Introdução à análise do discruso helena brandão

22,958 views

Published on

4 Comments
27 Likes
Statistics
Notes
No Downloads
Views
Total views
22,958
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
31
Actions
Shares
0
Downloads
1,604
Comments
4
Likes
27
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Introdução à análise do discruso helena brandão

  1. 1. f BC BCA iir N01 funda nasneC€ /utor: Hmndao. He km H. Nagamine > ponto de liluti: liitrodutiio u analise do dis enomenos o discurso jufstico no ele representa, no interior da lingua, osefeitos das contradicSes ideologicas", a analise dodiscurso apresenta-se como uma disciplina naoacabada, em constante mudanca, em que "o linguistico eo iugar, o espaco que da materialidade, espessura aideias, tematicas de que o homem se faz sujeito, umsujeito concreto, hist6rico, porta-voz de um amplodiscurso social". Introdugao a analise do discurso mine Brandao UFES 286898 T O R A| Wim^M
  2. 2. iNTRODUgAO A ANALISE DO DISCURSO
  3. 3. Helena H. Nagamine Brandao iNTRODUgAO A ANALISE DO DISCURSO UNIVERSIDAIJE ESTADUAL DE CAMPTNAE Reitor JOSE TADEU JORGE Coordenador Geia] da Universidade FERNANDO FEKREIRA COSTA E D i T o R ft I ^—-.jwwm^n Conselho Editorial Presidente PAULO FRANC ALCIR PECORA - ARLEY RAMOS MORENO Josfi A. R. GONTIJO - JosE ROBERTO ZANLuis FERNANDO CERIBELLI MADI - MARCELO KNOBEL SEDI HIRANO - WILSON CANO E D I T O R
  4. 4. SUMARIO FlCHA CATALOCRAFICA ELABORADA PELA BIBLJOTECA CENTRAL DA UNICAMP Brandao, Helena Hathsue Nagamine. INTRODUCED 7 B733i Introducao a analise do discurso / Helena H. Nagamine Brandao. Lmgua/LingiMgem: uma abordagem intemtional 7 - 2* ed. rev. - Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2004. Entre a lingua e a fala: o discurso 10 I. Andiise do discurso. 2. Atos de fala (Lingiifstica). I. Titulo. CDD 415 CAPiTuLO i —ANALISE DO DISCURSO 13 ISBN 85-268-0670-X 412.1 Indices para catilogo sistematico: Esbofo histdrico 13 A perspectiva, tedrica jrancesa 16 1. Analise do discurso 415 2. Atos de lala (Lingiifstica) 412.1 O concetto de ideotogia 18 Em Marx 19 Copyright © by Helena Hathsue Nagamine Brandao Em Althusser 23 Copyright © 2004 by Editora da UNICAMF Em Ricoeur 26 a 2 reimpressao, 2006 O conceito de discurso em Foucautt 32 Nenhuma parte desta publica9ao pode ser gravada, armazenada em Lingua, discurso e ideologia 38 sistema eletr&nico, fotocopiada, reproduzida por meios mecanicos ou Condifoes deprodufao do discurso 42 outros quaisquer sem autorizacao previa do editor. Formagcio ideoldgica e formacao discursiva 46,vA CAPfTULO 2 SOBRE A NOCAO DE SUJEITO 53 A subjetividade em Benveniste 55 O sujeito descentrado: o eue o outro 59 dt- B i D h o t e c a / U F E S A heterogeneidade discursiva 60 Monologismo versus dialogismo 61 O discurso e seu avesso 65 A teoria polifonica de Ducrot 69
  5. 5. Sentido e sujeito na andlise do discurso 76 Uma teoria nao-subjetivista da enuncia^ao 78 A ilusao discursiva do sujeito 82 Conclusao 85 iNTRODUgAOCAPfTULO 3 — SOBRE A NOCAO DE INTERDISCURSIVIDADE 87 A relafao discurso—interdiscurso 89 O outro no mesmo 91 Lingual Linguagem: uma abordagem interacional A intertextualida.de 94 A memoria discursiva 95 Qualquer estudo da linguagem e hoje, de alguma forma, Dominios do campo enunciativo 96 tributario de Saussure, quer tomando-o como ponto de par- O domfnio de memoria 98 tida, assumindo suas postulates teoricas, quer rejeitando-as. O domfnio de atualidade 100 No nosso caso, a referenda a Saussure deve-se, sobretudo, a sua O dommio de antecipa^ao 100 celebre concepcao dicotomica entre a Ifngua e a fala. Embora Efeitos de memoria 101 reconhecendo o valor da revolu^ao lingufstica provocada por Saussure, logo se descobriram os limites dessa dicotomia pelasCONCLUSAO 103 conseqiiencias advindas da exclusao da fala do campo dos es- tudos lingiiisticos.GLOSSARIO 105 Dentre os que sentiram essa camisa de for^a que co- locava como objeto da lingiifstica apenas a lingua, tendo-aBIBLIOGRAFIA BASICA COMENTADA . 111 como algo abstrato e ideal a constituir um sistema sincronico e homogeneo, esta Bakhtln (Voloshinov, 1929) que, comBIBLIOGRAFIA 117 seus estudos, anteclpa de muito as orientacoes da lingiifstica moderna. Palmilhando a trilha aberta por Saussure, parte tarn- b^m do principio de que a Ifngua e um fato social cuja exis- tencia se funda nas necessidades de comunica^ao. No en- tanto, afasta-se do mestre genebrino ao ver a Ifngua como algo concrete, fruto da manifesta9ao individual de cada falante, valorizando dessa forma a fala.
  6. 6. Visando a formulacao de uma teoria do enunciado, Nessa perspectiva, fica evidente que uma lingiifstica Bakhtin atribui um lugar privilegiado a enuncia9&o enquanto imanente que se limite ao estudo interno da lingua nao po- , realidade da linguagem: "A materia linguistica € apenas uma dera dar conta do seu objeto. E necessario que ela traga parai parte do enunciado; existe tambem uma outra parte, nao- o interior mesmo do seu sistema um enfoque que articule of verbal, que corresponde ao contexto da enunciacjio". linguistico e o social, buscando as relacoes que vinculam a lin- Dessa forma, ele diverge dos seus antecessores (Saussure guagem a ideologia. Sistema de significac,ao da realidade, a j e a escola do subjetivismo individualista representado por linguagem 6 um distanciamento entre a coisa representada e j Vossler e seus discipulos), para quem o enunciado era um ato o signo que a representa. E e nessa distancia, no intersticio entre i individual e, portanto, uma nocao nao-pertinente Imgiiisti- a coisa e sua representacao sfgnica, que reside o ideologico. 1 camente. Bakhtin, alias, nao so coloca o enunciado como Para Bakhtin, a palavra e o signo ideologico por exce- objeto dos estudos da linguagem como da a situacjio de enun- j lencia, pois, produto da interacao social, ela se caracteriza pela ciac,ao o papel de componente necessario para a compreensao plurivalencia. Por isso 6 o lugar privilegiado para a manifestac,ao e expHcacao da estrurura semantica de qualquer ato de comu- da ideologia; retrata as diferentes formas de significar a rea- nicacao verbal. lidade, segundo vozes e pontos de vista daqueles que a empre- Como, atraves de cada ato de enunciate, se realiza a gam. Dialogica por natureza, a palavra se transforma em arena 1 intersubjetividade humana, o processo de interacao verbal de luta de vozes que, situadas em diferentes posicoes, querem ! passa a constituir, no bojo de sua teoria, uma realidade fun- ser ouvidas por outras vozes. damental da lingua. O interlocutor nao 6 um elemento passive » Consequentemente, a linguagem nao pode ser encarada na constituicao do significado. Da concepcao de signo lingiiis- i como uma entidade abstrata, mas como o lugar em que a ideo- tico como um "sinal" inerte que advem da analise da Ifngua logia se manifesta concretamente, em que o ideologico, para como sistema sincronico abstrato, passa-se a uma outra com- ; se objetivar, precisa de uma materialidade, conforme nos mos- preensao do fen6meno: a de signo dialetico, vivo, dinamico. tra Bakhtin (Voloshinov, 1929, p. 19) quando afirma: Essa visao da linguagem como intera^ao social, em que o Outro desempenha papel fundamental na constituicao do Cada signo ideologico 6 nao apenas um refiexo, uma sobra significado, integra todo ato de enunciacao individual num da realidade, mas tambem um fragmento material dessa contexto mais amplo, revelando as relacoes intrinsecas entre o realidade. Todo fenomeno que funciona como signo ideo- linguistico e o social. O percurso que o individuo faz da ela- logico tern uma encarnacao material, seja como som, co- borac^ao mental do conteudo, a ser expresso a objetivacao ex- mo massa ffsica, como cor, como movimento do corpo ou terna — a enunciacao — desse conteudo, e orientado so- como outra coisa qualquer. Nesse sentido, a realidade do cialmente, buscando adaptar-se ao contexto imediato do ato signo e totalmente objetiva e, portanto, passfvel de um es- da fala e, sobretudo, a interlocutores concretes. tudo metodologicamente unitario e objerivo. Um signo e
