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Para colocarmos essa atenção consciente em nosso relacionamento comnossos filhos, é bom saber algo sobre ela: Essa atenção...
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fazer escolhas mais ditadas por essa ligação sincera, o que certamenteenvolverá mais bondade e sabedoria.Consideramos o tr...
Mas o que conta não é a perfeição de resultados, e sim, a qualidade do esforço,o sentido de compromisso. A educação atenta...
visão; é preciso que um número suficiente de pessoas livremente queira apoiá-lo em sua manifestação. Falo de uma Escola de...
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O despertar da consciência

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Texto que a Ana Paula Curi criou para inaugurar a Escola de Pais

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O despertar da consciência

  1. 1. O DESPERTAR DA CONSCIÊNCIA – O CAMINHO INTERIOR DOS PAISIntrodução : Sobre a necessidade de um Despertar e a novaEspiritualidadeDo despertarNo Ciclo de palestras intitulado ―Os Fundamentos Espirituais do MundoExterior‖, Rudolf Steiner faz a seguinte advertência: ―Se a Ciência do Espíritoquiser realizar sua tarefa, antes de mais nada, faz-se necessário que ela setorne a incentivadora para o estado de alerta pleno. Pois apenas saber dascoisas que acontecem no mundo sensorial e das leis que o intelecto conseguecompreender como existentes no mundo sensorial, isso, num sentido maiselevado, significa dormir. A humanidade só está plenamente desperta quandotambém consegue desenvolver conceitos, idéias sobre aquele mundo espiritualque está ao nosso redor como o ar e a água, como as estrelas, o sol e a lua. Eassim como dormimos quando à noite estamos completamente entregues aoprocesso corpóreo interior e não temos idéia do que existe ao redor no mundocorpóreo exterior, assim também dormimos quando nos entregamos apenas aomundo sensorial exterior, ao mundo do intelecto e às leis do intelecto que dominam nomundo sensorial exterior, e não temos idéia do que está à nossa volta como mundoespiritual”.Despertar para a realidade do espírito é de fato uma necessidade em nossaépoca. E Steiner afirma isto veementemente quando declara que em relação aocaos social e à crise em que vivemos ―não haverá ordem antes que umaconcepção científico-espiritual penetre nos corações humanos. Todo o restoserá mera aparência, todo o resto será paz aparentemente, sob a qual semprese acenderão novas chamas. Pois só surgirá ordem a partir deste caos quandose compreender do quê este caos surgiu. E ele surgiu da concepçãodesespiritualizada da realidade‖. (GA 177)Sobre a natureza da crise e das forças que a engendram, Steiner, numapalestra de 1919 (A Educação como uma força para mudança social – GA 192e 296), diz que ―O homem moderno se ocupa bastante com questões sociais,mas ele se encontra mal equipado para pensar a respeito delas, porque ascapacidades intelectuais de boa parte da sociedade estão paralisadas. Agrande maioria acredita que se pode superar os atuais problemas de ordemsocial com o conhecimento e compreensão vigentes. Nós não ossobrepujaremos, não podemos suplantá-los se não os abordarmos de umaperspectiva espiritual.‖ E mais adiante ... “Olhemos, pois, mais detidamentepara o significado espiritual da industrialização. Tomemos, por exemplo, aincorporação máxima do processo de industrialização: a máquina. Máquinasdiferem de tudo o mais que as pessoas encontram na vida normalmente, talcomo animais, plantas, etc. Vocês podem aplicar todo o seu pensamentocientífico a um animal – eu nem quero mencionar os seres humanos neste Página 1
  2. 2. contexto – e, não importa o quanto você o examine, ele ainda conserva umaspecto de algo que poderíamos chamar de uma ―criatura de Deus‖. Vocêjamais poderá descobrir inteiramente a essência de um animal. Este também éo caso com as plantas ou cristais. Se você tomar todas as maravilhosas formasdos cristais, terá de admitir que, embora com algum treinamento você possacompreender algo de suas formações, haverá ainda uma infinidade deaspectos dos cristais a que você voltará o olhar com espanto e nãocompreenderá com o intelecto convencional.Mas agora veja uma máquina – ela é perfeitamente transparente. Você podesaber tudo sobre ela; nós aplicamos força aqui, os mancais de escora estãoaqui e ali, a quantidade de fricção é assim e assado, etc. Logo, você podecalcular sua eficiência se você conhece todos os fatores envolvidos. Não hánada sobre uma máquina que não possamos compreender com a razão e ainteligência normal. Mas isto é especialmente importante para orelacionamento dos homens com as máquinas. Se você já encontrou milharese milhares de pessoas que trabalham com máquinas, então certamente devesaber o que as almas de tais pessoas têm lentamente absorvido. Você verá, outalvez somente pressinta o que tem penetrado furtivamente as almas depessoas assim, a partir destas máquinas espiritualmente transparentes. O quetorna essas máquinas tão devastadoras para as pessoas é sua transparênciaespiritual: todas as forças e interações nas máquinas são tão transparentes,tão claras à mente humana. E o problema é que a clareza mecânica extrai vidado coração do homem, suga-lhe vitalidade anímica, torna as pessoas secas edesumanas.A combinação de ciência e máquinas ameaçará a civilização com trêsformas de destruição se não nos unirmos o suficiente e nos voltarmospara o supra-sensível. O ideal