Bem estar em peixes

2,888 views

Published on

No Brasil, assim como no mundo, a preocupação com o bem-estar dos peixes durante os processos produtivos encontra-se em seus passos iniciais, sendo praticamente desconhecido
para consumidores, produtores e legislação vigente. Entretanto, será que o bem-estar de peixes tem menos importância que o bem-estar
de aves e bovinos?

0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total views
2,888
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
8
Actions
Shares
0
Downloads
124
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Bem estar em peixes

  1. 1. SENCIÊNCIA E BEM-ESTAR DE PEIXES:UMA VISÃO DE FUTURO DO MERCADO CONSUMIDORPor:Ana Silvia Pedrazzani1, e-mail: anasilviap@yahoo.com.brCarla Forte Maiolino Molento1, e-mail: carlamolento@yahoo.com.brPaulo César Falanghe Carneiro2, e-mail: peixecarneiro@gmail.com apontar pontos críticos? Sim, mas não devemos nos enganarMarisa Fernandes-de-Castilho3, e-mail: marisacastilho@gmail.com com a aparente limitação que este enfoque poderia trazer. In-1 LABEA-UFPR – Laboratório de Bem-estar Animal, Universidade Federal do Paraná troduzir conceitos de bem-estar animal é uma oportunidade de2 Embrapa Tabuleiros Costeiros, Aracaju – SE ouro para aquelas indústrias que visam ampliar seu destaque3 Research Center on Animal Welfare - RECAW, Depto. de Fisiologia, Universidade Federal doParaná no mercado de produtos de origem animal e se antecipar às novas demandas de mercado e exigências dos consumidores do futuro. Oportunidades de ampliar mercado são sempre bem-vindas, mas uma breve reflexão pode trazer ao assunto No Brasil, assim como no mundo, a pre- uma dimensão bastante elevada: preservar do sofrimento um ocupação com o bem-estar dos peixes durante animal que esteja sob nossa responsabilidade, exercendo a os processos produtivos encontra-se em seus sensibilidade e a compaixão em nossa rotina, é uma atitude passos iniciais, sendo praticamente desconhe- relacionada à própria essência ética de nossas ações. cido para consumidores, produtores e legislação O que é a senciência? vigente. Entretanto, será que o bem-estar de peixes tem menos importância que o bem-estar Podemos dizer que a senciência é a capacidade de ter de aves e bovinos? consciência de sensações, portanto, ter sentimentos subjetivos, Se você considera importante conhecer sendo assim um pré-requisito para a discussão de bem-estar. um pouco mais sobre o bem-estar de peixes, Em geral, para trabalharmos com o bem-estar de peixes, em então vamos lá! primeiro lugar devemos entender como os peixes sentem dor, fome, conforto, desconforto, e como diferenciam “bom de ruim”, “prazeroso de desagradável”. Embora existam controvérsias sobre a interpretação das A seguir discutiremos alguns aspectos anatômicos e fisio-características sugestivas de consciência em peixes, tais contro- lógicos relacionados à presença de consciência e à percepção davérsias também existem em outras espécies. A razão disto é a dor dos peixes teleósteos, condições estas que fazem com queinexistência de uma demonstração concreta do que um animal os peixes sejam considerados seres sencientes pela maioria dossente. No entanto a maior parte das evidências sugere a senciên- pesquisadores atuais.cia em peixes. Assim, do ponto de vista lógico e ético devemosconsiderar todos os animais vertebrados como sencientes. O Os peixes são animais conscientes?comportamento do consumidor é dinâmico ao longo do tempoe podemos prever que, da mesma forma que acontece com os De um modo simples, a consciência é o que o animaloutros animais, o consumidor começará a fazer considerações percebe num dado momento a respeito de sua situação imedia-sobre o bem-estar dos peixes. ta, prestando atenção às imagens ou representações de objetos O que sabemos sobre a anatomia, a fisiologia, o com- e eventos. Estas representações podem ser situações com asportamento, a evolução e a ação de drogas nos peixes sugere quais o animal se defronta no presente, lembranças ou anteci-que estes animais são capazes de sentir dor e medo de maneira pações de situações futuras. Será que os peixes possuem essassimilar aos demais vertebrados. Desta forma, um contato com capacidades? Sim, diversos trabalhos revelam comportamentoso conhecimento atual sobre dor e consciência nos peixes, como indicadores de memória e também de