Introducao As Teorias Da Cibercultura

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Introducao As Teorias Da Cibercultura

  1. 1. Introdução às Teorias da Cibercultura Francisco Rüdiger
  2. 2. Minerva, Fausto e Prometeu O autor traça o histórico do que chama de “pensamento tecnológico contemporâneo”, desde a Grécia até os tempos atuais. Objetivo: entender melhor as correntes e as especificidades da reflexão sobre a técnica/cibercultura, a partir do estudo de autores representativos de diferentes tendências. Após expor a evolução da cibercultura, apresenta a abordagem crítica da cibercultura, abordagem que pretende ser radical e humanista.
  3. 3. Os pensadores da técnica podem ser divididos entre prometéicos e fáusticos: Prometéicos (tecnófilos) – Tecnologia como um fator de progresso da humanidade. Fáusticos (tecnófobos) – Tecnologia como uma armadilha montada para si mesma pela humanidade progressista. Tecnófilos e tecnófobos “partilham, apenas invertendo o sinal valorativo, da mesma crença no determinismo tecnológico” (p. 73) Simmel - A técnica é meio, mas é vista por muitos como fim. “ O êxtase das pessoas para com os triunfos do telégrafo e do telefone geralmente leva-as a desconsiderar o fato de que o que realmente importa é o valor do que se tem a dizer e que, comparada com isso, a velocidade ou vagar dos meios de comunicação é, em geral, uma preocupação que só ilegitimamente alcançou a presente condição” (Simmel [1900] 1990, p. 482 apud Rüdiger, 2003, p. 22). Minerva, Fausto e Prometeu
  4. 4. Origens: técnica e tecnologia Técnica X tecnologia Constante reificação do conceito, confundido com máquinas e equipamentos. A reflexão sobre a técnica começa com os gregos do período clássico. Para os filósofos gregos, “as atividades humanas são todas técnicas, na medida em que se tornam objeto de um saber e se desenvolvem através de uma correspondência recíproca com esse saber, a partir da idéia de natureza” (p. 28) Para Aristóteles, a técnica faz o que a natureza não faz por conta própria (p. 32). Os gregos estabelecem hierarquia entre técnicas. As que permitem a vida contemplativa recebem maior grau. Técnicas necessárias à sobrevivência (agricultura, pastoreio, artesanato) Técnicas que mantinham a vida ativa (política, guerra, governo) Técnicas da vida puramente contemplativa (ciência, filosofia).
  5. 5. Estágios do projeto tecnológico I <ul><li>Francis Bacon - reinterpretação do conceito clássico de ciência. </li></ul><ul><li>Matematização da ciência. Corpos equiparados a relógios (máquinas). </li></ul><ul><li>Descartes – separação entre corpo e mente. </li></ul><ul><li>Século XIX – processo de cientificização das atividades sociais (p. 42) </li></ul><ul><li>Comte - positivismo. Marx – o trabalho seria abolido com o desenvolvimento da maquinização (p. 34). </li></ul><ul><ul><li>“ Em todos esses autores, nota-se de todo modo a presença de teses que vão muito além da proposta de apenas entender cientificamente a sociedade: em todos, articula-se teoricamente o planejamento científico da vida social, a prática de uma atividade política tecnocrática e um plano de desenvolvimento tecnológico planetário” (p. 43) </li></ul></ul><ul><li>Virada para o século XX – novos dispositivos, monopólio, capitalismo </li></ul><ul><ul><li>“ Nessa época, o pensamento tecnológico se sustenta numa visão emancipatória do trabalho, da mecanização da existência e da racionalização da subjetividade” (p. 45) </li></ul></ul><ul><li>Influências da Escola de Frankfurt. </li></ul><ul><li>Reflexões sobre a sociedade da informação (Lyotard - A Condição Pós-moderna ) </li></ul>Francis Bacon Jean-François Lyotard