  7. 7. um fenomeno do mundo exterior. O proprio signo e todos problematica colocada pela oposicao lingua/fala que impos os seus efehos (todas as acoes, reacoes e novos signos que ele uma lingii/stica da lingua. Estudiosos passam a buscar uma gera no meio social circundante) aparecem na experiencia compreensao do fenomeno da linguagem nao mais centrado exterior. Este € um ponto de suma importancia. No en- apenas na lingua, sistema ideologicamente neutro, mas num tanto, por mais elementar e evidente que ele possa parecer, nfvel situado fora desse polo da dicotomia saussuriana. E essa o estudo das ideologias ainda nao tirou todas as conseqiien- instancia da linguagem e a do discurso. Ela possibilitara operar cias que dele decorrem. a ligacao necessaria entre o nfvel propriamente lingiiistico e o extralingiifstico a partir do momento em que se sentiu que Mais tarde, ao definir a tarefa da semiologia, Barthes "o Hame que liga as significances de um texto as condic.6essublinha tambem a importancia do carater ideologico do sig- socio-historicas deste texto nao e de forma alguma secunda"-no. Para ele, a ideologia deve ser buscada nao apenas nos te- rio, mas constitutive das pr6prias significances" (Haroche et al.,mas em que tern sido mais facilmente percebida, mas, so- 1971, p. 98). O ponto de articulacao dos processes ideologicosbretudo, nas formas, isto e, no funcionamento significante da e dos fenomenos lingiiisticos e, portanto, o discurso.linguagem, que e o lugar onde se da a sua materialidade: A linguagem enquanto discurso nao constitui um uni- verso de signos que serve apenas como instrumento de comu- Uma das possibilidades da semiologia, enquanto disciplina nicacao ou suporte de pensamento; a linguagem enquanto dis- ou discurso sobre o sentido, e precisamente dar instrumentos curso e interacao, e um modo de producao social; ela nao e de analise que permitam circunscrever a ideologia nas formas, neutra, inocente e nem natural, por isso o lugar privilegiado de isto 6, onde ela em geral I menos procurada. O alcance ideo- manifesta^ao da ideologia. Ela e o "sistema-suporte das repre- I6gico dos conteudos e algo percebido desde ha muito tempo, sentacoes ideol6gicas [...] e o medium social em que se ar- mas o conteiido ideologico das formas, se quiserem, constitui, ticulam e defrontam agentes coletivos e se consubstanciam de certo modo, uma das grandes possibilidades de trabalho relacoes interindividuais" (Braga, 1980). Como elemento de do seculo (apud Robin, 1973). mediacao necessaria entre o homem e sua realidade e como forma de engaja-lo na propria realidade, a linguagem e lugar de conflito, de confronto ideologico, nao podendo ser estudadaEntre a lingua e a. fala: o discurso fora da sociedade, uma vez que os processes que a constituem sao historico-sociais. Seu estudo nao pode estar desvinculado O reconhecimento da dualidade constitutiva da lin- de suas conduces de producao. Esse sera o enfoque a ser assu-guagem, isto e, do seu cardter ao mesmo tempo formal e atra- mido por uma nova tendencia lingiiistica que irrompe navessado por entradas subjetivas e sociais, provoca um deslo- decada de 60: a analise do discurso.camento nos estudos lingiifsticos ate" entao balizados pela 10 11
  8. 8. CAPlTULO 1 ANALISE DO DISCURSOEsbogo historico Pode-se afirmar com Maingueneau (1976) que foramos formalistas russos que abriram espaco para a entrada nocampo dos estudos lingiiisticos daqullo que se chamaria maistarde discurso. Operando corn o texto e nele buscando umaloglca de encadeamentos "transfrasticos", superam a abor-dagem filologica ou impressionista que ate entao dominavaos estudos da lingua. Essa abertura em direcao ao discursonao chega, entretanto, as ultimas consequenclas, pois seusseguidores, os estruturalistas, propoem-se como objetivo es-tudar a estrutura do texto "nele mesmo e por ele mesmo" erestringem-se a uma abordagem imanente do texto, excluindoqualquer reflexao sobre sua exterioridade. Os anos 50 serao decisivos para a constituicao de umaanalise do discurso enquanto disciplina. De um lado, surgeo trabalho de Harris (Discourse analysis., 1952), que mostraa possibilidade de ultrapassar as analises confmadas mera-mente a frase, ao estender procedimentos da lingufstica dis-tribucional americana aos enunciados (chamados discursos)e, de outro lado, os trabalhos de R. Jakobson e E. Benvenistesobre a enunclac_ao. 13
  9. 9. Esses trabalhos ja apontam para a diferenca de perspec- frase e texto como elementos isomorflcos, cujas analises setiva que vai marcar uma postura teorica de uma analise do diferenciam apenas em graus de complexidade. Ve-se o tex-discurso de linha mais americana, de outra mais europeia. to de uma forma redutora, nao se preocupando com as for- Embora a obra de Harris possa ser considerada arnar- mas de instituicao do sentido, mas com as formas de orga-cp inicial da analise dp discurso, ela se coloca ainda como nizacao dos elementos que o constituem.simples extensao da linguistica imanente na medida em que Embora a gramatica se enriqueca e ganhe nova orien-transfere e aplica procedimentos de analise de unidades da tacao com questoes colocadas pela pragmatica e pela socio-lingua aos enunciados e situa-se fora de qualquer reflexao lingiifstica, nao se processa uma ruptura fundamental, poissobre a significacao e as consideracoes socio-historicas de a questao do sentido continua sendo tratada, essencialmente,producao que vao distinguir e marcar posteriormente a ana- no interior do lingufstico:lise do discurso. Numa direcao diferente, Benveniste, ao aflrmar que "o A contribuicao da Sociolingiiistica, nesse sentido, e a de quelocutor se apropria do aparelho formal da lingua e enuncia sua se deve observar o uso atual da linguagem; e a da Pragmaticaposicao de locutor por indices especfficos", da relevo ao papel € a de que a linguagem em uso deve ser estudada em termosdo sujeito falante no processo da enunciacao e procura mostrar dos atos de fala. Embora essas questoes indiquem uma certacomo acontece a inscricao desse sujeito nos enunciados que ele mudanca em relacao a dominancia dos estudos da gramatica,emite. Ao falar em "posicao" do locutor, ele levanta a questao nao produzem um rompimento maior mas apenas o de seda relacao que se estabeiece entre o locutor, seu enunciado e o acrescentar um outro componente a gramatica. O discursomundo; relacao que estara no centre das reflexoes da analise do caracteriza-se como o que vem a mais, o que vem depois, odiscurso em que o enfoque da posicao socio-historica dos enun- que se acrescenta. Em suma, o secundario, o contingenteciadores ocupa um lugar primordial. (Orlandi, 1986, p. 108). Segundo Orlandi (1986), essas duas didoes vao mar-car duas maneiras diferentes de pensar a teoria do discurso: Numa perspectiva oposta a dessa concepcao da analiseuma que a entende como uma extensao da lingufstica (que do discurso como extensao da lingufstica, Orlandi aponta umacorresponderia a perspectiva americana) e outra que con- tendencia europeia que, partindo de "uma relacao necessariasidera o enveredar para a vertente do discurso o sintoma de entre o dizer e as condicoes de produ9ao desse dizer", coloca auma crise interna da linguistica, principalmente na area da exterioridade como marca fundamental. Esse pressuposto exigesemantica (que corresponderia a perspectiva europeia). um deslocamento teorico, de carater conflituoso, que vai re- Conforme essa visao, o conceito de teoria do discurso "correr a conceitos exteriores ao dominio de uma lingufsticacomo extensao da lingufstica, aplicado a perspectiva teorica imanente para dar conta da analise de unidades mais complexasamericana, justifica-se pelo fato de nela se considerarem da linguagem. 14 15
