Introdução ao estudo do evangelho

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Introdução ao estudo do evangelho

  1. 1. Introdução ao Estudo do Evangelho Um Pouco de História Para iniciarmos um estudo sobre o Evangelho é essencial conhecermos um pouco a história do povo hebreu, sobre sua formação, sobre sua religião e sua cultura. Os conhecimentos que temos a respeito baseiam‐se na tradição judaica e nos textos da Bíblia tanto do Velho Testamento (Bíblia Hebraica), quanto do Novo. Um estudo da formação do povo de Israel nos remonta aos patriarcas. A primeira figura que podemos retratar historicamente é Abraão, entretanto, nós, os Espíritas, devemos iniciar este estudo um pouco antes. É que Emmanuel, o guia espiritual de Francisco Cândido Xavier, em seu livro A Caminho da Luz, nos faz importantes revela‐ ções sobre a origem do povo hebreu. Segundo este autor espiritual: Há muitos milênios, um dos orbes da Capela, que guarda muitas afi‐ nidades com o globo terrestre, atingira a culminância de um dos seus extraordinários ciclos evolutivos. (…) Alguns milhões de Espíritos rebeldes lá existiam, no caminho da evolução geral, dificultando a consolidação das penosas conquistas daqueles povos cheios de piedade e virtudes, mas uma ação de sane‐ amento geral os alijaria daquela humanidade, que fizera jus à con‐ córdia perpétua, para a edificação dos seus elevados trabalhos. As grandes comunidades espirituais, diretoras do Cosmos, deliberam, então, localizar aquelas entidades, que se tornaram pertinazes no crime, aqui na Terra longínqua, onde aprenderiam a realizar, na dor e nos trabalhos penosos do seu ambiente, as grandes conquistas do co‐ ração e impulsionando, simultaneamente, o progresso dos seus ir‐ mãos inferiores. (…) Foi assim que Jesus recebeu [na Terra], à luz do seu reino de amor e de justiça, aquela turba de seres sofredores e infelizes.1 Ainda conforme nos escreve Emmanuel, estes exilados, que podemos conhecer pe‐ lo nome de raça adâmica… …guardavam vaga lembrança da sua situação pregressa, tecendo o hino sagrado das reminiscências. As tradições do paraíso perdido passaram de gerações a gerações, até que ficassem arquivadas nas páginas da Bíblia. Aqueles seres decaídos e degradados, a maneira de suas vidas passa‐ das no mundo distante da Capela, com o transcurso dos anos reuni‐ ram‐se em quatro grandes grupos que se fixaram depois nos povos mais antigos, obedecendo às afinidades sentimentais e linguísticas que os associavam na constelação do Cocheiro. Unidos, novamente, 1 XAVIER, Francisco C., / Emmanuel (Espírito). A Caminho da Luz, 10ª Ed. Rio de Janeiro: FEB, 1980, cap. III
  2. 2. CLÁUDIO FAJARDO na esteira do Tempo, formaram desse modo o grupo dos árias, a civi‐ lização do Egito, o povo de Israel e as castas da Índia.2 Assim, o povo de Israel, ou povo hebreu, nada mais é do que um destes quatro gru‐ pos de exilados que vieram ao nosso Orbe em busca de sua redenção espiritual. É ainda Emmanuel quem diz: Dos Espíritos degredados na Terra, foram os hebreus que constituí‐ ram a raça mais forte e mais homogênea, mantendo inalterados os seus caracteres através de todas as mutações.3 Como dissemos anteriormente, o primeiro personagem histórico que podemos re‐ tratar é Abraão, o primeiro dos patriarcas. Os patriarcas eram chefes de grupos familiares seminômades que iam de um lugar a outro em busca de comida e água para os seus rebanhos. Não havendo chegado ainda à fase cultural do sedentarismo e dos trabalhos agrícolas, os seus assentamentos eram, em geral, eventuais: duravam o tempo em que os seus gados demoravam para consu‐ mir os pastos.4 Abraão era procedente da cidade mesopotâmica de Ur dos caldeus, situada junto ao Eufrates. Deus havia prometido a ele que faria dele uma grande nação. ORA, o SENHOR disse a Abrão: Sai‐te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far‐te‐ei uma grande nação, e abençoar‐te‐ei e engrandecerei o teu nome; e tu se‐ rás uma bênção.5 A promessa de que Abraão seria bendito foi totalmente cumprida ele é considerado pai de judeus e de mulçumanos, e Mateus, autor daquele que seria o primeiro Evange‐ lho relata: Jesus Cristo é “filho de Abraão”, confirmando que nele seriam benditas to‐ das as famílias da Terra (Cf. Gênesis, 12: 3). Um dado importante para o entendimento de toda história bíblica é a compreensão da aliança feita entre Deus e Abraão. Deus fez uma promessa a Abraão, Ele a renovou e ampliou a mesma, pois Abraão vivenciou a obediência e a fé, e foi‐lhe imputado isto por justiça (Gênesis, 15: 6). Deus lhe prometera uma grande descendência, e mesmo após as dificuldades para se ter um filho que daria início à sua família e ao cumprimen‐ to da promessa, ele aceitou sacrificar seu filho para atender à vontade de Deus. A religião de Abraão é outra questão de grande importância, apesar dele vir de uma família e de um local onde se cultivavam o politeísmo Abraão trabalha a ideia de um Deus único e uma das primeiras coisas que fez ao se estabelecer nas terras de Canaã foi construir um altar a IHWH. (Gênesis, 13: 18) Seu poder patriarcal passou a seu filho Isaac e deste para Jacob que depois o passou para seus doze filhos. Um destes, chamado José, vendido como escravo ao Faraó, rei do Egito, soube captar tal prestí‐ 2 Idem, ibidem. 3 Id., Ib. Cap. VII 4 ALMEIDA, João Ferreira de. (tradutor). Bíblia de Estudos Almeida. São Paulo: SBB, 1999. 5 Gênesis, 12: 1 e 2 2
  3. 3. INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO EVANGELHO gio e autoridade, que chegou a ser vice‐rei do Egito.6 Isaque apesar de ter herdado a riqueza do pai, e de Deus ter renovado com ele a promessa de uma grande descendência feita a Abraão, não é um personagem de mui‐ to destaque na narrativa do Gênesis. Ao que parece muitas de suas experiências foram similares à de Abraão, o que leva o autor do livro a logo apresentar Jacó, seu filho, e com ele dar sequência à história da formação do povo hebreu. A história de Jacó é mais longa e complicada que as anteriores. Cons‐ ta de uma série de relatos entrelaçados: a fuga do patriarca para a região mesopotâmica de Padã‐Arã; a inteligência e a riqueza de Jacó; o regresso a Canaã; o episódio de Peniel, onde Deus mudou o nome de Jacó para Israel (Gn, 32.28); a revelação de Deus e a renovação das suas promessas (Gn 35.1‐15); a história de José e a morte de Jacó no Egito (Gn 37.1—50.14).7 Os doze filhos de Jacó, autênticos descendentes de Abraão dão origem às doze tribos judaicas que vão ter muita importância na história de Israel. José, um de seus filhos, e filho de Raquel, foi seu orgulho e a alegria. Odiado por seus irmãos, José é vendido a mercadores midianitas e ismaelitas. Estes por sua vez o venderam como escravo a Putifar, oficial do Faraó do Egito e capitão da guarda. José conseguiu conquistar prestígio e autoridade de tal modo, que chegou a ser vi‐ ce‐rei do Egito Por este tempo houve uma grande fome em toda região e o povo de Jacó migra pa‐ ra o Egito em busca de alimento. Os israelitas tornaram‐se tão numerosos e fortes, que os reis do Egito, temerosos de sua importância, os submeteram a dura escravidão, a‐ cabando por decretar a morte de todos os filhos varãos que nasceram naquele povo.8 Esta escravidão durou quatrocentos anos, foi quando Moisés, um desses meninos, jogado às águas do Nilo, foi salvo pela filha do Faraó e educado na corte do rei. Mais tarde esse menino seria o libertador daquele povo e seu legislador. Moisés nasceu em um tempo de grandes dificuldades. Ele foi adotado pela filha do Faraó o que o auxiliou para que pudesse cumprir sua missão. Conforme depreendemos do livro de Atos dos Apóstolos ele foi instruído na ciência dos egípcios9. É altamente provável que Moisés recebesse sua educação egípcia jun‐ tamente com os herdeiros reais da Síria e de outras terras10. 6 ALGAZI, Isaac S.. Síntese da História Judaica, http://www.scribd.com/doc/23217304/Isaac‐S‐Algazi‐ Breve‐Historia‐do‐Povo‐Judeu, acessado em.27/04/2010 7 (ALMEIDA 1999) 8 (ALGAZI 2010) 9 Cf. Atos, 7: 22 10 SCHULTZ, Samuel J. História de Israel no Antigo Testamento, tradução: Daniela Raffo, consultado no Site: www.semeadoresdapalavra.net, acessado em 21/04/2010 3
  4. 4. CLÁUDIO FAJARDO Certo dia, quando Moisés apascentava o rebanho de seu sogro, Jetro, sacerdote em Midiã, apareceu‐lhe um Espírito, a Bíblia fala em anjo do Senhor11, que Moisés supôs ser o próprio Deus, pois quando perguntado o seu nome disse: “Eu Sou o que Sou12”. Este Espírito lhe deu uma missão: libertar o povo de Israel da escravidão egípcia. Moisés que estava no deserto voltou ao Egito e com palavras e ações incompreensíveis venceu ao Faraó e levou os israelitas, segundo o texto bíblico eram 600.000 homens e mais as suas famílias, em marcha na direção do Sinai. Em busca da terra prometida atravessaram o golfo ocidental do Mar Vermelho e passaram 40 anos no deserto experimentando todas as dificuldades da vida nômade. Ao pé do Monte Sinai, Moisés deu aos israelitas o Decálogo, ou seja, os dez mandamentos, supremo código moral da humanidade. O Decálogo significou para os seguidores de Moisés o ápice de uma Nova Aliança feita entre o Deus de Abraão e seu povo. Aqui é preciso compreender que para o povo hebreu, Abraão e Moisés são os personagens mais importantes de sua histó‐ ria. 11 Êxodo, 3: 2 12 Êxodo, 3:14 4
