Monografia LP1

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Monografia sobre o Sítio do Picapau Amarelo e análise da fala dos entrevistados - Profª Drª Roseli Figaro - Língua Portuguesa, Redação e Expressão Oral 1

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Monografia LP1

  1. 1. 71. INTRODUÇÃO No Sítio do Pica pau Amarelo encontramos coisas surpreendentes que desafiam acompreensão daquele leitor que analisar a obra desprevenido, ou com expectativas deencontrar apenas um sítio, como outro qualquer. De fato esse sítio não é qualquer sítio. O queo leitor encontra no Sítio do Pica-Pau Amarelo é um espaço de reflexão, onde MonteiroLobato retrata diversas questões pertinentes a época, além alguns aspectos de sua própria vidae personalidade. Este trabalho possui o intuito de analisar a obra, destacando um tema específico, nocaso, o capítulo “A Gramática da Emília”, levantando assim questões sobre os personagens, eprincipalmente sobre a personagem Emília. A escolha deste capítulo se deu devido à didáticapresente no mesmo, fato que podemos observar não só neste capítulo como também em todosos outros da série. Em paralelo com o tema do trabalho há a pesquisa de campo, onde foram elaboradasquestões para serem levadas às ruas da cidade de São Paulo. A pesquisa possui o intuito deanalisar os níveis de fala da população, analisando pessoas das classes A, B, C, D e E. O temadesta foi elaborado a partir do tema deste trabalho, onde pudemos perceber a preocupação deMonteiro Lobato com a questão da educação, e portanto esse foi o tema que utilizamos pararealizar as 50 entrevistas necessárias, das quais destacamos 10 para análise.
  2. 2. 82. CONTEXTO NACIONAL Em 1920 ainda estava em vigência a política do café-com-leite, onde os PartidosRepublicanos Paulista e Mineiro se alternavam no poder do país, defendendo os interessesoligárquicos da elite dessas regiões; porém, em 1922, surgiu uma reação republicana, na qualse uniram Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro, para apresentarem umcandidato, Nilo Peçanha, contra o de Minas e São Paulo, Artur Bernardes. Desaparecidos do cenário político desde 1910, os militares se inclinaram contra aoligarquia presente. A disputa foi acirrada, todavia vencida por Artur Bernardes, o que fez eclodir umareação há muito tempo contida: dia 5 de julho de 1922, jovens oficiais do forte de Copacabanase rebelaram com o intuito de impedir a posse de Artur Bernardes. A ação fora malograda,porém os jovens decidiram marchar nas praias de Copacabana, numa atitude suicida, contra astropas legalistas. O episódio é conhecido como 18 do Forte, e iniciou um época com muitasrebeliões, conhecida como Tenentismo. Desde o inicio o governo de Artur Bernardes foi instável politicamente. No RioGrande do Sul estourou uma guerra civil em 1923 e em São Paulo uma rebelião chefiada porIsidoro Dias Lopes, em 1924, que mais tarde se uniu aos sulistas e a Coluna Prestes, em 1925. Já com um cenário urbano no eixo Rio-São Paulo, foi inevitável a aparição domovimento operário, trazido junto aos imigrantes italianos, o que gerou o Partido Anarquista. Os anarquistas lutavam a favor do operário, por mais controle de duas funções paraeles próprios, além de serem totalmente contra o Estado. Uma série de movimentos espalhados pelo mundo pressionavam o Brasil a melhoresdefinições quanto a essa nova classe, e os anarquistas ficaram sem saber o que fazer, uma vezque as leis iriam favorece-los, mas seria feita pelo Estado que queriam extinguir. Se os anarquistas se sentiram perdidos, os comunistas sabiam exatamente o quequeriam, e fundado em 1922 devido a onda que a Revolução Russa criou, o PartidoComunista Brasileiro era a favor de medidas governamentais e ainda a centralização do poderno estado, porém a divergência de interesses com os anarquistas fragmentou a classe operária,o que a enfraqueceu, porém criou a base do controle estatal do governo Vargas. Ao final do mandato de Washington Luís, sucessor de Artur Bernardes, esperava-sesua nomeação de um candidato mineiro para a próxima eleição, porém indicou um paulista, oque gerou a cisão das oligarquias, o que fez o PRM juntar ao Rio Grande do Sul na
  3. 3. 9candidatura de Getúlio Vargas. Porém Júlio Prestes, candidato paulista, ganhou as eleições de30. Apesar de tudo, antes de Prestes tomar poder, Washington Luís foi deposto pelosgenerais gaúchos e o Partido Democrático, assumindo então Getúlio Vargas, no conhecidoGolpe de 30. Instituiu-se, então, o governo provisório, e Vargas tinha que se equilibrar entreas pressões das outras peças políticas do país: de um lado a oligarquia, que já não fazia maisparte do poder, de outro os tenentes, influenciados pelo fascismo, queriam o podercentralizado, e de um terceiro lado os militares legalistas, apenas tentando estabelecer aordem. Fez concessões as partes, mas não resolveu os problemas delas, então os segundos seorganizavam em clubes políticos, a favor da ditadura, e os primeiros arranjavam um jeito deacabarem com aquilo para voltarem ao poder. Então forças políticas paulistas se juntaram paraexigir uma reconstitucionalização do país, nomeando um interventor para o governo. Apesar da pressão tenentista, Getúlio publicou um novo código eleitoral e umanteprojeto para a nova constituição. No novo código eleitoral foi estabelecido o voto secreto,o voto feminino, além da representação classicista, ou seja, patrões e empregados poderiamvotar por seus representantes. Mesmo com as reformas eclodiu em São Paulo a RevoluçãoConstitucionalista, que durou três meses, feitas por militares de São Paulo com pequenosreforços de Mato Grosso. Como muitos generais legalistas se recusavam dar apoio a Vargaspara reprimir a revolução, este rompeu com os tenentistas e conseguiu o apoio dos exércitocentral e deu fim a revolta em São Paulo, em 1932. Em 3 de maio de 1933, de acordo com o novo Código Eleitoral, foram feitas aseleições para a Assembléia Constituinte, instituída no mesmo ano, com representantes daantiga oligarquia e das classes trabalhistas dos sindicatos. No ano seguinte a terceiraConstituição do Brasil foi promulgada. A nova Constituição preservava o federalismo, opresidencialismo e a independência dos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Estatização e nacionalização foram sempre presentes no governo provisório, afetandoa política de imigração, de empresas estrangeiras, extração de recursos naturais e imprensa. A novidade da nova constituição é referente as leis trabalhistas, o que no governoanterior era tratado como caso de polícia, agora era de política. Proibições de diferençassalariais com base em sexo, idade ou estado civil, 8 horas diárias de carga-horária, descansosemanal, e várias outros direitos cedidos ao trabalhador. Muitos diziam que era uma manobrapopulista para controlar os sindicatos e as greves. Também foi criado o Ministério daEducação e Saúde, primeira demonstração de importância com o setor da educação, sendoobrigatório o ensino primário.
  4. 4. 10 Entre 1932 e 35, quando começou-se a sentir a crise de 1929, intensificaram osmovimentos esquerdistas e, assim, também movimentos integralistas paramilitares quereprimiam com violência os primeiros. Os esquerdistas chamaram atenção também dogoverno, e Vargas mandou fechar as sedes da ANL, acabando com sua funcionalidade legal. Emais uma vez os comunistas se rebelaram em várias partes do Brasil. Então Getúlio declarou estado de sítio no país, com pretexto de combater a ameaçacomunista, e teve tempo de planejar seu próximo passo referente as eleições que estavam porvir. Congressistas impediram Vargas de renovar seu pedido de sítio, mas, com origemduvidosa, foi apresentado o “Plano Cohen”, que, supostamente, seria um plano comunista deassassinar personalidades importante. Então o Congresso declarou estado de guerra, cenárioperfeito para o golpe de Vargas, que com o apoio de vários governadores e das forçasarmadas, no dia 10 de novembro de1937 apresentou a nova constituição e fechou oCongresso. No dia 2 de dezembro do mesmo ano os partidos foram dissolvidos. Era o iníciodo Estado Novo. Dois ano depois começa a Segunda Guerra Mundial, e o Brasil se mantém neutro, oumelhor, indeciso, com identificações aos governos do Eixo e pressão por parte do EstadosUnidos. Mas, em 1941, o Brasil rompe com o Eixo e no ano seguinte formaliza o apoio aosAliados. Depois de alguns navios brasileiros serem afundados por embarcações alemãs, o Brasilé pressionado a declarar guerra a Alemanha e a Itália. No inicio de sua participação elecontribuía com matérias-primas estratégicas, mas em 1944 enviou a Força ExpedicionáriaBrasileira para lutar na Itália. A vitória das forças democráticas, em 1945, na guerra pôs o governo ditatorial deVargas em situação desconfortável, chamando atenção para as manifestaçõesredemocratizadoras que aconteciam desde a aliança brasileira com os Aliados, e em 1946,depois da tentativa de mais uma manobra para permanecer no governo, Getúlio foi obrigado aabandonar o poder. Era o fim do Estado Novo. Com as manifestações de 1943 até o fim dos trabalhos da Constituinte, em 1946, seencerra com êxito o processo de redemocratização no Brasil.
  5. 5. 112.1 ECONOMIA Pouco antes de 1920, o Brasil passava por um processo de adaptação na sua economia,era necessário uma nova medida de valorização do café, principal produto de exportação dopaís na época, depois da Primeira Guerra Mundial. Porém, após os conflitos, o cenárioeconômico mundial se caracterizou por grandes empresas controlando suas respectivas áreasde atuação, o que levou ao governo do Brasil a criar o Instituto do Café, em São Paulo, a fimde controlar os índices de oferta e demanda do produto no mercado internacional. Como oBrasil mantinha 60% da produção de café mundial, o novo instituto tinha em mãos o controledos preços, mesmo que artificialmente, e para isso começou a estocar cada vez mais café. Porém, em 1924, constatou-se uma contradição nesse controle de mercado, o novoprojeto, por manter os preços do produto, incentivou novos produtores, o que aumentou aindamais o estoque do mesmo. Outra coisa que mudou na economia brasileira após a Primeira Guerra Mundial foi oincentivo a industrialização no país. Uma vez que seus principais parceiros econômicosestavam envolvidos diretamente com a Guerra, o Brasil adotou uma substituição deimportação e medidas de proteção alfandegária aos novos parceiros, o que gerou uma certaproteção as indústrias nacionais. Antes, o desinteresse do governo quanto a industrializaçãoera explicado pelo modelo agro-exportador herdado da colônia, e o café sustentava isso, ondeo Brasil exportava produtos tropicais e em troca importava produtos manufaturados, mas coma dificuldade de importação na época de guerra, o governo tomou medidas de incetivo aindustrialização durante toda a década de 1920. Durante a década de 20 o Brasil segue claramente um modelo mercadante capitalista,tanto no setor agropecuário quanto no industrial, mas o que se ve no mundo é um declínio domodelo capitalista liberal que se seguia desde a Segunda Revolução Industrial, onde ogoverno não intervia nas relações econômicas, na crença da auto-regulamentação pelo própriomercado. Esse período acaba com a Crise de 29. Uma depressão profunda para o mundo capitalista, a Crise de 29, eclodiu nos EstadosUnidos, e repercutiu internacionalmente, inclusive no Brasil, onde abalou toda a economiacafeeira, o que incentivou ainda mais a política industrial. Na década de 30, já no governo Vargas, o governo estipula medidas protecionistas, queestimulam ainda mais a industrialização no país, revalorizam o café com a queima do estoque,o que gera ainda mais renda para a industrialização. Fortalecimento do mercado interno comalta intervenção do governo na economia.
