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1. Casagrande e seus demôniosWalter Casagrande Júnior Gilvan Ribeiro2. Copyright © 2013 by Editora Globo S. A. para a pres...
campocapítulo quinze - O Leão é mansocapítulo dezesseis -Aventura na Europacapítulo dezessete - Às turras comTelêcapítulo ...
Senta-se diante de uma mesa. Primeiro, cheira trêscarreiras decocaína. Toma uns comprimidos pra dar barato. Prepara, aí si...
no aeroporto SantosDumont com uma presença implantada pelaPolícia Federal, braço repressivo da ditadura, queanunciou apris...
toda, nem vi o show. Depois fui tirar uma foto com oPeterFrampton. Eu parecia um fantasma‖, me disse certa vez.7. Corinthi...
cheia de repórteres e fotógrafos, ou, quem sabe, num anel deacesso àarquibancada, com torcedores, batuque, bandeiras ecorn...
durante a ditadura)? Quantos podem dizer que subiram ao palcopara cantar com a RitaLee e ao palanque para lutar pelasDiret...
11. As portas do inferno estavam abertas. Os demônios invadiama casa, sem qualquer cerimônia,andavam pelos cômodos,apareci...
assustado pra caralho, via demôniospelo apartamento inteiro.Eram maiores do que eu, com dois ou três metros de altura.Algu...
A Bíblia revela asaga de Lúcifer, anjo criado por Deus paraliderar os querubins, mas que se rebelou contra oCriador eacabo...
aberto uma porta que não deveria, para asenergias ruinsbaixarem em casa.‖ Mas não eram somente os demônios queinfernizavam...
passado a vidatoda, desde a adolescência, escondendo dela queusava drogas, seria justo pedir água quando nãoconseguia mais...
em cada palavra dele. Com o tom alterado, ofegante,Casagrande relatou seu calvário, deforma abreviada, e aceitouque ela le...
iniciou o ritual religioso. O sacerdote andou por todososcômodos, espirrando água benta pelo local. Concluído otrabalho, n...
venceram. O jeitoera procurar refúgio em outro lugar qualquer.Decidiu ir para um hotel o mais rápido possível. A estratégi...
domingo, ligou o rádio e sintonizou a cbn, comosemprecostumava fazer. Foi assim que ela ficou sabendo do ocorridocom o fil...
quantidade render, resolveu combiná-la comcocaína. O chamado―speed‖. O processo era complexo e demandava certo tempo.Por i...
convulsão. O seu corpo se debatia e fazia uma tremendabarulheira ao sechocar com os ladrilhos e o vaso sanitário.Entretido...
Sozinho, Casão percebeu que oproblema ainda não haviapassado. Durante a hora em que Mônica e Leonardo ficaramausentes, ele...
mal,cara‖, disse o médico. Ele gelou ao ouvir o conselho. Nofundo, tinha consciência de que não havia alternativa,masrelut...
uma semana sem usar nada. Fiz o jogo bonitinho na quarta-feiraà noite(participou da transmissão como comentarista da tvGlo...
comoconseguira correr ao telefone naquele momento.Emocionalmente dilacerado, queria desabafar.Expliquei queprecisava escre...
judicial. Seriaconstrangedor fazer Casagrande ter de se defenderpor algo que eu havia escrito. E mais umproblema, naquelas...
nívelem que eu estava, era insuficiente.‖ Solidária a seu parceirodesde a juventude, Mônica participou do processoterapêut...
mesa para beber e conversar, sem qualquer exibição. Aapresentadora Adriane Galisteu também marcou presença,juntamente com ...
chegou a embarcar com a noiva. Passara a seinjetar cocaínanovamente e, no dia 21 de dezembro, teve outra overdose.―Dessa v...
sedação para a clínica Greenwood, em Itapecerica da Serra, a33quilômetros de São Paulo. Essa clínica é conhecida por serfe...
prolongado.Manifestava preocupação com seu trabalho, alegavaque iria perder o emprego, precisava cuidar dafamília, dos fil...
iria estender operíodo de internação, convenceu-se danecessidade de isolamento e da terapia em períodointegral,longe das a...
fica semrefrigerante no fim de semana, quando os internos têmdireito a duas latinhas. Para receber visita,regalia restrita...
internos e funcionários só o chamavamassim, pelo primeironome. Uma forma de humanizar o personagem e tirar a auracriada pe...
entendido que meus filhostinham feito o que era melhor paramim. A minha relação com eles, hoje, é ótima.‖32. Mesmo na cond...
A trajetória revelada por Clapton, quesuperara a dependência deheroína, cocaína e álcool, abria agora uma nova janela. Mui...
Lima, no Altode Pinheiros. Radiante de alegria, ele me ligoucontando a boa-nova e marcamos de almoçar nosábado.Naturalment...
de leve, sobre as possíveis consequências. Mesmo assim, eleautorizou asubida do jovem casal, aparentemente adolescente, ea...
mimcomo para a editora? ―Eu não sabia como dizer não, aindamais pelo nível de envolvimento a que játínhamos chegado coma i...
38. Cada filho sofreu à sua maneira o drama paterno. São trêspersonalidades completamente diferentes.O mais velho, VictorH...
criação coletiva. Ele cantava e tocava baixo. No dia em quedecidiu comprar oinstrumento e aprender música, recebeu umestím...
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problema do pai ter se tornado público. Certa vez, houve umasaiajusta em seu ambiente de trabalho, na Record. Umfuncionári...
Casãonunca se incomodou com isso e até, deliberadamente,tomou cuidado para não influenciá-los. Jamaisgostou deimposições. ...
impetuoso, não foram poucas as vezes que o jovemcentroavanteenfrentou os próprios companheiros. ―Todo dia tinha conflito,d...
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convívio social e familiar. Dessa maneira,acabou se distanciandodas pessoas amadas e demorou a perceber os danos quecausav...
nunca acontecem na vida da gente; eu não notava nadadiferente nele quando o via, é difícil45. perceber. Mas agora só quero...
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  1. 1. 1. Casagrande e seus demôniosWalter Casagrande Júnior Gilvan Ribeiro2. Copyright © 2013 by Editora Globo S. A. para a presenteedição Copyright © 2013 by Walter Casagrande Júnior e GilvanRibeiroTodos os direitos reservados. Nenhuma parte destaedição pode ser utilizada ou reproduzida – em qualquer meio ouforma, seja mecânico ou eletrônico, fotocópia, gravação etc. –nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados,sem a expressa autorização da editora. Texto fixado conforme asregras do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa(Decreto Legislativo nº 54, de 1995). Editor responsável: AidaVeiga Assistente editorial: Elisa Martins Preparação de texto:Ana Tereza Clemente Revisão: Ana Maria Barbosa e Carmen T.S. Costa Capa, projeto gráfico e diagramação: Negrito ProduçãoEditorial Foto de capa: Daryan Dornelles / Fotonauta Foto dequarta capa: Domício Pinheiro / Diário de S. Paulo 1ª edição,2013 dados internacionais de catalogação na publicação (cip)(câmara brasileira do livro, sp, brasil) Casagrande Júnior, WalterCasagrande e seus demônios / Walter Casagrande Júnior,Gilvan Ribeiro. – São Paulo: Globo, 2013. Bibliografia. isbn 978-85-250-5399-2 1. Casagrande Júnior, Walter 2. Jogadores defutebol – Biografia 3. Jogadores de futebol – Brasil i. Ribeiro,Gilvan. ii. Título. 13-02268 cdd-796.334092 Índices para catálogosistemático: 1. Jogadores de futebol: Biografia 796.334092Editora Globo S. A. Av. Jaguaré, 1485 – 05346-902 – São Paulo– SP www.globolivros.com.br3. SumárioCapaFolha derostoCréditosDedicatóriaPrefácioApresentaçãocapítulo um -Demônios à soltacapítulo dois - Água bentacapítulo três -Overdosescapítulo quatro - A primeira internaçãocapítulo cinco -Memórias do exíliocapítulo seis - A vida lá foracapítulo sete - Osfilhoscapítulo oito - Domingão do Faustãocapítulo nove - Infernona torrecapítulo dez - Prisão em flagrantecapítulo onze -Democracia Corintianacapítulo doze - A ditadura do amorcapítulotreze - Uma dupla (quase) perfeitacapítulo catorze - Política em
  2. 2. campocapítulo quinze - O Leão é mansocapítulo dezesseis -Aventura na Europacapítulo dezessete - Às turras comTelêcapítulo dezoito - Pegadinhas do Casãocapítulo dezenove -Futpopbolistacapítulo vinte - História sem fimCasão por elemesmoAgradecimentosCréditos das fotosCaderno de imagens4. Dedico esta biografia à minha irmã Zilda, que nos deixou tãocedo; ao Sócrates, ao Gonzaguinha e ao Marcelo Fromer, porterem me revelado o verdadeiro sentido da palavra amizade; eao Raul Seixas, ídolo eterno. Walter Casagrande Júnior Dedicoeste livro a Cristina e Luan Maiello, por tudo. Gilvan Ribeiro5. Prefácio―Minha vida dá um livro.‖ Se alguém tem o direito defazer este comentário, seu nome é WalterCasagrande Júnior,nosso amigo Casão, o homem gol com sangue de roqueiro,inquieto, curioso,destemido, atirado e, sobretudo, amigoprestativo e fiel. Recentemente, ele se emocionou e se divertiuem Tóquio, chorou e riu, cobrindo o seuCorinthians no Mundialde Clubes da Fifa 2012. Nos mandava mensagens pelo celularantes dosjogos, ainda madrugada no Brasil: ―Acorda, meu, vaicomeçar o jogo!‖. Sua vida dá um livro. Dá um filme. Dá umaópera rock, sob a supervisão de Lobão, NasiValadão, KikoZambianchi, Lee Marcucci e Titãs, rapaziada bem vivida de seucírculo de amizades. Ópera que começaria com ele sozinho emseu apê no bairro Alto de Pinheiros, em São Paulo, nameia-idade, com um dos melhores empregos do telejornalismo, o decomentarista esportivorespeitado e com prestígio na RedeGlobo. As janelas estão fechadas há dias, e as portas,trancadas. Um cheiro de cigarro, bebida, busca emofo no ar. Porque sempre queremos mais? Se nos dão o topo, queremosatravessar as nuvens. Seestamos na estratosfera, queremos ir aoutros planetas, outras galáxias. Uma inquietação quealimenta ahumanidade. O protagonista Casão, de short, sem camisa, barbapor fazer há dias, cabelos escorridos,emaranhados, começa seuritual macabro e rotineiro. O que buscava? O fundo. O outrolado. Afronteira. Tranca as portas. Coloca o dvd do The Doors.