capacidade de aprendi-descreveremos a seguir, conduz a uma conclusão interessante: zagem complexas.os peixes são seres sencientes, ou seja, têm capacidade de Como exemplos, podemos citar a comunicação dos pei-sentir. Bem, a partir desta conclusão, podemos iniciar uma re- xes durante disputas. Em confrontos entre tilápias, um peixeflexão sobre os pontos da cadeia produtiva da piscicultura que pode repentinamente mudar a cor do seu corpo, o que indicaconcentram situações de possível sofrimento para os peixes. A sua submissão a um oponente. O escurecimento da cor do corpoliteratura internacional aponta como principais pontos críticos causa a redução da agressividade do oponente sobre o peixede bem-estar de peixes a densidade de lotação, o transporte escurecido, evitando o prolongamento da luta. Portanto, o escu-e as técnicas de abate utilizadas. Então falar em bem-estar é recimento do corpo ocorre pelo reconhecimento de indivíduos 24 Panorama da AQÜICULTURA, julho/agosto, 2007
  2. 2. dominantes para evitar as disputas. Estes comportamentos podem No entanto, durante o abate são comuns práticasser indicativos de que os peixes conservam memórias e sugerem como a retirada da escama e do filé do peixe sem haverque os peixes possuem consciência. Então, se os peixes são seres a preocupação de realizar uma insensibilização ade- Senciênciaconscientes, eles podem também sentir emoções como medo? A quada para diminuir sua dor (Figura 2). Estas práticasresposta é sim! Os sinais que indicam que os peixes estão com são incompatíveis com o reconhecimento de que osmedo em um dado momento são: o aumento da taxa respiratória, a peixes sentem dor.produção de feromônios de alarme e as reações comportamentaiscomo a fuga rápida e a imobilização. Se o ambiente não permite afuga, verificam-se alterações significativas do comportamento dospeixes, tais como mudanças no ritmo e padrão natatório, redução oualteração do comportamento anti-predatório, mudança do comporta-mento alimentar e procura de abrigo. Você já observou alguns destessinais nos peixes de sua piscicultura? Provavelmente sim. .Os peixes sentem dor? A questão da dor tem um enorme significado para o bem-estaranimal, sendo uma causa importante de baixo grau de bem-estar. Osistema relacionado à consciência da dor inclui uma análise cerebralcomplexa. Resumindo, as estruturas do cérebro que transmitem a dor Figura 2- Peixes sendo filetados ainda vivos, conscientes e sensíveis à dorem outros vertebrados também são encontradas em peixes. Surpreso?Além disso, nas situações de risco, os peixes sentem-se estressados,reforçando a evidência de que os peixes podem sentir e reagir cons-cientemente a diferentes estímulos de maneira similar aos mamíferos, O que as pessoas pensam sobre tudo isso?sob o ponto de vista da fisiologia e da psicologia (Figura 1). Para respondermos esta pergunta, nos anos de 2006 e 2007 foram feitas entrevistas pela equipe do LaboratórioFigura 1- Semelhanças entre os peixes e o ser humano de Bem-estar Animal da Universidade Federal do Paraná - LABEA/UFPR, no Município de Araucária, Paraná, com Peixe Ser humano intuito de saber a opinião pública sobre a senciência dos peixes. Das 357 pessoas entrevistadas, 87% delas acredi- 2 1 tavam que os peixes sentem dor (Figura 3). Entretanto, é 1 interessante observar como as pessoas em geral separam os 1 - Córtex 5 3 peixes dos outros animais com relação a esse assunto. Não 3 2 - Cerebelo 5 4 3 - Tronco cerebral se vê nenhum programa de TV que exalte a caça de animais 4 - Medula 2 terrestres e mostrem animais como coelhos ou codornas 4 sendo perseguidos e abatidos. Por outro lado, existem vários 5 - Hipotálamo programas que mostram peixes se debatendo com um anzol na boca e que não causam nenhuma sensação de mal-estar à maioria dos telespectadores. Cérebro Figura 3- Respostas de 357 entrevistados à pergunta “você acha que os peixes sentem dor?”, município de Araucária, 2007 Vértebras Nervos Panorama da AQÜICULTURA, julho/agosto, 2007 25
