Exp. da intes uel a partir da perspectiva de solidariedade

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Exp. da intes uel a partir da perspectiva de solidariedade

  1. 1. A EXPERIÊNCIA DA INCUBADORA DE EMPRRENDIMENTO SOLIDÁRIOS DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA (INTES/UEL) – REFLEXÕES ACERCA DA ATUAÇÃO A PARTIR DA PERSPECTIVA DE SOLIDARIEDADERESUMOA partir dos princípios que norteiam a prática em Economia Solidária (Eco-sol), estetrabalho visa contribuir com a discussão acerca da possibilidade de sustentabilidade deprojetos de extensão universitária e de sua atuação coerente com o referencial em que sebaseia. Faremos um breve retorno as raízes da Eco-sol no Brasil, que surgem nummovimento de contrapartida a um cenário de segregação dos trabalhadores do mercadoformal. Buscaremos, nisto, elucidar as bases destes primeiros movimentos quanto a suaperspectiva de suporte e apoio aos trabalhadores, em relação a experiência atual dasautoras numa incubadora universitária. Posteriormente, adentraremos o campo dediscussão conceitual acerca da idéia de solidariedade, as autoras tiveram como intuitopromover a discussão desde suas experiências de atuação na Incubadora deEmpreendimentos Solidário da Universidade Estadual de Londrina (INTES/UEL). Esteponto é importante, acerca da idéia de solidariedade, pois muito discutido e controverso.A ‘solidariedade’ na perspectiva da Economia Solidária, se coloca num plano adjetivo,agregando sentido semântico, a relevância desta discussão se faz à luz dos equívocos einconsistências que podem contornar a compreensão da mesma. O entendimento daequipe sobre o conceito de solidariedade exige muita coerência e sintonia entre o gruposão pontos onde dificuldades aparecem, tanto no trabalho com os grupos incubados,quanto entre a própria equipe da Incubadora, o que pode levar a uma tomada doconceito de solidariedade com proximidade a categorias assistencialistas, repercutindodiretamente no trabalho cotidiano realizado. A partir de alguns exemplos ilustrativos,tirados da atuação prática das autoras, este trabalho visa contribuir para a discussão dacoesão entre teoria e prática.Palavras-chaves: economia solidária, solidariedade, assistencialismo, intes/uel.Ana Claudia Broza Daher. Graduanda do curso de Psicologia da Universidade Estadualde Londrina. cacau_daher@hotmail.comDiene Garcia Gimenes. Graduanda do curso de Psicologia da Universidade Estadual deLondrina. diene_gimenes@yahoo.com.brFernanda de Souza Borges. Graduanda do curso de Psicologia da Universidade Estadualde Londrina. feborges.psi@gmail.comRosely Jung Pisicchio. Psicóloga. Mestre em Sociologia pela Universidade Estadual deLondrina. Docente de Psicologia Social e Institucional da Universidade Estadual deLondrina. pisicchio@sercomtel.com.brEndereço: Departamento de Psicologia Social e Institucional.Rodovia Celso Garcia Cid, Pr 445, km 3880 – Londrina / PR. CEP: 86055-900.