  10. 10. A perspectiva tetfrica francesa cessidade de criterios mais precisos para delimitar o campo da AD a fim de se chegar a sua especificidade. Definida inicial- Para Maingueneau (1987), a chamada "escola francesa mente como "o estudo lingiiistico das condicoes de producaode analise do discurso" (que abreviaremos AD) filia-se: de um enunciado", a AD se ap6ia sobre conceitos e metodos da lingiiistica ("A AD pressupoe a Lingufstica e 6 pressupondo• a uma certa tradi9ao intelectual europeia (e sobretudo da a Lingufstica que ganha especificidade em relafao as meto- Franca) acostumada a unir reflexao sobre texto e sobre his- dologias de tratamento da linguagem nas ciencias humanas", t6ria. Nos anos 60, sob a egide do estruturalismo, a con- Orlandi, 1986, p. 110). Se por um lado esse pressuposto te6- juntura intelectual francesa propiciou, em torno de uma rico e metodologico da lingiiistica distingue a AD das outras reflexao sobre a "escritura", uma articulacao entre a linguis- areas das ciencias humanas com as quais confina (historia, so- tica, o marxismo e a psicanalise. A AD nasceu tendo como ciologia, psicologia etc.), por outro, entretanto, nao sera sufi- base a interdisciplinaridade, pois ela era preocupacao nao so ciente para, por si so, marcar a sua especificidade no interior de lingiiistas como de historiadores e de alguns psicologos; dos estudos da linguagem, sob o risco de permanecer numa• e a uma certa pratica escolar que e a da "explicac,ao de tex- lingiiistica imanente. Sera" necessario considerar outras dimen- to", muito em voga na Franca, do colegio a universidade, nos soes, como as que aponta Maingueneau (1987): idos anteriores a 1960. Para A. Culioli (apud Maingueneau, 1987, p. 6), "a Franca € um pafs em que a literatura exerceu • o quadro das instituicoes em que o discurso e produzido, as um grande papel e pode-se perguntar se a analise do discurso quais delimitam fortemente a enuncia9ao; nao e uma maneira de substituir a explicac.ao de texto en- • os embates historicos, sociais etc. que se cristalizam no dis- quanto exercicio escolar". curso; • o espa9O pr6prio que cada discurso configura para si mesmo Inscrevendo-se em um quadro que articula o lingiifstico no interior de um interdiscurso.com o social, a AD ve seu campo estender-se para outras areasdo conhecimento e assiste-se a uma verdadeira proliferacao dos Dessa forma, a linguagem passa a ser um fenomeno queusos da expressao "analise do discurso". A polissemia de que se deve ser estudado nao so em relacao ao seu sistema interno, en-investe o termo "discurso" nos mais diferentes esforcos ana- quanto forma9ao lingiifstica a exigir de seus usuarios uma com-Ifticos entao empreendidos faz com que a AD se mova num petencia especffica, mas tambem enquanto formacao ideologica,terreno mais ou menos fluido. Ela busca, dessa forma, definir que se manifesta atraves de uma competencia socioideologica:o seu campo de atuacjio, procurando analisar inicialmente cor-pora tipologicamente mais marcados — sobretudo nos discur- Uma pratica discursiva nao pode se explicar senao em funcaosos polfticos de esquerda — e textos impresses. Sente-se a ne- de uma dupla competencia: 1. uma competencia especffica, 16 17
  11. 11. Segundo Chaui (1981), o termo "ideologia", criado sistema interiorizado de regras especificamente lingiifsticas e que asseguram a produc.ao e a compreensao de frases sempre pelo filosofo Destutt de Tracy em 1810 na obra Elements de novas — o indivfduo eu utilizando essas regras de maneira ideologie^ nasceu como sinonimo da atividade cientifica que espedfica (performance); 2. uma competencia ideologica ou procurava analisar a faculdade de pensar, tratando as ideias geral que torna implicitamente possivel a totalidade das asoes "como fenomenos naturals que exprimem a relacao do corpo e das significacoes novas (Slakta, 1971, p. 110). humano, enquanto organismo vivo, com o meio ambienteU (p. 23). Entendida como "ciencia positiva do espirito", ela se Preconizando, assim, um quadro teorico que alie o lin- opunha k metafisica, a teologia e a psicologia pela exatidao egiiistico ao s6cio-historico, na AD, dois conceitos tornam-se rigor cientfficos que se propunham como metodo.nucleares: o de ideologia e o de discurso. As duas grandes ver- I Contrariando esse significado original, o termo passatentes que vao influenciar a corrente francesa de AD sao, do a ter um sentido pejorative pela primeira vez com Napoleao,lado da ideologia, os conceitos de Althusser e, do lado do dis- que qualifica os ide6logos franceses de "abstratos, nebulosos,curso, as ideias de Foucault. E sob a influencia dos trabalhos idealistas e perigosos (para o poder) por causa do seu desco-desses dois teoricos que Pecheux, urn dos estudiosos mais pro- jihecimento dos problemas concretes" (Reboul, 1980, p. 17).fifcuos da AD, elabora os seus conceitos. De Althusser, a A ideologia passa a ser vista entao como uma doutrina irrea-influencia mais direta se faz a partir de seu trabalho sobre os lista e sectiria, sem fundamento objetivo, e perigosa para aaparelhos ideologicos de Estado na conceituacao do termo "for- ordem estabelecida.;macao ideologica". E sera da Arqueologia do saber que Pecheuxextraira a expressao "fbrmac,ao discursiva", da qual a AD seapropriara, submetendo-a a um trabalho especifico. Em Marx , Em Marx e Engels, vamos encontrar o termo "ideo-O conceito de ideologia logia" tambem impregnado de uma carga semantica ne- gativa.jA semelhan9a de Napoleao, que criticara os filosofos Matizado por nuancas significativas, o termo ideologia franceses, Marx e Engels^condenam a "maneira de ver abs-6 ainda hoje uma nocao confusa e controversa. Antes de abor- trata e ideologica" dos filosofos alemaes que, perdidos na suadar o conceito de ideologia em Althusser, serao expostas algu- fraseologia, nao J^uscam a "ligac.ao entre a filosofia alema emas colocasoes sobre o fenomeno ideologico feitas por Marx, a realidade alema,io laco entre sua crftica e seu proprio meiodo qual o primeiro e tributario, e, em seguida, algumas con- material" (1965, p. 14). -sideracoes de Ricoeur (1977), que retoma uma visao inte- Marx e Engelsjdentificam "ideologia" com a separacaoressante de Jaques Ellul sobre o fenomeno ideologico. que se faz entre a producao das ideias e as condicoes socials . i 9;
  12. 12. e historicas em que sao produzidas. For isso e que eles tomam Essa separacao entre trabalbo intelectual e trabalho ma-como base para suas formulac_6es apenas dados possfveis de terial 3d uma aparente autonomia ao primeiro, isto 6, as ideiasuma verificacao puramente empirical os dados da realidade que, autonomizadas e prevalecendo sobre o segundo, .passamque sao "os indivfduos reais, sua acjio e suas condic,6es ma- a ser expressao das ideias da classe dominante;terials de existencia, aquelas que ja encontram a sua espera eaquelas que surgem com a sua propria acao" (p. 14). As ideias da classe dominante sao, em cada epoca, as ideUas Dessa forma, citando novamente Marx e Engels, a "pro- dominantes, isto e, a classe que e a for^a material dominanteducjio de ideias, de concep^oes e da consciencia liga-se, a pf in- da sociedade e, ao mesmo tempo, sua for9a espiritual. Acipio, diretamente e intimamente a atividade material e ao classe que tem a sua disposi9ao os meios de produ9ao ma-comercio material dos homens, como uma linguagem da vida terial dispoe, ao mesmo tempo, dos meios de produ9ao es-real"^ Conseqiientemente, "a observacao empirica tem de mos- piritual. [...] Na medida em que dominam como classe etrar empiricamente e sem qualquer especulac_ao ou mistificac,ao determinam todo o ambito de uma e"poca hist6rica, e evi-a ligacao entre a estrutura social e polftica e a producao". dente que o fa9am em toda a sua extensao e, consequen- No entanto, o que as ideologias fazem, segundo Marx e temente, entre outras coisas, dominem tamb^m como pen-Engels, e colocar os homens e suas relacoes de cabec,a para bai- sadores, como produtores de ideias; que regulem a produ-xo, como ocorre com a refrac,ao da imagem numa camara es- 9ao e dlstribui9ao de ideias de seu tempo e que suas id&ascura. Metaforicamente, essa inversao da imagem, isto e, o "des- sejam, por isso mesmo, as ideias dominantes da epoca (Marxcer do ceu para a terra em vez de ir da terra para o ceu" que ele e Engels, 1965, p. 14).denuncia nos filosofos alemaes, representa o desvio de percursoque consiste em partir das ideias para se chegar a realidade. fi na sequencla dessas coloca9&es que Chaui (1980) Segundo Chaui (1980), e nesse momento que, para chega entao a[caracterizacao da ideologia segundo a concep-Marx, nasce c,ao marxista. Ela e um instrumento de dornina9ao de classe porque a classe dominante faz com que suas iddias passem a S^ a ideologia propriamente dita, isto e, o sistema ordenado ser ideias de todos. Para isso eliminam-se as contradicoes en- de ideias ou representagoes e das normas e regras como tre forc,a de produ^ao, relacoes socials e consciencia, resul- algo separado e independente das condi9oes materials, tantes da divisao social do trabalho material e intelectual. visto que seus produtores — os te6ricos, os Ideologos, os Necessaria a domina^ao de classe, a ideologia e ilusao, isto e, intelectuais — nao estao diretamente vinculados a produ- abstra9ao e inversao da realidade,] e por isso 9ao material das condi9oes de existencia. E, sem perceber, exprimem essa desvincula^ao ou separa9&o atraves de suas permanece sempre no piano imediato do aparecer social... ide"ias(p. 65). o aparecer social 6 o modo de ser do social de ponta-cabec.a.