  3. 3. Senta-se diante de uma mesa. Primeiro, cheira trêscarreiras decocaína. Toma uns comprimidos pra dar barato. Prepara, aí sim,o néctar, a estrela desua festinha particular, uma seringa comheroína. Faz um torniquete, procura uma das poucas veiasqueainda aguentam o tranco de uma agulhada. Enquanto a drogainjetada vagueia pelo corpo, eleenxuga meia garrafa de tequila e,para dar a liga final, fuma um baseado. E quem me descreveuessa cena, com uma sinceridade comovente, num fim de tardecomum, foio próprio. Continua. Ele se deita no chão sobre umamandala, abraçado a um grande crucifixo. Acende umMarlborolight e vê pela enésima vez Jim Morrison cantar: ―This isthe end, my only friend, the end of ourelaborate plans, the end ofeverything that stands, the end, no safety or surprise, the end...‖[Este é ofim, meu único amigo, o fim dos nossos planostraçados, o fim de tudo que interessa, o fim semsaída nemsurpresa, o fim...]. Difícil tal cena ser imaginada. Por maisexagerada e absurda que possa parecer, isso acontecianosúltimos dias do mergulho profundo a uma viagem tenebrosae solitária que, por milagre, foiinterrompida graças à sua família eà perseverança de um filho. Sua busca não tinha mais um fimemsi mesmo, mas o próprio desfecho embutido.6. Ele é levado à força a uma clínica, e nos primeiros quatromeses fica em isolamento, sem tv oujornais. Ao todo, otratamento dura um ano. Repensa. Relembra. Aos dezoito anosde idade, como jogador, faz quatro gols na estreiacomoprofissional do Corinthians. Dias depois, faz três contra oarquirrival Palmeiras. Parece sonho deum moleque torcedor,mas assim ele começou. Corta. Estamos agora no comício dasDiretas Já. Ele, Sócrates, Wladimir e Zenon, diante de maisde 1milhão de pessoas no Anhangabaú, ao lado de Osmar Santos,gritam: ―Queremos eleiçõesdiretas!‖. Num flashback, aparececom dois amigos levando uma dura da Rota, que procura obaseado queele, Casão, dispensou segundos antes. O jogador jáfamoso e articulador do movimento DemocraciaCorintianaapanha da polícia em plena Marginal Tietê. Dias depois, é preso
  4. 4. no aeroporto SantosDumont com uma presença implantada pelaPolícia Federal, braço repressivo da ditadura, queanunciou aprisão com toda a pompa. Muitos acharão que o autor deste livroou os roteiristas do suposto filme carregaram natinta,maltrataram o teclado e exageraram, para ampliar osconflitos e pontos de virada, para tornar anarrativa mais atraentedo que ela é. Impossível. Sim, tudo isso aconteceu e estácontado aqui por Gilvan Ribeiro, que não segue aordemcronológica previsível, não se censura, não adoça, ecomeça pelo pior, pelos Demônios à solta. Casão faz questão decontar o inferno que viveu quando era viciado em drogas e suainternação,pois para ele é fundamental passar adiante aexperiência, dividir as dores da dependência e alertarpara osperigos de um vício frenético, sem preconceitos, desvios oumentiras. A verdade ajuda asanidade. Ele nos lembra com umaincrível riqueza de detalhes, coração aberto, sincero,memóriapreservada, como um alerta. Crianças, não se espelhemem mim. Vi o inferno. Passeei de mãos dadascom o demônio. Enão recomendo. Eu, ―curíntia‖ fanático, amigo do Dotô, ouMagrão [Sócrates], acompanhei de perto as aventuraseprovocações da Democracia Corintiana. Torcia por aquelecamisa 9 cabeludo que frequentava asmesmas casas noturnasque eu, como o Carbono 14, na Bela Vista, achava o Rose BomBom muito―playba‖ — onde começou a cena roqueira brasileirados anos 1980 —, era amigo dos meus amigose jogava muito!Desde os catorze anos ele já era bicho-grilo. Andava deHavaianas ao contrário, jeans desbotado,camiseta da irmã, tipobaby look. Usou tamancos na época. Saía muito com o Magrão[Sócrates], queo adotou. Casão com dezoito anos, já noprofissional do Corinthians, ele com 27. Ele sábio,equilibrado,diante do garoto passional, que queria experimentar tudo navida. Foi em 1982, durante o show de Peter Frampton noCorinthians, que o apresentaram à cocaína.Sentiu-se Zeus noMonte Olimpo. ―O cara me deu um colar com uma conchinhacheia de pó, e euficava cheirando e bebendo Campari a noite
  5. 5. toda, nem vi o show. Depois fui tirar uma foto com oPeterFrampton. Eu parecia um fantasma‖, me disse certa vez.7. Corinthians, Seleção brasileira. Seguiu o caminho dos grandesídolos. Ficou oito anos jogando naEuropa, primeiro no Porto,Portugal, e depois no Torino, Itália, com uma rotina bem família,sem sedrogar, até ser introduzido à heroína. Usou três diasdireto, sem parar. Sacou que aquilo não ia darcerto. A drogapassou a fazer parte de sua ―filosofia de vida‖. Em 2005, comocomentarista, se injetava e saía dirigindo o carro, vendo estrelase fantasmas. Galvão Bueno e, principalmente, Marco Mora,diretor executivo da cgesp (Central Globo deEsportes em SãoPaulo), o bancaram durante a internação. A imprensa opreservou, por respeito aoseu passado e ao grande cara quetodos adoram. Até o desafeto ex-goleiro e técnico EmersonLeão,que era contra a Democracia Corintiana, o procurou e oapoiou. Paulo César Caju, craque que viveudrama semelhante,deu suporte. Assim como Lobão. Não fugia da clínica porquequeria provar que não precisava estar lá. Ficou quatromeses.Descobriu que, sim, precisava estar lá, que ―dependentesquímicos usam drogas para se anestesiar dealgo na vida comque eles não conseguem lidar‖. Ficou mais oito meses,totalmente isolado,recebendo visitas apenas dos familiares.Casão ainda faz terapia, anda com psicólogas. E, como poucos,consegue rir da desgraça pela qualpassou. Voltou a ser um dosmelhores comentaristas da tv brasileira. Ciente de que é ex-dependente, grupo que, segundo ele, mais sofre preconceito noBrasil, militaagora em palestras, abre o jogo em eventos eentrevistas, alerta e expõe seu drama pessoal, tão bemcontadoaqui nestas páginas pelo confidente e amigo jornalista Ribeiro.Marcelo Rubens Paiva Corintiano, maloqueiro, escritor8. ApresentaçãoObrigado, Casão Na noite de 16 de dezembrode 2012 entrei no Estádio Internacional de Yokohama, passeipelacatraca e peguei um elevador até o terceiro andar, rumo aocentro de imprensa. Pensei que fosse sairnuma sala barulhenta,
  6. 6. cheia de repórteres e fotógrafos, ou, quem sabe, num anel deacesso àarquibancada, com torcedores, batuque, bandeiras ecornetões, mas dei num corredor longo e vazio— ainda maislongo e mais vazio por conta da minha ansiedade com a final doMundial de Clubesda Fifa, que começaria em instantes. Paraaumentar o nervosismo, o corredor tinha um carpete azul,exatamente o mesmo tom dacamisa do Chelsea. Mau augúrio,pensei, mas não por muito tempo, pois eis que lá do outroladosurge, com aquele andar inconfundível, misturaestranhamente harmônica de segurança comtimidez, dematuridade com malícia — nascida nas ruas da Penha, inspiradapelo rock e curtida nopeito, na raça e no humor —, ninguémmenos que Walter Casagrande Júnior, o Casão, pisandocomsegurança sobre o repelente azul do carpete (um azul quaseverde, eu diria) e espantando qualquermau presságio do meucoração. Enquanto nos aproximávamos, me dei conta de queuma parcela considerável da culpa por eu sercorintiano e porestar ali, do outro lado do mundo, enviado pela Folha paraescrever sobre a final, eradaquele cara vindo em minha direção.Na época do bicampeonato paulista de 1982 e 83 e daDemocracia Corintiana, vendo os jogospela televisão ou noPacaembu, com meu pai, eu era muito pequeno para entenderracionalmentetodos os signos por trás daquele cabelão edaquela ginga, mas de alguma forma sentia que havia aliumaatitude diferente. Atitude que ajudou a trazer mais justiça e graçaao futebol e ao país, atitudeque ainda está presente no conteúdoe até mesmo no tom de voz dos comentários de Casagrande,naGlobo — um tom de voz cuja cadência humana, enfática,genuinamente empolgada ou irritada,diferencia-se do ritmo maishomogêneo e cadenciado, em geral usado pelos homens detelevisão. Casagrande é um dos meus heróis — e não estoufalando só de futebol. Quantas pessoas por aípodem se orgulharde ter gravado o nome nas súmulas dos principais jogos do país,nos anos 1980, enos arquivos do sni (Serviço Nacional deInformações, órgão dedicado a espionar os cidadãos―suspeitos‖,
  7. 7. durante a ditadura)? Quantos podem dizer que subiram ao palcopara cantar com a RitaLee e ao palanque para lutar pelasDiretas? Quantos, atuando numa das melhores equipes dofutebolprofissional brasileiro, arrumariam tempo para continuarjogando num time de várzea, o Veneno, darua Jaborandi, eainda ajudar a fundar um partido político, o Partido dosTrabalhadores? Apesar de seu passado ser uma bandeira e seupresente, como diz o poema, uma lição,Casagrande tem seusdemônios — demônios violentos que, mais de uma vez, quasevenceram ojogo, conforme lemos, com a garganta apertada, nosprimeiros capítulos deste livro.9. Em 2011, depois de um ano numa clínica de reabilitação,Casagrande desabafou na tv: ―Comojogador, tinha que matar umleão por dia para vencer adversários. Agora, tenho que matar umleãopor dia para combater um inimigo‖. Os leões, felizmente,estão sendo mortos, e o inimigo,provavelmente já em algumasérie C deste campeonato pessoal, está perdendo de goleada —para obem do Casagrande, de sua família, dos amigos e dosmilhões de admiradores que sempre torcerame comemoraramsuas vitórias, dentro e fora do campo. Quando enfim noscruzamos, no corredor do estádio, em Yokohama, quis dizer-lhemuitasdessas coisas, agradecer por tudo ou, pelo menos,apertar sua mão, mas hesitei: quanta gente nãodeve pará-lo,todos os dias, com a mesma intenção? Acanhado, baixei osolhos e segui em frente,incapaz de soltar até mesmo umprotocolar ―vai, Corinthians!‖. Para a minha sorte, poucos diasdepois daquele (não) encontro e da vitória corintiana, recebiume-mail do Gilvan Ribeiro, autor da comovente biografia quevocê tem em mãos, convidando-mepara escrever estaapresentação. Que bom. Assim eu posso dizer o que nãoconsegui, naquelecorredor — cujo carpete, agora, no filme P&Bda memória, compõe com a parede branca uma longafaixaalvinegra: obrigado, Casão. Antonio Prata10. capítulo um - Demônios à solta
  8. 8. 11. As portas do inferno estavam abertas. Os demônios invadiama casa, sem qualquer cerimônia,andavam pelos cômodos,apareciam nas paredes, sentavam-se no sofá. Como se apresença deles alifosse algo natural. Eram feios, muito feios,horrendos mesmo. E grandes, enormes, mal cabiamnoapartamento localizado na Vila Leopoldina, na zona oeste deSão Paulo. Espremido entre aquelesseres descomunais estavaWalter Casagrande Júnior, apavorado, sem noção do tempo e doespaço. Jáperdera a conta de quantos dias essa situaçãoabsurda se repetia. Coisa de um mês, talvez. Aconfusão setornava ainda maior pela quantidade de noites e manhãs que seemendavam, semintervalo de um sono restaurador. Atingira algoem torno de dez dias em claro, sem dormir oucomer. Não deixade ser irônico que o ex-jogador de 1,91 m, acostumado atrombar com zagueiroscorpulentos, que não se intimidava comcara feia, estivesse tão acuado agora. A irreverência sempreforaa sua marca registrada. Já desafiara com opiniões e gestoscontundentes dirigentes, técnicos,autoridades, a ditadura militarnos anos 1980, e tudo o que aparecia pela frente e lhepareciaautoritário. Desde a adolescência, encarava blitzepoliciais com certa ironia, já fora revistado váriasvezes porsoldados truculentos, chegou a ser preso por porte de cocaínano auge da carreira deatacante, mas jamais se abalava. Tratavaos problemas em geral, inclusive no âmbito da Justiça, comumdespudor que beirava a irresponsabilidade. Alma de roqueiro,guerrilheiro, orra, meu! Mas aquele cara apenas lembrava,remotamente, o atacante destemido que fez sucesso emclubescomo Corinthians, São Paulo, Porto, Ascoli, Torino,Flamengo e na Seleção brasileira. Magro deassustar, usava ocinto com furos adicionais, cada vez mais próximos da outraextremidade parasegurar a calça na linha de cintura, e exibia asmaçãs do rosto proeminentes, ressaltadas porbochechaschupadas para dentro. A sua figura esquálida e os olhos fundos,com as pupilas dilatadas,agora demonstravam só fragilidade. Emedo. ―Eu tinha visões horríveis, tudo parecia muito real. Estava
  9. 9. assustado pra caralho, via demôniospelo apartamento inteiro.Eram maiores do que eu, com dois ou três metros de altura.Algunsapareciam no quarto, outros na sala, e até uma imagemde mulher surgiu refletida na geladeira. Aícomecei a ficar commedo de ir à cozinha, já não comia, nem me sentava no sofá,porque eu os viaem todos os lugares, todos os dias,constantemente. Não falavam ou me ameaçavam, mas asimplespresença deles era aterrorizante. Isso durou um mês, seilá, um mês e meio‖, conta o ídolo. O pavor de se deparar comaqueles seres dos infernos o levava a desviar o olhar e aevitarqualquer tipo de contato. Por isso não chegou a guardar asfeições de todas as criaturas. Em suamente ficou registradaapenas a imagem de um deles: ―O formato era de homem, sóque muitomaior. Os olhos, vermelhos, brilhavam. Tinha asorelhas grandes, o nariz também, a boca com osdentes caninossaindo pra fora‖, descreve. Atualmente, libertado dasprofundezas, Casagrande procura dar uma explicação racionalpara aloucura daqueles dias. ―Eu entrei em surto psicótico pelouso exagerado de drogas e privação desono. Também foi umacoisa induzida pelas pesquisas que eu estava fazendo, naépoca, sobredemônios‖, justifica.12. O interesse pelo assunto surgiu como uma curiosidademeramente intelectual. Casagrande nãosegue uma religião e nãotinha a menor intenção de se meter com magia negra ousatanismo. ―Achofundamental o fato de tudo na vida ter doislados. Nós temos o braço esquerdo e o direito, doisolhos, duasorelhas, a porta se abre e se fecha, a luz se acende e se apaga.Se a gente jogar uma pedrapra cima, ela vai descer. Enfim, tudotem o oposto. Então, seria muita pretensão das pessoasacharque só existem Deus e os anjos. Creio que bem e mal,sombra e luz, Sol e Lua, noite e dia, direito eesquerdo, qualquerdefinição de opostos são complementares. Um precisa do outropara existir. Parahaver equilíbrio no Universo, que é movido aenergia, é preciso existir as duas faces.‖ Movido por essaconvicção, passou a pesquisar a origem dos mitos demoníacos.