  5. 5. INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO EVANGELHO Antes de morrer, Moisés nomeou como seu sucessor Josué, o qual, depois de atra‐ vessar o Jordão e derrotar os inimigos que se opunham à sua marcha vitoriosa, distri‐ buiu as terras conquistadas entre as doze tribos. Conquistar e assentar‐se em Canaã não se tornou empresa fácil. Foi um longo e duro processo (cf. Jz 1), às vezes, de avanço pacífico, mas, às vezes, de inflamados choques com os hostis povos cananeus (cf. Jz 4—5), formados por populações diferentes entre si, ainda que todas pertencentes ao comum tronco semítico; muitas delas terminaram absorvidas por Israel (cf. Js 9).13 Naqueles dias não havia rei em Israel; porém cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos. (Juízes, 21: 25) Após a morte de Josué temos uma etapa conhecida como “período dos juízes de Is‐ rael” que tem como principal característica a distribuição deste povo em tribos mais ou menos independentes sem um governo central. Desta forma surgiram algumas lide‐ ranças (Juízes), dentre as quais podemos destacar Jefté, Sansão e a profetisa Débora. Este período se desenvolveu mais ou menos entre os anos 1200 e 1050 A.C. O último dos juízes foi Samuel, que a pedido do povo, mudou a forma de governo e instituiu a monarquia, nomeando Saul como primeiro rei. 13 (ALMEIDA 1999) 5
  6. 6. CLÁUDIO FAJARDO O processo de transição para a monarquia não deixou de ter suas dificuldades, esta sofreu fortes resistências internas, entretanto Saul conseguiu apoio do povo após uma inicial vitória sobre os amonitas em Jabes‐Gileade. Saul todavia nunca conseguiu aca‐ bar com os filisteus, e foi lutando contra eles que morreu ele e seus três filhos. Não sem antes ser abandonado pelo profeta Samuel, que mesmo após o seu próprio de‐ sencarne, numa aparição à pitonisa de Endor, previu a morte do rei atribuindo‐a à sua traição aos desígnios divinos. Outra atitude que também comprometeu o primeiro monarca hebreu foi a constan‐ te perseguição a Davi, mesmo este lhe mostrando fidelidade em várias ocasiões. Após o fim da vida física de Saul, Davi é declarado rei da tribo de Judá em Hebrom, cidade ao sul de Jerusalém, enquanto Isbosete o único filho homem de Saul que so‐ breviveu foi reconhecido como rei pelas outras tribos. Abner, comandante do exército de Isbosete não pode tolerar que a tribo de Judá tenha escolhido Davi por rei e inicia contra o exército de Davi o que seria uma longa guerra civil. Entretanto o exército de Davi se fortalecia cada dia mais enquanto o de Isbosete se enfraquecia. Com o tempo Davi ganha confiança de todas as tribos e após a morte de Isbosete é declarado rei de todo povo de Israel unindo todas as tribos e escolhendo Jerusalém como sua definitiva capital. A idade de ouro de Davi e Salomão não teve repetição nos tempos do Antigo Testamento. A expansão territorial e os ideais religiosos, como foram imaginados por Moisés, foram executados num grau máximo, superior ao que antes ou depois aconteceria na história de Israel. Em séculos subsequentes, as esperanças proféticas para a restauração da fortuna de Israel repetidamente se remetem ao reino de Davi como ideal supremo.14 Jerusalém se converteu no centro religioso de toda nação israelita, Davi levou para lá a arca de Deus a alojando em uma tenda construída por ele para abrigar o objeto sagrado. O reinado de Davi foi de muita prosperidade e conquistas para toda Israel, quando estava próxima a sua morte Davi escolheu para seu sucessor o seu filho Salomão. O governo de Salomão foi também de grande esplendor. Este rei soube ter bons re‐ lacionamentos políticos e comerciais o que beneficiou em grande parte Israel. Foi um período de paz e também de grande riqueza o que permitiu a construção na capital de Israel de diversas obras entre elas a do famoso templo de Jerusalém e o palácio real. O prestígio de Salomão foi enorme, sua prudência e sabedoria foram consideradas as maiores entre todos os reis de Israel: E deu Deus a Salomão sabedoria, e muitíssimo entendimento, e lar‐ gueza de coração, como a areia que está na praia do mar. E era a sa‐ bedoria de Salomão maior do que a sabedoria de todos os do Oriente e do que toda a sabedoria dos egípcios. E era ele ainda mais sábio do 14 (SCHULTZ acessado em 21 de Abril de 2010), Cap. 8 6
  7. 7. INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO EVANGELHO que todos os homens, e do que Etã, ezraíta, e do que Hemã, e Calcol, e Darda, filhos de Maol; e correu o seu nome por todas as nações em redor.15 Templo de Salomão Após a morte de Salomão, seu filho Roboão ocupou o trono. Roboão não foi sensa‐ to como seu pai, e como já havia alguma insatisfação quanto a opressivas medidas tomadas por Salomão e o constante aumento de tributos para tornar possível as grandes construções as antigas rivalidades entre as tribos do norte e as do sul vieram à tona o que provocou uma ruptura no reino de Israel. No sul as tribos de Judá e de Benjamin apoiaram Roboão e formaram o Reino de Ju‐ dá, enquanto no norte dissidente as outras dez tribos formaram o Reino de Israel e fizeram de Jeroboão, um antigo funcionário de Salomão que mais tarde tornou‐se ini‐ migo, seu rei. Tal divisão se deu por volta do ano 931 a.C.. O Reino do sul teve por capital Jerusalém, enquanto o do norte que nunca teve uma situação política estável mudou sua capital várias vezes e elegeu sucessivamente Si- quem, Tirsá e Samaria. Tal divisão gerou o enfraquecimento dos dois reinos e o que vemos a partir de en‐ tão é uma história de luta entre estes dois povos irmãos e o constante assalto de po‐ vos estrangeiros a ambos os reinos divididos. O reino do norte durou até 722 a.C. quando Samaria cai sob domínio assírio. Com esta nova situação os habitantes do norte foram então deportados para a Assíria e para outras terras conquistadas. Em contraposição, os povos de outras nações con‐ 15 1Reis, 4: 29 a 31; em algumas versões 1Reis, 5: 9 a 11 7
  8. 8. CLÁUDIO FAJARDO quistadas foram importados para Samaria. A política dos assírios foi tentar destruir todo vestígio de linhagem nacional e, assim, unir todos os povos num só. Em 612 os babilônios destruíram Nínive e dominaram os assírios, em 605 o reino do sul caiu nas mãos dos babilônios. Em 597 houve uma rebelião que foi logo suprimida o que deu início à primeira deportação do povo de Judá para a Babilônia, dez anos de‐ pois os babilônios suprimindo uma nova revolta destroem o templo, e toda Jerusalém decretando uma deportação do restante do povo para a Babilônia o que ficou conhe‐ cido na história como o “cativeiro babilônico” do povo hebreu. O propósito das deportações não foi tanto destruir as linhagens na‐ cionais (como foi a política assíria), mas punir aqueles que se opu‐ nham ao governo. Permitiu‐se aos cativos uma parcela de liberdade, e eles podiam eleger seus próprios líderes em suas comunidades. Mui‐ tos desses exilados se tornaram líderes no governo babilônico (Dan. 1:20; 2:48,49; 3:30; etc.), e bem poderosos. Esses exilados estavam começando a encontrar seu ponto forte real nos campos da indústria e do comércio. A tendência que se iniciou na Babilônia tornou‐se mais desenvolvida nas gerações posteriores, até que, durante os tempos do Novo Testamento, as comunidades judaicas eram primariamente urbanas e comerciais, em vez do meio agrícola e pastoral do Velho Testamento.16 Foi durante este período que o nome “judeus” passou a ser usado referindo ao po‐ vo da terra de Judá. Foi também com o exílio, sem ter o Templo de Jerusalém, que os judeus passaram a se reunir em grupos para estudar a Torah, os Salmos, realizar orações, fundando assim as Sinagogas. Através delas eles não só estudavam como também puderam manter a sua identidade nacional. Em 538 a.C. Ciro conquistou a Babilônia. É importante lembrar que Ciro uniu a Mé‐ dia, a Lídia e a Pérsia. Sua política foi extremamente favorável aos judeus, pois permitiu a volta deles à suas terras, sendo possível deste modo, a restauração de Judá e a reconstrução em Jerusalém do Templo, apesar de não ser este ainda tão magnífico como o construído por Salomão. Entretanto, foram muitos os judeus que não quiseram voltar e permaneceram na Babilônia. Quando da volta dos judeus para Jerusalém, tendo estes iniciado a reconstrução do Templo, os adversários da reconstrução, que eram os que com o exílio foram trazidos para povoar o país, e os inimigos antigos do reino do norte, se opuseram à reconstru‐ ção. Em verdade eles disseram querer ajudar na reconstrução, ajuda esta que não foi aceita pelos líderes de Israel. Mais tarde estes inimigos do reino do sul, denominados samaritanos, liderados por Manassés, um filho do sumo sacerdote Jônatas, construíram no Monte Gerizim outro 16 HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo testamento, Rio de Janeiro, JUERP, 1983, cap. 1 8
