Successfully reported this slideshow.
We use your LinkedIn profile and activity data to personalize ads and to show you more relevant ads. You can change your ad preferences anytime.

Cenários da crise política no brasil

2,495 views

Published on

O cenário econômico do Brasil a partir de 2015 é catastrófico porque o País se defrontará com o problema da estagflação que se traduz no crescimento econômico negativo, na retração do mercado consumidor, na queda na renda da população e na escalada da inflação e do desemprego. Estagflação é um termo usado em Economia que indica, em síntese, uma situação em que pode ocorrer redução do crescimento econômico e simultaneamente aumento no nível geral de preços. Quando o país atinge o estado de estagflação, se estabelece também o caos social.
A desaceleração econômica associada ao aumento generalizado de preços é catastrófica para a grande maioria da população brasileira porque, além incrementar o desemprego, reduzirá seu poder de compra. Estaria sendo formado, desta forma, o caldo de cultura para o incremento das tensões sociais no Brasil. O cenário econômico catastrófico tende a levar o Brasil ao caos social e, em consequência, a três cenários alternativos de evolução da crise descritos neste artigo.

Published in: News & Politics
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

Cenários da crise política no brasil

  1. 1. 1 CENÁRIOS DA CRISE POLÍTICA NO BRASIL Fernando Alcoforado* O cenário econômico do Brasil a partir de 2015 é catastrófico porque o País se defrontará com o problema da estagflação que se traduz no crescimento econômico negativo, na retração do mercado consumidor, na queda na renda da população e na escalada da inflação e do desemprego. Estagflação é um termo usado em Economia que indica, em síntese, uma situação em que pode ocorrer redução do crescimento econômico e simultaneamente aumento no nível geral de preços. Quando o país atinge o estado de estagflação, se estabelece também o caos social. Com o ajuste fiscal em curso, a desaceleração da economia brasileira será agravada com a desaceleração da economia mundial cujo efeito internamente será de mais contração econômica. O Brasil está preso em uma armadilha da estagflação caracterizada por baixo crescimento econômico e inflação elevada. Tudo indica que o crescimento do PIB do Brasil será negativo em 2015 e 2016 e a inflação continuará acima de 6% ao ano. O ambiente externo é de estagnação econômica na Europa e no Japão, desaceleração econômica na China e pífio crescimento econômico nos Estados Unidos que comprometerão o desempenho das receitas de exportação do Brasil. Para enfrentar a crise, o governo brasileiro deveria apresentar um programa econômico consistente, que tenha credibilidade e provoque uma reversão na onda de expectativas pessimistas que tem afetado consumidores e empresários de forma generalizada. A crise que levou à desindustrialização do Brasil há muitos anos, deverá se estender também ao agronegócio e aos serviços devido às restrições impostas pela crise hídrica e de energia e a insuficiência na logística de transporte no Brasil. A desaceleração econômica associada ao aumento generalizado de preços é catastrófica para a grande maioria da população brasileira porque, além incrementar o desemprego, reduzirá seu poder de compra. Estaria sendo formado, desta forma, o caldo de cultura para o incremento das tensões sociais no Brasil. O cenário econômico catastrófico tende a levar o Brasil ao caos social e, em consequência, a três cenários alternativos de evolução da crise descritos a seguir: Cenário 1- Apesar do agravamento das tensões sociais devido ao aprofundamento da crise econômica e da impopularidade do governo Dilma Rousseff perante a Sociedade Civil, ela consegue se manter a duras penas no poder contando com o apoio da maioria do Congresso Nacional. O governo petista continuará moribundo no poder o que faz com que Dilma Rousseff fique cada vez mais sem condições para continuar à frente dos destinos da nação. Milhões de brasileiros não veem no governo atual condições para vencer a crise. Esta situação alimentará o movimento de massas pelo impeachment ou pela deposição de Dilma Rousseff através de intervenção militar como solução para a crise atual. Com o evoluir do tempo, este cenário tende a se inviabilizar evoluindo para a emergência do Cenário 2. Cenário 2- As tensões sociais se elevam devido ao aprofundamento da crise econômica crescendo de forma irresistível ao ponto de tornar inevitável o impeachment de Dilma Rousseff que acontece graças à pressão da Sociedade Civil e à perda de sua maioria junto ao Congresso Nacional. Com o impeachment de Dilma Rousseff o vice-presidente Michel Temer assumiria o poder. Como Michel Temer não tem estatura política suficiente e não possui liderança e competência gerencial para fazer frente à crise
