Espiritualidade bíblica-crocoli

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Polígrafo de espiritualidade bíblica do frei Aldir Crocoli, OFMcap. Disponível em http://www.estef.edu.br/arno/wp-content/uploads/2011/06/Espiritualidade-b%C3%ADblica-Crocoli.pdf acesso 20110729

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Espiritualidade bíblica-crocoli

  1. 1. ESPIRITUALIDADE BÍBLICA Frei Aldir Crocoli, capuchinho. “Espiritualidade” é uma realidade difícil de definir, por ser um substantivo abstrato. Arealidade concreta da qual deriva espiritualidade é “Espírito”. Ainda que não possa ser visto,palpado ou tocado por não ser material, ele é muito concreto. Não dá para se duvidar de sua“forma”. É o Espírito que dá concretude à existência e a configura por dentro e por fora, na suainterioridade e em todas as suas relações. A “espiritualidade é o modo de vida de uma pessoa ondeo Espírito está presente, age, atua, comunica, inspira, determina”. Espiritualidade é o resultado dapresença transformadora do Espírito. É a sintonia ou conexão do espírito da pessoa com o Espíritode Deus, da vida de alguém com a Vida de Deus. Toda a caminhada da espiritualidade consistiráem permitir (= convidar e conceder real permissão) ao Espírito de Deus agir em nossa vida, emnosso espírito. É um trabalho muito exigente em nós, a fim de possibilitar que Ele seja Ele em nós,sem restrições. Os momentos de oração não são sinônimo de espiritualidade; são seu termômetro esua condição, mas não se equivalem. A espiritualidade bíblica não é outra coisa do que conseguir sintonizar com o Espírito deDeus que a Bíblia revela. E, sabe-se, não é o espírito de qualquer Deus; é do Deus de nosso SenhorJesus Cristo, Verbo do Pai. O povo bíblico fez uma experiência “canônica” desse Deus, no sentidode que é uma experiência referencial e paradigmática à qual todos e sempre precisamos nosreportar e confrontar para ter garantia de estar no rumo certo em termos de espiritualidade. Ela é arégua que nos permitirá traçar linha reta entre o Espírito de Deus e nossa cotidianidade vital. EsteDeus é a resposta ao donde viemos e para onde vamos. É importante, pois, conseguir identificar o“rio da vida divina” que vai percorrendo da primeira página do gênesis à última palavra doapocalipse, tecendo curvas, saltando cascatas, criando remansos, formando ilhas ou represas, oradeslizando suavemente por entre rochedos, ora recebendo o sol no rosto, ora se apresentando demodo límpido e ora bem turvo e violento, mas sempre semeando abundância de alimentos eremédios que a todos saciam e curam, como descreve o profeta Ezequiel (47,1-12). Pretende-se abordar aqui neste ensaio uma possível síntese da espiritualidade bíblica em suaperspectiva histórica. Serão apenas alguns aspectos dos principais momentos que marcaram acaminhada de fé do povo e que se constituem em traços característicos que possibilitam reconhecerquer o rosto do Deus que o foi conduzindo quer o rosto do povo que o foi buscando e descobrindoao longo de séculos de experimentação e tateio. Espera-se que forneça pontos de referência parauma visão de conjunto e sirvam como um ponto de partida para ulteriores aprofundamentos. Se otexto ajudar despertar e avivar a “sede de Deus” e purificar o conceito que temos de espiritualidadejá terá obtido seu resultado. 1 A formação histórica da experiência bíblica fundante A Espiritualidade Bíblica, como uma espiritualidade revelada e canônica (normativa), teveseu início entre os séculos XIII e XII aC. Ela foi gestada qual criança no útero da história. E, aonascer, mostrou um "salto qualitativo" de vida em relação à anterior, mal comparando, como osurgimento hipotético do homem dos ancestrais antropóides. A revelação não se opõe à concreçãohistórica. Antes, a revelação é sempre um movimento de mão dupla: é Deus que vem ao encontro
  2. 2. Espiritualidade Bíblica 2da humanidade revelando seu rosto, seu coração e sua prática; e é, ao mesmo tempo, a humanidadecaminhando na descoberta do Senhor, fruto de sinceras buscas. Entre os teólogos biblistas é cada vez maior o consenso de que o tempo do êxodo, isto é, otempo dos séculos imediatamente anteriores ao início do último milênio antes de Cristo, foi esteberço do "nascimento" da experiência e da espiritualidade bíblicas por excelência. Antes daquela data a humanidade vivia uma compreensão de Deus e uma prática religiosaque era muitas vezes criada e sustentada pela estrutura de poder e dominação política. Cada reinotinha seus deuses, criava suas festas e ritos. Geralmente, os deuses estavam muito ligados ànatureza e às lides da vida agrícola (visão funcionalista de deus) e/ou ao poder político. Os reiseram sempre profetas e embaixadores participantes da divindade, quando não semideuses (filhos dedeuses). A religião estava, pois, a serviço da dominação. Como aconteceu a "grande virada" destacosmovisão religiosa? Segundo as recentes pesquisas bíblicas, podem ser assim descritas asdiversas experiências que confluíram para a formação da assim chamada "experiência fundante"ou experiência básica da fé. Ainda hoje é extremamente útil para se poder compreender e viveradequadamente a espiritualidade proposta pela Bíblia. Para a formação da experiência fundante de Deus na Bíblia, confluíram ao menos trêsprincipais experiências religiosas de diferentes povos: a do grupo mosaico, a dos seminômades doSinai e a dos seminômades palestinenses. Segundo as pesquisas das últimas décadas relativas aolivro e ao tempo do Êxodo e à formação do povo de Deus, a formação da experiência fundanteteria acontecido num processo ecumênico de genuína fusão dessas várias experiências de Deus: 1.1 O grupo mosaico. As pessoas envolvidas nesta experiência quase todas escravas noEgito. O grupo mosaico era composto por trabalhadores de tribos designados para edificar Pitom eRamsés, as novas residências imperiais junto ao Nilo e ao mesmo tempo fortalezas e celeiros. Aresistência do grupo veio consolidar-se com a liderança de Moisés. Pressionaram para sair... Foramperseguidos... Ficaram livres, quando os carros do Faraó sucumbiram no mar. O Deus desses escravos foi se revelando a eles como o Deus da Libertação, que elestambém chamam apenas e genericamente de “EL”. Em contato com os nômades das montanhasdo Sinai algumas décadas depois passarão a chamá-lo de "JAVÉ". Esse “El” é um Deus que mostrasua força em meio à história: Ele liberta com mão forte e braço estendido. A intervenção históricade libertação tornou-se o principal traço do seu rosto. “EL” efetiva sua ação a partir dosmarginalizados (mulheres, crianças e homens oprimidos). Resgata-os da opressão, como seu"Goél", seu padrinho, seu parente mais próximo que paga o valor do resgate (a teologia daredenção tem seu ponto de apoio histórico aqui). De fato, esse povo constituído de escravos saído do Egito (em situação similar aos“hapirus” da Palestina que eles encontrarão na caminhada) era portador de uma experiência que lhedeu o “know how” (a experiência prática) de libertação para oferecer a outros. Eles, pobres efracos, conseguiram vencer a maior das potências do mundo político de então: o Faraó do Egito eseu exército. Eis alguns passos deste processo que Paulo Cerioli detectou com olhos de quemtambém experienciou, na prática, processo semelhante:a) Dentro da mais dura escravidão começa com as parteiras Séfora e Fua uma desobediência civil euma resistência à opressão (Ex l, 15-22). Elas não cumprem as ordens do Faraó. Recrudesce amaldade do Faraó que manda os seus compatriotas matar todas as crianças que nascem dessesescravos, a fim de que não se tornasse um grupo forte (Ex 1,22).
  3. 3. Espiritualidade Bíblica 3b) Diante deste obstáculo político e jurídico, o povo escravizado avança na luta, aprendendo a usaro sentimento maternal das mulheres dos poderosos para forçar a adoção. Aprendem, com aassistência de “El” a usar a falta de compromisso dos poderosos com os filhos e conseguemcontratar as verdadeiras mães como amas. Estas os educam na tradição dos empobrecidos e aindasão pagas para esta tarefa (Ex 2, 1-10).c) Começa a organização para a fuga. Como furar o cerco da vigilância do exército? Para burlar avigilância solicitam três dias para ir oferecer sacrifícios ao seu “El”, deserto a dentro (Ex 5,3). OFaraó desconfia e aumenta a repressão e a exploração. (Ex 5, 6-9). Ele usa o estratagema de jogar amassa contra a liderança (Ex 5,21): os inspetores hebreus se queixam amargamente a Moisés! Epor pouco o Faraó não consegue criar divisão entre o povão e a liderança!d) O povo descobre que precisa pressionar, pois libertação não se consegue de “mão beijada”.Voltam a negociar com o Faraó a romaria de três dias. Este concorda apenas que seja feita dentrodo país (Ex 8,21). O povo dá uma desculpa e insiste que tem de ser a três dias de viagem. O Faraódesconfia e se dá conta das verdadeiras intenções do grupo de Moisés, mas deixa ir desde que nãoseja muito longe, pois aqueles escravos estavam se tornando uma “praga” para o governo central. Opovo aceita, mas logo o Faraó “rói a corda” (Ex 8,28).e) Nova negociação, e o Faraó permite que façam a dita “romaria” desde que só os homensparticipem dela. Ele se deu conta de sua verdadeira intenção (Ex 10,11). Assim seriam obrigados avoltar a suas famílias. Recorde-se que as mulheres iniciaram a resistência! Por isso, o povo recusae são expulsos da sala de negociação.f) Pouco depois, o povo força e desta vez o Faraó aceita que vão também as mulheres e crianças,mas não podem levar nada. Ir de mãos abanando (Ex 10, 24). A fome obrigaria a retornar logo. Opovo não aceita, é expulso da sala de negociação e ameaçado de morte se voltar aí com a mesmareivindicação. Êxodo 10,28 diz “Saia da minha presença e se eu tornar a vê-lo, você morreráimediatamente”.g) Diz Cerioli, o povo se dá conta, então, que é preciso radicalizar. Traçam um plano bemdetalhado, até com senhas nas portas das casas para não haver engano (Ex 12, 23). E, à horamarcada, o “anjo” entrou em cena. Desespero... Levam tudo o que podem. Quando o Faraó tomaconsciência da situação manda o exército atrás. Este, com seus carros pesados que atolavam naareia molhada e no barro, não consegue avançar. (Com uma mudança do vento pode ter vindo umamaré...) Os escravos conseguiram escapar (Ex 14, 9). Uma experiência assim não dá paraesquecer1. Ela conferiu autoridade (know how) a seus portadores. Na caminhada pelo deserto seencontram com outros povos seminômades da região do monte Sinai aos quais somam suaexperiência de fé. Esta experiência foi, aos poucos, sendo refletida e transformada em “teologia”. Com ela seelabora a página mais famosa do Êxodo, onde Deus des-vela seu rosto: um Deus que mudou departido. É de sua essência estar do lado do “lascado”, comprometido em devolver-lhe a dignidadeusurpada. É o Deus da libertação. Esse “EL” abandonou os grandes para aliar-se aos pequenos,como mais adiante veremos. O coração desse Deus é constituído de “compaixão pelo oprimido”,arrancando-o da escravidão”. Este é o traço característico de seu rosto. Em Êxodo 3, 7-8 está1 CERIOLI, Paulo. O Ensinamento social da Igreja e o direito de organização social dos empobrecidos. Petrópolis:Vozes, 1994, p. 22. É uma bela leitura do texto desde uma experiência vivida nestas lutas pela liberdade e pela possepela terra.
