João miramar

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João miramar

  1. 1.  Publicado em 1924 Desejo de explorar o mundo junto a seus amigos. Se apaixona por Celia, casa-se com ela, e tem uma filha. Reuniões com seus amigos(Dr. Pilatos, Dr. Mandarim Pedroso, De. Machado Penumbra, Britinho, o poeta Fileas entre outras personalidades.) O cortejo a madame Rolah.
  2. 2. Investimento na industria cinematográfica. A falência de João Miramar, e o divorcio com Célia. A perda da guarda de sua filha. Falecimento de Celia, e a retomada de sua filha. o fim de suas memórias, pela viuvez
  3. 3.  Memórias Sentimentais de João Miramar é uma obra até certo ponto caótica. Em virtude disso, a análise de categorias como tempo, espaço e personagens é quase impossível. A época o local em que os fatos ocorreram não tem importância. O que importa é a maneira pela qual o narrador filtrou aquelas experiências e, principalmente, a linguagem que emprega para contá-las ao leitor. A obra parece seguir uma ordem vagamente cronológica.
  4. 4.  Os espaços não existem para além das sugestões, das emoções que provocaram no narrador. Por isso, ele não se dá ao trabalho de fazer descrições, remetendo o leitor aos locais onde os fatos ocorreram pela simples menção de seus nomes (São Paulo, Paris, etc.). Cada personagem tem sua vida própria, mas sua interferência na narrativa só existe sob a perspectiva do narrador. Por isso, com exceção de algumas características muitos gerais, nenhuma delas (nem mesmo o narrador) foi delineada, descrita física e psicologicamente. Tem um nome, isto basta. Contudo, há um traço que une-as:- seu apego excessivo ao dinheiro. É a partir deste ponto que a narrativa foi construída com o intuito de desmascarar, de satirizar suas relações sociais (ou devemos dizer econômicas?)
  5. 5. João Miramar: filho de fazendeiro do interior paulista (família proprietária da Fazenda dos Bambus e NovaLombardia, na região de Aradópolis, comarca de Pindobaville);  Tia Gabriela: viúva, que se casou novamente, irmã de Miramar e sogra dele; Nair, Célia, Candoca ou Cotita (Maria dos Anjos) e Pantico (José Elesão da Cunha): filhos do primeiro casamento de tia Gabriela;
  6. 6. CÉLIA: PRIMA DE Miramar; CELINHA: filha de Miramar e Célia. GUSTAVO DALBERT;JOSÉ CHELININI (que veio a se casar com tia Gabriela, exibindo o título de conde, e se tornou sócio de Miramar; DR. PÔNCIO PILATOS: primo de Célia; “agigantada figura moral”; defensor dos interesses da família; MACHADO PENUMBRA: autor do prólogo do livro e de textos parnasianos, sobretudo como orador;
  7. 7. DR. MANDARIM PEDROSO: figura de projeção na sociedade, poeta e orador festejado; SR. FíLEAS:poeta apreciador de floreios parnasianos (um cosmético de sonetos ); DR. PEPE ESBORRACHA: medico da família; BRITINHO:respeitado homem de negócios , sócio de Miramar; BRITINHAS:vizinhas e amigas de Célia; MINÃO DA SILVA: sem instrução, mas atraído pela literatura, escrevia cartas cheias de erros gramaticais;
  8. 8. MLLE ROLAH: atriz sem talento de cinema, ligou-se a Miramar por interesses financeiros, largou-o quando soube que ele faliu; MADAMA ROCAMBOLA:mãe de Rolah, que sobrevivia praticando ocultismo de falcatruas e que apoiou o “caso” da filha com Miramar; MADÔ: moça filha de um comerciante francês que Miramar namorou ocasionalmente em sua viagem à Europa.