  9. 9. INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO EVANGELHO templo para rivalizar com os judeus, aprofundando assim, o cisma entre os judeus e os samaritanos. Uma segunda volta [do povo hebreu para a palestina] ocorreu sob Esdras, em 485 a.C.. Uma terceira foi liderada por Neemias, em 445 a.C.. Começando com Esdras e continuando através do trabalho de Neemias e Malaquias, foram iniciadas reformas, que deveriam ter re‐ sultados de longo alcance. Uma vez que os persas não iriam tolerar a restauração da realeza davídica, o oficial mais alto, politicamente era o sumo sacerdote. Esse homem respondia, de uma maneira geral, ao governador persa. Esse ofício resultou eventualmente em "reis‐ sacerdotes". Igualmente, era necessário obter a aprovação do gover‐ nador persa para eleger‐se o sumo sacerdote.17 A partir do ano 331 a.C. até meados do segundo século antes de Cristo temos o que podemos denominar de período grego. Alexandre, filho de Filipe II da Macedônia, apesar de ter morrido novo e ter tido poucos anos de vida como líder militar, sucedeu seu pai aos 20 anos e morreu aos 32, conseguiu grandes feitos preparando o mundo para a chegada do Cristo. Ele é responsável pela fusão do Ocidente com o Oriente. Derrubando a parede que estava entre o Oriente e o Ocidente, ele foi capaz de a‐ brir as portas do comércio. Através da propagação do idioma grego, a língua franca, o mundo capacitou‐se para a comunicação. A cultura grega quebrou as barreiras raciais, sociais e nacionais. A miscigena‐ ção das raças estimulou um espírito de cosmopolitanismo, um sincre‐ tismo religioso e um interesse no indivíduo.18 Foi nesse período de grande importância da cultura grega, após a morte de Alexan‐ dre, que Ptolomeu Filadelfo, desejando uma biblioteca de grandes proporções em Ale‐ xandria, encomendou ao sacerdote Eleazar a tradução das escrituras hebraicas para o grego e que originou a Septuaginta (LXX), e que tornou‐se as Escrituras para a comuni‐ dade judaica de fala grega. Podemos dizer que neste período houve uma helenização da palestina. Ela se viu a‐ traída pelo modo de vida dos gregos em vários aspectos como na arte, no idioma, no comércio, e mesmo nos festivais e jogos. Era ideia dos Ptolomeus conceder direitos civis iguais para judeus em igualdade aos macedônios. (HALE 1983) Durante esta época helenística, no reinado de Antíoco IV Epífanes esta helenização do povo judeu aprofundou‐se um pouco mais causando grande discórdia entre alguns membros do judaísmo. Através do sumo sacerdócio corrupto, em Jerusalém, os judeus mais influentes a princípio estavam bem simpáticos à helenização influenciando muitos que adotaram os costumes da cultura grega em divergência com a judaica tradicional; outros torna‐ ram‐se mais fanáticos ainda à lei mosaica criando grande tensão, tensão esta que au‐ mentando deu origem à rebelião dos macabeus. 17 (HALE 1983) 18 Id., ib. 9
  10. 10. CLÁUDIO FAJARDO Essa rebelião desencadeou‐se quando um ancião sacerdote chamado Matatias e os seus cinco filhos organizaram a luta contra o exército sírio. Depois da morte de Matatias, Judas, o seu terceiro filho, ficou à frente da resistência e, chefiando os seus, reconquistou o templo de Jerusalém, que havia sido profanado pelos sírios, e o purificou e o dedicou. A Hannuká ou Festa da Dedicação (Jo 10.22) comemora esse fato. Convertido em herói nacional, Judas foi o primeiro a receber o sobrenome de “macabeu” (provavelmente “martelo”), que depois foi dado também aos seus irmãos.19 Na sequencia dos fatos, de 142 a.C. a 63 . C. a nação judaica esteve mais uma vez independente, entretanto, apesar de alguns dias de glória a estabilidade política se deteriorou e em 63 a.C. o general romano Pompeu conquistou Jerusalém fazendo da Palestina uma província romana. Com este fato a vida religiosa judaica sofreu mais um golpe, era dirigida pelo sumo sacerdote, mas sempre submetida à autoridade imperial. O primeiro sumo sacerdote da era romana foi Hircano; Antípater foi escolhido pro‐ curador. Antípater designou seu filho Fasael, governador da Judéia, e Herodes, outro filho, governador da Galiléia. Em 40 a.C., Herodes recebeu o título de "Rei dos Judeus". A nação da Judéia, contu‐ do, ainda era uma parte da província romana da Síria. Herodes, o Grande, foi um intermediário eficaz entre os romanos e os judeus. Embora os judeus o odiassem, por ser um estranho e estar sob os romanos, Herodes persuadiu estes a concederem vários privilégios àqueles. Ele manteve a nação em paz com Roma. Tentando ganhar o apoio dos judeus, Herodes entrou num ambicioso programa de cons‐ trução, eliminou os bandos errantes de salteadores, e, em geral, trou‐ xe prosperidade à Judéia. Ele era, contudo, um homem muito ciumen‐ to e cheio de suspeitas. Um de seus maiores empreendimentos foi a reconstrução do Templo, iniciada em 19 a.C., e ainda estava em pro‐ gresso 46 anos mais tarde (João 2:20).20 Foi durante seu reinado que Jesus nasceu, foi ele ordenou a matança das crianças ao redor de Belém, após o nascimento de Jesus. Com a morte de Herodes em 4 a. C. seus herdeiros não puderam controlar a Judéia, esta passou a ser governada diretamente pelos romanos através daqueles que a histó‐ ria conheceu como procuradores. Os filhos de Herodes, entretanto, tiveram seus car‐ gos no governo romano, Herodes Antipas foi tetrarca da Galiléia e Peréia até o ano 39; e Filipe, até 34 da Ituréia. Esta era a situação política da Palestina nos tempos de Jesus. Como forma de man‐ ter certa paz e tranquilidade nos seus territórios, Roma agia com cautela, sem pressio‐ nar excessivamente a população submetida e sem forçá‐la a mudar os seus próprios modelos da sociedade, nem os seus costumes, cultos e crenças religiosas. O que não era admitido em hipótese alguma era agitação política e nenhum tipo de rebelião o 19 (ALMEIDA 1999) 20 (HALE 1983), cap. 1 10
  11. 11. INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO EVANGELHO que era punido com rigor. Foi o que aconteceu no ano 70 d.C. quando Tito invadiu Je‐ rusalém, destruindo seu templo extinguindo a nação judaica. Após este breve relato histórico é preciso ainda, antes de entrarmos diretamente no estudo do Novo Testamento, comentarmos, mesmo que de forma singela, algo so‐ bre a sociedade judaica, a relação entre religião e política, o profetismo de Israel, e a crença messiânica. A Sociedade Judaica De um modo geral podemos perceber através dos relatos dos evangelistas que a sociedade judaica do tempo de Jesus era eminente agrária. A semeadura e a colheita de cereais, o plantio de vinhas e a colheita de uvas, a produção hortícola e as referências à oliveira, à figueira e a outras árvores são dados reveladores que nos mostram a importância da atividade agrícola para a economia da Palestina, economia esta que tem ainda a criação de rebanhos de ovelhas e cordeiros, de animais de carga. A pesca por sua vez ocupava um lugar importante na atividade dos moradores que viviam nas aldeias costeiras do mar da Galiléia. Temos também algumas profissões de origem artesanal que eram exercidas pelos cidadãos comuns. Encontramos assim, perfumistas, tecelões, curtidores, carpinteiros, oleiros e fabricantes de tendas; e, certamente, também servidores domésticos, comerciantes, banqueiros e cobradores de impostos . Num degrau mais baixo da sociedade temos os peões contratados ao salário do dia, os escravos, as prostitutas e um número considerável de mendigos. A Relação Entre religião e Política A religião e a política caminhavam lado a lado no mundo judaico, estes eram dois componentes de uma só realidade. A fé no Deus de Abraão, Isaac e Jacó era mais do que uma atividade religiosa, era a cultura de um povo. A história do povo de Israel é a história da sua fé em Deus; e a sua fé é a fé em que Deus governa toda a sua história. O sumo sacerdote era quem presidia o Sinédrio, máximo órgão jurídico e adminis‐ trativo da nação. Este consistia num conselho de 71 membros, no qual estavam repre‐ sentados os três grupos político‐religiosos mais significativos da época: os sacerdotes, na sua maioria do partido saduceu; os anciãos, geralmente fariseus; e os mestres da Lei. O Sinédrio gozava de todas as competências de um governo autônomo, salvo aque‐ las em que Roma se reservava os direitos de última instância. O Sinédrio, p. ex., era competente para condenar à morte um réu, mas a ordem da execução exigia o visto da autoridade romana, como sucedeu no caso de Jesus. (ALMEIDA 1999) Em relação aos partidos, podemos destacar o dos fariseus, dos saduceus, e o dos ze‐ lotes. Os fariseus eram os representantes mais rigorosos da espiritualidade judaica. Com a sua insistência na observância da Torah e no respeito às tradições dos “pais” (isto é, os antepassados), exerciam uma forte influência no povo. Eram observadores das práticas 11