  4. 4. Espiritualidade Bíblica 4sintetizado o que de mais relevante o Deus dos “menores” pode dizer de si: "Vi a aflição do meupovo...desci para livrá-lo... e para fazê-lo subir..." 1.2 Os seminômades do Sinai e o seu deus Javé. O grupo sinaítico é extra-palestinense.Viviam ao sul do Mar Morto, embora difícil de precisar aonde com exatidão, porque também omonte Sinai é difícil precisar. Ali Deus se chamava “Javé”. Era assim conhecido bem antes deMoisés. Javé se apresentava com duas características principais:a) É um Deus epifânico, mais que teofânico, isto é, é um Deus que se manifesta sobretudo nahistória mais que nos fenômenos naturais. Tanto o travão como os “atos de justiça de Deus nahistória” são suas revelações. Por isso, ele tem também algo de "migrante" como entre osseminômades da Palestina.b) Mas o matiz principal é sua militância. É um Deus que não admite outros deuses a seu lado eluta bravamente na defesa dos seus protegidos (Ex 20,3). Esses seminômades, com a invasão dos edomitas no século XIII aC foram obrigados amigrar para a região da Palestina. 1.3 Os seminômades palestinenses e seu deus paterno. Os povos seminômades quehabitaram a região sul da atual Palestina, com o enfraquecimento do poder controlador do Egito,tinham conseguido criar focos de resistência cá e lá. Organizaram-se como segmentos sociais,opondo-se, sobretudo, à política econômica dos reinos-cidades. Tinham um projeto social anti-Estado e anticidade. Deram o nome de ISRA-EL ao seu país. Este nome, mencionado emdocumentos do Egito de 1220 aC, é formado de uma frase: ISRA, verbo que significa "luta/lutará"(ação não concluída) e EL, como sujeito, denominação genérica de Deus em quase todo o OrienteMédio de então. Isto é, naquele contexto de sociedade religiosa, formaram a consciência de queseu "Deus" tem a ver diretamente com a defesa dos espoliados e lascados, pois senão eles nãoteriam conseguido resistir à dominação egípcia e de outras cidades-reino. Formaram a consciênciade que Deus lutava ao seu lado, em sua defesa, exatamente por ser um povo pobre, espoliado,migrante, refugiado nas montanhas. Por essa razão eram conhecidos pelo apelido depreciativo de“hapirus” Este povo era criador de cabras e ovelhas. Vivia nas montanhas. A descoberta das cisternase do ferro lhe proporcionava chances de sobrevivência e até de agressão aos outros com o objetivode conseguir pequenos espaços de terra para plantar. Como não tinha terras, vivia em permanenteêxodo. Sua consciência de povo não lhe era dada pela terra, pelo lugar, e sim pela unidade clânica.O ancestral era o ponto de identificação. O clã conferia a verdadeira identidade. Assim foi comAbraão, Isaac, Jacó, Rebeca, Esaú (provavelmente cinco clãs totalmente diferentes e depoiscosturados na história em família linear para solidificar uma aliança). O deus (EL) dessesseminômades apresentava as seguintes características:a) Entre deus e a pessoa existe uma relação imediata e pessoal. Inexistem relações complexas taiscomo sacerdócio e templo. Sonhos e mensageiros estabelecem a relação entre o divino e o humano(Gn 18; 28). Este "deus paterno", “Deus do pai”, do ancestral, é um deus pessoal, não no sentidode acontecer no indivíduo na compreensão moderna do termo, mas enquanto acontece naexperiência do coletivo clânico, sem a mediação de instituições sagradas.
  5. 5. Espiritualidade Bíblica 5b) Este deus pessoal, paterno, é o El da companhia. Não são as pessoas que peregrinam a El e obuscam em algum lugar sagrado (templo). É El quem vai junto com seus protegidos. Por isso é um"Deus migrante" (carregam a Arca da Aliança em suas andanças). O migrante conta com Ele nocaminho. É celebrado na partida, na chegada e nas paradas. A história de Jacó é muito elucidativaneste sentido (Gn 26 a 33). Veja-se, sobretudo: Gn 26, 12-25; 28, 10-22; 32, 23-33, etc.c) É Deus da promessa. Gn 12-50 estão repletos de utopias e de promessas de terra edescendência, exatamente as duas maiores aspirações para uma pessoa e de um grupo socialdaquele tempo e lugar. Ele anima a caminhada do povo com visões sobre o futuro. Vive-se aí umaexpectativa de posteridade, terra e bênção. 1.4 A fundição da experiência fundante do Deus Bíblico. O encontro de pelo menosesses três grupos, todos migrantes, foragidos e espoliados, foi possível devido à situação comum deexploração que viviam e à forte utopia que carregavam dentro de si. Eles representavam umprojeto alternativo de vida e organização social. As diferenças na compreensão de Deus foramsentidas como complementares. Ao grupo mosaico, porém, coube o papel especial, pois ele venceraa opressão faraônica, enfrentando-a cara a cara. Esta era a melhor das "boas notícias". Era assim ogrupo "evangelístico". Veio a servir de catalisador da memória histórica. Sua experiência fez-seconstitutiva e fundante e se tornou uma “memória perigosa” porque é fonte de transformação erevolução no autêntico sentido da palavra. Esta integração entre as diferentes tendências teológicas não se deu ao acaso. Houve eixosao redor dos quais foi ocorrendo a aproximação das memórias religiosas.a) Por um lado o javismo tribal se enucleava em torno de experiências históricas com o divino.Seu eixo era a interpretação da história, não a interpretação da natureza. O javismo é, desde asorigens, uma hermenêutica, uma leitura da história.b) Por outro lado, o javismo era estritamente relacionado à gente espoliada. É o caso doslavradores emigrados das planícies, após séculos de sofrimentos pelos saques egípcios. É o casodos seminômades como Sara e Abraão, para quem a simples aproximação das cidades significavaum perigo. É o caso dos beduínos do Sinai. É o caso dos escravos, extorquidos junto a Ramsés ePitom. O javismo é, claramente, uma interpretação da história a partir dos excluídos, de mulherese homens massacrados2. "Deus ouve o clamor do povo" (Ex2, 23-24). Esta certeza percorre a Bíblia, especialmenteo período da formação do povo de Deus, como a seiva percorre a árvore, desde a ponta das raízesaté a extremidade das folhas. Esta é a novidade da Bíblia, a experiência revelada: a certeza de queDeus ouve o clamor. Deus se colocou ao lado dos oprimidos, os libertou da opressão e lhes deu agarantia: "Eu estou com vocês" (Ex 3, 12). Toda esta experiência de Deus foi expressa no nome Javé. Os autores do livro do Êxodocriam um fato, uma elaboração teológica para explicitar sua compreensão de Deus, ponto decisivona vivência de uma espiritualidade (3, 7 -15). Este texto foi tecido com tanta arte, que parece umapintura onde as letras do nome formam os traços do rosto de Deus: Ex 3,7 ............Eu vi a miséria do meu povo .....................................................................2 Cfr SCHWANTES, M. As tribos de Javé, uma experiência paradigmática. Em: P. SUESS (org.) Queimada esemeadura. Petrópolis: Vozes, 1988, pp 153-166. É uma bela síntese da grande obra de GOTTWARD "As tribos deJavé"
  6. 6. Espiritualidade Bíblica 6 Ex 3,7 ....................ouvi o seu clamor ............................................................................ Ex 3,8 ................... desci para libertá-lo ......................................................................... Ex 3,10 ................. eu te envio para fazer sair o meu povo............................................... Ex 3, 12 ......................... ESTOU com você .................................................................. Ex 3,14 .......................... ESTOU QUE ESTOU ............................................................. Ex 3,14 .......................... ESTOU me mandou até vocês ................................................. Ex 3,15 ..........................JAVÉ (ESTÁ) me mandou até vocês ......................................... Ex 3,15 .. .....este é o meu NOME para sempre ................................................................. Ex 3,15 ... esta será a minha INVOCAÇÃO de geração e geração ......................................... Estas frases mostram que o nome JAVÉ (em hebraico JHWH, isto é, ESTÁ no sentido depresença comprometida) deve ser entendido como sendo abreviação de ESTOU QUE ESTOU.Exprime a absoluta certeza da presença de Deus junto ao seu povo. É como se Deus dissesse aMoisés: TÔKETÔ, isto é, “certissimamente estou com você nesta missão de fazer sair o meu povodo Egito. Disso você não pode duvidar". E ao que tem coragem de crer neste nome e de invocá-loDeus responde: "Eu vou protegê-lo, porque ele conhece o meu NOME. Ele me invoca e eu vouatendê-lo" (Sl 91,14)3. Esta compreensão e relação com Deus fez com que o povo elaborasse um novo projetosocial, baseado na partilha dos bens ao invés de seguir a lógica da concentração (Ex 16), na partilhado poder onde muitos participam das decisões (Ex 18), numa legislação realmente em favor dosmenos favorecidos e da defesa e promoção da VIDA (Ex 20), etc. Mas também esta experiência deDeus fez surgir condensações em forma de oração ou de catequese que iam assim perpetuando suamística através dos tempos. Nasceram destarte diversas formulações do “CREDO” cujoconteúdo será abordado no próximo item por ser extremamente interessante e estar presente emmuitos salmos, hinos e reflexões teológicas na Bíblia. 2 Os “dogmas do credo" histórico do povo bíblico Parece ser elucidativo ter presente aqui o "Credo": do povo bíblico conhecido amplamenteno VI século aC, mas de origem muito anterior. Estão presentes na Bíblia três versões: a versãolitúrgico-celebrativa (Dt 26, 5b-10), a catequético-educativa (Dt 6, 21-25) e a versão política (Jos24, 1-13). Eles reúnem os vários elementos acima mencionados: a itinerância, o reconhecimentoda situação de opressão, a interpretação de Deus na história, etc. Será apresentada aqui apenasuma versão para facilitar sua observação e para dispensar o trabalho da busca: "Meu pai era um arameu errante: ele desceu ao Egito e aí residiu com poucas pessoas. Depois tornou-se uma nação grande, forte e numerosa. Os egípcios, porém, nos maltrataram e humilharam, impondo uma dura escravidão sobre nós. Clamamos então a Javé, Deus de nossos antepassados, e Javé ouviu a nossa voz. Ele viu nossa miséria, nosso sofrimento e nossa opressão. E Javé nos tirou do Egito com mão forte e braço estendido, em meio a grande terror, com sinais e prodígios. E nos trouxe a este lugar, dando-nos esta terra: uma terra onde corre leite e mel. Por isso, aqui estou, Javé, com os primeiros frutos da terra que tu me deste" (Dt 26, 5b - 10a).3 CRB . A Formação do Povo de Deus. Rio de Janeiro: CRB/Loyola, 1990, 60-62.