  13. 13. A aparencia social na"o a" algo falso e errado, mas e o modo Em Althusser como o processo social aparece para a consciencia direta dos homens. Isto significa que uma ideologia sempre possui Em Ideologia e aparelhos ideologicos do Estado (1970), uma base real, s6 que essa base esta de ponta-cabeca, i a Althusser afirma que, para manter sua dommacao, a classe do- aparencia social (p. 105). minante gera mecanismos de perpetuacao ou de reproducao das condisoes materials, ideol6gicas e politicas de explorasao. Para criar na consciencia dos homens essa visao ilusoria E af entao que entra o papel do Estado que, atravds de seusda realiHade como se fosse realidade, a ideologia organiza-se Aparelhos Repressores! — ARE — (compreendendo o gover- "como um sistema logico e coerente de representa^oes (ideias no, a administracao, o Exercito, a policia, os tribunals, as pri-e valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e soes etc. )^ e Aparelhos Ideologicos ;— AIE — (compreendendoprescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar institui^oes tais como: a rellgiao, a escola, a familia, o direito,e como devem pensar/ o que devem valorizar, o que devem a politico, o sindicato, a cultura, a informa^aoJ/Tnterv^m ousentir, o que devem fazer e como devem fazer" (Chaui, 1980, pela repressao ou pela ideologia, tentando forcar a classe do-p. 113). Ela se apresenta, ao mesmo tempo, como explicacao minada a submeter-se as redoes e condi^oes de explorac^q. ,teorica e pratica? Enquanto explicacao, ela nao explicita e, Dentre as diferencas que Althusser estabelece entre os ARE ealias, nao pode explicitar tudo sob o risco de se perder, de se os AIE estaria sua forma de funcionamento: enquanto que osdestruir ao expor, por exemplo, as diferencas, as contradicoes primeiros "funcionam de uma maneira massivamente pre-sociais. Essa manobra camufladora vai fazer com que o dis- valente pela repressao (inclusive fisica), embora funcione se-curso, e de modo especial o marcadamente ideologico, se ca- cundariamente pela ideologia"; inversamente os segundos "fun-racterize pela presenc.a de "lacunas", "silencios", "brancos" cionam de um modo massivamente prevalente pela ideologia,que preservem a coerencia do seu sistemaX embora funcionando secundariamente pela repressao, mesmo Dessa forma, se em Marx o termo "ideologia" parece que no limite, mas apenas no limite, esta seja bastante ate-estar reduzido a uma simples categoria filosofica de ilusao ou nuada, dissimulada ou ate simb6lica" (p. 47).mascaramento da realidade social, isso decorre do fato de se Althusser assinala que } como todo funcionamento datomar, como ponto de partida para a elaboraclo de sua teorla, ideologia dominante estd concentrado nos AIE, a hegemo-a critica ao sistema capitalista e o respectivo desnudamento ma ideologica exercida atraves deles e importante para se cria-da ideologia burguesa. A ideologia a que ele se refere e, por- rem as conduces necessarias para reproduijao das relacoes detanto, especificamente a ideologia da classe dominante. Na segunda parte de seu ensaio, Althusser retoma as in- daga^oes sobre o conceito de ideologia, mas nao mais sob o en- foque da problematica dos AIE e da reproducao que gira em
  14. 14. torno de um uso especffico do conceito, o de "ideologia do- b) "a ideologia tern uma existencia porque existe sempre numminance". Nessa pane do seu estudo, ele vai se aplicar a con- aparelho e na sua pratica ou suas praticas".ceituacao do que enrende por ideologia em geral, que Ihe edistinta das ideologias particulars, "que exprimem sempre, Para explicar sua tese, Althusser pane da colocacaoseja qual for a sua forma (religiosa, moral, jurfdica, politica), feita por uma corrente idealista que reduz a ideologia aposicoes de classe" (p. 12). ideias dotadas por definicao de existencia espiritual; em ou- Sua "ideologia em geral" seria, no fundo, a "abstracao tras palavras, o comportamento (material) de "um sujeitodos elementos comuns de qualquer ideologia concreta, a fi- dotado de uma consciencia em que forma livremente, ouxacao teorica do mecanismo geral de qualquer ideologia" e, reconhece livremente, as ideias em que ere", decorre natu-para explica-la, formula tres hip6teses: ralmente dessas ideias que constituem a sua crenca. Re- conhece-se, dessa forma, que as ideias de um sujeito existema) "a ideologia representa a relafao imaginaria de individuos ou devem existir nos seus atos, e se isso nao acontece, em- com suas reais conduces de existencia". prestam-se-lhes outras ideias correspondentes aos atos que ele realiza. Com esta tese, Althusser se opoe a concepcao simplista Para Althusser, entretanto, essas idelas deixam de terde ideologia como representacao mecanica (ou "mimetica") uma existencia ideal, espiritual, e ganham materialidade nada realidade; para ele, o problema da ideologia se coloca de medida em que sua existencia s6 6 possfvel no seio de "umoutra forma: a ideologia e a maneira pela qual os homens aparelho ideologico material que prescreve prdticas ma-vivem a sua relacao com as condicoes reais de existencia, e essa teriais governadas por um ritual material, praticas que exis-relacao 6 necessariamente imaginaria. Acentua o carater ima- tem nas acoes materials de um sujeito" (McLennan et al.,ginario, o aspecto, por assim dizer, "produtivo" da ideologia, 1977, p. 125).pois o homem produz, cria formas simbolicas de represen- A existencia da ideologia e, portanto, material, porquetagao da sua relaclo com a realidade concreta. O imaginario as rela9oes vividas, nela representadas, envolvem a parti-e o modo como o homem atua, relaciona-se com as condicoes cipacao individual em determinadas praticas e rituais no in-reais de vida. Sendo essas relacoes imaginarias, isto i, repre- terior de aparelhos ideologicos concretes. Em outros ter-sentadas simbolicamente, abstratamente, supoem um distan- mos, a ideologia se materializa nos atos concretes, assu-ciamento da realidade. E esse distanciamento pode ser "a mindo com essa objetivaclo um carater moldador das 39068.causa para a transposic.ao e para a deformac^ao imaginaria das Isso leva Althusser a concluir que a pratica so existe numacondicoes de existencia reais do homem, numa palavra, para ideologia e atraves de uma ideologia.a alienac,ao no imaginario da representacao das condic,6es deexistencia dos homens" (p. 80). c) "a ideologia interpela individuos como sujeitos". 24 25 J ._..
  15. 15. Toda ideologia tern por funcao constituir individuos Ricoeur (1977) atribui a ideologia a funcao geral deconcretes em sujeitos. Nesse processo de constituisao, a inter- mediadora na integracao social, na coesao do grupo. Essepelacao e o (re)conhecimento exercem papel importante no papel se caracteriza pela presenca de cinco traces:runcionamento de toda ideologia. ft atraves desses mecanis-mos que a ideologia, funcionando nos rituais materiais da 1) A ideologia perpetua um ato fundador inicial. Nesse sen-vida cotidiana, opera a transformacao dos indivfduos em su- tido,jeitos. O reconhecimento se dd no momento em que o sujeitose insere, a si mesmo e a suas acoes, em praticas reguladas a ideologia 6 funcao da distancia que separa a memoria so-pelos aparelhos ideologicos. Como categoria constitutiva da cial de um acontecimento que, no entanto, trata-se de repetir.ideologia, sera" somente atraves do sujeito e no sujeito que a Seu papel nao e somente o de difiindir a convic9ao para al^mexistencia da ideologia sera" possivel. do cfrculo dos pais fundadores, para convert^-la num credo de todo o grupo, mas tambem o de perpetuar a energia ini-Em Ricoeur cial para alem do periodo de efervescencia (p. 68). O fenomeno ideologico tern sido fortemente marcado Essa perpetuacao de um ato fundador esta ligada a "ne-pelo marxismo. Sem querer combater Marx ou ir a seu favor, cessidade, para um grupo social, de conferir-se uma ima-Paul Ricoeur alerta para uma tendencia que se faz sentir sob gem de si mesmo, de representar-se, no sentido teatral doa influencia de se fazer uma interpretacao redutora do feno- termo, de representar e encenar".meno ideol6gico partindo de uma analise em termos de clas- 2) A ideologia e dinamica e motivadora. Ela impulsiona a pra-ses socials. Interpretacao redutora porque ela define ideologia xis social, motivando-a, e "um motivo e ao mesmo tempoapenas por sua fun9ao de justificacao dos interesses de uma aquilo que justifica e que compromete". Por isso, "a ideo-classe, a dominante. logia argumenta", estimula uma praxis social que a con- Uma defini9ao de ideologia que a reduz as funcoes de cretiza. Nesse sentido, ela & mais do que um simples reflexodominacao e de justiflca9ao e que nos leva a aceitar, sem crf- de uma formacao social, ela e tambem justificafao (porquetica, a identificacao de ideologia com as no9oes de erro, men- sua praxis "e movida pelo desejo de demonstrar que o grupotira, ilusao. Ele nao nega a existencia de tais funcoes, mas, que a professa tem razao de ser o que e") zprojeto (porqueantes de chegar a ela, diz ser precise entender uma funcao an- modela, dita as regras de um modo de vida).terior e basica que concerne a ideologia em geral. Ele analisa 3) Toda ideologia e simplificadora e esquematica. Inerente ao conceito de ideologia em tres instandas: sua funcao justificadora, a ideologia apresenta um carater codificado "para se dar uma visao de conjunto, nao so-a) Funcao geral da ideologia mente do grupo, mas da historia e, em ultima instancia, do 26 27
