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presenc;a era tambem urn nascimento as avessas, porque ago-                                                               ...
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- Tudo bern?                                                  tando o dedo para alguem sem nome, e sorriem tambern para   ...
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como urn renascimento - veja, a minha vida agora tern ou-suspirante. A mulher esta placida, naquela cama de hospital      ...
trica, subita, brutal, paralisante, perpassa as almas, enquan-        granftica e intransponfvel; 0 ultimo limite, 0 da in...
sofrimento sem safda, olhando o ceu azul do outro lado dajanela) relembrou como alguns anos antes procuraram acon-selhamen...
momentos desagrada.veis, projetou urn futuro acelerado so-         boca aberta, lingua muito grande, pescoc;:os achatados,...
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Em apenas dais dias surgiu outro argumento poderosop.tta escapar do peso do momenta presente: a hip6tese de queltouvesse u...
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O Filho Eterno - Tezza  Cristóvão
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O Filho Eterno - Tezza Cristóvão

  1. 1. 0 nascimento de urn filho como momentade ruptura na vida de urn casal. Umacrianc;:a desejada, mas diferente. Naspalavras do pai, na tfmida tentativa deexplicar para os conhecidos, nos primeirosmeses, uma crianc;:a com "urn pequenoproblema. Ele tern mongolismo." Deinfcio, o estranhamento, e o pai assumeque a urgencia nao e resolver 0 talproblema da crianc;:a - haveria algo a serresolvido? -, mas o espac;:o que o filhoocupara na propria vida . E a crianc;:a o ocupa, ocupara peloresto da vida. Num livro corajoso,Cristovao Tezza expoe as dificuldades, 0 FILHO ETERNOinumeras, e as saborosas pequenasvitorias de criar urn filho com sfndromede Down. 0 periplo por clfnicas econsultorios medicos numa epoca em queo assunto nao era tao estudado e aindatinha"0 veu do misticismo, a tensa relac;:aoinicial com a mulher. "Numa das crises,ela !he diz, no desespero do choro alto:Eu acabei com a tua vida. E ele naorespondeu, como se concordasse - a maoque estendeu aos cabelos dela consolavao sofrimento, nao a verda de dos fatos. ·· Aproveita as questoes que aparecerampelo caminho nestes 26 anos de Felipepara reordenar sua propria vida: aexperimentac;:ao da vida em comunidadequando adolescente, a vida como ilegalna Alemanha para ganhar dinheiro, asdificuldades de escritor com trinta epoucos anos e alguns livros na gaveta,a pretensa estabilidade com o cargo deprofessor em universidade publica. Com precisao literaria para encadearde maneira clara referencias de anos esituac;:oes tao dfspares, as vezes dentro ~0mesmo capitulo, Cristovao Tezza reforc;:a,com a publicac;:ao de 0 filho etemo, seuIugar entre os maio res escritoresbrasileiros.
  2. 2. 0 tj z ~ ~ ~ Q ~3 ~ ~ o;.<; ::0 a ~ 0 •« Uo ><( - IJl<n ltj 0> ~. ~ .8 0 Cl [.J..l ...::~ 0 ~ CJ) ·e ::c: ~ - " 0 ~iii 0~ z 0 N u ~ f-<<U ..... Q ~ Q~ ~ IJl 0-- ----------
  3. 3. CIP-Brasil. Cataloga<;ao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. Tezza, Cristovao, 1952-T339f 0 filho eterno I Cristovao Tezza. - 10• ed. -Rio10• ed. de Janeiro: Record, 2010. ISBN 978-85-01-07788-2 l. Romance brasileiro. I. Titulo. COD 869.93 Queremos dizer a verdade e, no entanto, nao dizemos a CDU 821.134.3(81)-307-1946 verdade. Descrevemos alga buscando fidelidade a verdade e, no entanto, o descrito eoutra coisa que niio a verdade. Thomas Bernhard Um filho ecomo um espelho no qual o pai se ve, e, Copyright © Cristovao Tezza, 2007 para o filho, o pai epar sua vez um espelho Projeto grafico: Regina Ferraz no qual ele seve no futuro. S0ren Kierkegaard Texto revisado segundo o novo Acordo Ortografico da Lingua Portuguesa Todos os direitos reservados. Proibida a reprodu<;ao, armazenamento ou transmissao de partes deste livro, atraves de quaisquer meios, sem previa autoriza<;ao por escrito. Direitos exclusivos desta edi<;ao reservados pela EDITORA RECORD LTDA. Rua Argentina 171 - Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 -Tel.: 2585-2000 Impresso no Brasil ISBN 978-85-01-07788-2 ~ ~~ p.ltORI~ ~" .. Seja urn leitor preferencial Record 8 ~ ;; 0- Cadastre-se e receba informa<;6es sobre ~I>~ nossos lan<;amentos e nossas promo<;6es. ~-,~"/~ Atendimento e venda ao leitor: EDITORA AFILIADA mdireto@record.com.br ou (21) 2585-2002
  4. 4. - Acho que e hoje - ela disse. - Agora - completou,com a voz mais forte, tocando-lhe 0 bra90, porque ele e urnhomem distrafdo, Sim, distrafdo, quem sabe? Alguem provis6rio, talvez; al-guem que, aos 28 anos, ainda nao come9ou a viver. A rigor,exceto por urn leque de ansiedades felizes, ele nao tern nada,e nao e ainda exatamente nada. E essa magreza semoventede uma alegria agressiva, as vezes ofensiva, viu-se diante damulher gravida quase como se s6 agora entendesse a exten-sao do fato: urn filho. Urn dia ele chega, ele riu, expansivo.Vamos la! A mulher que, em todos os sentidos, o sustentava ja haviaquatro anos, agora era sustentada por ele enquanto aguarda-vam o elevador, a meia-noite. Ela esta palida. As contra96es.A bolsa, ela disse - algo assim. Ele nao pensava em nada -em materia de novidade, amanha ele seria tao novo quanto ofilho. Era preciso brincar, entretanto. Antes de sair, lembrou-se de uma garrafinha caub6i de ufsque, que colocou no outrobolso; no primeiro estavam os cigarros. Urn cartum: a figurafuma urn cigarro atras do outro na sala da espera ate que aenfermeira, o medico, alguem lhe mostra urn pacote e lhe dizalguma coisa muito engra9ada, e nos rimos. Sim, ha algo deengra9ado nesta espera. Eurn papel que representamos, o pai 9
  5. 5. angustiado, a mae feliz, a crianya chorando, o medico sor- seguiu viver do seu trabalho. Do seu trabalho verdadeiro.ridente, o vulto desconhecido que surge do nada e nos da Uma tensao que quase sempre escapa pelo riso, a libertayaoparabens, a vertigem de urn tempo que, agora, se acelera em que ele tern.desespero, tudo girando veloz e inapelavelmente em tomo No balcao da matemidade a moya, gentil, pede urn che-de urn bebe, para so estacionar alguns anos depois - as que de garantia, e as coisas se passam rapidas demais, par-vezes nunca. Ha urn cenario inteiro montado para o papel, que alguem esta levando sua mulher para longe, sim, sim,e nele deve-se demonstrar felicidade. Orgulho, tambem. Ele a bolsa rompeu, ele ouve, enquanto resolve os tramites -merecera respeito. Ha urn dicionario inteiro de frases ade- e mais uma vez tern dificuldade de preencher o espayo daquadas para o nascimento. De certa forma - agora ele dava profissao, quase ele diz "quem tern profissao e a minha mu-partida no fusca amarelo (eles nao dizem nada, mas sent em lher. Eu"- e ainda encontra tempo de dizer alguma coisa, auma coisa boa no ar) e cuidou para nao raspar o para-lama mulher tambem, mas a afetividade se transforma, sob olhosna coluna, como ja aconteceu duas vezes - ele tambem esta- alheios, em solenidade - alguma coisa maior, parece, estaria nascendo agora, e gostou desta imagem mais ou menos acontecendo, uma especie de teatro se desenha no ar, somosedificante. Embora continuasse nao estando onde estava - delicados demais para 0 nascimento e e preciso disfaryar to-essa a sensayao permanente, por isso fumava tanto, a maqui- dos os perigos desta vida, como se alguem (a imagem e ab-na inesgotavel pedindo gas. E urn terreno inteiro de ideias: surda) estivesse levando sua mulher para a morte e houvessepisando nele, nao temos coisa alguma, so a expectativa de nisso uma normalidade completa. Volta-lhe o horror que sen-urn futuro vago e mal desenhado. Mas eu tambem nao tenho te diante dos hospitais, dos predios publicos, das instituiy6esnada ainda, ele diria, numa especie metafisica de compe- solenes, de colunas, halls, guiches, ab6badas, filas, da suatiyao. Nem casa, nem emprego, nem paz. Bern, urn filho - granftica estupidez - a gramatica da burocracia repete-see, sempre brincando, viu-se barrigudo, severo, trabalhando tambem ali, que e urn espayo pequeno e privado. Mais tarde,em alguma coisa enfim salida, uma fotografia publicitaria da ele se ve em alguma sala diante da mulher na maca, que, pa-familia congelada na parede. Nao: ele esta em outra esfera lida, sorri para ele, e eles tocam as maos, tfmidos, quase comoda vida. Ele e urn predestinado a literatura - alguem neces- quem comete uma transgressao. 0 lenyol e azul. Ha umasariamente superior, urn ser para o qual as regras do jogo sao assepsia em tudo, uma ausencia bruta de objetos, os passosoutras. Nada ostensivo: a verdadeira superioridade e discre- fazem eco como em uma igreja, e de novo ele vive a angustiata, tolerante e sorridente. Ele vive a margem: isso e tudo. Nao da falsidade, ha urn erro primeiro em algum lugar, e ele naoe ressentimento, porque ele nao esta ainda maduro para o consegue localiza-lo, mas em seguida nao pensa mais nisso.ressentimento, essa forya que, em algum momenta, pode Os segundos escorrem.nos p6r agressivamente em nosso lugar. Talvez o inicio des- Dizem alguma coisa que ele nao ouve; e na espera, perdesa contraforya (mas ele seria incapaz de saber, tao proximo a noyao do tempo- que horas sao? Noite avanyada. Agoraassim do instante presente) seja o fato de que jamais con- esta sozinho num corrector ao lado de uma rampa vazia e em 10 11