  6. 6. 12 Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial o desenvolvimento industrial sebeneficiou, tendo o mercado interno a sua disposição e buracos a serem preenchidos deixadospor empresas internacionais. O Estado se encarregou da infra-estrutura e ainda criou aPetrobrás. A economia, apesar das conturbações políticas, se manteve característica até a saidade Vargas e o processo de redemocratização, em 1946.2.2 A SOCIEDADE REAGE AO MUNDO Uma proposta ainda duvidosa, que resolveria os problemas ou apenas os maximizaria,ecoava nos pensamentos das pessoas pelo mundo todo. Em plenos destroços deixados pela recém-encerrada Primeira Guerra Mundial, queeram não apenas estruturais e econômicos, mas também psicológicos; com a inauguração deum novo sistema, que dizia se constituir de uma total reforma nos âmbitos todos – fossem elespolítico, econômico ou social – em prol de uma sociedade mais igualitária; fez-se pairar sobreas pessoas de todos os países o socialismo, disseminado através das ideias que embasavam aRevolução Russa (1917), descritas em um Manifesto Comunista, publicado anos antes, porKarl Marx, filósofo alemão. No Brasil, disseminavam-se essas ideologias por todo o país, e estas mesmasembasariam mais tarde diversos movimentos como a famosa Coluna Prestes, que andou maisde 26 km Brasil a dentro espalhando seus conceitos comunistas para depois exilar-se fora dopaís. Foi por essa época também que foram criados alguns direitos favorecendo ostrabalhadores, que revoltaram-se por suas situações precárias de moradia, aviltamento desalários, falta de segurança; e, após diversas manifestações, criaram sindicatos parareivindicarem o que lhes deveria ser oferecido em troca de seu trabalho, força que movia omundo segundo Marx. Vivia-se um período de ditadura com Getúlio Vargas, o que tornava o povo subjugadoe limitava-lhes as idéias; ainda mais tendo-se que a simpatia do líder tornava muitas de suasatitudes autoritárias irrelevantes perante os olhos cegos de seus fies admiradores. E, com tantas mudanças repentinas; tensões provocadas por uma guerra que tinha ido,mas logo se manifestaria em uma nova e mais intensa; novos estilos de arte propostos emâmbito nacional; as pessoas se mostravam estáticas, paradas no tempo, vulneráveis a qualqueridéia que lhes pudesse reavivar a esperança. Uma sociedade ainda confusa, que mais tardedespontaria rumo ao desenvolvimento e globalização que se vive atualmente.
  7. 7. 132.3 A LITERATURA DE CARA NOVA Em 1922, artistas de várias patentes reuniram-se e consagraram uma nova arte, a qualdiziam ter agora uma face pouco mais nacional, que era representada pela recusa em render-senovamente – depois de séculos que já o era feito – à qualquer influência europeia. Assim, deu-se na literatura uma recusa das idealizações românticas, da musicalidade efrivolidade simbolista, do perfeccionismo exacerbado parnasiano, da formalidade realista:criou-se uma arte pura brasileira, levada pela criatividade sem métricas e regras, livre derimas, que trazia críticas e cenas cotidianas, que expressava a partir de então a liberdade doescritor brasileiro em relação ao mundo. Nesse período destacaram-se Monteiro Lobato, acompanhado por Euclides da Cunha,os poetas Oswald e Mário de Andrade, entre outros.
  8. 8. 143. MONTEIRO LOBATO: VIDA E OBRA José Bento Renato Monteiro Lobato, nascido em dia 18 de Abril de 1882 em Taubaté,faleceu na mesma cidade em que seus ossos estão hoje sepultados, no cemitério daConsolação, ou seja, São Paulo, no dia 4 de Julho de 1948, de um derrame cerebral. Passou asua infância em um sítio e aos sete anos entrou em um colégio, e foi nesta idade começou ater interesse pelos livros e particularmente pela biblioteca de seu avô o Visconde deTremembé. Monteiro Lobato Sempre mostrou talento para escrever, sempre escreveu textospara os jornais das escolas que freqüentou. Aos 16 anos perdeu seu pai, José Bento Marcondes Lobato e a sua mãe faleceu umano depois. Como tinha um grande talento para o desenho, tornou-se desenhista e caricaturistae começou a utilizar o dom como fonte de renda. Com a intenção de encontrar melhorescondições de vida, Lobato aos 17 anos muda-se para São Paulo, onde seu maior sonho erafreqüentar a Faculdade de Belas-Artes, mas por pressão do avô ingressou na Faculdade deDireito do Largo São Francisco. Ele continuou escrevendo para jornais e tendo comocaracterística seu censo de humor sutil e fino. Era direto e sem rodeios, fazia críticas semsaber se agradaria ou não. Defendia sua verdade com unhas e dentes, contra tudo e todos. Em 1904, formou-se e voltou para Taubaté para assumir o cargo de promotor e nessetempo casou-se com Maria Pureza da Natividade. Mudou-se para Areias e assumiu o cargo depromotor público, mas na essa a vida que ele queria, paralelamente ele continuava escrevendoartigos para jornais do interior e passou a fazer traduções de revistas americanas para o jornalO Estado de São Paulo e também traduziu obras da literatura internacional. Com o falecimento de seu avô, Lobato tornou-se herdeiro da fazendo Buquira emudou-se com toda a família para a casa da fazenda. Largou a promotoria e virou fazendeiro,dedicou-se à modernização da lavoura e à criação de animais. Lobato não gostava da vida nafazenda e tinha planos para se mudar para São Paulo, abrir negócios e continuar escrevendo. Em 1914, Lobato indignado com as freqüentes queimadas que os caboclos praticavamna fazenda, ele escreveu para o Jornal O Estado de São Paulo uma indignação intitulada“Velha Praga”, que caiu no gosto jornal e foi publicado no editorial. O artigo criou polêmica efez com que ele escrevesse outros artigos, como por exemplo, “Urupês”, que mais tarde virouseu primeiro livro, criando um personagem marcante em seus textos o Jeca Tatu. Nesse tempo a Fazenda de Buquira enfrentou dificuldades com geadas e falta derecursos o que o forçou a vendê-la em 1916 e mudar-se para São Paulo. Foi na fazenda queLobato encontrou inspiração para a criação da maioria de seus personagens. Lobato tornou-se
  9. 9. 15um importante colaborador do jornal O Estado de São Paulo e escrevia muito sobre questõesagrícolas e sobre folclore brasileiro. Em 20 de Dezembro de 1916, Lobato publicou o artigo“Paranóia ou Mistificação”, a famosa crítica à exposição de Anita Malfatti. Monteiro Lobato era a favor da arte criada aqui no país e não cópias nem reinvençõesde tendências européias. Isso criou certa indisposição com os modernistas que o intitularamde reacionário. Lobato tinha por característica ser um nacionalista, e defender muito a pátria.Em 1918, comprou a Revista do Brasil e começou a dar espaço para novos talentos, a revistaprosperou e ele pode montar uma empresa editorial. Sempre dando espaço aos bons artistas.Monteiro inseriu no Brasil a idéia do livro-consumo, com capas atraentes ao olhar e feitascom o esmero necessário para atrair o público. Criou novas políticas de distribuição e umagráfica impecável. Logo fundou a Companhia Editorial Nacional. A menina do Narizinho Arrebitado foi a sua primeira obra infantil e foi de um enormesucesso, dando suporte para novas criações, inclusive a coletânea Sítio do Pica - Pau Amarelo.E como um bom nacionalista seus livros infantis eram recheados de personagens do folclorebrasileiro além dos assuntos didáticos que muito acrescentavam na educação das crianças. O sucesso foi tão alto que demandou investimentos, mas por ocasião de uma graveseca o fornecimento de energia elétrica foi cortado e a gráfica só podia funcionar dois dias dasemana e com a desvalorização da moeda Lobato afundou em dívidas e a companhia foi àfalência. Logo depois abriu outra editora e desta vez variou as publicações, incluindo obrasinternacionais, foi um enorme sucesso de público. Pelo presidente Washington Luis foi nomeado adido comercial nos Estados Unidos,mudou-se para Nova York com a família e seus quatro filhos. Aproveitou esse tempo paraacompanhar os avanços tecnológicos americanos e fez de tudo para trazer essas inovaçõespara o Brasil. Interessou-se por questões ligadas ao petróleo e tinha a convicção de que oBrasil tinha grandes reservas da matéria-prima tão requisitada por todos. Lobato fundou várias empresas para perfurações petrolíferas mas encontrou barreiras eproibições com o governo de Getúlio Vargas. Foi convidado para entrar na Academia Paulistade Letras , criou a União Jornalística Brasileira , foi preso por ter criticado o Governo epassou a denunciar torturas e maus tratos na prisão. A editora brasiliense comprou os direitos dos livros de Lobato e publicou suas obrascompletas em 1943. Lobato Recusou a indicação a Academia de Letras Brasileira e acabou seaproximando do partido Comunista mas negou-se a entrar na vida pública. Seu último livro intitulado Zé Brasil, critica duramente o Governo do General EuricoGaspar Dutra. Sua obra é composta por 30 volumes.