  9. 9.  Composto de 163 episódios numerados, tem por personagem principal João Miramar. A montagem fragmentária do romance impossibilita uma leitura tradicional e linear da história. Uma série de inventivos traços de estilo e um agudo senso crítico da sociedade da época fazem desse texto uma grande obra de vanguarda. De fato, o estilo fragmentário e sintético do texto é revolucionário na nossa prosa, assim como seu caráter cinematográfico. Os episódios assemelham-se mais a seqüências de um filme do que a capítulos de romance. Há uma ênfase muito grande no elemento visual e muitas das descrições adotam uma linha geométrica e sintética, bastante próximas dos princípios cubistas, que visa a apresentar fragmentos justapostos da realidade, numa tentativa de captá-la na sua totalidade.
  10. 10.  O foco narrativo na obra é predominantemente de 1ª pessoa. João Miramar relata os principais momentos de sua trajetória. "Entrei para a escola mista de D. Matilde." (Cap. 5) "Não disse nada do que queria dizer a Madô." (Cap. 10) "Molhei secas pestanas para o rincão corcunda que vira nascer meu pai." (Cap. 58) Em alguns momentos, o narrador de 1ª pessoa cede espaço a outros narradores também de 1ª pessoa. Isto ocorre quando são transcritas cartas e bilhetes:
  11. 11. Carta administradora "Ilmo. Sr. Dr. Cordeais saudações Junto com esta um jacá de 15 frango que é para a criancinha se não morrê. Confirmo a minha de 11 próximo passado que aqui vai tudo em ordem e a lavoura vai bem já estou dando a segunda carpa.”
  12. 12.  Há momentos, ainda, em que foco narrativo de 1ª pessoa deixa de existir. Isto acontece quando a narrativa cede espaço à poesia. Recreio Pingue-Pongue “Miramar a vida é relativa O acontecimento não teria sido Se nascesses só Sem a mãe que te deixou virtudes caladas O acontecimento te ofertou A filhinha de olhos claros Abertos para os dias a vir És o ele de uma cadeia infinita Abraça o Dr. Mandarim E soma ele o azul desta manhã Louçã”
  13. 13.  Em alguns capítulos a narrativa é impessoal, como se o narrador fosse de 3ª pessoa. Através deste artifício o autor dá a impressão que a narrativa vai se construindo por si mesma sem a interferência do narrador de 1ª pessoa que predomina na obra. Costeleta milanesa "Mas na limpidez da manhã mendiga cornamusas vieram sob janelas de grandes sobrados. Milão estendia os Alpes imóveis no orvalho."
  14. 14. A linguagem empregada nesta obra é telegráfica. O autor não narra, mas sugere através de capítulos curtos uma história com começo meio e fim. Contudo, cada capítulo é uma unidade que até pode ser lida independente das demais. O sentido de cada parte não se perde fora do contexto geral da obra. Mas, isto não quer dizer que a prosa de Oswald de Andrade seja fácil. Ao contrário, cada um dos capítulos, apesar de extremamente curto, é uma charada, um enigma a ser desvendado. Oswald não facilita o trabalho do leitor.
  15. 15. Seu estilo opõe-se de um lado aos exageros científico- detalhistas da escola Realista e à passionalidadeemotiva da narrativa da escola Romântica. Em cada um dos capítulos o trabalho essencial do autor foi com a linguagem. Não se deixou envolver nem pela ciência nem pela emoção, filtrou a ambas procurando dar uma nova conformação a literatura. No início, a linguagem fragmentada lembra muito a maneira de falar das crianças. Miramar (o narrador), relata sua infância.
  16. 16. Recursos expressivos Ao longo da obra Oswald abusa de recursos de linguagem, muitas vezes misturando-os com um poder de síntese invejável. METONÍMIA - "... de geografia aberta sobre a mesa..." (Cap. 79) = mapa ONOMATOPÉIA - "...No silêncio tique-taque..." (Cap. 8) (Antítese:- silêncio/barulho) "Dez horas da noite, o relógio farto batia dão! dão! dão! dão! dão! dão! dão! dão! dão! dão! HIPÉRBATO - "... mapas do secreto Mundo." (Cap. 9) ao invés de "...mapas do Mundo secreto."