  6. 6. dinossauro medieval. Se ainda tivesse a dadiva do comercio,frente a duas portas basculantes, corn urn vidro circular no atras de urn balcao. Mas nao: escolheu consertar rel6gios, ocentro de cada lamina por onde as vezes ele espia mas nada fascinio infantil dos rnecanismos e a delicadeza inutil do tra-ve. Ele nao pensa ern coisa algurna, mas, se pensasse, talvez balho manual.dissesse: estou como sernpre estive - sozinho. Acendeu urn E no entanto sente-se urn otirnista - ele sorri, vendo-secigarro, feliz: e isso e born. Deu urn gole do ufsque que tirou do alto, como no cartum irnaginado, agora urna figura real.do bolso, vivendo o seu pequeno teatro. Por enquanto as coi- Sozinho no corrector, da outro gole de ufsque e come<;a a sersas vao bern - ele nao pensava no filho, pensava nele rnes- tornado pela euforia do pai nascente. As coisas se encaixam.rno, e isso inclufa a totalidade de sua vida, rnulher, filho, li- Urn cromo publicitario, e ele ri do paradoxa: quase como se oteratura, futuro. Ele sabe que de fato nunca escreveu nada simples fato de ter urn filho significasse a definitiva imolac;:aorealrnente born. Pilhas de rnaus poernas, dos 13 anos ate o ao sistema, mas isso nao e necessariamente rnau, desde quernes passado: 0 filho da primavera. A poesia arrasta-o sern es tejamos "inteiros", sejamos "autenticos", "verdadeiros"-piedade para o kitsch, puxando-o pelos cabelos, mas e preci- ainda gostava dessas palavras altissonantes para uso proprio,so dizer algurna coisa sobre o que est.i acontecendo, e ele nao a mitologia dos poderes da pureza natural contra os drag6essabe exatarnente o que est.i acontecendo. Tern a vaga sensa- do artificio. Ele ja cornec;:a a desconfiar dessas totalidades re-<;ao de que as coisas vao dar certo, porque sao frutos do de- t6ricas, mas falta-lhe a coragem de romper com elas - desejo; e quem est.i a rnargern, arrisca- ou estaria encaixado fato, nunca se livrou completamente desse imaginario, que,na subvida do sistema, essa rnerda toda, ele quase declarna, no fundo da alma, significava manter o pe atras, atento, eme d.i outro gole de ufsque e acende outro cigarro. Aos 28 anos todos os rnomentos da vida, para nao ser devorado pelo vio-nao acabou ainda o curso de Letras, que despreza, bebe rnui- lento e inesgotavel poder do lugar-comum e da irnpessoali-to, da risadas prolongadas e inconvenientes, le caoticarnente dade. Era preciso que a "verdade" safsse da ret6rica e see escreve textos que atafulham a gaveta. Urn gancho atavico transforrnasse ern inquietac;:ao perrnanente, urna breve utopia,ainda o prende a nostalgia de urna cornunidade de teatro, que urn brilho nos olhos.frequenta urna vez por ano, nurna prolongada dependencia Como agora: e ele deu outro gole da bebida, quase entran- ao guru da infancia, urna gin.istica interrninavel e insoluvel do no terreno da euforia. Ele queria criar a solenidade daque- para ajustar o rel6gio de hoje a fantasrnagoria de urn tempo le rnornento, urna solenidade para uso proprio, fntirno, in- acabado. Filhote retardatario dos anos 70, irnpregnado da so- transferfvel. Como o diretor de urna pe<;a de teatro indicando berba da periferia da periferia, vai farejando pela intui<;ao al- ao ator os pontos da cena: sinta-se assirn; rnova-se ate ali; sor- guma safda. E dificil renascer, ele dira, alguns anos depois, ria. Veja como voce tira o cigarro da carteira, sentado sozinho rnais frio. Enquanto isso, da aulas particulares de reda<;ao e neste banco azul, enquanto aguarda a vinda do seu filho. revisa cornpenetrado teses e disserta<;6es de rnestrado sobre Cruze as pernas. Pense: voce nao quis acornpanhar o parto. qualquer terna. A grarnatica e urna abstra<;ao que aceita tudo. Agora comec;:a a ficar moda os pais acompanharem o parto Desistiu de ser relojoeiro, ou foi desistido pela profissao, urn 13 12
  7. 7. dos filhos - uma participac;ao quase religiosa. Tudo parece finitiva das minhas qualidades, quase chega a dizer em vozque esta virando religiao. Mas voce nao quis, ele seve dizen- alta, no silencio daquele corrector final, poucos minutos an-do. E que o meu mundo e mental, talvez ele dissesse, se fos- tes de sua nova vida. Era como se o espfrito comunitario re-se mais velho. Urn filho e a ideia de urn filho; uma mulher e a ligioso que florescia secretamente na alma do pafs, todo oideia de uma mulher. As vezes as coisas coincidem com a sonho das utopias naturais concentrando seu suave irracio-ideia que fazemos delas; as vezes nao. Quase sempre nao, nalismo, sua transcendencia eterea, a paz celestial dos cor-mas af o tempo ja passou, e entao nos ocupamos de coisas deiros de Deus revividos agora sem fronteiras, rituais ou li-novas, que se encaixam em outra familia de ideias . Ele nao vros-texto - vale tudo, 6 Senhor! -, encontrasse tambemquis nem mesmo saber se sera urn filho ou uma filha: a man- no poeta marginal, talvez prin~ipalmente nele, o seu refugio.cha pesada da ecografia, aquele fantasma primitivo que se 0 empreendimento irracional das utopias: cabelos compridos,projetava numa telinha escura, movendo-se na escuridao e no sandalias franciscanas, as portas da percepc;ao, vida natural,calor, nao se traduziu em sexo, apenas em ser. Preferimos nao sexo livre, somas todos autenticos. Sim, era preciso urn con-saber, foi o que disseram ao medico. Tudo esta bern, parece, trapeso, ou o sistema nos mataria a todos, como varias vezes e 0 que importa. nos matou. Ha urn descompasso nesse projeto supostamente Ali, era enfim a sensac;ao de urn tempo parado, suspenso. pessoal, mas isso ele ainda nao sabe, ao acaso de uma vida Naquele silencio iluminado, em que pequenos rufdos distan- renitentemente provis6ria; a minha vida nao comec;ou ainda, tes - passos, uma porta que se fecha, alguma voz baixa - ele gostava de dizer, como quem se defende da propria in- ganhavam a solenidade de urn breve eco, ele imagina a mu- competencia - tantos anos dedicados a ... a o que mesmo? danc;a de sua vida e procura antecipar alguma rotina, para as letras, a poesia, a vida alternativa, a criac;ao, a alguma coi- que as coisas nao mudem muito. Tern energia de sabra para sa maior que ele nao sabe o que e - tantos anos e nenhum ficar dias e dias dormindo mal, bebendo cerveja nos interva- resultado! Ficar sozinho e uma boa defesa. Vivendo numa ci- los, fumando bastante, dando risadas e contando hist6rias, dade com genios agressivos em cada esquina, ele contempla enquanto a mulher se recupera. Seria agora urn pai, o que a magreza de seus cantos, finalmente publicados, onde en- sempre dignifica a biografia. Sera urn pai excelente, ele tern contra defeitos cada vez que abre uma pagina. 0 romance ju- certeza: fara de seu filho a arena de sua visao de mundo. Ja venillanc;ado nacionalmente vai se encerrar na primeira edi- tern pronta para ele uma cosmogonia inteira. Lembrou de al- c;ao, para todo o sempre, depois de uma rusga idiota com o guns dos versos de 0 filho da primavera- a professora ami- editor de Sao Paulo, daqui a alguns meses. "E preciso cortar ga vai publica-los na Revista de Letras. Sim, os versos sao bo- esse paragrafo na segunda edic;ao porque as professorinhas nitos, ele sonhou. 0 poeta e born conselheiro. Fac;a isso, seja do interior estao reclamando." Desistiu do livro. assim, respire esse ar, olhe o mundo - as metaforas, uma a Ele nao sabe ainda, mas ja sente que aquila nao e a sua uma, evocam a bondade humana. Kipling da provincia, ele literatura. Tres meses antes terminou 0 terrorista Urico, e se sente impregnado de humanismo. 0 filho sera a prova de- parece que alguma coisa melhor comec;a ali, ainda informe. 14 15
  8. 8. Alguem se debatendo para se livrar da influencia do guru, - Tudo bern? - ele pergunta, por perguntar: a cabe<;a jatentando sair do mundo das mensagens para o mundo da per- esta no mes seguinte, sete meses depois, urn ano e tres me-cep<;ao, sob a frieza da razao. Ele nao e mais urn poeta. Per- ses, cinco anos a frente, o filho crescendo, a cara dele.deu para sempre o sentimento do sublime, que, embora soe - Eurn menino . - Tambem nenhuma surpresa: eu tinhaenvelhecido, e o combustive! necessaria para escrever poe- certeza de que seria mesmo o filho da primavera, ele teria dito,sia. A ideia do sublime nao basta, ele come<;a a vislumbrar se falasse. - A mae esta muito bern.- com ela, chegamos s6 ao simulacra. E precise ter for<;a e E desapareceu por onde veio.pei1o para chamar a si a linguagem do mundo, sem cair noridicule. Ha algo incompatfvel entre mim e a poesia, ele sediz, defensive - assumir a poesia, parece, e assumir uma re-ligiao, e ele, desde sempre, e alguem completamente despro-vido de sentimento religiose. Urn ser que se move no deser-to, ele talvez escrevesse, com alguma pompa, para definir apropria solidao. A solidao como urn projeto, nao como umatristeza. Eu ainda nao consegui ficar sozinho, conclui, comurn fio de angustia- e agora (ele olha para a porta bascu-lante, sem pensar) nunca mais. Come<;ou ha pouco a escre-ver outro romance, Ensaio da Paixao, em que - ele imagina- passara a limpo sua vida. E a dos outros, com a linguada satira. Ninguem se salvara. Tres capftulos prontos. E urnlivro alegre, ele sup6e. Eu precise comef;ar, de uma vez portodas, ele diz a ele mesmo, e s6 escrevendo sabera quem e.Assim espera. Sao coisas demais para organizar, mas talvezjusto por isso ele se sinta bern, feliz, povoado de pianos. Subito, o medico - por quem nunca sentiu simpatia, eportanto nada espera dele - abre as portas basculantes, co-mo sempre sem sorrir. Nenhuma novidade na ausencia desorriso, daf porque, pai moleque, mal ocultando a garrafinhade ufsque, nao se perturbou. 0 homem tirava as luvas verdes das maos, como quem encerra uma tarefa desagradavel -por alguma razao foi essa a imagem absurda, certamente falsa, que lhe ficou daquele momenta. 16 17