  10. 10. 164. O SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO Obra exímia de Monteiro Lobato, com volumes publicados ao longo de mais de vinteanos, o Sítio do Pica-Pau Amarelo é permeado de coisas surpreendentes, que desafiam acompreensão daquele leitor que analisar a obra desprevenido ou com expectativas deencontrar apenas um sítio, como outro qualquer. De fato esse sítio não é qualquer sítio. O queo leitor encontra nessa obra é um espaço de reflexão, onde Monteiro Lobato retrata diversasquestões pertinentes a época, e alguns aspectos de sua própria vida e personalidade, através dopersonagem que muitos estudiosos acreditam tratar-se do alter-ego do autor, a Emília. Antes de Lobato não havia nem mesmo literatura específica para crianças e jovens. OSítio do Pica Pau Amarelo, apesar de tratar-se de histórias para crianças reflete umapreocupação do autor com a questão da educação, além de algumas outras preocupaçõespertinentes a época. A produção da literatura infantil se inicia em 1920 com a publicação, por MonteiroLobato, do livro “A Menina do Narizinho Arrebitado”. No ano seguinte, esse livro, com atiragem de 50 mil exemplares é adotado pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulocomo o segundo livro de leitura para o uso em escolas primárias. Com esse livro, Lobatoinicia a sua produção de histórias infantis, voltadas à informação e também a formação dajuventude brasileira. Como inovação para a época, nas obras de Monteiro Lobato sãointroduzidas ilustrações de desenhos vistosos, dando assim um ar colorido e gracioso aoslivros. Monteiro Lobato antes mesmo da publicação de suas obras infantis, dedicava-se acrítica de arte, e possuía idéias avançadas para a época, entanto Monteiro Lobato acabaficando de fora do movimento que eclodia na época, o modernismo. Monteiro Lobato comsua crônica “Paranóia ou Mistificação”, critica obras de Anita Malfati, pintora que expôs seusquadros em um vernissage em 1917, e desse modo acaba sendo banido como participante domovimento cultural mais importante da época, A Semana de Arte Moderna de 1922. Entretanto a genialidade de Monteiro Lobato não deixa de ser reconhecida, pois umdos principais mentores daquele movimento, Oswald de Andrade lhe envia em 1943 umacarta cumprimentando-o pelos vinte e cinco anos do lançamento de sua obra “OUrupês”(1918) e chamando-o de “o Gandhi” do modernismo. O objetivo do autor, ao desenvolver a obra “Sítio do Pica Pau Amarelo” estavabaseado na máxima de que é necessário saber para crescer, não apenas de modo biológico,mas também de modo cultural, pois só é pode considerar-se culturalmente livre quem possui o
  11. 11. 17conhecimento. Podemos observar que nas obras infanto-juvenis de Monteiro Lobato, nãoexiste a figura do vilão nem a figura do herói, como acontece em outras obras infantis. Ovilão, ou vilã, nas histórias de Lobato, é a ignorância, e isso pode ser claramente visualizadoem seus livros, através dos seus personagens, pois sempre existe a busca do conhecimento,herói que sempre derrota a ignorância. Outro ponto que ressalta diferença nos livros de Monteiro Lobato é aquela íntimaunião que o autor faz entre o real e o imaginário, e o autor faz isso de uma maneira onde oleitor acaba achando perfeitamente aceitável a existência de um boneco feito de sabugo demilho, que é um sábio pesquisador da ciência, e de uma boneca de pano, a Emília, que fala e émuito esperta e que como acreditam muitos estudiosos, é o próprio pensamento eprocedimento – alter ego – de Monteiro Lobato. Há ainda o Burro Falante, um personagemcom pensamentos de filósofo, há o Quindim, um rinoceronte que foge de um circo e se acabaabrigando-se no Sítio do Pica pau Amarelo, e é adotado pelos seus habitantes. Quindim é umrinoceronte que fala e conhece a gramática, sendo uma espécie de guia dessa matéria quandoa turma do sítio busca esse tipo de conhecimento, mais especificamente no livro Emília noPaís da Gramática. Ainda levando em conta a questão da fantasia, existe o Faz-de-conta da Emília, que ousa quando algo de extravagante precisa ser feito, e o pó de pir-lim-pim-pim, advento doVisconde, baseado em seus conhecimentos sobre química. Esse pó mágico permite que ospersonagens do Sítio viagem à Grécia e a Ilha de Creta, nos livros “O Minotauro” e “Os DozeTrabalhos de Hércules”, respectivamente. Ainda com esse pó mágico, os personagens viajamà Lua, a Marte e à Saturno no livro “A viagem ao céu”. Na obra, além da representação das crianças e suas fantasias, existem os adultos,representados por Dona Benta e Tia Nastácia. Dona Benta é a caricatura perfeita daqueleadulto culto, a avó conselheira, que transmite conhecimentos, mas também aceita asatividades dos netos, já a Tia Nastácia representa aquele adulto popular, cheio de crendices.Pedrinho e Narizinho representam as crianças na faixa etária entre 9 – 10 anos. Existe ainda omarquês de Rabicó, um leitão que vive no sítio. Um personagem que possui um papel muito importante em alguns livros da série é oVisconde de Sabugosa, no livro “A Reforma da Natureza”, Emília resolve mudar algumascoisas, como por exemplo, implantar torneiras nos úberes das vacas, e fazer com que asborboletas voem mais lentamente, nesse mesmo livro o Visconde altera o tamanho de algunsanimais, causando problemas no sítio, e desse modo é evidenciada a questão da natureza, quenão deve ser modificada. No livro “O Poço do Visconde”, o personagem fala sobre geologia,
  12. 12. 18ensinando sobre petróleo, fato que reflete um pouco da vida do autor, já que Monteiro Lobatopossuía certa paixão pelo assunto. Em outros livros da série Monteiro Lobato retrata outras questões relevantes, no livro“História do Mundo para as Crianças” é contada a história da espécie humana, no livro “AChave do Tamanho”, Emília vai para o País das Chaves, e ao tentar desligar a chave daguerra, a boneca acaba desligando a chave do tamanho, reduzindo assim todos os sereshumanos a três centímetros. No livro “A História das Invenções”, Dona Benta explica aexistência do vidro, do telégrafo, da lâmpada, do telescópio, entre outros instrumentos. A“Aritmética da Emília” e “Geografia de Dona Benta”, também são livros muito didáticos, otipo de literatura a qual todas as crianças deveriam ter contato. A literatura infantil de Monteiro Lobato, apesar de possuir este título é destinadatambém a adultos, para que estes revejam conceitos que talvez tenham esquecido. ParaMonteiro Lobato, “Um país se faz com homens e livros”, e para isso escreveu em seus 66anos de vida 19 livros para adultos e 23 livros para a literatura infanto-juvenil. Contudo,mesmo com obras geniais publicadas, Monteiro Lobato não faz parte da Academia Brasileirade Letras.4.1 A LITERATURA INFANTIL Antes de se pensar em literatura para crianças, os textos passados para os pequenoseram os mesmos escritos para os adultos. Ainda que existissem contos, lendas contadas paraEuropa um movimento de autores que faziam livros voltados diretamente para o públicoinfantil. Entre os principais autores dessa época incluem-se Perrault (Chapeuzinho Vermelho,O Gato de Botas, A Bela Adormecida, etc.), os irmãos Grimm (João e Maria, Branca de Neve,A Gata Borralheira, etc.), La Fontaine (O Lobo e o Cordeiro), Andersen (O Patinho Feio),Esopo (A lebre e a tartaruga, O lobo e a cegonha, etc.). crianças, não havia a preocupação dese registrar tais histórias. Por essa razão, as poucas crianças alfabetizadas liam os mesmostextos que eram lidos por seus pais, ou tutores, sem distinção de idade. Dessa forma, pode-seperceber como os mais novos eram vistos como pequenos adultos, e não como crianças. Essasituação só começou a mudar depois de muito tempo. Todas as histórias citadas no parágrafo anterior possuem algum tipo de moral quedeveria ser passada aos pequenos leitores. Juntando esse objetivo ao contexto social e
  13. 13. 19econômico da época, criam-se semelhanças entre ambos. Por isso, alguns estudiososquestionam a literatura infantil, como se esta fosse apenas um processo pedagógico-comercial, e não uma obra artística, literária. Desse modo, a literatura infantil até então serviacomo reforço para a nova doutrina capitalista que se desenvolvia na Europa, começandodesde os pequenos leitores, fazendo esse modelo social impor-se juntamente com o trabalhoda escola, transformando a sociedade em uma forma mais urbanizada. Porém, esta monografianão tem como objetivo, e nem pretende discutir o mérito da questão, e tais histórias serãoconsideradas como literatura. Como fortes características desse tipo de história estavam incluídas narrativas commuitas aventuras, cenas e criaturas fantásticas, situações pertencentes ao cotidiano infantil,uso de diálogos em forma de discurso direto, comumente finais felizes e, juntamente com otexto, apareciam ilustrações para alimentar a fantasia da história. Todas essas característicasforam aparecendo aos poucos, na medida em que se descobria as melhores formas de abordartemas que estimulassem o interesse das crianças na leitura. Em diversas histórias, a moraltambém se fazia presente, como já discutido anteriormente. A literatura infantil brasileira escrita não tem mais do que dois séculos de vida.Surgida no século XIX, com influência do estilo europeu de fazer histórias para criança,chegou por aqui com décadas de atraso. Porém não se pode pensar que não existiam históriasinfantis no Brasil. Elas já existiam, mas eram apenas circuladas pela forma oral. Partindo do pressuposto que as obras voltadas às crianças tinham um objetivopedagógico-comercial, pode-se perceber que a essas obras começaram a aparecer no Brasil apartir do momento em que o país entra em um processo de modernização, e introdução demodelos econômicos apoiados no capitalismo. Assim, os livros infantis estariam ligados aomesmo processo de educação que trará uma mudança no sistema econômico e de organizaçãoda sociedade. Primeiramente, Alberto Figueiredo Pimentel e Carlos Jansen traduziram históriasinfantis europeias para o português, e assim começaram a aparecer os livros voltados para ascrianças brasileiras. Ainda que um grande passo, os livros infantis ainda continham apenashistórias de outras culturas que eram diferentes das tradições brasileiras. Além disso, oanalfabetismo tinha um índice ainda muito elevado, e com isso a literatura escrita começoumais voltada aos que podiam ler (pertencentes de famílias ricas). Foi a partir desses métodosde escrita, elaborados pelos europeus, que alguns escritores brasileiros se arriscaram a