  7. 7. Espiritualidade Bíblica 7 Detendo um pouco o olhar sobre esta formulação do credo histórico do povo bíblico, pode-se perceber aí alguns gonzos (grandes ferrolhos/dobradiças), os alicerces, os "dogmas" 4 da grandeexperiência de fé que formam como que a mística da espiritualidade bíblica. Parecem estes, emgrandes linhas:2.1 Éramos escravos no Egito e clamamos a Javé. "Os egípcios nos maltrataram ehumilharam, impondo uma dura escravidão sobre nós" (Dt 6,21; 26,6). O credo inicia declarando acondição de espoliado e explorado, de pobre, itinerante e marginalizado. O povo revela a Deus suasituação de grande necessidade: vive na miséria, luta pela sobrevivência. Sente-se joguete dosgrandes impérios que usam as pessoas em função de seus interesses econômicos, políticos emilitares. É o povo todo nesta situação! E Javé vê esta situação (Ex 3, 7). Hoje também nossa relação com Deus deve começar com a confissão de nossacriaturalidade, de nossa fragilidade e pequenez, além de sempre ser realizada desde os maispequenos, desde a opção pelos pobres. A Virgem Maria reza que Deus olha para a humilhação dospequenos e rejeita os soberbos (Lc 1,51). Jesus mostra que a oração do orgulhoso é vã (Lc18, 8-14). São Francisco no Cântico do Sol confessa que “homem algum é digno de sequer nomear aDeus”. Sem descer do trono da auto-suficiência (seja psicológica, econômica, cultural ou social)não se encontra Deus, pois é a pior forma de ateísmo (Ver Gênesis). Por outro lado, também a alienação impede a manifestação de Deus na história, porque apessoa pobre é como que cegada pelo sistema. Não lhe permite ver a realidade que vive e assimdiscernir as forças do mal e o agir de Deus. Um trabalho pastoral sério não pode dispensar estadimensão da fé bíblica.2.2 Ele (Javé) ouviu nossa voz. Ele viu nossa miséria, nosso sofrimento e nossa opressão(Dt 26,7). Javé "ouve" o grito: "conhece" os sofrimentos. Ele reconhece o valor da pérolaenlameada, o imenso valor contido em vaso de barro. É a experiência do “Deus Oprimido” comodiz Benjamim González Buelta. O Deus Bíblico é um Deus sensível ao sofrimento, um Deus quenão se conforma com o sofrimento injusto. É um Deus "humano", o Deus da compaixão, que tementranhas de misericórdia, incapz de esquecer seus filhos (Os 11,8). Não é indiferente aospequenos e sem voz e vez. “Nosso Deus põe-se do lado dos famintos e injustiçados, dos pobres eoprimidos, dos injustamente vencidos", como canta a versão do salmo 145 de Valdeci Farias. Eletoma o partido dos indefesos. Ele é o verdadeiro Goel do povo, o padrinho que resgata daescravidão, como o livro do Levítico o apresenta (25,25.39-40). São João evangelista vai retomareste conceito de Go’el para falar do Espírito Santo. Ao dizer “paráclito” está na prática traduzindoeste conceito do AT. 2.2 Javé nos tirou com mão forte e braço estendido, com sinais e prodígios contra o Faraó (Dt6,22;26,8). O povo reconhece a força de Deus intervindo no processo de libertação. Não fosse Elenão teria havido a libertação. Sentiram que Deus os impelia a lutar, a buscar a libertação de todasas formas: unindo-os por serem muito dispersos e desentrosados; fortificando-os por não teremnenhuma experiência de luta contra as astúcias e a força dos grandes, etc. Não por uma intervençãomágica ou milagrosa na história, mas mediante a força das lideranças humanas como Moisés,Aarão, Míriam, Josué, etc5. Os egípcios confiavam em forças exteriores (carros e cavalos), ao passoque os hapirús, confiavam em Deus presente neles.4 A palavra "dogma" aqui não tem a acepção de verdade revelada e afirmada solenemente pela Igreja. Antes éempregada como simples sinônimo de “querigma” ou conteúdo de fé.5 Cf. CERIOLI, Paulo. O Direito de Organização dos Empobrecidos. Coleção "Ensino Social da Igreja" Vol. VI.Petrópolis: Vozes, l994, 21-27.
  8. 8. Espiritualidade Bíblica 8 Captar a presença libertadora de Deus na história é sinal de maturidade de fé, mas ao mesmotempo passo possível apenas àqueles que vivem as duas condições anteriormente citadas.2.3 Javé introduziu-nos na terra que havia prometido a nossos antepassados, terra onde correleite e mel (Dt 6,23; 26,9). Não bastou tirar da escravidão; Javé conduziu o povo a uma nova terraque também pode significar aqui, uma pátria, uma organização sócio-político-econômica emfunção da vida. Muitas vezes na Bíblia aparece a menção de Jerusalém como símbolo de umanação/povo organizado em favor de seus cidadãos e não em favor do dinheiro ou do poder. De fato,não existe vida sem terra e trabalho para todos. O compromisso de Deus com o povo é conceder-lhe terra abundante e boa (onde "corre leite e mel") para plantar, morar, organizar-se (semnecessidade de esconder-se), sentir-se em casa, ter um lugar ao sol, ter uma identidade político-social. A promessa e a utopia são parte inerente da Espiritualidade Bíblica. O Evangelho falará emcêntuplo e abundância de vida.2.5 Então Javé nos ordenou cumprir todos estes estatutos, temendo a Javé para que semprenos corra tudo bem e para nos dar a vida (Dt 6,24). Não basta estar numa terra fértil. Faz-se misterresponder de modo mais efetivo e compromissado. É preciso chegar a uma organização social maisjusta, instituir um compromisso, criar um "ethos" que faça respeitar e promover a verdadeira vida.Os mandamentos são, por um lado, o fruto da sabedoria do povo porque levam à convivênciapacífica e fraterna, onde todos, especialmente os mais fracos, são respeitados e amparados. Umalegislação social adequada é, assim, o outro lado da medalha do presente da terra e de sua garantia.Por outro lado, a LEI é o símbolo da sabedoria de Deus, pois por meio dela o povo tem umagarantia de vida, como expressa e canta muito bem o maior salmo 119 (118) - e também o salmo 19(18). Neste sentido os mandamentos são assim a melhor expressão da aliança de Deus com seupovo e, da parte deste, um compromisso de caminhar para a felicidade. Dos cinco aspectos mencionados, apenas um é de responsabilidade do povo. Porém semesta participação e colaboração humana, Deus não realiza sua parte, pois Ele apenas sabe lidar comsujeitos livres e responsáveis. Nestes cinco gonzos se articulará a fé do povo bíblico: o reconhecimento da situação demiséria, a compaixão (ouvido) misericordiosa de Deus, sua intervenção libertadora na história, odom da posse de uma terra6 e os mandamentos (aliança) como expressão e organização sócio-política. Esta experiência de quase três séculos marcou indelevelmente o povo de ISRA-EL. Foi umtempo decisivo para o restante da caminhada do povo. O tempo todo dos juizes foi vivido sob oinfluxo direto desta organização marcada pela fé no Deus "Go’el" 7. Depois que o povo, sob ainfluência das nações vizinhas optou por ter um Rei, o império tornou inviável aquela organização.A mística também ia se esfriando na grande maioria do povo. Foi quando surgiram os primeirosprofetas, pelo século X aC como memória subversiva do passado. 3 – O projeto de Deus6 Josué 24, 13: “Eu vos dei uma terra pela qual não suastes, cidades que não construístes e nas quais agora viveis,vinhas e olivais que não plantastes e dos quais agora comeis”.7 Eis algumas passagens onde Deus é mencionado como Go’el: Nm 35,19; Is 41,14; 43, 14; 44,6.24; 49,7; 59,20; Jr50,34; Sl 19,15; 78, 35; Jó 19,25; Rt 2,20.
  9. 9. Espiritualidade Bíblica 9 O projeto de Javé8 que sustentava a experiência fundande, segundo Frei Carlos Mesters,tinha as seguintes características:1a – Sociedade igualitária. Ao contrário das demais organizações nacionais, o povo de Isra-elcaminha como uma sociedade sem classes. As diversas tribus eram, não como se pensa deparentesco de sangue, mas grupos sociais com autonomia, em pé igualdade com os demais.2a – Autonomia produtiva. A terra, praticamente único meio de produção de bens, não podia servendida ou comprada; apenas usada. A instituição do ano sabático e do ano jubilar tem por objetivofazer devolver a terra aos que a perderam por razões várias. A acumulação de bens, portanto, estáproibida.3a – Descentralização do poder. No sistema tribal o poder se exerce na forma de subsidiaridade,isto é, o que pode ser decidido na base não deve ser levado para uma instância superior. Ex 18 é otexto chave. Os pais e anciões execem esse poder. A tentação do poder corrompe a cabeça e opensamento.4a – Leis que defendem o sistema igualitário. Os dez mandamentos foram criados nestaperspectiva e não como geralmente são lidos e explicados. Estão aí para defender a vida e o projetode liberdade e igualdade do povo como um todo. Quando lidos numa ótica inidividualista emoralista perdem seu sabor e alcance.5a – O bem de todos é defendido pela união de todos. Instituiu-se o compromisso desolidariedade e de ajuda mútua. Em épocas de crise externas todas as pessoas, de todas as tribos,capazes de manejar armas, se organizavam para a defesa. Veja-se o livro dos Juízes.6a – Socialização do saber. O saber é um poder. Logo democracia da informação, dos segredos dasartes, das ciências e da religião.7a – Fé no Deus único. Ao dizer que Deus é um só não se afirma número, mas no sentido seexclusividade: Deus é só este que se apresentou como libertador, oposto à opressão e à exploração.Por isso que amar esse Deus é o mesmo que amar o próximo como a si mesmo. A pergunta maisséria que um seguidor de Jesus Cristo deve se fazer diariamente não é se crê em Deus, mas sim“em que Deus crê”?8a – Culto descentralizado que celebra a vida e a história. Agora os chefes de famílias presidemo culto, não só os sacerdotes. Mais que ritos e normas eram celebrados fatos e realidades da vida.9a – Sacerdotes sem terra. Um sacerdócio sem grandes bens é uma garantia de fidelidade a Deusdos sacerdotes. O ter e o poder, quando ligados ao sagrado, são muito perigosos e tentadores! 4 A espiritualidade (do tempo) dos profetas Os profetas não criam uma espiritualidade nova. Bebem da grande experiênciaparadigmática de todo o povo bíblico e a atualizam. Denunciam tudo quanto contradiz a místicaque conferiu identidade e se concretizou na aliança de Deus com seu povo. Cada profeta segundo8 Carlos MESTERS. O projeto de Deus. Petrópolis: Vozes, 1985, 22-35.