  2. 2. A ECONOMIA SOLIDÁRIA Num cenário tal qual o da sociedade capitalista ocidental onde delimitamos aexistência de subprodutos, de efeitos nocivos da sociedade de consumo sobre o serhumano, apresentaremos uma iniciativa questionadora sobre a produção, consumo e atécomercialização dos produtos – a Economia Solidária (Eco-Sol). A Eco-sol é umapossibilidade de trabalho e geração de renda, que se mostra alternativa ao capitalismoselvagem. Isto é, a Eco-sol tem por princípios básicos a auto-gestão – oempreendimento sob gerência dos sócios, sem hierarquia patrão-empregado, e aorganização democrática, onde cada membro, sendo também dono do empreendimento,tem voz nas deliberações que geralmente decorrem de consulta a todos os envolvidos.Embora não rompa totalmente com o capitalismo, a acumulação de riquezas e oconceito de mais-valia são repensados a partir de uma ótica que priorize a relaçãoigualitária entre o grupo. Para estudos direcionados as raízes da Eco-Sol indicamos olivro de Paul Singer– “Introdução á Economia Solidária”, da editora fundação PerseuAbramo. Remeteremo-nos especificamente à realidade da Eco-sol no Brasil. A Eco-soltem sua origem dentro do movimento das cooperativas, que chega ao Brasil trazidopelos europeus. Redes de consumo nas cidades e agrícolas no campo são os pioneiros.No entanto, este modelo de gestão não era autogerido, o que significa que aindapreservava um modelo de organização hierarquizado e seus membros atuantes eramassalariados, ponto fundamental que distingue a iniciativa da Eco-sol. Outro elemento fortemente marcado na implementação da proposta da Eco-solno Brasil foi seu vínculo estreito com instituições religiosas, em particular a católica,que previu o incentivo a diversos projetos precursores desta iniciativa; neste momentojá aparecia o regime de auto-gestão nos modelos de organização dos grupos. Grandeparte dos investimentos visavam apoio a geração de renda de moradores de periferiaspobres de diversas regiões do país. Algumas destas iniciativas se consolidaram eganharam independência, passando a viver da venda de seus produtos no mercado,outras permaneceiam ainda dependentes das associações que as auxiliavam. Paul Singeraponta o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), como um nicho onde háiniciativas de cooperativismo agrícola. A iniciativa dos funcionários de gerir empresas que decretavam falênciatambém foi um expoente donde a semente da Eco-sol pode ser vista sendo plantada.Neste casos, Paul Singer cita o caso da hecatombe, os trabalhadores viam uma forma de
  3. 3. preservar seus postos de trabalho. De tantas iniciativas, a tendência é que a organizaçãobusque formar redes entre grupos que tenham interesses comuns. Desta perspectiva de fortalecimentos surge, no interior da iniciativa do MST, aprerrogativa de promover a agricultura por meio de cooperativas autogestionárias e acriação, em 1989 e 1990, do Sistema Cooperativista de Crédito. Outra associações seformou: a Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Autogestão eParticipação Acionária – Anteg, de Franca-SP. Esta última a partir da falência de umaempresa de calçados. Trabalho parecido também é desenvolvido pela União eSolidariedade das Cooperativas do Estado de São Paulo – Unisol. Isto para citar algunsexemplos de trabalhos e associações que visam o trabalho a partir do cooperativismo eEconomia Solidária, como nos apresenta Paul Singer (2002). Um expoente em Eco-sol que parece ser campo muito fértil, e de onde provémnossa experiência, são as universidades. Como lugar de reflexão e produção deconhecimento, a Universidade tem por eixo três norteadores principais, que são: oEnsino, a Pesquisa e a Extensão. Este último é lugar fértil para o desenvolvimento depotencialidades associadas a Economia Solidária. As incubadoras tecnológicas,geralmente vinculadas a prática extensionista, prevê o trabalho com a sociedade demodo mais efetivo e direto. Estas mesmas incubadoras vem operando trabalhos deassessoria a grupos que buscam desenvolver-se dentro dos princípios da Eco-sol. Taisexemplos são a Universidade Rio dos Sinos (UNISINOS), do Rio Grande do Sul; aUniversidade Estadual de Maringá (UEM), e a Universidade Estadual de Londrina(UEL), na qual estamos localizados, dentre uma ampla gama de iniciativas que vão deNorte a Sul do país. A realização do I Fórum Social Mundial, em Porto Alegre – RS, em 2001,promoveu a criação de uma Rede Brasileira de Sócio-Economia Solidária. Iniciativascomo está só vem a somar e apontar que despontam iniciativas por todos os cantos doBrasil, e que a Eco-sol tem muito a contribuir num país de características sócio-econômicas tão desiguais.A INTES/UEL A Incubadora Tecnológica de Empreendimentos Solidários (INTES/UEL), tempor iniciativa o trabalho dentro da perspectiva dos princípios da Eco-sol. Inserida naperspectiva extensionista; esta incubadora atualmente conta com uma equipe deprofissionais, além de estagiários e professores envolvidos no projeto. As áreas