  14. 14. 20começar um trabalho de escrever histórias originais para crianças. Este começo ainda foitímido e teve seu maior reconhecimento justamente com Monteiro Lobato, apenas anos maistarde. No primeiro momento, a imprensa do Brasil ainda era muito atrasada, e a poucatradução dos livros europeus, e posteriormente a pouca elaboração dessas obras nacionais,fizeram com que esse gênero obtivesse pouca divulgação nacional, tendo edições escassas emal distribuídas pelo território. Até aqui, pode-se resumir a literatura infantil brasileira como: surgimento baseado emtraduções; adaptações de histórias européias para o Brasil; e início da produção genuinamentebrasileira. Depois de estabelecido o gênero no Brasil, houve mudanças na produção das obras deacordo com os movimentos literários vividos. No início do século XX, Monteiro Lobato criouseu famoso “Sítio do Pica Pau Amarelo”, obra considerada de maior importância no gêneroinfantil nacional. A partir dessa época, intensificou-se a produção da literatura para crianças, com novosvalores, como o nacionalismo, e novos autores como Ziraldo e Ana Maria Machado, fazendodesse cenário uma constante na produção literária brasileira, obtendo apoio comercial daseditoras na segunda metade do século XX.4.2 AS PERSONAGENS O universo social criado por Monteiro Lobato na obra “O Sítio do Pica Pau Amarelo”é bastante caricato e, por isso, de certa forma, didático. A maioria dos personagens representaestereótipos encontrados na sociedade brasileira, sendo, portanto, facilmente identificadospelas crianças, que começam a desenvolver o seu próprio imaginário cultural em um processode aprendizado por assimilação. Também por isso, os livros da obra são marcados porelementos e seres fantásticos, como viagens a lugares imaginários e criaturas do folclorebrasileiro, o que, além de marcar para sempre a literatura infantil, fortaleceu a cultura nacionalcomo importante patrimônio. Pode-se dividir os personagens do “Sítio” entre os tipos sociais e os seres fantásticos.Os tipos sociais são as pessoas que possuem um comportamento típico, estereotipado. DonaBenta, por exemplo, possui as características que representam o papel de avó: tem cabelosbrancos, sabe contar histórias muito bem e é, de certa forma, assexuada, já que a imagem daavó, para as crianças, não envolve relacionamentos amorosos, mas, sim, um caráter familiar, a
  15. 15. 21senhora que vive em função dos seus parentes. Sendo assim, ela é a figura materna da obra,vista aqui como a responsável pela criação e educação das crianças. Tia Nastácia e TioBarnabé, por sua vez, representam o papel do negro na sociedade da época, já que ambosconfirmam a ideologia escravista que ainda existia, a qual associava o negro ao trabalhobraçal e ao esforço físico. Tia Nastácia, como a cozinheira, e Tio Barnabé, como o trabalhadorda roça que conta as histórias do folclore, são figuras que representam, ainda hoje, as classessociais mais baixas, as quais ficam encarregadas dos trabalhos menos remunerados. JáNarizinho e Pedrinho são as crianças da obra que, justamente por isso, protagonizam asaventuras. Uma vez que os livros eram destinados ao público infanto-juvenil, o fato de seutilizar protagonistas nessa faixa de idade promove uma maior identificação do leitor com aobra. As crianças, por não terem tanta experiência e conhecimento de mundo, não discernemmuito bem o real do imaginário, permitindo-se acreditar em inúmeras fantasias, como as quecompõem as histórias do “Sítio”. Isso inclui não só as aventuras surreais, como um passeio no“mundo da gramática”, como a presença dos seres fantásticos, presentes em toda a obra. Os seres fantásticos, diferentemente dos tipos sociais, representam características dosseres humanos de uma forma mais metafórica, de modo que não são encontrados na sociedadepor serem imaginários, mas sugerem comportamentos observados nas pessoas. O Visconde deSabugosa, um sabugo de milho com personalidade humana, por ter um vasto conhecimentoadquirido nos livros da biblioteca do sítio, enaltece a razão científica, numa corrente depensamento que pode ser associada ao positivismo. Assim, ele classifica as crenças daspessoas mais velhas do sítio como crendices e superstições, tirando a credibilidade dasmesmas, comportando-se como um positivista. Já os personagens Cuca e Saci Pererê foramtrazidos do folclore brasileiro e, por isso, materializam as histórias que compõem o mesmo.Eles simbolizam as crenças que surgem, principalmente, nas regiões rurais do país e que, paraos habitantes dessas áreas, têm mais valor que o conhecimento científico. Como o ambienteprincipal da obra é um sítio, é natural que o folclore apareça personificado e materializado, jáque essas histórias têm grande importância no cotidiano, inclusive, para explicar osfenômenos da natureza, uma vez que a ciência não tem tanta propagação nas regiões menosurbanas. Por fim, a personagem Emília, uma boneca que fala, possui um comportamentobastante irreverente, sendo a criação mais lembrada de Monteiro Lobato, dentro da obra do“Sítio”. Ela é uma metáfora tanto da curiosidade das crianças quanto de um comportamentomais revolucionário que pode estar presente na sociedade. Através das “asneirinhas” que elafala, desconsideradas pela maioria dos outros personagens, há sempre uma opinião forte quecontesta os valores da sociedade. Por não ser gente, pode-se dizer que ela tem mais liberdade
  16. 16. 22de reclamar dos modos de pensar das pessoas, e, através das falas dela nos livros, MonteiroLobato expunha modos diferentes de pensar que iam contra as ideias da época. Essecomportamento contestador, apesar de condizer com os pensamentos de alguém que estudoumuito, como o autor, que possuía reflexões acerca dos mais variados assuntos, pode serassociado também com os pensamentos de uma criança, que não está tão presa a modeloscomportamentais de uma sociedade e tem dúvidas quanto aos estilos de vida nela adotados.4.3 O SÍTIO NA TV A série de TV “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, baseada nos livros de Monteiro Lobatoque compõem a obra de mesmo nome, começou no fim da década de 50, sendo transmitidapela TV Tupi e foi uma importante forma de propagação do universo cultural apresentadopelo autor, que perdurou durante muitos anos na televisão aberta. Este foi considerado oprimeiro seriado brasileiro e, não por acaso, se tornou líder de audiência no canal. Sendo umprojeto que buscou fidelidade tanto à imagem dos personagens como aos detalhes da obra, noque diz respeito às ideias que Monteiro transmitia nas histórias, a série agradava adultos ecrianças, colocando os temas mais diversos de uma forma interessante e educativa. Assim,durante as décadas posteriores, várias outras adaptações do “Sítio” foram feitas por variadasemissoras, que, geralmente, faziam bastante sucesso com a transmissão das séries. Um importante contraponto a se fazer, no entanto, é a capacidade de aprendizado dopúblico infantil através da televisão. Isso porque, sendo um meio de comunicaçãoessencialmente baseado em imagens e sons, não há tanta retenção das informações por partedo espectador, uma vez que há distração e eventuais interferências exteriores durante aexibição programa que dificultam a absorção do conhecimento transmitido. Tais interrupçõesna comunicação fazem com que os programas tendam a repetir mais vezes as ideias e explicá-las de uma forma mais simples, menos detalhada: fácil de entender, mas sem todo o conteúdoque o autor desejava passar. É interessante que leitura, um hábito culturalmente riquíssimopara a criança e mais eficiente que a televisão na questão do aprendizado, não seja trocadapelo uso da televisão, já que a obra original proporciona uma experiência mais produtiva, umavez que estimula a criança a criar as próprias imagens dos personagens, as respectivas vozes eela tem a liberdade de imaginar o universo de Monteiro Lobato da maneira dela, um enormeincentivo à criatividade. Esse é o risco, portanto, de se adaptar os livros do “Sítio” a perda departe do seu valor cultural. Veicular a série de TV, ainda, numa emissora que não tem caráter
  17. 17. 23educativo, como a Globo, o que ocorreu em 2001, por exemplo, é um perigo semelhante, jáque há um foco grande na comercialização de brinquedos, revistas e jogos para crianças enem sempre se mantém as histórias com a mesma conotação das originais.5. LOBATO NO PAÍS DA GRAMÁTICA Volume pertencente ao grande leque de ramificações da obra de Lobato, o livro Emíliano País da Gramática conta a estória de como foi a visita de Narizinho, Emília, Pedrinho,Visconde de Sabugosa e Quindim ao País da Gramática, onde residem todas as palavras eexpressões das línguas, focando-se em Portugália, cidade em que vivem as palavras do idiomaportuguês. Para muitos estudiosos a obra foi feita por Lobato por um espécie de “vingança” aofato de ter sido reprovado aos quatorze anos de idade na prova de língua portuguesa, o que sepode tirar de uma de suas frases, dezenove anos depois: “Da gramática guardo a memória dos maus meses que em menino passei decorando, sem nada entender, os esoterismos do Augusto Freire da Silva. Ficou-me da ‘bomba’ que levei, e da papagueação, uma revolta surda contra a gramática e gramáticos, e uma certeza: a gramática fará letrados, não faz escritores.” (LOBATO, ) Através do livro, percebe-se que o autor, por meio da fantasia, nos mostra uma novamaneira de ver a gramática e o seu ensino, bem diferente da forma maçante que era utilizadaem seu tempo, e, pode-se dizer que é até hoje. No livro, através da fala de Quindim, orinoceronte gramático, o autor expressa sua opinião sobre a forma da gramática: “[...] Mas ossenhores gramáticos são uns sujeitos amigos de nomenclaturas rebarbativas, dessas quedeixam as crianças velhas antes do tempo.” (LOBATO, 1972, p. 296). Neste período, passa-sea idéia de que as regras utilizadas pelos gramáticos tornam as crianças “velhas antes dotempo”, ou seja, por terem que decorar tudo, acabam perdendo sua enorme capacidadeimaginativa e retardando seu desenvolvimento intelectual, já que não aprendem a fazerrelações e a memorizar tais regras, se tornam, de certa forma, adultas. Além disso, o termo“(os gramáticos) são uns sujeitos (grifo nosso)” nos remete a idéia de que Monteiro Lobato osvia como pessoas que não mereciam tanto respeito quanto lhe davam. Sentimos, ao ler isto,certo sentimento de repulsa e desrespeito por parte do autor quanto aos estudiosos da língua,que, pela opinião de Monteiro, acabavam tornando-a mais complicada, por causa de suasregras.