científico, isto é, moldar tudo segundo aimagem astronômica, está ganhando um domínio cada vez maior. O ideal paramuitos é modelar todo o nosso entendimento da natureza conforme a imagemastronômica do universo. Pensem como os químicos imaginam as moléculas.Eles as imaginam como sendo compostas de átomos, e estes unidos uns aosoutros por certas forças, de sorte que o resultado é tal como pequenossistemas planetários. O ideal é explicar o mundo inteiro astronomicamente,mas a meta da astronomia é visualizar a estrutura do universo como ummecanismo. Some-se a isto todo o trabalho que se faz com máquinas!Estas são as coisas que têm tido um efeito progressivamente intensodesde meados do século XV e estão agora roubando aos seres humanossua própria humanidade. Se as pessoas levarem o pensamentomecanicista e a indústria ao que resta da vida, então seus espíritostornar-se-ão mecanizados, suas almas dormentes e vegetabilizadas, e seuscorpos animalizados.Vejam a América – epítome do espírito mecanizado. Olhem para a porçãooriental da Europa e Rússia; os impulsos e instintos que têm se mostrado Página 2
  3. 3. desenfreados por lá são terríveis, e eles resultam na animalização do corpo. NaEuropa central, encontramos o adormecimento da alma. Mecanização doespírito, vegetabilização da alma e animalização do corpo – isto é o quetemos de enfrentar sem ilusões.”Parece-me que em nosso dia-a-dia podemos perceber a manifestação destastrês forças como que insidiosamente se imiscuindo em nossas vidas. Podemossenti-las nos episódios de vandalismo, na falta de interesse pelas necessidadesdos outros, na pouca compaixão, na intolerância, na sexualidade desenfreadae prematura, no uso de entorpecentes como busca de gratificação oucompensação para outras coisas, na visão reducionista e materialista domundo e do homem Elas atuam tal como germes patogênicos que encontrandooportunidade para isso, penetram no organismo, colonizando-o, nele semultiplicando e levando-o a adoecer. Nossos atos cometidos por influênciadestas forças são como sinais e sintomas de uma infecção anímica. Ora, asusceptibilidade do organismo está ligada a uma baixa da imunidade. Quandoas defesas orgânicas estão em ordem, quando a salutogênese é praticada,dificilmente se adoece. Imaginemos agora nossa escola como um organismosocial-espiritual, um ser vivo.Que significaria para ele uma boa imunidade? A imunidade é a expressão anível biológico do senso de identidade e missão de um ser. O sistema imune éjustamente aquele cujas células procuram distinguir o que lhe é próprio doque lhe é estranho e então, englobar e eliminar o que não lhe pertence comoself. Ele funciona como um permanente estado de vigilância e atenção. Comopoderíamos então, enquanto organismo social, enquanto uma comunidade,desenvolver ou adquirir uma boa imunidade, uma capacidade de reconhecer elidar adequadamente com a presença destas forças adversas?Há uma linda história que nos pode responder a esta questão: trata-se dahistória da ―Canção da Criança‖. (vide texto ao final). Ela nos fala da afirmaçãoda essência do Ser como se fora o reconhecimento e a lembrança da própriacanção; e indica uma realidade: quando buscamos nossa essência e vivemos apartir dela não há em nós lugar para estas forças. Elas não encontram em nósressonância, e perdem o poder sobre nós. Despertemos, então, e busquemos anossa canção!Sobre a Antiga e a Nova EspiritualidadeHouve tempo em que toda a vida exterior, quanto à sua estrutura social,política e econômica, era organizada mediante a sabedoria que emanava doscentros de mistérios. Naquele tempo estes centros de mistérios estavamligados a edifícios cúlticos erigidos no plano físico, e neles a consciência doespiritual era cultivada através de purificação, instrução, e práticasmeditativas. Os templos do Espírito eram visíveis exteriormente. ―Hoje, quandonossa vida se tornou tão desespiritualizada, esses templos não existem mais noplano acessível aos olhos materiais. Mas existem espiritualmente por toda parte, Página 3
  4. 4. e quem os procurar, quem desenvolver em si certas qualidades anímicas até umgrau elevado poderá encontrá-los”( Conhecimentos dos Mundos Superiores -GA10). De acordo com Sergei Prokofieff, em seu livro ―May Human Beings Hearit!‖, justamente a fim de que o maior número possível de seres humanos possaencontrar tais templos a partir do poder da alma da consciência, aAntroposofia foi trazida à Terra.Ainda segundo Prokofieff, em verdade, todo o desenvolvimento da Antroposofiaao longo dos vinte e um anos, começando em 1902 e indo até a Assembléia deNatal em 1923, constituiu o processo de construção de um Templo Invisível,no plano suprasensível. Os primeiros sete anos foram dedicados àfundamentação de uma moderna ciência do espírito, de um caminho cognitivoque pudesse levar do sensível ao supra-sensível. Foram os anos em queSteiner escreveu suas obras básicas, culminando com a Ciência Oculta emque dá a conhecer os primeiros frutos de uma investigação espiritual sobre oHomem, sua origem, a morte, o destino, entre outros. Ele penetra na esferados pensamentos cósmicos e os converte em pensamentos humanosacessíveis a todos os que são dotados de um juízo sadio. Este primeiro setêniodo desenvolvimento da ciência espiritual é principalmente ligado ao Pensar ecorresponde no mundo espiritual ao primeiro estágio da construção do templosupra-sensível dos novos mistérios, constituindo a estrutura de uma duplacúpula.O segundo