  12. 12. CLÁUDIO FAJARDO exteriores, do culto e das cerimônias; criam na imortalidade da alma e na ressurreição dos mortos. Os saduceus representavam, de certo modo, a aristocracia de Israel. Esse partido, mais reduzido numericamente que o fariseu, era formado, em grande parte, pelas po‐ derosas famílias dos sumos sacerdotes. Na sua doutrina, em contraste com o que ensi‐ navam os fariseus, os saduceus mantinham “não haver ressurreição, nem anjo, nem espírito”. Os zelotes constituíam um grupo judaico nacionalista, eram fanáticos apegados à lei mosaica a ponto de recorrer à violência para impedir que a religião fosse violada por outros. Eram conhecidos também como cananitas. Os zelotes desempenharam um papel muito ativo na rebelião dos anos 66 a 70. Os essênios não formavam propriamente um partido, já que não tomavam parte nos conflitos existentes entre os fariseus e os saduceus, formavam um seita judaica de costumes brandos e virtudes austeras. Criam na imortalidade da alma e na ressurrei‐ ção. Viviam no celibato, tinham seus bens em comuns e se entregavam à agricultura.21 Podemos destacar ainda os escribas, mestres da Lei ou rabinos que formavam um grupo profissional e não um partido. Eram os encarregados de instruir o povo em ma‐ téria de religião. Não pertenciam, em geral, à classe sacerdotal, mas eram influentes e chegaram a gozar de uma elevada consideração como intérpretes das Escrituras e diri‐ gentes do povo. O Profetismo em Israel A palavra profeta vem do hebraico nabi que quer dizer profeta, orador, porta voz. Provavelmente deriva de uma raiz que significa “chamar, anunciar” (Bíblia de Jerusa‐ lém pág. 1331). Deste modo, profeta é aquele que é chamado ou então aquele que anuncia e que de uma forma ou de outra expressa o essencial do profetismo israelita. É ele um men‐ sageiro, um interprete da palavra divina, tem consciência da origem divina da mensa‐ gem que traz. Em muitas ocasiões não são eles, os profetas, que trazem as palavras de Deus, mas o próprio IHWH é quem fala por meio deles. Desta forma são portadores de uma palavra e não a podem calar. Importante ainda reconhecer que como mensageiros enviados e escolhidos por Deus são eles próprios sinais do Alto, pois não só suas palavras são profecias e devem ser levadas em conta, mas suas próprias ações também o são. Podem manifestar a mensagem divina através de vários modos, visão, audição, es‐ crita, em versos, prosa, parábolas, etc., sendo ela sempre fruto de uma inspiração inte‐ rior. O verdadeiro profeta tem um sinal claro, tem consciência de que a mensagem é di‐ vina, como já dissemos, mas sabe antes de tudo, que nada tem origem em si, vem sempre de Deus a mensagem. Todavia é preciso compreender que o estado de inspira‐ ção do profeta transcende a inspiração comum dos poetas, por exemplo, eles encon‐ 21 (KARDEC 1991), Introdução. 12
  13. 13. INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO EVANGELHO tram‐se num estado mental diferente, apesar dos poetas à vezes poderem ser tidos como profetas. Importante no profetismo de Israel é que o profeta é profeta sempre. A mensagem profética muito poucas vezes se dirige a um indivíduo, normalmente ela é para todo povo. Ela pode transcender o tempo e anunciar um acontecimento próximo ou mais distante, muitas vezes estando envolta em mistérios que só mais tar‐ de, quando se cumpre, será esclarecido. Pode ser severa, um chamamento de atenção, ou consoladora; é na maioria das vezes dura, mas tem momentos também de alegria. Uma das grandes preocupações do profeta é o pecado, que significa qualquer ação que venha romper a Aliança com Deus, ou o desrespeito à sua Lei. Como reconhecer no entanto que um profeta é falso ou verdadeiro? A Bíblia propõe dois modos de se distinguir. O cumprimento das profecias: O profeta que profetizar de paz, quando se cumprir a palavra desse profeta, será conhecido como aquele a quem o SENHOR na verdade enviou. (Jeremias, 28: 9) Quando o profeta falar em nome do SENHOR, e essa palavra não se cumprir, nem suceder assim; esta é palavra que o SENHOR não falou; com soberba a falou aquele profeta; não tenhas temor dele. (Deute‐ ronômio, 18: 22) Quando a doutrina pregada estiver em conformidade com o ensinamento da pró‐ pria Bíblia: Não se desviará a ira do SENHOR, até que execute e cumpra os desíg‐ nios do seu coração; nos últimos dias entendereis isso claramente. 21 Não mandei esses profetas, contudo eles foram correndo; não lhes fa‐ lei, contudo eles profetizaram. 22 Mas, se estivessem estado no meu conselho, então teriam feito o meu povo ouvir as minhas palavras, e o teriam feito voltar do seu mau caminho, e da maldade das suas a‐ ções. 23 Porventura sou eu Deus de perto, diz o SENHOR, e não tam‐ bém Deus de longe? (Jeremias, 23: 20 a 23) E suceder o tal sinal ou prodígio, de que te houver falado, dizendo: Vamos após outros deuses, que não conheceste, e sirvamo‐los; 3 Não ouvirás as palavras daquele profeta ou sonhador de sonhos; porquan‐ to o SENHOR vosso Deus vos prova, para saber se amais o SENHOR vosso Deus com todo o vosso coração, e com toda a vossa alma. 4 Após o SENHOR vosso Deus andareis, e a ele temereis, e os seus man‐ damentos guardareis, e a sua voz ouvireis, e a ele servireis, e a ele vos achegareis. 5 E aquele profeta ou sonhador de sonhos morrerá, pois falou rebeldia contra o SENHOR vosso Deus, que vos tirou da terra do Egito, e vos resgatou da casa da servidão, para te apartar do caminho que te ordenou o SENHOR teu Deus, para andares nele: assim tirarás o mal do meio de ti. 6 Quando te incitar teu irmão, filho da tua mãe, ou teu filho, ou tua filha, ou a mulher do teu seio, ou teu amigo, que te é como a tua alma, dizendo‐te em segredo: Vamos, e sirvamos a outros deuses que não conheceste, nem tu nem teus pais. (Deutero‐ 13
  14. 14. CLÁUDIO FAJARDO nômio, 13: 2 a 6) Não consentirás com ele, nem o ouvirás; nem o teu olho o poupará, nem terás piedade dele, nem o esconderás. (Deuteronômio, 13: 8) Segundo a Bíblia de Jerusalém a profecia era uma instituição reconhecida pela reli‐ gião oficial em Israel (pág. 1332). Jeremias nos conta que existia na Casa de IHWH (Templo de Jerusalém) um quarto de Ben‐Joanã, um homem de Deus, talvez um profeta (Cf. Jeremias, 35: 4). Assim, é provável que haja um vínculo entre os profetas e os centros da vida religiosa. Autores recentes concluíram que os profetas faziam parte do pessoal do santuário e desempe‐ nhavam importante papel no culto. Podemos dizer que apesar das semelhanças existentes entre o profetismo de Israel e algumas manifestações religiosas de povos vizinhos, o profetismo é um fenômeno próprio de Israel, é um modo de Deus dirigir seu povo eleito. É preciso compreendermos que na hierarquia judaica o profeta situava‐se no grau mais elevado, acima dele só Deus. Moisés era o maior entre os profetas, pois conheceu IHWH face a face, falou com Ele e recebeu Dele, diretamente, a Torah. Em linguagem espírita podemos dizer que foi o primeiro médium em popularidade por receber os Dez Mandamentos e transmiti‐los ao povo. Natã talvez tenha sido o primeiro a receber uma profecia sobre o Messias ao falar a Davi do sucesso de sua dinastia: Quando teus dias forem completos, e vieres a dormir com teus pais, então, farei levantar depois de ti a tua semente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino. 13 Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre. 14 Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; e, se vier a transgredir, castigá‐lo‐ei com vara de homens e com açoites de filhos de homens. 15 Mas a minha benignidade se não apartará dele, como a tirei de Saul, a quem tirei de diante de ti. 16 Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu trono será firme para sempre. 17 Conforme todas estas palavras e conforme toda esta visão, assim falou Natã a Davi. (2 Samuel, 7: 12 a 17) E para mostrar a autenticidade de um profeta e sua fidelidade a Deus este mesmo Natã repreende ao rei Davi por seu pecado com Betsabéia, levando este ao arrepen‐ dimento o que proporcionou a ele o perdão de Deus. Podemos ainda, entre outros, falar de Elias, o profeta que encontra com Deus no Monte Horeb, onde a Aliança foi concluída e fazer uma conexão. O mesmo Elias volta‐ rá mais tarde no Tabor, junto com Moisés a encontrar Jesus. Representando os três a Torah (Moisés), os profetas (Elias), e a Nova Aliança (Jesus), como pontos máximos da revelação vinda dos judeus que culminando no Cristo traz a salvação para toda huma‐ nidade através da religião interior, aquela que vivenciada transforma a criatura e a reconecta com Deus. 14
  15. 15. INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO EVANGELHO Portanto, se desejamos estudar o Evangelho, como já dissemos não podemos abrir mão de estudar o processo evolutivo que se fez através da história da descendência de Abraão, passando pelos profetas22 e culminando em Jesus. O Messias Sobre o ponto de vista sociológico o cristianismo é basicamente um messianismo. A ideia messiânica inicia em qualquer povo em que ela aconteça, com a crença em um Messias, e com a busca, por intermédio deste, de um resultado coletivo. No judaísmo a crença messiânica é política pois com a vinda do Ungido seria resta‐ belecido o reino de Israel. O pensamento cristão nos revela mais ou menos a mesma ideia pois o Cristo, o Messias cristão, conduziria os fiéis ao Reino de Deus, estes seriam salvos enquanto os demais estariam para sempre perdidos no inferno. Para melhor compreendermos como surgiu a ideia de um Messias é preciso rever‐ mos alguns pontos já comentados neste texto sobre a história do povo de Israel. Moisés libertou o povo hebreu da escravidão no Egito e deu a eles a Lei recebida de Deus no monte Sinai. Após sua morte foi sucedido por Josué que comandou a conquis‐ ta de novas terras. Depois temos as doze tribos de Israel sendo governadas por Juízes. Após o ano 1050 a.C . instala‐se a monarquia, Saul é o primeiro rei sendo sucedido por Davi e depois deste Salomão. Temos durante o reinado destes dois últimos um período de glória e reunificação das doze tribos, até que mais tarde o poder é novamente dividido entre Samaria e Je‐ rusalém. A partir daí começa a se desenvolver a ideia de um Messias restaurador, o profe‐ tismo vai ter um peso muito grande nesta crença, e as próprias dificuldades por que passariam os dois reinos também contribuíam para a formação da imagem deste Mes‐ sias que iria reunificar o reino. Messias: Conceito e Função O vocábulo Messias significa “ungido”. Esta palavra indica o cerimonial sacramental primitivo e oriental, de que o poder vem de Deus, devendo, em consequência, ser conferido através de uma cerimônia sagrada, portanto, por um sacerdote.23 Deriva do verbo mashah que quer dizer ungir (com óleo), isto é, consagrar. 22 Este é um brevíssimo estudo sobre o tema. Para um aprofundamento necessário a um melhor en‐ tendimento deve‐se estudar também profetas como Oséias, Jeremias, Isaías, Ezequiel, entre outros. 23 PAULI, Evaldo. Enciclopédia Simpozio. Retirado do Site: http://www.simpozio.ufsc.br/Port/3‐ enc/y‐mega/Fund_Cris/4251y236.htm, acessado em Março de 2003. 15