  16. 16. mundo". Por isso, visando a eficdcia social de suas ideias, ela Toda autoridade procura, segundo seus sistemas poli- i racionalizadora e sua forma de expressao preferencial sao ticos, legitimar-se, e para tal e necessario que haja correlati- as maxirnas, slogans e formas lapidares onde a retxSrica esta vamente uma cren^a por parte dos individuos nessa legitimi- sempre presente. dade. Como a legitimacao da autoridade demanda mais crenca4) Uma ideologia 6 operatoria e nao-tematica. Isto 6, "ela opera do que os indivfduos podem dar, surge a ideologia como sis- atras de n6s, mais do que a possufmos como um tema dian- tema justificador da dominacao. te de nossos olhos. fi a partir dela que pensamos, mais do E € no momento em que a ideologia-integracao se cru- que podemos pensar sobre ela" (p. 70). E devido a esse esta- za com a ideologia-dominac_ao que emerge o carater de dis- tuto nao-reflexivo e nao-transparente da ideologia que se torcao e de dissimulacao da ideologia. Mas nem todos os tra- vinculou a ela a nocao de dissimulacao, de distorcao. cos que foram atribufdos a seu papel mediador passam a fun-5) A ideologia e, poderfamos dizer, intolerante devido a inercia 93.0 da dissimulacao, como se costuma fazer. que parece caracteriza-la. Inercia em relacao ao aspecto tem- poral, uma vez que "o novo so pode ser recebido a partir do c) Fun^ao de deformacao tipico, tambem oriundo da sedimentacao da experiencia social". Nesse sentido, a ideologia e conservac.ao e resis- Aqui o termo "ideologia" adquire a no^ao rnarxista pro- tencia as modifica^oes. O novo poe em perigo as bases es- priamente dita. Tomando a religiao (que opera a inversao entre tabelecidas pela ideologia. Ele representa um perigo ao o ceu e a terra) como a ideologia por excelencia, Marx, como grupo cujos membros devem se reconhecer e se reencontrar ja vimos, concehua o fenomeno ideologico como aquilo que na comunhao das mesmas ideias e praticas sociais. A ideo- nos faz, segundo palavras de Ricoeur, "tomar a imagem pelo logia opera, assim, um estreitamento das possibilidades de real, o refiexo pelo original". interpretac,ao dos acontecimentos. Afetada pelo seu ca- Para Ricoeur, essa funcao de deformacao e uma instancia rater esquematizador, ela se sedimenta enquanto os fatos especffica do conceito de ideologia e supoe as duas outras ana- e as situac.6es se transformam. Sedimentacao que pode levar lisadas anteriormente. Pois para ele e ba^ico, no fenomeno ao "enclausuramento ideologico e ate mesmo a cegueira ideologico, o papel mediador incorporado ao mais elementar ideologica". vmculo social: "a ideologia € um fenomeno insuperavel da exis- tencia social, na medida em que a realidade social sempreb) Func.ao de dominac.ao possuiu uma constituicao simbolica e comporta uma inter- pretacao, em imagens e representacoes, do pr6prio vfnculo Nessa instancia, o conceito de ideologia esta ligado aos social" (p. 75).aspectos hierirquicos da organizacjio social cujo sistema de Seguindo o percurso analftico de Ricoeur, podemosautoridade interprets e justifica. sentir que, na instancia inicial, quando o fenomeno ideolo- 28 29
  17. 17. gico tern sua funcao originariamente ligada ao papel de me- geral. Dessa forma, pelo carater arbitrario do signo, se por umdiador na integracao social, a nocao de ideologia nao carrega lado a linguagem leva a criacao, a produtividade de sentido,propriamente sentido negativo. Esse sentido negative apa- por outro representa um risco na medida em que permiterecera (e se fixara definitivamente com o marxismo) quando manipular a construcao da referenda. Essa liberdade de re-o fen6meno se cristalizar em face do problema da autoridade lacao entre signo e sentido permite produzir, por exemplo,que, acionando o sistema justificativo da dominacao, detona sentidos novos, atenuar outros e eliminar os indeseiaveisl•i l i3o carater de distorcao e de dissimulate da ideologia. Parece que essas duas concepcoes nao se excluem se Um balance das colocacoes vai-nos mostrar que essas partirmos do pressuposto de que a ideologia, enquanto con-diferentes formas de ver e conceituar a ideologia oscilam entre cepcao de mundo, apresenta-se como uma forma legitima,dois polos; e isso certamente vai determinar maneiras dife- verdadeira de pensar esse mundo. Tal modo de pensar, derentes__de abordar a relacao linguagem—ideologia. recortar o mundo — atravessado pela subjetividade — em- / De um lado, temos uma concepcao de ideologia geral- bora se apresente como legftimo, pode ser, no entanto, in-mente ligada a tradicao marxista, que apresenta o fenomeno compativel com a realidade, isto e, os modos de organizacaoideologia de maneira mais restrita e particular, entendendo-o dos dados fornecidos pela ideologia podem ser autonomos,como o mecanismo que leva ao escamoteamento da realidade imaginarios, fictfcios em rela9ao aos modos de organizacao dasocial, apagando as contradicoes que Ihe sao inerentes. Con- realidade. Essa incompatibilidade pode ser vivida de maneirasequentemente, preconiza a existencia de um discurso ideo- inconsciente. E nesse sentido que Ricoeur diz ser a ideologialogico que, utilizando-se de varias manobras, serve para le- operat6ria e nao-tematica, porque, "operando atras de nos"gitimarLo poder de uma classe ou grupo social?) e a partir dela que pensamos e agimos sem, muitas vezes, / D e outro lado, temos uma nocao mais ampla de ideo- tematiza-la, traze-la ao nivel da consciencia. Elajentretanto, •A ^~~logia que e definida como uma visao, uma concepcao de pode ser produzida intencionalmente. E nesse ponto que asmundo de uma determinada comunidade social numa deter- duas concep9oes de ideologia se cruzam. Isso pode ocorrerminada circunstancia hist6rica. Isso vai acarretar uma com- especificamente com determinados discursos como o po-preensao dos fenomenos linguagem e ideologia como no9oes litico, o religiose, o da propaganda, enfim, os marcadamenteestreitamente vinculadas e mutuamente necessarias, uma vez institucionaiizados. Neles, faz-se um recorte da realidade,que a primeira e uma das instancias mais significativas em que embora, por um mecanismo de manipulate, o real nao sea segunda se materializa. Nesse sentido, nao ha um discurso mostre na medida em que, intencionalmente, se omitem,ideol6gico, mas todos os discursos o sao. Essa postura deixa atenuam ou falseiam dados, como as contradicoes que sub-de lado uma concepcao de ideologia como "falsa consciencia" jazem as rela^oes sociais. Selecionando, dessa maneira, osou dissimulacao, mascaramento, voltando-se para outra di- elementos da realidade e mudando as formas de articulacaorecao ao entender a ideologia como algo inerente ao signo em do espaco da realidade, a ideologia escamoteia o modo de
  18. 18. ser do mundo. E esse modo de ser do mundo, veiculado por sua singularidade e possibilitam a passagem da dispersao paraesses discursos, e o recorte que uma determinada instituicao a regularidade. Regularidade que e atingida pela analise dosou classe social (dominante) num dado sistema (por exemplo, enunciados que constituem a formacao discursiva.o capitalista) faz da realidade, retratando assim, ainda que de Z^Qefinindo o discurso como um conjunto de eiiuncia-forma enviesada, uma visao de mundo. dos que se remetem a uma mesma formacao discursivaj("um discurso e um conjunto de enunciados que tern seus prin- cipios de regularidade em uma mesma formacao discursiva",O conceito de discurso em Foucault Foucault, 1969, p- l46jGpara Foucault, a analise de uma for- ^*s>-- mac.ao discursiva consistird, entao, na descric,ao dos enun- Alguns dos conceitos colocados por Foucault foram ciados que a compoemXE a nocao de enunciado em Foucaultfecundos para aqueles que se lancaram numa pesquisa lin- e" contraposta a nocao de proposicao e de frase (unidades, res-giiistica visando ao discurso. pectivamente, constitutivas da logica e da lingiifstica da frase), Foucault (1969) concebe os discursos como uma dis- concebendo-o como a unidade elementar, basica, que formapersao, isto e, como sendo formados por elementos que nao um discurso.|O discurso seria concebido, dessa forma, comoestao ligados por nenhum principio de unidade. Cabe a ana- uma famflia de enunciados pertencentes a uma mesma for-lise do discurso descrever essa dispersao, buscando o estabe- macao discursiva^lecimento de regras capazes de reger a formacao dos discursos. Foucault enumera quatro caracteristicas constitutivasTais regras, chamadas por Foucault de "regras de formacao", do enunciado. A primeira diz respeito a rek^ao do enunciadopossibilitariam a determinacao dos elementos que compoem com seu correlate que ele chama de "referenda!". O "refe-o discurso, a saber: os objetos que aparecem coexistem e se renda!", aquilo que o enunciado enuncia, "e a condicao detransformam num "espaco comum" discursive; os diferentes possibilidade do aparecimento, diferencia9ao e desapareci-tipos de enunciado que podem permear o discurso; os con- mento dos objetos e relacoes que sao designados pela frase".ceitos em suas formas de aparecimento e transformacao em Assim, o enunciado, por sua fun9ao de existencia, "relacionaum campo discursive, relacionados em um sistema comum; as unidades de signos que podem ser proposicoes ou frases comos temas e teorias-, isto e, o sistema de relac.6es entre diversas um domfnio ou campo de objetos" (Machado, 1981, p. 168),estrate"gias capazes de dar conta de uma formacao discursiva, possibilitando-as de aparecerem com conteudos concretes nopermitindo ou excluindo certos temas ou teorias. tempo e no espaco. Essas regras que determinam, portanto, uma "formacao A segunda caracterfstica (em cuja exposicao nos alon-discursiva" se apresentam sempre como um sistema de re- garemos devido a importancia da questao para a analise dolacoes entre objetos, tipos enunciativos, conceitos e estra- discurso) diz respeito a relacao do enunciado com seu sujeito.tegias. Sao elas que caracterizam a "formacao discursiva" em Foucault situa-se na vertente oposta a uma concep9ao idea-