  10. 10. Espiritualidade Bíblica 10seu contexto retoma a experiência bíblica fundante e confronta-a com a realidade em que a naçãoestá imersa. Cada profeta olha para a realidade que vive, compara-a com a experiência “canônica”e depois fala em nome de Deus. Segundo Milton Schwantes9 a espiritualidade profética se situa entre a lei e a sabedoria. Alei enquanto ponto de chegada de um processo de libertação, expressão e memória da aliança paramanter a vida e a liberdade em abundância, e a sabedoria enquanto contemplação da vida presente,a observação da vida com o olhar da fé. É emblemático o fato do “retorno à experiência fundante” vivido pelo profeta Elias, oprofeta considerado como referência e modelo por toda a tradição bíblica, mesmo no tempo deJesus. Na transfiguração ele aparece ao lado de Moisés, testemunhando a favor de Jesus. Ele tinha,então, “autoridade”, mas isso não o dispensou de “re-fazer” a experiência. Ele andava esquecidodeste modo epifânico de ser de Deus e confiava nas manifestações teofânicas. Tinha aparentecerteza de que Deus se revelava por fenômenos naturais, fazendo chover, cair fogo do céu, etc. Noentanto, como narra 1 Reis 19, 1-18, Elias, depois de batalhar violentamente a favor de Javé, foge enesta fuga é conduzido por Deus, meio sem o saber, em direção ao Horeb (Sinai) onde seus pais nafé haviam vivido a grande experiência. Sobe a montanha, “enfia-se na gruta”. Segundo aexpectativa corrente da fé, Deus confirmaria seu procedimento com algum fenômeno natural,hierofânico. Era assim que pensava a teologia do tempo. O texto mostra que Deus não se encontrano furacão, no terremoto e nem no fogo. Ele precisou se desfazer destas seguranças teológicas,voltar ao “cotidiano histórico”, à brisa, e então “ouve” claramente a voz de Javé que o “reenvia àhistória”, reorganizando política e religiosamente o povo. É evidente que esta narrativa aponta paraa necessidade de sempre de novo retornar à experiência fundante original, inclusive para purificaros olhos e perceber muita realidade positiva e muitas pessoas fiéis a Javé que à primeira vistaparece não haver. A espiritualidade dos profetas tem, assim, dois quadros de referência: de um lado, umaexperiência profunda de Javé, o Deus comprometido com a libertação do povo. De outro, umaescuta profunda da realidade do povo, chamado a ser o povo de Deus, partilhando quer o sonhoquer os bens (utopia coletiva)10. 4.l A experiência de Javé, o Deus do povo. O profeta experimenta a presença de Javé nomeio do seu povo e a ela se rende (Is 52,6). Quase todos descrevem sua vocação, para dizer quenão partem de uma iniciativa própria, mas se sentem convocados para esta missão por Javé. Deusse torna a instância superior, sua referência máxima e a fonte da “liberdade” do profeta diante dospoderosos. Sua palavra irrompe no profeta sob o grito "Oráculo de Javé". O profeta se sente"seduzido" e vencido pela presença de Javé, como se um fogo o consumisse no interior, ficandoimpossibilitado de barrar a ação de Deus, ainda que com risco de vida (Jr 20,7. 9). São Paulotambém lhe faz eco declarando: "Ai de mim se não evangelizar!" (Cor 9,16). A experiência de Deus para os profetas é sempre uma experiência do Deus dos pais, isto é,traz consigo tudo o que Deus fez no passado, assenta-se numa concreção histórica e dá olhos novospara entender e atualizar o seu sentido. O profeta torna-se assim a memória da aliança do povo9 SCHWANTES, Milton. Espiritualidade na Profecia. Em BEOZZO, J. O (org) Espiritualidade e Mística. São Paulo,Paulus, 1997, 53-89. CESEP, ano IX.10 K. Barth (teólogo suíço evangélico) diz que o teólogo deve ter um ouvido na Bíblia e outro na realidade do povo.Semelhantemente, o mártir argentino D. Henrique Angelelli: um ouvido no jornal e outro na Bíblia. Também oVaticano II (PC 2) oferece aos religiosos o critério de “Volta às fontes evangélicas e do fundador e volta aos sinais dostempos”. Isso mostra que esse referencial se consolida como revelação.
  11. 11. Espiritualidade Bíblica 11com Deus. Lembra a presença carinhosa, e ao mesmo tempo exigente (ciumenta), de Deus queacompanhava e sustentava o povo (Dt 32, 10-11). Por isso, o profeta exige fidelidade à aliança, em nome de Javé. O profeta torna-se odefensor da aliança, a pessoa que vem cobrar do povo o compromisso assumido de ser o povo deDeus: “Vós sereis o meu povo e eu serei o vosso Deus”. Não aceita desculpas e camuflagens parafazer média com os poderosos, sejam elas pessoas individuais ou nações. 4.2 A experiência da realidade do povo de Deus. A experiência de Deus e das suasexigências é, ao mesmo tempo, a experiência do pecado, da quebra da aliança, das falhas queexistem no povo, experiência daquilo que o povo deveria ser e não é (Is 6,5). Neste sentido, aexistência de empobrecidos (descaso com as viúvas, estrangeiros, órfãos...) era sinal dorompimento da aliança, assim como os cacos de vidro no chão denunciam a vidraça quebrada. Então em nome de Javé, o Deus dos pobres, e em nome da origem do próprio povo, oprofeta grita "Entre vocês não pode haver pobre" (Dt 15,4). Esta é sua grande denúncia. C. Mestersrecorda a tríplice via apontada pelos profetas que encaminha na mesma direção:a) O caminho da justiça: mudar estruturas injustas e transformar a sociedade. Pela denúnciaprocuram criar novas leis que favorecem a vida do povo e o levem a uma melhor observância daaliança, como a lei do Ano Jubilar (Lv 25; Dt 15);b) O caminho da solidariedade: mudar o relacionamento e renovar a comunidade. Na comunidadedo povo de Deus não pode haver pobres! Todos devem viver na partilha (perfeita) dos bens,entregues por Deus a todos. Nesta igualdade e fraternidade, a comunidade deve ser uma amostradaquilo que Deus quer para todos os homens. Ela deve ser a aliança de Deus com os homenscontra tudo aquilo que estraga a vida e marginaliza as pessoas.c) O caminho da mística: mudar o modo de pensar, recriar a consciência. É da certeza central da féem Javé (a presença libertadora de Deus no meio do povo) que nasce no pobre a consciência de serpessoa humana e filho de Deus, consciência de sua própria dignidade e missão. Dentro desta dinâmica se movimentam todos os profetas, desde os mais antigos até o maisrecentes. Ao longo dos séculos foram ao mesmo tempo os "arquivos vivos", a memória perigosa esubversiva que mantinha viva a identidade de um povo "fundado numa experiência única e exímiade um Deus libertador, caminhando com seu povo”. 4.3 A tradução profética dos "dogmas" de credo. Os cinco dogmas referidos acima estão presentes como pano de fundo de toda a atividadeprofética. A experiência do Êxodo vivida pelo povo e traduzida em "dogmas" norteia toda a suamissão. Talvez possa ser assim enfocada no ministério dos profetas:a) "Éramos escravos... e clamamos a Javé". Os profetas sempre percebem o engodo da ideologiadominante, captam o grito abafado do pobre, e o devolvem à nação em forma de denúncia. Destemodo transformam o grito do pobre em apelo de Deus, revelam as exigências da Aliança edespertam no povo a consciência da sua missão. "O que hoje chamamos opção pelos pobres era oque naquele tempo norteava a ação dos profetas"11. Os profetas entram no mundo concreto dogoverno (Jr 21,11-14; 22,13-19; do comércio (Am 8,4-8), do tribunal e da justiça (Mq 3,9-12), do11 CRB. A Leitura Profética da História. Coleção Tua Palavra é Vida, Vol 3. São Paulo: Loyola, 1992, 97.
  12. 12. Espiritualidade Bíblica 12sacerdócio e do culto (Os 4,4-14), etc. e a todos lembram que "há um Deus que faz justiça sobre aterra" ( Sl 58,12). Lembram que Javé “vê” o sofrimento do povo, a injustiça que explora e mata.Esta denúncia constante nos profetas é o reconhecimento implícito da nova escravidão e opressãocomo no antigo Egito. Exemplos concretos deste modo de proceder de Javé, os livros proféticosoferecem abundantemente.b) "Javé ouviu nossa voz...” Os profetas podem ser acusados de usar quase que exclusivamente olivro do Êxodo12. Este livro se constitui como que na "memória subversiva" para os profetas. Apresença de pobres no meio do povo era a prova de que a Aliança havia sido quebrada. Comonaquele tempo, Deus também no presente escutaria o grito do empobrecido. O fato passado davacerteza da atuação de Deus no presente, pois Ele é fiel. É assim que o profeta reza, no Salmo 77(76): "Lembro-me das proezas de Javé, recordo tuas maravilhas de outrora, medito tuas obrastodas, e considero tuas façanhas... Tu és o Deus que operas maravilhas, mostrando às nações a tuaforça"(Sl 77,12.13.15). As entranhas de Deus se comovem diante de seu povo (sua esposa) emestado de depressão, como ovelhas sem pastor (Os 11,8; Ez 34, 11ss; Is 40, 11; 41,10-14...c) "Javé nos tirou do Egito com mão forte...” Nada melhor para expressar esta fé no Deus queliberta o povo do que o texto de Ezequiel. Assim como Deus tirou o povo da escravidão do Egito,pode agora até fazer surgir seu povo da destruição e da morte: "Em seguida Javé me disse:Criatura humana, esses ossos são toda a casa de Israel. Os israelitas andavam dizendo: Nossosossos estão secos e nossa esperança se foi. Para nós tudo acabou... Pois bem, vou abrir seustúmulos, tirar vocês de seus túmulos e levá-los para a terra de Israel..." (Ez 37,11-12)13. Assimcomo o povo criou a instituição do Go’él (o padrinho) com obrigação de resgatar o afilhado e atémesmo de vingá-lo em caso de morte, assim também Javé se porta em relação ao seu povo. Opovo vive esta certeza e esta esperança 14.d) "Introduziu-nos na terra onde corre leite e mel". A promessa de terra, "vida abundante", animouo processo de libertação do Egito. Esta promessa esteve presente na leitura das suas origens antesde se constituir em povo (Gênesis). Depois da experiência do Êxodo, a promessa se transformouem utopia. Isaías a descreve como sendo um reino organizado em função da justiça. "Ele julgará osfracos com justiça e dará sentenças retas aos pobres da terra" (Is 11,4)15. No Trito-Isaías, a utopiada terra prometida se converte na descrição do mundo novo, com uma abundância de vida paratodos, quer em longevidade, quer em harmonia. Então todos viverão a totalidade de seus dias, commuita alegria e felicidade, sem exploração e espoliação no trabalho, com toda a forma de rivalidadee violência superada... (Cf Is 65, 17-25).e) "Então nos ordenou cumprir todos estes estatutos...". A Lei é a garantia da continuidade daexperiência fundante. É a tentativa de perpetuá-la. Este é o sentido dos 10 mandamentos. Porisso, o povo israelita foi construindo uma legislação sempre mais abundante, mas infelizmente, noperíodo pós-exílico, chegou a se transformar em empecilho para a convivência humana e fator dediscriminação social e religiosa. No entanto, originariamente, a lei é o outro lado da gratuidade deDeus. Deus oferece tudo generosamente; importa comprometer-se com seu projeto. A lei representanosso esforço em corresponder ao dom divino, a política decorrente da fé, a luta que leva à festa...Os profetas sempre de novo retomam a necessidade de viver a Lei para corresponder ao projeto deDeus.12 Cf. CRB. A Leitura Profética da História. Coleção Tua Palavra é Vida, Vol 3, São Paulo: Loyola, 1992, 103.13 Este tema está presente, sobretudo, no Deutero Isaías (4l, 14; 43, 1.3; 44, 6; 49, 4; 54,5); Mas é uma decorrência oureleitura de Levítico 25, 25. 39-40.14 Cf. GUTIÉRREZ, Gustavo. O Deus da Vida. São Paulo: Loyola, 1990, 45-47.15 Todo o capítulo 11 é uma descrição (utópica) da sociedade ideal e um mundo organizado a partir da centralidade deJerusalém, o lugar da presença de Javé.