  6. 6. Minerva, Fausto e Prometeu <ul><li>Final do século XX – novo ciclo de transformações tecnológicas. Da força física do homem para a máquina, e atualmente a encampação das capacidades intelectuais por autômatos ou máquinas informacionais </li></ul><ul><li>Fetichismo tecnológico como forma de expressão contemporânea do fetichismo da mercadoria. </li></ul><ul><li>Passa-se a empregar a palavra rede para designar as relações sociais com a informática de comunicação. O sujeito fragmentado é posto diante de uma nova forma de relação social - a rede. </li></ul><ul><ul><li>&quot;A cibercultura, vale lembrar, não é uma coisa, uma emanação da máquina, nem a totalidade dos conteúdos agenciada pelos maquinismos informacionais de vanguarda. O entendimento esclarecido da coisa se encontra quando a vemos como uma relação entre nossa capacidade criadora e sua materialização tecnológica em operações e maquinismos. A cibercutura é o movimento histórico, a conexão dialética, entre o sujeito humano e suas expressões tecnológicas, através da qual transformamos o mundo, e, assim, nosso próprio modo de ser interior e em dada direção (cibernética) &quot; (p. 54). </li></ul></ul><ul><li>Norbert Wiener – o homem pode ser visto como um agregado de informações. Cibernética. Influência cartesiana. Informação – mente. </li></ul><ul><li>Mito do “download da consciência”. Máquina vindo a substituir o corpo (p. 56). Cibernantropo (Lefèbvre) </li></ul><ul><li>Donna Haraway - ciborgue. Para a autora, </li></ul><ul><ul><li>“ estamos nos convertendo de organismos biológicos em organismos cibernéticos, construídos através da mistura de matéria orgânica gerada em laboratório, próteses médicas, produtos químicos, imagens artificiais e dispositivos de comunicação” (p. 57) </li></ul></ul>Estágios do projeto tecnológico II Norbert Wiener Donna Haraway
  7. 7. A Síndrome de Cândido <ul><li>Cândido, de Voltaire – Dr. Panglois, figura do sábio confiante na boa ordem do mundo. Crença no progresso da técnica. </li></ul><ul><ul><li>“ As tecnologias de informação contêm, em seu juízo, uma dimensão “subjetiva, profética ou maravilhosa”. A cibercultura em curso de formação ensejará o aparecimento de uma nova ecologia cognitiva, a difusão de uma inteligência coletiva e a expansão da cidadania através do exercício da tecnodemocracia (cf. Lévy, 2002)” (p. 60) </li></ul></ul><ul><li>Richard Barbrook - ideologia californiana (p.62). </li></ul><ul><li>Falta de visão crítica e concepção idealizada de cibercultura. </li></ul><ul><li>A tendência comunitária é o que comanda o ciberespaço (p. 65) – inteligência coletiva. </li></ul><ul><li>Imaginário – tecnologia da inteligência (p. 66-67). </li></ul><ul><ul><li>“ As esperanças postas por ele [Lévy] no ciberespaço so podem ser entendidas, na melhor das hipóteses, como utópicas. A inteligência coletiva em que acredita é uma inteligência sem sujeito, porque existe apenas como possibilidade virtual ou fantasmagórica do ciberespaço” (p.67) </li></ul></ul><ul><li>Para Rüdiger, perder-se-ia a individualidade se o ideal da inteligência coletiva realmente se concretizasse - deixaríamos de ser humanos. </li></ul>Pierre Lévy
  8. 8. O complexo de Schreber <ul><li>Schreber - Freud – figura do homem possuído por uma fantasia aterradora a respeito dos perigos do mundo, paranóia (p. 68). Trata-se de pensadores apocalípticos/tecnófobos. Tecnologia autônoma em relação à sociedade. </li></ul><ul><li>Jean Baudrillard. Lucien Sfez. Kroker & Weinstein. </li></ul><ul><li>Data Trash: teoria da classe virtual , de Kroker e Weinstein, anuncia “o fim da história humana e o início da história virtual”. Tecnologia assume condição de espécie viva. </li></ul><ul><ul><li>“ A mercadoria assumiu a forma da informação, não tem mais nenhum lastro na realidade: representa um campo de forças que atua na realidade virtual dos circuitos tecnológicos. O resultado é, por um lado, a cibernetização das relações sociais e a progressiva virtualização do (corpo) humano e, por outro, a crescente fascitização, sob diversas formas, da realidade vivida imediatamente pelas massas no cotidiano offline” (p. 70). </li></ul></ul><ul><li>Cultura declinante face à tecnologia. </li></ul>Arthur Kroker Michael A. Weinstein