  10. 10. A Bíblia revela asaga de Lúcifer, anjo criado por Deus paraliderar os querubins, mas que se rebelou contra oCriador eacabou expulso do Paraíso. O primeiro revolucionário de todosos tempos. A partir daí,chegou à história do rei Salomão,governante de Israel cerca de mil anos antes de Cristo. ―OreiSalomão virou mago, invocou e domou os 72 demôniosbíblicos. Em seguida, os aprisionou dentrode um vaso de cobre,atirado dentro do rio da Babilônia. Porém as pessoas viram ovaso ser jogadono rio e pensaram se tratar de um tesouro.Alguns homens mergulharam, acharam o recipiente eoquebraram em busca de joias, mas acabaram por libertar osdemônios.‖ De acordo com a história, 71 demônios voltaram paraseu lugar de origem. Só um delespermaneceu na Terra.―Justamente o mais poderoso, chamado rei Belial, criado logodepois deLúcifer. Em vez de retornar, ele entrou numa estátua,que passou a ser cultuada por muita gente. Aspessoas faziamoferendas e, assim, adoravam o demônio Belial‖, relataCasagrande. O ex-jogador pretendia somente estudar essesmitos. Jamais imaginou que eles pudessem sematerializar emseu apartamento. ―Eu tinha livros, lia sobre eles, mas, ao mesmotempo, me drogavamuito. São coisas incompatíveis, algoarriscado demais, porque havia um desequilíbrio mentaleemocional provocado pela droga. Eu ali, pesquisando coisaspesadas, sem ter o preparo necessário.Acabei em surto psicóticoe passei a criar aquelas terríveis alucinações.‖ Tudo explicado àluz da razão, então? Não exatamente... Havia um detalhe quedeixavaCasagrande ainda mais atormentado e que até hoje lheprovoca uma incômoda interrogação. Outrapessoa, com quemhavia se enfurnado naquele apartamento, compartilhava asalucinações. Emboratambém estivesse sob efeito de drogas, éintrigante que ela relatasse as mesmas visões demoníacas.―Olance é o seguinte: eu ainda tenho uma ponta de dúvida, tá?Acho que 90% daquilo tudo, talvezaté mais, tenha sidoprovocado pelo surto psicótico. Mas não descarto a possibilidadede que,naquele momento, espiritualmente péssimo, eu tenha
  11. 11. aberto uma porta que não deveria, para asenergias ruinsbaixarem em casa.‖ Mas não eram somente os demônios queinfernizavam a vida de nosso herói. Lembram-sedaquela mulherque apareceu na porta da geladeira? Pois é, ele começou acismar que fosse umaespécie de alma penada. Uma jovemmorta naquele apartamento, antes de sua mudança para lá,queagora buscava algum tipo de redenção. ―Vi uma imagemmuito nítida dessa mulher e fiquei gelado13. dos pés à cabeça. Era uma garota, de 20, 22 anos, por aí, eeu não sabia se era real ou alucinação. Aimpressão foi de queela estava atrás de mim, às minhas costas, com o reflexo nageladeira.‖ Enquanto vivia esse pesadelo interminável, nãoparava de se drogar. A porção de heroína já haviaacabado faziaalgum tempo. Mas ele aplicava cocaína nas veias, cheirava pó,bebia tequila, tomavaremédio para dormir, tudo junto. Com essenível de alteração de consciência, a paranoia atingiuníveis cadavez mais alarmantes. Assim, convenceu-se de que o corpodaquela mulher encontrava-seescondido em algum lugar dentrodo apartamento. E entregava-se à procura insana pelosupostocadáver. Sempre com a companhia indesejável dosdemônios. Em alguns momentos, pensou em pedir socorro. Masnão sabia a quem recorrer naquela situaçãotão vulnerável.Evidentemente, deixara de trabalhar como comentarista defutebol da tv Globodurante esse período. Não reunia a menorcondição de sair de casa, quanto mais de botar a cara noar emrede nacional. Fugia dos amigos, porque tinha certeza de quenão seria compreendido. Omundo externo lhe pareciaameaçador, embora, ali, estivesse mergulhado nas profundezasdoinferno. Se bobeasse, poderia ser internado como doidovarrido. Fechado naquele universo sombrio,estava às raias daloucura mesmo. Como qualquer um de nós, quando a coisaaperta pra valer, Casagrande tinha ímpetos derecorrer àproteção dos pais. Sobretudo da mãe, dona Zilda. Mas,matutava, como pedir colo à velhasenhora num estado tãodesesperador? Certamente, iria fazê-la sofrer. Depois de ter
  12. 12. passado a vidatoda, desde a adolescência, escondendo dela queusava drogas, seria justo pedir água quando nãoconseguia maissegurar a onda sozinho? Por várias vezes pegou o telefone ediscou o número da casa dos pais. Quase sempre demadrugada.Dona Zilda e seu Walter acordavam, sobressaltados, e corriamaflitos para atender aligação. ―Alô! Alô? Alooooô???‖, diziameles, sem ouvir qualquer resposta. Essa rotina se repetiupordiversas noites. Do outro lado da linha, com o coração aos pulose a respiração acelerada,Casagrande não conseguia pronunciarpalavra. Até que um dia ele não aguentou mais. Precisavamesmo de colo, do aconchego do útero, quemsabe até de umpadre, de qualquer coisa que lhe trouxesse um pouco de paz. Efoi então que,finalmente, chamou seus pais. Em meio à confusãomental, ele se esforçou para explicar seu martírioe assentiu quelevassem um padre a sua casa. Embora não fosse católico ecultivasse certa aversãopelos dogmas conservadores da Igreja,sem falar na história de conivência com o poder, Inquisição eoescambau, aquela não era hora para ideologias ou princípiospolíticos. Era urgente expulsar osdemônios. E um sacerdoteversado em ensinamentos bíblicos e no Evangelho poderia lhedaralguma orientação para se livrar do mal. Fazer o quê? Quevenha o padre!14. capítulo dois - Água benta15. O telefone tocou naquela manhã de sábado, 22 de setembrode 2007, na casa dos pais de Casagrande.Dona Zilda foi atendercom o coração apertado. A sua intuição de mãe havia disparadoo alarme deque alguma coisa não andava bem com o filho. Jásuspeitava, intimamente, de que aquelas ligaçõesmisteriosas ànoite, no meio da madrugada ou pela manhã, bem cedinho, nasquais ninguém falavanada do outro lado da linha, partiam deWaltinho — como a família chama o seu integrante maisfamoso.Ela vinha tentando, sem sucesso, estabelecer contato com seueterno menino. Por isso deuum longo suspiro, entre aliviada —por finalmente ouvir sua voz — e aflita — por perceber opânico
  13. 13. em cada palavra dele. Com o tom alterado, ofegante,Casagrande relatou seu calvário, deforma abreviada, e aceitouque ela levasse um padre a seu apartamento. Ciosa de seudever materno, dona Zilda convocou o marido para buscar opadre Arlindo, naigreja da Pompeia, a fim de seguir em comitivapara o apartamento da rua Passo da Pátria, na VilaLeopoldina.Com ar preocupado, o pároco ouviu o relato nervoso dos pais epediu um instante parapegar o kit básico para ocasiões dessanatureza: crucifixo, água benta e uma imagem de Jesus Cristo.Quando o trio chegou ao prédio de Casagrande, nem foi precisointerfonar para o apartamento.Ele já havia descido e aguardava,ansioso, por seus salvadores na recepção. Não suportava maisficardentro de casa com os demônios. ―Encontrei meu filhotranstornado. Ele andava de um lado para ooutro, encurvado,com as mãos para trás, segurando um grande crucifixo‖, lembra-se dona Zilda,emocionando-se com a simples recordação. Atéhoje Casagrande não sabe explicar de onde surgiu aquela cruz.―Não costumava ter crucifixoem casa. Não faço a menor ideia decomo aquele apareceu. Acho que o comprei, talvez, mas nãomelembro.‖ Dona Zilda procurou lhe dar carinho e seu Walterassegurou que a presença do padre iria lhetrazer paz e aindatranquilizar o ambiente. Eles subiram, então, a fim de rezar ebenzer oapartamento. Quando a porta foi aberta, os visitantestomaram um susto. Encontraram a casadevastada, parecia queum tufão havia passado por lá. Objetos jogados pelo chão,estantes caídas,uma bagunça só. ―Ah, eu quebrei muita coisa.Desmontei o quarto todinho em busca do corpo da mulher queeuhavia visto na geladeira. Botei na cabeça que aquela garotahavia participado de alguma festa ládentro, antes de eu alugar oapartamento, e havia sido morta e enterrada em algum lugar porali.Pirei com essa ideia e comecei a tirar as prateleiras e aspeças dos armários embutidos, dos guarda-roupas, tudo paraachá-la. Uma viagem tenebrosa‖, conta Casagrande. Depois deum instante de inércia pelo impacto inicial daquela visão dedestruição, todosprocuraram se recompor, e o padre Arlindo
  14. 14. iniciou o ritual religioso. O sacerdote andou por todososcômodos, espirrando água benta pelo local. Concluído otrabalho, não havia muito mais a fazer.A essa altura,Casagrande já dava sinais de impaciência. Por isso assegurouque se sentia melhor,com o único propósito de voltar à suaprivacidade. Ao analisar os acontecimentos agora, ele não vêsentido nesse auxílio pastoral. ―Eu tenho umareligiosidadegrande, mas não sigo uma religião. Nem entendo o motivo de terchamado um padre.16. Estava muito confuso naquele dia e acho que precisava meapegar a alguma coisa.‖ Dona Zilda e seu Walter foram emborabastante preocupados com o estado em que encontraramo filho.A sua agitação, confusão mental e magreza extrema osdeixaram impressionados. Mas, aomesmo tempo, se encheramde esperança. Afinal, ele havia procurado ajuda pela primeiravez, sinalde que estava disposto a modificar o cenário caótico eseu modo de vida. A visita do padre e apurificação da casatambém haveriam de lhe trazer alguma paz. O padre Arlindovoltou à paróquiaconfiante de que desempenhara bem o seupapel e teve a sensação de dever cumprido. O restanteficaria porconta da graça de Deus. Mas os demônios não pareciamdecididos a jogar a toalha. Casagrande olhava ao redor enãosentia nenhum alívio. Ao contrário, ficara mais apavorado.Além de não haver mágica capaz deanular o efeito da cocaína,presente havia tantos dias em seu organismo, uma ideiacomeçava amartelar em sua cabeça: as criaturas do inferno nãodeviam ter gostado nem um pouco daquelainvasão cristã em seuterritório. ―Aquilo não ia servir para nada mesmo. Não curto aIgreja Católica,e acho até que a situação piorou naquele dia.Entrei numas de que a presença do padre havia irritadoosdemônios. Eu pensava: agora tô fodido! O padre jogou águabenta na casa, o caralho... Agora,sim, eles vão me trucidar.‖Ainda mais ameaçado, ele não suportou permanecer ali pormuito tempo. Chegou à conclusão deque o melhor seria tirar otime de campo. Os demônios que ficassem lá; ok, vocês
  15. 15. venceram. O jeitoera procurar refúgio em outro lugar qualquer.Decidiu ir para um hotel o mais rápido possível. A estratégia deretirada, no entanto, não teve o efeito esperado. Ele sehospedou com a noiva noHyatt, no Brooklin, perto do prédio datv Globo, crente de que ficaria exclusivamente com ela...enfimsós, longe daquelas criaturas dos infernos. Mas logo descobriuque os demônios o haviamseguido até lá. ―O problema estavaem mim. Percebi que não adiantava fugir para lugar algum.‖Diante da presença de seus acompanhantes indesejáveis nohotel, não havia sentido empermanecer ali. Casagrande, então,convenceu a noiva a ir embora com ele. Quando passavampelaaltura do número 809 da rua Tito, na Lapa, o Jeep Cherokeecapotou. Não, a culpa não foi dosdemônios, justiça seja feita.Eles não apareceram no carro, tampouco tiraram sua atençãodotrânsito. Casão simplesmente dormiu em meio àquelamaratona em vigília. ―Eu apaguei no carro,perdi os sentidos.Estava debilitado, sem comer havia muito tempo, sem beberágua havia muitotempo, me drogando havia muito tempo.‖ OCherokee desgovernado, depois de capotar, bateu em seiscarros estacionados na rua. O saldoficou barato. Afinal, ele e anoiva escaparam vivos, sem sequelas, e não houve vítimas.―Havia umcasamento no outro lado da rua, poderia ter pego todomundo na calçada. Dei até sorte de não terprovocado umatragédia.‖ O tranco do carro o fez voltar à consciência. Ele aindateve forças para sair do veículo e ajudar asocorrer a noiva, quefraturara a quinta vértebra da coluna. ―Acompanhei tudo, fomoslevados parao Hospital das Clínicas, onde ela ficou largadanuma maca no corredor. Estava muito preocupado,17. então liguei para o doutor Claudio Lottenberg, presidente dohospital Albert Einstein. Eu tinha ocelular dele porque a gentepassava férias em Comandatuba (Bahia) e jogava tênis juntos.Elemandou uma ambulância para nos buscar na mesma hora.Assim que entrei no veículo, desmaiei.‖ A notícia do acidentelogo se espalhou. A poucos quilômetros dali, em seuapartamento nobairro de Perdizes, dona Zilda levantou-se no
