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"O Impacto da Reforma na Cultura"

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Palestra ministrada dentro do programa "Equilibrium", da Catedral Evangélica de São Paulo, em 18/07/2017

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"O Impacto da Reforma na Cultura"

  1. 1. O Impacto da Reforma na Cultura Eduardo Chaves Ph.D., University of Pittsburgh (1972)
  2. 2. Observações Preliminares •Reformas Religiosas do Século 16 •Conceito de Cultura
  3. 3. Reformas Religiosas do Século 16 •Tiveram precursores nos Séculos 14 e 15 •Dividem-se, no Século 16, principalmente em •Reformas Protestantes (Magisteriais e Radicais) •Reforma Católica •Nenhuma foi concluída no Século 16, todas elas tendo continuidade no Século 17 •Duraram ca. de 1350 a 1650, na Europa Central
  4. 4. Reformas Protestantes Magisteriais •Início: •31/10/1517, com Martinho Lutero •Abrangência: •Europa Central, Países Escandinavos, Países Baixos, Países do Oriente Próximo, Inglaterra, Escócia •Características Principais: •Moderação (na abrangência e na profundidade) e manutenção do vínculo entre a Igreja e o Estado
  5. 5. Principais Reformas Magisteriais •Alemanha (Lutero), 1517 •Suíça-Alemã/Zurique (Zuínglio), 1519-1520 •Estrasburgo (Bucer), 1523-1524 •Genebra/Suíça-Francesa (Calvino), 1534-1536 •Inglaterra (Anglicana/Henrique VIII), 1534-1535 •Escócia (Presbiteriana/João Knox), 1560
  6. 6. Reformas Protestantes Radicais •Abrangência: •Suíça, Alemanha, Holanda, Boêmia, Morávia, Inglaterra •Características Principais: •Reformas mais abrangentes e mais profundas e separação entre Igreja e Estado
  7. 7. Reformas Protestantes Radicais •Diversidade: •Anabatista/Evangélica/Espiritualista, 1519-1521 •Política/Revolucionária, 1524-1525 •Racionalista/Antitrinitária, 1530 •Congregacional/Calvinista/Puritana, 1620
  8. 8. As Reformas Protestantes •Abrangeram principalmente a Europa Central (sentido horizontal e verticalmente) e Setentrional •Ficaram claramente de fora: •A Península Ibérica (Portugal e Espanha), a França, a Itália, a Áustria, a Grécia, a Polônia, a Hungria, os países que um dia foram a Iugoslávia, a Bulgária, a Romênia, etc.
  9. 9. A Reforma Católica •A Igreja Católica também teve sua Reforma: •Sociedade de Jesus, criada em Paris, em 1534, reconhecida e oficializada pela Igreja em 1540 •Concílio de Trento (Tridentum), 1545-63 •Esta reforma abrangeu os países europeus que não foram alcançados pelas Reformas Protestantes
  10. 10. O conceito de Cultura •Se 'cultura' é o que é criado pelo ser humano (e não é 'natureza'), as próprias reformas religiosas são parte da cultura •Discutir o impacto das reformas do século 16 sobre a cultura implica discutir o impacto que mudanças na dimensão religiosa vieram a ter sobre outras dimensões da vida
  11. 11. No entanto... •Discutir o impacto de todas as reformas sobre a cultura, entendida de modo assim amplo, seria impossível •Assim: •Vou me limitar a discutir a Reforma Luterana (foi a primeira e é a que faz 500 anos este ano) •Vou me concentrar em apenas alguns aspectos da cultura (deixando de lado e.g. política e economia)
  12. 12. A Visão de Lutero O que ele desejava fazer
  13. 13. "O que devo fazer para ser salvo?" •Toda a cultura europeia na Idade Média girava em torno da resposta da Igreja Católica a essa questão: "extra ecclesiam nulla salus" •A igreja se fazia necessária do nascimento até a morte do indivíduo, através dos sete sacramentos: • Batismo • Confirmação • Confissão/Penitência • Participação na Eucaristia/Missa • Matrimônio (altern: Ordenação) • Unção dos Enfermos (Extrema)