  9. 9. Ele dormiu, ou quase dormiu, num sofa vermelho ao ladoda cama alta de hospital, para onde trouxeram a mulher emalgum momenta da madrugada. A crianya estaria no berya-rio, uma especie de gaiola asseptica, que o fez lembrar doAdmiravel mundo novo: todos aqueles bebes urn ao lado dooutro, atras de uma proteyao de vidro, etiquetados e cadas-trados para a entrada no mundo, todos identicos, enfaixadosna mesma roupa verde, todos mais ou menos feios, todosamassados, sustos respirantes, todos imoveis, de uma fragili-dade absurda, todos tabula rasa, cada urn deles apenas urnbreve potencial, agora para sempre condenados ao Brasil, e alingua portuguesa, que lhes emprestaria as palavras com asquais, algum dia, eles tentariam dizer quem eram, afinal, epara que estavam aqui, se e que uma pergunta assim podefazer sentido. Qual era mesmo o seu filho? - aquele ali, mostrou a en-fermeira solicita, e ele sorriu diante da crianya imovel, bus-cando urn ponto de convergencia. Alguma coisa de fora queo tocasse subita, como urn dedo de urn anjo. Mas nao, elesorriu, invencivel - e preciso criar esse ponto, que nao caido ceu. Uma crianya e uma ideia de uma crianya, e a ideiaque ele tinha era muito boa. Urn born comeyo. Mas aquela 19
  10. 10. presenc;a era tambem urn nascimento as avessas, porque ago- do llOVO, aquela assepsia do nascimento sem dares nem pais.ra, talvez ele imaginasse, expulso do parafso, estou do ou- VIVlmos grudados, mas, em vez de sentir nausea da imagemtro lado do balcao - nao estou mais em ben;o esplendido, o1 invencfvel viscosidade das relac;:oes humanas -, ele sor-nao sou eu mais que estou ali, e ele riu, quase bebado, a 11 di,m te daquele pequeno joelho respirante e empacotado dogarrafinha vazia, inebriado do cigarro que nao parava de fu- fltllro lado do vidro: isso parece borne bonito, o filho da pri-mar, naqueles tempos tolerantes. Como quem, prosaicamen- lllolvcra. Relembrou a data: madrugada do dia 3 de novembrote, apenas perde urn privilegio, o da liberdade. 0 que e uma til! 1980.palavra que, se objetivamente quer dizer muito (estar dentroda cadeia, estar fora da cadeia, por exemplo; poder dizer eescrever tudo e nao poder dizer nem escrever nada, outroexemplo pratico - o Brasil esta nos ultimos minutos de umaditadura), subjetivamente, em outra esfera. nos da 0 dam dailusao . As vezes basta . Livre significa: sozinho. Claro, tern amulher, por quem ele alimenta uma nftida mas insuspeitadapaixao (ele nunca foi precoce), mas ao mesmo tempo tern deprestar muita atenc;ao em si mesmo, juntar aqueles pedac;:osdisformes da inseguranc;:a, urn garoto tao desgrac;:adamenteincompleto, para olhar mais atento para ela, o que so conse-guira fazer anos depois; tern a mulher, mas eles nao nasce-ram juntos. Podem se separar, e a ordem do mundo se man-tern. Mas o filho e urn outro nascimento: ele nao pode seseparar dele. Todas as palavras que o novo pai recebeu ao Ion-go da vida criaram nele esta escravidao consentida, esse bre-ve mas poderoso imperativo etico que se faz em torno de taopouca coisa: quem e a crianc;:a que esta ali? 0 que temos emcomum? 0 que, afinal, eu escolhi? Como conciliar a ideia fun-damental de liberdade individual, que move a fantastica rodado Ocidente, ele declama, corn a selvageria da natureza bru-ta, que por uma sucessao inextricavel de acasos me trouxeagora essa crianc;:a? 0 proprio Rousseau abandonou os filhos,ele se lembra, divertindo-se. Muito melhor o Admiravel mun- 20 21
  11. 11. Afinal acordou daquela noite intranquila mas feliz (ou te- riarn sido apenas alguns rninutos?), e urna boa sensa<;ao de gravidade lhe tornava os gestos ressaqueados de urna especie de renascirnento·. Ou de deslocarnento, ele pensou, quase que ffsico - agora nao estava rnais ern seu Iugar de sernpre. Naoestaria nunca rnais, ele decidiu, sernpre pronto as conclus6eslirnftrofes e altissonantes, boas no palco - urn deslocarnentodefinitivo, perrnanente, inelutavel. E isso e born, concluiu.Palavras. Que horas seriarn? A rnulher parecia dorrnir naque-la carna que rnais parece urn altar, urna engenhoca de ala-vancas. Ele passara a vida gostando de engenhocas - e urnrelojoeiro. Dedica urn rninuto para descobrir como aquilo fun-dona: urna rnanivela na proa, como de urn Ford bigode, co-rnanda o guindaste. Urna enferrneira chega e se vai- nao harnuitos sorrisos, mas e assirn rnesrno que funciona a rnaqui-na, corn a exata eficiencia. Ele se aproxirna, tfrnido, da rnu-lher, ja de tranquilos olhos abertos, e terne que ela espere delealgurna efusao sentimental ou arnorosa, o que sernpre o de-sajeita, defensivo. Sernpre teve algurna ponta de dificuldadepara lidar corn o afeto. Ele prefere a suavidade do humor aoridfculo do arnor, mas disso nao sabe ainda, pernas rnuito fra-cas para o peso da alma. A mao dela esta quente. 23
  12. 12. - Tudo bern? tando o dedo para alguem sem nome, e sorriem tambern para - Tudo bern- ela diz. -Urn pouco dolorida ainda. 0 ele, compartilhando a alegria: o nascimento e uma felicidademedico veio aqui? coletiva, somas de fato todos irmaos, tao parecidos uns com -Nao. os outros! Ele retribui o sorriso, diz urn "parabens" intimida- 0 nascimento e uma brutalidade natural, a expulsao obs- do e se afasta, com medo de que lhe perguntem alga. Epreci-cena da crian<;:a, o desmantelamento fisico da mae ate o ulti- so telefonar - 0 mundo e grande, precisa saber da grandemo limite da resistencia, o peso e a fragilidade da carne viva, nova, e ele nao tern fichas. No guiche da recep<;:ao e recebidoo sangue - cria-se urn mundo inteiro de signos para ocultar com sorrisos, e compra algumas fichas de telefone. Civiliza-a coisa em si, tosca como uma caverna escura. do, resistiu a pedir para ligar dali mesmo, o telefone ao al- - Telefonou para as familias? - e ela sorriu pela primei- cance da mao- justamente para que nao pedissem, coloca-ra vez. ram a plaquinha desviatoria: FICHAS AQUI, e na cal<;:ada logo As familias. Familia e urn horror, mas urn horror necessa- a safda estava a fileira de telefones publicos, urn deles com oria - ou inevitavel, o que da no mesmo. Agora terei ami- fane arrancado eurn patetico fio solto.nha, ele pensa. Chega de briga. So arabes e judeus conse- Da antes uma boa caminhada, para respirar fundo - estaguem viver em guerra a vida inteira, e ele ri da piada que uma manha fresca e bonita, uma brevfssima nevoa prome-imagina, quase contando a mulher, mas desiste. tendo urn dia de urn azullimpo no ceu - e tenta mais uma - Vou ligar agora. Que horas sao? - como se ela pudes- vez organizar o dia, a semana, o mes, o ana e a vida. Agorase saber. nao tern mais volta, 0 que e born, ele pensa e sorri, com 0 Ao sair para o corrector, descobre que ja penduraram na lugar-comum: fecha-se a porteira do passado, abre-se a doporta urn bonequinho azul, e absurdamente ele pensa em di- futuro. A sensa<;:ao de inferioridade ainda e pesada; ele a com-nheiro, tranquilizando-se em seguida. Tudo esta indo bern. pensa com urn orgulho campones, teimoso, obtuso, as vezesNa gaiola publica dos recem-nascidos, tenta reconhecer seu covarde, que reveste habilmente de humor. Ele se conhece.filho, ha uma fileira de seres identicos atras do vidro, mas Muitas vezes parecia que nao havia volta, e sempre houve.parece que nao esta mais ali. Que nome dariam a ele? Se fos- Na luz ainda acesa do paste da esquina, apenas urn brilhose mulher seria Alice, se fosse homem seria Felipe. Felipe. Urn na lampada contra o brilho do dia, lembra de sua adoles-bela nome. Nftido como urn cavaleiro recortado contra o ho- cencia absurda, cheirando alucinogenos nas pra<;:as de Curiti-rizonte. Urn nome com contornos definidos. Uma dignidade ba, so para ouvir aquele zumbido repetido na alma e ver assimples, autoevidente, ele vai fantasiando: Felipe. Repete o luzes fantasmagoricas da noite multiplicando-se num econome varias vezes, quase em voz alta, para conferir se ele psicodelico. Uma vez, o zumbido permaneceu por dois dias,nao se desgasta pelo usa, se nao se esfarela no proprio sam, e ele, sem pai, so pelo susto, decidiu parar. Sim, ele conse-esvaziado pelo eco- Felipe, Felipe, Felipe, Felipe. Nao: man- guiu parar porque nao era urn menino de rua: aos 15 anostem-se intacto no horizonte, firme sabre o cavalo, a lan<;:a na tinha uma boa escola, casa, mae, familia-e urn desejo demao direita. Felipe. Urn casal de avos sorri ao seu lado, apon- virar o mundo do avesso. Agora, e ele sorri com a ficha na 24 25