  18. 18. 24 Lobato segue em sua obra a gramática normativa, e utiliza-se do livro GramáticaHistórica de Eduardo Carlos Pereira (editada pelo próprio Lobato, na Companhia Gráfico-Editora Monteiro Lobato, nos anos 20) para a construção de “Emília no País da Gramática”,que cita em certo momento a obra de Eduardo vista como a causa do grande conhecimento deQuindim em gramática. O rinoceronte, aliás, acaba se tornando na história o educador e guiada turma do sítio na nova aventura, permitindo que as próprias crianças escolham o quedesejam conhecer no novo mundo que lhes é apresentado, e, tornando o ensino mais divertidoe leve. O autor, de certa forma, pretendia criar um livro paradidático, e não apenas umaficção. Através da personificação das palavras e da criação de um país da língua portuguesa,ele disfarça as regras, concretizando-as por meio da formação de imagens, e ensina agramática de um modo leve e divertido, sempre trabalhando com a imaginação pueril.5.1 O LIVRO O volume foi escolhido para ser analisado, pois seu tema principal é a língua em si,tendo uma relação direta com a nossa disciplina, Língua Portuguesa e Expressão Oral. Assim,os temas abordados durante a leitura são todos voltados para as regras e forma da línguaportuguesa. O livro começa com Pedrinho dizendo que gramática é uma “caceteação”,mostrando que a forma de ensino utilizada na época, baseada em regras decoradas, fazia comque a criança não gostasse da matéria. Após algumas lições com Dona Benta, Emília tem aidéia de ir ao país de Portugália, para que eles vivessem a gramática. É neste país que a turmaparticipa de muitas aventuras e aprende gramática brincando. Durante a leitura, observamostemas relacionados ao português que são discutidos e ensinados, como a existência ecaracterísticas das classes gramaticais (substantivos, adjetivos, pronomes, artigos e numerais,verbos, advérbios, preposições, conjunções e interjeições). Após esse estudo, Lobato foca olivro para a parte da Etimologia, a origem das palavras. A partir disso, a turma descobre comoformar palavras, aprendendo sobre a raiz, sufixos e prefixos. Descobrem também a existênciade palavras estrangeiras e as formas de pontuação, além da ortografia. As crianças vão, comQuindim, nos “domínios da sintaxe”, além da morfologia, entra em discussão no livro asintaxe. Assim, aprendem sobre as figuras de sintaxe (ou sintáticas) e as orações e períodos dalíngua. Também conhecem os vícios de linguagem, capítulo que analisaremos com maioratenção mais para frente. Também observamos que, conforme lemos o livro, analisamos diversas falas das
  19. 19. 25personagens que acabam mostrando a visão de Monteiro e da sociedade sobre muitosassuntos. Destaca-se nesse ponto a personagem Emília, que inclusive aparece no título. Porser uma boneca “atrevida”, que muitas vezes “abre” sua “torneirinha de asneiras”, falandotudo o que pensa, a personagem mostra a nova visão que se tinha da língua, e demonstra, emdiversos períodos, que a lógica pueril teria mais sentido para formá-la do que a lógica dos“grilos” (policiais) do Português, os gramáticos. Assim, além de estudarmos a língua portuguesa, sua estrutura e forma; podemostambém analisar as idéias passadas pelas personagens, através de suas falas e temas abordadosao longo dos capítulos. Nossa análise em relação à língua tem, portanto, um fundo social ehistórico, além do técnico.5.1.1 Análise do volume O livro não é escrito de uma forma pueril, já que são utilizados períodos maisdesenvolvidos, por exemplo. Podemos observar essa característica com o trecho: “Os meninosentraram por um desses bairros pobres, chamado o bairro do Refugo, e viram um grandenúmero de palavras muito velhas, bem corocas, que ficavam tomando sol à porta de seuscasebres.” (LOBATO, 1972, p.p.296-297). Apesar de o período em questão ser formado porpalavras que podem ser consideradas simples, ou então que são mais condizentes aovocabulário infantil, ao mesmo tempo é comprido e formado por diferentes orações(coordenadas, como “e viram um grande (...)” e subordinadas, como “que ficavam (...)”) econjunções (e, que), demonstrando um maior cuidado e desenvolvimento da escrita. Apesar de ser escrito de uma maneira complexa, de certa forma, ”Emília no País daGramática” é voltado para crianças. Assim, utilizaram-se palavras que eram comuns aouniverso delas, como podemos observar na primeira fala de Pedrinho: “Maçada, vovó. Bastaque eu tenha de lidar com essa caceteação (grifos nossos) lá na escola. As férias que venhopassar aqui são só pra brinquedo.” (LOBATO, 1972, p. 293). Nesta fala, o neto reclama, poisa avó quer lhe ensinar gramática. Assim, mostrando que achava a matéria “tediosa” esacrificante, Pedrinho utiliza o termo “maçada”, comum às crianças da época em que o livrofoi escrito. Temos também a palavra “caceteação”, que demonstra o incômodo que agramática traz às crianças, por ter muitas regras. Mais uma vez, em alguma parte do texto, oautor expressa sua opinião sobre o ensino da gramática. Algumas expressões também sãoutilizadas, como: “pozinho levado da breca”, dizendo que o “pozinho” (de pirlimpimpim) é“sapeca”, fazem coisas absurdas acontecer. Expressão utilizada pelas crianças da época, e,
  20. 20. 26portanto, pelos adultos de hoje. Lobato utiliza também muitos diminutivos. Palavras como“letreirinho”, “cordinhas”, “baitaquinhas”, “silabazinha” tornam a leitura mais leve, e fazemcom que a criança se identifique com a forma de falar das personagens. Seguindo essa idéia em relação ao ensino, o autor faz com que o livro seja mais leveao ensinar gramática, através da criação de um país (Portugália) e da personificação daspalavras. Assim, quando a turma resolve conversar com uma palavra (que, na história, é umapessoa de fato), acaba aprendendo tudo sobre sua classe e significado. As palavras emPortugália vivem em bairros, moram em casas, têm famílias como seres humanos, se tornam,portanto, seres vivos, que é a idéia que Lobato (1972, p. 297) passa: “(...) Porque as palavrastambém nascem, crescem e morrem, como tudo mais.”, ou seja, a língua é viva! Há a idéiatambém de que, a partir da criação de Portugália e da personificação das palavras, o autor nosmostra a importância e as particularidades que a língua possui, como se, de fato, fosse um paísa parte, com suas próprias leis e habitantes. No livro, as diversas classes de palavras moram em diferentes lugares ou bairros,assim: “A gente importante morava no centro e a gente de baixa condição, ou decrépita,morava nos subúrbios.” (LOBATO, 1972, p. 296). Fazendo um paralelo com as cidades domundo real, e, ao mesmo tempo, uma crítica à essa realidade, Monteiro Lobato mostra que aspalavras mais utilizadas, ou seja, que prestam mais serviços aos homens, e que sãooficializadas pelos gramáticos; moravam no centro da cidade de Portugália, enquanto asoutras (arcaísmos, neologismos, gírias), que ou não eram oficiais na língua ou já não lheserviam mais, moravam nos subúrbios. Visto isso, os arcaísmos eram idosos que moravam emum desses bairros mais pobres, os neologismos eram jovens, e as gírias são nomeadas de“molecada”, já que são dinâmicas e mudam rapidamente, são como crianças brincando,sempre em movimento. No texto, observamos que as palavras, como todas as pessoas, são nomeadas conformeum nome próprio, que no caso, na verdade, é a própria palavra, só que escrita com letramaiúscula e em itálico, para facilitar o entendimento da criança e ao mesmo tempo continuardentro da gramática normativa. Assim temos tal frase como exemplo: “Veio abrir o PronomeEu.” (LOBATO, 1972, p. 307). Podemos observar também algumas mudanças na língua, desde que ela foi escrita porMonteiro. Algumas palavras que eram consideradas neologismos em sua época tornaram-semuito usadas por nós, como Chutar ou Encrenca; alguns ditados e termos acabaram caindo nodesuso, como na fala de Narizinho (LOBATO, 1972, p. 300): “Falai no mau, aprontai o pau”,“(...) suando em bicas”, “(...) só dando com um gato morto em cima”; além das mudanças
  21. 21. 27recentes na gramática, como o desaparecimento do hífen e dos acentos de algumas palavras. Um aspecto muito interessante dessa obra de Lobato é o fato de conseguirmosperceber, com sua leitura, algumas idéias que existiam na época ou que o autor defendia. Eledemonstra em várias passagens seu pensamento em relação à língua e seus detalhes, atravésdas personagens. Assim, em uma parte do livro, quando a turma descobre os Barbarismos, palavrasestrangeiras, Quindim explica que estas só podem andar por Portugália se estiveremacompanhadas por aspas ou grifos, regra utilizada até hoje. Lobato, então, expressa, por meiode Narizinho, sua opinião de que tais palavras não deveriam ser tratadas diferentemente daspertencentes à Língua Portuguesa. Para ele, tal regra não deveria existir, como ocorre com oInglês, defendendo essa idéia a menina fala: “Eu, se fosse ditadora, abria as portas da nossalíngua a todas as palavras que quisessem entrar – e não exigiria que as coitadinhas de foraandassem marcadas com os tais grifos e tais aspas.” (LOBATO, 1972, p. 299). Lobato também nos remete à teorias de reconhecidos autores, como Saussure eVigotsky. Em relação ao primeiro estudioso, se analisarmos a fala da personagem Emília(LOBATO, 1972): “(...) Nome é nome; não precisa ter relação com o “nomado”.” podemosidentificar a alusão à teoria da arbitrariedade do signo. Saussure (apud BLIKSTEIN, 1990)defende a idéia de que a relação entre o signo e o significado que ele representa não é natural,é estabelecido por um consenso social, e, então, um não possui relação direta com o outro,como defende a boneca. Quanto à Vigotsky (2005), lembremos que o autor defendia que opensamento e a linguagem, a partir de certo momento da vida da criança, tornavam-seinseparáveis, ou seja, o pensamento só poderia ser formulado e desenvolvido através dalinguagem. Visto isso, no livro “Emília no País da Gramática” temos o seguinte trecho: “(...)Todas (palavras) somos por igual importantes, porque somos por igual indispensáveis àexpressão do pensamento dos homens.”, analisando tal afirmação do pronome Eu, podemosentender que Lobato compartilhava da mesma opinião de Vigotsky, já que deixa claro que opensamento dos homens só pode ser expresso por meio da língua, e portanto, também éformado por meio dessa relação de dependência (pensamento x linguagem). Lobato (1972) faz diversas relações entre Portugália e o mundo real. Assim, em umdesses trechos, ele lembra que os Nomes Próprios consideram-se muito importantes pornomear pessoas, e possuem diversos nomes comuns a seu serviço. Segundo ele: “(...) OsNomes Comuns formam a plebe, o povo, o operariado, e têm a obrigação de designar cadacoisa que existe (...)” (LOBATO, 1972, p. 301). Se analisarmos esta frase do autor,percebemos certo desdém em relação ao povo e aos nomes comuns, porém, se pensarmos