  3. 3. O reconhecimento da senciência dos peixes pela estresse físico e psicológico agudos. Podemos minimizar esse população pode ser uma vantagem para o mercado. Como? impacto negativo, associando alimento à captura e ao transporte. Pela valorização dos produtos provenientes de sistemas que Pesquisadores da Universidade de Oregon, Estados Unidos, con-Senciência evitem sofrimento, ou seja, sistemas de alto grau de bem-estar, dicionaram juvenis de salmão-real (Oncorhynchus tshawytscha) podendo inclusive gerar um preço diferenciado para venda para melhorar a resposta ao estresse durante e após o transporte. O desses produtos. nível de água foi baixado duas vezes por dia durante 10 minutos. Ao final de cada período o nível da água foi elevado e os peixes Bem-estar de peixes e a piscicultura foram alimentados. Os peixes foram amostrados um dia antes do transporte (0 horas), ao final do transporte (2 horas) e em 4, 12, 26 Assim como a maior parte dos processos zootécnicos, a e 122 horas após o início do transporte. Os peixes condicionados piscicultura emprega sistemas que visam produzir o máximo ao demonstraram um nível inferior de cortisol, de glicose plasmática e menor custo. Porém, é cada vez mais reconhecido que a alta produti- de lactato muscular (substâncias indicadoras de estresse) do que os vidade deve estar relacionada com cuidados apropriados aos peixes. peixes não condicionados. Todos os peixes condicionados sobrevi- A saúde e o bem-estar desses animais ocupam uma importância cres- veram ao transporte, e os peixes não condicionados apresentaram cente nas técnicas de produção adotadas. A alimentação, o manejo, a taxa de mortalidade de até 46%. Ainda, os peixes condicionados qualidade da água, densidade de lotação, o transporte e o abate são os não foram afetados por outros fatores de estresse durante o trans- principais pontos críticos da produção de peixes, podendo interferir porte, como baixo nível de oxigênio na água e obtiveram maior no seu grau de bem-estar. Falaremos brevemente sobre cada um resistência à infecção por Aeromonas salmonicida. Portanto, o desses aspectos apenas para ilustrar algumas possíveis iniciativas condicionamento indica que essa associação pode levar a um desvio para melhorar o bem estar dos peixes numa piscicultura. de atenção dos peixes de uma atividade para outra que seja mais prazerosa. Porém, para um transporte adequado, a alimentação Manejo deve ser interrompida com a devida antecedência para evitar que a qualidade da água de transporte seja influenciada negativamente. Certos procedimentos que implicam manipulação física, Nestes cenários, devemos buscar estratégias que atendam ambas como a captura para controle de doenças ou a classificação dos as demandas, como por exemplo, promover o condicionamento animais por tamanho e a despesca, são atividades causadoras de em período anterior àquele do jejum. 26 Panorama da AQÜICULTURA, julho/agosto, 2007
  4. 4. Alimentação qualidade da água, o bem-estar dos peixes é prejudicado de forma ainda mais intensa. Além de influenciar negati- Uma dieta nutricionalmente equilibrada e ajustável às vamente a qualidade da água, a alta estocagem de peixes Senciêncianecessidades específicas dos peixes é fundamental para manter o promove o comportamento anormal dos peixes, como ofuncionamento orgânico normal e a resistência à doenças. Embora aumento da agressividade, favorecendo o aparecimentoos períodos de privação alimentar possam não ter tanto impacto no de ferimentos, doenças e deformidades, ainda, nestasequilíbrio dos peixes, a consideração da sua “vontade” de se alimentar condições aumentam as infestações parasitárias, gerandoé essencial na preservação do bem-estar. As conseqüências de priva- altas taxas de mortalidade.ção alimentar prolongada, como é o caso do período de depuração, A densidade ideal dos grupos depende das carac-incluem a erosão da nadadeira dorsal devido ao canibalismo, e a terísticas comportamentais dos animais, em particular,perda de peso e de condição física em várias espécies. Quando, além a tendência para formar cardumes ou a territorialidade.do jejum, os peixes ainda se encontram alojados em tanques com Para algumas espécies existe uma determinada densidadebaixa qualidade da água e alta densidade de alojamento, os fatores considerada ótima, pois densidades mais baixas promovemse somam, deixando os peixes em condições ainda piores. agressividade entre machos e densidades mais elevadas têm efeitos negativos para a reprodução. Outras conseqüênciasQualidade da água de alta densidade por período prolongado incluem a redu- ção das taxas de conversão e crescimento, a redução da A qualidade da água e os fatores ambientais associados condição física e a erosão das