  13. 13. mao, agora ele esta no lado certo do mundo, ja alimentandoa autoironia com que se defende do que seria a propria deca-dencia. Urn homem do sistema. Familia e sistema. Daqui acinquenta anos, ele imagina, sem de fato acreditar na fanta-sia que poe no corpo, nao havera mais familias, e o mundosera melhor. Por enquanto, vamos levando com as armas quetemos, a entona<;ao ja levemente ironica. - Sim, nasceu ainda ha pouco! Ehomem! Nao sei o pesoainda! Ele parece parrudo! Nao avisei ninguem porque naoprecisava.- Quase diz, numa pre-irrita<;ao: 56 o que faltava A manha mais brutal da vida dele come<;ou com o sonoeu esperar meu proprio filho com a parentalha toda em volta! que Se interrompe- chegavam OS parentes. Ele esta feliz, eBasta a ideia para satisfaze-lo, e ele prossegue _gentil: - Era visfvel, uma alegria meio dopada pela madrugada insane,de madrugada, para que incomodar voces? Sim. Sim! Ve- lll.lis as doses de ufsque, a intensidade do acontecimento, anham! Felipe! Bonito, nao? Ela esta 6tima! Obrigado! Preci- uccssao de pequenas estranhezas naquele espa<;o oficial quesamos festejar! n.io e o seu, mais uma vez ele nao esta em casa, e ha agora Em frente ha urn bare restaurante- "frangos fritos", diz 11111 alheamento em tudo, como se fosse ele mesmo, e nao aa placa enorme. Funcionarios arrastam latoes de lixo para a 111ulher, que tivesse o filho de suas entranhas - a sensa<;aocal<;ada, uma barulheira descompensada, o dia come<;a. Tal- i>oJ, mas irremediavel ao mesmo tempo, vai se transforman-vez ir direto aquele balcao e pedir uma cerveja antecipada, do numa afli<;ao invisfvel que parece respirar com ele. Talvezantes mesmo que abram a porta, mas desiste da ideia idiota. t>le, como algumas mulheres no choque do parto, nao queiraSubindo a rampa de volta ao quarto, olha para o rel6gio e reve o filho que tern, mas a ideia e apenas uma sombra. Afinal,ali o dia do nascimento do seu primeiro filho: 3, como se isso Lle e s6 urn homem desempregado e agora tern urn filho. Pon-contivesse urn segredo. No apartamento, a mulher dorme to final. Nao e mais apenas uma ideia, e nem mais o merotranquila, ele confere, e sente subita a brutalidade do so no - dcsejo de agradar que o seu poema representa, o ridfculo fi-nao devia ter avisado ninguem. Daqui a pouco come<;a a lho da primavera - e uma ausencia de tudo. Mas OS paren-aporrinha<;ao dos parentes. Olha de novo o rel6gio e calcula les estao alegres, todos falam ao mesmo tempo. A tensao deos minutos que ainda tern, muito poucos para o desejo que quem acorda sonado se esvazia, minuto a minuto. Como elesente, os olhos fechando, quase o peso de urn ser que o puxa c? Nao sei, parece urn joelho - ele repete o que todos dizempara baixo com a mao. Deita-se no desajeitado sofa verme- sobre recem-nascidos para fazer gra<;a, e funciona. 0 bebe elho, curto para suas pernas, o que lembra subito urn instante parrudo, grande, forte, ele inventa: e 0 que querem ouvir.perdido na infancia, ainda ve o lustre no alto, com uma das Sim, esta tudo bern. E preciso que todos vejam, mas parecelampadas ausente, fecha os olhos e dorme. que ha horarios. Daqui a pouco ele vern - aquele pacotinho 26 27
  14. 14. como urn renascimento - veja, a minha vida agora tern ou-suspirante. A mulher esta placida, naquela cama de hospital tro significado, ele dira, pesando as palavras; tenho de me- sim, sim, tudo vai bern. Ha tambem urn rol de recomenda- disciplinar para que eu reconquiste uma nova rotina e possac;:oes que se atropelam - todos tern alguma coisa fundamen- sobreviver tranquilo com o meu sonho. 0 filho e como - etal a dizer sobre urn filho que nasce, ainda mais para pais le sorri, sozinho, idiota, no meio dos parentes - como urnidiotas como ele. Eu fiz urn curso de pai, ele alardeia, palha- atestado de autenticidade, ele arriscara; e ainda uma vez fan-c;:o, fazendo piada. Mas era verdade: passou uma tarde numa tasia o sonho rousseauniano de comunhao com a natureza,grande roda de mulheres buchudas, a dele incluida, e claro, que nunca foi dele mas que ele absorveu como urn mantra, ecom mais dois ou tres futuros pais devotos, atentissimos, ou- cle que tern medo de se livrar - sem urn ultimo elo, o quevindo uma prelec;:ao basica de urn medico paternal, e de tudo fica? Em toda parte, sao os outros que tern autoridade, naoguardou urn unico conselho - e born manter uma boa rela- le. 0 unico territ6rio livre e 0 da literatura, ele talvez sonhas-c;:ao com as sogras, porque os pais precisam eventualmente SC, se conseguisse pensar a respeito. Sim, e preciso telefonardescansar da crianc;:a, sair para jantar uma noite; tentar sar- para o seu velhd guru, de certa forma receber sua benc;:ao.ver urn pouco o velho ar de antigamente que nao voltara Muitos anos depois uma aluna lhe dira, por escrito, porquejamais. ie nao e de intimidades: voce e uma pessoa que da a impres- E as familias falam e sugerem - eMs, ervas, remedinhos, sao de estar sempre se defendendo. Sentimentos primariosinfusoes, cuidados com o leite -, e preciso dar uma palma- que se sucedem e se atropelam - ele ainda nao entende ab-da para que ele chore alto, assim que nasce, diz alguem, e solutamente nada, mas a vida esta boa. Ainda nao sabe quealguem diz que nao, que o mundo mudou, que bater em agora comec;:a urn outro casamento com a mulher pelo sim-bebe e uma estupidez (mas nao usa essa palavra) - eles nao ples fato de que eles tern urn filho. Ele nao sabe nada ainda. vao trazer a crianc;:a? E que horas foi? Eo que o medico disse? Subito, a porta se abre e entram os dois medicos, o pedia- E voce, o que fez? E o que aconteceu? E por que nao avisa- tra eo obstetra, e urn deles tern urn pacote na mao. Estao sur- ram antes? E por que nao chamaram ninguem? E vamos que preendentemente serios, absurdamente serios, pesados, para acontece alguma coisa? Ele ja tern nome? Sim: Felipe. Os pa- urn momenta tao feliz - parecem militares. Ha umas dez rentes estao animados, mas ele sente urn cansac;:o subterra- ~ pcssoas no quarto, e a mae esta acordada. E uma entrada neo, sente renascer uma ponta da mesma ansiedade de sem- ,1brupta, ate violenta - passos rapidos, decididos, cada urn pre, insoluvel. Ir para casa de uma vez e reconstruir uma boa sc dirige a urn lado da cama, com o espaldar alto: a mae ve o rotina, que logo ele tera livros para escrever - gostaria de filho ser depositado diante dela ao modo de uma oferenda, mergulhar no Ensaio da Paixdo de novo, alguma coisa para mas ninguem sorri. Eles chegam como sacerdotes. Em outros sair daqui, sair deste pequeno mundo provis6rio. Sim, e be- tempos, o punhal de urn deles desceria num golpe medido ber uma cerveja, e claro! A ideia e boa- e ele quase que gira para abrir as entranhas do ser e dali arrancar o futuro. Cinco o olhar atras de uma companhia para, de fato, conversar so- segundos de silencio. Todos se imobilizam- uma tensao ele- bre esse dia, organizar esse dia, pensar nele, literariamente, 29 28
  15. 15. trica, subita, brutal, paralisante, perpassa as almas, enquan- granftica e intransponfvel; 0 ultimo limite, 0 da inocencia, es-to urn dos medicos desenrola a crianc;a sobre a cama. Sao as tava ultrapassado; a infancia teimosamente retardada termi-formas de urn ritual que, instantaneo, cria-se e cria seus ges- nava aqui, sentindo a falta de sangue na alma, recuando aostos e suas regras, imediatamente respeitadas. Todos esperam. cmpurr5es, sem mais ouvir aquela lenga-lenga imbecil dos Ha urn infcio de prelec;ao, quase religiosa, que ele, enton- medicos e apenas lembrando o trabalho que ele lera linha atecido, nao consegue ainda sintonizar senao em fragmentos linha, corrigindo caprichosamente aqui e ali detalhes de sin-da voz do pediatra: taxe e de esfilo, divertindo-se com as curiosidades que des- - ... algumas caracterfsticas ... sinais importantes ... vamos creviam com o poder frio e exato da ciencia a alma do seudescrever. Observem os olhos, que tern a prega nos cantos, e filho . Que era esta palavra: "mongoloide".a palpebra oblfqua ... o dedo mindinho das maos, arqueado Ele recusava-se air adiante na linha do tempo; lutava porpara dentro ... achatamento da parte posterior do cranio ... a pcrmanecer no segundo anterior a revelac;ao, como urn boihipotonia muscular... a baixa implantac;ao da orelha e ... cabeceando no espac;o estreito da fila do matadouro; recusa- 0 pai lembra imediatamente da dissertac;ao de mestrado va-se mesmo a· olhar para a cama, onde todos se concen-de urn amigo da area de genetica - dois meses antes fez a travam num silencio bruto, o pasmo de uma maldic;ao ines-revisao do texto, e ainda estavam nftidas na memoria as ca- pcrada. lsso e pior do que qualquer outra coisa, ele concluiuracterfsticas da trissomia do crornossomo 2t chamada de sfn- nem a morte teria esse poder de me destruir. A morte saodrome de Down, ou, mais popularmente - ainda nos anos Hltc dias de luto, e a vida continua. Agora, nao . Isso nao tera 1980- "mongolismo", objeto do trabalho. Conversara mui- ttm . Recuou dois, tres passos, ate esbarrar no sofa vermelhotas vezes com o professor sobre detalhes da dissertac;ao e ~~ olhar para a janela, para o outro lado, para cima, negando-curiosidades da pesquisa (uma delas, que lhe veio subita ago- Hl, bovino, a ver e a ouvir. Nao era urn choro de comoc;ao ra, era a primeira pergunta de uma familia de origem arabe q uc se armava, mas alguma co is a misturada a uma especie ao saber do problema: "Ele podera ter filhos"?- o que pare- lttri osa de 6dio. Nao conseguiu voltar-se completamente con- ceu engrac;ado, como outro cartum). Assim, em urn atimo de I 1,1 a mulher, que era talvez o primeiro desejo e primeiro alibi segundo, em meio a maior vertigem de sua existencia, a rigor (llc prosseguia recusando-se a olhar para ela); por algum a unica que ele nao teve tempo (e durante a vida inteira nao 11 •sfduo de civilidade, alguma coisa lhe controlava o impulso tera) de domesticar numa representac;ao literaria, apreendeu d.t violencia; e ao mesmo tempo vivia a certeza, como vin- a intensidade da expressao "para sempre" - a ideia de que 1 llt t;a e valvula de escape- a certeza verdadeiramente cien- · algumas coisas sao de fato irremediaveis, e o sentimento ab- 1ill ca, ele lembrava, como quem ergue ao mundo urn trunfo soluto, mas 6bvio, de que o tempo nao tern retorno, algo que litd iscutfvel, eu sei, eu li a respeito, nao me venham com ele sempre se recusava a aceitar. Tudo pode ser recomec;ado, ltl ~ l 6ria s - de que a unica correlac;ao que se faz das causas mas agora nao; tudo pode ser refeito, mas isso nao; tudo pode do mongolismo, a unica variavel comprovada, e a idade da voltar ao nada e se refazer, mas agora tudo e de uma solidez lltttlher e os antecedentes hereditarios, e tambem (no mesmo 30 31