  22. 22. 28realmente, lembramos que os nomes comuns, por mais insignificantes que sejam, sãosubstantivos, e então: “(...) indicam a substância de tudo.” (LOBATO, 1972, p. 300). Monteiroentão estaria nos passando que a plebe, o povo, o operariado também são a substância dasociedade, são eles que a formam de fato, assim como os nomes comuns formam a língua. Ainda em relação aos substantivos, aos nomes próprios mais especificamente, temosum trecho: “(...) O nome Europa era o mais empavesado de todos; louro, e dum orgulhoinfinito. Passou rente ao nome América e torceu o nariz.” (LOBATO, 1972, p. 301).Percebemos que o autor caracteriza as palavras conforme as pessoas que elas representam, nocaso, pessoas que moram no lugar que elas representam. Por isso, entendemos que a Europa,assim como os europeus, é mais “empavesada” e se considera, de certa forma, maisimportante que continentes com uma história diferente, como a América, que foi colônia depaíses europeus. Foi pela história de colonização também que a palavra Europa “torceu onariz” para a palavra América, pois, lá no fundo, sente como se essa ainda fosse um local dedomínio (que não merece o devido respeito dado à ela), porém que está se desenvolvendo,fato impróprio para uma “colônia”. O autor, para explicar a origem do bairro da Brasiliana, que fica dentro de Portugália,faz um paralelo com o descobrimento e formação do Brasil, assim: “(...) Com o andar dotempo essas palavras (portuguesas) foram atravessando o mar e deram origem ao bairro de cá,onde se misturaram com as palavras indígenas locais.” (LOBATO, 1972, p. 300). Entende-se,portanto, que o bairro de Brasiliana, são as palavras utilizadas no Brasil, que foram para estebairro depois que saíram do Bairro Antigo (das palavras portuguesas), atravessando o mar eencontrando uma terra onde já haviam línguas indígenas. Voltando para um lado mais social do livro, percebemos que o termo “negra”,referindo-se a Tia Nastácia, aparece diversas vezes nele, em alguns trechos como: “(...)Danada para tudo, aquela negra...” (LOBATO, 1972, p. 317). Além de tal denominaçãoutilizada, aparece no livro também: “(...) Tomara que seja uma negrinha preta que nemcarvão...” (LOBATO, 1972, p. 301). Em uma primeira análise, não há como pensar queMonteiro Lobato não era racista. Porém, devemos recordar que, atualmente, o assunto acercado racismo é muito mais presente e combatido em nossa sociedade do que era na época doautor. Apesar de o racismo e os direitos dos negros serem discutidos, com mais força, noBrasil desde o final da segunda guerra mundial, de fato, tal problema é realmente posto empauta a partir da década de 60, nos Estados Unidos da América, onde, em meio ao movimentohippie e à guerra fria, os negros, através dos Panteras Negras e personalidades como MartinLuther King, mostraram-se presentes na sociedade e exigiram seus direitos. Visto isso,
  23. 23. 29podemos afirmar que Monteiro Lobato realmente utilizava termos que hoje são consideradospejorativos e racistas, e que até nos remetiam à idéia de escravidão (lembrando que TiaNastácia era quem trabalhava no sítio), porém, esses termos que em sua época eram comuns,e não tinham tamanha repercussão. É interessante observarmos como a nossa percepção darealidade muda com o andar da história. A forma como Lobato descreve Tia Nastácia ou serefere à população negra, hoje, seria considerado racismo, e o autor sofreria gravesrepreensões por utilizá-los em um livro, principalmente um infantil, já que, para ele, aeducação das crianças é muito sensível, qualquer pensamento que seja passado pode marcá-las, para o bem ou para o mal inclusive. Por outro lado, em sua época, esse modo detratamento em relação aos negros era considerado normal, portanto, Lobato apenasdemonstra, com isso, fazer parte de um certo período da sociedade brasileira. Um último assunto apresentado no livro é a ideia de Lobato (1972) de que, na verdade,quem faz a língua é o povo, incluindo pessoas incultas, e não os gramáticos. Assim, o autormostra que, de certa forma, não concordava com o estruturalismo de Saussure, mas sim queestá em uma maior sintonia com a linguística moderna, comentada por Petter (2007), quedefende a ideia de que a língua também se modifica através da fala, e, por isso, ela tambémdeve ser estudada. Lobato, portanto, lembra que a língua se modifica, pois é viva. E essasmodificações, por sua vez, ocorrem por causa da utilização que o povo faz dela, assim, oserros cometidos e repetidos também transformam a língua. Dona Etimologia, personagem deLobato, comenta: (...) As pessoas cultas aprendem com professores, e, como aprendem, repetem certo as palavras. Mas os incultos aprendem o pouco que sabem com outros incultos, e só aprendem mais ou menos, de modo que não só repetem os erros aprendidos como perpetram erros novos, que por sua vez passam a ser repetidos adiante. Por fim há tanta gente a cometer o mesmo erro que o erro vira Uso e, portanto, deixa de ser erro. (LOBATO, 1972, p. 321) A partir desse trecho, fica claro a importância social que o erro de português possui. Opovo, perpetuando o erro, acaba fixando-o na língua, e, por ser utilizado deixa de ser erro.Dona Etimologia (LOBATO, 1972) ainda dá o exemplo da palavra espelho. No Latim eraSpeculum, ao chegar em Portugal, através dos soldados romanos, foi sendo gradativamente“errada” e tornou-se Espelho, e continua mudando, Narizinho lembra que as pessoas docampo dizem “Espeio”. Assim, com um exemplo prático, Lobato mostra um lado social muitoforte, passando para as crianças que as pessoas ignorantes, ou seja, que não sabem utilizar
  24. 24. 30direito a língua, devem ser bem vistas também e não repreendidas, já que: “(...) O que nóshoje chamamos de certo, já foi erro em outros tempos.” (LOBATO, 1972, p. 321).6. EMÍLIA: A DONA TORNEIRINHA DE ASNEIRAS A Emília foi escolhida para ser analisada por se tratar de uma das personagens maisintrigantes e apaixonantes da coleção de histórias do Sítio do Pica Pau Amarelo. A boneca (...) foi feita por tia Nastácia, com olhos de retrós preto e sobrancelhas tão lá em cima que é ver uma bruxa. Apesar disso Narizinho gosta muito dela; não almoça nem janta sem a ter ao lado, nem se deita sem primeiro acomodá-la numa redinha entre dois pés de cadeira. (LOBATO, 1972, p. 11) Emília era feita de pano, e, como todas as bonecas, muda. Porém, em “Reinações deNarizinho”, após engolir uma pílula falante do Doutor Caramujo, passou a falar muito e teropinião sobre tudo, apesar de, podendo considerá-la uma criança, saber pouco de fato: Emília engoliu a pílula, muito bem engolida, e começou a falar no mesmo instante. A primeira coisa que disse foi: ‘Estou com um horrível gosto de sapo na boca!’ E falou, falou, falou mais de uma hora sem parar. (LOBATO, ) Narizinho, desesperada por Emília falar tanto, em tão pouco tempo, pede ao Doutorpara que ele faça-a vomitar a tal pílula falante e engolir uma mais fraca, o médico responde,porém, que aquilo era fala acumulada, e que a boneca voltaria ao normal. Emília, por sua vez,sempre falou muito e sem pensar. Quando abria sua “torneirinha de asneiras” não tinha quema agüentasse. Dentro do “universo lobatiano”, Emília é a única personagem que muda, que evolui,conforme as histórias. A personagem mostra-se dominadora e egocêntrica, se preocupaprincipalmente com suas idéias e umbiguinho. É obstinada em conseguir as coisas e muitoteimosa, sempre mantendo sua opinião intacta, independente de tudo. Como uma criança, aboneca possui uma curiosidade imensa e segue sempre uma lógica pueril em relação às coisas.Demonstrando simplicidade de pensamento, muitas vezes nos surpreende com suas idéiasdiferentes e visão filosófica, como sua teoria sobre a vida: (...) A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a
  25. 25. 31 piscar. Quem para de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais. (...)A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre. - E depois que morre? – perguntou o Visconde. - Depois que morre vira hipótese. É ou não é? (LOBATO, 1972, p. 243) A boneca mostra, portanto, um lado irreverente. Sempre demonstrando ser uma“sabichona”. A exemplo de seu criador, Emília é inconformada e sempre faz muitas perguntaspara as pessoas, absorvendo todas as informações e criando novas teorias e significações apartir delas. É também por meio de suas tiradas que vamos nos apropriando das idéias deLobato. O autor desenvolveu a personagem de tal maneira que, em uma carta endereçada aGodofredo Rangel, declarou: Emília começou uma feia boneca de pano, dessas que nas quitandas do interior custavam 200 réis. Mas rapidamente evoluiu, e evoluiu cabritamente - cabritinho novo - aos pinotes. E foi adquirindo tanta independência que, não sei em que livro, quando lhe perguntam: Mas que você é, afinal de contas, Emília: ela respondeu de queixinho empinado: Sou a Independência ou Morte. E é. Tão independente que nem eu, seu pai, consigo dominá-la. (Monteiro Lobato, in: Barca de Gleyre, 14ª ed, Brasiliense, S.Paulo, 1972) Um lado interessante da personagem é o fato de ser uma boneca, apesar de seconsiderar gente: “(...) eu também sou gente e nada me modifica. Só Tia Nastácia às vezes...”(LOBATO, 1972, p. 314). Essa simples característica acaba permitindo ações por parte deEmília que não seriam bem vistas se fossem feitas por uma pessoa. Ela pode, assim, sermalcriada e demonstrar certo egoísmo infantil, muito comum nas crianças. Também é rebelde,possui muito interesse pelas coisas, tornando-se até inconveniente muitas vezes; e certamaldade ingênua. Características que acabam indo de encontro ao público infantil, que, decerta forma, se identifica com a boneca. Para Lobato era interessante uma personagemirreverente e rebelde como ela para expressar suas verdadeiras opiniões acerca dedeterminados assuntos. A idéia de que “Emília é só uma boneca, ela não sabe o que diz” tira ofoco do autor, que, teoricamente, está escrevendo apenas uma ficção, sem fundo crítico emrelação à língua (no caso de “Emília no País da Gramática”) ou à sociedade.
  26. 26. 32 Por tais motivos, Emília tornou-se uma personagem de personalidade forte e espertezaperspicaz. Chamando a atenção de todos os leitores: crianças, que se identificam com apersonagem, por causa de suas dúvidas e erros; e também adultos, que acabam rindo de suaespontaneidade e idéias.6.1 EMÍLIA NO PAÍS DA GRAMÁTICA Desde o começo do livro, Emília se mostra esperta e determinada, convidandoPedrinho para ir ao país da gramática com o rinoceronte (que mais pra frente será nomeado deQuindim). Como já dito anteriormente, o volume é escrito de maneira bem formulada edesenvolvida, apesar de ser para crianças. Seguindo isto, podemos observar nesse convite quea boneca faz ao menino essa forma trabalhada de se utilizar as palavras: “(...) por que em vezde estarmos aqui a ouvir falar de gramática, não havemos de ir passear no país daGramática?” (LOBATO, 1972, p. 293). Analisando essa fala da Emília, observamos que aboneca utiliza expressões como “estarmos aqui a ouvir” ou “havermos de ir passear” eperíodos compostos, indicando um maior desenvolvimento em sua fala do que a de umacriança. Por outro lado, através de outros trechos, a personagem nos mostra um jeito simplesde se ver as coisas, seguindo uma lógica pueril e relacionando o que aprende com o seumundo, como uma criança faria ao ler esse livro. Emília, com sua torneirinha de asneiras, sempre expressa essa sua simples forma depensar e enxergar as coisas. No segundo capítulo do livro, quando a turma conhece osarcaísmos, e Quindim explica o significado de uma coisa arcaica (velha), a boneca relaciona oque está aprendendo no país da gramática com o mundo em que vive, assim: “Então, DonaBenta e Tia Nastácia são arcaísmos!” (LOBATO, 1972, p. 297). Sem papas na língua, aprendeassociando as coisas. Em outro trecho, a boneca demonstra novamente essa forma deaprendizado relacionando os advérbios com a Tia Anastácia. Quando lhe perguntam quem éessa senhora, Emília diz: “Uma advérbia preta como carvão, que mora lá no sítio de DonaBenta. Isto é, Advérbia só para mim, porque só a mim é que ela modifica. Para os outros éuma substantiva que faz bolinhos muito gostosos.” (LOBATO, 1972, p. 314). Um dosmelhores exemplos para mostrar essa capacidade de associação da boneca é quando ascrianças estão aprendendo sobre o grau das palavras (aumentativo, diminutivo): Sei disso – declarou Emília – As palavras quando querem significar uma coisa grande, latem; e quando querem significar uma coisa pequena, choramingam. (...) Botar um Ão no fim duma palavra é latir, porque latido de cachorro é assim – ão, ão,