nadadeiras dorsais.constituem uma das áreas de maior atenção por parte da inves- Mas então, qual a densidade ideal? Como a Europatigação sobre o estresse em peixes, tanto pela indústria quanto possui piscicultura mais intensificada que o Brasil, na qual aspelos grupos de pesquisa em bem-estar. As concentrações de densidades de lotação são extremamente elevadas, existemoxigênio, de dióxido de carbono e de nitrogênio dissolvidos na recomendações da Compassion in World Farming (CIWF) paraágua, a salinidade e o pH, a taxa de circulação da água, a tem- a introdução na legislação européia de densidades máximas deperatura e os regimes de luminosidade são os fatores ambientais estocagem, de 20 kg/m3 para trutas e de 10 kg/m3 para o salmão.mais críticos à manutenção do equilíbrio orgânico (ou homeos- No Brasil, já há alguma indicação da tendência dos rumos do se-tasia) dos peixes. Para obtenção de valores ótimos é necessário tor produtivo, que deverá seguir os passos dos países europeus.levar em consideração as características naturais dos animais, Porém, especificamente para peixes de produção ainda nãoassim como a interação com peixes da mesma espécie, o espaço existe legislação que determine máximas de estocagem, o quedisponível e o ambiente social como um todo. nos leva a refletir sobre a necessidade de discussão mais ampla A freqüente utilização pela atividade de produção de sobre o tema, envolvendo a participação de representantes desubstâncias químicas na água, como desinfetantes e medica- todos os setores ligados à cadeia produtiva.mentos (incluindo as vacinas) também é um aspecto que carecede controle na proteção dos peixes. Os peixes infestados por Transporteparasitas geralmente recebem banhos terapêuticos com organo-fosforados, piretróides e desinfetantes. Estes tratamentos causam E o transporte, por que seria prejudicial ao bem-estarestresse aos peixes, podendo fazer com que os peixes não se ali- dos peixes? Os fatores críticos a se considerar em relação aomentem por vários dias (LYMBERY, 2002). CARNEIRO et al. transporte são a captura, a espera pelo transporte, a embalagem(2006) realizaram um estudo com alevinos de jundiá infectados dos peixes e o controle dos fatores ambientais da água durante opor Ictio (Ichthyophtirius multifiliis) e submetidos a tratamen- transporte, já que os animais são transportados em tanques sobtos convencionais. O tratamento com formalina causou morte elevada densidade de lotação. O estresse fisiológico provocadocontínua dos alevinos de jundiá nas primeiras 48 horas. Além pelo manuseio, pelo acúmulo de dióxido de carbono e amôniadisso, após o primeiro banho com formalina comercial, as brân- na água, e o transporte propriamente dito dos peixes permanecequias de todos os peixes desse tratamento apresentaram lesões por seis horas a um dia, mas pode persistir até duas semanascaracterísticas de ambiente aquático impróprio e de toxicidade. se a exposição aos agentes de estresse se mantiver ou então seO cloreto de sódio apresentou efeito tardio e menos efetivo que os peixes já estiverem debilitados antes mesmo do transporteo verde malaquita na redução do número de parasitas, porém (SCHRECK et al., 1997). INOUE et al. (2005) avaliaram oprovocou menores taxas de mortalidade. Podemos concluir estresse de transporte do matrinxã (Brycon cephalus) em sacosque os tratamentos terapêuticos empregados causam reações plásticos e os efeitos do uso do anestésico óleo de cravo nessaadversas em graus variados de severidade, principalmente no etapa do manejo. Foram testadas as concentrações de 0, 1, 5 etecido branquial, comprometendo o bem-estar dos peixes. 10 mg/L de óleo de cravo em bolsas plásticas preenchidas com água e oxigênio, de acordo com as práticas comumenteDensidade de lotação utilizadas no Brasil. O óleo de cravo reduziu algumas das principais respostas ao estresse avaliadas (cortisol, glicose A densidade de lotação nos sistemas de criação de peixes plasmática e íons), sugerindo que o óleo de cravo em con-é um dos fatores mais críticos em aqüicultura e no bem-estar centração de 5 mg/L pode atenuar as principais respostasdos animais. Quando a alta estocagem é associada com a baixa de estresse do matrinxã durante o transporte. Panorama da AQÜICULTURA, julho/agosto, 2007 27