  16. 16. sofrimento sem safda, olhando o ceu azul do outro lado dajanela) relembrou como alguns anos antes procuraram acon-selhamento genetico sobre a possibilidade de recorrencia nosfilhos (se dominante ou recessiva) de uma retinose, ada mae,uma limita<;ao visual grave, mas suportavel, estacionada nainfancia. Recusa. Recusar: ele nao olha para a cama, nao olhapara 0 filho , nao olha para a mae, nao olha para OS parentes,nem para os medicos - sente uma vergonha medonha de seu filho e preve a vertigem do inferno em sada minuto sub- sequente de sua vida. Ninguem esta preparado para urn pri- Uma rede silenciosa de solidariedade - a solidariedade meiro filho, ele tenta pensar, defensivo, ainda mais urn filho tt l trJgedia, uma solidariedade taciturna- ergueu-se em tor- assim, algo que ele simplesmente nao consegue transformar I ll) dele em pou~as horas, mas ele nao queria ouvir ninguem.em filho. I ont in ua cabeceando; o minuto seguinte de sua vida est a No momento em que enfim se volta para a cama, nao ha tl i,t nle dele, mas ele nao quer abrir essa porta. No silenciomais ninguem no quarto - s6 ele, a mulh~r, a crian<;a no colo tO ill a mulher eo filho, viu-se chorando, o que durou pouco.dela . Ele nao consegue olhar para o filho . Sim - a alma ain- Elc L entava desesperadamente achar alguma palavra naqueleda esta cabeceando atras de uma solu<;ao, ja que nao pode v.tzio; nao havia nenhuma. Tambem era dificil concentrar ovoltar cinco minutos no tempo . Mas ninguem esta condena- olhar em alguma coisa- como a coisa que estava nas maosdo a ser o que e, ele descobre, como quem ve a pedra filoso- t1 ,1 mae, a mae a quem nao achava nada para dizer. Urn pe-fal: eu nao preciso deste filho, ele chegou a pensar, e o pen- qucno sopro de civiliza<;ao ainda o fez tocar suas maos, urnsamento como que foi deixando-o novamente em pe, ainda gcslo esvaziado e falso, frio como gelo, enquanto os olhosque ele avan<;asse passo a passo tropego para a sombra. Eu tl an<;avam pelas paredes brancas, atras de uma saida. Seriatambem nao preciso desta mulher, ele quase acrescenta, num prcciso dizer alguma coisa, mas ele nunca sabe o que dizer; dialogo mental sem interlocutor: como sempre, esta sozinho. muitos anos atras, na formatura do ginasio, tentou redigir urn discurso para concorrer ao posto de orador da turma, o que faria dele alguem visualmente importante, la no pulpito, e nao foi alem da primeira exorta<;ao: Colegas! 0 bra<;o fazia o gesto, o tom de voz era born, a postura condizia: Colegas! E a alma despencava no vazio: as palavras dao em arvores, e s6 estender a mao, elas estao todas prontas, mas ele era absur- damente incapaz de achar uma s6 que lhe servisse. Hoje, de novo, a mesma sensa<;ao. Colegas! Como as vezes fazia nos 32 33
  17. 17. momentos desagrada.veis, projetou urn futuro acelerado so- boca aberta, lingua muito grande, pescoc;:os achatados, e lar-bre si mesmo, a passagem vertiginosa do tempo, as coisas fa- gos como troncos. Em poucos minutos- ele nao pensou nis-talmente acontecendo umas depois das outras, o envelheci- so, mas era o que estava acontecendo - aquela crianc;:a hor-mento e a morte, pronto, acabou, urn cartum delirante, os rivel ja ocupava todos os poros de sua vida. Haveria, paratrac;:os se sucedendo - o que era aquele momento diante de todo o sempre, uma corda invisfvel de dez ou doze metrostudo que talvez ja estivesse desenhado diante dele? Urn mo- prendendo os dois. E entao iluminou-se uma breve senda,menta insignificante de alguem insignificante preocupado tambem na memoria do trabalho que ele revisou, e, na ma-tambem com urn ser insignificante - apenas uma estatfsti- nha de uma noite maldormida, mal acordado ainda de urnca: va em qualquer maternidade e a cada mil nascimentos ha- pesadelo, a ideia- ou o fato, alias cientffico, portanto indis-vera, loterica, uma crianc;:a Down, que alimentara outras es- cutfvel- bateu-lhe no cerebra como a salvac;:ao da sua vida.tatfsticas e estudos como aquele que ele revisou, curioso. A liberdade!Cada coisa que ha no mundo! Crianc;:as cretinas- no senti- Era como se ja tivesse acontecido - largou as maos dado tecnico do termo -, crianc;:as que jamais chegarao a me- mulher e saiu abrupto do quarto, numa euforia estupida e in-tade do quociente de inteligencia de alguem normal; que nao tensa, que lhe varreu a alma. Era preciso sorver essa verda-terao praticamente autonomia nenhuma; que serao incapa- de, esse fato cientffico, profundamente: sim, as crianc;:as comzes de abstrac;:ao, esse milagre que nos define; e cuja noc;:ao sfndrome de Down morrem cedo. Por algum misterio daque-do tempo nao ira muito alem de urn ontem imemorial, mi- le embaralhar de enzimas excessivas de alguem que tern treslenar, e urn amanha nebuloso. Para eles, o tempo nao existe. cromossomos numero 21, e nao apenas do is, como todo mun-A fala sera, para sempre, urn balbuciar de palavras avulsas, tlo, as crianc;:as mongoloides - a palavra monstruosa ganha- sentenc;:as curtas truncadas; sera incapaz de enunciar uma es- va agora urn toque asseptico do jargao cientffico, apenas a trutura na voz passiva (a janela foi quebrada par Joao estara definic;:ao fria, nao a sua avaliac;:ao- sao anormalmente inde- alem de sua compreensao). 0 equilibria do andar sera sem- fcsas diante de infecc;:oes. Urn simples resfriado se transfor- pre incerto, e lento; se os pais se distraem, eles engordarao ma rapidamente em pneumonia e daf a morte - as vezes e como toneis, debaixo de uma fome nao censurada pela sen- uma questao de horas, ele calculava. E ha mais, entusiasmou- sac;:ao de saciedade, que neurologicamente demora a chegar. se: quase todas tern problemas graves de corac;:ao, malforma- Tudo neles demora a chegar. Nao veem a distancia - o mun- ~·oes de origem que lhes dao uma expectativa de vida muito do e exasperadamente curto; s6 existe o que esta ao alcance curta. Extremamente curta, ele reforc;:ou, como quem da uma da mao. Sao caturros e teimosos - e controlam com dificul- ,1 ula, 0 balanc;:ar compreensivo de cabec;:a - e triste, mas e dade os impulsos, que se repetem, circulares. S6 conseguirao real. Anotaram no caderno? E ha milhares de outros peque- andar muito tempo depois do tempo normal. E sao crianc;:as nos defeitos de fabricac;:ao. Urn carro nao conseguiria andar feias, baixinhas, pr6ximas do nanismo - pequenos ogros de assim. Ele acendeu urn cigarro, e parecia que a vida inteira 34 35
  18. 18. voltava ao normal ao sentir aquela tragada maravilhosa, in- lllnllgoloides sao seres hospitalares, vivem na antessala dostensa, perfumada: veja, ele se dizia, nao h.i velhos mongo- 111 !• di cos. Poucos vao alem dos ... quantos anos? Ele pensouloides. Voce tern certeza disso?, alguem perguntaria, erguen- e111 1 anos, e calculou a propria idade, achando muito; tal- 0do o brac;:o; sim, nenhuma duvida; eles morrem logo, e ele VI/, 5, fantasiou, vendo imediatamente uma sequencia rapi-desejou passear por uma rua movimentada as seis da tarde il.l dL anos, os amigos consternados pela sua luta, a mao noso para conferir in loco, cabec;:a a cabec;:a, essa verdade in- I ll ombro, mas foi inutil - rnorreu ontern. Sirn, nao resis-discutfvel: eles nao existem. Veja voce mesmo. Procure na lltl . V oltariarn do cerniterio corn o peso da tragedia na alma,multidao : nao existem. Era quase meio-dia, a maternidade tn .t:-1, enfim, a vida recornec;:a, nao e? Urn sopro de renovac;:aoagitada. Uma enfermeira lhe pergunta alguma coisa, ele diz co mo se ele tivesse existido apenas para lhes dar forc;:as,que nao, que vai sair, nao querendo pensar muito na sua p.11-.1 uni-los, ao pai e a mae, sagrados. Viu-se carninhando nodescoberta para nao estraga-la, para melhor usufruir a li- pMque Barigui, quem sabe urna rnanha bonita e rnelancolicaberdade que, subita, estava diante dele, talvez - ele calculou ro lll O esta, repensando aqueles cinco - aqueles tres anos,- seja so uma questao de dias, dependendo da gravidade l.d vcz dois. A tempera da alma: eis a expressao certa para co-da sfndrome. lll l~a r seu discurso de orador. Colegas! Precisamos da tern- Nao h.i mongoloides na historia, relato nenhum - sao se- 1Hra da alma!res ausentes. Leia os dialogos de Platao, as narranvas medie- Por que se preocupar? Refugiado na verdade cristalina devais, Dam Quixote, avance para a Comedia humana..de Bal- qu e seu filho nao viveria rnuito - era apenas uma especiezac, chegue a Dostoievski, nem este comenta, sempre atento dt• provac;:ao que Deus, se existisse, teria colocado na sua vidaaos humilhados e ofendidos; os mongoloides nao existem. p.tra testar a tempera de sua alma, como fez a Job- o rnundo Nao era exatamente uma perseguic;:ao historica, ou urn pre- p.trece que se reorganizou inteiro . Ele sernpre foi urn hornernconceito, ele se antecipa, acendendo outro cigarro - o dia otimista. Alguem do seculo XX, ele sonhou, apaixonado pelaesta muito bonito, a neblina quase fria da manha ja se dissi- l l~c nica, entusiasmado pela ideia do prazer, fascinado pelaspou, e o ceu esta maravilhosamente azul, o ceu azul de Curi- tnulheres, atrafdo pela inteligencia, rnergulhado no rnundo tiba, que, quando acontece (ele se distrai), e urn dos melho- verbal, irnpregnado de duas ou tres ideias basicas de hurna- res do mundo - simplesmente acontece o fato de que eles nismo e liberdade, urn pequeno Pangloss da provincia, ern nao tern defesas naturais. Eles so surgiram no seculo XX, tar- 1,i pida transformac;:ao. Ao rnesrno tempo, uma rede tentacular diamente. Em todo o Ulisses, James Joyce nao fez Leopold de afetos, de que ate o fim da vida ele jamais conseguira Bloom esbarrar em nenhuma crianc;:a Down, ao longo daque- HC livrar cornpletamente, parece que o arrasta para tras e o las 24 horas absolutas. Thomas Mann os ignora rotundamen- imobiliza. Eu nao tenho cornpetencia para sobreviver, con- te. 0 cinema, em seus lill_ano~~contabiliza, fon;ando a ·lui. Nao consegui nern urn unico trabalho regular na vida. memoria, jamais os colocou em cena. Nem vai coloca-los. Os Penso que sou escritor, mas ainda nao escrevi nada. Tudo que 36 37