  17. 17.  ALITERAÇÃO - "...punha patetismos pretos..." (Cap. 22) PARADOXO - "...Companhia Industrial e Segurista de Imóveis Móveis..." (Cap. 119) PROSOPOPÉIA - "... Depois casas baixas desanimaram a planície cansada." (Cap. 113) SINESTESIA - "...de janelas cerradas e acesos silêncios." (Cap. 153) O emprego de trocadilhos é comum na obra:- "... sátiras à sociedade de sátiros..." (Cap. 72)
  18. 18. A exemplo de outros escritores, Oswald também realiza diálogos intertextuais, fazendo referência aos seguintes autores, personagens e obras: - O primo Basílio (Eça de Queiroz) Cap. 100 -Herodes (Bíblia) Cap. 98 -Lord Byron (poeta romântico) Cap. 155 -Virgílio (poeta latino) Cap. 163 Faz referência à vanguarda artística européia (Picasso, Satie e João Cocteau - Cap. 51, Isadora Duncan - Cap. 47).
  19. 19. Também é marcante o emprego de vocábulos e expressões em línguas estrangeiras:- Inglês Francês Espanhol Italiano: dancing habitué encuentro de ustedes si sinhore / It is very beautiful! Mademoiselle / board-house tour du monde / Albany Street goudron-citron / Latim / Res non verba! A obra registra também uma variante do português resultante da influência da migração árabe:- "- Aqui nong teng acordo. Teng pagamento! (Cap. 148)
  20. 20.  A obra apresenta uma crítica ao casamento como instituição burguesa (união por interesse). "Separação precavida de bens" (Cap. 62) O motivo da separação do casal João Miramar/Célia é falência financeira dele: "A margem disso o caso financeiro negreja no horizonte. O Senhor adquiriu rapidamente uma reputação de dilapidador." (Cap. 142) O interesse do pai pela filha só ocorre após a morte da mulher: "Foi à ele que corri na aflita busca de minha Celiazinha, feita milionária e só pelo Deus das revisões do processo." (Cap. 157)
  21. 21.  Através do livro, Oswald ressalta e satiriza o caráter patrimonial das relações sociais burguesas: "E Rolah trazia ao céu do cinema um destino de letra de câmbio." (Cap. 32) Em duas oportunidades Oswald registra a utilização de dinheiro público para viagens de artistas ao exterior: "Dalbert de subsídio e trombone ia partir para a conquista da Europa." (Cap. 26) "João Jordão que não era artista nem nada parecida magro e uma tarde arranjou subsídio governamental para estudar pintura em Paris." (Cap. 22) A linguagem também reflete uma escolha ideológica. Oswad quebra a forma usual de narrar, rompendo definitivamente com as escolas literárias que o antecederam, e com uma determinada concepção da língua portuguesa (abusa de neologismo, cria verbos, adjetivos, etc.).
  22. 22. Nesta obra Oswald de Andrade aproveitou as técnicas do vanguardismo europeu e as adaptou a transmissão literária de um país em transição: primeiras décadas do século XX, contexto social e mental da realidade urbana em processo inicial de industrialização, mas culturalmente presa a um passado parnasiano, econômica e politicamente contaminada pela guerra européia
  23. 23. Tendo ou não lido “Ulysses” obra publicada em 1922 com edição restrita do irlandês James Joyce, citado mundialmente como o grande revolucionário da linguagem literário, Oswald de Andrade fez essa mesma revolução no Brasil. Oswald foi o primeiro importador do Futurismo em nossa literatura, movimento lançado por Marinetti em seu manifesto de 1.909, publicado no jornal “Fígaro” de Paris: “Queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, a corrida, o salto mortal, a bofetada e o soco” declarava o italiano na França, por onde andava Oswald na época.
  24. 24. O prefácio da obra, na verdade um pseudoprefácio, intitulado “A Guisa de Prefácio” e assinado por Machado Penumbra, “faz a apresentação do livro em estilo empolado e arrebicado, recheado de clichês acadêmicos, num contraste gritante com o estilo do próprio autor, João Miramar-Oswald.”