  5. 5. As recomendações sugeridas pela Autoridade de controle da qualidade do produto final. Adicionalmente, são objeti- Segurança Alimentar Européia no transporte de peixes in- vos importantes a minimização do tempo necessário para produzir a cluem (1) dispor oxigênio suficiente, (2) evitar exposição dos morte e a possível redução de emoções como o medo e a dor duranteSenciência peixes ao ar durante o carregamento, (3) ajustar a privação o processo. Alguns exemplos de métodos de abate praticados incluem de alimento antes do transporte de acordo com a espécie, o o atordoamento elétrico (choque), o golpe letal na cabeça, o choque tamanho e a temperatura, (4) evitar ao máximo o contato da térmico com uso de gelo para insensibilização pré-abate, a secção estrutura e dos equipamentos do veículo de transporte com da medula seguida de sangria das brânquias, ou simplesmente a os animais e (5) monitorar a qualidade da água e as condi- remoção da água (morte por asfixia). ções dos peixes. No Brasil felizmente já é possível encontrar O choque elétrico, o golpe letal aplicado na cabeça e a boa quantidade de informações sobre maneiras de reduzir o secção de medula parecem ser em geral os métodos causadores estresse durante o transporte de várias espécies de interesse de menos sofrimento por promoverem uma insensibilização mais comercial. Por exemplo, de acordo com os resultados encon- rápida dos peixes. Através de estudos feitos por pesquisadores trados por GOMES et al. (2003) para o transporte de juvenis da Universidade Federal do Paraná, foi concluído que o método de tambaqui (Colossoma macropomun), podemos utilizar 8 g de secção de medula causou a inconsciência de tilápias do Nilo de sal/L de água, em uma densidade máxima de 150 kg/m3. (Oreochromis niloticus) após uma mediana de 82 segundos, en- Nesta densidade os parâmetros físico-químicos de qualidade quanto que o choque térmico demorou 750 segundos para que da água se mantêm com características adequadas, as res- isso ocorresse. Adicionalmente, a mediana para perda da sensi- postas ao estresse são mínimas e não há mortalidade. Deste bilidade à dor foi de zero e 750 segundos para as duas formas de modo, obtemos um maior grau de bem-estar e diminuição insensibilização estudadas, respectivamente. de perdas econômicas para o produtor. A morte por asfixia e o choque térmico não são considerados aceitáveis por ROBB et al. (2000) e CONTE (2004) sob a perspectiva Abate do bem-estar de peixes, pois causam sofrimento intenso e prolongado. Existe viabilidade técnica e econômica para a substituição desses Abate de peixes? Mas há necessidade de uma técnica para métodos no cenário brasileiro, de forma a tornar o abate de peixes isso? Sim, as técnicas de abate de peixes vêm sendo estudadas, humanitário de acordo com padrões internacionais. Uma alternativa com vários objetivos. Dentre eles, podemos citar a busca de viável seria a substituição do choque térmico pelo choque elétrico. melhorias da eficiência e da segurança dos procedimentos, do Com isso, o produtor estaria economizando através da diminuição do 28 Panorama da AQÜICULTURA, julho/agosto, 2007
  6. 6. uso da quantidade excessiva de gelo requerida pelo primeiro método Mas agora você deve estar se perguntando se é possívelde insensibilização. No entanto, a construção de protótipos específi- realizar o abate humanitário e como fazê-lo. Aí vai uma dica: nocos para o atordoamento elétrico encontra-se em fase de desenvol- ano de 2006, o LABEA ensinou a técnica de abate por secção da Senciênciavimento no Brasil, e se faz necessária para que não sejam aplicadas medula e sangria para as abatedoras da 4ª Festa do Peixe Vivocorrentes elétricas inadequadas nos peixes, causando hemorragias e de Araucária (Figura 4). E o que elas acharam? Das 18 mulhe-fraturas espinhais, inviabilizando assim o uso da carcaça. res trabalhando na barraca de limpeza dos peixes na festa, 16 limpadoras (83%) utilizaram a técnica, 12 delas (75%) acharamA sociedade dá importância para isso? que o método facilitou o trabalho de limpeza pelo fato dos pei- xes permanecerem imóveis após o corte na medula e 14 (87%) A resposta é sim. De acordo com as entrevistas realizadas continuaram utilizando o método de abate no ano seguinte.pelo LABEA - UFPR, 87% das pessoas acreditam que algunsmétodos de abate causam sofrimento aos peixes, apesar de 48%afirmarem já ter comprado peixes vivos e tê-los transportado atéo local de consumo em