  19. 19. tenho e urn filho recem-nascido que deve morrer em breve.Mas esse, mas essa morte proxima, esse - ele gaguejava,tentando nao pensar nisso, acendendo outro cigarro, tentan-do recuperar o fio de uma rotina que simulasse normalidade,o que fazer agora? almo<;ar? - mas esse fato, essa morteanunciada, parecia-lhe, nesse momento, o unico lado bornde sua vida. Como no cartum imaginario em que os fatos se sucedem lninterruptos, ele ja esta em casa. Ha urn simulacra de nor- ntalidade, desde o bonequinho azul na porta do quarto do fi- llto- os preserites, os pacotinhos, os chocalhos pendurados, os enfeites, a incrfvel parafernalia de urn recem-nascido, fral- d,ls, talcos, roupas, sapatinhos, babados, brinquedos - ate .ts providencias miudas. Pai e mae conversam como se nao ltouvesse nada diferente acontecendo, ate que urn pequeno surto de depressao aflore, e entao urn breve gesto do outro 1lp6e a normalidade possfvel, numa balan<;a compensat6ria. A ideia - ou a esperan<;a - de que a crian<;a vai morrer logo tranquilizou-o secretamente. Jamais partilhou com a mulher ,1 revela<;ao libertadora. Numa das fantasias recorrentes, abra- ~·a-a e consola-a da morte tragica do filho, depois de uma fe- bre fulminante. Mas ela sabe muito bern do risco, e trabalha Lffi sentido contrario; nesses poucos dias esta permanente- mente, obsessivamente atenta a cada mfnimo sinal que par- ventura surja para amea<;ar o filho. Que, alias, parece muito saudavel para uma crian<;a com aquela folha corrida geneti- ·a. Abre a boca horrorosa e chora muito; quando dorme, dor- me em excesso; e preciso acorda-lo, alguem sugeriu. Quanto mais ele se mover, melhor - melhor para quem?, o pai se pergunta. Move-se como qualquer outra crian<;a. A lingua pa- 38 39
  20. 20. r- ~ rece urn pouco mais comprida que a lingua dos outros, ele Llncia estupida em romper como proprio passado, naufrago pensa, mas os bebes sao animais ducteis, formam-see defor- dt•lc mesmo, depois o curso universitario com a definitiva in- mam-se com facilidade, vao tomando contornos diferentes lt•grac;ao ao sistema, mas nenhuma de suas vantagens, de- dia a dia. Se ele coloca o dedo na sua palma, o menino agar- t•rnpregado indocil, escritor sem obra, movendo-se na som- ra-o com alguma forc;a, 0 que, dizem, e sinal de boa saude. hr ,l cnsaboada de seu born humor- e agora pai sem filho. Mas a cabec;a, ele pensa, e grande demais, mesmo para urn Epreciso enfrentar as coisas tais como elas sao; e preciso hebe, que sao cabec;udos por natureza. Esse pescoc;o. E esse tlt•sarmar-se, ele sonhava. Nao fugir do peso medonho do ins- choro esganic;ado - isso e normal? Lillie presente. A filosofia inteira do seculo se debruc;a sabre Nao, nada mais sera normal na sua vida ate o fim dos t•ssc instante vazio, ele relembra. 0 problema e que as coisas tempos. Comec;a a viver pela primeira vez, na alma, a an- o filho agora, e toda a interminavel e asfixiante soma dos gustia da normalidade. Ele nunca foi exatamente urn homem plt]uenos fatos cotidianos que ele acumulou a vida inteira normal. Desde que o pai morreu, muitos anos antes, o seu rom a sensac;ao .de que criava e nutria uma personalidade padrao de normalidade se quebrou. Tudo o que ele fez desde pr6pria- as coisas nao sao nada em si. 0 mundo nao fala. entao desviava-o de urn padrao de normalidade - ao mesmo Sou eu que dou a ele a minha palavra; sou eu que digo o que tempo, desejava ardentemente ser reconhecido e admirado .t s coisas sao. Esse e urn poder inigualavel- eu posso falsifi- pelos outros. 0 que, bern pensado, e a normalidade abso- r.rr tudo e todos, sempre, urn Midas Narciso, fazendo de tudo luta, ele calcularia hoje. Uma crianc;a tfpica, urn adolescente 111inha imagem, desejo e semelhanc;a. Que e mais ou menos tfpico. Urn adulto tfpico? Era uma mistura de ideologia e de o que todos fazem, o tempo todo: falsificar. Essa algaravia inadequac;ao, de sonho e de incompetencia, de desejo e de rnonumental em toda parte, todos falando tudo a todo ins- frustrac;ao, de muita leitura e nenhuma perspectiva. Todos l.rnte, esse horror coletivo ao silencio. Ha outra perspectiva? os projetos pela metade, tudo parece mais urn teatro pes- N.1da tern essencia alguma (ele lembra dos livros que leu) em soal que alguma coisa concreta, porque eram poucos os ris- hrgar algum. Isso, sim, faz sentido. Eu so preciso escapar des- · cos. 0 medo da mesma solidao que ele alimentava todos 1,1 asfixia. 0 filho e a imagem mais proxima da ideia de desti- os dias. A tentativa de se tornar piloto da marinha mer- ne, daquilo de que voce nao escapa. Ou daquilo de que voce cante, a profissao de relojoeiro, o envolvimento no projeto n,1o pode escapar? Por que? Por que eu nao posso tamar ou- rousseauniano-comunitario de arte popular, a dependencia de lro rumo?- sera a pergunta que fara varias vezes ao longo urn guru acima do bern e do mal, a arrogancia nietzschiana da vida. Porque eu ja tenho uma essencia, ele responde, que e autossuficiente com toques fascistas daqueles tempos ale- lUmesmo construf. A minha liberdade e uma margem muito gres (ele percebe hoje}, enfim a derrocada de se entregar ao ·~;treita, suficiente apenas para me deixar em pe. casamento formal assinando aquela papelada ridfcula num No escuro, a crianc;a dorme. evento mais ridfculo ainda vestindo urn paleto (mas nao uma Ele acende urn cigarro na sala. Urn dos raros momentos gravata, ele resistiu, sem gravata!}, a falta de rumo, uma relu- 1 tranquilos, mas, ao apurar o ouvido, ouve o choro da mulher 40 41. ..
  21. 21. no quarto, quase urn choro de crianc;a inibida. Ele fica im6- 1.1 da melhor ciencia do imperio britanico, descreveu pela pri- vel, ouvindo. A crianc;a nao acerta sugar o seio - e preciso rnlira vez a sfndrome frisando a semelhanc;a da vftima com a toda uma operac;ao de guerra para conseguir algumas gotas t•xpressao facial dos mong6is, la nos confins da Asia; daf de Ieite. Indicam uma traquitana (o que lhe agrada, e claro): "111ongoloides". Que tipo de mentalidade define uma sfndro- urn pequeno funil de vidro com uma bombinha de borracha. llll pela semelhanc;a com os trac;os de uma etnia? 0 homem Urn objeto delicado : lembra-lhe algo antigo, uma farmacia de Ill itanico como medida de todas as coisas. 0 prfncipe Charles, filme, urn alquimista medieval. Aquilo suga o Ieite como urn .tquela figura apolfnea, sera o padrao de normalidade racial, projeto de Da Vinci, ele fantasia. Gotas amareladas - nao t llc comec;a a rir no escuro, acendendo outro cigarro. E como parece Ieite. Dias tensos para a mae, ele sabe. Numa das cri- t•ssa denominac;ao durou mais de urn seculo, como algo nor- ses, ela lhe diz, no desespero do choro alto: Eu acabei com a Ilia! e aceitavel? Sim, normal e aceitavel, inclusive por ele tua vida. E ele nao respondeu, como se concordasse - a mao rnesmo - ele lembra agora, com urn frio na espinha, como que estendeu aos cabelos dela consolava o sofrimento, nao a ll ,i poucas semanas comentou com urn colega a burrice de verdade dos fatos. Talvez ela tenha razao, ele pensa agora, 11ma professora: Parece uma mongoloide, ele disse. A palavra no escuro da sala - e preciso nao falsificar nada. Ela acabou veio-lhe facil, do trabalho que revisava - foi s6 estender a com a minha vida- refugia-se no oco da frase, sentindo-lhe 111ao e recolher da arvore. Nao cuspa para cima, que cai no o eco, e isso lhe da algum conforto. olho, lembrou ele do dito popular, essa sabedoria calculista e A normalidade. 0 que dizer aos outros, quando encontra pragmatica, procurando sempre uma justic;a secreta em todas com eles? Sim, nasceu meu filho. Sim, esta tudo bern. Quer .1s coisas, para fugir do peso terrfvel do acaso que nos define. dizer, ele e mongoloide. Nao - essa palavra e pesada demais. 0 problema da normalidade. Talvez ele mesmo escreva E em 1980 ninguem sabia o que era "sfndrome de Down". urn pequeno roteiro com o texto certo para as pessoas reci- A maneira delicada de dizer e: Sim, urn pequeno problema. tarem no momento da confissao da tragedia. Algo como "Nao Ele tern mongolismo. Mas isso exige uma rede de explicac;6es me diga! Mas imagino que hoje em dia ja ha muitos recursos, subsequentes - e as pessoas nunca sabem o que dizer ou nao? Olha, precisando de alguma coisa, conte comigo" - fazer diante daquela coisa esquisita. Ao "nao me diga!" cons- c entao ele diria, obrigado, vai tudo bern. Mudariam de as- ternado, ele da urn tapinha nas costas, urn sorriso, e tranqui- sunto e pronto . Bern, em grande numero de encontros, nao liza - mas esta tudo bern, sao crianc;as bem-humoradas, com precisaria dizer nada: sao bilh6es de pessoas que nao o co- urn born tratamento elas ficam praticamente normais. "Prati- nhecem, contra apenas umas dez ou doze que o conhecem. camente normais". 0 que ele quer resolver agora nao eo pro- Essas ja sabem; nao e preciso acrescentar nada. Na maior par- blema da crianc;a, mas o espac;o que ela ocupa na sua vida. te dos casos, basta dizer: Sim, a crianc;a vai bern. Felipe, o E esses contatos medonhos do dia a dia: explicar. Ja viu nome dele. Obrigado. E nada mais foi perguntado e nada mais na enciclopedia que o nome da sfndrome se deve a John se respondeu, dando-se por encerrado o assunto e prosse- Langdon Haydon Down (1828-1896), medico ingles. A manei- guindo a vida em seus tramites normais. Ele respira aliviado. 42 43..