  14. 14. A essência da resposta católica •Ênfase na culpa (nascemos pecadores, continuamos a pecar por comissão ou omissão, o tempo todo) •Precisamos confessar os nossos pecados e cumprir a penitência determinada para eles •Pecados cometidos geram débitos diante de Deus •Boas obras produzem méritos, i.e. geram créditos •Mas para a maioria é totalmente impossível quitar a dívida com Deus durante a vida
  15. 15. A essência da resposta católica •Solução 1: A Igreja inventou o purgatório: ali se cumprem penitências não pagas em vida •Mas (pela tabela da Igreja) o tempo no purgatório é longo demais para a grande maioria das pessoas •Solução 2: comprar méritos gerados por Cristo (só fez o bem e nunca pecou) e pelos santos (fizeram muito mais bem e pecaram muito pouco ) •Isto se faz comprando indulgências (=indulto)
  16. 16. A visão de Lutero - 1 •Lendo Paulo, via Agostinho, Lutero concluiu: •Se depender só dele, o ser humano nunca chegará a ter saldo positivo diante de Deus •Mas Cristo zerou a nossa conta por completo •Não temos mais de pagar, mesmo que pequemos •Sola gratia – mas temos de aceitar: sola fide •E mesmo a fé é um dom de Deus para os eleitos (se você tem fé, é porque você é eleito)
  17. 17. A visão de Lutero - 2 •Para Lutero, é essa a mensagem da Bíblia: tudo o mais é invenção da Igreja (sola Scriptura) •O sistema sacramental/sacerdotal não é bíblico •Pela Bíblia todos os crentes são sacerdotes •Qualquer crente batizado pode batizar outro, pode ministrar a Ceia, pode interpretar a Bíblia ... •O Evangelho é uma mensagem de liberdade •"Conhecereis a liberdade e a liberdade vos libertará!"
  18. 18. A Visão de Lutero Impactos Culturais dessa Visão
  19. 19. Primeiro Impacto - 1 •Lutero redescobriu a liberdade pessoal no Ocidente •O cristão é, acima de tudo, um ser livre •Lutero sempre foi, do jeito dele, esse ser livre •O pai de Lutero (como o de Calvino) queria que ele viesse a ser advogado: Lutero inventou uma história e foi ser monge; Calvino obedeceu o seu pai em vida •Lutero não abriu mão de seu direito à liberdade, nem admitiu postergar o seu exercício
  20. 20. Primeiro Impacto - 2 •A libertas é a própria essência do Evangelho, que se contrapõe à Lei •Em 1520 Lutero escreveu três livrinhos: •Um para os políticos alemães (para os príncipes) •Um para a liderança da Igreja Católica (para o Papa) •Um para os cristãos em geral: A Liberdade do Cristão •O Evangelho é uma carta de alforria: estamos livres até mesmo da necessidade de buscar a perfeição
  21. 21. Segundo Impacto - 1 •Lutero descobriu também a consciência individual •A liberdade do cristão é exercida em obediência à sua consciência individual, a única entidade a que ele deve obedecer •Em 1521, na Dieta de Worms, pressionado a renegar seus escritos, Lutero afirmou, com toda coragem, na face do Imperador:
  22. 22. Segundo Impacto - 2 "Só renego se alguém for capaz de me provar, através de argumentos racionais insofismáveis, baseados em premissas ancoradas na Palavra de Deus, que eu estou errado. Caso contrário, não renego, porque, se renegasse, estaria a ir contra a minha consciência, o que não é certo nem prudente fazer. Logo, aqui eu fico. Não há nada mais que eu possa ou deva fazer. Que Deus me ajude!"
  23. 23. Segundo Impacto - 3 •Que corajosa afirmação do direito da pessoa de agir unicamente com base no que dita sua consciência individual •O promotor acusou Lutero, diante do Imperador, de procurar nadar contra a maré, de contestar o Papa e os Cardeais, bem como Arcebispos, Bispos, Concílios, Pais, Doutores, Teólogos, e toda a Tradição da Igreja, ao acreditar que apenas ele estava certo!
  24. 24. Segundo Impacto - 4 •Desafiou o promotor: "Será que só você é sábio? Será plausível crer que por tantos séculos todo o mundo esteve errado e só agora você descobriu a verdade? E se o errado for você, e você, defendendo sua liberdade, vier a ser responsabilizado por levar tanta gente para o Inferno com você?"