  13. 13. Espiritualidade Bíblica 13 5 A espiritualidade Sapiencial A literatura sapiencial da Bíblia surgiu, na sua maior parte, no período pós-exílico dedominação persa e grega, quando o povo sofria um processo duro de roubo da identidade religiosae cultural. Uma das maneiras de conservar a identidade com o povo e sua experiência foi a dealimentar a mesma mística dos antepassados. Isto se fez mediante o “retorno” à experiênciafundante. Cada livra a seu modo e segundo seu objetivo específico faz acontecer este reencontrocom a fonte originária da vida do povo. Serão recordados aqui os núcleos da mística de cada um,depois desdobrada de modo pluriforme. É claro, nem todos os livros se reportam a todos os gonzosda experiência. Uns se ligam mais a um aspecto, enquanto outros privilegiam outros, conforme suarealidade e objetivo. Pensa-se que assim se poderá perceber melhor o dinamismo divino queconduz a história do povo bíblico e da própria humanidade.a) O Livro dos Salmos, começado no tempo de Davi, é reelaborado e concluído por volta de 170 a160 aC. Sua própria apresentação em cinco partes imita o Pentateuco onde se encontra o coraçãoda experiência fundante. Cerca de 31 salmos fazem referência direta ao momento da libertação ou aesta experiência a que estamos nos referindo 16 e mais da metade deles têm presente o global destaexperiência. Sendo os salmos17 o lado orante da caminhada do povo, esta memória constantesignifica que a experiência vinha sendo retomada com muita freqüência nas orações ordinárias.Nos salmos há também história e profecia, lei e sabedoria. Fazem assim acontecer a circularidadeentre a fé e a vida. Eles conservam a memória da fé, retomando os fatos mais significativos dahistória. Eles educam o povo com os grandes apelos dos profetas e sábios. Eles reforçam a fé como convite a uma maior intimidade com Javé. Eles animam a caminhada com o aprofundamento docompromisso com a Aliança. Por isso, se tornaram a referência canônica da oração, assumida eaperfeiçoada pelo próprio Jesus.b) O livro de Jó, ao contrário do que costumeiramente se entendia, mostra que Deus não endossa osofrimento causado pela exploração e opressão, mesmo se confirmado pela ideologia e pelateologia oficial. Relendo a atuação de Deus na história e com o olhar fixo no "maravilhoso fato doÊxodo”, Jó subverte a catequese oficial. Contesta o sofrimento injusto como fruto do pecadopessoal, como ordinariamente pensavam os que liam os fatos com a ideologia dominante. Jó é uma“teologia da rebeldia”. Os Capítulos 3 a 42 são uma refutação solene deste modo de pensar 18.16 Por exemplo: Sl 3,5; 4, 2.4; 5,2-3; 6,9-10; 9, 13, etc Porém são salmos paradigmáticos neste sentido: 78 (77); 81(80); 105 (104); 106 (106); 136 (135) etc.17 Para uma breve introdução e chave de compreensão veja-se: CRB. Sabedoria e poesia do povo de Deus. S. Paulo:Loyola, 1993. Também: BALANCIN, E.M. STORNIOLO, I. e BORTOLINI, J. Salmos, a oração do povo que luta.São Paulo: Paulinas, 1988.18 Veja-se: DIETRICH, Luiz José. O grito de Jó. S. Paulo: Paulinas, l996 pp 36 ss. Ou ainda: GUTIÉRREZ, G.Falar de Deus a partir do sofrimento inocente. Petrópolis: Vozes. 1987. Talvez o texto mais elucidativo do livro paramostrar que Deus é diferente do que a teologia oficial apresentava pois se coloca do lado do injustiçado e oprimidopoderia ser Jó 24, 2- 14: “Os injustos mudam as fronteiras, roubam rebanhos e os levam a pastar. Apoderam-se dojumento que pertence ao órfão, e penhoram o boi que é da viúva. Empurram os indigentes para fora do caminho, e ospobres da terra têm que se esconder. Como asnos do deserto, saem para trabalhar: desde a madrugada vão em buscade alimentos, e até a tarde procuram o pão para seus filhos. Fazem colheita em campo alheio, e catam os restos navinha do injusto. Passam a noite nus, sem roupa para se protegerem do frio. Ensopados com as chuvas das montanhas,sem abrigo, eles se apertam entre as rochas. Os injustos arrancam o órfão do peito materno, e penhoram a roupa dopobre. Estes andam nus por falta de roupa, e famintos carregam feixes. Expremem azeite no moinho e, sedentos,pisam a uva nos tanques. Na cidade os moribundos gemem, e os feridos pedem socorro. Deus não faz caso da súplicadeles. Os outros são rebeldes à luz, não conhecem os caminhos de Deus, nem freqüentam suas estradas. De
  14. 14. Espiritualidade Bíblica 14c) Os provérbios fazem o confronto da Aliança com a sabedoria do cotidiano. Referem-se mais aorelacionamento com o próximo que com Deus. Jesus nos ensina que devemos buscar nosprovérbios de hoje e na sabedoria popular o que eles revelam de Deus e seu projeto. Ensina aevangelizar o povo com a sabedoria do próprio povo.d) O Cântico dos Cânticos descreve alegoricamente o amor entre o homem e a mulher para mostraro amor apaixonado entre Javé e seu povo, entre Cristo e sua Igreja, como vê a tradição cristã. Masé um amor comprometido, como mostrará o profeta Oséias. Ou mesmo, como o demonstrouIsidoro Mazzarolo, uma ótica política do amor.e) As novelas populares (Rute, Judite, Tobias, Ester, Jonas) são um apelo à resistência e umchamado à reconstrução do povo que começa na família, na casa, na comunidade, segundo osparâmetros da Aliança. Estas novelas 19 se preocupam pouco com a geografia e a cronologia. Antesreordenam e colocam os fatos num único momento histórico para enfatizar a experiênciaacumulada ao longo dos séculos e em lugares diferentes. Reavivam a proposta de povo livre,fraterno, igualitário, núcleo central da Aliança, segundo Êxodo 19ss... Elas são a expressão dasaudade da experiência que marcou indelevelmente a memória da história do povo e ao mesmotempo um apelo a reviver no seu presente esta “abundância de vida’ experimentada no passado.f) O Eclesiastes (Qohelet), fruto do trabalho de um sagaz observador, baseia-se em três valoresbásicos: a vida humana, com suas limitações; o oprimido, fruto do sistema injusto; e a ação deDeus que não pode ser mudada. Diante deles, tudo o mais pode ser relativizado. A felicidade,direito de todos, consiste na possibilidade de cada um trabalhar para seu sustento e usufruir osfrutos. Faz eco assim a Isaías e aponta os mecanismos que contradizem a felicidade: o poder daconcentração econômica, as estruturas injustas, a competição cega, a exploração do trabalho, etc. Opano de fundo do autor é a experiência paradigmática feita pelo poso no passado.g) O Livro do Eclesiástico é uma obra ambígua, devido ao contexto em que foi escrito. Ben Siracdefende a identidade do povo diante da imposição cultural grega. Manifesta a fé vivida pelosantepassados. Contrapõe-se aos estrangeiros enquanto dominadores que fazem o povo perder aidentidade. Indica com clareza o aspecto nevrálgico da cultura grega: o empobrecimentoeconômico, cultural e religioso do povo. O maior escândalo é a injustiça que contradizfrontalmente o projeto da Aliança.h) O Livro da Sabedoria. A sabedoria na sua origem é o esforço de organização da vida do clã.Depois do exílio é, sobretudo, através da observância da Lei que a vida do povo se organiza emantém sua identidade como povo da Aliança. Se ela não se fechar no passado e no imediato, nemvirar ideologia, ela cria sempre novas formas de luta em defesa da vida, produz um alargamento dehorizontes, aprofunda os problemas humanos, atinge a raiz do sistema e aponta para a presença deJavé no coração da própria sabedoria. Tereza Cavalcanti20 situa a espiritualidade sapiencial como sendo eminentemente umareflexão sobre a vida, sobre o quotidiano. É a vida conscientemente vivida, observada, curtida,sofrida... É daí que nasce a espiritualidade sapiencial, geralmente em forma de pequenasmadrugada o assassino se levanta para matar o pobre e o indigente. Durante a noite o ladrão ronda, cobrindo o rostocom uma máscara...”19 Veja-se como exemplo MESTERS, Carlos. Rute, uma história da Bíblia. S. Paulo: Paulinas, l985.20 CAVALCANTI, Tereza. Espiritualidade Sapiencial. Em BEOZO, José Oscar (org). Espiritualidade e Mística. São Paulo,Paulus, 1997, 69-90. (Curso de Verão, ano IX).
  15. 15. Espiritualidade Bíblica 15afirmações. Não nasce como um bebê trazido do alto pela cegonha, mas como um feto gestadolongamente no útero da vida, alimentado pela fé em Deus. Por isso leva a característica de serprincipalmente contemplativa. Esta sabedoria, porém, diz ela21 é inseparável da mística profética.Mística (profética) e contemplação (sapiencial) fazem parte de um mesmo todo com profecia elibertação. Nossa oração pode passar de um tema a outro, de um modelo a outro, mas será sempreum colocar-se diante do mesmo Deus: o Deus Criador e o Deus Libertador. 6 A Espiritualidade de Jesus Chega-se aqui ao ponto culminante e central de toda a espiritualidade bíblica. Jesus nãosomente crê no "credo bíblico", mas o encarna, transformando-o e purificando-o. Ele vive e agecomo o "Emanuel" presente entre os homens e mulheres. Ele mesmo confessou que "quem o vê, vêo Pai" (Jo 14,9). Sente-se em comunhão profunda com Ele. Em Jo 8, 24 a comunidade de Joãocoloca na sua boca a afirmação: “Se vocês não acreditam que Eu Sou, vocês vão morrer nos seuspecados”. E, logo depois, acrescenta que Jesus se referia ao Pai. Este “Eu Sou” parece ser um ecodo “Eu Sou Aquele que Sou” (Ex 3,14) onde Deus revela sua identidade. Jesus se sente Filho,continuador da missão e da obra do Pai. Nada de estranhar que no início do mesmo evangelho,Jesus seja apresentado como a “Palavra” do Pai, isto é, o seu rosto, o retrato tocável, palpável doPai, porque se “encarnou e habitou entre nós” (Jo 1, 14). Assim sendo, na vida e na prática deJesus, o Credo bíblico foi vivido e apresentado da seguinte forma:6.l Jesus, relê e encarna o credo bíblicoa) "Éramos escravos e clamamos a Javé" Jesus assume a condição humana com todas as suas limitações e possibilidades, "igual a nósem tudo exceto no pecado"(Hb 4,15). Jesus assumiu forma humana num tempo e lugar, numacultura e religião, num sexo e numa raça, numa família e numa classe específicos. São João escreveque Ele "armou tenda entre nós (Jo 1,14). Jesus assumiu todos estes condicionamentos desde olugar onde pesam mais: estando no meio dos pobres. "Sendo de condição divina, não se apegou àsua igualdade com Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo (escravo) etornando-se semelhante aos homens. Apresentou-se como simples homem"(Fl 2,6-7). Se há algoque resplandece em Jesus de Nazaré é sua consciência de dependência do Pai, logo de suapequenez. Jesus é, antes de tudo, alguém do povo, que vivia um duplo cativeiro. O primeiro cativeiroera originado pela opressão da Lei e da Pureza da Raça. Devido à interpretação destas, a grandemaioria do povo ficava alijada como “ignorante e maldita” (Jo 7,49). Esta opressão mantida tantopelos doutores da Lei como pelos funcionários do templo (levitas) era o que mais atormentava opovo no seu dia-a-dia. O segundo cativeiro era imposto pelo Império Romano e seus colaboradores (saduceus).Desde o ano de 63 aC incidiam sobre o povo simples pesados impostos, originando fome, doenças,muito desemprego e endividamentos. Havia classes altas e poderosas, como os saduceus esacerdotes, comprometidas com os romanos que não se importavam com a pobreza dos pequenos ehavia grupos de oposição aos romanos, como os fariseus e essênios, que se identificavam com asaspirações do povo. Havia a religião oficial, ambígua, organizada em torno da sinagoga e do21 Ibidem pg 90.