período de sete anos (1910 a 1916) assumiu um caráter totalmentediferente do primeiro. Tudo quanto havia sido dado em forma conceitual eraagora vertido para uma forma imaginativa, artística. Foram os anos dosdramas de mistérios, do surgimento da Arte da Fala e da Euritmia, darenovação das artes culminando na construção do primeiro Goetheanum –obra prima de arquitetura, escultura, pintura, enfim das artes plásticasimpulsionadas por um saber espiritual. Foi também o período da pesquisaCristológica e da proclamação da nova revelação do Cristo no Etérico. De umponto de vista mais esotérico, pode-se dizer que nesta fase Rudolf Steinerpenetrou na esfera das Imaginações Cósmicas transformando-as emimaginações humanas acessíveis a todo indivíduo que possua algumasensibilidade artística e não esteja por demais contaminado pelo caráterarimânico- mecanicista e materialista da época. Com isto, Rudolf Steinerrealizou a segunda etapa da construção do templo adicionando-lhe à cúpula,as paredes erguidas a partir de imaginações cósmicas e humanas no mundoetérico.O terceiro período (1916 a 1923) foi marcado pelo estabelecimento dasiniciativas práticas inspiradas pela Antroposofia. Além dos impulsos derenovação da vida religiosa (Comunidade de Cristãos) e do âmbito social(Movimento para a Trimembração do Organismo Social), surgiram a educaçãoWaldorf, a medicina antroposófica, a farmacologia (Weleda), agriculturabiodinâmica, arquitetura orgânica, todas diretamente inspiradas a partir das Página 4
  5. 5. fontes da Ciência Espiritual. Agora a Antroposofia penetrava o âmbito doquerer, a partir da força cósmica do Amor espiritual. Pois, em realidade, oamor não é somente a expressão do sentir humano, mas a mais poderosaforça criadora, uma força tão poderosa que pode atuar na transformação eespiritualização da matéria. Assim, nesta época, Steiner estabeleceu osalicerces do Templo supra-sensível e completou-o ao final do terceiro setênio.Seu fundamento consistia, portanto de Amor Cósmico e Humano.À construção do templo, seguiu-se sua consagração aos poderes que guiam anossa evolução — o Ser do Cristo, Michael e o ser Antroposofia. Isto se deuatravés do Congresso de Natal em 1923, um ponto crucial da história daAntroposofia cujo teor e significado, entretanto, não vamos abordar agora, poisnos levaria longe demais. Para nós, neste momento, basta saber que emconexão com este acontecimento deu-se a Fundação dos Novos MistériosCristãos; e todo aquele que a partir de sua livre vontade queira trilhar estecaminho de desenvolvimento conscientemente, pode encontrar a senda queconduz ao templo do Ser Vivo Antropos-Sophia.Resta-nos agora indagar, como o despertar para a busca de um caminhointerior no qual se procure cultivar a própria essência, a própriaespiritualidade se relaciona com a tarefa de educar os filhos?Examinemos, pois, inicialmente, o significado de tornar-se Pai e Mãe, e o queisto requer de cada um de nós.O Significado de Ser Mãe ou PaiDe acordo com a Dra Michaela Gloecker, em seu Consultório Pediátrico, ―ostermos mãe, pai e filho sempre tiveram um significado duplo – um natural eum ideal. Inicialmente, é a criança que faz a mãe ser mãe e o pai ser pai, pormeio da procriação, da concepção, da gestação e do parto. Nessa sucessão, amulher vivencia o processo de tornar-se mãe como um processopredominantemente corporal, em que a criança se apodera dela e nela sedesenvolve. O homem, no entanto, embora tenha impulsionado o processofisicamente, vivencia o tornar-se pai principalmente no âmbito anímico. A elecabe o papel de acompanhar a gravidez e o parto com uma atitude deobservação sensível. O resultado sensato disso é que ele pode estar àdisposição para ajudar, não apenas nas semanas e meses após o parto, mas,além disso, para cuidar da base existencial exterior da família emdesenvolvimento. No pai isso coincide com uma tendência instintiva. Ele ficafeliz em poder fazer algo para a proteção, a segurança e as necessidades damãe e da criança; fica magoado quando é impedido de realizar esses feitos, ouquando seus esforços não são levados a sério. O elemento especificamentepaterno está na capacidade de estar presente interiormente e exteriormente,quando a mãe e o filho necessitam dele, percebendo-os e levando-os em suaconsciência. Essa é a origem do profundo sentimento de pertinência, quepermite à mãe e ao filho sentirem-se protegidos animicamente. Página 5
  6. 6. Neste espaço anímico aberto pelo interesse paterno, as habilidades específicasda mãe podem desenvolver-se com a maior efetividade possível: estasconsistem na prontidão e na abertura amorosas, necessárias para executarcom paciência e alegria os infinitos atos repetitivos requeridos pelocrescimento da criança no período inicial. Dispensada, sempre que possível,das preocupações materiais, a mãe pode dedicar-se livremente ao filho. Essasituação se estende até o momento em que a criança desenvolve por si mesmaa tendência a passar regularmente algumas horas do dia em outros espaçosvitais, isto é, quando ela se torna madura para freqüentar o jardim deinfância. No caso de uma relação a três intacta, ela pode assimilar então, demaneira marcante, o modo como dois adultos inteiramente diferentes lidamentre si e com ela, possibilitando seu desenvolvimento como ser humano.Reconhecendo as necessidades específicas para o desenvolvimento da criançapequena, os órgãos oficiais instituíram a licença maternidade, com duração dequatro meses.Queremos