  22. 22. 0 problema, ele insiste, e que nao ha bern urn lugar para essa A fa milia do velho Kennedy escondeu do mundo, a vidacrianc;a na sua vida. Lembrou, em panico, do poema 0 filho l11 1drJ, urn filho retardado. Havia muita coisa em jogo, ever-da primavera, que lhe ressurgiu subito inteiramente ridfculo, ri.H IL• - mas o grande motor era a vergonha . A vergonhapatetico, o horror do texto ruim, do mau gosto, do arquikitsch 11 11 11 ,1 do catador de lixo ao presidente da Republica. E umadesabando na cabec;a e na memoria - ele havia entregue ll o~vc poderosa da vida cotidiana: esses politicos deviam epara publicac;ao numa revista de letras, e comec;ou a suar, so 1 vcrgonha na cara!, nos dizemos todos os dias, o que e urn 11de lembrar. Teria de suportar aquilo impressa - talvez ate 11 1.1 11 tra que nos redime enos tranquiliza. Como se fosse ao viessem cumprimentar pelo talento e pela sensibilidade: l l ll ~ m a coisa, agora ele sentia vergonha, embora a palavra, 11111 algum misterio, nao lhe aflorasse, o som da palavra em"Como voce superou bern o problema!", diriam, solidarios, osolido aperto de maos, o sorriso de admirac;ao. Sim, todos 1 .1 simplicidade, como se alguma coisa tao absurdamen- 1sempre souberam que ele tern talento. E a mentira escarrada: 11 • ~ imples, vergonha, nao pudesse fazer parte de sua vida ( •1 t1 os medfocres sen tern vergonha, ele recitava) - o que che-urn poema meloso para urn filho retardado. Era preciso im- I.IV,1 a pele, 0 que queimava, era 0 sentimento insuportavelpedir a publicac;ao daquilo. Ele perde qualquer resqufcio desono, so em lembrar: amanha cedo mesmo falara com a edi- d1• alguma coisa errada. E alguma coisa errada nao com otora da revista: Por favor, nao publique o poema. Ainda ha IIIII o, mas com ele mesmo.tempo, nao? Ele nao sabe ainda, mas bastou urn breve fiapo A crianc;a dorme, a mae agora tambem dorme, e ele acen-de realidade mais diffcil para que se apurasse seu senso de dv outro cigarro, no escuro. A mulher tern razao: ela acabouliteratura. Mas aqui o problema e outro . n un a vida dele, ele suspira, concordando, e sente-se miste- A vergonha. A vergonha- ele dirci depois- e uma das liosamente mais tranquilo.mais poderosas maquinas de enquadramento social que exis-tem. 0 faro para reconhecer a medida da normalidade, emcada gesto cotidiano. Nao saia da linha. Nao enlouquec;a.E, principalmente, nao passe ridfculo. Ele pensava sincera-mente que ja havia transposto esse Rubicao de uma vez portodas - o teatro de rua de que participara anos atras, na co-munidade, aquela grandiloquencia pretensiosa fantasiando-se de teatro popular ja lhe dera micos suficientes para urndoutorado em cara de pau. Mas havia a protec;ao de grupo eo involucra da inconsequencia - ele ainda podia ser qual- quer coisa a qualquer momento; ele ainda podia mudar de rumo; ele nao tinha destino algum. Tinha so a arrogancia fe- liz da liberdade. Fodam-se. 45 44
  23. 23. Em apenas dais dias surgiu outro argumento poderosop.tta escapar do peso do momenta presente: a hip6tese de queltouvesse urn erro de diagn6stico, e que, de fato, a crian~alosse normal oil tivesse algum problema de outra natureza,la•m menos grave. S6 havia urn modo de tirar a duvida: fazer o cari6tipo daf:l 1.1n~a, a fotografia dos cromossomos. Mas ele nao consegue ~ ~· enganar: sabe que essa hip6tese e remota- o menino pa- tlll uma demonstrayao viva de todas as caracteristicas maisollvias da sindrome, praticamente urn exemplo didatico para tt s,u em sala de aula. Conversando como professor da areadt• genetica, descobre a possibilidade de uma salva~ao mila-grosa, mas que seria pelo menos rigorosamente cientifica.() cstudo de urn pesquisador frances de alguns anos antes,sobre a ocorrencia da trissomia em gemeos, teria reveladoque pode haver manifestayao parcial da sfndrome- desco-llriu-se que uma parte delimitada do cromossomo extra e res-ponsavel estritamente pelo retardo mental, e outro segmento,1 ,1mbem perfeitamente delimitado, e responsavel pela aparen-cia fisica, pelo fen6tipo, o conjunto de caracteristicas exter-nas que permitem o diagn6stico. No caso dos gemeos, urnexemplo fortuito, houve uma "distribuiyao do problema": urndeles, de aparencia perfeitamente normal, apresentava a defi- 47
  24. 24. ciencia mental tfpica da sfndrome; o outro, de aparencia ine- Vt l.lr as fotos dos cromossomos que tirou em urn laborat6rioquivocamente Down, era uma crianc;a mentalmente normal. d.t Franc;a. Mais tarde, no Canada, ele apresenta a tese do 0 caso era urn milagre- de ocorrencia e de sorte cientffi- "dllcrminismo cromossomico" dos "mongoloides". No anoca do pesquisador em flagra-la- mas o paise aferrou ao mi- q:uinte, publica seu trabalho - pela primeira vez se de-lagre assim que soube dele. Sim - praticamente nao havia lt lll1ina a relac;ao entre uma aberrac;ao cromossomica e umaduvida de que o Felipe era uma crianc;a normal; veja como dt•li ciencia mental. Era mais urn passo em direc;ao a desde-ele aperta o dedo com forc;a assim que voce toea na palma ltlonizac;ao do mundo , comprovando-se nessa area sensfvel,dele! Muito provavelmente, ele argumentava, agitado, talvez ltl rit6rio privilegiado da magia, dos bruxos, dos maus-olha-para nao ouvir o que ele mesmo dizia, muito provavelmente dos, das maldic;oes e das transcendencias de ocasiao, maisa parte afetada do cromossomo e apenas a das caracterfsticas 11ma vez a natureza arbitraria, absurda, loterica, erratica dosffsicas, nao a responsavel pelo retardo mental. Essa fantasia l.1 tos; em suma, urn cari6tipo e por si s6 mais urn passo de-lhe dava folego para sobreviver mais alguns dias (ja se ante- 1 10nstrativo da vida em direc;ao a profunda indiferenc;a decipava, em lapsos visionaries de que ele mesmo achava gra- totlas as coisas. Ele fecha os olhos, tentando dar uma digni-c;a, nervoso, preocupando-se com a feiura da crianc;a- como d,lde fria ao seu desespero : a contingencia do ser e urn fato,convencer os outros de que aquele pequeno monstro seria, llpete ele, como se a revelac;ao por si s6 o salvasse do abis-de fato, uma crianc;a normal?); a outra hip6tese, a mais s6li- 1 Mas e ainda incapaz da pergunta seguinte: e daf? 110.da - trata-se sem discussao de uma trissomia do cromosso- Ainda no hospital (lembra-se agora, acendendo outro ci-mo 21 -, tambem nao seria tao tragica, afinal, pela vulnera- garro e olhando para 0 teto), 0 irmao dele veio ve-lo.bilidade da crianc;a - uma infecc;ao e ela nao sobreviveria. - Voce ja sabia - o irmao disse, serio como urn sacer-Em qualquer caso, Pangloss esta feliz! Tudo que ele queria dote, como quem sussurra urn segredo esoterico acessfvelera urn apoio silencioso naquela passagem de tempo, qual- .1penas aos iniciados, aproximando o rosto como urn cristaoquer coisa que nao fosse encarar o fato em si. Deixar escorrer tl isfarc;ado do primeiro seculo, movendo-se nas sombras doo tempo, no limbo da inconsciencia. Mais uma vez ele sairia paganismo hostil-e mostrou-lhe o documento indiscutfvel,do outro lado, sozinho, sao e salvo, mais experiente, mais urn dos dez poemas que o pai do Felipe havia escrito anotmaduro, mais compenetrado de seu grande destino. antes, numa pensao em Portugal, em seus tempos de mo- Era preciso, entretanto, enfrentar o cari6tipo. Ate meados chileiro, e enviado ao irmao . "Tudo esta em tudo", talvez eledos anos 1950 nao se sabia o que causava o chamado mon- dissesse em complemento. Mesmo com 42 graus de febre, ogolismo . Foi o medico frances Jerome Lejeune (1926-1994) irmao sempre se recusou a tamar remedio; no maximo, umaquem pela primeira vez relacionou a sfndrome com uma ca- agua fria na testa - "A natureza sabe o que faz." 0 pai doracterfstica genetica perfeitamente delimitada, a trissomia do Felipe abriu o papel, ja antevendo o que estava ali. Irritando-cromossomo 21. Em 1958- o pai le, avido, o material que o se com a consolac;ao tranquila e medieval que o irmao ofe-professor lhe empresta - Lejeune vai a Dinamarca para re- recia, releu 0 proprio texto, de rna vontade: 48 49
  25. 25. Nada do que nao foi t. 1 tt.tda do que nao foi" e urn eco longfnquo e inepto do Qua- poderia ter sido. {,rlt/tUlrletos, que por sua vez repete o Eclesiastes; mas ami- Nao ha outro tempo "" rdcrencia e posti9a. Nunca assisti a uma missa inteira na sobre esse tempo. rlillllt,l vida. Nao sei latim nem sou leitor da Bfblia. Nao gosto i11 • p.tdres, pastores, profetas, rabinos, milagreiros; sofro de Amanha e amanha lltticlcricalismo atavico. Nao tenho absolutamente nada aver e uma escada curva. "" cssa causalidade mftica que querem inventar na cultura Ninguem abre a porta Ocidente, esses brasoes de isopor, pintados de ouro, que ainda em modelo. !11 .tvcssam OS tempos; nunca li Virgilio inteiro; tudo isso e Hoje ouvimos os ratos .dwdoria de urn almanaque sofisticado - T. S. Eliot e al- roendo o outro lado. f:lltm incompreensfvel para mim. E continua, quase em voz Ninguem chegou l.i, .dt,t : "Nada do que nao foi poderia ter sido" e urn prosafsmo porque hoje e aqui. ltnnfvel herdado das teses do velho guru, para quem haveria 11111.1 misteriosa "propon;ao correta" entre todas as coisas - Mas o sonho insiste dt• novo, a magica explicac;ao medieval do mundo, tudo esta o sonho transporta · " tudo, esse delfrio capaz de atrair (e tranquilizar) tantos o sonho desenha 111ilh6es de pessoas todos os dias. Ha uma causae uma culpa uma escada reta. (Ill tudo - e preciso que haja, e absolutamente indispensa- Vll que haja urn sentido para as coisas, ou cafmos no abismo. Quando cortas o pao Elc sente que a ideia do acaso e insuportavel - pois e exata- o depois-de-amanha mente af que ele quer estar, naquilo que nao pode ser supor- nao te interessa. t.ldo, ele sonha, como quem se afasta do corpo e se transfor- Mesmo que sabes: ma em abstra9ao. A escada curva do amanha, a porta ainda todas as fon;as em modelo, sao ecos de algum verso de Carlos Drummond estao reunidas de Andrade, que ele leu, repetiu e decorou tantos milhares para que o dia amanhe9a. de vezes desde a infancia que ja fazem parte de sua sintaxe. "Mesmo que sabes" e urn enigma oco. A estrofe final, que pa- Ele estava demasiadamente destrufdo, no momento, para rece uma marcha militar, vern de algum ideario marxista di-contra-argumentar, mas come9ou a moer e remoer o seu pro- fuso, linguagem do tempo, estilo revolu9ao cubana, compa-prio poema assim que ficou sozinho. Nada aqui sou eu, disse nheiros, avante!, determinismo dialetico, a ideia de que aele, em voz alta. Isso e urn simulacra de poesia; cada ver- causalidade absoluta da natureza se confunde com a causa-so deixa o seu rastro a vista, num amadorismo elementar. lidade contingente dos fatos da cultura e da hist6ria; "realis- so 51