  4. 4. envolvidas no projeto são diversas, compreendendo representantes de diversos cursos degraduação. Entre os membros que atualmente integram a equipe estão estagiários deadministração, ciências contábeis, economia, serviço social, agronomia, direito,psicologia, moda, comunicação, designer gráfico, A partir da concorrência de editais de iniciativas públicas e/ou privadasdirecionadas a projetos desta área, a equipe INTES/UEL busca promover o encontroentre a Universidade e os trabalhadores excluídos do mercado formal de trabalho, ou emcondições precárias do mesmo, através do apoio a cooperativas, associações, grupos detrabalho coletivo ou outras iniciativas que pretendam conhecer e promover a Eco-solenquanto possibilidade de um trabalho igualitário e autônomo da hierarquia patrão-empregado. A estrutura de trabalho desta Incubadora prevê três etapas: pré-incubagem,incubagem e desincubagem. A etapa inicial de pré-incubagem é o momento onde serárealizada uma avaliação sobre o grupo que se pretende incubar e que buscou o apoio daUEL, na assessoria da INTES, para desenvolver seu potencial de trabalho. Há nestemomento a apresentação de proposta referente aos princípios da Eco-sol e a oferta dotrabalho que a INTES pode dispor na assessoria deste grupo. Neste momento há de sepesar os interesses de ambas as partes e atentar para os requisitos que se exige para queo trabalho se realize. Quando da incubagem de um novo grupo, este passará por planejamentoconjunto com as varias áreas, desde a escolha do produto a ser confeccionado, atéoficinas de preço, onde são trabalhadas questões como o lucro. Perpassando todo estetrabalho, os princípios da Eco-sol são eixo que norteiam a prática, como referencial deorganização. Busca-se promover a autonomia do grupo para que possa, tão logo, atingira etapa de desincubagem. A Incubadora da UEL vem atuando no acompanhamento e naintervenção junto a 5 grupos de geração trabalho e renda nas áreas de papel reciclado,patchwork, costura e agricultura familiar. É claro que muitos são os percalços queimpedem que o caminho seja trilhado tão idealmente. A própria passagem da idéia deser assalariado, da racionalidade capitalista da mais-valia, a organização autogestionáriae o próprio entendimento da equipe sobre o conceito de solidariedade exige muitacoerência e sintonia entre o grupo e são pontos onde dificuldades aparecem; tanto notrabalho com os grupos incubados, quanto entre a própria equipe INTES/UEL.SOLIDÁRIEDADE, O QUE É?
  5. 5. Solidariedade como um elemento semântico em relação a um substantivo, énos apresentado como uma das possibilidades que podem estar vinculadas ao sentido daEco-sol. Vera Westphal (2008) nos traz em seu trabalho, múltiplos fatores deentendimento da idéia de solidariedade. Este belo estudo vem contribuir com acomplexificação da discussão. Partimos da percepção de que o termo “solidariedade”,quando de “Economia Solidária”, enquadra-se neste elemento semântico que vem a darsentido a um substantivo; isto é, que o caráter da dita Economia, é Solidário. Na INTES/UEL, e acreditamos que em outros espaços e incubadoras também,o termo solidariedade é tido como lugar-comum, um lugar dado e posto e que, decristalino que se acredita ser, não se discute. O que a Westpahl nos traz são aspossibilidades de entendimento que subjazem este conceito pouco discutido. Ficasubentendido, por acordo comum não-verbal entre os membros, que solidariedade está,em última instância, de acordo com os princípios da Eco-sol, que são oito: autogestão,democracia, participação, igualitarismo, cooperação, auto-sustentação, desenvolvimentohumano e responsabilidade social, segundo Gaiger (in NARDI, 2005). Destacamos algumas vertentes por onde passa a construção da idéia desolidariedade a fim de compreensão, seguindo