  16. 16. domingo, ligou o rádio e sintonizou a cbn, comosemprecostumava fazer. Foi assim que ela ficou sabendo do ocorridocom o filho, àquela altura emestado de coma no hospital.Durante os três dias de tratamento no Einstein, Casagrandepermaneceu sedado. No brevemomento em que recuperou aconsciência, ainda conseguiu fazer brincadeira: ―Não falei pravocêque sou o Highlander?‖, disse para o filho Leonardo,referindo-se ao guerreiro imortal interpretadopor ChristopherLambert no filme produzido em 1986. Tão logo apresentoumelhora, foi levado auma clínica especializada em dependênciaquímica. O filho mais velho, Victor Hugo, assinou odocumentoque garantia a internação involuntária, à revelia do paciente, econvenceu dona Zilda afazer o mesmo. A família concluíra quenão havia outra alternativa diante de um quadro tãodramático.Começava ali um longo período de isolamento, diferente de tudoo que Casão já haviaexperimentado — e que mudariaradicalmente a sua vida.18. capítulo três - Overdoses19. Aquela não era a primeira vez que as drogas haviam deixadoCasagrande na lona. Antes de verdemônios, ele já haviaenfrentado problemas que quase custaram sua vida. Passara porquatrooverdoses em períodos recentes, num curto espaço detempo. Duas foram especialmente marcantes.A primeira delaspor ter acontecido na presença do filho do meio, Leonardo, eprovocado suaseparação conjugal. O preço da dependênciaquímica ficava cada dia mais alto, mas, mesmo assim,ele nãoconseguia parar. O caldo começou a entornar no início de 2006,quando ele ganhou um papelote com cerca dedois gramas deheroína e passou a aplicá-la nas veias. Sempre em casa,escondido da família. ―Asensação da heroína, quero deixar issoclaro, é totalmente falsa. Dá a impressão de que você estátendoo maior prazer do mundo, uma leveza, um tipo de orgasmo, masé a mais mentirosa dasdrogas. Por isso as pessoas morrem‖,adverte. Quando a porção minguou, para fazer a pequena
  17. 17. quantidade render, resolveu combiná-la comcocaína. O chamado―speed‖. O processo era complexo e demandava certo tempo.Por isso,esperava sua mulher, Mônica Feliciano, sair de casa,juntamente com os filhos. Ao ficar sozinho,punha mãos à obra.Fervia e destilava água para dissolver a cocaína. Já a heroínaexigia maistrabalho. Era preciso antes ―fritá-la‖ numa colher,exposta à chama. Em seguida, ia jogando água atédissolver adroga. ―Algo meio complicado, nunca soube fazer direito. Masfazia do meu jeito.‖ Em geral, juntava dois ―tiros‖ de cocaína eum de heroína para preparar uma dose. Um ritual quese tornoufrequente. Até que a heroína chegou ao fim. O último ―speed‖ erade 1 ml e foi colocadona seringa para facilitar a aplicação nomomento oportuno. Porém, envolvido pelo vício,Casagrandeescolheu se aplicar na pior situação possível.Leonardo estava em casa e o convidou para jantar fora.Antes desaírem, o pai disse que iria tomar banho e, por incrível quepareça, se trancou no banheiropara se drogar. ―Pensei: caraca,vou sair com meu filho e levar essa seringa na bolsa?‖, relembra.A preocupaçãofazia sentido. Não bastaria deixar a droga emcasa, então? ―Pensei nisso, mas fiquei com medo deque alguémchegasse e achasse aquela porra.‖ Outra coisa: seria possívelcomer naquele estado? ―Éclaro que não‖, reconhece. ―Sei lá,decidi tomar e pronto.‖ A sua capacidade de discernimentojáestava comprometida. Furtivamente e com pressa, Casãoinjetou 1 ml de ―speed‖ na veia. Só se esqueceu de umdetalheimportante: aquela quantidade equivalia a duas doses ehavia sido preparada com o propósito de serusada com umintervalo entre as aplicações. ―Botei tudo de uma vez,rapidamente, pois o Leonardoestava em casa e podia aparecer aqualquer momento. Estranhamente, apesar da dose excessiva,nãoaconteceu nada na hora. Aí eu me levantei, fui até a pia,lavei a seringa e a guardei dentro da bolsa.Quando fechei ozíper, em frente ao espelho, houve uma explosão no meu peito.Explodiu mesmo:bummmm... e eu voei. Saí cerca de um metrodo solo, bati contra a parede e caí no chão.‖ Havia entrado em
  18. 18. convulsão. O seu corpo se debatia e fazia uma tremendabarulheira ao sechocar com os ladrilhos e o vaso sanitário.Entretido com o computador, Leonardo ouviu o som daqueda etomou um susto. Veio correndo e bateu na porta: ―Pai, pai, o queestá acontecendo? O que20. está acontecendo?‖, repetia, aflito. Casagrande aindaconseguiu responder: ―Calma, não é nada‖. Mastambém falavapalavras desconexas. Só uma coisa passava por sua cabeçanaquele instante: ―Eu nãoposso morrer aqui, com meu filho dolado de fora do banheiro. Não posso morrer!‖. Do outro lado,Leonardo se desesperava. Percebia que algo muito sérioacontecia com o pai enão sabia como agir. Apesar do estadocrítico, Casagrande se mantinha consciente. ―Não deveterchegado a um minuto, mas a minha impressão é de que durouhoras. Eu babava, me debatia e nãotinha mais controle sobremeu corpo. Pipocava no chão, fazia muito barulho, bam, bam,bam, umacoisa louca. Sentia que não ia suportar mais e, putamerda, comecei a pedir: para, para, para, eu nãovou aguentar!‖Leonardo já planejava arrombar a porta. ―O que foi, pai? O quefoi?‖, perguntava ele,extremamente nervoso. Mas a convulsãocomeçou a amenizar. Aos poucos, Casagrande recuperouodomínio sobre o corpo, conseguiu se levantar e destrancar aporta. Disse que havia escorregado ebatido a cabeça. ―Poxa, euconheço o cara. Nunca o tinha visto escorregar em nenhum lugarantes, eele me manda uma dessas? Nem o chuveiro estavaligado. Lógico que não acreditei‖, comentaLeonardo. Semexpressar sua desconfiança naquele instante dramático, limitou-se a amparar o paiaté a cama. ―Já estou melhor‖, assegurouCasa, ao se deitar, para acalmar o garoto. ―Só o jantar terádeficar para outra ocasião.‖ Mônica chegou em casa em seguida eencontrou o marido se recuperando na cama. ―Não estoumuitobem, não tô legal‖, reclamou ele. Sem imaginar o que haviaacontecido, a mulher otranquilizou: ―Você está impressionado,logo vai ficar bem‖. Pensava ser apenas um trivial tombonobanheiro. Pouco depois, ela saiu com Leonardo para jantar.
  19. 19. Sozinho, Casão percebeu que oproblema ainda não haviapassado. Durante a hora em que Mônica e Leonardo ficaramausentes, ele alternava picos de crise esintomas mais amenos.―Às vezes, entrava de novo em convulsão, depois passava…altos e baixos,sucessivamente. Eu estava muito louco, foi umadose cavalar. Então, comecei a conversar com meucoração.Falava pra ele assim: meu, caralho, você está comigo desde queeu nasci. Porra, não vai medeixar na mão agora! Não bate maisdo jeito que você está batendo, porque eu não vouaguentar.Você tem de ficar quieto.‖ Chegava a fazer carinho nopróprio peito, tentando acalmar o coração. ―Não faz isso,cara,sossega, não faz isso‖, repetia, assustado. O coração foi fiele resistiu bravamente à descarga colossaldo ―speed‖. Mas seudono percebeu que seria necessário buscar ajuda médica. Assimque Mônica eLeonardo regressaram, ele pediu socorro. ―Precisoir para o hospital‖, avisou. Não podia fazer gestoalgum. Qualquermovimento provocava a aceleração excessiva dos batimentoscardíacos. A mulher e o filho o levaram para o hospital, onde foicolocado numa cadeira de rodas eencaminhado para o quarto.No primeiro atendimento, ao lado de Mônica, manteve a versãodotombo no banheiro e o trauma na cabeça e nas costas. Assim,o tratamento inicial seguiu nessesentido. Mas ele sabia que teriade falar a verdade mais cedo ou mais tarde. Então, encontrouum21. subterfúgio para afastar a mulher dali. ―Vai ver se o Symon jáchegou‖, sugeriu, referindo-se ao filhocaçula. ―Você já estámelhor?‖, quis saber Mônica. Ele assentiu, e ela partiu paraencontrar o filho. Ao ficar sozinho com o médico, Casagrandeabriu o jogo. ―Eu não bati a cabeça‖, revelou. Porconta de suaexperiência, o médico já desconfiava de que havia acontecidoalgo diferente do quetinha sido contado. ―Poxa, eu sabia... tinhacerteza de que o problema não era uma batida de cabeça.Cara,você não vai ficar aqui, não. Vai ter de ir para o Einstein agora. Eoutra: você precisa de ajuda,fala para a pessoa mais próxima,conta pra sua mulher o que está acontecendo. Você está muito
  20. 20. mal,cara‖, disse o médico. Ele gelou ao ouvir o conselho. Nofundo, tinha consciência de que não havia alternativa,masrelutava em revelar o uso de drogas para a mulher. Sabiaque ela era radicalmente contra. Mônicajamais podia imaginarque o marido fizesse uso de substâncias pesadas, ali, nas suasbarbas,escondido da família. Por ser um sujeito tão forte, ex-atleta, um touro mesmo, conseguia dissimularo que, talvez, fosseimpossível para a maioria das pessoas. ―Porra, se eu falar para aminha mulher,ela vai me largar, doutor‖, lamentou-se, com receiode encarar a situação. ―Não, ela vai ajudá-lo‖,rebateu o médico.Ao ser transferido para o Einstein, onde iria receber tratamentoespecífico, ele se viupraticamente obrigado a enfrentar omomento tão doloroso e constrangedor: o de contar paraMônicaque era dependente químico havia tempos. A sua companheirade décadas perdeu o chãocom a revelação. Segurou a onda noprimeiro momento, pela condição crítica do maridointernado,mas o relacionamento, a partir dali, nunca mais seria omesmo. ―Aí começou a crise no casamento. Mônica ficou muitoputa, porque ela se sentiu enganada, erealmente estava sendomesmo‖, reconhece Casagrande. Depois de receber alta, elevoltou para casa,mas o susto não foi suficiente para fazê-lomudar de vida. A dependência química não é algo queseescolhe, foge do âmbito de uma decisão racional. Quando seestá envolvido nela, torna-se difícilsuperá-la. Requer muitoesforço e, quase sempre, tratamento especializado. Algo de queele aindanão havia se convencido que precisava. ―Continueifazendo as mesmas coisas, do mesmo jeito, só com maiscuidado, mais atento emrelação às doses. Eu estava fodidomesmo, a minha cabeça estava torta, muito down‖,analisa.Mônica bem que tentou perdoá-lo, mas, talvez por nãosentir no marido arrependimento sincero edisposição para lutarcontra o mal, alternava estados de espírito. Ora se mostravacompreensiva, atécarinhosa, ora irritadiça e pensando emseparação. Naquela semana em que deixou o hospital, Casãoainda se manteve ―pianinho‖ para tentar limparsua barra. ―Fiquei