  16. 16. CLÁUDIO FAJARDO Em grego Messias é Christós. A palavra cristão, que teoricamente poderia ser apli‐ cada também aos messianistas judaicos, efetivamente só era atribuída àqueles que aceitavam que Jesus era o Messias. Em Jesus Cristo, o segundo termo se juntou como adjetivo. Isolado se substantiva.24 Dentro do conceito original judaico o Messias não seria um Deus, ele era um líder ungido, um Rei especial, mas nunca Deus, os seguidores posteriores de Jesus é que mais à frente o julgaram Deus. Sobre a missão do Messias, baseado nos textos da Bíblia Hebraica podemos dizer que a principal seria restabelecer o estado social e religioso que havia nos dias de gló‐ ria. Ele, o líder máximo do povo, seria ungido pelo próprio Deus e restabeleceria a or‐ dem. Faria de Jerusalém a capital, estabeleceria uma justiça social priorizando os po‐ bres e valorizando também os rituais religiosos. Apesar de ter ganho força com o profetismo, o que já destacamos, a primeira refe‐ rência clara que temos no Antigo Testamento a respeito do Messias está no capítulo 49 do Gênesis relacionando‐o a Judá, o filho de Jacó: Judá, teus irmãos te louvarão, tua mão está sobre a cerviz de teus i‐ nimigos e os filhos de teu pai se inclinarão diante de ti. Judá é um leãozinho: da presa, meu filho, tu subsiste; agacha‐se, dei‐ ta‐se como um leão, como leoa quem o despertará? O cetro não se afastará de Judá, nem o bastão de chefe de entre seus pés, até que o tributo lhe seja trazido e que lhe obedeçam os povos.25 Teria a profecia se cumprido em Davi, que era da tribo de Judá? E a eternidade de seu reino não teria sido uma falha já que após Salomão o reino seria novamente divi‐ dido e tanto as tribos do norte quanto as do sul cairiam nas mãos dos inimigos? Ao que parece desde os tempos antigos tal profecia não foi compreendida, seu sen‐ tido era espiritual e o reino eterno seria retomado por Jesus o enviado maior de Deus que teria por missão educar o homem preparando‐o para uma vida em espírito, esta sim seria eterna e de glória. Já Moisés havia falado a respeito: O SENHOR, teu Deus, te despertará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu; a ele ouvireis; 16 conforme tudo o que pediste ao SENHOR, teu Deus, em Horebe, no dia da congregação, dizendo: Não ouvirei mais a voz do SENHOR, meu Deus, nem mais verei este grande fogo, para que não morra. 17 Então, o SENHOR me disse: Bem fala‐ ram naquilo que disseram. 18 Eis que lhes suscitarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua bo‐ ca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar. 19 E será que qualquer que não ouvir as minhas palavras, que ele falar em meu nome, eu o 24 Idem, ibidem. 25 Gênesis, 49: 8 a 10 16
  17. 17. INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO EVANGELHO requererei dele.26 E é Isaías quem dá o tom do que seria esta Era aguardada por todos: Do tronco de Jessé sairá um rebento, e das suas raízes, um renovo. 2 Repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o Espírito de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de fortaleza, o Espírito de conhecimento e de temor do SENHOR. 3 Deleitar‐se‐á no temor do SENHOR; não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreende‐ rá segundo o ouvir dos seus ouvidos; 4 mas julgará com justiça os po‐ bres e decidirá com equidade a favor dos mansos da terra; ferirá a terra com a vara de sua boca e com o sopro dos seus lábios matará o perverso. 5 A justiça será o cinto dos seus lombos, e a fidelidade, o cinto dos seus rins. 6 O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará. 7 A vaca e a ursa pasta‐ rão juntas, e as suas crias juntas se deitarão; o leão comerá palha como o boi. 8 A criança de peito brincará sobre a toca da áspide, e o já desmamado meterá a mão na cova da víbora. 9 Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, porque a terra se en‐ cherá do conhecimento do SENHOR, como as águas cobrem o mar.27 Ainda vamos ver mais sobre o Messias sob a pena de Isaías em grande parte de seu texto com destaque para os capítulos 42, 49, 52 e 53. Outros profetas também falam sobre o Messias, entre eles podemos destacar Je‐ remias, Ezequiel, Miqueias… É deste último a clássica passagem em que é definida a cidade onde nasceria o Sal‐ vador: E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre milhares de Judá, de ti me sairá o que será Senhor em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade.28 Poderíamos destacar ainda outros profetas como Daniel, Malaquias e até mesmo Davi em seus Salmos falando a respeito da crença messiânica que se fortalecia cada vez mais e que não poderia deixar de ficar marcada na literatura judaica que era carac‐ terizada por um sentimento popular de um Salvador que libertasse a todos para uma vida de glória. O próprio Jesus confirma a expectativa de sua vinda na literatura hebraica anterior: E ele lhes disse: Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura, não convinha que o Cristo padecesse essas coisas e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés e por todos os profetas, explicava‐lhes o que dele se achava em todas as Escrituras.29 26 Deuteronômio, 18: 15 a 19 27 Isaías, 11: 1 a 9 28 Miquéias, 5: 2 29 Lucas, 24: 25 a 27 17
  18. 18. CLÁUDIO FAJARDO Vinte séculos depois da vinda do Cristo, Emmanuel pela psicografia de Francisco Cândido Xavier confirmaria a veracidade da literatura veterotestamentária a respeito do Messias, e o porquê de ter vindo o Cristo na descendência de Davi: No reino de Israel sucederam‐se as tribos e os enviados do Senhor. Todos os seus caminhos no mundo estão cheios de vozes proféticas e consoladoras, acerca dAquele que ao mundo viria para ser glorificado como o Cordeiro de Deus. A cada século renovam‐se as profecias e cada templo espera a pala‐ vra de ordem dos Céus, através do Salvador do Mundo. Os doutores da Lei, no templo de Jerusalém, confabulam, respeitosos, sobre o Di‐ vino Missionário; na sua vaidade orgulhosa esperavam‐no no seu carro vitorioso, para proclamar a todas as gentes a superioridade de Israel e operar todos os milagres e prodígios. E, recordando esses apontamentos da história, somos naturalmente levados a perguntar o porque da preferência de Jesus pela árvore de David, para levar a efeito as suas divinas lições à Humanidade; mas a própria lógica nos faz reconhecer que, de todos os povos de então, sendo Israel o mais crente, era também o mais necessitado, dada a sua vaidade exclusivista e pretensiosa "Muito se pedirá de quem muito haja recebido", e os israelitas haviam conquistado muito, do Alto, em matéria de fé, sendo justo que se lhes exigisse um grau cor‐ respondente de compreensão, em matéria de humildade e de amor.30 Entretanto foi grande a incompreensão do judaísmo e entre eles poucos puderam compreender a significância daquele momento histórico para sua libertação, mas liber‐ tação espiritual. A verdade, porém, é que Jesus, chegando ao mundo, não foi absolu‐ tamente entendido pelo povo judeu. Os sacerdotes não esperavam que o Redentor procurasse a hora mais escura da noite para surgir na paisagem terrestre. Segundo a sua concepção, o Senhor deveria che‐ gar no carro magnificente de suas glórias divinas, trazido do Céu à Terra pela legião dos seus Tronos e Anjos; deveria humilhar todos os reis do mundo, conferindo a Israel o cetro supremo na direção de to‐ dos os povos do planeta; deveria operar todos os prodígios, ofuscan‐ do a glória dos Césares. E, no entanto, o Cristo surgira entre os ani‐ mais humildes da manjedoura; apresentava‐se como filho de um car‐ pinteiro e, no cumprimento de sua gloriosa missão de amor e de hu‐ mildade, protegia as prostitutas, confundia‐se com os pobres e com os humilhados, visitava as casas suspeitas para de lá arrancar os seus auxiliares e seguidores; seus companheiros prediletos eram os pesca‐ dores ignorantes e humildes, dos quais fazia apóstolos bem‐amados. Abandonando os templos da Lei, era frequentemente encontrado ao longo do Tiberíades, em cujas margens pregava aos simples a frater‐ nidade e o amor, a sabedoria e a humildade. O judaísmo, saturado de orgulho, não conseguiu compreender a ação do celeste emissário. Apesar da crença fervorosa e sincera, Israel não sabia que toda a sal‐ 30 (XAVIER / Emmanuel [Espírito] 1980), cap. VII 18