salientar que ser mãe, isto é, estar de corpo e alma à disposição dascrianças durante o dia inteiro, representa uma atividade profissionalplenamente válida. Seria correto ter um reconhecimento financeiro a partirdos recursos públicos! Quando, principalmente na fase pré-escolar as criançaspodem ter um verdadeiro lar, um espaço vital em que sejam percebidas e ondealguém se dedique a elas, não sendo a mãe obrigada a trabalhar fora paraganhar dinheiro, elas manifestam sua gratidão aos pais com saúde e alegriade viver.Por isso recomendamos, no interesse das crianças, que se aproveite estaoportunidade sempre que possível. Nada pode substituir as vivências infantisde proteção, confiança e relacionamento constante nos primeiros três anos.Mesmo quando os pais dividem esta tarefa entre si, ainda se mantém um gestofundamental, ideal, dessa trindade: no centro, a criança, que exige e aceitatudo com naturalidade, e a seu lado, os pais, que acompanham seudesenvolvimento, alegram-se com seus progressos e, como retribuição,recebem o amor e a confiança do filho.Com isso tocamos o lado ideal do que significa ser pai e mãe: com toda anaturalidade, a criança vive protegida e com plena confiança nos pais. Poréma mãe e o pai são como que os representantes daquilo que em todas asreligiões foi venerado como aspectos divinos paterno e materno, ao lado doelemento eternamente em devir e que, no cristianismo, tem sua designaçãosuprema na Santíssima Trindade. Quem quando criança, experimentou aaceitação carinhosa e sem reservas de sua própria essência tal qual ela é, etambém o empenho para se atingir o que é puramente humano, verdadeiro ebom, gosta de lembrar-se de sua infância mesmo que tenha sofrido pobreza epenúria materiais. Jacques Lusseyran declarou em sua biografia que o amor Página 6
  7. 7. que seus pais nutriam por ele, criança cega, era como a armadura mágica que,uma vez colocada, protege por toda a vida.”Assim, reconhecemos que há um ideal. Mas na prática, o que acontece? Seráque conseguimos honrar esta imagem de Pai e de Mãe? Será que conseguimosser assim? Vejamos...O Desafio de Educar os FilhosEducar os filhos é uma das tarefas mais instigantes, trabalhosas, eestressantes do planeta. É também uma das mais importantes e gratificantes,pois através dela se marca profundamente a próxima geração, influenciando-lhe o coração, a alma, a consciência, a experiência de sentido e ligação, orepertório de habilidades para a vida e os mais profundos sentimentos queessa geração tem sobre si mesma e seu possível lugar num mundo emtransformação acelerada. Entretanto, quando nos tornamos pais, fazemos issopraticamente sem qualquer preparação ou treino; muitas vezes com pouca ounenhuma orientação e apoio, e tudo isso num mundo que valoriza muito maiso produzir do que o nutrir, o fazer do que o ser.Tipicamente, o trabalho de criação dos filhos é uma jornada para a qual separte sem uma estratégia clara nem uma visão panorâmica do terreno, maisou menos com a postura intuitiva e otimista que assumimos diante de outrassituações da vida. Aprende-se com a prática. Não há de fato outra maneira.É verdade que existem inúmeros ―manuais‖ sobre educação de filhos e quepodem até ser úteis como referência, mostrando-nos novas maneiras de ver assituações ou tranqüilizando-nos ao comprovar, especialmente quando aindasomos inexperientes, que há várias formas de lidar com as coisas e que nãoestamos sós.Mas o que estes livros não costumam abordar é a experiência interior dotrabalho de educar os filhos. Como não se deixar engolir por tantas dúvidas,incertezas, inseguranças, problemas reais que enfrentamos na vida, momentosde conflito interno ou com terceiros, inclusive com os próprios filhos? Esseslivros também não dizem como podemos nos tornar mais sensíveis e dar maisvalor às experiências interiores dos nossos filhos.Para sermos pais conscienciosos, precisamos fazer um trabalho interiorconosco mesmos aliado ao trabalho exterior de criar e proteger nossascrianças. O conselho técnico que podemos aprender nos livros para nos ajudarno trabalho exterior precisa ser complementado por uma autoridade internaque só podemos cultivar e conquistar em nós mesmos por meio da lapidaçãode nossa experiência pessoal. Esta autoridade interna só se desenvolvequando nos damos conta de que, apesar de todos os acontecimentos queescapam ao nosso controle, continuamos sendo primordialmente através dasescolhas que fazemos em razão desses fatos, e através do que partiu de nósmesmos, os autores de nossas vidas. Ao perceber isso, podemos acabar Página 7
  8. 8. reconhecendo o quanto é importante para nossos filhos e nós mesmos assumirresponsabilidade pela forma como vivemos nossa vida e pelas conseqüênciasdas escolhas que fazemos.A autoridade e autenticidade interiores podem ser extraordinariamentedesenvolvidas se fizermos esse trabalho interior. Nossa autenticidade e nossasabedoria aumentam quando estamos conscientes das coisas que fazemos.Quando temos nossa atenção presente em cada pensamento, ato ou palavra.Com o tempo, podemos aprender a conhecer mais profundamente cada um denossos filhos e saber o que precisam e tomar a iniciativa de descobrir formasapropriadas de educá-los promovendo seu crescimento em todos os sentidos.Também podemos aprender a interpretar os sinais diversos e muitas vezesenigmáticos que ás vezes eles nos enviam através de seu comportamento econfiar em nossa capacidade de encontrar uma maneira adequada de agir.Atenção, exame