  19. 19. lista do sujeito que, interpretado como o fundador do pen- consiste em analisar as relacoes entre o autor e o que ele dizsamento e do objeto pensado, ve a historia como um processo (ou quis dizer, ou disse sem querer); mas em determinar qualsem ruptura em que os elementos sao introduzidos conti- e a posicao que pode e deve ocupar todo individuo para sernuamente no tempo concebido como totaliza5&o. Critica, seu sujeito" (1969, pp. 119-20). Dessa forma, se o sujeito edessa forma, uma concepcao do sujeito enquanto instancia uma func.ao vazia, um espa£O a ser preenchido por diferentesfundadora da linguagem: indivfduos que o ocuparao ao formularem o enunciado, deve- se rejeitar qualquer concepcao unificante do sujeito. O dis- Poder-se-ia dizer que o tema do sujeito fundador permite eli- curso nao i atravessado pela unidade do sujeito e sim pela sua dir a realidade do discurso. O sujeito fundador [...] esta en- dispersao; dispersao decorrente das varias posicoes possiveis carregado de animar diretamente "com seu modo de ver" as de serem assumidas por ele no discurso: "as diversas moda- formas vazias da lingua: e ele que, atravessando a espessura lidades de enunciacao em lugar de remeter a sintese ou a fun- ou a inertia das coisas vazias, retoma, intuitivamente, o sen- cjio unificante de um sujeito, manifestam sua dispersao" (1969, tido que ai se encontra depositado; e ele igualmente que, para p. 69). Dispersao que reflete a descontinuidade dos pianos de alem do tempo, funda horizontes de significances que a his- onde fala o sujeito que pode, no interior do discurso, assumir toria nao tera, em seguida, senao que expHcitar e onde as pro- diferentes estatutos. Esses pianos "estao ligados por um sis- posi^oes, as ciencias, os conjuntos dedutivos encontrarao tema de relates, o qual nao e estabelecido pela atividade enfim seu fundamento. Em sua relacao com o sentido, o su- sintetica de uma consciencia identica a si, muda ou preVia a jeito fundador dispoe de signos, de marcas, de traces, de le- qualquer palavra, mas pela especiflcidade de uma pratica dis- tras. Mas nao tern necessidade, para os manifestar, de passar cursiva" (1969, p. 70). pela instancia singular do discurso (1974, p. 49). yA concepcao de discurso como um campo de regula- ridades, em que diversas posi9oes de subjetividade podem ma- Rompendo com essa ordem classica que via a historia nifestar-se, redimensiona o papel do sujeito no processo decomo um discurso do continue, do desenrolar previsivel do organizacao da linguagem, eliminando-o como fonte geradoraMesmo, Foucault instaura uma nova visao da historia como de significa^oes. Para Foucault, o sujeito do enunciado nao eruptura e descontinuidade, construindo-se uma serie de mu- causa, origem ou ponto de partida do fenomeno de articulacaotacoes inaugurals onde nao ha lugar para um projeto divino escrita ou oral de um enunciado e nem a fonte ordenadora,ou humano. Atribuindo a instancia singular do discurso um movel e constante, das operates de significacao que os enun- —=westatuto privilegiado, para ele, a materia de uma analise his- ciados viriam manifestar na superffcie do discursoAtorica descontinua i o evento na sua manifestac,ao discursiva Outra caracteristica e a que diz respeito a existencia desem referenda a uma teleologiabu a uma subjetividade fun- um dominio, ou seja, de um "campo adjacente" ou "espacodadora: "Descrever uma formulae,ao enquanto enunciado nao colateral", associado ao enunciado integrando-o a um conjunto 34
  20. 20. de enunciados, ja que, ao contrario de uma frase ou proposicao, lingiiistico (1979, p. 247). Com essa ressalva, destacaremos[nao existe um enunciado isoladamente: dentre as suas ideias, enquanto contribuicao para o estudo da linguagem, os seguintes itens: Todo enunciado se encontra assim especificado: nao existe enunciado em geral, enunciado livre, neutro e independen- a) a concepcao do discurso considerado como pratica que te; mas, sempre urn enunciado fazendo parte de uma serie ou provem da formacao dos saberes, e a necessidade, sobre a de urn conjunto, desempenhando um papel no meio dos ou- qua! insiste obsessivamente, de sua articulacao com as ou- ttos, apoiando-se neles e se distinguindo deles: ele se integra tras praticas nao-discursivas; sempre em um jogo enunciativo1969, p. 124). b) o conceito de "formacao discursiva", cujos elementos cons- titutivos sao regidos por determinadas "regras de formacao"; A quarta caracterfstica constitutiva do enunciado e c) dentre esses elementos constitutivos de uma formacao dis-aquela que o faz emergir como objeto: refere-se a sua con- cursiva, ressalta-se a disti^ao entre enunciacao (que emdicao material. Para caracterizar essa materialidade, Foucault diferentes formas de jogos enunciativos singulariza o dis-faz uma distincao entre enunciado e enunciacao. Esta se da curso) e o enunciado (que passa a funcionar como a uni-toda vez que alguem emite um conjunto de signos; enquanto dade lingiiistica basica, abandonando-se, dessa forma, aa enunciacao se marca pela singularidade, pois jamais se re- nocao de sentenca ou frase gramatical com essa funcao);pete, o enunciado pode ser repetido. Hipoteticamente, enun- d) a concepcao de discurso como jogo estrategico e polemico:cia^oes diferentes podem encerrar o mesmo enunciado. No o discurso nao pode mais ser analisado simplesmente sobentanto, como a repeti9ao de um enunciado depende de sua seu aspecto lingiifstico, mas como jogo estrategico de 3930materialidade, que e de ordem institucional, isto e, depende e de rea9ao, de pergunta e resposta, de domina9ao e dede sua localiza^ao em um campo institucional, uma frase dita esquiva e tambem como luta (1974, p. 6);no cotidiano, inserida num romance ou inscrita num. outro e) o discurso 6 o espa9O em que saber e poder se articulam,tipo qualquer de texto, jamais sera o mesmo enunciado, pois pois quern fala, fala de algum lugar, a partir de um direitoem cada um desses espacos, possui uma funcao enunciativa reconhecido institucionalmente. Esse discurso, que passadiferente. por verdadeiro, que veicula saber (o saber institucional), 6 As ideias de Foucault sao fecundas na medida em que gerador de poder;colocam diretrizes para uma analise do discurso, mas ve-rificar como se concretizam essas diretrizes, no nivel lin- f) a produ9ao desse discurso gerador de poder e controlada,gu(stico propriamente dito, e uma tarefa que deixa aos lin- selecionada, organizada e redistribufda por certos procedi-giiistas, e ele nao a realiza uma vez que nao tinha como preo- mentos que tern por funcao eliminar toda e qualquercupa9ao central o enfoque do discurso enquanto problema a permanencia desse poder. 36 37
  21. 21. Lingua, discurso e ideologia gtiistica o ponto nodal das contradicoes que atravessam e organizam esta disciplina sob a forma de tendencia, di- Pecheux (1977) desenvolve uma crftica marxista da recoes de pesquisa, escolas lingiifsticas etc.";concepcao foucaultiana do discurso, considerada do ponto de • 6 justamente neste "ponto nodal" representado pela seman-vista da categoria da contradicao e concha sobre a necessidade tica que a lingiiistica confina com a filosofia e especifica-"de uma apropriacao do que o trabalho de Foucault contem de mente, na sua perspectiva, corn a ciencia das formacoes so-materialista". E justamente visando a uma articulacao entre a ciais ou o materialismo hist6rico.concepcao de discurso de Foucault e uma teoria materialista dodiscurso que Pecheux e Fuchs (1975) preconizam um quadra Fazendo uma caracteriza^ao da shuac,ao atual da lin-epistemologico geral da AD que englobe tres regioes do co- giifstica, Pecheux identifica tres principals tendencias:nhecimento: 1) A tendencia formalista-logicista, representada pela escola1) o materialismo historico, como teoria das forma^Ses so- chomskiana, enquanto desenvolvimento critico do estru- ciais e suas transformac_6es; turalismo linguistico atraves das teorias "gerativas". Ela se2) a lingufstica, como teoria dos mecanismos sintaticos e dos assenta filosoficamente nos trabalhos da escola de Port- processes de enunciacao; Royal (Chomsky, Fillmore, Lakof, McCawley).3) a teoria do discurso, como a teoria da determinacao his- 2) A tendencia historica, conhecida desde o seculo XIX como t6rica dos processes semanticos. "lingiiistica historica" (Brunot, Meillet), desembocando hoje nas teorias da variacjio e da mudanca lingiifstica geo, Acrescente-se ainda que essas tres regioes — cujos con- etno, sociolingiiistica (M. Cohen, V. Weinreich, Labov eceitos b&icos sao os de formacao social, lingua e discurso — de um ponto de vista menos teorico, B. Bernstein).de dificil articulacao, estao de uma certa maneira atravessadaspela referenda a uma teoria da subjetividade — de natureza 3) Uma terceira tendencia que constituiria uma lingiifsticapsicanalitica. da fala" (ou da Wenuncia9ao", da "performance, da "men- Pecheux (1975, p. 17) procura elaborar as bases de uma sagem", do "texto", do "discurso" etc.) em que o acento noteoria materialista do discurso, partindo de um duplo ponto primado linguistico da comunicacao faz reativar certasde vista: preocupacoes da retorica e da poetica. Essa tendencia de- semboca numa lingiiistica do estilo como desvio, trans-• a semantica nao e, como se tern considerado, uma "parte gressao etc. e numa linguistica do dialogo como jogo de da lingiiistica" da mesma forma que a fonologia, a mor- afrontamento (R. Jakobson, Benveniste, Ducrot, Barthes, fologia e a sintaxe. Ela "constitui, na realidade, para a lin- Greimas, Kristeva). 38 39