os passos de Westphal (2008). Aprimeira trata-se de um entendimento de solidariedade tal que se aproxima da dimensãopaternalista, do assistencialismo. Esta concepção está pautada em origens pré-modernase cristãs, onde o altruísmo e a fraternidade são modelos de solidariedade eficazes eideais. Não há, nesta perspectiva, espaço para uma dimensão política estatal do termo.Solidariedade aqui nada mais implica do que conceber certo humanismo (com o perdãodo abuso do termo) fraternal. O solidarismo francês, por sua vez, traz um sentido normativo social,econômico e político. Solidariedade como categoria ética de promoção e preservação daliberdade e humanidade (WESTPHAL, 2008). Nestes aspectos, vem a se relacionarmais intimamente com os princípios da Eco-sol, já destacados anteriormente, na medidaem que promulgam a emancipação do sujeito, não como assujeitado, mas como posiçãode cidadania e reconhecimento político social perante os outros seres. Compreendendoque uma sociedade solidária passa pela adesão voluntária dos membros. A mesma autora ponta que as idéias fundadas na origem cristã do termosolidariedade tiveram grande influência no desenvolvimento deste conceito enquantoprincípio de Estado na América Latina. Ter a solidariedade enquanto princípioregulador de certa ordem social prevê indivíduos que possam ser compreendidos a
  6. 6. partir de certas semelhanças, relegando a este conceito uma realidade classicista, ouseja, não seria possível ser solidário a quem não lhe é semelhante. A Eco-sol parece se aproximar mais de uma visão marxista da solidariedade,partindo da ótica que as ações solidárias decorrem e ocorrem a partir de um grupo que,com experiências próximas de exploração e subordinação, buscam a superação por meiode ideais mais igualitários entre si. Paul Singer (2003) complementa que “solidariedadese constrói desde relações que se estabelecem entre os integrantes do grupo, com basena prática de auto-gestão e companheirismo. No entanto, há momentos, muitas vezes não facilmente identificáveis, onde asolidariedade parece se aproximar mais do sentido de caridade e fraternidade, do que deuma compreensão de acordo com os princípios da Eco-sol.TRABALHO E SOLIDARIEDADE Muito embora os idéias da Eco-sol ultrapassem as questões de renda esubsistência, tal como seus principais idealizadores, como o teórico Paul Singer (2002),acreditam ser importante; notamos em nossa experiência na INTES/UEL, que oprincipal motivo que agrega significado aos projetos de Eco-sol se vinculam a geraçãode renda, os outros seriam inserção social e trabalho (NARDI, 2005, p320). A equipe, formada por docentes e discentes universitários, bem comoprofissionais recém-formados, se situa muito próxima das vivencias e objetivos daacademia. Portanto, esta equipe busca desenvolver seu trabalho com os referenciais dosprincípios da Eco-sol – a formação política, portanto é um ponto que retorna a pauta dasdiscussão regularmente. No entanto, a equipe não deixa de ser contagiada pelos sentidosde trabalho agregados pelos grupos que tem adesão aos projetos. Os indivíduos que aderem aos projetos de Eco-sol buscam nestes uma formaalternativa de geração de renda, logo que estão excluídos do mercado formal. Deve-seatentar para o fato de que a população que geralmente se envolve com estas iniciativas,está inserida nas camadas mais vulneráveis da sociedade, seja em termos econômicos,políticos e sociais. Suas preocupações, como bem aponta Nardi, se referem a condiçõesde manutenção e subsistência de cunho emergencial (2005). “O quadro contemporâneo de implantação dos projetos de ES [Eco-sol] sesitua, portanto, na contradição dos princípios da ES apregoadas pelos líderes domovimento e a heteronomia imposta pela economia de mercado” (NARDI, 2005, p321).Partindo deste cenário é que procuramos entender a questão de como a concepção de