  27. 27. 33 ão! E botar um Inho, ou um Zinho no fim das palavras é choramingar como criança nova. Panela, por exemplo; se late vira Panelão e se choraminga vira Panelinha. (LOBATO, 1972, p. 304) Com essa fala de Emília, o público infantil entenderia perfeitamente a lógica que elausa. Já que se utiliza de figuras conhecidas no universo infantil para explicar uma gramática,as crianças se identificariam. Seguindo essa sua lógica pueril, Emília faz alguns comentários que seriam dignos deuma criança que está descobrindo as coisas. Quando a turma está aprendendo sobresubstantivos próprios e a freqüência com que são chamados para batizar as pessoas, a boneca,sabendo que o nome José era muito comum, e que, portanto, deveria “correr” muito emPortugália, pensa: “Nesse caso o nome José deve ser fininho como um palito.” (LOBATO,1972, p. 300). Podemos chegar à conclusão, portanto, de que tal forma de aprendizado de Emília, porassociação, é importante ser mostrada no livro. As crianças que o lêem também estão em umafase de aprendizado, além de entenderem a gramática com a história, absorvem as coisas deforma associativa, como a Emília. Levando, assim, essa forma de aprender para a vida, e sedesenvolvendo. Ainda em relação à sua lógica de criança, a boneca cria neologismos ao longo do livro,e age como se eles de fato existissem. É o exemplo de “botadeira”. Ela utiliza a palavra paradizer que é ela quem coloca os nomes no Sítio do Picapau Amarelo. Assim, utiliza o verbo“botar” com o sufixo “eira”, formando uma palavra através de uma derivação sufixal, comoaprenderia em outro capítulo. Erro que é muito comum no vocabulário de crianças, poisseguem a mesma lógica que Emília. Há também neologismos que ela inventaconscientemente, a palavra cavalência é um exemplo. Quando Dona Etimologia comenta quenão conhece essa expressão, Emília empolgada diz: “É minha! Foi inventada por mim com ainvençãozinha que Deus me deus. Faz parte dos meus “neologismos”.” (LOBATO, 1972, p.322) No capítulo em que “Emília forma palavras”, já mencionado no parágrafo anterior, háuma passagem que caracteriza muito bem o sentimento da boneca em relação à sua sabedoria.Emília é uma “sabichona” e sempre teima com quem tenta corrigi-la. Dona Etimologia,explicava que as palavras adquiriam novos significados com os sufixos e deu como exemplo“cavalaria”. Emília, então, é obrigada a argumentar com a senhora, mostrando toda sua
  28. 28. 34sabedoria e teimosia: “Não, senhora – protestou Emília – Cavalo com Aria atrás viracavaloaria e não Cavalaria.” (LOBATO, 1972, p. 322) A personagem, por não ter papas na língua, acaba tecendo alguns comentáriosdesconcertantes e muitas perguntas, que demonstram seu jeito atrevido de ser. Como exemplo,podemos citar a passagem em que a boneca abre sua “torneirinha de asneiras” conversandocom Vossa Serência (verbo ser): Por que Vossa Serência não aparece por lá, um dia, para uma visita a Dona Benta? Por ser muito velho? Ora, deixe-se disso!...Estamos lá acostumados com a velhice. Dona Benta é velha e Tia Nastácia também. (...) Dona Benta é viúva. Vá, que até pode sair casamento... (LOBATO, 1972, p. 317) Percebemos com este trecho que a boneca, ao falar com o verbo ser, forma frases maisbem elaboradas, provavelmente por pensar que está falando com alguém muito importante. Oatrevimento de Emília fica claro, tentando arranjar até um noivo para Dona Benta e chamandoo verbo ser de velho. A boneca também se expressa de modo imperativo com as pessoas. É um “espirro degente” que exige que todos a ouçam e se sente no direito de mandar nas pessoas. É aMarquesa de Rabicó, uma boneca de classe, que merece respeito e muita atenção. Em váriaspassagens do livro percebemos essa característica de Emília: “Chega de Advérbios! – berrou(grifo nosso) Emília.” (LOBATO, 1972, p. 315). Em contrapartida, também observamos nolivro que em alguns momentos a boneca demonstra ainda obedecer à sua dona, Narizinho: - Agora, não, Emília. Depois. Depois visitaremos Dona Prosódia. Neste momento eu resolvo que se visite a etimologia. Você não manda. E como o caso fosse assim despoticamente resolvido, dirigiram-se todos para a residência da Senhora Etimologia. (LOBATO, 1972, p. 320) Emília também faz uso de superlativos para se expressar, sempre dando ênfase às suashistórias e tornando-as mais grandiosas. Também acaba aumentando a intensidade de suafrase para puxar a atenção do “ouvinte”: “(...) Para Tia Nastácia ser magro é defeitogravíssimo (grifo nosso).” (LOBATO, 1972, p. 305). A bonequinha demonstra, assim, serexagerada, sempre em busca de atenção, como uma criança de fato. Mexendo com a imaginação e poder de criação das crianças, Lobato faz com que aboneca tenha suas aventuras e seus “planos infalíveis”. Nesse volume, há dois principais
  29. 29. 35planos: o de entrar na casa do verbo ser, que era super “disputado’, no qual a bonequinhafingiu-se de jornalista; e o de expulsar os gramáticos da casa de Dona Etimologia, para queela conseguisse dar-lhes atenção. Ambos planos acabam nos mostrando que Emília faz detudo para conseguir o que quer, e ela sempre sabe o que quer! Se pensarmos um pouco maisalém percebemos que essa característica da bonequinha se liga ao fato de ela ser um poucoegocêntrica. A frase pertencente ao plano de expulsar os gramáticos da casa de DonaEtimologia (LOBATO, 1972, p. 230): “O melhor é espantarmos esses gramáticos e tomarmosconta da velha só para nós!” mostra de forma clara o sentimento de egocentrismo bastantepresente também nas crianças, no início de suas vidas. No capítulo voltado para as preposições, podemos analisar um comentário de Emília,que nos indica a forma como ela faz uso da gramática. Através dessa fala, percebemos que elautiliza muitas preposições, e portanto, usa construções bem desenvolvidas, períodoscompostos. Entendendo que as preposições são as “cordinhas” de nossa língua, Emília seempolga e diz: “Bravo! São umas cordinhas preciosas estas. A gente não pode dizer nada semusá-las, sobretudo as menorzinhas, como A, Até, Com, De, Sem, Por...” (LOBATO, 1972, p.315). Apesar disso, as preposições em questão também são das mais simples, indicando aindaque apesar de falar de forma mais complexa, a personagem ainda se adapta a um universomais simples, mais próximo do infantil. Outro aspecto interessante da fala da Emília é o uso de diminutivos. Como dissemosanteriormente, a personagem se utiliza de superlativos para dar mais emoção e exagero àssuas falas, chamando, assim, mais atenção, atenção essa que crianças necessitam que lhesdêem. Por outro lado, se utiliza também de diminutivos, indicando que está mais próxima aouniverso infantil e que fala como uma menina. Podemos utilizar a palavra “cordinhas”,apresentada na fala de Emília do parágrafo anterior, para ilustrar essa observação. Observamos também em meio a leitura que a personagem erra muitas vezes aspalavras e seu modo de pronunciá-las. Chegando até a dizer que queria conhecer a DonaProsódia em vez da Dona Etimologia (origem e história das palavras), para descobrir como sepronuncia certas palavras, segundo a bonequinha, ela é “prática”. Um episódio também interessante é no desfile do verbo Ter. Emília acha a marcha doverbo ter no presente maravilhosa, porque, segundo ela: “(...) Pelo jeito de marchar a gente vêque eles têm mesmo...” (LOBATO, 1972, p. 310). Essa expressão que eles “têm” mesmodeixa subentendido que esses verbos têm uma grande importância, por serem usados nopresente, ou seja, as pessoas estão utilizando-os. A boneca não gosta do jeito triste de marchardo verbo tem no pretérito, já que eles não “têm mais nada”. Porém, a marcha que mais
  30. 30. 36empolgou a turma foi a do verbo ter no futuro. O verbo passa esperança de um futuro que“tem” muitas coisas, felicidades e desenvolvimento para o país, idéia de Monteiro que podeser retirada da seguinte frase de Pedrinho: “Viva o futuro!” (LOBATO, 1972, p. 311). Emília também nos dá material para sua análise quando vai conhecer os pronomes.Quando ela vê os pronomes possessivos não se cabe de tanta felicidade: “Emília que achavaas palavras Meu e Minha as mais gostosas de quantas existem, agarrou o casalzinho e deu umbeijo no nariz de cada uma (...)” (LOBATO, 1972, p. 308). Entendemos, a partir desta cena,que a boneca é possessiva, e adora que as coisas sejam dela, como, novamente, a maioria dascrianças é. Além dos pronomes possessivos, Emília se encontra com os pronomesinterrogativos, outros muito utilizados pela bonequinha. E fica feliz em conhecê-los. Com suacuriosidade infinita, a personagem era a boneca que mais dava trabalho a eles. Após essa análise da Emília, percebemos que a boneca cometia muitos erros, e aomesmo tempo mostrava uma lógica simples em relação às coisas e regras. Monteiro Lobatomostra, através da personagem que a língua portuguesa não precisa ser tão complexa para ascrianças, e que, mesmo o jeito delas de enxergá-la faz algum sentido. O público infantil seidentifica muito com a Emília, com suas dúvidas e comentários desconcertantes. Apersonagem acaba se tornando a mais completa: se mostra entendida do assunto algumasvezes e outras comete erros comuns às crianças, é espevitada, sem papas na língua, fala tudo oque pensa, tem uma capacidade de associação imensa e, por fim, é uma boneca que parecegente.6.2 ANÁLISE DO DISCURSO DE EMÍLIA: VÍCIOS DE LINGUAGEM O capítulo de título “Os vícios de linguagem”, como o nome diz, tem como principalassunto os vícios de linguagem que ocorrem na língua portuguesa. Antes de tudo, lembremosque os fenômenos que dão nome ao capítulo são alterações defeituosas da norma que ocorremna língua, são mal vistos aos olhos dos gramáticos, portanto. Visto isso, já começaremos a analisar a linguagem desta parte do livro a partir doprimeiro diálogo. Quem está apresentando os vícios de linguagem à turma é a Dona Sintaxe,quem organiza as palavras e orações. Observamos o receio que a senhora possui em relaçãoaos “monstrinhos”: “(...) Os vícios, eu os conservo em jaulas, como feras perigosas (grifonosso).” (LOBATO, 1972, p. 334). A partir dessa fala de Dona Sintaxe, podemos observar queela representa a visão dos gramáticos em relação à língua e aos vícios. É, então, amante dasregras e da ordem dentro do português.