  22. 22. Essas tres rendencias estao ligadas por relates contra- filos6ficas, fazem parte de uma zona de articula9ao da lin-dito~rias quer se opondo, quer se combinando, quer se subor- gufstica com a teoria historica dos processes ideologicos edinando uma a outra. Por exemplo, a tendencia historica liga- cientfficos:se estranhamente a formalista-logicista por diferentes formasintermediarias (o funcionalismo, o distribucionalismo etc.); o sistema da lingua 6 o mesmo para o materialista e para oa lingufstica da enunciacao mantem tambem uma relacao idealista, para o revolucionario e para o reacionario, paracontraditoria com o formalismo-logicista, principalmente o que dispoe de um conhecimento dado e para o que naocom a fllosofia analftica da escola de Oxford (Austin, Searle, dispoe. Isso nao resulta que eles terao o mesmo discurso: aStrawson etc.), ao abordar os problemas da pressuposicao. lingua aparece como a base comum de processes discursivos Uma contradiclo comum que opoe a primeira ten- diferenciados {p. 81).dencia as duas outras e aquela que liga a "langue" ao mes-mo tempo a "historia" (2a tendencia) e aos "sujeitos falantes" Pecheux coloca, dessa forma, duas nocoes fundamen-(3a tendencia) ou, em outros termos, "uma contradicao entre tals e opositivas:sistema lingufstico (a langue} e determlnacoes nao-sistemicasque, a margem do sistema se opoem a ele e mtervem sobre • a no^ao de base lingutstica que constitui precisamente oele" (p. 19). Essa contradi^ao que constitui justamente o obje- objeto da lingufstica e compreende todo o sistema lingiiis-to da "semantica" estaria no centre das pesquisas lingiiisticas tico enquanto conjunto de estruturas fonologicas, morfo-atuais. Pecheux nao se prop5e, em seu trabalho, a resolver essa logicas e sintaxicas. Dotado de uma relativa autonomia, ocontradifao, mas a contribuir para o aprofundamento da ana- sistema lingufstico e regido por leis internas;lise dessa contradicao atraves de uma posicao firmada no ma- • a nocao de processo discursivo-ideologico que se desenvolveterialismo hist6rico. sobre a base dessas leis internas; rejeita-se, assim, qualquer Essa intervencao da fllosofia materialista no domfnio hipotese de uma discursrvidade enquanto utiliza9ao "aci-da lingufstica, em vez de trazer solucoes, consistira antes de dental" dos sistemas lingufsticos ou enquanto "parole", istotudo em colocar uma se"rie de questoes sobre seus pr6prios e, uma maneira "concreta" de habitar a "abstra^ao" da "lan-"objetos" e sobre a relacao da propria lingufstica com um gue". O conceito de processo discursive 6 elaborado a partiroutro domfnio cientjfflco, o da ciencia das fbrma96es sociais. da nocao foucaultiana de sistema de formacao compreen- Mecanismos lingiifsticos como, por exemplo, a opo- dida como conjunto de regras discursivas que determinamsicao, mencionada por Pecheux (1975, p. 35), entre expli- a existencia dos objetos, conceitos, modalidades enuncia-cacao/determina^ao (propriedades morfologicas e sintaxicas tivas, estrategiasyV preocupa^ao de Pecheux € inscrever oligadas ao funcionamento das relativas), que constituem ao processo discursive em uma relacao ideologica de classes,mesmo tempo fenomenos lingufsticos e lugares de questoes pois reconhece, citando Balibar, que, se a Ifngua i indi- 40
  23. 23. ferente a divisao de classes socials e a sua luta (daf a relativa b) origina-se indiretamente da sociolingiiistica na medida em autonomia do sistema lingiiistico), estas (as classes socials) que esta admite variaveis sociol6gicas ("o estado social do nao o sao em relacao a lingua a qua! utilizam de acordo com emissor, o estado social do destinatario, as condicoes socials o campo de seus antagonismos> da situacao de comunicacao...") como responsaveis pelas CPs do discurso; Essa distincao fundamental leva a reconhecer que: c) tern uma origem implicita no texto de Harris, Discourse analysis (1952): nele nao figura o termo CP, mas o termo<Q a lingua constitui a condicao de possibilidade do "discurso", "situacao", colocado em correlacao com o de "discurso" ao pois e uma especie de invariante pressuposta por todas as referir-se ao fato de se dever considerar como fazendo parte condicoes de producao possfveis em um momento historico do discurso apenas as frases "que foram pronunciadas ou determinado; escritas umas em seguida das outras por uma ou varias pes-(£}os processes discursivos constituem a fonte da producao soas em uma so situacao" ou de estabelecer uma correlacao dos efeitos de sentido no discurso e a lingua e o lugar ma- entre as caracterfsticas individuals de um enunciado e "as terial em que se realizam os efeitos de sentido. particularidades de personalidade que provem da expe- riencia do individuo e m situates interpessoais condicionadas ^Segundo essa perspectiva, se processo discursive e pro- socialmente" (apud Courtine, 1981, p. 20). ducao de sentido, discurso passa a ser o espaco em que emer- gem as significacoes. E aqui, o lugar especrfico da constituicao Essa noc,ao de situacao se mostra insuficiente e ainda dos sentidos e a formacao discursiva, nocao que, juntamente bastante proxima da formulacao de CP elaborada pela analise com a de condicao de producao e formacao ideologica, vai de conteudo da psicologia social ou da sociolingiiistica. constituir uma trfade bisica nas formulacoes teoricas da ana- Na seqiiencia dessas concepcoes de origem, dois con- lise do discurso^, juntos de definicao da nocao de CP se sucederam: • um nomeado por Courtine (1981, p. 21) como "definicoes Condigoes de produgao do discurso empfricas" em que "as CPs do discurso tendem a se con- fundir com a defmicao empfrica de uma situacao de enun- Para Courtine (1981), as origens da nocao de condicoes ciacao"; de producao (que abreviaremos CP) sao de tres ordens: • outro que forma um conjunto de "definicoes teoricas" que a) origina-se em primeiro lugar da analise do conteudo tal aparecem na AD desde 1971 ao lado da nocao de "forma- como e praticada sobretudo na psicologia social; cao discursiva" (Haroche et al., 1971, p. 102). 43
  24. 24. Foi Pecheux (1969) quern tentou fazer a primeira de- E, por exemplo, essa postura que Courtine detecta nofinicao empirica geral da nocao de CP. Ele o fez inscrevendo trabalho em que Courdesses (1971) analisa as diferencas enun-a nocao no esquema "informacional" da comunicacao ela- ciativas que caracterizam os discursos de Blum e Thorez. Nele,borado por Jakobson (1963, p. 214); esquema que, apresen- as CPs sao formuladas de modo que assegurem a "passagemtando a vantagem de colocar em cena os protagonistas do continua da historia (a conjuntura e o estado das relacoes so-discurso e o seu "referente" permite compreender as condi- ciais) ao discurso (enquanto tipologias que nele se manifes-coes (Mst6ricas) da producao de um discurso|A contribuicao tarn) pela mediacao de uma caracterizacao psicossociologicade Pecheux esta no fato de ver nos protagonistas do discurso (as relacoes do individuo ao grupo) de uma situa^ao de enun-nao a presenc,a fisica de "organismos humanos individuals", ciacao" (p. 22). Sob esse enfoqueXa rela^ao entre lingua emas a representacao de "lugares determinados na estrutura de discurso, mediatizada pelo psicossociologico, apaga as deter-uma formacao social, lugares cujo feixe de traces objetivos mina9oes propriamente historicas, fazendo com que a carac-caracteristicos pode set descrito pela sociologia". Assim, no terizacao do processo da enunciacao em cada discurso naointerior de uma instituicao escolar ha "o lugar" do diretor, do seja relacionada ao efeito de uma conjuntura, mas as caracte-professor, do aluno, cada um marcado por propriedades di- rfsticas individuals de cada locutor ou ainda as relacoes in-ferenciais. No discurso, as relacoes entre esses lugares, obje- terindividuais que se manifestam no seio de um grupo. Nativamente definfveis, acham-se representadas por uma se"rie nocao de CP assim definida, o piano psicossociologico do-de "forma^oes imaginarias" que designam o lugar que des- mina o piano historico, nao havendo uma hierarquiza9ao teo-tinador e destinatirio atribuem a si mesmo e ao outro, a ima- rica dos pianos de referenciaT^gem que eles fazem de seu pr6prio lugar e do lugar do outro. ^~Court}&& propoe uma definicao de CP que nao sejaDessa forma, em todo processo discursive, o emissor pode atrafda por essa operacao psicologizante das determina9oesantecipar as representacoes do receptor e, de acordo com essa historicas do discurso, fazendo-as transformar-se em simples antevisao do "imagindrio" do outro, fundar estrategias de circunstancias. Circunstancias em que interagem os "sujeitosdiscurso7 do discurso", que passam a constituir a fonte de relacSes dis- ~~--J3 Segundo Courtine (1981), essa tentativa de defmicao cursivas das quais, na verdade, nao sao senao o portador ou da no9ao de CP, esbocada por Pecheux, nao rompe, entre- o efeito^ Postula uma redefmi^ao da nocao de CP alinhada a tanto, com as origens psicossociologicas ja assinaladas na fase analise historica das contradi^oes ideologicas presentes na anterior. Para ele, "os termos imagem ou formasao ima- materialidade dos discursos e articulada teoricamente com o ginaria poderiam perfeitamente ser substitmdos pela no9ao conceito de formacao discursivaj de papel tal como e utilizada nas teorias do papel herdadas da sociologia funcionalista de Parsons, ou ainda do interacio- nismo psicossociologico de Goffman" (p. 22).