  7. 7. solidariedade pode ser um eixo de base, tanto de sustentação, quanto norteador, para oprogresso do trabalho da equipe e dos grupos incubados. A Eco-sol vem como alternativa para a reinserção do público atingido aomercado formal, neste sentido a solidariedade se vincularia a este interesse comum. Paratanto, é preciso se atentar para fatores tais como a necessidade de arrecadação de capitale esta situação em alguns casos acaba por ser resolvida de modo precário, uma vez quea incubadora se encarregue de conseguir a matéria prima necessária e certas facilidades,sem firmar com os grupos o compromisso de devolução (parcial ou integral) do valorinvestido, seja em moeda corrente ou de outros modos, por prestação de serviço, porexemplo. Esta primeira condição posta, por si só, já exige certa concepção desolidariedade que buscaremos esclarecer. Pode-se, neste momento, cair numa práticaassistencialista, onde a matéria prima é fornecida ao grupo, bem como maquinários eoutros recursos necessários para o processo de produção, sem que se exija retorno dogrupo de alguma forma. O estabelecimento deste tipo de vínculo implica em algumasrepercussões problemáticas para o alcance dos objetivos de uma incubadorauniversitária que procura atingir a desincubagem dos grupos por meio do alcance daautonomia e conseqüente auto-gestão dos grupos. Nardi (2005) aponta que práticas deste tipo, o que ele nomeia de ‘cuidado aospobres’ é caridade, acarretando invariavelmente em diferenças hierárquicas entre‘doador e recebedor’. É possível observar tal situação num cenário de incubadorauniversitária, onde a assessoria da equipe vem colocar a relação de desenvolvimento deauto-gestão do grupo num movimento prejudicial, uma vez que a comodidade de‘receber’ e nada devolver, implica em uma noção de solidariedade mais próxima dasorigens cristãs do termo, como já trabalhado neste texto. A seguir, nos remeteremos mais especificamente às experiências das autoras,no interior de uma incubadora de empreendimentos solidários. A ilustração que se seguedecorre das reflexões e discussões no grupo de estudos semanal desta incubadora, osprocessos de planejamento e o trabalho com os grupos. O posicionamento da equipe emrelação aos grupos será abordado no intuito de contribuir para a discussão dos sentidosde solidariedade no interior da práxis cotidiana deste projeto.ESTUDO DE CASO
  8. 8. A experiência de integrar a equipe INTES/UEL, possibilitou que as autorastivessem a percepção de variadas formas de conceber a Economia Solidária e asrelações com o trabalho dos demais envolvidos, grupos e equipe. O cotidianodemonstrou haver uma grande variedade de “motivações” e expectativas na equipe comrelação ao trabalho desenvolvido na incubadora. O que se percebeu foi a existência dediversos discursos sobre o sentido de se trabalhar com grupos de Eco-sol, e a qual seriaa melhor forma de fazê-lo. O trabalho das autoras destinava-se a um núcleo de formação, preocupado como desenvolvimento da equipe, não trabalhando diretamente com os grupos. Asdiscussões de temas propostos giravam em torno do questionamento quanto a prática eos estudos teóricos, e suas conseqüências para a realidade da INTES/UEL. Numa equipe onde a rotatividade é bastante alta, a fragilidade na coesão eintegração da equipe culminou muitas vezes numa prática desconexa com os principaispilares da Eco-sol. Durante o ano, trabalhou-se com a equipe o porquê de se fazerEconomia Solidária. Alguns discursos vinham com pouco embasamento, onde notamosque surgiam enunciados carregados de ideais de solidariedade próximos a gênese cristãdo termo. Desta forma, nota-se a dificuldade da equipe em trabalhar de forma coesa aosprincípios de Eco-sol, o que torna o objetivo de formar grupos que seguissem taisprincípios de forma coerente, difícil de ser alcançado. A equipe, no decorrer do ano, foi se conscientizando da própria atuação e visãosobre Eco-sol, percebendo que estava de certa forma favorecendo a dependência dosgrupos incubados. Dentre as ações mais discutidas pela equipe estão: atitudeassistencialista da equipe frente aos grupos, dificuldade no entendimento e implantaçãoda auto-gestão (na equipe e nos grupos), falta de retorno dos grupos para com aincubadora, seja em atividades ou recursos financeiros, e seleção de grupos que nãocumpriam os requisitos para incubagem. Todas essas questões se levantaram a partir de perguntas sobre a desincubagemdos grupos, processo que não ocorreu nenhuma vez na INTES/UEL. Também se pensouna possibilidade de rever o compromisso com os grupos que não atingiram as metas,para abrir a possibilidade para novos grupos com perfil mais adequado ao exercício daEco-sol. Estes fatores levantados nos fizeram refletir sobre a própria razão de existênciada INTES/UEL, que objetiva a disseminação da Eco-sol, o crescimento e exercício dacidadania, uma sociedade mais justa e coerente com a democracia tão almejada.