  25. 25. Terceiro Impacto •Lutero descobriu a desintermediação •Se cada crente é pessoalmente livre para agir pela sua consciência, cada crente é um sacerdote •O crente pode e deve, sem intermediário, falar com Deus, em oração, e ler e interpretar a sua palavra •Na verdade, o crente está autorizado a fazer tudo o que é feito pelo clero na Igreja Católica •O verso dessa medalha é a responsabilidade
  26. 26. Quarto Impacto - 1 •Lutero descobriu que na vida não há dois reinos, um religioso, o outro secular: o cristão vive é no mundo •Essa descoberta implica uma nova visão do mundo, do trabalho, da vocação cristã, e do sentido da ação social •Implica também um novo sentido dos conceitos de adoração, de culto, de liturgia, de templo, de igreja, até mesmo de religião
  27. 27. Quarto Impacto - 2 •A adoração a Deus se faz no mundo •O amor a Deus se revela no serviço ao próximo •As boas obras devem ser dirigidas somente aos que precisam de nossa ajuda, não a Deus, que dela não tem nenhuma necessidade
  28. 28. Quinto Impacto - 1 •Lutero descobriu a importância da educação •Para que ele possa adorar a Deus no mundo e vir a demonstrar o seu amor por ele através do serviço aos que precisam de sua ajuda, o cristão precisa ser capaz de ler, entender, analisar, discutir e transmitir a mensagem essencial da Bíblia •Para isso ele precisa se educar e educar sua família: a educação sua e dos seus é sua responsabilidade
  29. 29. Quinto Impacto - 2 •Para facilitar as coisas, Lutero: •Traduziu a Bíblia para a língua do povo (o Alemão) •Escreveu Catecismos e outros materiais de apoio à aprendizagem •Criou escolas junto às igrejas, mantidas, com os recursos das igrejas, para facilitar e suplementar a educação familiar
  30. 30. Resumo dos Impactos •Liberdade pessoal •Obediência apenas à consciência individual •Desintermediação e responsabilidade •O exercício da vida e dos deveres cristãos se faz no mundo, na esfera secular, não na igreja •A educação deve ser universal e gratuita (para todos e por isso mantida por recursos que, no fundo, são oriundos de impostos pagos pelos cidadãos)
  31. 31. O Desejado e o Possível Choques de Realidade de Lutero
  32. 32. Seis Choques entre 1921 e 1930 •Reformas em Wittenberg (1521-1522) •Rebelião dos Camponeses (1524-1525) •Visitações às Paróquias (1525-1528) •Colóquio de Marburgo (1529) •Dieta de Espira (1529) •Dieta de Augsburgo (1530)
  33. 33. O Lutero Realista e Conservador - 1 •Liberdade e tutelada pelo estado •Individualidade restringida, com excessos coibidos •Mudanças devem ser graduais e levar em conta a capacidade de absorção de inovações por parte dos mais fracos e limitados •Isto se aplica tanto às mudanças religiosas (no culto, na liturgia, nas funções pastorais [confissão!], na aparência dos templos) como às socioeconômicas
  34. 34. O Lutero Realista e Conservador - 2 •O sonho da reforma da Igreja Católica é substituído pelo projeto de nova Igreja, vinculada ao poder local •O sonho de viver a vida cristã no mundo precisa ser parcialmente revisto e qualificado •A educação, além de universal e gratuita, precisa se tornar compulsória, com currículos bem definidos, obrigatórios para todos, aplicados por professores treinados, e ficar, como a igreja, vinculada ao estado
  35. 35. O Dilema do Reformador - 1 •Ele tem de viver entre o sonho e a realidade, entre aquilo que deseja e aquilo que conclui que é possível •Se ele desanimar e não fizer nada (ficar parado), ele corre o risco de deixar as coisas em estado pior do que aquele em que estavam •Se ele ignorar a força da tradição e da inércia e tentar transformar a realidade à força, corre o risco de trazer uma era de anarquia e barbárie
  36. 36. O Dilema do Reformador - 2 •O dilema de Reinhold Niebuhr (um protestante realista do Século 20): •O reformador precisa de paciência e serenidade para aceitar o que não dá para mudar •O reformador precisa de coragem e determinação para mudar o que pode e deve ser mudado •O reformador precisa, acima de tudo, de sabedoria para diferenciar entre uma situação e a outra
  37. 37. Obrigado! https://reformation.space chaves@reformation.space

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