  21. 21. uma semana sem usar nada. Fiz o jogo bonitinho na quarta-feiraà noite(participou da transmissão como comentarista da tvGlobo) e voltei pra casa. Mas, na quinta demanhã, a Mônicapediu uma carona para o trabalho dela e foi me agredindo dentrodo carro compalavras ásperas, caminho inteiro, falando emseparação. Eu estava meio desnorteado… Depois quea deixei,parei num restaurante lá em Alphaville e pensei: se eu uso drogae estou mal, ela fica puta;se eu faço a coisa certa, ela fica putatambém. Então, que se foda! Agora vou fazer tudo do jeito que22. eu quero.‖ Esse pensamento é típico de dependentesquímicos, que procuram justificativa para usar a drogae atribuema responsabilidade a terceiros, normalmente uma pessoapróxima, como a mulher. O cenário estava pronto para ele seafundar ainda mais e jogar no lixo um casamento de tantosanos.Voltou a pegar cocaína e heroína. ―Comecei a me injetar naqueledia mesmo: quinta o diainteiro, inclusive à noite; sexta o dia todo,virei a noite de novo e, no sábado de manhã, euestavamorrendo.‖ Fui testemunha de seu descontrole. Comoeditor do Diário de S. Paulo, no qual Casagrande temuma colunaaos sábados, cheguei a manter contato com ele na sexta-feira,24 de fevereiro de 2006.Na época, eu o ajudava a escrever otexto, missão posteriormente assumida pelo jornalistaFernãoKetelhuth. Em geral, quando não nos encontrávamospessoalmente durante a semana,conversávamos por telefone.Eu anotava suas ideias e depois as colocava no papel. Mas,naquele dia,por motivos óbvios, não conseguia localizá-lo. Ocelular caía na caixa postal e, apesar das mensagensgravadas,cada vez mais incisivas, não obtinha retorno. As ligações para otelefone de sua casatambém não eram atendidas. O horário dofechamento do jornal se aproximava, e nada de ele darsinal devida. Um sufoco. Quando eu já pensava numa alternativa parapreencher o espaço reservado para a coluna, resolvifazer umaúltima tentativa. Dessa vez, para minha surpresa e alívio, eleatendeu. Porém num estadodeplorável. Falou que estavadeprimido, na cama, e não tinha forças para nada. Nem sabia
  22. 22. comoconseguira correr ao telefone naquele momento.Emocionalmente dilacerado, queria desabafar.Expliquei queprecisava escrever ―voando‖ a coluna porque já estava quase nahora de a ediçãofechar. Propus que escolhêssemos um tema eque ele me desse sua opinião em linhas gerais, omínimo para eudesenvolver o texto. Mas o cara não tinha a menor condição.Então, me pediu paraescrever o que eu quisesse, só daquelavez, um favor de amigo. Afinal, eu sabia a forma dele depensar,seus valores e suas ideias, pela convivência ao longo dos anos.Tampouco ele queria deixarde publicar a coluna, para nãochamar a atenção das pessoas — afinal, até ali, o seu dramaainda nãose tornara público. Percebi que essa era a únicamaneira e não insisti mais. Só ponderei que, por mais queconhecesseseus pensamentos, eventualmente poderia escreveralgo com o qual ele não concordasse. ―Se issoacontecer, eubanco. Uma mão lava a outra‖, disse. Prometi que voltaria a ligartão logo concluísse aedição. Estava realmente preocupado comele. Nunca o havia encontrado em estado tão abatido. O temaescolhido para a coluna foi Vanderlei Luxemburgo. Maisespecificamente o fato de oatacante Edmundo estar cobrandouma dívida antiga do técnico na Justiça. Com a agravante deotreinador ter pego dinheiro emprestado na época em quecomandava a Seleção brasileira, o que,evidentemente, misturavaa questão pessoal com a profissional. E se Edmundo serecusasse aparticipar da transação? Em tese, poderia ter sofridoretaliação e deixado de ser convocado. Ou, poroutra ótica, agrana dada também poderia ajudar o jogador a ser ―lembrado‖.Tratava-se de uma relação promíscua, e Casão não haveria deaprová-la. Esse era o fato novo, que23. acabara de vir à tona, e se juntava a uma série de enroscosjá conhecidos de Luxemburgo, comofalsidade ideológica esonegação fiscal. A coluna, em tom ácido, desancava o técnico,apesar dereconhecer seu talento e lamentar que seustrambiques o afastassem da Seleção. Embora contundente,tomei todo o cuidado para não dar margem a qualquer ação
  23. 23. judicial. Seriaconstrangedor fazer Casagrande ter de se defenderpor algo que eu havia escrito. E mais umproblema, naquelasituação, era tudo o que eu não queria arranjar para ele. Assimque terminei o texto, liguei novamente, como havia prometido.Não tocamos no assuntoda coluna, nem havia clima para isso.Servi como confidente, ele precisava de um ouvido amigo, nãoseconformava com a ideia de separação, proposta por Mônica.Contou-me o que havia se passadonos últimos dias, a overdosee tudo o mais. Transtornado, levantava a hipótese de a mulherter umamante e tentava encontrar um motivo para ela quererlargá-lo, como se o uso de drogas pesadas esuas mentiras nãofossem suficientes. Descartei, prontamente, essa bobagem: claroque ela não estavaapaixonada por outro. Argumentei que elehavia traído a confiança da mulher, e a melhor formadereconquistá-la seria respeitando seus sentimentos e dandoprovas de que iria mudar de vida. Com otempo, as cicatrizes sefechariam. Aquela foi a conversa telefônica mais longa que játivemos. Durou cerca de uma hora, mas nãoadiantou nada. Elese encontrava em queda livre e parecia sentir atração irresistívelpelo abismo.24. capítulo quatro - A primeira internação25. Na manhã de sábado do dia 25 de fevereiro de 2006,portanto um dia depois de nossa conversa,Casagrande sentiuque ia morrer. Num sopro de sobrevivência, ligou para opsiquiatra e explicoutudo o que havia feito nos últimos dias ecomo seu estado era desesperador. Diante desse relatotãodramático, o médico não teve dúvida: passou-lhe o endereçode uma clínica especializada emdependência química edeterminou que ele seguisse direto para a instituição no bairro daPompeia.Essa primeira internação foi por um períodorelativamente curto: quarenta dias, o mínimo parasuperar a fasecrítica. ―Achei legal, comecei a treinar bastante e a fazerexercícios, além de ir todos osdias correr no parque Villa-Loboscom um enfermeiro. Mas o buraco ficava mais embaixo. No
  24. 24. nívelem que eu estava, era insuficiente.‖ Solidária a seu parceirodesde a juventude, Mônica participou do processoterapêutico,submetendo-se a entrevistas com profissionais daclínica. No fundo, mesmo magoada e disposta a seseparar,ainda cultivava a esperança de que Casagrande se recuperassee a família pudesse sereestruturar. Porém uma surpresa fora-lhereservada, algo surpreendente e insólito: Casagrandeseenvolveu afetivamente com uma psiquiatra que conhecera naclínica. Quando acabou o período de internação, o paciente e amédica mantiveram contato. E nãodemorou para que os doisassumissem o relacionamento amoroso, o que provocou ademissão delada clínica. A dor e a indignação de Mônica foram,principalmente, por se sentir invadida e manipulada.Elareclamava do fato de ter sido entrevistada e respondido aperguntas até sobre a intimidade do casal.Mas o par recém-formado se mostrava apaixonado e determinado a pagar o preçodesse amorproibido. O argumento deles era de que a paixão éalgo incontrolável e, por vezes, brotainvoluntariamente, emsituações impróprias e inadequadas. Como diz a música ―Paulae Bebeto‖, deMilton Nascimento, ―toda maneira de amor vale apena‖, sustentavam na época. O relacionamento progrediarapidamente. Houve até festa de noivado no bar A Marcenaria,naVila Madalena, embalada pela banda Expulsos da Gravadora,formada por Luiz Carlini (guitarra),Mr. Ruffino (baixo), FranklinPaolillo (bateria) e Nando Fernandes (vocal). Além deváriosroqueiros amigos de Casão que se revezavam no palco,em canjas sucessivas para animar a noite.Assim, os convidadostiveram o prazer de ver apresentações de Marcelo Nova (ex-Camisa deVênus), Nasi (ex-Ira!) e Simbas (ex-Casa dasMáquinas). Até o repórter Abel Neto, da tv Globo, ex-vocalista deum grupo de reggae, soltou a voz na casa noturna, assim comoo colunista BenjaminBack, do jornal Lance!, mostrou seu talentocomo baterista amador. Compareceram outrosmúsicosprofissionais pesos-pesados, como os integrantes doSepultura, mas estes chegaram mais tarde e sóse sentaram à
  25. 25. mesa para beber e conversar, sem qualquer exibição. Aapresentadora Adriane Galisteu também marcou presença,juntamente com o meia Roger (ex-Fluminense, Corinthians eCruzeiro), então seu namorado, antes de ele se casar com aatriz DeborahSecco. Encontravam-se lá, ainda, diversosjornalistas amigos do noivo, como José Trajano e JucaKfouri(espn Brasil), Ari Borges (Band) e Mauro Naves (Globo), além docomentarista dearbitragem Arnaldo Cezar Coelho, colega deCasagrande na mesma emissora.26. O romance ia tão bem que os noivos deixaram a festarelativamente cedo, ainda com a presençade muitos convidados,para se recolher à intimidade. O casamento parecia questão detempo.Aparentemente recuperado da dependência de drogas,Casagrande retomou seu lugar comocomentarista da tv Globo ecobriu a Copa do Mundo da Alemanha, em meados daquele ano.Anoiva o acompanhou na viagem, reforçando a imagem de casalem lua de mel. ―Depois dessa primeira internação, fiquei legalpor um tempo. Fiz a Copa da Alemanhabonzinho pra caralho‖,assegura Casagrande. ―Mas, quando voltei, começou tudo denovo.‖ Há muitas armadilhas no caminho do dependentequímico, que precisa de preparo e muitadeterminação para nãorecair no vício. Qualquer cena que remeta ao uso de cocaína ouheroína podedesencadear o processo cerebral relacionado aoprazer e instigar o ex-usuário a voltar à ativa. Issoaconteceu comCasagrande quando assistiu ao filme sobre a vida de RayCharles, interpretado porJamie Foxx, papel que lhe valeu oOscar em 2005. Ao ver o dvd com a história do músicoviciadoem heroína, apesar de todos os problemas ali relatados, o―vírus‖ da dependência se manifestounovamente. ―Passei malem casa e comecei a arrumar desculpa pra sair. Assisti numsábado à noite efiquei dois dias com fissura (desejo quaseincontrolável de consumir a droga). Na segunda-feira,voltei ausar cocaína. E voltei pesado.‖ Em dezembro, o descontrole setornou evidente: não morreu por um triz. Com viagem aNatalmarcada, para passar as festas de fim de ano, ele nem
  26. 26. chegou a embarcar com a noiva. Passara a seinjetar cocaínanovamente e, no dia 21 de dezembro, teve outra overdose.―Dessa vez não haviaheroína. O problema foi de potência naaplicação da dose. A coronária começou a fechar e eupasseimuito mal mesmo, estava morrendo.‖ A noiva ligou para omédico, relatou a emergência e o levou às pressas para oconsultóriolocalizado na avenida Angélica. ―Ele sabia dos meusproblemas, claro, então houve uma tentativa deresolver o casosem me expor publicamente.‖ Mau negócio. Ao chegar em frenteao consultório,Casagrande desmaiou por insuficiência cardíaca erespiratória. ―Os batimentos estavam caindo agalope e aí tive deser levado imediatamente para o Einstein, correndo sério riscode morte.‖ No hospital, por onde já havia passado no início doano, seu problema também era conhecido.Assim, o esquema foipreviamente montado para recebê-lo. ―Cheguei, fui direto para auti, e osmédicos me salvaram. Dessa vez, sobrevivi por poucomesmo.‖ A constatação, entretanto, não provocou nenhumamudança de rumo. ―Continuou tudo normal‖,diz. Como assim,tudo normal? ―Não me assustou de novo... Eu era impetuoso, né,cara?‖ Nada odetinha. Ao longo dos anos, Casão enfrentaradiversos problemas de saúde, capazes de derrubarqualquersimples mortal, mas o velho guerrilheiro da bola, com alma deroqueiro rebelde, nãoparava jamais. A essa altura, já não tinhaparte do intestino grosso, tirada por conta de umadiverticulite,experimentara todos os tipos de hepatite, sífilis, o escambau. Elese tratava, controlavaas moléstias e seguia em frente. Nãoseriam a insuficiência cardíaca e quase a morte que o fariamescolher outra direção. Ao27. contrário, ainda voltaria a incluir a heroína em seu cardápio.Talvez fosse preciso, mesmo, contarcom os préstimos dosdemônios e o acidente de carro para sair daquele buracoinfernal. Depois dedar de ombros para tantos avisos de quenecessitava tomar uma atitude drástica, não lhe restouescolha.Em setembro de 2007, depois de ser socorrido do acidentenovamente no hospital AlbertEinstein, acabou sendo levado sob