  19. 19. INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO EVANGELHO vação tem de começar no íntimo de cada um e, cumprindo as profe‐ cias de seus próprios filhos, conduziu aos martírios da cruz o divino Cordeiro.31 A Formação do Novo Testamento A princípio a nossa mente ocidental e moderna pode pensar que os evangelhos fo‐ ram escritos de forma unânime por seus autores no prazo de dias ou meses e que sua propagação se deu de modo uniforme. Num mundo globalizado em que vivemos onde a informação trafega no planeta em segundos e estamos conectados do ocidente ao oriente com uma facilidade imensa, não imaginamos, a não ser através de um estudo intenso e de uma viagem de volta no tempo, o quão difícil e árdua foi a tarefa de escrever, copiar e manter os textos do que hoje conhecemos como Novo Testamento. Após a morte de Jesus seus discípulos se viram diante da necessidade de divulgar seus ensinos o que fizeram a princípio de forma oral, as pessoas tinham conhecido o personagem principal da história, e mesmo entre aqueles que não o conheceram, ha‐ via sempre os que lhe foram testemunhas que contavam as histórias e falavam dos ensinos sem maiores problemas. Deste modo eles não se preocuparam em escrever sobre Jesus e nem viam a necessidade de redigir um livro de história com a precisão científica que temos nos dias atuais. Ao que consta, segundo a obra mediúnica de Chico Xavier / Emmanuel32, só haviam os manuscritos de Levi, o apóstolo a quem conhecemos por Mateus; manuscritos estes que eram copiados pelos interessados em obterem material de estudo e reflexão. A tradição cristã confirma esta possibilidade de que antes dos evangelhos gregos e‐ xistiu um texto aramaico que continha os ensinamentos do Senhor. Papias, que viveu no segundo século de nossa era, atribuiu este Evangelho em aramaico a Mateus. Acontece que as testemunhas de Jesus começaram a morrer e seus discípulos se vi‐ ram diante da necessidade de preservar a história e os ensinos, daí outros começaram a escrever e surgiram muitos livros. Provavelmente os manuscritos de Levi também não continham todos ensinamentos e muitos viram a necessidade de ampliá‐los, e naquele momento, diante da necessidade de contar uma história o fizeram de forma narrativa. Isto sem contar as cartas dos apóstolos, entre elas as de Paulo, que surgiram pela necessidade destes orientarem os neófitos do Evangelho à distância. Por um período de aproximadamente quinze séculos o Evangelho foi copiado à mão em papiro ou pergaminho. Temos hoje aproximadamente uns 5500 manuscritos espa‐ lhados pelo mundo afora. É um fato que existem muitas discordâncias entre estes manuscritos e os autógra‐ fos, ou seja os originais escritos por seus autores, que não mais existem. Estas variações tornam difícil saber o que realmente o autor original escreveu daí a necessidade da crítica textual para auxiliar no levantamento dos escritos autênticos. 31 Idem, ibidem. 32 XAVIER, Francisco C./ Emmanuel (Espírito). Paulo e Estevão, 41ª Ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004. 19
  20. 20. CLÁUDIO FAJARDO Lembremos que no primeiro século de nossa era grande era o número de analfabe‐ tos, poucos sabiam realmente escrever e as condições para que isto se desse eram muito precárias. Pouca iluminação, material difícil e caro para se escrever, além disso o tipo de escrita que dificultava a cópia e o entendimento da mesma. Para se ter um ideia, os primeiros manuscritos eram escritos só em letras maiúscu‐ las, sem separação entre as palavras, sem acentuação e pontuação; e em hebraico só se escreviam as consoantes. Muitas palavras eram abreviadas para ocupar menos es‐ paço e economizar material, daí a chance de erro e de se confundir as palavras eram enormes. Em muitos casos os copistas eram profissionais pagos para realizar o serviço, profis‐ sionais estes que nem sempre eram admiradores e estudiosos dos textos. Muitos ou‐ tros faziam anotações próprias nos textos para facilitar a compreensão e na transmis‐ são das cópias era muito comum que estas anotações fossem transcritas como se fos‐ sem do autor original. Não é nosso objetivo escrever um texto de história sobre a formação do Novo Tes‐ tamento, apenas mostrar algumas dificuldades encontradas para que hoje pudésse‐ mos ter em nossas mãos estes livros altamente inspirados e de grande utilidade para nossa formação moral. Existem muitos bons livros e autores que podem ser consultados sobre o assunto sendo este o motivo de não nos estendermos mais sobre o assunto. Segundo depreendemos pelo trabalho dos estudiosos do assunto, por volta do ano 100 de nossa era os livros que compõem o Novo Testamento já estavam todos pron‐ tos, a dificuldade é que existiam uma grande variedade deles, nem todos confiáveis, o que tornou necessário a formação de cânone oficial. Muitos podem alegar que na escolha dos livros pode‐se ter cometido erros de dei‐ xar alguns de fora e colocar outros que não mereciam ali estar. Isto pode ter se dado, entretanto é preciso considerar que o Novo Testamento é o conjunto de livros mais importante que já foi escrito, pois narra a história do Governador Espiritual do Planeta Terra e os Seus ensinos são o maior tratado de educação que já beneficiou a humani‐ dade, portanto, nos que sabemos da realidade espiritual e da Providência que nos diri‐ ge, devemos considerar que na formação destes textos a Espiritualidade Superior deve ter trabalhado com todo carinho selecionando o que melhor deveria ser preservado com fins educativos para todos nós. Podem alegar que estamos sendo muito simplistas ou crentes demais, o que temos a certeza e a convicção de que não. O que acontece é que temos que ter o mínimo de fé para saber que Deus é Pai de toda criação, e que para cuidar deste nosso orbe ma‐ ravilho ele delegou ninguém mais ninguém menos do que Jesus, um Espírito de altís‐ sima evolução e que dele cuida, e por isso, de todos nós, com muito amor e carinho. Outra questão que é preciso se levar em conta quando se estuda o Evangelho den‐ tro de sua proposta prioritária que é a de reeducação moral, é que os Evangelistas não tiveram por objetivo fazer um livro histórico, apesar de que eles foram fiéis aos dados e construíram a narrativa dentro dos padrões da época. Existem muitos dados sobre o 20
  21. 21. INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO EVANGELHO personagem Jesus que nos são desconhecidos, entretanto temos a segurança em afir‐ mar que foram por eles revelado tudo o que não devemos ignorar. A ordem em que os livros foram escritos é outro tema polêmico onde não existe unanimidade. Entretanto entre os estudiosos atuais é quase certo que os primeiros textos do Novo Testamento são as cartas de Paulo, sendo que entre os quatro evange‐ lhos a maioria aceita que o de Marcos é o primeiro, seguido por Mateus, Lucas e João. Os que defendem que Mateus é o mais antigo se baseiam na ideia do Evangelho es‐ crito em aramaico do qual não sobrou nenhuma cópia sequer. Todavia o que parece ser o certo é que se este Evangelho existiu é que ele foi posteriormente reescrito em grego após o de Marcos o que leva a maioria a aceitar Marcos como o primeiro. Além disso ao que parece o Mateus grego usou como uma de suas fontes o texto de Marcos e é mais difícil aceitar que o contrário tenha se dado. Como dissemos o tema é polêmico e em nada altera o excelente conteúdo deste que é o Código de libertação para o Espírito imortal. 21
  22. 22. EVANGELHO: COMO, POR QUE, PARA QUE ESTUDÁ‐LO Evangelho: Como, Por Que, e Para Que Estudá-lo Nosso problema não é se o lemos, ou analisamos, e nem mesmo se “cre‐ mos” nele, intelectualmente falando. Nosso problema é se praticamos ou não seus preceitos. (Russell N. Champlin) Cremos de boa fé que todos os companheiros, propositadamente distancia‐ dos da tarefa religiosa do Espiritismo, assim procedem, diligenciando imuni‐ zar‐nos contra a superstição e o fanatismo, que a plataforma libertadora da própria Doutrina Espírita nos obriga a remover, mas, sinceramente, não en‐ tendemos a Nova Revelação sem o Cristianismo, a espinha dorsal em que se apoia. Isso acontece, porque, se após dezenove séculos de teologia arbitrá‐ ria, não chegaríamos a compreender agora, no mundo, o Evangelho e Jesus Cristo, sem Allan Kardec, manda a lógica se proclame que o Espiritismo e Al‐ lan Kardec se baseiam em Jesus Cristo, de ponta a ponta. (Emmanuel – Opi‐ nião Espírita, cap. 60) No que diz respeito ao estudo do Evangelho faz‐se preciso responder três perguntas: Por que estudar o Evangelho? Para quê? Como? Na resposta da primeira temos que lembrar o que os Espíritos disseram a Kardec quando de uma pergunta feita por este e que é de fundamental importância para o Espírita. Trata‐se da questão 132 de O Livro dos Espíritos: Qual é a finalidade da encarnação dos Espíritos? – Deus a impõe com o fim de levá‐los à perfeição, para uns, é uma expiação; para outros, uma missão. Mas, para chegar a essa perfeição, eles devem sofrer todas as vicissitudes da existência corpórea: nisto é que está a expiação. A encarnação tem ainda outra finalidade, que é a de pôr o Espírito em condições de enfrentar a sua parte na obra da criação. É para executá‐la que ele toma um aparelho em cada mundo, em harmonia com a sua matéria es‐ sencial, a fim de nele cumprir, daquele ponto de vista, as ordens de Deus. E dessa maneira, concorrendo para a obra geral, também progride. E Kardec aprofunda o tema na questão 167: Qual é a finalidade da reencarnação? – Expiação, melhoramento progressivo da humanidade. Sem isso, onde estaria a justiça? Da análise destas questões depreendemos que a questão expiatória só acontece devido à insistência da criatura no erro, assim tem ele na oportunidade reencarnatória a condição de, pela expiação consertar seu caminho quando erra. Sem isso, onde estaria a justiça. 23