  16. 16. Espiritualidade Bíblica 16templo. E havia a piedade popular, igualmente ambígua, mas resistente, com suas devoções epráticas. Por causa desta situação sem saída, o Movimento Popular da época estava num processode radicalização, isto é, de busca de raízes e motivações mais profundas. Jesus se insere nesteprocesso de radicalização do movimento popular.b) "Javé ouviu nossa voz" Neste contexto em que o povo era qual “rebanho sem pastor” (Mc 6,34), Jesus assume suamissão como expressão da “compaixão de Deus”. Jesus se apresenta e passa a agir como o fez Javéno tempo do Êxodo: Vai ao encontro dos marginalizados (os imorais, os impuros, os hereges, oscobradores de impostos, as mulheres, os pobres, os doentes, os endemoninhados...)22. Faz-se Elemesmo um marginalizado: filho de pobres vive na Galiléia (povo mal visto), não pertence quer àclasse sacerdotal quer aos eruditos da religião. Convive com os excluídos e declara que não veiopara os justos, mas sim para os doentes e pecadores (Mt 9,12). Por isso pôde confessar que “Elefaz o que vê o Pai fazer” (Jo 5,19; 6,38; 8,29; 10,37...). Inserindo-se dentro do processo mais amplodo movimento popular que buscava defender a vida, Jesus o ajuda a dar mais um passo, o passoque faltava. Ele traz a luz de Deus para aquele momento crítico da história do seu povo. Atento aossinais dos tempos, descobre o apelo de Deus e anuncia a chegada do Reino.c) "Javé nos tirou com mão forte e braço estendido". Jesus confessa inúmeras vezes que age na força do Espírito Santo e em consonância com oPai. É Deus agindo nele e por Ele. Se Ele expulsa demônios não é pelo poder de belzebu... Toda acasa dividida contra si mesma vai ruir... Já no início de sua vida pública declara-se movido peloEspírito Santo (Lc 4, 18). Deus é sua força e sua razão de ser. Jesus não apenas era movido de compaixão para com o povo que se assemelhava a ovelhassem pastor, mas tomou a defesa dele com muita coragem. Podem ilustrar esta fé concreta de Jesusalguns fatos como: A defesa da vida da mulher considerada adúltera onde Jesus pede que quem nãotiver pecado atire a primeira pedra (Jo 8,1-11); Cura a mulher hemorroíssa que há doze anos eraexplorada pelos médicos e estava proibida de freqüentar o templo devido à sua doença. E lhedevolve a saúde, confirmando sua fé (Mt 9, 20-22; Lc 8, 43-48). Jesus acaba com as falsasdivisões injustas criadas pela elite social e religiosa que segregava tanta gente. Divisões como:entre próximo e não próximo (Lc 10,29-37), judeu e estrangeiro (Jc 7,6-10), santo e pecador (Lc19,1-10), puro e impuro (Mt 23,23-24), tempo sagrado e profano (Mc 2,27; Jo 7,23), rico e pobre(Lc 16,13) etc23. Não apenas isto, mas combate também os males que estragam a vida como a fome (Mc6,35-44), a doença (Mc 1, 32-34), a ignorância (Mc 6,2), a letra que mata ( Mc 3,4), as leisopressoras (Mt 23, 13-15), o pecado ( Mc 2,5), o demônio (Mc 1,25.34: Lc 4, 13)... Esta posturalibertadora de Jesus lhe causou a ira da classe dominante que Ele desmascarou (Mt 23, 1-36: Mc10,25) e de cujo fermento é necessário manter distância (Mc 8,15; Mt 16,6). Vê-se assim queJesus, de um modo evidente, encarna a imagem, o rosto, o NOME de Javé na sua prática, tirandode todo o tipo de escravidão e de morte. A maior prova, porém, da fé (credo) de Jesus na ação libertadora de Javé na história semanifesta na certeza de que Deus venceria as forças da morte que o queriam ver eliminado da terra.Por três vezes Jesus declara que será preso, maltratado, morto, mas ressuscitará ao terceiro dia (Mt20,19). Ele tinha certeza de que uma vida vivida na obediência ao Pai e a serviço da vida do povo22 Cfr CRB. Seguir Jesus: os Evangelhos. São Paulo: Loyola, 1994, 25-27. MESTERS, Carlos. Com Jesus nacontramão. S. Paulo: Paulinas, 1995, 86-91.23 MESTERS, Carlos. Com Jesus na contramão, 88-89.
  17. 17. Espiritualidade Bíblica 17seria uma vida vitoriosa. Esta certeza na força de Deus, Jesus a tinha em alto grau, mesmo se nahora da morte, em meio aos atrozes tormentos, rezasse: "Meu Deus, meu Deus, por que meabandonaste?" (Mt 27,46). "Fé na ressurreição é crer que Deus é capaz de tirar a vida da própriamorte"24, como mostra a Carta aos Hebreus (Hb 11,19).d) "Introduziu-nos na terra em que corre leite e mel" O programa de vida e missão de Jesus já mostra com clareza que sua missão é conduzir àvida em plenitude: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção,para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aoscegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e proclamar o ano da graça do Senhor"(Lc 4,18-19). Este programa revela que Jesus se identifica com a missão de dar vida, assim como faz overdadeiro pastor de ovelhas: "Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância"(Jo10, 10). Jesus não pensa em conduzir o povo a outra terra, mas sim em organizá-lo de tal formaque todos tenham as condições de vida plena. Para isto Ele busca eliminar todos os empecilhoscriados pelas estruturas sociais, políticas ou mesmo religiosas que atravancam tal possibilidade.Talvez o que se constituía em maior impedimento naquele momento era a própria estruturareligiosa, montada em função da conservação do privilégio de uma pequena minoria. Daí seentende seu combate vigoroso aos líderes da religião de Israel que, para Ele, são hipócritas, falsos,orgulhosos, exploradores e mercenários, curtos de inteligência, etc (Mt 23, 1- 39; especialmente overso 16 onde Jesus os acusa de impedir o acesso ao Reino).e) "Então nos ordenou cumprir todos estes estatutos" Jesus é o profeta da lei por excelência. Mateus, que gosta de vê-lo como um novo Moisés,já no início de seu Evangelho o apresenta radicalizando a Lei: "Não pensem que eu vim abolir aLei e os Profetas. Mas dar-lhes pleno cumprimento" (Mt 5, 17). Ele amplia a lei da justiça, doperdão, da fidelidade matrimonial, do juramento à verdade, da violência e resistência (Mt 5,18-48).À primeira vista dá a impressão de que Jesus vá acrescentar novas leis às já existentes, somando-seà corrente farisaica que se formou no pós-exílio babilônico. No entanto o que faz é exatamente ocontrário. Ele começa a libertar o povo de uma porção de leis a respeito da pureza de raça e purezade objetos, da observância do sábado etc. E quando interrogado sobre "qual o maior dosmandamentos" não titubeia em responder que é "amar a Deus com todo o coração, com toda aalma e com todo o entendimento e amar o próximo como a si mesmo" (Mt 22,37-40). Esta únicalei é a síntese de toda a Lei (Pentateuco) e dos profetas. Assim sendo, Jesus mostra que a finalidadeda lei não é a fidelidade a si mesma como se ela pudesse trazer de per si a vida. Toda a lei precisaestar em função do favorecimento da vida. E por isso toda a Lei que se constitui em impedimentode vida deve ser supressa. Intuiu muito bem Santo Agostinho quando disse: "Ama e faze o quequiseres". Provavelmente a expressão REINO DE DEUS que foi tão cara a Jesus e que ocupa acentralidade de sua prática e de sua pregação tenha sido forjada olhando e saboreando a experiênciafundante que o povo fizera no passado e que lhe dera verdadeira identidade religiosa e cultural. Defato, se observarmos os vários elementos que esta palavra conota na boca de Jesus e ascaracterísticas da experiência vivida pelo povo no Êxodo, perceberemos grandes semilitudes, senãoprofunda identidade. E foi essa experiência que Ele traduziu em forma de oração, a oração quedeveria identificar seus seguidores (assim como Ele era seguidor da fé do povo).24 MESTERS, Carlos. Com Jesus na contramão, 126.
  18. 18. Espiritualidade Bíblica 18 6.2 O credo bíblico na oração de Jesus O Pai Nosso25, a única oração que deixou como oração típica dos seus discípulos, não fazoutra coisa que expressar a mesma fé-compreensão. Apresenta-se como uma verdadeira síntese detodo o Antigo Testamento, naquilo que tem de essencial. Eis alguns aspectos.a) A invocação de Pai. Jesus chama a Deus de "ABBÁ" (Pai, paizinho, painho). É o modo familiar-afetivo de denominar a Deus, assim como uma criança chama a seu pai. Este é o modo de Jesus serelacionar com Javé. Revela toda a sua comunhão e intimidade. Inspirou-se em Isaías (63,16; 64,7)e em Jeremias (3,4; 31,9), (as duas vezes em que Deus é mencionado como Pai no AT), em Os 11,1-11), etc.b) Para restaurar o relacionamento com Deus, Jesus pede a santificação do NOME, revelado no Êxodo, por ocasião da libertação do Egito . Ex 3, 1 a 15: "Eu sou o Deus dos antepassados, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. Eu vimuito bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor contra os opressores... Porisso desci para libertá-lo... e fazê-lo subir dessa terra para uma terra fértil e espaçosa, onde correleite e mel... (...) Quando eu me dirigir aos filhos de Israel eu direi: o Deus dos antepassados devocês me enviou até vocês e eles me perguntarem "Qual é o nome dele?", o que é que eu vouresponder ? Deus disse a Moisés: "Eu sou aquele que sou". "Eu sou me enviou a vocês". Javé, oDeus dos antepassados de vocês, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó, foi quem meenviou até vocês". Este é o meu nome para sempre". O Deus Javé tem uma identidade própria: é oDeus-compaixão, o Deus que caminha com o povo, rumo à liberdade!c) Jesus pede a vinda do Reino Messiânico, esperado pelo povo depois do fracasso da monarquia.Isaías 11,1-9; Sociedade conduzida pelo espírito de Javé. Sua inspiração estará no temor de Javé.Ela não julgará pelas aparências... Ela julgará os fracos com justiça... Ela ferirá o violento com ocetro. A justiça é a correia de sua cintura; é a fidelidade que lhe aperta os rins. O lobo seráhóspede do cordeiro... o bezerro e o leãozinho pastarão juntos... O bebê brincará com a cobravenenosa. Ninguém agirá mal nem provocará destruição em meu monte santo... Isaías 65, 17-25:" Vou criar novo céu e nova terra... Em Jerusalém nunca mais se ouviráchoro... Aí não haverá mais crianças que vivam apenas alguns dias, nem velho que não chegue acompletar seus dias... Construirão casas e nelas habitarão; plantarão vinhas e comerão seu frutos. ..Em todo o meu monte santo, ninguém causará danos ou estragos, diz Javé". O Reino Messiânicosegue a dinâmica da justiça, está organizado em função da fraternidade, no respeito mútuo e na paz.d) Jesus pede o cumprimento da vontade de Deus, revelada na Lei que estava no centro daAliança. Ex 20, 1-17: "Eu sou Javé seu Deus, que fiz você sair da terra do Egito, da casa daescravidão. Não tenha outros deuses diante de mim... Não pronuncie o Nome de Javé, seu Deusem vão... Lembre-se do dia do sábado... Honre seu pai e sua mãe... Não mate... Deus propõe umaorganização social em favor da vida, pois que todos tenham vida em abundância é sua vontade. Assim, o NOME, o REINO e a LEI são os três eixos tirados do Antigo Testamento queexpressam como deve ser o relacionamento com Deus.25 Texto elaborado por Frei Carlos Mesters para a Assembléia Mundial da Federação Luterana a ser realizada entre29/01 a 08/02 de 1990, em Curitiba, sobre exegese latino-americana e publicada em fascículo pelo CEBI-Sul em 1989,10-11, sob o título “Estudo bíblico Mt 5-9”, acompanhado de algumas gravuras para reflexão, assim como se costumafazer com as iniciativas populares.