  27. 27. sedação para a clínica Greenwood, em Itapecerica da Serra, a33quilômetros de São Paulo. Essa clínica é conhecida por serfechada e impor regras rígidas ao tratamento dedependentesquímicos em grau avançado. Casagrande ficaria alipor um longo ano, a maior parte desse períodosem contato coma família e os amigos, completamente afastado do mundoexterno. O seu convíviosocial seria limitado aos profissionaisespecializados e aos outros pacientes. Sofreria para se adaptarànova realidade, tão distinta de seu estilo de vida.28. capítulo cinco - Memórias do exílio29. Despertou sem noção de nada. Olhou para o teto, para asparedes do quarto, para as coisas ao seuredor, não reconheceuo ambiente. ―Onde estou?‖, perguntava-se. Ainda sob efeito damedicaçãoque havia tomado, e que só agora começava a sedissipar, sentia certa confusão mental. Aos poucos,procurouorganizar os pensamentos e reconstituir os últimosacontecimentos de que se lembravapara tentar entender o quefazia ali. Tinha vaga ideia de que sofrera um acidente, foralevado aoHospital das Clínicas e pedira transferência para oAlbert Einstein. Porém, decididamente, nãoestava lá — um localque conhecia tão bem. Esperava ver alguém da família a seulado, mas seencontrava sozinho. ―Acordei num lugar estranho,não sabia se era São Paulo, se estava no Brasil, qual a direçãoemque ficava, eu não sabia nada‖, recorda-se. Os terapeutas daclínica lhe davam poucas explicaçõesnesse primeiro momento, eele só conseguiu entender melhor o que se passara bem maistarde. ―Euestava muito frágil, então não tinha nem forças parame revoltar. Só depois de algum tempo, quandocomecei amelhorar fisicamente e a recuperar a sanidade, passei a entrarem conflito, porque achavaque não tinha de ficar lá.‖ Após dois,três meses, tornara-se extremamente impaciente. Em suaavaliação, já quepermanecera todo aquele tempo sem usardroga, estava ―limpo‖ e pronto para regressar à vidanormal. Nãocompreendia que o seu grau de dependência exigia tratamento
  28. 28. prolongado.Manifestava preocupação com seu trabalho, alegavaque iria perder o emprego, precisava cuidar dafamília, dos filhos.―Isso martelava na minha cabeça, e eu insistia nesses pontoscom os médicos. Masse eu não havia pensado em tudo issoantes, por que iria ficar preocupado a essa altura, internadonaclínica? Era um pretexto para sair de lá.‖ A resistência aotratamento durou quatro meses. Um tempo interminável, no qualse sentia presoe se desesperava por não poder se encontrar oufalar com nenhum integrante da família.Completamente isoladodo mundo externo, não tinha meios sequer de pedir ao filho maisvelho,Victor Hugo, e à sua mãe para tirá-lo da clínica. Um dosmotivos da privação de contato éjustamente esse. Se pudesseconversar com eles, as chances seriam grandes de convencê-losde que jásuperara o problema. Lançaria mão de todos osargumentos e artifícios: chantagens emocionais,mecanismospara despertar o sentimento de culpa dos parentes, promessasenfáticas de que nuncamais voltaria a usar drogas, o alto customensal da internação, enfim, tudo isso, aliado ao seuinegávelpoder de sedução, faria qualquer pessoa querida fraquejar. Emdado momento, resolveu jogar pesado. ―Parei de pagar amensalidade na tentativa de sermandado embora.‖ Recusando-se a assinar o cheque, completou dois meses de inadimplência.E foiassim que um dos psicólogos que cuidavam dele o chamoupara uma reunião: ―Você vai sair daqui,continuar naquele ciclovicioso e, em breve, regressar para cá? Ou vai se tratar atéreceber alta e teruma vida normal lá fora?‖, perguntou. Oultimato deu resultado. Ele resolveu acertar as contaseprosseguir com a internação. Além de ouvir os argumentos doterapeuta, tinha consciência de quesua família não permitiriapassivamente aquela ruptura unilateral. Cansado de dar murrosem ponta de faca, Casagrande por fim capitulou. Percebeu que aúnica30. maneira de sair de lá seria aceitar o tratamento. Mas nãomudou de postura meramente como umaestratégia em busca daliberdade. Além da conclusão lógica de que sua resistência só
  29. 29. iria estender operíodo de internação, convenceu-se danecessidade de isolamento e da terapia em períodointegral,longe das armadilhas da vida cotidiana. ―Foram as duascoisas. De fato, eu entrei no tratamento, fiz tudo direitinho,comecei a acreditarnos psicólogos e naquilo que eles falavampara mim. Se eu tivesse feito um jogo apenas para sair daclínica,me fingindo de bonzinho para ter alta, hoje estaria com o mesmocomportamento de antes.Percebi, ali, uma oportunidade para metransformar como ser humano‖, explica. A partir desse momento,permaneceria mais oito meses internado, totalizando um ano naclínica,com rotina extremamente rígida. As suas obrigaçõesdiárias deviam ser cumpridas à risca, sob penade sofrerpunições e descer alguns degraus na, digamos, escala evolutiva— o que só acarretariaprivações adicionais e deixaria a metamais distante. A programação de deveres seguia padrãoquasemilitar, tamanho o rigor da disciplina imposta aos internos.Assim, acordava todos os dias, impreterivelmente, às sete horas.Quinze minutos depois, já tinhade regar a horta, uma dasfunções atribuídas a ele no início do tratamento, juntamente comoutropaciente. Em seguida, das 7h45 às 8h25, praticavaeducação física. O café da manhã era servidopontualmente às8h30. Nessa primeira fase, cabia a ele a tarefa de tirar a mesado café. Às 9 horas,formava um grupo de cinco internos evoltava para a horta a fim de limpar os canteiros. ―Para mim,eraum saco‖, confessa. ―Mas fazia parte do processo de tratamentopara desenvolver a humildade.O dependente químico se tornaum tanto prepotente, porque a droga o leva a nãocumprirobrigações.‖ Durante meses, precisou se dedicar a essesserviços. Também arrumava a sala de reuniões degrupo, à tarde.Tirava todas as cadeiras, passava pano no chão, organizava asprateleiras de livros,assim como os jogos e materiais de terapia.Tudo isso tinha de ser realizado em quinze minutos. Senãoconcluísse dentro do tempo estipulado, perdia pontos,necessários para obter recompensas. O sistema de pontuaçãosemanal vai de zero a dez. Quem não atinge seis, por exemplo,
  30. 30. fica semrefrigerante no fim de semana, quando os internos têmdireito a duas latinhas. Para receber visita,regalia restrita àquelesque estão em fase avançada do tratamento, é necessário somarpelo menossete pontos. Cada passo do paciente é avaliado elevado em consideração. Existem regras em todasas atividades:no fumódromo, não é permitido se comunicar com os colegas,nem por gestos.Qualquer desvio provoca perda de pontos. Deacordo com a gravidade do erro, há punições mais severas,como o confinamento no quarto.Casagrande experimentou talcastigo, durante 24 horas, por ter tentado passar o número dotelefonede sua mãe ao irmão de um paciente. ―Queria que eleligasse para ela e pedisse para me tirar de lá,dissesse que euestava desesperado para sair.‖ Conforme o caso, o isolamentopode durar mais,meses até. Essa linha de tratamento é bastantecontestada por psiquiatras e psicólogos adeptos de outras31. correntes terapêuticas. Mas, embora tenha discordado dealgumas punições desse tipo, ao longo desua permanência naclínica, Casagrande acabou por entender a necessidade deações mais duras emdeterminadas situações. ―Há pessoas quenão têm condições de conviver com outras durante umperíodode crise. O método da clínica inclui atividades em conjunto;então não pode ter ninguémremando contra a corrente.‖ Oscasos de dependentes que ficam confinados por longos períodoscausam mais contestação. Aimpressão é de que se trata mais deuma prisão do que uma clínica destinada à sua recuperação.―Écruel, tem gente que fica seis, sete meses isolada do convíviocom os demais. Mas, ao mesmo tempo,vejo que a clínica precisatomar alguma atitude para a pessoa cair na realidade. Quemapresenta umquadro de agressividade fica separado até seenquadrar.‖ Esse não era o caso de Casão. Ele nuncaapresentou comportamento agressivo ou reagiu comviolência,nem quando estava sob efeito de drogas, muito menos durante ainternação. Aliás, cabeaqui uma correção. Casagrande — ocomentarista popular e ex-jogador de futebol — jamaisfoipaciente da clínica. Quem estava lá era o Walter. Todos os
  31. 31. internos e funcionários só o chamavamassim, pelo primeironome. Uma forma de humanizar o personagem e tirar a auracriada pela fama. ―O fato de ter começado a manter contato como Walter me mostrou o quanto ele estava doente,tinha problemasemocionais e se escondia atrás do Casagrande. Hoje, eu sou oWalter a maior partedo tempo, e de uma forma legal. Um caraque cuida das pessoas queridas e dele próprio, comconsciênciada doença e do tamanho do problema que pode causar a simesmo‖, assegura. Passaram-se sete, quase oito meses, paraque Walter ganhasse sinal verde para receber visitas.Duranteesse período, ele passava por tratamento e os familiarestambém. Precisaram ser preparadospara lidar com aquelasituação complexa. Dona Zilda sofria profundamente. Afinal, elae VictorHugo haviam dado o aval para a internação involuntáriado filho. ―A minha maior angústia era não ter ideia de como eleiria reagir quando se encontrasse naclínica e soubesse que euhavia assinado o documento para a internação‖, afirma donaZilda.―Ficamos sete meses sem poder falar com ele. Nós só oobservávamos por um vidro, pela janela deuma sala, mas elenão nos via, nem sabia que estávamos lá. Era uma aflição.‖Todos precisaram de muita paciência. Além da distância dafamília, Walter sofria com a privaçãode contato feminino. ―Fiqueium ano sem sexo e, pior, sem carinho ou qualquer tipo de amor.Nãose pode nem encostar em uma mulher.‖ A clínicacomportava 32 pacientes, homens em sua maioria.―Haviapoucas mulheres lá dentro e, ainda assim, eu as olhava só comooutras pessoas doentes,como eu.‖ Não havia espaço, ali, sequerpara amizades. Os internos são monitorados o tempo todo,paraevitar a formação de grupos ou panelinhas. Por isso foi umalívio quando as visitas começaram a serpermitidas. Ainda queos encontros fossem breves, sempre com a mediação de umterapeuta, já eramuma referência afetiva, e traziam com eles umpouco de sua história. ―Foi muito emocionante meuprimeirocontato com o Victor, o Leonardo e o Symon. Eu já havia
  32. 32. entendido que meus filhostinham feito o que era melhor paramim. A minha relação com eles, hoje, é ótima.‖32. Mesmo na condição de ex-mulher, Mônica também participoudo processo terapêutico. ―Elademonstrou preocupação,interesse, carinho e afeto por mim‖, reconhece Casagrande. Osdoismantêm uma relação relativamente amigável, com uma ououtra discordância, como é comum emseparações conjugais. Eumesmo tive a oportunidade de encontrá-lo na clínica, em suaprimeira visita depois das dosfamiliares. Ele havia engordadovinte quilos e voltara a se parecer com a imagem consagradadopersonagem Casagrande. Sempre sob a supervisão de umterapeuta, fiz uma longa entrevista comele, publicada no Diáriode S. Paulo em 27 de julho de 2008. Naquela ocasião, tambémconversamos,pela primeira vez, sobre a proposta da GloboLivros de contarmos a sua história. Ele ficou animadocom oprojeto e pediu ao psicólogo que o acompanhava para buscarum livro no quarto. Quandovoltou, me presenteou com aautobiografia de Eric Clapton. Estava empolgado com o quelerasobre o ídolo do rock e do blues, a quem sempre admirou.Havia ganhado o volume de quatrocentas páginas na festa deamigo secreto, no fim do anoanterior. Ele próprio escolheraaquele presente, escrevendo seu desejo num papelzinho,colocadojunto com os outros pedidos dos demais participantes.O paciente que o tirou como amigo precisouprimeiro submeter asugestão ao corpo clínico. Depois da aprovação, pediu a umfamiliar paracomprar o livro — era assim que funcionava a trocade presentes no Natal. Casagrande se inspirava na biografia deEric Clapton por se tratar de um dos monstros sagradosdo rockque haviam sobrevivido ao uso pesado de drogas. A maioria deseus ídolos morrera jovem,de overdose: Jim Morrison, JanisJoplin, Jimi Hendrix... Durante muito tempo, cultivaracertaatração por aquele fim fatal, como se fosse seu destinocumprir a sina de viver intensamente emorrer até os trinta anos— uma ideia juvenil lançada nos anos 1960 por Mick Jagger,que,ironicamente, envelheceu nos palcos sem perder a energia.