  23. 23. CLÁUDIO FAJARDO O objetivo básico da encarnação do Espírito, assim, é o seu aperfeiçoamento, em outras palavras realizar a sua evolução. E como ele realiza isto? Realizando a sua parte na obra da criação, isto é, colaborando. Dissemos ser a compreensão desta questão básica para o espírita, pois ao nosso ver o que distingue o espírita dos cidadãos não espíritas é a capacidade que tem o primeiro de realizar a sua evolução de forma consciente. O espírita não é melhor do que ninguém, entretanto, a Doutrina codificada por Kardec oferece excelentes instrumentos de conscientização para o Ser. Assim, faz‐se necessário saber: por que encarnamos? Ou, o que estamos fazendo aqui? A resposta é a que foi dada pelos Espíritos, encarnamos para nos aperfeiçoar, para evolu‐ ir. E o que é evoluir? Ainda segundo os Espíritos, o arcanjo começou por ser átomo33. Depreendemos daí que o Espírito inicia sua evolução na matéria; no átomo primitivo há o máximo de matéria e o mí‐ nimo de “espiritualidade”. O Fim da evolução é o Espírito puro, onde, se houver matéria é em mínima quantidade, e há espiritualidade em dose máxima34. Concluímos assim, que evoluir é espiritualizar, é ser cada vez menos influenciado pela matéria, até o Espírito Puro que não sofre influência desta. (LE Q. 112) Mais à frente Kardec retoma o tema e pergunta aos Espíritos qual o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem, para lhe servir de guia e modelo? Ou seja, nesta trajetória evolutiva teríamos um guia para nos orientar e um modelo a se‐ guir, e os Espíritos respondem simplesmente: Jesus35 Aqui é preciso compreendermos esta resposta com inteligência, Jesus é o guia e modelo, ou seja, temos que nos orientarmos por Ele e segui‐Lo. Não é Ele quem fará por nós, Ele simplesmente aponta o caminho, mostra‐nos como chegar lá. Ele é o salvador como nos fez crer o cristianismo oficial? É, e não é ao mesmo tempo. Ele não é salvador se entendermos que ele realizará a salvação por nós, isso ele não fará; toda‐ via é, na medida em que nos tira da treva iluminando o nosso caminho. Se tivermos perdidos numa floresta escura sem saber para onde ir, correndo riscos enor‐ mes e alguém acender uma luz e nos guiar até o destino desejado com segurança, esse al‐ guém não foi naquele momento o nosso salvador? Esse é o papel de Jesus, e esta luz é o Evangelho. O Evangelho é sem dúvida alguma o ins‐ trumento de maior segurança que tem o Espírito para realizar a sua evolução. Entendamos por Evangelho não o livro simplesmente, mas os ensinamentos de Jesus. Não podemos des‐ prezar o mapa, mas o mais importante é o território; o instrumento é de grande importân‐ cia, mas não tanto quanto a música. Portanto, podemos com tranquilidade dizer é fundamental para todos nós estudarmos o Evangelho, mas principalmente para nós os Espíritas, já que queremos trilhar o caminho da matéria para o Espírito de forma consciente e com menos percalços. 33 Cf. (KARDEC, O Livro dos Espíritos. 50ª ed. 1980), questão 540 34 Cf. Op. cit. Questão 82: É certo dizer que os Espíritos são imateriais? (…) Imaterial não é o termo apropri‐ ado; incorpóreo, seria mais exato. 35 Idem, ibidem, Q. 625 24
  24. 24. EVANGELHO: COMO, POR QUE, PARA QUE ESTUDÁ‐LO Concluindo podemos dizer que no desejo de responder a primeira pergunta respondemos as duas primeiras. Estudar o Evangelho porque ele é o roteiro de nossa evolução; e para quê? Para assim fa‐ zermos de forma consciente, não mais pelos impactos da vida, nem tampouco por disciplina, mas para atingirmos a condição de fazer o bem com espontaneidade, dentro daquela pro‐ posta citada por Paulo: …é Cristo que vive em mim36 Neste momento devemos responder à terceira questão: Como devemos estudar o Evangelho? Não temos nenhuma receita pronta, mas o estudo e a experiência tem nos levado a pro‐ por alguns recursos que podem nos auxiliar. • É preciso estarmos isentos de quaisquer preconceitos. E aqui devemos analisar o nosso campo mental e a intimidade de nossos corações. • Não estarmos presos a dogmas. • Abrirmos mão do interesse pessoal, observar o que o Evangelho quer dizer e não impor o que queremos a ele. • Quando possível aumentar o nosso patrimônio cultural principalmente no que diz respeito ao conhecimento dos costumes, tradições, história e geografia relativas ao tempo de Jesus e à Palestina de um modo geral. • Sendo necessário interpretarmos o Evangelho à luz da Doutrina Espírita, temos de ter o hábito do estudo constante dos princípios básicos da mesma através das o‐ bras básicas e das subsidiárias. • Extrair de cada passagem o conteúdo espiritual do Evangelho: Jesus, por ser o E‐ ducador Maior da Humanidade, ensinava ao Espírito eterno. Desta forma, temos que ter não apenas olhos para as questões transitórias, mas capacidade de enxer‐ garmos o que verdadeiramente educa o nosso Ser espiritual. …as palavras que eu vos disse são espírito e vida,37 nos alerta o Cristo, segundo anotações de João; ao que Paulo complementa: O que nos fez também capazes de ser ministros de um 36 Gálatas, 2: 20 37 João, 6: 63 25
  25. 25. CLÁUDIO FAJARDO novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, e o espírito vivifica.38 Há ainda três questões importantes que devemos analisar: • Intenção • Subjetividade • Limitação Intenção: Neste tópico é importante refletirmos, com que intenção nos aproximamos do Evangelho? Para ilustrar tomemos por símbolo uma árvore. Uma árvore é sempre uma árvore, porém para alguém que está cansado por uma longa caminhada num dia de sol quente ela pode representar uma oportunidade de descanso e de refresco em sua sombra. Para um artista é ela objeto de inspiração. Uma criança pode ver nela um excelente lugar para amarrar uma corda e fazer um balanço para brincar, enquanto para um marceneiro ela será de grande utilidade como geradora de matéria prima e oportunidade de trabalho. O que representa para nós o Evangelho? Pode ser simplesmente literatura para uns, para outros instrumento de pesquisa históri‐ ca, para o religioso comum ponto de apoio para seus dogmas, enquanto outros o verão co‐ mo instrumento reeducativo e oportunidade de trabalho. Kardec tratou desta questão em O Evangelho Segundo o Espiritismo: Podemos dividir as matérias contidas nos Evangelhos em cinco partes: 1) Os atos comuns da vida do Cristo: 2) Os milagres: 3) As profecias: 4) As pala‐ vras que serviram para o estabelecimento dos dogmas da Igreja: 5) O ensi‐ no moral. Se as quatro primeiras partes têm sido objeto de discussões, a úl‐ tima permanece inatacável. Diante desse código divino, a própria increduli‐ dade se curva. É o terreno em que todos os cultos podem encontrar‐se, a bandeira sob a qual todos podem abrigar‐se, por mais diferentes que sejam as suas crenças. Porque nunca foi objeto de disputas religiosas, sempre e por toda a parte provocadas pelos dogmas. Se o discutissem, as seitas teri‐ am, aliás, encontrado nele a sua própria condenação, porque a maioria de‐ las se apegaram mais a parte mística do que à parte moral, que exige a re‐ forma de cada um. Para os homens, em particular é uma regra de conduta que abrange todas as circunstâncias da vida privada e publica, o principio de todas as relações sociais fundadas na mais rigorosa justiça. É, por fim, e acima de tudo, o caminho infalível da felicidade a conquistar, uma ponta do véu erguida sobre a vida futura. É essa parte que constitui o objeto exclusivo desta obra.39 Como notamos Kardec elegeu o ensino moral como a parte prioritária, do mesmo modo assim devemos fazer consoante aquele objetivo já comentado por nós de aperfeiçoamento 38 II Coríntios, 3: 6 39 (KARDEC, O Evangelho Segundo o Espiritismo. 104ª ed. 1991), Introdução. 26