  19. 19. Espiritualidade Bíblica 19 Todavia, este relacionamento renovado com Deus só se torna visível no relacionamentorenovado entre nós que, por sua vez, é objeto de mais três pedidos: o pão de cada dia, o perdão dasdívidas e o não cair em tentação.e) O pedido do "pão de cada dia" lembra o maná de cada dia do deserto. O Maná era a "prova" para ver se o povo era capaz de andar na Lei do Senhor, isto é, se eracapaz de partilhar e viver sem acumular bens. Ex 16, 19-30: "E estas são as ordens de Javé: cada um recolha o quanto lhe basta paracomer, conforme o número de pessoas que se acharem em sua tenda. (...) Quando mediram asquantias não sobrava para quem havia recolhido mais, nem faltava para quem havia recolhidomenos.... Moisés então disse: Ninguém guarde para o dia seguinte. Mas eles não deram ouvidos aMoisés e alguns guardaram para o dia seguinte. Porém criou vermes e apodreceu... No sexto dia,porém, recolhiam o dobro; e desta vez não apodreceu nem criou vermes... No sétimo dia algunssaíram de novo para recolher e não encontraram nada. É o ensaio para viver a partir de outradinâmica, a da partilha fraterna, conforme Deus quer.f) O pedido do "perdão das dívidas"26 lembra o ano sabático que obrigava os credores a perdoartodas as dívidas aos irmãos. Dt 15,1-2: "A cada sete anos, você celebrará o ano da remissão das dívidas. Isso quer dizero seguinte: Todo o credor que tenha emprestado alguma coisa ao seu próximo, perdoará o que tiveremprestado. Não explorará seu próximo nem seu irmão, porque terá sido proclamada a remissãoem honra de Javé" (Ano Sabático). Lv 25, 1-22: "Declarem santo o qüinquagésimo ano e proclamem a libertação para todos osmoradores do país. Será para vocês um ano de júbilo: cada um de vocês recuperará suapropriedade e voltará para sua família..." (Ano Jubilar). O objetivo do ano sabático e do ano jubilar era desfazer as desigualdades e recomeçar tudode novo. Como rezar hoje: "Perdoa as nossas dívidas 27 assim como nós perdoamos aos nossosdevedores"? É pela dívida externa dos países pobres que os países ricos, todos cristãos, seenriquecem!g) O pedido de "não cair em tentação" é para não repetir o erro cometido no deserto, onde opovo caiu na tentação. Jesus foi tentado com o objetivo de desviá-lo da orientação global da vida.Mas venceu valendo-se da palavra e da fé bíblicas (Mt 4, l-17). Ex 17,1-7: "...Moisés respondeu: por que vocês discutem comigo e colocam Javé à prova ?Mas o povo tinha sede e murmurou contra Moisés: Por que você nos tirou do Egito? Foi paramatar de sede a nós, nossos filhos e nossos animais? ... Eu vou esperar você junto à rocha deHoreb. Você baterá na rocha e dela sairá água para o povo beber. Moisés assim fez na presença dosanciãos de Israel, e deu a este lugar o nome de Massa e Meriba 28, por causa da discussão dos filhosde Israel, e porque puseram Javé a prova, dizendo: Javé está no meio de nós, ou não ?" O Satanás, o Maligno (que pode aparecer até aos amigos, cf Mt 16,23), sempre tenta o povopara seguir por outros caminhos. No deserto tentou o povo para voltar para trás, não assumir acaminhada de libertação e reclamar de Moisés que o conduzia. Tentou Jesus para abandonar oprojeto do Reino e ser Messias conforme as idéias dos fariseus, escribas ou de outros grupos.26 O evangelho de Mateus, escrito para judeus conhecedores do AT, fala em dívidas. Lucas, porém, dirigindo-se agentios não podia usar a mesma linguagem. A Igreja nos últimos 50 anos optou pela versão lucana como termo de umprocesso de distanciamento da mensagem do AT que vinha de séculos. Assim “se complica menos” pois separa a fé dasrealidades econômicas e políticas.27 No Pai Nosso em latim se rezava: “Et demite nobis debita nostra” = Perdoa as nossas dívidas... Havia ummovimento de alguns bispos de com a entrada no novo milênio retornar à fórmula, mas infelizmente...28 Massa significa tentação, provocação. E Meriba, significa discussão. Bíblia Pastoral, nota de rodapé em Ex 17,1-7.
  20. 20. Espiritualidade Bíblica 20h) "Livrai-nos do Mal" ( é o último pedido). O mal é o Maligno, é o poder maligno que tenta eque, de muitas maneiras, procura levar as pessoas a não seguir o rumo do Reino, indicado porJesus: o fermento dos fariseus, a ideologia dominante, a estrutura de dominação planejada. A vida de Jesus e sua oração mostram que Ele viveu a mesma fé do povo ao qual pertencia.Mostram que Ele ajudou a purificar a fé das falsas aderências que foi ajuntando através dosséculos. Jesus foi a verdadeira encarnação da fé, a expressão fiel do rosto e do nome do Deus emquem o povo acreditava. 6.3 O credo bíblico no “Magníficat” de Maria A comunidade em que vive o evangelista Lucas coloca na boca de Maria o Magnificat (Lc1, 46-55) como uma oração cristã por excelência, assim como o faz em relação a Jesus. Nestaprece, os dogmas do credo histórico bíblico transparecem muito claramente, mostrando que elapertence ao “movimento de Jesus”. Apenas acenando a eles:a) Éramos escravos e clamamos a Javé. Maria proclama que “Javé viu (olhou) a humilhação desua serva”. Algumas traduções falam apenas em humildade. Esta é uma atitude interior. Narealidade trata-se de humilhação, sempre imposta de fora. Maria é símbolo do povo, alguém queencarna a situação dos “pobres de Javé”. E estes viviam na autêntica humilhação, isto é, num novotipo de escravidão religiosa e política, racial e sexual.b) Javé ouviu nosso clamor... Diz Maria: “O Todo-Poderoso fez grandes obras em meu favor”.Maria é também aqui o símbolo dos pobres de Javé. Ela faz aqui o reconhecimento explícito daação libertadora de Javé junto ao seu povo e nela mesma. Mais que ninguém Maria vivia aesperança da intervenção messiânica de Javé junto ao seu povo. Ela canta sua intervenção nahistória. A ternura e o carinho de Deus são a razão do louvor.c) Tirou com mão forte e braço estendido... Maria canta: “Dispersa os soberbos de coração,derruba do trono os poderosos, despede os ricos de mãos vazias, eleva os humildes...” É aproclamação da ação revolucionária e subversiva de Javé na história, exatamente como ocorreracom os hebreus (hapirus) em luta pela libertação contra o poderoso faraó. O que era da essência dafé bíblica (Deus do lado dos pobres e fracos e não dos poderosos como sempre era apresentado)Maria proclama em canção de alegria e louvação.d) Deu-nos uma terra onde corre leite e mel. Esta garantia - e mesmo abundância - de condiçõesde vida, Maria proclama nesta forma: “Javé sacia de bens os famintos”. Deus, por seu amormisericordioso, por seu compromisso com a vida do povo, luta para que todos tenham vida emabundância.e) Ordena observar estes estatutos. Por estar em ambiente de oração, o estatuto vem substituídopela ação de graças, outra forma de reconhecer a atuação de Javé: “Sua misericórdia chega aos queo temem, de geração em geração. Seu nome é santo. Diante deste maravilhoso agir de Deus, sóresta maravilhar-se e tornar-se um “contemplativus in liberatione”. Isto é, um apóstolo de Deus,encantado com seu agir. A abundância desejada por Deus alcança também a dimensãotranscendental da pessoa e do povo. Outro apóstolo, Paulo, também confessará extasiado: “Eu vivo,mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim. E esta vida que agora vivo, eu a vivopela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”(Gl 2,20).
  21. 21. Espiritualidade Bíblica 21 7 Os dogmas da fé bíblica no "Creio" da Igreja Com a ressurreição de Jesus Cristo a fé do povo bíblico recebeu uma luz nova e um novosentido. Pode-se notar uma continuidade em relação à fé (e, portanto, ao creio) vivida no AntigoTestamento. É o mesmo Deus, é a mesma Bíblia, é a mesma religião. Mas não é uma identidadeestática. Houve um salto qualitativo 29. Para os que viveram nos primeiros séculos do cristianismofoi relativamente fácil dar-se conta de tudo isto, pela proximidade dos fatos. Eles viviam uma certacompreensão da fé sobre a qual inseriam uma nova visão. Mas, à medida que iam se distanciandono tempo, ficam apenas com esta visão sem a base daquela provinda do Êxodo. Nos primeiros tempos do cristianismo as comunidades apostólicas e dos padres apostólicasviviam e transmitiam a sua experiência da libertação (do Êxodo) realizada por Jesus Cristo, cume eápice da história. São Paulo de certa forma tenta recolher estas "profissões de fé" nos hinoscristológicos nas Cartas aos Colossenses (l, 13 -20), aos Efésios (1, 3 -14) e Filipenses (2, 6 -11),sobretudo. Somando as três versões nós encontraremos os mesmos dogmas presentes nos credosdo Deuteronômio. Mais rica de nuanças ainda se torna se acrescermos os hinos cristológicos dasoutras cartas do Novo Testamento e do Apocalipse. Mas com o tempo, parece que a profissão de féfoi se distanciando daquela vertente que durante séculos dessedentara e fizera frutificarcomunidades e profetas, senão a caminhada de todo um povo. Os novos contextos políticos e dacultura grego-helênica urgem também, além do relato das experiências, a “tradução” dasexperiências para outra linguagem, a linguagem científico-racional, filosófica. Isto foi feito ao cabode vários séculos de muita luta ideológica e, para divulgá-lo, foi elaborado em foram de oração. O credo dos cristãos agora é muito diverso do credo do povo bíblico, herdeiro daexperiência fundante. Nossa profissão de fé obedece a uma sistematização de verdades, surgidaem tempos quando vicejavam heresias. Sua preocupação principal não parece tanto oferecer amemória de uma experiência rica e essencial, mediante a qual a pessoa fosse se identificando comum projeto de vida futuro e com uma herança existencial do passado. O credo dos antigos pais nafé consistia fundamentalmente numa narrativa da presença libertadora de Deus. Ao rezá-lo, toda apessoa se sentia co-envolvida, parte integrante da caminhada da fé. O creio rezado atualmentepelos cristãos e definido no Concílio de Nicéia, no século V não permite captar essa experiência tãofacilmente. Parece querer levar a pessoa a evitar erros de compreensão da verdade a respeito deDeus, de Jesus Cristo e da Igreja. Apresenta-se muito mais como "síntese de doutrina" que comotradução de uma experiência que sempre tem o efeito de motivar e desencadear as energiasinteriores. Sua formulação, apenas para poder confrontar com o outro, é rezada nestes termos: "Creio em Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra em Jesus Cristo seu único Filho, nosso Senhor; que foi concebido pelo poder do Espírito Santo; nasceu da Virgem Maria; padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado. Desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia; subiu aos céus; está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo; na santa Igreja católica; na comunhão dos santos; na remissão dos pecados; na ressurreição da carne; na vida eterna. Amém". Em forma narrativa está somente a vida de Jesus Cristo. Fala de sua concepção por obra doEspírito Santo, de seu nascimento, paixão e morte, de sua ressurreição, de seu retorno glorioso. E oapresenta de modo muito desvinculado da história da salvação. Mas o modo como o faz pouco29 Cf CRB. Viver e anunciar a Palavra. Coleção "Tua Palavra é vida". Vol 6. São Paulo: Loyola. l995 pp 15 - 54.