e consideração constantes são essenciais neste caminho.Podemos nos tornar pais intencional ou inadvertidamente, mas, seja como for,a paternidade e a maternidade são uma vocação. Na realidade, trata-se denada menos que uma disciplina espiritual rigorosa – a busca do ideal derealização do que há de mais profundo e verdadeiro em nossa natureza comoseres humanos. O simples fato de nos tornarmos pais é um estímulo contínuopara a manifestação do que temos em nós de melhor, mais amoroso, sábio ecarinhosos, para sermos as melhores pessoas que pudermos ser.Lidar com filhos anuncia todo um conjunto novo de solicitações e mudançasem nossas vidas, exigindo que renunciemos a muitas coisas conhecidas e queassumamos outras tantas desconhecidas. Em geral contamos apenas comnossos instintos humanos mais profundos e a bagagem que trazemos denossa infância, tanto a positiva quanto a negativa, para enfrentar o territóriodesconhecido de ter filhos e educá-los.E assim como na vida quando nos vemos diante de pressões familiares, sociaise culturais para observar normas em geral tácitas e inconscientes, e de todasas tensões inerentes ao exercício da paternidade, apesar de nossas melhoresintenções e do amor que sentimos por eles, muitas vezes estamos ligados nopiloto automático. Além disso, quanto maior for nossa preocupação com otempo, a nossa pressa, tanto menor será o nosso contato com a riqueza, o viçodo momento presente Esse momento pode parecer demasiado comum,rotineiro ou fugaz para merecer atenção, e vivendo assim, facilmente caímosna armadilha do automatismo ilusório, enquanto mantemos a crença de quetudo o que fazemos por eles é certo.Uma atuação automática, não permeada pela atenção consciente pode causardanos profundos ao desenvolvimento da criança. A atitude inconsciente emrelação à educação dos filhos também conspira para deter nosso crescimentopotencial como pais. Essa inconsciência traz, muitas vezes, tristeza,oportunidades perdidas, sofrimento, ressentimento, censura, sentimentos de Página 8
  9. 9. autodesvalorização, e outras coisas mais. Se formos capazes de permanecerdespertos para os desafios e a vocação da paternidade/maternidade, isso nãoprecisa acontecer. Ao contrário, podemos usar todas as ocasiões que surgiremcom nossos filhos para derrubar barreiras em nossas próprias mentes, paraenxergar com mais clareza dentro de nós mesmos e estar presentes para elesde modo mais efetivo.Um dos grandes desafios de se educar filhos em nossa época vem do fato devivermos numa cultura que não valoriza muito o ofício da maternidade comotrabalho válido e honrado. Considera-se perfeitamente aceitável as pessoasdedicarem-se integralmente às suas carreiras ou às suas relações, ou círculossociais, mas há bem pouco apoio, às vezes até críticas veladas ou mesmoabertas à postura de quem escolhe dedicar-se aos filhos.A sociedade como um todo, com seus valores e instituições que moldam e aomesmo tempo refletem o microcosmo de nossas mentes e valores individuais,contribui muito para desvalorizar o trabalho de educação das crianças. Quemrecebe os maiores salários no país? Certamente não quem trabalha emcreches, nem os professores, cujo trabalho tanto apóia a tarefa dos pais. Ondeestão os exemplos, as redes de apoio, o trabalho compartilhado e o trabalhoem meio expediente para mães e pais que não se contentam em ficar apenasumas poucas semanas com seus filhos recém-nascidos em casa? Onde estãoos subsídios para jovens pais, os cursos de pais, programas adequados delicença paternidade e maternidade, que, por sua prevalência, nos mostramque o trabalho de educar os filhos é da maior importância e é altamentevalorizado pela sociedade?Certamente há coisas boas e razões para se ter esperança. Há também quemveja sua função de pai/mãe como uma missão sagrada, e encontra maneirascriativas e calorosas de orientar seus filhos e cuidar deles, muitas vezesenfrentando grandes obstáculos e dificuldades. Existem também os que seocupam em criar programas e serviços de orientação às famílias, oferecerconhecimento, alternativas saudáveis de recreação, e assim por diante.Mas os problemas são desconcertantes e estão criando um ambiente social emque é cada vez mais difícil para as famílias educar filhos saudáveis.Manifestações tangíveis e diárias de amor, apoio, energia e interesse por partede adultos de carne e osso e respeitados estão-se tornando cada vez maisraras hoje em dia.Porém, se de um lado somos sujeitos a grandes forças sociais que moldamnossas vidas e as vidas de nossos filhos, por outro, também temos acapacidade como indivíduos de escolher conscientemente como vamos nosrelacionar com as circunstâncias e com a era em que vivemos. Todos nóstemos o potencial para traçar nossos caminhos, para viver com mais atenção eintencionalidade, e para tentar ver e honrar as profundas necessidadesespirituais de nossos filhos e as nossas da melhor forma possível. Traçar um Página 9