  2. 2. 2 econômica e política, os movimentos de massa em defesa dos interesses da população continuarão crescentes. Com a evolução da crise econômica e diante da impotência do governo federal na solução dos problemas nacionais e no atendimento das demandas sociais poderá emergir o Cenário 3. Cenário 3- Diante da incapacidade do governo federal de manter a ordem política e social, haveria a deposição ou renúncia de Michel Temer com a intervenção das Forças Armadas para fazer frente ao caos político, econômico e social do País. Além da profunda crise econômica que leva a economia do Brasil à estagflação e da incapacidade política e gerencial do governo federal para gerir os destinos da nação, o estado de permanente violência no ambiente social e a corrupção generalizada que domina o País colocam na ordem do dia a necessidade da celebração de um novo contrato social no Brasil. Thoreau, grande teórico da desobediência civil, coloca desta forma o problema: se o Estado se torna indigno e corrupto, é tarefa moral do indivíduo não dar mais suporte a este (Ver THOREAU, Henry David. A desobediência civil. Porto Alegre: L&PM, 1997). Esta seria a justificativa para o fim do governo Dilma Rousseff. A crise política que afeta o Brasil no momento demonstra o fracasso do contrato social celebrado em 1988 com a nova Constituição que passou a vigorar depois do regime militar. A crise da democracia representativa no Brasil faz com que não funcione o contrato social representado pela Constituição de 1988 e abra caminho para a tentação autoritária que faz parte da história do Brasil. Sérgio Buarque de Holanda, um dos grandes pensadores brasileiros, afirma em seu livro Raízes do Brasil que a principal característica do povo brasileiro que, segundo ele, herdamos dos povos ibéricos é a cultura da personalidade individual (Ver HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1999). Para os povos ibéricos, segundo Buarque de Holanda, o único valor verdadeiramente plausível ao homem é inferido onde este não precise dos demais, onde sozinho se baste e não necessite dos outros. Uma característica do povo ibérico, aliás, a mais importante, segundo Buarque de Holanda, de todas elas, que passou a fazer parte do arcabouço cultural brasileiro, revela- se na pouca capacidade de associação voluntária e na própria deficiência de se agir politicamente. Esta inaptidão política fundamental resulta, segundo Buarque de Holanda, das tendências fortemente direcionadas para a tentação autoritária na vida política brasileira. Fato este que explicaria, de certa forma, a tendência autoritária presente na história do Brasil e sua constante recaída em ditaduras. Buarque de Holanda afirma que o contrato social no Brasil possui tendência a ser predominantemente autoritária pela inaptidão do povo e da cultura em estabelecer espaços políticos onde se construa o que Arendt chamava de pensamento plural. Esta experiência, afirma ela, é o oposto ao que Buarque de Holanda apresenta como as características mais presentes nos povos ibéricos e que foram legados aos brasileiros (Ver ARENDT, Hannah. Crises da República. São Paulo: Perspectiva, 1973). Buarque de Holanda afirmava, portanto, que a herança cultural ibérica minou a possibilidade de maiores mobilizações sociais e políticas e da sociedade brasileira como um todo, fazendo com que o país fosse governado por poucos e por ditaduras. Quando analisamos o Leviatã de Hobbes notamos que ele nasce justamente da impossibilidade dos contratantes em estabelecer, entre eles mesmos, quem e de que forma se dará o
  3. 3. 3 governo civil. É aí que surge o poder acima daqueles que deveriam regulá-lo independentemente de suas vontades e consentimento. Na terra de barões, como afirmou Buarque de Holanda, onde todos são cultores de uma personalidade individual e de regalias da vida privada abastada, e de onde é difícil distinguir entre o público e o privado apenas um poder temido por todos pode estabelecer a ordem. O Cenário 3 acima descrito configuraria esta situação. O medo e o terror são as alavancas fundamentais das engrenagens que o Leviatã põe em movimento (Ver HOBBES, Thomas. Leviatã, Forma Matéria e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil. São Paulo: Martin Claret, 2002). Surge então, no seio da formação histórica brasileira, sua predisposição à versão autoritária do contrato social. O Cenário 3 acima descrito confirma esta tendência. Percebe-se, portanto, que diante da falência da democracia representativa no Brasil e da existência de governos incompetentes e sem visão estratégica, estamos ameaçados de conviver com o caos social que poderá levar, lamentavelmente, ao advento de mais uma ditadura no País. O filme “O Ovo da Serpente” de Ingmar Bergman retratou com muita fidelidade os primeiros passos da sociedade alemã que, já dividida, desembocaria nas mãos do nazismo a partir de 1933. No filme “O Ovo da Serpente” já se podia ver, dez anos antes da subida dos nazistas ao poder, um fantasma rondando a Alemanha e pressupor que em meio à desordem, à crise econômica e ao vácuo político, uma semente de radicalismo e violência estava para surgir. Este é o caso do Brasil. Bergman constrói com impecável riqueza de detalhes o mundo sangrento, paranoico e instável que era a Alemanha de 1923, ano em que se passa o seu filme, no período de 3 a 11 de Novembro, semana do Putsch de Munique. A luta pela sobrevivência e o medo acompanham as ações vacilantes de uma sociedade que se decompõe. Tanto na Alemanha quanto nos países capitalistas desenvolvidos naquela época, os índices de criminalidade estavam em alta ameaçando a paz social como hoje acontece no Brasil. * Fernando Alcoforado, 75, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona, http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011) e Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), entre outros.

×