  22. 22. Espiritualidade Bíblica 22deixa a perceber que Ele fosse a versão humana da presença libertadora de Deus. Pablo Richard dizque este credo apresenta um Jesus “sem rosto”30. Também para ele estas formulações de Nicéia eConstantinopla, de caráter magisterial e dogmático, são necessárias como regra de fé e como taisdevem ser mantidos e confessados. Mas para a evangelização (e a espiritualidade) são insuficientes,necessitamos de outro Credo onde Jesus esteja vivo e tenha rosto. É difícil perceber indícios de suapostura e de sua ação entre os homens. É difícil até mesmo perceber porque teria sido morto. Nãoé, pois, um creio energizador e revitalizador da fé. Deixa muito a desejar neste sentido. Comoperceber nele o reconhecimento da situação de "escravidão" e o clamor a Javé? Como perceberatravés dele que Deus atende o clamor? Como re-experienciar a intervenção salvífica na história?E a dimensão da promessa de vida plena se manifestaria aqui pelas verdades da "comunhão dossantos, da remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna"? É preciso reconhecerque é possível sim, mas com grande ginástica mental que a poucos é dado obter. A teologianarrativa é muito mais eloqüente e próxima do povo. Apenas no sentido de apontar perspectivas um pouco alternativas, recordo aqui uma"espécie de Creio" que nos oferecem Pedro Casaldáliga e José María Vigil quando, no seu livrosobre espiritualidade, falam de Deus 31: - Cremos no Deus de Jesus, o que ele nos revela concretamente em sua carne, em suas obras e também em sua palavra, em sua história viva.- Cremos no Deus do Reino, O Deus de Jesus, que nos revelou o seu projeto sobre a história e nos encomenda a tarefa de acolher e construir o Reino.- Cremos no Deus encarnado, universal mas concreto, em quénosis, que tomou carne, cultura, sexo dialeto, regionalismo...- Cremos no Deus da história, que se manifesta na história, se faz história e a acompanha e no-la entrega como responsabilidade aos humanos.- Cremos no Deus da vida, que gera a vida e se gloria da vida, que quer que todos os homens se salvem, que tenham a vida e a tenham em abundância (Jo 10,10).- Cremos no Deus dos pobres, universal, mas parcial.- Cremos no Deus libertador, que se manifesta com poder libertando o povo, levantando do pó os humildes e destronando os poderosos.- Cremos no Deus de todos os nomes, que age e está presente em todos os povos e religiões, que escuta a todos os que o invocam sinceramente mesmo sob qualquer outro nome, que não exige deixar a própria cultura para ser reconhecido.- Cremos no Deus, pai e mãe, que criou o homem e a mulher à sua imagem, iguais em dignidade, complementares em sua realização.- Cremos no Deus Trindade, comunhão original, comunidade finalizante.- Cremos no Deus que luta com os ídolos, que se debate com os principados e potestades deste século, contra os deuses da morte. Uma formulação assim permite captar mais facilmente a força de Deus presente na história.Não se apresenta sob a forma narrativa, mas a seu modo contém os mesmos "dogmas" do credo doDeuteronômio, acrescido da dimensão cristológica, essencial para nós cristãos. Esta espiritualidadepermite refontalizar-se na experiência fundante de Deus feita no Êxodo, "canônica" para todos oshomens de todos os tempos.30 RICHARD, PABLO. Os diferentes rostos de Jesus nos Evangelhos Sinóticos. Em Concilium 294(2002)43-50, aquipágina 43. Também para ele é mister recuparar um credo em que se celebre a vida de Jesus, sua postura existencial,sua fé, sua inserção na história para resgatá-la da força do mal, assim como nos apresentam as seis tradições dosEvangelhos (Mc, Q, Lc, Mt, M e L).31 CASALDÁLIGA, P. e VIGIL J.M. Espiritualidade da Libertação. Petrópolis: Vozes, l993,102.
  23. 23. Espiritualidade Bíblica 23 Conclusão Tendo percorrido este caminho, resta recordar o procedimento do profeta Elias quando, noauge de seu zelo pela causa do Senhor, perseguido de morte pela rainha Jezabel, foi fugindo desertoadentro em direção ao monte Horeb (segundo muitos estudiosos é o mesmo monte Sinai onde Deusrevelara seu nome a Moisés bem como os mandamentos). Confortado pelo próprio Deus, Eliascaminha para refazer sua experiência de fé. Deus o surpreende na revelação da brisa (quer dizer nocotidiano da vida, dos fatos da vida, na história) e o reenvia a reorganizar a sociedade, com ointuito de fazer acontecer novamente o Êxodo, isto é, a experiência de um povo sistematizado emfunção da vida de todos (Cf 1 Reis 19, 1 - 18). A Bíblia nos mostra que cada momento histórico fez memória e releu a experiênciafundante do Êxodo que deu origem (identidade religioso-cultural) ao povo de Deus e o fez, porcerca de dois séculos, experimentar a alegria de ser um povo irmão, organizado em função da vida.Assim fizeram os profetas no período em que a organização tribal decaiu para a monarquia. Assimfizeram os profetas e os sábios quando da dominação persa e grega. Assim fez o profeta dosprofetas, Jesus de Nazaré quando da dominação romana e da legislação religiosa criada pelacorrente farisaica. Assim continuou a fazer a Igreja ao longo de séculos de cristianismo, com maiorou menor fidelidade. Atualmente, cá e lá, esta memória subversiva da ação de Deus em favor davida dos menos favorecidos irrompe vigorosa. É a ação vitoriosa de Javé, o mesmo Javé, eterno eonipresente nas culturas, povos e religiões. O cerne da fé e da espiritualidade bíblica sempre será este: DEUS ESTÁ DO LADO DOS POBRES E FRACOS, DOS OPRIMIDOS E ESPOLIADOS. CAMINHA COM ELES PARA CONCEDER-LHES VIDA ABUNDANTE, TIRANDO TODA A FORMA DE OPRESSÃO INSPIRA-LHES UMA LEGISLAÇÃO E ORGANIZAÇÃO SOCIAL QUEFAVOREÇA E SUSTENTE ESTA VIDA, PARA A FELICIDADE DE TODOS. Esta fé, essencialmente dinâmica, aberta e progressiva, se constitui numa instância críticada religião que sempre tende a se estruturar solidamente por ser também um produto humano. Oseguidor de Jesus Cristo precisa entrar neste rio de vida que Jesus anuncia para quem o aceita (Jo7,38). Esta mística percorrerá suas veias qual sangue a irrigar todas as dimensões do viver. Tornar-se-á uma testemunha do Senhor. E como proposta para nossa práxis, deixo aqui uma sugestão/lembrete a respeito daespiritualidade bíblica, sobretudo, na sua dimensão de mística, em forma de dogmas como os docredo histórico:a) Éramos escravos no Egito. A fé no Deus bíblico nasce da consciência da realidade histórica. A alienação social não sónão conduz à fé como a impede. A pessoa de fé bíblica não aposta num Deus estratosférico. Crênum Deus universal, mas parcial, militante pela causa dos espoliados. Nossa fé é uma hermenêuticahistórica. À medida que alguém capta as relações de força com seus respectivos interessespresentes no jogo da história, mais condições terá de identificar aí a presença de Javé.b) Clamamos a Javé... Ele ouviu nosso grito.
  24. 24. Espiritualidade Bíblica 24 Urge demonstrar que Javé ouviu mediante fatos comunitários, sociais, políticos. Fatosindividuais é mais fácil perceber. Não basta dizer que Deus enviou seu Filho porque nos amava. Aprova da compaixão de Deus precisa ser experimentada no hoje da vida. Importa, pois, apontarpara as pequenas vitórias do povo miúdo frente aos monstros da opressão. Nunca esquecer quenosso Deus é epifânico, isto é, manifesta-se na história e não além dela.c) Javé nos tirou com mão forte e braço estendido... Seguindo a perspectiva do item anterior os fatos é que conduzem à convicção de que Deusestá lutando em favor do povo pequeno. Com a força de Deus o pequeno Davi, sem armas etreinamento bélico, vence o gigante Golias todo encouraçado. O pobre tem mais facilidade do quenós para viver esta dimensão.d) Deu-nos esta terra onde corre leite e mel... A terra, aqui, será sinônimo de espaço existencial de vida: resgate da cultural, dos direitosfundamentais como a terra, casa, legislação em favor dos desprotegidos ou também umacomunidade semelhante à descrita nos Atos dos Apóstolos em 2 e 4. O projeto/utopia de Deus é aabundância de vida para todos (Jo 10,10). Se isto ainda não for realidade deve funcionar comoutopia possível, como sonho sonhado conjuntamente. Esse sonho coletivo deve ser alimentado naespiritualidade.e) Javé deu-nos esses estatutos para observar... É a corresponsabilidade humana. É a contrapartida das pessoas e das comunidades. Semnossa colaboração enquanto povo Deus permanece manietado. Somos feitos à imagem esemelhança no sentido de que prolongamos a ação libertadora de Deus em nossa história,emprestando-lhe mãos, pés, coração e cabeça. É a dimensão política de toda a espiritualidade.Neste sentido, a legislação pode ser uma autêntica obra de sabedoria, como o salmista (Sl 119)considera a lei de Deus. Porto Alegre, junho de 2004.
  25. 25. Espiritualidade Bíblica 25 Em tempo: Vejo agora que este texto deveria ser reformulado para incluir outro movimento/dinâmica bíblicode espiritualidade que lhe é intrínseco: o movimento de êxodo/conversão. Este movimento por sua vez se desdobraem duas dimensões ou momentos: o movimento ou situação de exílio, de quem se sente ou está afastado, fora de suarealidade, de sua pátria, de sua identidade, privado dos direitos mais elementares e vitais, sofrendo o peso da opressãoou escravidão; e o movimento de retorno ao próprio país, de reestruturação de sua casa, de sua vida, de suacomunidade/pátria. E estes movimentos são sempre possíveis, mesmo que não haja deportações. (Sobre estes aspectosveja-se o livro de Camilo Maccise Deus presente na história. Espiritualidade bíblica. S. Paulo, Paulinas, 1986).

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