  10. 10. caminho como esse para nós fica mais fácil quando temos uma estruturamaior como parâmetro e entendemos o que estamos fazendo e o que precisaser feito – uma estrutura que pode nos ajudar no caminho, mesmo que ascoisas estejam sempre mudando e nossos próximos passos nem sempre sejamevidentes. O conhecimento científico-espiritual pode fornecer parte destaestrutura. A atenção pode complementá-lo.Uma relação atenta com a integridade de nossa vida – isto é, com as nossasexperiências interiores e exteriores – é uma alternativa profundamente positivae prática ao modo de operação no piloto automático que adotamos tantasvezes sem sequer perceber. Isso é particularmente importante para nós pais,enquanto fazemos malabarismos para tentar atender a todas as exigências dodia-a-dia e trabalhamos para sustentar nossos filhos e lhes dar aquilo de queprecisam num mundo cada vez mais desgastante e complexo.O Exercício da Maternidade/Paternidade AtentaA maternidade/paternidade atenta é uma convocação para o despertar de umanova consciência e uma nova intencionalidade para as possibilidades,benefícios e desafios da tarefa de criar os filhos. Esta consciência, que vem aser atenção consciente, pode levar à compreensão mais profunda de nossosfilhos e de nós mesmos.A atenção tem o potencial de penetrar no fundo das aparências ecomportamentos e nos permitir enxergar mais claramente e agir com maissabedoria e compaixão. Esta pode ser uma prática regeneradora etransformadora.Neste caminho, muitas vezes nossos filhos são como mestres, eternamentedesafiadores, sempre nos oferecendo oportunidades de fazer o trabalho internode compreender quem somos e quem eles são, para que possamos estar emcontato com o que é realmente importante e lhes dar aquilo de que necessitama fim de desvelar todo seu potencial. Ao longo desse processo, podemosdescobrir que esta consciência permanente pode nos liberar de alguns hábitosde percepção e relacionamento mais limitadores, as camisas de força e asprisões mentais que adquirimos ou construímos para nós mesmos.Quanto mais conseguirmos ter em mente a beleza e completude intrínsecas denossos filhos, especialmente nos momentos em que isso nos é mais difícil,tanto mais aprofundaremos nossa capacidade de agir atentamente.Esses nossos ―professores‖ certamente nos oferecerão inúmeros momentos demaravilhamento e felicidade, e oportunidades para os sentimentos maisprofundos de ligação e amor. E também evocarão nossas inseguranças,testarão nossos limites, tocarão aqueles nossos pontos que temos medo detocar. Estão sempre como um espelho para que nos olhemos. Se estivermosdispostos a prestar atenção, eles nos mostrarão o melhor da vida, inclusiveseu mistério, enquanto compartilhamos esta jornada com eles. Página 10
  11. 11. Para colocarmos essa atenção consciente em nosso relacionamento comnossos filhos, é bom saber algo sobre ela: Essa atenção significa umaconsciência permanente desprovida de crítica. É algo que desenvolvemoscultivando a capacidade de nos concentrar, intencionalmente, no momentopresente, e manter essa concentração da melhor forma possível.Em geral, vivemos a maior parte do tempo ligados no piloto automático, semdar importância a muitas coisas importantes ou deixando-as passartotalmente despercebidas, e julgando tudo o que experimentamos a partir deopiniões apressadas e muitas vezes não ponderadas, baseadas no quegostamos ou deixamos de gostar, no que queremos ou deixamos de querer.A atenção consciente nos oferece um meio para nos concentrarmos no quequer que estejamos fazendo a cada momento, e com isso, enxergarmos umarealidade mais profunda por trás do véu de nossos gestos e pensamentosautomáticos.A atenção consciente sempre esteve no cerne de todos os caminhos dedesenvolvimento espiritual. Ela é uma disciplina meditativa. É interessanteobservar como no vocabulário grego existe uma grande proximidade entre aspalavras proseuchè – oração e prosochè – atenção. Como diz LeLoup, umhomem atento é já um homem que ora; ―nesse caso, a oração não é outracoisa senão a atenção do coração à Presença Uma que transforma cada coisaem um presente; um reconhecimento agudo e terno daquele que É em tudo oque é...‖Malebranche também disse: ―A atenção é a prece natural da alma‖.E agora até mesmo a neurociência reconhece estas relações entreoração/meditação e atenção através de estudos por ressonância magnéticaque demonstram uma maior ativação de áreas do cérebro relacionadas com afunção atenção em estados meditativos e seus efeitos sobre a saúde.Não é um acaso se os antigos terapeutas eram chamados grandes vigilantes;os monges também se juntaram a eles nesse labor e é desta atenção que éextraído seu conhecimento e louvor. Aliás, a atenção constitui o momentoúnico em que a inteligência e o coração podem estar juntos.Diádoco de Fótice convida incessantemente a prestar atenção; disso, osmanuscritos de sua obra revelam: ―Quando um psiquismo (psichè) começa ase purificar pela intensidade de sua atenção, nesse caso, como se fosse umverdadeiro remédio de vida, ele sente o frêmito divino que o queima‖.Aqui, a atenção é considerada como um remédio; trata-se do retorno ao Real.A atenção é exatamente este caminho de retorno: ela faz-nos voltar desseesquecimento do Ser; ainda mais, ela faz-nos sair do inferno que é a ausênciade misericórdia. Página 11