  26. 26. EVANGELHO: COMO, POR QUE, PARA QUE ESTUDÁ‐LO moral; assim, fomos um pouco além, não só a parte moral, mas faz‐se importante evidenciar o campo operacional do Evangelho como instrumento de aperfeiçoamento. Expliquemos melhor. É que muitos veem no Evangelho seu conteúdo moral, só que usam isso para corrigir o outro, e não a si mesmo. É preciso compreendermos que o Evangelho é instrumento de edu‐ cação do Espírito, e educação além de se fazer pelo exemplo é questão pessoal. Podemos auxiliar no processo do outro, e até devemos assim fazer; mas em verdade, cada um é que educa a si mesmo na medida em que compreendendo o mecanismo busca sua própria ilu‐ minação. Jesus foi claro: Não vim destruir a Torah ou os profetas, na vim revogá‐los, mas dar‐lhes pleno cumprimento.40 Ou seja, a Torah era uma Revelação, já trazia tudo o que necessitamos, Jesus veio para ensinar‐nos a aplicar o conhecimento em favor de nossa efetiva libertação. O desafio com Jesus ultrapassa a questão do conhecer, passa a ser realizar. Subjetividade: Este é um tema de fundamental importância. O item anterior mostrou‐nos que devemos ser objetivos ao nos aproximar do Evangelho e buscar a sua vivência. Neste vamos buscar compreender todo alcance do mesmo. Jesus é um Espírito de grande evolução, é preciso termos a certeza disto. A doutrina espí‐ rita através das informações trazidas por Léon Denis, Emmanuel, Joana De Ângelis, entre outros, nos mostra que Ele é o Guia Espiritual da Terra, é o Construtor do Orbe. Depreendemos disto que há cinco bilhões de anos aproximadamente Ela já era um Cristo, um Espírito Puro. E nós, o que éramos há cinco bilhões de anos atrás? Portanto, a distância espiritual que nos separa Dele é incomensurável. Não temos a mí‐ nima capacidade de compreender o seu estado mental nem a suas possibilidades. Assim, quando Ele veio até nós com o objetivo de educar‐nos Ele teve que adequar a sua mensagem, caso contrário nós não o compreenderíamos. Como a sua proposta é universal e são inúmeros os estágios evolutivos dos Espíritos que habitam nosso planeta, ele teve que dizer de tal modo que, desde os mais imaturos até os mais capacitados de compreensão pudessem entendê‐lo. Assim, seus ensinamentos dizem mais do que podemos supor num primeiro contato com eles. Há uma mensagem clara e há também ensinamentos nas entrelinhas, de tal modo que todos possam se beneficiar com suas lições, independentes da condição evolutiva de cada um. Portanto, ao estudarmos uma passagem evangélica é preciso estarmos atentos para per‐ ceber o que o Evangelho quer nos trazer, é preciso termos habilidade para enxergarmos o invisível aos olhos, trabalharmos o plano da subjetividade, as entrelinhas, dentro de lingua‐ gem habitualmente usada, tirar o espírito da letra. 40 Mateus, 5: 17 27
  27. 27. CLÁUDIO FAJARDO Dizemos assim, porque é muito comum nos aproximarmos do Evangelho não para perce‐ ber o que ele tem a nos trazer, mas para tentar justificar um posicionamento nosso. Fazendo assim, fechamos a porta de nosso entendimento e perdemos uma grande oportunidade de aprendizado. Resumindo, é o Evangelho que tem de nos ensinar algo novo, e não nós que devemos a‐ gregar a ele os nossos interesses e nosso pouco entendimento. Para facilitar a compreensão de como operacionalizar este estudo e consequentemente tirar melhor proveito de seus ensinamentos, aprendemos com amigos que nos antecederam no estudo deste Tratado de Reeducação que respondendo algumas perguntas buscando evidenciar a proposta individual de transformação moral, teríamos assim maior sucesso na interpretação e na compreensão da subjetividade das lições. Assim, ao estudarmos o ambiente ou o local onde as passagens aconteceram, pergunta‐ mos, onde? E notamos que tais perquirições nos oportunizam grandes ensinamentos. Jesus iniciou seus trabalhos na Galileia (simplicidade), ali arregimentou seus discípulos. Caminhou para Jerusalém (espiritualidade), viu necessidade de voltar para a Galileia (simpli‐ cidade, campo operacional) e escolheu passar pela Samaria (conflitos; nestes a oportunidade de fixação dos valores trabalhados em Jerusalém). O momento da ação leva‐nos a trabalhar outra pergunta que muito pode auxiliar‐nos a evidenciar nossa necessidade de novas atitudes na esfera de uma moral mais elevada. Assim perguntamos quando? Nicodemos procurou o Messias à noite. Por quê? Tem‐se tentado dar várias respostas a esta pergunta, muitas podem existir, todavia como nosso objetivo é a reeducação da alma, aprendemos que Jesus é a luz do mundo, quando precisamos de luz? Quando estamos em trevas (noite). Ao contrário, os grandes eventos realizados por Jesus foram durante o dia, por quê? Por‐ que é quando estamos iluminados que devemos operar em favor do bem. Convém que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noi‐ te vem, quando ninguém pode trabalhar.41 A análise dos personagens do Evangelho podem muito contribuir em nossa edificação, as‐ sim perguntamos, quem? Jesus em várias oportunidades escolheu três discípulos para através deles nos deixar grandes lições: Tiago, filho de Zebedeu, João seu irmão e Pedro. Por que assim fez o Mestre, por que gostava mais destes? Não, porque assim ensinava‐nos algo. Tiago representa para nós a capacidade de testemunho, foi o primeiro a ser sacrificado por servir ao Evangelho. Pedro era a firmeza em pessoa ‐ tu és Pedro e sobre esta pedra edi‐ ficarei a minha igreja42. João representa em nossa análise o sentimento sublimado, o amor. Muitos ainda não compreenderam porque ele era considerado o discípulo amado se Jesus não tinha preferências. Esquecem‐se estes que do que damos recebemos, se João se sentia o mais amado era porque naturalmente mais amava. Assim temos três componentes básicos para operarmos em nome de Jesus: • Capacidade de Testemunho 41 João, 9: 4 28
  28. 28. EVANGELHO: COMO, POR QUE, PARA QUE ESTUDÁ‐LO • Firmeza, decisão, prontidão. • Amor Outro fator que muito pode nos auxiliar na proposta reeducativa do Evangelho é a análise das ações em si. Assim perguntamos como? Zaqueau é um personagem típico para esta análise se aprofundarmos “como” se deu a sua conversão. Ele entendeu que Jesus era a sua salvação, o fim de todas as suas angústias. Deste modo quis ver Jesus, queria mais, estar com Ele. Mas onde Jesus ia a multidão o acompanhava, ele era de baixa estatura (pequeno, pouca evolução), como Jesus iria vê‐lo? Como destacar? Assim, ele correndo adiante, subiu a um sicômoro43 Correndo – dinamismo, decisão rápida; tem que fazer o bem, que se faça logo. Adiante – para a frente. Jesus era importante para ele, estava à sua frente. Subiu – se elevou, representando nossa necessidade de elevação espiritual para vermos Jesus e merecermos ser por ele notado. Porém, para ficar com Jesus, para que o Mestre estivesse em sua casa [íntima], teve que descer (cf. Lc, 19: 5), isto é, operar na faixa dos que estavam abaixo [necessitados], e assim fez alegremente (Lc, 19: 6). Há inúmeras outras passagens que poderiam nos servir de exemplos, como há também outros modos de descobrir na subjetividade do Evangelho nosso plano objetivo de realiza‐ ções. Nosso terceiro item é: Limitação: Este quesito diz respeito não ao Evangelho, mas à nossa limitação de compre‐ endê‐lo. Uma das virtudes mais importantes para se trabalhar quando do estudo do Evangelho é a humildade. É preciso termos a compreensão de nossa pequenez em relação à grandeza da proposta da Vida para cada um de nós. Por mais que estudemos, por mais que avencemos em entendimento ainda somos bas‐ tante limitados e é aí que entra a importância de se estudar o Evangelho em grupo. O grupo tem papel fundamental para o bom desenvolvimento do trabalho. Em primeiro lugar porque um dos principais objetivos da Boa Nova de Jesus é nos capacitar para uma proposta de colaboração. Esta é a dinâmica da vida, e nada melhor do que um grupo para alargar esta nossa possibilidade. A convivência é um excelente instrumento de didática. Além deste objetivo, as pessoas nos completam, veem pontos que para nós ainda são obscuros. Outras vezes temos visões deturpadas, nossas experiências de vida podem contri‐ buir positivamente, mas também negativamente nos obstaculizando um melhor entendi‐ mento de determinada passagem. O grupo ao mesmo tempo que abre as possibilidades de 42 Mateus, 16: 18 43 Lucas, 19: 4 29
  29. 29. CLÁUDIO FAJARDO entendimento também nos limita em nossas vaidades e tendências ao interesse pessoal, corrige distorções. Assim, é preciso que as Casas Espíritas formem grupos de estudo do Evangelho, pequenos que sejam, mas grandes em possibilidades pelo desejo de aprender para melhor servir em nome do Cristo. Damos assim por concluída, pelo menos por enquanto, aquela oportunidade de respon‐ der às três perguntas, que de tão importantes, vamos repetir: Por que estudar o Evangelho? Para quê? Como? Bibliografia A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Ed. Paulinas, 1992. ALGAZI, Isaac S. “Síntese da História Judaica.” http://www.scribd.com/doc/23217304/Isaac‐S‐Algazi‐Breve‐Historia‐do‐Povo‐Judeu, 27 de Abril de 2010. ALMEIDA, João Ferreira de. (tradutor). Bíblia de Estudos Almeida. São Paulo: SBB, 1999. BibleWorks For Windows, Versão 7.0.012g. BibleWorks, 2006. CHAMPLIN, Russell N. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. São Paulo: Ed. Candeia, 1995. DENIS, Léon. Cristianismo e Espiritismo 10a Ed. Rio de Janeiro: FEB, 1994. EHRMAN, Bart D. O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse? São Paulo: Prestígio, 2006. HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1983. HOUAISS, Antônio. Dicionário Eletrônico da Língua Portuguesa, versão 1.0. Editora Objetiva, 2001. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 104ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1991. —. O Livro dos Espíritos. 50ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1980. PAULI, Evaldo. Enciclopédia Simpozio. Retirado do Site: http://www.simpozio.ufsc.br/Port/3‐enc/y‐mega/Fund_Cris/4251y236.htm, 1997. SCHULTZ, Samuel J. Tradução: Daniela Raffo. História de Israel no Antigo Testamento. Consultado no Site: www.semeadoresdapalavra.net, acessado em 21 de Abril de 2010. TREBOLLE, Barrera Júlio. A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã, 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1999. XAVIER, Francisco C./ Emmanuel (Espírito). A Caminho da Luz, 10ª Ed. Rio de Janeiro: FEB, 1980. XAVIER, Francisco C./ Emmanuel (Espírito). Paulo e Estevão, 41ª Ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004. 30

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