava que ele tinha visto as lindas irmãs, Fernanda e Maria,completamente nuas passeando pela casa enquanto ele consertava o cano dapia. * * * De repente o estudante para o seu trabalho, o auditório lhe parece oolho de um furacão, e ele pensa em jogar tudo pra cima, rasgar o trabalho e olivro, chutar a mesa, mas lembra que não é um cara de se deixar ver derrotado.Respira. Percebe que seu trabalho chegou ao fim, só falta comentar um conto,o último, o que dá nome ao livro, “O Inédito de Kafka”, e recomeça: - Este conto, o último conto do livro é o mais diferente entre todos, umconto realmente Kafkiano, o mais exótico. Apesar de manter sua assinatura em cada parágrafo de seus trabalhos,com seu jeito agridoce e seus muitos apostos e ênfases nas frases, o autorparte para o lado do fantástico. Esse conto se passa em uma pequena cidade onde “dois homenspodem se ver várias vezes sem necessariamente se encontrar”. Fala de umhomem que é avisado por um amigo, que em um shopping da cidade existe umúnico volume de um livro de Kafka, inédito, em francês. Quando ele chega paracomprar, o livro já estava reservado por ele mesmo. Então ele percebe que,
  5. 5. mais uma vez, está sendo confundido com alguém. No caixa, na hora de pagar,a mocinha que o atendeu também conversou com ele com certa intimidade eele não a conhecia. Depois ele foi à praia cumprir um ritual que ele mesmoconsiderava infantil, atirar britas, pedrinhas, ao mar, quando percebeu queoutra pessoa fazia o mesmo com a mesma força e intensidade. Observou queesse cara que encontrou era outro igual, um sósia, com os mesmos costumesde colecionar discos antigos e caixas de fósforo, um homem com sua mesmaaltura, aparência e barba, um homem que gostava das mesmas coisas,freqüentava os mesmos lugares e falava da mesma forma que ele. Decidiu então procurá-lo, e sabendo que o outro pensava da mesmaforma, pensou em um encontro e, no dia e horário pensados, lá estavam. Semmuito a dizer um ao outro, entenderam-se em poucas palavras e decidiramseguir suas vidas sem arrependimentos ou sofrimentos, viraram-se esepararam suas estradas. Como eu havia dito, é mais um conto fantástico que urbano, relatandocotidianos. Mas, como a maioria de seus trabalhos, deixa um gostinho de queromais, um espaço para que o leitor exercite seu lado escritor, compartilhe dacriação. Mais uma vez ele busca apresentar coisas do dia-a-dia com idéias quenão parecem particulares, mas que são comuns a todos. * * * O livro “O Inédito de Kafka” é um romance urbano, contemporâneo, quetambém traz finas características regionais, pois em quase todos os seuscontos retrata a cidade do Salvador com sua rotina e problemas. Pode não parecer nem um pouco aprazível, histórias do dia-a-dia comopasseio à praia, visitas ao dentista, assalto, vida no trabalho etc. Mas Mayrantconsegue elevar seus contos a um nível tão próprio que cada leitor conseguever algo de sua experiência em suas personagens. Mayrant Gallo é um destaque entre os novos escritores baianos. Nasceuem Salvador no ano de 1962, é professor de Teoria da Literatura e LiteraturaBrasileira, trabalha na Fundação Pedro Calmon desde 2008 e busca nesse
  6. 6. livro apresentar a vida de Salvador de uma forma pouco vista, a partir docotidiano, não permitindo que a história se torne monótona ou banal, masacrescentando uma aura a cada um de seus contos. Além de “O Inédito de Kafka” (2003), lançou mais três livros de contos,“Pés Quentes nas Noites Frias” (1999), Dizer Adeus (2005) e “Nem Mesmo osPassarinhos Tristes” (2010). Lançou também “O Ritual no Jardim” (romanceinfanto-juvenil / 1993), e dois de poesias, “Dia Sim e Sempre” (2000) eRecordações de Andar Exausto (2005). * * * Terminada a apresentação de sua comunicação o estudante saiu doauditório e nunca mais foi visto na universidade, nem na cidade. Na verdade,nunca mais foi visto por ninguém. Costa Pinto

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