  12. 12. ―... A atenção é neste caso, outro nome para dizer Amor, quando este não secontenta com emoções ou boas vontades, mas torna-se o exercício cotidianode um encontro com o que é, com o que somos.Através dos labirintos de nossas preocupações, seria necessário conservarmosum fio de feliz vigilância. Sem essa vigilância, como poderíamos reconhecer aPresença Una, sob suas múltiplas formas, e degustar seu sabor (sapienza)?Como poderíamos cuidar do Ser?‖O exercício da educação atenta envolve ter em mente o que é verdadeiramenteimportante enquanto estamos executando as atividades do dia-a-dia comnossas crianças. Na maior parte do tempo, podemos achar que precisamosnos lembrar do que é isso, ou mesmo admitir que não o sabemos naquelemomento, pois é fácil perder o fio do sentido e o rumo de nossas vidas. Masmesmo nos momentos mais difíceis e às vezes terríveis que enfrentamos comoeducadores, podemos cuidadosamente recuar e começar de novo,perguntando-nos como se pela primeira vez, e vendo com novos olhos: ―O queé verdadeiramente importante aqui?‖De fato, ser atento na educação de crianças significa ver se podemos lembrar-nos de colocar este tipo de concentração, abertura e sabedoria em todos osmomentos que temos com elas. E para isto, é preciso aprender a ficar emsilêncio dentro de nós mesmos. Na quietude, estamos mais preparados paraenxergar além do tumulto, nebulosidade e reatividade endêmicos em nossasmentes, nos quais freqüentemente nos enredamos, e assim, desenvolver alucidez, a calma e a percepção, aproveitando essas coisas diretamente emnosso trabalho com nossas crianças.Como todo mundo, nós temos nossas necessidades e desejos, assim como ascrianças. E tanto em aspectos importantes como em aspectos banais, estasnecessidades podem ser muito diferentes e até conflitantes. E este choque denecessidades, especialmente se estamos estressados, sobrecarregados eesgotados, pode se tornar num cabo de guerra, uma competição, um medirforças para ver quem sai ganhando.Ao invés de competir com as crianças, os educadores atentos desenvolvemuma consciência, exatamente em momentos assim, de como nossasnecessidades são interdependentes. O bem-estar das crianças afeta o nosso, eo nosso afeta o deles. Isto é, se eles não estão bem nós sofremos, e se nãoestamos bem, eles sofrem.Isto significa que temos de estar sempre trabalhando para perceber asnecessidades deles assim como as nossas, tanto emocionais quanto físicas, e,dependendo da idade deles, dialogar e chegar a acordos com eles einternamente conosco, para que todo mundo consiga um pouco daquilo deque mais necessita. Pela qualidade de nossa presença, nosso compromissocom eles é sentido, mesmo nas horas mais difíceis. E com o tempo, podemos Página 12
  13. 13. fazer escolhas mais ditadas por essa ligação sincera, o que certamenteenvolverá mais bondade e sabedoria.Consideramos o trabalho dos educadores uma responsabilidade sagrada. Emgeral, espera-se dos pais e educadores que sejam nada menos que protetores,nutridores, confortadores, professores, guias, companheiros, modelos e fontesde amor e aceitação incondicionais. Bem sabemos que não conseguimoscorresponder totalmente a isso. Mas se pudermos ter em mente essaconcepção desse trabalho como uma responsabilidade sagrada, e colocarmosum pouco de atenção no processo à medida que ele se desenvolve, é muitomais provável que nossas respostas sejam guiadas por uma consciência doque esse momento, ou esse menino ou menina _ nesse estágio de sua vida _está nos pedindo, com seu ser e seu comportamento. Estando à altura dessedesafio, podemos não apenas acabar fazendo o que é melhor para eles, mastambém revelar e passar a conhecer o que temos de melhor e de maisprofundo.A educação atenta requer o reconhecimento e identificação dos desafios queenfrentamos diariamente na tentativa de fazer um trabalho consciente comoeducadores. Neste exercício de atenção, a consciência tem de ser inclusiva.Quer dizer, tem de incluir o reconhecimento de nossas próprias frustrações,inseguranças e defeitos, nossos limites e limitações, e até nossos sentimentosmais sombrios e destrutivos, e as maneiras como podemos nos sentiresmagados ou desfeitos. Desafia-nos a trabalhar essas questões de formaconsciente e sistemática.Assumir uma tarefa destas é pedir muito de nós mesmos. Pois em diversosaspectos somos produtos e, às vezes, em maior ou menor grau, prisioneirosdos fatos e circunstâncias de nossa infância. Já que a infância moldasignificativamente nossa visão de mundo e de nós mesmos, nossas históriasinevitavelmente moldarão nossa visão de nossas crianças e ―do que elesmerecem‖ ou de como devem ser tratados, ensinados e socializados. Mesmoque às vezes não percebamos, somos muito apegados às nossas visões, sejamelas quais forem, como se estivéssemos dominados por encantos poderosos.Só quando percebemos esta característica é que podemos aproveitar o quehouve de bom, positivo e enriquecedor no modo como fomos educados , esuperar os aspectos que podem ter sido destrutivos e limitadores.Para aqueles de nós que tiveram de se fechar, de não ver, de suprimir ossentimentos para sobreviver à própria infância, tornar-se mais atento pode serespecialmente difícil e doloroso. Nessas horas, em que somos governados pornossos antigos demônios, em que vêm à tona crenças prejudiciais, padrõesdestrutivos e pesadelos de nossa infância, e somos atormentados porsentimentos negros e achamos que as coisas são ou pretas ou brancas, écomplicadíssimo parar e ver as coisas com novos olhos. Página 13