  33. 33. A trajetória revelada por Clapton, quesuperara a dependência deheroína, cocaína e álcool, abria agora uma nova janela. Muitomaisensolarada. Diante de seu entusiasmo com a oportunidadede também revelar ao mundo sua saga,combinamos quefaríamos juntos o projeto do livro tão logo ele saísse dainternação. Mas seriapreciso controlar a ansiedade. Walter sóreceberia alta em outubro daquele ano. Além disso,descobriria,ao ser posto na rua, que existia muita coisa a reparar em suavida, antes de mais nada. A tv Globo havia mantido seu contratoem vigor durante o longo período de afastamento,pagonormalmente seu salário e lhe dado todo o apoio para otratamento. No momento em que Waltervoltasse a serCasagrande, teria a obrigação moral de honrar a confiançadepositada nele e seguir oroteiro estabelecido pela emissorapara o retorno gradativo às transmissões. Tambémprecisariafiltrar, pelo menos por algum tempo, o círculo deamizades — para minimizar o risco de sofrerrecaída. E o maisimportante de tudo: precisava se reaproximar dos filhos e saldara dívida afetivacontraída com a família.33. capítulo seis - A vida lá fora34. Finalmente, a liberdade tão sonhada: em outubro de 2008,Walter deixou a clínica em Itapecerica daSerra. Porém, antes devoltar a ser dono de seu nariz, ainda precisou cumprir umafaseintermediária, durante um mês, quando cada passo dadotinha de ser comunicado aos terapeutas.Havia avaliações naunidade da clínica Greenwood localizada na avenida BrigadeiroLuís Antônio,em São Paulo, destinada a pacientes logo depoisda alta. Além de se submeter a sessões de terapia,eraobservado de perto pelos profissionais para averiguar secontinuava sem usar qualquer droga. Na prática, saíra do regimefechado e entrara em uma espécie de ―condicional‖ a fim deprovarque estava pronto para voltar plenamente ao convíviosocial. Durante esse período, morou em umflat na praça RoquetePinto, na confluência das avenidas Pedroso de Morais e Faria
  34. 34. Lima, no Altode Pinheiros. Radiante de alegria, ele me ligoucontando a boa-nova e marcamos de almoçar nosábado.Naturalmente, os profissionais da clínica foram avisados sobre ocompromisso: iria seencontrar com o jornalista Gilvan Ribeiro norestaurante Fidel, em tal lugar, em tal horário, tintimpor tintim.Porém na sexta-feira ele telefonou desmarcando o encontro,porque a ex-mulher de MarceloFromer, o guitarrista dos Titãsmorto por atropelamento em 2001, ligara propondo umalmoçonaquele sábado. Ana Cristina Martinelli, a Tina, estava departida para Portugal e queria se despedirde Casagrande, quetivera estreita amizade com o músico — um dos projetosinterrompidos deFromer era escrever a biografia de Casão.Combinamos, então, que eu iria ao flat mais tarde, porvolta dasdezesseis horas. A alteração de planos teve de ser avisada àclínica, em todos os seusdetalhes. Assim, cheguei ao flat àsquatro da tarde e o encontrei agitado, assistindo a um dvd derockpauleira, ac/dc, metal pesado. Fumava um cigarro atrás dooutro, como eu nunca tinha visto. Fiqueipreocupado, já queesperava vê-lo mais tranquilo. Ele assegurou que estava bem,apenas ansioso porestar de volta ao mundo externo.Conversamos um pouco sobre o projeto do livro eassuntosvariados, até que seu celular tocou. Era um ex-internoda Greenwood, disposto a visitá-lo com suanamorada, tambémex-paciente da clínica. Ele concordou, apesar de todos os riscosque envolviam adecisão. Não gostei nada daquilo. Uma dasregras impostas pela clínica é justamente a proibição de ex-internos se encontrarem. A restrição existe por razões óbvias. Oque todos eles têm em comum?Claro: o uso desmedido dedrogas. Nada mais natural, portanto, que as conversasversassem sobreexperiências do passado, algumas com saborde aventura — o que potencialmente é capaz de atiçaro desejotão combatido. E Casa ainda estava sob observação. Qualquerpisada na bola poderia lhecustar o regresso a Itapecerica daSerra. Eu não queria desempenhar mais uma vez o papel degrilo falante. Afinal, o sujeito já era bemgrandinho. Só o adverti,
  35. 35. de leve, sobre as possíveis consequências. Mesmo assim, eleautorizou asubida do jovem casal, aparentemente adolescente, eainda permitiu que estacionasse o carro em suagaragem. Aoalugar um apartamento, ele tinha direito a uma vaga noestacionamento do flat, masnão a usava, porque ficara a pédesde o acidente. Dessa forma, deixou mais uma pista dessavisita35. inesperada, além do número no celular: a placa do veículovisitante iria ficar registrada no sistema decomputadores do flat.Meu Deus! A visita do casal durou uma hora e pouco. Permanecium tanto mais e logo me despedi:começava a anoitecer, e Casaprecisava tomar os remédios prescritos pelos psiquiatras pararelaxar edormir. O bom-senso mandava tratá-lo comoconvalescente. Quando me acompanhou até a porta,me fez umincômodo pedido: ―Você pode conversar na recepção e colocar achapa do seu carrocomo ocupante da minha vaga noestacionamento?‖. Não aceitei aquela proposta indecente. Logoeuque discordava daquilo tudo! Expliquei que não poderiacometer uma fraude, algo contra os meusprincípios, e aindaabriria o flanco para ser acusado de acobertar atitudes perigosaspara umdependente químico em fase crucial do tratamento. Eleme olhou como se eu fosse um traidor dapior espécie, mas nãoinsistiu. ―Beleza, até mais, então...‖, limitou-se a dizer. Por maisque ele não admita ter me retaliado, não há dúvida de que sentiamágoa. Simplesmentenão me telefonou mais e parou de atenderminhas ligações. Ainda deixei recados em sua caixa postal,masnão recebi nenhum retorno. Interrompemos, assim, a nossaconvivência por mais de um ano.Desisti de procurá-lo e toquei aminha vida. O projeto do livro estava engavetado. Tempos maistarde, quando voltamos a nos encontrar, Casão atribuiria osumiço repentino a umaorientação da psiquiatra. Ele ainda nãoestaria pronto para contar a própria história e reviverpassagenscapitais — para o bem e para o mal — que lhe deixaram marcasao longo dos anos. Algobastante compreensível, sem dúvida.Porém, por que não falar disso abertamente, tanto para
  36. 36. mimcomo para a editora? ―Eu não sabia como dizer não, aindamais pelo nível de envolvimento a que játínhamos chegado coma ideia do livro. Precisava de mais tempo para trabalhar umasérie deaspectos na terapia‖, justificou-se quando nosreaproximamos, ao retomar sua coluna no Diário de S.Paulo. Sóentão fiquei sabendo que a rebeldia de encontrar ex-internos daclínica, ainda em processo dereabilitação, havia queimado, defato, seu filme com os terapeutas que avaliavam sua evolução.Umaturminha se formara a partir daquele momento: pacientes sereuniram outras vezes e saíram juntos,apesar da proibiçãoexpressa. Alguns deles tiveram recaída. Somente ao constatar,por experiênciaprópria, o perigo daquelas companhias, em plenatentativa de virada em sua vida, Casão resolveucair fora. Chegoua confessar o delito aos terapeutas, esperando apenas umaadvertência. Mas asregras da Greenwood são inflexíveis. Osprofissionais recomendaram à família um novo períododeinternação em Itapecerica da Serra. Ele só não voltou a serconfinado graças à firmeza de VictorHugo, que acreditou nacapacidade de o pai seguir seu próprio caminho e fazer suasescolhas. Osdois, inclusive, passaram a morar juntos. Claro queele não ficou sem nenhum apoio terapêutico. Depois da rupturacom a clínica, umapsiquiatra e três psicólogas foram contratadaspara ajudá-lo a reorganizar a vida e a lidar com asemoções e ossentimentos guardados por tanto tempo, durante o uso maisintenso das drogas.Chegara a hora de mergulhar em si mesmo,se conhecer melhor e resgatar as relações familiares,36. relegadas a segundo plano até então. Como seriam a voltaao trabalho, a convivência com os amigos e os parentes, ojulgamento daspessoas em geral? Afinal, seu drama se tornarapúblico a partir do acidente de carro e a consequenteinternação.Era necessário medir cada passo para atenuar possíveispreconceitos que poderiamdesestabilizá-lo e provocar novaqueda no precipício. Um desafio colossal o esperava.37. capítulo sete - Os filhos
  37. 37. 38. Cada filho sofreu à sua maneira o drama paterno. São trêspersonalidades completamente diferentes.O mais velho, VictorHugo, então com 21 anos, demonstrou maturidade. Depois dadifícil decisãode determinar a internação à revelia, houve umepisódio lembrado por Casagrande até hoje comindisfarçávelorgulho. Tão logo mantiveram contato na clínica, depois de setemeses sem trocarolhar ou palavra, o pai, sempre envolvente ecom alto poder de persuasão, lhe disse que se sentiaótimo e jápreparado para retomar a vida normal. Sugeria ao primogênito,sutilmente, que o tirasse oquanto antes dali. Sem iniciar qualquerdiscussão ou sermão, bem ao seu estilo, Victor lherespondeusimplesmente: ―Ótimo pai; então os terapeutas da clínica vãochegar a essa conclusãologo, logo e lhe darão alta. Parabéns‖,limitou-se a comentar. Hábil, não se intimidou à frente dafigurapaterna, tampouco entrou em conflito. Victor nasceu durante operíodo em que Casagrande estava concentrado com a Seleçãobrasileirapara a Copa do Mundo de 1986, disputada no México.―Por isso, nunca vi foto dele com minha mãegrávida. Osprimeiros registros me mostram no colo dele, depois que eleretornou do Mundial e nosencontrou aqui em São Paulo.‖ Por terpego o auge do pai como jogador, Victor não contou com suapresença constante emcasa. As concentrações, jogos e viagenso afastavam. Mesmo assim, guarda boas recordações dosdoisjuntos. Quando havia oportunidade, recebia atenção ecarinho. ―Na minha infância, embora ele fossemeio ausente, nosmomentos em que podia estar comigo, comparecia ao máximocomo pai. A gentefazia tudo junto: via televisão, desenhoanimado, ouvia música, dormia na mesma hora e tudomais.Ficava grudado mesmo.‖ Tanto havia essa sintonia queVictor herdou vários gostos de Casagrande. É o maisroqueiroentre os irmãos e chegou até a fazer parte de umabanda de heavy metal: Lethal Eyes (Olhos Letais,em português),mesmo nome de uma música cuja primeira versão da letra foraescrita por elemesmo. Mais tarde, os parceiros de banda deramsugestões e houve algumas adaptações, numprocesso de
  38. 38. criação coletiva. Ele cantava e tocava baixo. No dia em quedecidiu comprar oinstrumento e aprender música, recebeu umestímulo e tanto. ―Meu pai ligou na hora para o NandoReis mepassar umas dicas pelo celular. Fiquei realmente emocionado,pois sou grande fã dos Titãs.‖ Além da veia roqueira, Victorcompartilha o interesse por desenhos animados e históriasemquadrinhos. Chegou até a ajudar o pai a escrever oargumento de uma delas, produzida pela Fábricade Quadrinhose publicada pela Editora Abril, na revista Linha de Ataque —Futebol Arte, em 1998,pouco antes da Copa na França. Ahistória, intitulada ―O primeiro confronto‖, mostrava umjogodisputado por animais, caracterizados para lembrar osjogadores da Seleção brasileira daqueleMundial, e compunha ogibi juntamente com outras três, de autoria de José Trajano,ArmandoNogueira e Marcelo Fromer. ―Herdei dele esse prazerde criar. Desde criança fazíamos histórias de super-heróis, essascoisas.Isso influenciou na escolha da minha profissão. Cogiteiparar de estudar e seguir com a banda deheavy metal, estilomusical que aprendi a gostar com ele, mas acabei decidindofazer faculdade derádio e tv, outra influência do meu pai naminha formação.‖39. A ligação afetiva é tamanha que Victor carrega umatatuagem do rosto de Casão, com aassinatura dele, no bícepsdireito. Até seu nome se deve a inspirações paternas.―Inicialmente, eu iriame chamar Fidel, em homenagem a FidelCastro, mas minha mãe não deixou. Então, ficou VictorHugo, porcausa do escritor francês‖, conta, referindo-se ao autor de Osmiseráveis e O corcunda deNotre Dame, entre outros clássicos.Enquanto estudava, e logo depois de se formar, Victor começoua ―ralar‖ para ingressar nomercado de trabalho. Ficou por algumtempo na O2 Filmes, produtora de Fernando Meirelles,comoacompanhante de casting, ajudando a organizar o processo deseleção dos candidatos que iamfazer testes para comerciais.Esse trabalho era voluntário, não propriamente um emprego,apenasuma forma de ter alguma experiência na área e se
  39. 39. aproximar do mundo das câmeras. Em seguida, foipara a Redetv como estagiário de produção. Trabalhou por um mês noprograma Ritmo Brasil eoutros dez no Pânico na tv. Nasequência, Victor se transferiu para a Record como estagiário deedição. Por um ano,colaborou com o Terceiro tempo,apresentado por Milton Neves, e com outros programasesportivosexibidos durante a semana. De lá, passou pela espnBrasil como produtor da parceria com a RádioEldorado. Depoisde um ano, recebeu convite para ser roteirista de um programaem outraemissora, mas o projeto acabou abortado.Desempregado por seis meses, trabalhou emtelemarketing, fezcurso de locução e se aventurou a narrar corridas de autoramaem shoppings.―Quase comecei a viajar pelo Brasil narrandocampeonatos de autorama‖, diverte-se. ―Mas resolvinão meafastar da minha área, e houve a proposta para ser assistente deprodução do programaBrothers, dos irmãos Supla e JoãoSuplicy, na Rede tv.‖ Em março de 2011 surgiu a chance de serroteirista, função que sempre desejou, no Hoje em dia,daRecord. ―Fiquei muito contente, porque o que mais me dá prazeré escrever. Nas minhas horasde lazer, desenvolvo ideias deprogramas de rádio e televisão. Peguei também meu trabalhodeconclusão de curso da faculdade, um roteiro de desenhoanimado, e estou adaptando-o para virarum livro. Quando estiverpronto, vou procurar uma editora para tentar publicá-lo.‖ AtéCasagrande chegar ao nível agudo da dependência, o sinal dealerta não havia acendido paraVictor. ―Talvez seja até umdefeito, mas eu tenho uma espécie de memória seletiva eprocuro pensarpositivo o tempo todo. Não prestava muitaatenção. Cursava faculdade e trabalhava ao mesmotempo... Sóa partir da primeira internação do meu pai passei a acompanharmelhor essa questão evisitá-lo sempre que possível. Na clínica,ele criava bastante, escrevia poesias, desenhava e até fezumquadro pra mim, meu retrato, que está no meu quarto lá nacasa dele.‖ Salvo um ou outro comentário que lhe fizeram mal,Victor não enfrentou grandesconstrangimentos pelo fato de o