  9. 9. É importante ressaltar que, nestas discussões, se percebeu a responsabilidadeda equipe da incubadora, senão mais forte que a dos grupos incubados, tanto quanto,uma vez que é a equipe que seleciona e forma tais grupos, dando assessoria ecapacitação não só em áreas relacionadas aos produtos e a comercialização, masformação política e social também, e que desde o início estabelece a dinâmica de talparceria. Na experiência da INTES/UEL nota-se que, desde o início, os grupos foram“mimados” demais; havendo doação de material para produção, divulgação dos grupospor parte da equipe, financiamento de passagens de ônibus e alimentação paraparticipação em qualquer evento, entre outras coisas, além do não estabelecimento demetas, nem de um retorno a ser dado pelos grupos. Desta forma a INTES/UEL assumiuum lugar paternalista onde os grupos se posicionaram num lugar de dependência eacomodação, o que inviabiliza a possibilidade de desincubagem.CONCLUSÃO A trajetória percorrida iniciou-se com a inserção das autoras na equipeenquanto um núcleo que trabalharia com a formação desta. Para o inicio do trabalho,intentou-se a formação teórica nos princípios base da Eco-sol. Textos de diversosautores de várias áreas serviram de ponto de partida para discussões diversas. Durante os meses iniciais, as autoras puderam ir se apropriando do espaço etomando conhecimento da dinâmica da equipe. Foi se construindo, desta forma, umavisão coesa no núcleo de formação, sobre a articulação da equipe, o lido com os grupose a situação da equipe a nível de necessidades e demandas de desenvolvimento. Neste espaço, diversos pedidos de textos de diversas áreas, temas e óticasespecificas foram levantadas pela equipe como necessárias a formação e melhoria dotrabalho. No entanto, o que este núcleo compreendeu, a partir de diversas reuniões eestudos, diz de uma necessidade que não é da ordem da teoria, não se trata de ler mais,estudar mais e dominar melhor os princípios e conceitos de Eco-sol. Longe de negligenciar as bases teóricas que fundamentam nossa atuação, nossapercepção diz do momento atual da equipe, enquanto necessidade de seguimento noprojeto. Acreditamos que, embora os estudos fundamentais de teoria sejam de grandeimportância, neste momento, a equipe se vê as voltas com um ‘modo de fazer’ que vemclaudicando. Entendemos que o próximo passo para esta incubadora, passa pela revisão
  10. 10. de sua forma de atuação, compreendendo com isto a reestruturação da forma de atuação,dos laços que se estabelecem com os grupos, do compromisso firmado entre as partes. Baseadas no acompanhamento da equipe durante o ano de 2010, as autorasacreditam que os fundamentos teóricos básicos foram abordados e que estudossubseqüentes podem ser desenvolvidos em espaços alternativos. Defendemos que o processo de reestruturação da INTES/UEL parte de 1)revisão dos requisitos/processo de incubagem – os grupos atendem aos requisitos paraque sejam incubados? – e 2) mudança da forma de assessoria fornecida pelaINTES/UEL – de modo a prever uma devolutiva dos grupos dos recursos empregados. A proposta passa por um caminho difícil, onde o início do processo (pré-incubagem) precisa ser revisitado, bem como os posteriores desenvolvimentos,envolvendo de forma global a estrutura de organização da INTES/UEL. Estastransformações incidem, segundo perspectiva das autoras, diretamente na forma comoos grupos e a equipe concebem a relação de trabalho, buscando maior coerência nosentido de atingir a auto-gestão. Segundo o foco do trabalho, a perspectiva desolidariedade não fica intacta, logo que tantas modificações viabilizam que a idéia desolidariedade se distancie da caridade e passe a ser entendida como um princípiopolítico.REFERENCIASANDRADA, C.F. Onde a autogestão acontece: revelações a partir do cotidiano.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. São Paulo, Vol.9. n.1, p. 1-14, 2006.FORRESTER, V. O Horror Econômico. São Paulo: Ed. UNESP, 1997.NARDI, H.C; YATES, D.B; FERNANDES, J.M; RODRIGUES, M.C. Subjetividade esolidariedade: a diversidade das formas de implicação dos jovens na EconomiaSolidária. Psicologia: Reflexão e Crítica. Ano 19. n.2. p.320-328. 2005.SINGER, P. Introdução à Economia Solidária. São Paulo: Ed. Fund. Perseu Abramo,2002._________. Economia Solidária. In: CATTANI (Ed.), A outra economia. PortoAlegre: Veraz, 2003.WESTPHAL, V. H. Diferentes matizes da idéia de solidariedade. Rev. Katál.Florianópolis. V.11. n.1. p.43-52. jan/jun. 2008.

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