  9. 9. A herança de McLuhan <ul><li>Manuel Castells - era da informação - sociedade em rede </li></ul><ul><ul><li>“ A Internet penetra em todos os domínios da vida social e os transforma. Assim é uma nova configuração, a sociedade em rede, que está em gestação em todo o planeta, ainda que sob formas muito diversas entre um ponto e outro e com efeitos muito diferentes sobre a vida das populações, devido à sua história, sua cultura, suas instituições” (Castells, 2002, apud Rüdiger, 2003, p. 76). </li></ul></ul><ul><li>Suas análises derivam de teorias pós-modernas. Daniel Bell, Alain Touraine, Armand Mattelart. </li></ul><ul><ul><li>“ A Internet é uma tecnologia particularmente maleável, suscetível de ser modificada profundamente pela prática social e de nutrir uma vasta gama de efeitos sociais” (Castells, 1999, p. 13 apud Rudiger, 2003, p. 79). </li></ul></ul><ul><li>“ A tecnologia é a sociedade” </li></ul><ul><li>Grande mérito de sua obra: pensar a sociedade em rede. Nova estrutura social: redes no lugar de comunidades. </li></ul>Manuel Castells
  10. 10. Problemas do ciberculturalismo <ul><li>Jonathan Sterne – para o autor, deve-se relativizar cibercultura e novas tecnologias, questionando suas narrativas. </li></ul><ul><ul><li>“ Pretendendo ir além das concepções tecnófilas e tecnófobas, o autor sugere um caminho contudo muito banal a seguir, como ele mesmo admite, e cujo eixo central seria “tratar a rede como um entre tantos outros locais no fluxo da economia, ideologia, vida cotidiana e experiência [coletiva]” (1999 apud Rudiger, 2003, p. 84) </li></ul></ul><ul><li>Os cuturalistas se recusam a ver na tecnologia uma espécie de coisa - procuram entender a tecnologia como uma forma de vida, como algo mais amplo. </li></ul><ul><li>Andre Lemos – leitura culturalista da cibercutura. Três fases do fenômeno técnico: 1. Magia/mito. 2. Tecnocultura (razao científica aplicada) 3. Cibercultura como conteúdo significativo da tecnologia. </li></ul><ul><li>Para o autor, “A cibercultura é o resultado de uma reunificação da ciência com a cultura, e vice-versa, separadas pelo projeto tecnocrático moderno” (p. 86). Atitude de apropriação das novas tecnologias. </li></ul>Andre Lemos
  11. 11. O apelo ao bom senso <ul><li>Manifesto tecno-realista (1998). 8 máximas. Sustenta-se que não se precisa ser contra ou a favor da tecnologia, mas reflexivo em relação a ela. “O progresso técnico pode ser controlado, ao contrário do suposto pelos tecnófobos, mas só por meios políticos, ao contrário do pretendido pelos tecnocratas” (Rüdiger, 2003, p. 91). </li></ul><ul><li>Gordon Graham: realismo crítico e atitude filosófica analítica. The Internet: a philosophical inquir y (1999). </li></ul><ul><ul><li>“ Para ele, as tecnologias de informação suscitam o aparecimento de certas convicções, favoráveis ou hostis, que precisam ser examinadas criticamente, para se poder fazer um juízo adequado e capaz de orientar nossa conduta perante o fenômeno. Para tanto, precisamos, antes de mais nada, evitar a crença de que as novidades tecnológicas são positivas apenas por serem novas, ou são negativas apenas por serem tecnológicas (1999, p.14-16)” (p. 93). </li></ul></ul><ul><li>Reflexão sobre a condição humana - ela sempre incluirá problemas que não poderão ser solucionados pelas tecnologias da informação. </li></ul>Gordon Graham
  12. 12. O desafio do humanismo Humanismo: ? Tim Jordon – imaginário coletivo através do ciberespaço “através do qual as pessoas vêm a constituir suas respectivas comunidades, ao se comprometerem com causas comuns de uma maneira que não mais parecia realizável à luz do movimento da modernidade” (p. 101). Jean-Marc Mandosio – utopia neotecnológica “Para ele, a tecnologia não é o motor da história, mas função de processos sociais caracterizados por ações e renúncias, conflitos e compromissos, vitórias e derrotas, que nada têm de fatalistas ou totalmente tecnológicos (cf. Mandosio, 2000, p. 116)” (p. 102).