  40. 40. problema do pai ter se tornado público. Certa vez, houve umasaiajusta em seu ambiente de trabalho, na Record. Umfuncionário, sem saber do parentesco, o achouparecido comCasagrande e começou a brincar sobre o uso de drogas.―Percebi que a coisa estavatomando um rumo nada bom e saí deperto. Virei no corredor seguinte e ainda deu tempo de ouvir40. os colegas advertindo o sujeito: ‗Meu, esse cara é filho doCasão mesmo!‘. Foi chato, mas não guardeirancor.‖ Fora isso,chateou-se com críticas mais ácidas feitas por Ronaldo eRomário, que já tiveramrusgas com seu pai, e ao ver gozaçõesem programas humorísticos. Racionalmente, ele até entendequeo humor é território livre, praticamente sem limites, sobretudohoje em dia. Porém se incomodaquando extrapolam noscomentários maldosos. ―O Rafinha Bastos, por exemplo, já fezuma piadano CQC a esse respeito. Até o admiro comohumorista, mas na hora fervi. Depois assimilei e nãolevei tão asério. Os ataques do Romário e do Ronaldo me machucarammais, porque achei um lancegratuito.‖ Quando Casagrande saiuda internação, os dois passaram a morar juntos. Dividiramoapartamento de dezembro de 2008 a outubro de 2011, quandoVictor se casou. Embora tenha grande admiração pelo pai, tantocomo homem quanto como jogador, Victor nãotorce peloCorinthians, clube do coração de Casão desde criança e onde oatacante despontou para afama. Ao contrário, optou pelo maiorrival, o Palmeiras, empolgado com a equipe campeã paulistade1996, formada por Velloso, Cafu, Rivaldo, Luizão, Muller,Djalminha e companhia, sob ocomando do técnico VanderleiLuxemburgo. Aliás, cada filho escolheu um clube diferente.Leonardo, o segundo, é são-paulino. Ou, pelomenos, era nainfância e na maior parte da adolescência, seduzido por Raí.Hoje, tentando seguircarreira no futebol, diz não torcer mais pornenhum time. Já o caçula, Symon, tornou-se santista, naesteirade Diego e Robinho. Mais democrático, impossível.Curiosamente, não há nenhumcorintiano, para decepção do avôWalter, nascido numa família alvinegra de carteirinha. Mas
  41. 41. Casãonunca se incomodou com isso e até, deliberadamente,tomou cuidado para não influenciá-los. Jamaisgostou deimposições. Se Victor herdou do pai o interesse criativo e afaceta intelectual, os outros dois filhos dãopreferência ao ladoboleiro. Não que o mais velho não tenha praticado esporte.Estimulado pelamãe, ex-jogadora de vôlei e professora deeducação física, experimentou várias modalidades nainfância eadolescência: kung fu, boxe, judô, caratê, jiu-jítsu, basquete,vôlei... Claro, também jogavafutebol, de preferência comogoleiro, mas jamais teve a meta de se tornar jogador profissional.Esseobjetivo deixou para os irmãos mais novos. Na época emque Casagrande sofreu o acidente de carro, Leonardo atuavanas categorias de basedo Palmeiras, como centroavante.Quando ficou sabendo da notícia, num domingo demanhã,acabara de acordar. Tinha jogo naquele dia, mas,evidentemente, não pôde comparecer. Ligou para otécnico,Jorginho, ex-ponta-direita da Portuguesa e do Palmeiras, eexplicou a situação. Nemprecisava. ―Já estou sabendo, vocêestá liberado do jogo, não tem problema‖, procurou tranquilizá-loo treinador. Quem ligou dando a notícia a Leonardo foi tiaZenaide, irmã de Casagrande. Toda a famíliaentrou empolvorosa e correu para o Albert Einstein. No hospital, o quemais o impressionava erama magreza extrema e as manchasroxas pelo corpo do pai. Mas essa debilidade não chegava a ser41. surpresa. Além de ter presenciado a primeira overdose nobanheiro de casa, quase um ano e meioantes, ele via seu ídolodefinhar já havia algum tempo. Inclusive, depois de uma brigacom a mãe,passara três dias na casa do pai e conferira adecadência de perto. ―Ele já estava feio, mal, muitomagro. Eusava o dia todo pijama de mangas compridas e calças longas,meias, inteirinho coberto.‖Era preciso esconder as marcas deagulha nas veias. Com toda a repercussão em torno do caso,Leonardo se tornou alvo de brincadeiras de maugosto feitas porcolegas de equipe. ―Os caras simulavam que estavam cheirandoalguma coisa, opessoal achava graça e ria‖, lamenta. Forte e
  42. 42. impetuoso, não foram poucas as vezes que o jovemcentroavanteenfrentou os próprios companheiros. ―Todo dia tinha conflito,discussão. Nessa época,briguei com quase metade do time. Issoaí foi bem desagradável...‖ Em 2008, já no Juventude-rs, ouviuuma ou outra provocação, mas por parte dos adversários.―Emuma partida do Juventude B contra o Grêmio B, entrei nosegundo tempo e botei fogo nojogo. Quase fiz um gol... ozagueiro tirou com a mão e o juiz apitou pênalti. No final, umcara doGrêmio falou assim: ‗É, dá um remedinho aí que omenino gosta, e o pai dele também!‘. Quandoterminou o jogo,faltou pouco para ter confusão em campo. Respirei fundo umasquinze vezes paranão fazer uma merda gigante.‖ Era duro verseu maior ídolo caído. Leonardo sempre se espelhou nele,admirava sua força,rebeldia e qualidade de artilheiro. Vira emexe, acessa o site YouTube para assistir aos golsdeCasagrande. ―Gosto muito da imagem do meu pai comojogador. Cabeludo, forte, de estaturaelevada, ótimocabeceador... ele me inspirou a seguir no futebol. Toda vez quecomprava um jogonovo de videogame, a gente o criava. Aimagem dele como jogador é uma imagem que eu queroparamim.‖ Leonardo presenciou uma overdose — uma passagembem aflitiva. No entanto, o maior abaloteve o caçula.Adolescente, Symon se sentiu abandonado numa faseimportante de sua vida e sofriaem silêncio. O pai não imaginavao quanto. Mas iria descobrir em breve, e de forma inesquecível.Ogaroto abriria o coração para todo o Brasil, em rede nacionalde tv, e levaria Casagrande às lágrimasna frente de todo mundo.42. capítulo oito - Domingão do Faustão43. A Rede Globo traçou um roteiro cuidadoso para reintroduzirCasagrande no universo da tv. Adireção da emissora tomoutodas as precauções para não queimar etapas, nem religar o seuprincipalcomentarista na tomada de alta voltagem dastransmissões em rede nacional sem o aquecimentoadequado.Dessa forma, ele voltou primeiramente ao Arena SporTV,
  43. 43. programa de debates em canalfechado. Ao mesmo tempo, eranecessário preparar os telespectadores, com os mais diversosperfis,dos liberais aos conservadores, para recebê-lo sempreconceitos. As drogas ainda são tabu em várioslaresbrasileiros, e o envolvimento com elas poderia ter desgastado aimagem do jogador. Nadamelhor, portanto, do que expor odrama do ídolo, fazê-lo contar em detalhes a queda e mostrartodaa família para iluminar um pouco aquele terreno de trevas. Ocaminho escolhido para alcançar o público de todo o Brasil foi oDomingão do Faustão. No dia10 de julho de 2011, Casagrandetomou conta do programa e passou seu recado commuitaeficiência aos telespectadores. Antes de entrar em cena,foram mostrados gols de sua carreira, pelosdiversos clubes emque atuou, com a trilha sonora ―Fazendo música, jogando bola‖,de PepeuGomes. Enquanto isso, o apresentador dizia tratar-sede um dos maiores astros do futebolbrasileiro, que estrearacomo profissional aos dezoito anos, com quatro gols noPacaembu. No finaldo clip, o craque foi chamado ao palco. Aorecepcioná-lo, Faustão ressaltou conhecer Casagrande há muitotempo, dando aval a seucaráter. ―Conheço essa fera desde osdezesseis anos de idade‖, testemunhou. Em seguida, iniciouumalonga entrevista na qual o ex-jogador pôde falar do vazio apóster encerrado a carreira nofutebol, com a diminuição drástica dasemoções após os jogos, o consumo mais intenso de drogas,adependência química, o acidente de carro, a internação e oimpacto de tudo isso sobre seus trêsfilhos e sobre os pais. Abola estava com ele. ―A vida de jogador de futebol é muitointensa. Treina todo dia, tem muita visibilidade... o tempopassarápido e você não percebe. Quando vê, já está com trinta anos,tendo de parar de jogar, semnada armado para depois. Então,quando o cara para, a primeira impressão é de sossego, de paz.Pô,agora vou estar na minha casa, vou fazer o que eu quiser,vou poder me divertir com meus filhos etudo mais. Mas aí elecomeça a sentir falta de alguma coisa‖, explicou Casagrande.Ele citou atéRonaldo, que, embora tenha atividade profissional
  44. 44. bem-sucedida fora dos campos, jamaisexperimentará novamenteas sensações proporcionadas pelo esporte. ―Você tem muitosprazeresnaquela vida. Veja o exemplo do Ronaldo: não existenada, daqui pra frente, que possa substituir aintensidade daemoção e do prazer por ter feito dois gols numa final de Copa doMundo contra aAlemanha. Mesmo que faça sucesso em outraprofissão. Porque o maior defeito do ser humano étentarsubstituir ou preencher o vazio deixado por outra coisa que lhedeu prazer‖, completou. O próprio Casagrande conseguiu umatrajetória vitoriosa depois de pendurar as chuteiras.Articulado,carismático, com bom nível cultural e identificado com aDemocracia Corintiana,movimento libertário que conquistoucorações e mentes pelo Brasil afora em plena ditaduramilitar,não demorou a ser convidado para trabalhar na tv comocomentarista. Iniciou na espn Brasil, pelasmãos de José Trajano,e mais tarde chegou à maior emissora do país.44. ―Estou na Globo há catorze, quase quinze anos. O tempo foipassando e eu entrava nesseconflito. As pessoas atéperguntavam: ‗Por que você não tá legal? Você foi um jogadorbem-sucedido, trabalha numa grande empresa, com todasegurança, num trabalho fantástico...‘. Masfaltava alguma coisa,eu não conseguia preencher o prazer que buscava.‖ Indagadopor Faustão se asdrogas entraram em sua vida somente a partirdaí, ou se já fazia uso na época de jogador, explicou:―O meurelacionamento com as drogas foi quase de curiosidade inicial naadolescência. Mas, quandoparei de jogar, encontreierroneamente um falso prazer que a droga dá. Naquelemomento,conseguia anular o vazio que eu sentia, mas é umacoisa muito falsa, porque o vazio era destetamanho (mostroucom as mãos), eu usava droga e me sentia aparentementemelhor, e quandopassava o efeito, o vazio estava ainda maior‖.Casagrande relatou que um dos efeitos da cocaína é ocongelamento emocional: ―Ela te deixafrio, nem feliz, nem triste‖.Pela obsessão em buscar droga e conseguir consumi-la sem sernotado,inventava mentiras e criava situações para se afastar do
  45. 45. convívio social e familiar. Dessa maneira,acabou se distanciandodas pessoas amadas e demorou a perceber os danos quecausava a elas. Issosó aconteceu durante a internaçãoprolongada. ―Eu estava sendo muito egoísta, umacaracterísticado dependente químico. Assim, fui descendo aladeira e tive um acidente muito feio de carro.‖ A internaçãoinvoluntária e o tratamento na clínica foram relatados porCasagrande. Nasequência, entraram no ar depoimentos dafamília, previamente gravados. O primeiro a falar foiLeonardo,contando o episódio da overdose presenciada em casa.Constrangido, o pai revelou suador por ter exposto o garoto a umacontecimento tão pesado: ―Lamento pela situação quecoloqueio Leonardo. Isso deve ter acarretado problemaspsicológicos a ele. Eu o ajudo ainda hoje... ele temuma psicólogae vai ao psiquiatra para aprender a lidar com essa situação‖.(Leonardo já parou defazer terapia, contra a vontade dos pais).Na sequência, Victor apareceu para explicar como optou pelainternação forçada, depois de ouvira sugestão de um médico. Econcluiu de forma carinhosa: ―Tudo que meu pai fez a elemesmotrouxe uma tristeza particular a cada membro da família,mas eu só cresci com essas experiências.Aprendi com os errosdele, com os meus erros, e hoje acho que sou uma pessoa muitomelhor doque era antes. E ele é uma pessoa muito melhor,também, depois do que aconteceu‖. A plateia, emocionada,aplaudiu com entusiasmo. Àquela altura, já ficara claro que opúblicoreagia com solidariedade ao drama. O objetivo de evitar arejeição ao comentarista estava sendoalcançado. Para arrebatarde vez os sentimentos, nada melhor do que os pais idosos,anunciados porFaustão como seus velhos conhecidos — afinal,Fausto Silva iniciou a carreira como repórter decampo etransitava no ambiente do futebol. Dona Zilda surgiu na telafalando sobre o peso de terassinado a ordem de internação e oreceio de que o filho se sentisse traído e acabasse por serevoltarcontra ela. Seu Walter emendou uma declaração deincondicional amor paterno: ―A gente pensa que essascoisas
  46. 46. nunca acontecem na vida da gente; eu não notava nadadiferente nele quando o via, é difícil45. perceber. Mas agora só quero lhe mandar um abraço bemapertado, agradecer por todas as alegriasque você deu para mime para sua mãe. Aquela fase já passou e nunca mais vaiacontecer. Fica comDeus, meu filho!‖. Faustão aproveitou adeixa para enfatizar que Casagrande proporcionara uma vidamelhor e maisconfortável aos pais, a partir da ascensão comojogador. O apresentador lembrou ainda que seuWalter e donaZilda já haviam passado por outro sofrimento, no passado, com aperda de uma filhade apenas 22 anos, Zildinha, vítima de ataquecardíaco. Aqui vale abrir parênteses. A morte de Zildinha, em1979, foi um acontecimento marcante para oentão adolescenteCasagrande. Ele era muito apegado à irmã mais velha, queajudara a cuidar deledesde o nascimento. A jovem estava emcasa, com os dois filhos pequenos, quando sofreu uminfarto domiocárdio. Foi fulminante. ―Isso mexeu muito com a cabeça dele.Um duro golpe paratodos nós‖, atesta seu Walter. O próprioCasa não consegue dimensionar o impacto dessa tragédia emsua vida. Acostumou-sea não expressar muito as emoções e sópassou a demonstrá-las mais recentemente, por contadediversas sessões de terapia. Mas não resta dúvida de que oepisódio lhe deixou sequelas. Começou azombar mais da vida,quase a desafiá-la, por ter aprendido a lição de que ela étraiçoeira. Por maisque se respeite a danada, constatou logocedo, a aventura neste mundo pode acabar sem maisnemmenos, estupidamente. Zildinha brincava com as criançasquando caiu sem vida no sofá. Ela não estava doente, nemhouvenenhum sinal anterior de alerta. O caráter inesperado da morte,aliado ao drama dos meninosque perderam a mãe tãoprecocemente, potencializou a dor da família. Assim que soubedo ocorrido, Casagrande dirigiu-se à residência de Wagner deCastro, oMagrão, seu amigo desde a infância, para procurarapoio naquele momento difícil. Até hoje Magrãonão se esqueceda cena. Depois de ser chamado pelo parceiro, abriu a porta e o

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  • paulomoura

    Mar. 30, 2014
  • GabrielMachado195

    Aug. 21, 2020

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