  25. 25. “Torna-se lógico que o estilo dos escritores acompanhe a evolução emocional dos surtos humanos. Se no meu foro interior um velho sentimentalismo racial vibra ainda nas doces cordas alexandrinas de Bilac e Vicente de Carvalho, não posso deixar de reconhecer o direito sagrado das inovações, mesmo quando elas ameaçam nas suas mãos hercúleas o ouro argamassado pela idade parnasiana. “Esperemos com calma os frutos dessa nova revolução que nos apresenta pela primeira vez o estilo telegráfico e a metáfora lancinante.” “O fato é que o trabalho de plasma de uma língua modernista, nascida da mistura do português com as contribuições das outras línguas imigradas entre nós e contudo tendendo paradoxalmente para uma construção de simplicidade latina, não deixa de ser interessante e original. A uma coisa apenas oponho legítimos embargos – é a violação das regras comuns da pontuação. Isso resulta em lamentáveis confusões, apesar de, sem dúvida, fazer sentir “a grande forma da frase”.
  26. 26. Nesses fragmentos do prefácio de Machado Penumbra já podemos notar as intenções da obra: uma paródia linguística e estilística; “mostrar artificialismo de uma linguagem anacrônica”( São Paulo de 1912, época em que se passa o Miramar, era uma província, o que não retira a atualidade da sátira, pois até hoje, a linguagem culta-acadêmica é vista como forma de status e intelectualidade) através episódios que assemelham-se mais a sequência de um filme do que a capítulos de romance. Além da paródia, Miramar apresenta uma crítica social, ao pedantismo de uma burguesia endinheirada que circulava pelos salões literários, cafés e livrarias nas ruas de São Paulo. De característica acaciana, as personagens de Miramar são movidas “dentro de um mesmo círculo vicioso de alienação”. Memórias sentimentais de João Miramar é uma sátira social que mistura vários estilos e uma forte crítica à sociedade, fazendo dessa obra um grito de vanguarda. Oswald em viagem à Europa (1912) empolgou-se com o Futurismo de Marinetti. O Manifesto anunciava as “palavras em liberdade”, a “destruição da sintaxe”, a “imaginação sem fios”, a demolição de “museus e bibliotecas” etc, e no prefácio de Miramar, Machado Penumbra afirma que: “Há além disso, nesse livro novo, um sério trabalho em torno da “volta ao material” – tendência muito de nossa época como se pode ver no Salão de Outono em Paris”, referindo-se a primeira exposição coletiva dos pintores cubistas (1911), ao simultaneísmo (apresentação de fragmentos justapostos da realidade, numa tentativa de captá-la na sua totalidade; a ênfase no estilo fragmentário e sintético do texto; a imagística sonoro-visual; as descrições em linha geométrica e o cubo-futurismo plástico-estilístico dos trechos
  27. 27. Haroldo de Campos, Metalinguagem (“Estilística Miramarina”), Editora Vozes, Petrópolis, 1967, apresenta duas fases da evolução modernista de Oswald nas artes visuais: ”1º., a deformação através do impressionismo, a fragmentação, o caos voluntário. De Cézanne e Mallarmé, Rodin e Debussy até agora; 2º., o lirismo, a apresentação no templo, os materiais, a inocência construtiva”...”O trabalho contra o detalhe naturalista – pela síntese; contra a morbidez romântica – pelo equilíbrio geômetra e pelo acabamento técnico; contra a cópia, pela invenção e pela surpresa”...”Substituir a perspectiva visual e naturalista, por uma perspectiva de outra ordem: sentimental, intelectual, irônica, ingênua”...”Nossa época anuncia a volta ao sentido puro. Um quadro são linhas e cores. A estatuária são volumes sob a luz”...”Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres”.