  31. 31. 37 Há então a apresentação de cada vício de linguagem. Todos eles são personificados empessoas sujas e mal encaradas, exceto dois: o Neologismo, muito bem arrumado e novo; e oProvincianismo, que era considerado um “Jeca”, ingênuo e simples. Há 12 jaulas no local,cada um para um vício de linguagem, são eles: o Barbarismo, o Solecismo, a Anfibologia(mais conhecida como ambigüidade hoje), a Obscuridade, o Cacófato, o Eco, o Hiato, aColisão, o Arcaísmo, o Neologismo e o Provincianismo. Porém, uma das jaulas está fazia.Dona Sintaxe então explica que tal vício se reabilitou, era o Brasileirismo, que, com odesenvolvimento da língua portuguesa no Brasil, deixou de ser um vício, porém só pode andarpela cidade nova, ou seja, Brasiliana. A visita começa: Emília, como é a mais curiosa, é quem vai a frente do grupo,conversando com Dona Sintaxe. A boneca chega na primeira jaula e pergunta: “Que mal faz omundo esse “cara-de-coruja”?” (LOBATO, 1972, p. 334). Aparece nessa fala da personagemo termo “cara de coruja” que vai se mostrar presente no vocabulário da bonequinha desde aprimeira vez em que ela fala, ainda no livro As reinações de Narizinho. Quando Emília nãosabe o nome de uma pessoa, e também não está interessada em saber, pois sua vontade é maisimportante, utiliza essa nomeação, simplesmente para ter um termo diferenciado de se chamaralguém. Dona Sintaxe explica à boneca pelo o que cada vício é responsável, sempredemonstrando uma hostilidade e grosseria em relação a eles. Muitas vezes em que ela falasobre algum deles utiliza termos como: “idiota”, “cretino” ou “imbecil”. Palavras que sãoconsideradas impróprias para serem adicionadas ao vocabulário de uma criança. Assim,passam pelo Barbarismo, que faz com que as pessoas errem as palavras, seja a pronuncia ou aescrita; pelo Solecismo, que causa erros de concordância; a Anfibologia, que deixa as frasesambíguas; a Obscuridade, que faz com que as frases não sejam claras, objetivas; o Cacófato,gera sons desagradáveis nas frases, fazendo com que estas tenham um sentido “feio”; o Eco,faz com que haja repetição desagradável de terminações iguais; o Hiato, gera somdesagradável pela aproximação de vogais idênticas na frase; a Colisão, gera frases comconsonâncias desagradáveis; o Arcaísmo, palavras antigas em frases modernas que dificultamo entendimento; o Neologismo, palavras recém-formadas, que, pela visão de Dona Sintaxe,dificulta também o entendimento; e, por último, o Provincianismo, que faz as pessoasutilizarem termos conhecidos em alguns locais somente, são os regionalismos. Emília, enquanto conhecia os vícios, dava apelidos para cada um deles, era “bicarada”para a ambigüidade, pois ela tinha duas caras, ou seja, dois sentidos. A Obscuridade era“pretuda”, obviamente por causa de sua cor. Chamava os outros de “cara de cachorro” e
  32. 32. 38“pandorga”, além de “Matusalém” para o Arcaísmo. A boneca mostra, mais uma vez, seu jeitoatrevido de ser. As partes do capítulo que merecem uma maior atenção, porém, são as que Emílialiberta dois dos vícios de linguagem, para o espanto de Dona Sintaxe, que, todavia, ficaimóvel, não toma nenhuma ação. O primeiro que Emília solta é o Neologismo: Emília, que era grande amiga de neologismos, protestou. - Está aí uma coisa com a qual eu não concordo. Se numa língua não houver neologismos, essa língua não aumenta. Assim como há sempre crianças novas no mundo, para que a humanidade não se acabe, também é preciso que haja na língua uma contínua entrada de Neologismos. Se as palavras envelhecem e morrem, como já vimos, e se a senhora impede a entrada de palavras novas, a língua acaba acabando! Não! Isto não está direito e vou soltar esse elegantíssimo vicio, já e já... (LOBATO, 1972, p. 335) Nesta fala da boneca, podemos analisar diversos temas. Primeiramente, observamosque Emília, seguindo sua característica de associar o que aprende com seu mundo, faz umparalelo entre a manutenção da população, nascimento de novas crianças, e a manutenção dalíngua, criação de neologismos. De fato, a lógica da bonequinha tem fundamento. Como elaaprendera no início da história, as palavras nascem, crescem e morrem, como pessoas.Portanto, se não há a introdução de neologismos, a língua estaria acabada um dia. Percebemos também neste trecho a presença do superlativo sintético, utilizado pelabonequinha, que sempre exagera e dá ênfase ao que fala. Ao dizer “Elegantíssimo vício”, apersonagem já está mostrando ser contra a idéia da Dona Sintaxe, e tenta irritá-la, mudandosua organização da língua. Esse plano continua quando a boneca diz: “(...) Temos de continuarna “campeação” dele (do Visconde) – disse Emília, mordendo o lábio e olhando firme para aSintaxe (...)” (LOBATO, 1972, p. 335). Torna-se claro nesta passagem o desejo dapersonagem em irritar a Dona Sintaxe utilizando um de seus neologismos. Além desses aspectos, é através de Emília que Lobato nos passa a idéia de que osneologismos são bons para a língua. Novamente indo contra os gramáticos, já que o autordiscorda com os estudiosos em relação à forma de ensino da gramática, Monteiro faz com quea boneca liberte esse vício de linguagem, mostrando uma nova visão da gramática, a de que aspalavras novas são muito importantes para a manutenção da língua. O segundo Vício de Linguagem solto foi o Provincianismo, Emília: “(...) não achou
  33. 33. 39que fosse o caso de conservar na cadeia o pobre matuto. Alegou que ele também estavatrabalhando na evolução da língua e soltou-o.” (LOBATO, 1972, p. 335). A boneca novamente trabalha com lições aprendidas ao longo do livro. Quando elaalega que o Provincianismo também estava trabalhando na evolução da língua, relembra doque aprendeu com Dona Etimologia, que o inculto é quem faz a língua. O vício no caso nãoera inculto propriamente, mas reproduzia as palavras de modo diferente do que devia, graçasao local em que morava e aprendera a falar. Mais uma vez, o autor utiliza Emília como suaporta-voz. Acreditando que o povo que faz a língua, Monteiro faz com que a boneca defendao matuto do Provincianismo, mostrando, assim, a visão de uma nova geração em relação àgramática. Lobato mostra também uma visão um pouco arcaica ou preconceituosa em relação aocaipira. A partir do modo que ele é descrito (LOBATO, 1972, p. 335): “Tão bobo, o coitado,que nem teve a idéia de agradecer à sua libertadora.”, percebe-se que o autor quis nos passar afalta de atitude e a ingenuidade das pessoas que vivem no campo. Idéia que encontramos emsua outra obra “Urupês” (1918), em que a personagem Jeca Tatu se faz presente. Atualmente o provincianismo não é considerado um vício de linguagem propriamentedito. Na verdade nos remetemos a ele ao falarmos de variações lingüísticas dentro de um país,ou seja, de regionalismos. Característica muito presente em nosso país, e que, hoje, é aceita erespeitada. Por último, observamos que o fato de Dona Sintaxe não ter feito nada para impedirque Emília soltasse os Vícios, provavelmente indicaria como os gramáticos se sentiam ao veressa nova geração da gramática chegando, com as idéias que Monteiro Lobato nos passa.
  34. 34. 407. PESQUISA DE CAMPO Através de entrevistas, questionamentos sobre aspectos subjetivos, como opiniões ourecordações passadas, conseguimos que as pessoas se expressem de forma a não darematenção ao modo como articulam a fala. Por esse motivo, uma pesquisa de campo que possuao intuito de captar os níveis de fala de determinado grupo de pessoas precisa conter certoaspecto informal. Conforme o tema deste trabalho, desenvolvemos questionamentos e oslevamos as ruas da cidade de São Paulo. Monteiro Lobato preocupava-se muito com a questãoda educação, principalmente quando o assunto eram crianças, desse modo, o tema escolhidopara a pesquisa foi exatamente este, a educação. De 50 entrevistas feitas, destacamos 10 paraanálise, sendo estas variadas, duas de cada classe social (determinada por meio de umquestionário sócio econômico).7.1 ENTREVISTASClasse ANome: RosanaIdade: 41 anosLocal da entrevista: Estação Armênia.*segue em anexos o questionário sócio econômico.1- Conte para a gente algo que você aprendeu quando criança e que selembra até hoje. Por que você se lembra/ Por que te marcou?“O que eu aprendi quando criança? Faz tempo, é por isso... Ah, o que eu aprendi na minhafamília é... eram católicos, então era muito rígido, assim... com horário, que até hoje, marcouum horário, é naquele horário que eu tenho que chegar, eu num admito nem chegar um minutodepois nem um antes. Por que eu num gosto de esperar ninguém, quando eu marco alguma
  35. 35. 41coisa que demore eu me lembro disso e num deixo ninguém me esperando, foi uma coisa queme marcou.”2- Para você, como é mais fácil/ qual a melhor maneira de se aprender?“A melhor maneira de aprender? Eu acho que é se conversando, a gente explicando, aquilo,num é? Eu tenho os filhos, é o que eu passo pros meus filhos, né? Né..o certo da coisa...explicar o por que é que tem que fazer o certo. Conversar, né? Desta forma.”3- Você já ensinou alguma coisa para alguém? O que? Como foi?“Já, né! Com quatro filhos, já ensinei um monte! Ah, ensinar o... o caminho certo dascoisas...e fazer a coisa correta...Em tudo...A vida no geral.”4- O que você gostaria de ter aprendido (melhor) na escola? Por quê?“Na escola? Acho que mais a parte de cidadania...é, que na minha época num tinhamuito...né? Muito esse lado de ética, cidadania, eu queria ter aprendido mais”5- O que você acha que as pessoas, principalmente as crianças, aprendemcom os meios de comunicação?“Tudo. De certo e de errado, aprende tudo. Tudo. Não,todo lado! Toda coisa tem o lado bom elado o ruim né...isso que eu te falo, aprende tudo. Então, desenvolvimento é muito maisrápido, o desenvolvimento de raciocínio de tudo, graças computadores e tudo mais, mas tem olado ruim também da história né? Num é só o lado bom, não. Que também é bem rápido olado ruim, né? O lado ruim, né?”Nome: MarinaIdade: 44 anosLocal da entrevista: Avenida Paulista1- Conte para a gente algo que você aprendeu quando criança e que se
  36. 36. 42lembra até hoje. Por que você se lembra/ Por que te marcou?“Bom, estou com um pouco de pressa, algo que eu me lembro muito bem de ter aprendido,que foi difícil e marcante, foi andar de bicicleta. Aprendi com meu pai, hoje falecido. Estoudando esse exemplo porque acho que isso é uma coisa que uma vez aprendida não se esquecemais, não se desaprende sabe.”2- Para você, como é mais fácil/ qual a melhor maneira de se aprender?“Acho que você realmente aprende alguma coisa quando tira da teoria e coloca na prática, aivocê realmente nunca mais esquece.”3- Você já ensinou alguma coisa para alguém? O que? Como foi?“Bom ensinei varias coisas aos meus filhos, como por exemplo, o hábito da leitura.”4- O que você gostaria de ter aprendido (melhor) na escola? Por que?“Na escola eu não me lembro, mas na faculdade eu acho que poderia ter tido professoresmelhores, que incentivassem mais o aluno, porque faculdade é aquela coisa né... o aluno é sóum número.” 5- O que você acha que as pessoas, principalmente as crianças, aprendemcom os meios de comunicação?“Acho que dependendo do que assistem, podem tirar boas coisas dos meios de comunicação,os programas da TV Cultura são uma boa.”Classe BNome: Maria.Idade: 57 anos.Local da entrevista: Parque da Luz.*segue em anexos o questionário sócio econômico.1- Conte para a gente algo que você aprendeu quando criança e que selembra até hoje. Por que você se lembra/ Por que te marcou?“Tem muitas coisas que marcam a vida da gente... não uma só são várias... o dia que meu
  37. 37. 43primeiro cachorrinho que eu tive morreu, minha gatinha quando foi atropelada, quando nósrecebemos a visita de uns americanos...nossa...eu tinha 5 anos de idade e lembro até hoje...aprimeira vez que eu fui em um parque de diversão...ah foi muita coisas...”2- Para você, como é mais fácil/ qual a melhor maneira de se aprender?“Tudo que você tiver que aprender a melhor coisa q você faz é gravar num gravador e depoisvocê mesma escuta o que você ta falando... as coisas de escola, um lembrete, algumas coisasque você quer escrever... você mesma dita pro gravador e depois vai escutando e conseguegravar com mais facilidade...”3- Você já ensinou alguma coisa para alguém? O que? Como foi?“Sim... já dei aula de artesanato...”4- O que você gostaria de ter aprendido (melhor) na escola? Por quê?“Geografia... eu odeio geografia... queria aprender, mas não consigo guardar...”5- O que você acha que as pessoas, principalmente as crianças, aprendemcom os meios de comunicação?“Ah com certeza ficou mais fácil hoje né... antes a única forma de aprender era a escola...ocampo de ensino hoje é muito mais amplo em vista do que era na minha época...hoje em diatem a televisão, o celular...muitas formas da criança se comunicar...”Nome: GeraldaIdade: 52 anosLocal da entrevista: Pinacoteca do Estado*segue em anexos o questionário sócio econômico1- Conte para a gente algo que você aprendeu quando criança e que selembra até hoje. Por que você se lembra/ Por que te marcou?“Não... não lembro não...”2- Para você, como é mais fácil/ qual a melhor maneira de se aprender?“Eu acho que na prática né...”

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