sacolas plásticas, fazendo com que elesmorressem por asfixia. Dos entrevistados, 48% pensam que o sofri-mento afeta a qualidade da carne. E eles estão certos! Segundo POLIet al. (2005), as reações químicas provindas da dor e do estresseno momento do abate fazem com que os peixes entrem em estadode rigor-mortis muito rapidamente. O sofrimento provoca ainda,uma redução das reservas de glicogênio da musculatura dos peixese, conseqüentemente, menor acúmulo de ácido lático. Isso faz comque o pH da carne fique próximo da neutralidade, acelerando a ação Figura 4- Secção de medula (lado esquerdo) edas enzimas musculares (auto-hidrólise), ou o desenvolvimento de sangria por corte das brânquias (lado direito)bactérias, tendo como conseqüência a degradação mais rápida dopescado. Ou seja, o método de abate interfere na qualidade finaldo produto, sendo que quanto maior o sofrimento, menor será o Os resultados deste trabalho demonstram a necessidade detempo de prateleira do pescado. Isso foi encontrado por ROTH investir em conscientização da população em relação à senciência eet al. (2002), que demonstraram uma relação positiva entre uma ao abate humanitário de peixes, incluindo consumidores, trabalha-textura firme do filé de salmão com o golpe letal na cabeça e com o dores da área e a população em geral. Ademais, o trabalho realizadobaixo estresse pré-abate. Ainda, quando MAFF (1989) comparou o com as limpadoras desenvolveu uma nova abordagem sobre o abategolpe letal na cabeça com a morte por asfixia, encontrou diferenças de peixes no contexto da Festa do Peixe Vivo de Araucária.significativas no frescor da carne após quatro dias de estocagem.Em resumo, o golpe letal proporciona morte mais rápida, causa Considerações finaismenos sofrimento e leva a uma melhor qualidade de carne. Valelembrar que, para isso acontecer, deve ser empregada a técnica Podemos afirmar que os peixes teleósteos são animais sen-adequadamente. cientes, ou seja, têm a capacidade de sofrer. O bem-estar animal é As pessoas entrevistadas pelo LABEA mostraram um um assunto cada vez mais discutido na sociedade brasileira, comgrande interesse pelo assunto, mostrando que a preocupação um aumento no número de publicações científicas e de informaçõescom método de abate pelo frigorífico resultaria em um dife- para o público. Uma sociedade mais informada, em geral, demandarencial para o mercado consumidor. Assim, torna-se importante mudanças nas práticas pecuárias, incentivando o desenvolvimentoressaltar que esta situação atual representa uma linha de base de técnicas humanitárias de produção e respeitando os animais assimde preocupação que tende somente a crescer. produzidos, a exemplo do que já se viu nos países da Comunidade Européia. Os cenários de produção intensiva de carne suína e ovos,Abate humanitário, o que é? por exemplo, estão sob regulamentação oficial na Comunidade Eu- ropéia, num processo de proibição absoluta de gaiolas individuais Um limitante do bem-estar de peixes no Brasil é a falta de para porcas e gaiolas em bateria para poedeiras, por questões deinformação sobre abate humanitário de peixes. Podemos pensar bem-estar dos animais envolvidos. Ao incluir questões de bem-estarem abate humanitário como uma forma de evitar sofrimento e animal na piscicultura, pode-se elevar a cadeia produtiva de peixesdor desnecessários no momento do abate. Das entrevistas feitas a uma posição de destaque no cenário nacional e internacional.no município de Araucária, 91% das pessoas disseram que nunca Adicionalmente, a antecipação de situações futuras permitirá umahaviam sido informadas a respeito do assunto. Até mesmo a Ins- participação no processo de elaboração de regulamentações e leis,trução Normativa nº 3, de 17 de janeiro de 2000, do Ministério as quais afetarão diretamente a cadeia produtiva. Desta forma,da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA, que aprova o poderemos valorizar ainda mais o desenvolvimento dessa cadeiaregulamento técnico de métodos de insensibilização para o abate produtiva em nosso País.humanitário de animais de açougue, inclui somente mamíferos, avesdomésticas e animais silvestres criados em cativeiro, não fazendo As referências bibliográficas utilizadas na elaboração deste artigo podemnenhuma menção aos peixes. ser solicitadas aos autores por e-mail. Panorama da AQÜICULTURA, julho/agosto, 2007 29

×