  28. 28. Outra tendência observada em Memórias sentimentais de João Miramar é o uso de expressões estrangeiras incorporadas a língua portuguesa, forma encontrada por Oswald de Andrade para criticar as influências estrangeiras em nosso país. Contudo, como observou o próprio Oswald, não se trata de uma crítica de todo negativa. A proposta antropofágica trazida no manifesto veio mostrar que se poderia aproveitar as influências, mas digerindoas, repensando-as e devolvendo-as de forma crítica, reflexiva, como “uma civilização que estamos comendo” .
  29. 29. No prefácio da obra, a personagem Machado Penumbra, um parnasiano declarado, observa que: (...) o fato é que o trabalho de plasma de uma língua modernista nascida da mistura do português com as contribuições de outras línguas imigradas entre nós e contudo tendo para uma construção de simplicidade latina, não deixa de ser interessante e original (...) Assim, Penumbra valoriza esta tendência, ressaltando sua originalidade. Na obra, pode-se visualizar este recurso em vários fragmentos, entretanto, escolheram-se alguns considerados mais relevantes ao presente trabalho. No capítulo 46, intitulado “Anglomania”, observa-se a crítica ao uso de estrangeirismos, exaustivamente utilizados pelo narrador para relatar parte de suas férias: Tomamos board-house francesa em Albany Street não longe do Hyde Park. Durante o dia almoçávamos a cidade visitando entre jardins múmias do British Museum. Chegava a noite pontual e policemen corriam pesados estores do céu para alexandrinais poetas compatriotas percorrerem de tube o famoso astro da metrópole cor-decinza. 50 Fechávamos-lhe a porta à cara branca e alugávamos com Muset e Murger aconchego de rendas em cortinas insones. No texto acima, percebe-se a ironia na descrição das atividades realizadas no período de férias na Europa através do uso de termos estrangeiros que demonstram o quanto o narrador está permeado desta influência. Palavras como “board-house”, “street”, “park”, “Museum” e “policemen” possuem correspondentes diretos na língua portuguesa, entretanto, o narrador as utiliza no idioma inglês justamente para mostrar o processo da aculturação por estrangeirismos, já sugerido pelo
  30. 30. título do capítulo. No fragmento “63. Idiotismo” tem-se a crítica quanto à falta de objetivo das viagens realizadas. Miramar expõe um sonho irônico da viagem idílica com Célia: Iríamos em tournée à Europa. E pela tarde lilás do Bois, ela guiaria a nossa Packard 120 HP. Sairíamos nas férias pelos caminhos sem mata-burros nem mamangavas nem taturanas e faríamos caridade e ouviríamos a missa dos bons curas nas catedrais da Média Idade. E prosseguiríamos por hotéis e hotéis, olhos nos olhos etc. Neste fragmento, observa-se o uso de palavras estrangeiras como “tournée”, “Packard 120 HP” e “Bois”, as quais se encontram mescladas com expressões tipicamente brasileiras como “mata-burros”, “mamangavas” e “taturanas”. Assim, obtém-se um efeito de língua “modernista”, ao mesmo tempo em que se faz uma crítica à importação da cultura estrangeira vista de forma supervalorizada em relação à cultura nacional. No fragmento “78. A sabida” tem-se a carta de Nair, irmã de Célia, relatando à irmã a adaptação de sua mãe no novo mundo: “Ela já sabe falar quelque chose, eau chaude e beaucoup d’argent” . O episódio, além de mostrar a assimilação da cultura importada, aponta uma crítica àquela burguesia, sendo a palavra “argent” o expoente dessa crítica - dentre as primeiras 51 expressões aprendidas está o dinheiro, símbolo dessa classe social. Pode-se dizer que as viagens de João Mirarmar aparecem na obra como um recurso de contraste entre o Brasil e a Europa. Apesar da aparente valorização estrangeira explicitada a partir do uso das expressões importadas, percebe-se sempre a sobreposição dos valores nacionais sobre os estrangeiros, sendo esta uma intenção da obra. O uso de termos e expressões estrangeiras configuram a linguagem modernista, refletindo a visão antropofágica na língua brasileira.

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