  14. 14. Mas o que conta não é a perfeição de resultados, e sim, a qualidade do esforço,o sentido de compromisso. A educação atenta é um processo contínuo deaprofundamento e refinamento da consciência e da habilidade de estarmospresentes e agir com sabedoria. Não é uma tentativa de atingir objetivos ouresultados fixos, por melhores que sejam. Uma parte importante desteprocesso é justamente sermos compassivos conosco mesmos. Isto significaenxergar e aceitar nossas limitações, cegueiras, nossa humanidade,falibilidade, e trabalhar com estas deficiências de forma atenta, procurandofazer o melhor possível.Agora, é preciso que se diga, este é um trabalho para quem se interessa, deverdade, pelo bem-estar e qualidade de vida das crianças. É para quemrealmente quer demonstrar amor através de seu ser e de seus atos cotidianos.Não é provável que possamos fazer isto se não tivermos esta motivação comoponto de partida. Assim, antes que vocês me perguntem ―Como podemos fazerisso?‖ eu preciso perguntar: Vocês querem fazer isto? Por que se não formospessoas autênticas e em contato com a totalidade dos sentimentos queexperimentamos, não avançaremos neste caminho. Como todos nós sabemos,há poucas respostas fáceis ou soluções simples no que diz respeito à educaçãode seres humanos. Por outro lado, não se trata tanto de resultados perfeitos, esim, de amor em ação. De compromisso assumido em amor. De decidir o quese quer e ser fiel a tal propósito com o melhor de nossas forças.Mas para os que quiserem assumir este compromisso temos uma proposta eum convite...Como Podemos Fazer Isso?Podemos tomar a resolução de empreender a busca cada um individualmente.E certamente há uma dimensão deste trabalho que é individual e solitária.Mas também podemos nos reunir num esforço conjunto e compartilhado, umavez que nos encontramos numa escola, numa pedagogia, que tem a intençãode cultivar precisamente estes valores: a contínua ampliação do conhecimentoe a auto-educação.Em verdade precisamos ainda confirmar nossa ―comum unidade‖ pelo livrereconhecimento de um propósito comum. Do contrário seremos umajuntamento de pessoas que passam pelo mesmo lugar,pensam, sentem erealizam coisas, mas não constituem de fato uma comum unidade, pois nãopossuem uma consciência de pertencimento ao organismo social-espiritualdesta escola e sua missão, como mencionamos anteriormente. Não sepercebem como membros deste organismo.Mas se o fizermos, se nos identificarmos como irmãos ou companheiros dejornada, iguais aprendizes, talvez possamos realizar juntos um sonho: umsonho que muitos já sonharam antes de mim. Muitos o vislumbraramindividualmente, mas para materializá-lo é preciso formar a comunidade da Página 14
  15. 15. visão; é preciso que um número suficiente de pessoas livremente queira apoiá-lo em sua manifestação. Falo de uma Escola de Pais. De um movimento quepoderia fomentar o exercício do educador atento, consciencioso e responsável,na medida em que oferece oportunidade para a aquisição de conhecimentos daciência espiritual que fundamentam a Pedagogia Waldorf,sobretudo aantropologia,o estudo do homem, e para o treino da auto-observação, auto-educação. Estudo, vivência, auto-educação.Estamos começando... e precisamos fazer tudo com muito cuidado, pois apressa é inimiga da perfeição. E queremos fazer o que quer que façamos emplena sintonia e harmonia com os professores, guardiões e praticantes destesprincípios, para que juntos criemos as condições pelas quais nossas criançaspoderão se desenvolver da melhor forma possível. Algumas oficinas já estãoacontecendo, outras virão no seu devido tempo.Espero assim, com estas palavras acordar ao menos em alguns de vocês odesejo de começar ou retomar e aprofundar, para os que já começaram, estecaminho interior dos pais.Muito obrigada!REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1) Os Fundamentos Espirituais do Mundo Exterior – GA 177 1ª conferência, Dornach, 29 de setembro de 1917 2) O Conhecimento dos Mundos Superiores – A Iniciação - GA 10 1º capítulo 3) A Educação como uma Força para a Mudança Social -- GA 296 1ª conferência, Dornach, 9 de Agosto de 1919 4) ―A Canção da Criança‖ de Tolba Phanem 5) May Human Beings Hear it! de Sergei Prokofieff capítulo 6 6) Consultório Pediátrico de Michaela Gloecker e Wolfgang Goebel pgs 328 e 329 da 3ª edição 7) Nossos Filhos, Nossos Mestres de Myla e Jon Kabat-Zinn 8) A Arte da Atenção de Jean Yves Leloup 9) O Despertar da Consciência de Eckhart Tolle Página 15
  16. 16. A Canção da CriançaQuando uma mulher, de certa tribo da África, sabe que está grávida, seguepara a selva com outras mulheres e juntas rezam e meditam até que aparece a―canção da criança‖.Quando nasce a criança, a comunidade se junta e lhe cantam a sua canção. Logo, quando a criança começa sua educação, o povo se junta e lhe canta suacanção.Quando se torna adulto, a gente se junta novamente e canta.Quando chega o momento do seu casamento a pessoa escuta a sua canção.Finalmente, quando sua alma está para ir-se deste mundo, a família e amigosaproximam-se e, igual como em seu nascimento, cantam a sua canção paraacompanhá-lo na "viagem"."Nesta tribo da África há outra ocasião na qual os homens cantam a canção.Se em algum momento da vida a pessoa comete um crime ou um ato socialaberrante, o levam até o centro do povoado e a gente da comunidade formaum círculo ao seu redor.Então lhe cantam a sua canção"."A tribo reconhece que a correção para as condutas anti-sociais não é ocastigo; é o amor e a lembrança de sua verdadeira identidade.Quando reconhecemos nossa própria canção já não temos desejos nemnecessidade de prejudicar ninguém.―Teus amigos conhecem a "tua canção"e a cantam quando a esqueces.Aqueles que te amam não podem ser enganados pelos erros que cometes ou asescuras imagens que mostras aos demais.Eles recordam tua beleza quando te sentes feio;tua totalidade quando estás quebrado;tua inocência quando te sentes culpadoe teu propósito quando estás confuso.― Tolba Phanem Página 16

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