  26. 26. mo" socialista. As "fon;:as reunidas" descem pela escada de tl .I mago das coisas, nesse momento, e a descoberta dealgum verso retumbante em berc,:o esplendido, talvez. 0 de- lt•tttH., tao simples na sua metodologia prosaica de labora-sejo de que o dia amanhec,:a, quem sabe num sabado, tern urn tlll ill, na completa ausencia de pathos da melhor ciencia, oque de Vinicius de Moraes, outro tanto de Geraldo Vandre, lt . d ~o tlil o de formiga diante de plaquinhas de vidro, anos a fio.para nao dizer que nao falei de flores. E lembrou que o poe- llttllt ,tbalho realmente nao espetacular. Uma coisa mediocre.rna foi escrito em Portugal, em plena Revoluc;ao dos Cravos I fV.t tll a-se uma hipotese e testa-sea hipotese: repita-se a ope-- cinco governos provisorios em urn ano. Ele absorvia aqui- t, to ate se chegar a "verdade dos fatos". Sim, a mac;a cai nalo pelos poros - e urn pouco por preguic,:a. 0 parafso estava dn•<,·a e pode-se ter urn estalo de criac,:ao- a lei da gravida-proximo, faltava so acertar os detalhes. tit •, mas isso nao elimina a hipotese nem a sua repetic,:ao sis- Problema mesmo, de verdade, era o dele, agora. A auto- lt•tn , tica. E urn terreno pantanoso, ele sabe, e sabe que essedemolic;ao poetica deixa-o sem chao, ainda no corrector do 11.1o co terreno dele. Qual e mesmo o terreno dele? 0 orgulhohospital. Mas ele sabe exatamente o que nao quer, ao reagir dt"Ko munal, teirnoso como urn campones, a consciencia lu-ao conforto poetico: nao quer uma muleta. Quer o fato em si. tt tl nosa do proprio destino, grande como o dos gregos, a soli-0 amago das coisas, sonha ele, nao resistindo ao prazer da d.to como urn valor etico. Eo que ele tern? Nada. Vive ascus-bravata. E quer manter intacto o orgulho, o sentimento da l.t H da mulher, jamais escreveu urn texto verdadeiramentepropria superioridade, que custou tanto a alimentar, que foi hom, sofre de uma inseguranc;a doentia e, agora, tern urn fi-sempre a direc;ao cega de sua vida - ou nao teria feito nada, lilo que, se sobreviver, o que e pouco provavel, sera uma pe-ou teria sido igual a todo mundo, carimbando formulario em dra inutil que ele tera de arrastar todas as manhas para reco-algum balcao, puxando o saco de alguem, dependendo da tn cc;ar no dia seguinte e assim ate o fim dos dias, pequenopropria gentileza e da gentileza alheia, pedindo favor, sendo Sfsifo do vilarejo. Porque nao tera sequer a coragem de mata-aquila que todos os outros sao, no seu olhar incompleto. Essa lo , oferece-lo em sacriffcio aos deuses, o que nos daria a di-porcariada toda, esse lixo que ele ve em volta. Eu nao quero mensao epica dos tempos sagrados, ele divaga. A saudade daisso. Eu nunca quis isso. Nao, ele tern outro destino (vem-lhe pureza primordial; a brutalidade do mundo dionisfaco; o va-a mente outro desfile de fantasias, os arquetipos, as figuras lor da tribo. Se alguem grande como Heidegger entregou demfticas de uma Grecia retumbante e kitsch, com seus deuses t:io boa vontade a alma numa bandeja a tribo, por que eleseminus, contra os quais, parcas do destino, nao ha desgrac,:a- nao poderia fazer o mesmo? Mas ele, o pai, ri- e a sua uni-damente 0 que fazer, estamos escritos para todo 0 sempre; e 0 ca boa dimensao, nesse momento. Oculta-se na sombra donascimento da tragedia, de Nietzsche, cujos trechos mais humor. 0 riso desmonta- nenhuma tragectia sobrevive a ele.impactantes ele copiava laboriosamente no silencio sinistro da E oculta: o homem que ri nao e visfvel. 0 riso nao tern formaBiblioteca de Coimbra). 0 amago das coisas. Repita varias ve- - ele da a ilusao da igualdade universal de todas as coisas.zes essa expressao, ele se diz, em voz alta, e veja se ela man- 0 amago. Repita: 0 amago das coisas. Ele avanc;a com atern algum sentido. 0 amago das coisas. 0 amago das coisas. mulher e o filho para o predio da genetica, na universidade. 52 53
  27. 27. ,.--- - Ja esteve aqui, anos antes, tentando avaliar a probabilidade li tmmossomo aqui, o 21, e o dedo aponta - veio com de repetir;ao hereditaria de uma provavel retinose da mulher, 1 ,1 1.11nflia maior; sao tres, em vez de dais. Se for esse o 111 de caracteristicas indecifraveis. Newton Freire-Maia classifi- ltllt, (• clara, embora ... embora o fen6tipo , o conjunto das cou-a como gene dominante - a possibilidade de que acon- l ltt tl•dsticas fisicas, nao desminta. Mas . tecesse o mesmo com os filhos seria de 50% . Ouvindo Freire- IJn1,1 gota de sangue. A crianr;a mal se move, mergulhada Maia, ele lembrou das leis de Mendel, nos tempos de colE~gio . ~~ ~ 1•sr uridao do sono. Depois sera o sangue dos pais, mas dai Gostava daquilo - era uma arvore perfeita, geometricamen- jtCII.IS em nome da ciencia, para abastecer o banco geneti- te delimitando olhos azuis (dependendo dos pais, 25%) e ut Algum pesquisador, diante dos cari6tipos de centenas de olhos castanhos (os outros 75%); ele via, graficamente, o p.tll de crianr;as Down, podera quem sabe ter urn momenta poder da possibilidade, tirando linhas daqui e dali, genes d•• n iar;ao e descobrir alguma nova lei de recorrencia geneti- recessivos, genes dominantes. Uma cH~ncia exata. (Alguem 1,1 Mas nao e nisso que ele pensa agora - e SO no resultado , lhe disse, anos depois, que Mendel muito provavelmente frau- IIIH vira. Ja esta~a perfeitamente integrado ao destino, nesse dou o calculo de suas ervilhas, para que o resultado fosse tao tttllllciro momenta : tenho urn filho com mongolismo (nao miraculosamente exato. Nao importa: ele extraiu a lei, que llliiScguia mais pronunciar a palavra "mongoloide"), ele di- continua viva, em cada nascimento dos bilh6es do mundo .) 1.1, e e com isso que tenho de lidar. Esse eo problema; nao Cinquenta par cento? - era uma aposta razoavel contra o lnvente outros; nao agora. 0 impacto inicial de dias antes destino; o poder da paixao, e ele abrar;ou a mulher. Que sao lomer;ava a amortecer. Mesmo porque ele reservava urn so- 50%? Uma pura ideia. Sim, vamos colo car nossas fichas em ll tldestino sabre o primeiro: a fragilidade da crianr;a (de urn nos mesmos, no vermelho, e se beijaram e se amaram. Mas 1110mento em diante, evitava pensar nisso , sacudindo a ca- a roleta perdeu o rumo, deu preto, a bolinha saltou para hlt;a, mas a ideia estava la) faria o resto. Simulando conster- outra mesa do cassino e agora eles tinham nos brar;os uma llilt;ao, ele ouvia a estatistica dos professores: cerca de 80 % trissomia 21. das crianr;as mongoloides nao sobrevivem muito tempo. Mas Era ainda preciso classificar o tipo de trissomia. Se sim- hoje, eles ressaltavam, isso tende rapidamente a mudar. (Nao ples, a possibilidade de repetir;ao da sindrome era minima. no meu caso, ele sonhava, e sacudia a caber;a.) Quem sabe Se de outro tipo, nem tanto. Os professores, gentis, explicam haja mesmo, de fato, uma proporr;ao correta entre todas as sorridentes a maquina dos cromossomos - ele ve aquela fo- coisas? Mas agora entrava outra variavel, como urn jogador tografia ampliada em preto e branco, uma sequencia nume- descartado que, subitamente, ve a chance de voltar ao jogo rada de duplas irregulares que parecem dentes com raiz, fora - e se o cari6tipo indicasse de fato que se trata de uma crian- de foco. Estamos inteiros ali, ele imagina. Pensando bern, sao r;a normal? Apenas esse fiapo ridiculo de esperanr;a dava-lhe poucas variaveis para tantos resultados disparatados. A den- alguns dias de normalidade, ate que o exame ficasse pronto. cia organiza - o que vern embaralhado na natureza, a cien- • Talvez, ele pensava, ao voltar a ceu aberto, urn dia bonito - cia abstrai e dispoe em fila, par tamanho e caracteristicas. eu deva continuar meu livro e me esquecer urn pouco. 54 ~ 55.. I
  28. 28. r·: preciso ainda consul tar urn especialista em genetica me-dlt 1, para conferir uma eventual cardiopatia- todos os me-dhos disseram que nao ha nada de errado com a saude donH•nino, mas a incidencia de problemas de corac;ao em crian-•"s com trissomia 21 e muito alta. Urn especialista saberia lo-t ,liizar o problema, se houver, com precisao. Ao cruzar o pa-llo dos milagres do Hospital das Clinicas, aquela pobreza ttja, estropiada, crista, os molambentos em fila, a desgrac;a ttt cmorial em busca de esmola, aqui e ali as ambulancias deptdeituras do interior trazendo votos potenciais que se arras-1.1111 em muletas, o gada balanc;ando a cabec;a e contemplan-do no balcao uma cerca incompreensfvel e intransponfvel,ttlidada por outra especie de gada que carimba papeis e en-lrcga senhas; o setimo ceu e algum corrector que cte em outra ala onde urn ap6stolo de branco estendera a mao limpa eclara sabre as cabec;as para promover a cura milagrosa- elepcnsa em Nietzsche e no horror da misericordia, a humilha-~10 como valor, a humildade como causa, a miseria comograndeza. Pais o seu filho, confirmada a tragedia, nem mes-mo a esse ponto (ele olha em torno) chegara, porque nao teracerebra suficiente para inventar urn deus que 0 ampare e naotera linguagem para pedir urn favor. 0 que o ampara agora,no vaivem desses dias medonhos, e a perspectiva justamente 57

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