Successfully reported this slideshow.
We use your LinkedIn profile and activity data to personalize ads and to show you more relevant ads. You can change your ad preferences anytime.

Os desterrados de Luiz Ruffato

568 views

Published on

Resenha de Heitor Ferraz sobre o livro Flores Artificiais, de Luiz Ruffato, publicada no Valor Econômico em 25 de julho de 2014.

Published in: Education
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

Os desterrados de Luiz Ruffato

  1. 1. Imprimir () Ruffato: dois livros em um, com dedicatória e epígrafe próprias e uma apresentação 25/07/2014 - 05:00 Os desterrados de Luiz Ruffato Por Heitor Ferraz Em "Flores Artificiais", o romancista Luiz Ruffato reúne oito histórias de deslocamento e nomadismo, de procura de si mesmo e do mundo, de caminhos dramáticos e sem volta. A epígrafe do livro já é um indicativo desse tema: "Caminho nenhum/ é caminho de volta", dizem os versos de Iacyr Anderson Freitas, com fatalidade. Todos os personagens dessas narrativas procuram resgatar a intensidade da vida e sua história, perdida no tempo e no espaço. No entanto, para reuni-las num todo, e transformá-las num romance, já que poderiam ser lidas como contos temáticos, ele lança mão de um artifício cujas origens estão no romance realista: entrega a autoria dos relatos a um protagonista, Dório Finetto, que, segundo o escritor, numa apresentação, é um engenheiro, consultor de projetos na área de infraestrutura do Banco Mundial, que após rodar o mundo a trabalho, onde topou com várias pessoas interessantes, converteu sua experiência em pequenos e belos enredos, anotados em cadernos, um pouco como terapia. O leitor vai encontrar, na verdade, dois livros em um. Com dedicatória e epígrafe próprias e uma apresentação acompanhada de carta de Finetto, endereçada ao escritor, na qual fala um pouco de sua vida errante, de homem desenraizado, sem família ou destino de chegada, e das condições em que esse "buquê de flores artificiais"foi redigido, temos o romance "Flores Artificiais". Algumas páginas depois, começa o livro de relatos "Viagem à Terra Alheia", com epígrafe retirada de "Os Lusíadas", de Camões, e uma dedicatória: "Para Luiz Ruffato e Regina Gazolla", referindo ao escritor, para quem enviou seus textos, e à sua psicóloga. Com isso, temos um livro que é composto pelas narrativas de Finetto - nas quais ele relata encontros, em vários países, com pessoas cuja vida refletem, de certa maneira, a sua andança pelo mundo, e um outro, que não deixa de ser o mesmo livro, que é o romance de Ruffato, em que o protagonista principal é Finetto. O artifício proporciona ao escritor dar unidade romanesca a uma série de contos. E essa unidade gira em torno do protagonista-narrador. A beleza dessas histórias não está apenas no modo de narrar, em que cada enredo é como se fosse o testemunho de uma vida, colhido em conversas pelo narrador, mas também nas dramáticas situações pelas quais cada uma das personagens passou. Em quase todos, há um passado que os obriga a sair pelo mundo, a deixar a terra natal, a casa da família, e a se lançar numa estrada sem volta. É o caso, por exemplo, de Bobby
  2. 2. Clarke - um inglês que faz e desfaz sua vida em cada lugar onde se instala, seja na África, à procura do paradeiro do pai, ou num posto de gasolina no Tocantins - que Finetto conheceu ainda jovem, quando estudava em Juiz de Fora. É desses destinos desgarrados, sem o conforto da alma e do lugar, de que Ruffato, por meio de Finetto, trata, mas colocando a vida no leito do rio da história. Vamos encontrar uma enigmática senhora francesa em Buenos Aires, num dia de tempestade, falando sobre sua vida e a paixão pelo tango, ou ainda a comovente história de El Gordo, modesto funcionário de banco no Uruguai, à procura de seu pai em São Paulo, ou a trágica vida da moçambicana Susana, cuja beleza helênica se torna um fardo. Cada uma dessas personagens traz uma experiência de guerra e condições sociais que as empurraram para fora de sua terra original, andando pelo mundo, sem paradeiro e família. Ou como diz Finetto no último relato: "Não pertenço a lugar nenhum, sou, sempre fui, um estranho, um estrangeiro... Não me entreguei à vida - ela me largou num parque abandonado". São flores artificiais, nascidas do artifício literário, mas com um punhado de experiência que só um grande narrador consegue traduzir com tanta beleza. Seja esse narrador Luiz Ruffato ou Dório Finetto. "Flores Artificiais" Luiz Ruffato Companhia das Letras 152 págs., R$ 34,00 / AAA AAA Excepcional / AA+ Alta qualidade / BBB Acima da média / BB+ Moderado / CCC Baixa qualidade / C Alto risco T rechos "Não pertenço a lugar algum, sou, sempre fui, um estranho, um estrangeiro... Não me entreguei à vida - ela me largou num parque abandonado... E não tive competência para formar família, filhos, cães, gatos, passarinhos... Amei algumas mulheres, mas sempre me apavorou a ideia de ser rejeitado - antes que me repelissem, abdicava delas... (...) O tempo, este escriturário burocrático e insensível, escarneceu de minha contabilidade esdrúxula: polvilhou meus cabelos, retorceu minha espinha, enrugou minha pele, oxidou minhas juntas, espanou meus sonhos. Perambulo pelo mundo, dissipando minhas pegadas, esquecendo-me de que não tenho paradeiro... Desencontrei-me de mim, arruinei-me para sempre... Agora, talvez, reste uma campa em Rodeiro, onde vim ao mundo e onde nasceram minha mãe e meu pai." "E dias havia ainda em que Alexandre mal cruzava os umbrais das paredes verdes desbotadas, e Susana levantava-se da poltrona, o inseparável chapéu de palha vietnamita na cabeça, e, entregando-lhe a chave do jipe da missão portuguesa, falava, Por favor, leve-me para fora de mim. Então, obediente, ele dirigia sem rumo, em silêncio, até que, como despertando do torpor, ela ordenava, Pare aqui, ou, Voltemos agora, ou comentava, Não sei como me suportas."

×