  13. 13. Pistas para a crítica da razão tecnológica <ul><li>Andrew Feenberg – ex-aluno de Marcuse, vem há anos desenvolvendo teoria crítica da técnica cujo sentido é devolver-lhe o conteúdo político (p. 106). </li></ul><ul><li>Fetichismo tecnológico só pode ser superado via reflexão filosófica e ação política. A tecnologia vai além do meramente tecnológico. </li></ul><ul><ul><li>“ A verdadeira crítica não contrapõe o homem à máquina; submete a um exame suas diversas relações em condições determinadas. A tecnologia é uma variável de uma constelação em que não é possível distinguir, fora da abstração, o uso da forma da máquina, conforme já alertara Marcuse” (p. 106). </li></ul></ul><ul><ul><li>“ O fundamento da teoria crítica da tecnologia é a tese de que a técnica se desenvolve a partir da conquista de poder sobre a natureza e, a partir dessa, do homem sobre o homem” (p. 107) </li></ul></ul><ul><ul><li>“ As tecnologias de informação não são função de um propósito social pré-determinado: são parte do contexto histórico em meio ao qual a vida é articulada. As pessoas possuem o poder de reinventar em sentido simbólico o caráter funcional dos aparatos tecnológicos” (p. 108). </li></ul></ul><ul><li>Contexto histórico e social molda e é moldado pela tecnologia. </li></ul>
  14. 14. Imaginação e racionalidade na tecnocultura <ul><ul><li>“ Kevin Robins e Ken Hillis, entre outros, dão o referido salto, defendendo que vejamos o desenvolvimento da tecnocultura como expressão do projeto moderno de controle racional do mundo, mas também do esforço em redimensionar esse mundo de acordo com o espírito da fantasia arcaica e não-racional” (p. 117). </li></ul></ul><ul><li>Humanismo radical </li></ul><ul><li>Elementos míticos e utópicos (p. 119) - os elementos racionais são inseparáveis dos irracionais </li></ul><ul><li>O progresso da técnica depende tanto do racionalismo científico quanto da mitologia primitiva. </li></ul><ul><ul><li>“ a tecnologia não se reduz ao conhecimento objetivo das conexões funcionais entre meios e fins e que mesmo essas exprimem a seu modo uma atividade mítica e utópica (irracional ou fantasiosa)” (p. 124) </li></ul></ul>
  15. 15. A tecnologia como imaginário social-histórico <ul><li>Cornelius Castoriadis </li></ul><ul><li>Tecnologia como imaginário social-histórico. </li></ul><ul><li>Para Juremir Machado da Silva, o imaginário </li></ul><ul><ul><li>“ deve sempre ser entendido como algo mais amplo do que um conjunto de imagens. O imaginário não é um [...] álbum de fotografias mentais, nem um museu da memória individual ou social. Tampouco se restringe ao exercício artístico da imaginação sobre o mundo. O imaginário é uma rede etérea e movediça de valores e de sensações partilhada” (p. 127) </li></ul></ul>Cornelius Castoriadis
  16. 16. Conclusão “ Dessa ótica, parece-nos razoável concluir - utopicamente - que, permanecendo seres pensantes, caberia muito mais revermos nossos sonhos e projetos do que prosseguir no sendeiro sem futuro em que estamos enfiados. O problema não é a técnica ou mesmo a máquina, mas o ser humano. Aquelas podem nos levar em diversas direções, porque, em última instância, atualmente alienada e sem perspectiva de recuperação, ainda somos nós que lhes damos sentido, toda sua força não é senão expressão muito descontrolada dos poderes, sonhos, esperanças e destinos da humanidade” (p. 142)

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