  25. 25. Formagtio ideoldgica e formagao discursiva ocupar seu lugar em um dos grupos ou classes de urna deter- minada forma9ao soclalTiAs classes socials, assim constitufdas, ^L.discursQ,^ uma das instancias em que a materialidade mantem relacSes que sao reproduzidas continuamente e ga- W_ -°"ea — " " ""— • -*- - • _ideologica se concretizaj isto e, e um dos aspectos materials da rantidas materialmente pelo que Althusser denominou AIE."existencia^ irnaterial" Has ideologias. Ao analisarmos a articu- Realidades complexas, os AIE "colocam em jogo praticas asso-la^ao da ideologia com o discurso, dois conceitos ja tradicio- ciadas a lugares ou a relacao de lugares que remetem a relacaonais em AD devem ser colocados: o de forma^ao ideoldgica de classe". Num determinado momento historico e no interior(que abreviaremos FI) e o de formacao discursiva (FD). mesmo desses aparelhos, as relacoes de classe podem carac- Para Pecheux (1975), a regiao do materialismo historico terizar-se pelo afrontamento de posicoes pohticas e ideologicasque interessa a uma teoria do discurso e a da superestrutura que se organizam de forma a entreter entre si relacoes de alian-ideoldgica ligada ao modo de producao dominante na forma- 93, de antagonismos ou de dominacao. Essa organizacao de po-cao social considerada. Dessa forma, e uma materialidade es- sicoes pohticas e ideologicas e que constitui as forma^oes ideo-pecifica articulada sobre a materialidade economica que deve I6gicas que Haroche et al. (1971, p. 102) assim deflnem:caracterizar a ideologm Falar-se-d de formacao ideologica para caracterizar um ele- o funcionamento da instancia ideoldgica deve ser concebido mento (determinado aspecto da luta nos aparelhos) suscep- como "determinado em ultima instancia" pela instancia eco- tfvel de intervir como uma forca confrontada corn outras nomlca na medida em que ele aparece como uma das con- forcas na conjuntura ideologica caracteristica de uma for- dicoes (nao-economicas) da reproducao da base econ6mica, macao social em um momento dado;?cada formacao ideo- k~~ mais especificamente das redoes de produ^ao inerentes a logica constitui assim um conjunto complexo de atitudes e esta base economica. de representacoes que nao sao nem "individuals" nem "uni- versais" mas se relacionam mais ou menos diretamente a posi- -sn Essa concep^ao da instancia ideologica, que vai permitir coes de classe em conflito umas em relacao as outras. ^-4a Pecheux chegar a representa9ao do "exterior da lingua", 6caudataria do trabalho de Althusser sobre as ideologias. Constituindo o discurso um dos aspectos materials de j Na reproducao das relacoes de producao, uma das formas ideologia, pode-se afirmar que o discursive e uma especiepela qua! a instancia ideologica funciona e a da "interpelacao ou pertencente ao genero ideologico. Em outros termosfa for- H * ^.^ ,assujeitamento do sujeito como sujelto ideologico". Essa interpe- macao ideologica tem necessariamente como um de seuslacao ideologica conslste em fazer com que cada indivfduo (sem componentes uma ou varias formacoes discursivas inter-que ele tome consciencia disso, mas, ao contrario, tenha a im- ligadasL Jsso significa que os discursos sao governados por for-pressao de que € senhor de sua propria vontade) seja levado a ma^oes ideologicasT
  26. 26. as formacoes discursivas que, em uma formafao O pre-construfdo remete assim as evidencias atraves das quaisideol6gica especffica e levando em conta uma relacao de clas- o sujeito da. a conhecer os objetos de seu discurso: "o que cadase, determinam "o que pode e deve ser dito" a partir de uma um sabe" e simultaneamente "o que cada um pode ver" emposicao dada em uma conjuntura dadaj^ uma situacao dada. Isso equivale a dizer que se constitui, no Concebida por Foucault (1969) ao interrogar-se sobre seio de uma FD, um Sujeito Universal que garante "o queas condicoes historicas e discursivas nas quais se constituem cada um conhece, pode ver ou compreender"os sistemas de saber e, depois, elaborada por Pecheux, a nocaode FD representa na AD um lugar central da articulacao entre e que determina tambem "o que pode ser dito" (Courtine,lingua e discurso. 1981). Nesse sentido, o pre-construfdo corresponde ao Formalmenteffa nocap de FD envolve dois tipos de fun- "toujours deja-la" da interpelacao ideol6gica que nao so cionamentoT^ fornece mas imp5e a "realidade" ("o mundo das coisas") o seu "sentido" sob a forma da universalidade. Assim,£ pr^-a) a^parafrase^ma FD e constitufda por um sistema de pa- construido, entendido como "objeto ideologico, repre- rafrase, isto e, i um espa^o em que enunciados sao__reto- sentacao, realidade" e assimilado pelo enunciador no pro- mados e reformulados num esforco constante de fecha- cesso do seu assujeitamento ideologico quando se realiza a mento de suas fronteiras em busca da preservacao de sjaa sua identificacao, enquanto sujeito enunciador, com o Su- identidadB A essa rio^ao, Orlandi (1984) contrapoe uma jeito Universal da FD/J outra: a de polissemia, atribuindo a esses concehos oposi- tivos o papel de mecanismos basicos do funcionamento dis- O conceito de FD regula, dessa forma, a referencia a cursivo. Enquanto a parafrase e um mecanismo de "fecha- interpelacao/assujeitamento do individuo em sujeito de seu mento", de "delimitacao" das fronteiras, de uma formacao discurso. £ a FD que permite dar conta do fato de que sujeitos discursiva, a polissemia rompe essas fronteiras, "embara- falantes, situados numa determinada conjuntura historica, pos- Ihando" os limites entre diferentes formacoes discursivas, sam concordar ou nao sobre o sentido a dar as palavras, "falar instalando a pluralidade, a multiplicidade de sentidos;,. diferentemente fklando a mesma Ifngua". Isso leva a constatarb) p£re-construfdp: constitui, segundo Pecheux (1975), um que uma FD nao e "uma linica linguagem para todos" ou "para dos pontos fundamentals da articulacao da teoria dos dis- cada um sua linguagem", mas que numa FD o que se tern i cursos com a lingiifstica. Introduzido por Henry (1975), "va"rias linguagens em uma unica". Sao essas constatacoes que o termo designa aquilo que remete a uma cpnstrucao an- levam Courtine e Marandin (1981) a concluir que: terior e exterior, independente, por oposicap ao que e "cons- truido" pelo enunciado. E o elemento que irrompe na su- Uma FD 6, portanto, heterogeriea a ela propria: o fecha- perffcie discursiva como se estivesse jd-af. mento de uma FD 6 fundamentalmente instavel, ela nao
  27. 27. consiste em um limite tracado de forma definitiva, sepa- i fazer desaparecer e reaparecer as contradicoes: e mostrar o rando um exterior e um interior, mas se inscreve entre di- jogo que jogam entre si; i manifestar como pode exprimi-las, versas FDs como uma fronteira que se desloca em funcao dar-lhes corpo, ou emprestar-lhes uma fiigidia aparencia". E dos embates da luta ideologica. nesse sentido, ainda, que ele ve uma FD como um "espaco de dissencoes miiltiplas" em que atuam oposi^oes (a contradicao E em conseqiiencia dessa heterogeneidade propria a entre a unidade e a diversidade, entre a coerencia e a hete-toda FD que Courtine (1982) ainda a caracteriza como uma rogeneidade) cujos niveis e papels devem ser descritos nao comunidade dividida que tern como principle constitutive a con- o objetivo de niveld-las ou padfica-las em formas gerais de pen-tradic.ao, tomando como apoio a afirmacao de Foucault (1969, samento, mas de demarcar "o ponto em que elas se constituentp. 186): de definir a forma que assumem, as relacoes que tern entre si e o domfnio que elas comandam" (p. 192). Analisar o discurso Tal contradic.ao, longe de ser aparencia ou acidente do dis- e descrever os "sistemas de dispersao" dos enunciados que o curso, longe de ser aquilo de que e preciso liberta-lo para compoem atraves das suas "regras de forma^ao". Se eles apre- que ele libere enfim sua verdade aberta, constitui a pr6pria sentam um sistema de dispersao semelhante, podendo definir lei de sua existencia: e a partir dela que ele emerge, & ao uma regularidade nas suas "formas de reparticao", pode-se dizer mesmo tempo para traduzi-la e para supera-la que ele se poe que eles pertencem a uma mesma FD. a faiar [...], e porque ela esta sempre aque"m dele e ele jamais Aproximando as duas abordagens de FD feitas por Fou- pode contorna-la inteiramente, que ele muda, que ele se cault e Pecheux, Courtine ve o conceito de FD ligar contradi- metamorfoseia, que ele escapa por si mesmo a sua propria toriamente dois modos de existencia do discurso como objeto continuidade. A contradi^ao funciona, entao, no fio do dis- de analise: curso, como o principle de sua historicidade. o nfvel do enunciado: diz respeito ao sistema de formac^o Dessa rbrmaembora uma FD determine a seus falan- dos enunciados que englobaria "um feixe complexo de re- ^c*l« --tes "o que deve e pode ser dito" buscando uma homogenei- la^oes" funcionando como regra. Enquanto regra, esse sis-dade discursiva, os efeitos das contradicoes ideol6gicas de tema determinaria "o que pode e deve ser dito" por um su-classe sao recuperaveis no interior mesmo da "unidade" dos jeito falante situado num dado lugar, numa dada conjun-conjuntos de j- j discurso A -^ tura, no interior de uma FD, sob a dependencia do fCabe a AD trabalhar seu objeto (o discurso) inscreven- interdiscurso desta ultima. Esse nivel e o lugar da cons-do-o na relacao da lingua com a hist6ria, buscando na mate- titui^ao da "matriz do sentido" de uma FD determinadarialidade linguistica as marcas das contradjcpjss ideological^ no piano dos processes historicos de forma^ao, reprodu-Repetindo ainda Foucault (1986, p. 187), "analisar o discurso ^ao e transformac.ao dos enunciados. Esse nivel se situa no 51

×