Contos para vestibular.

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Contos para vestibular.

  1. 1. A CIDADE E AS SERRAS - Eça de Queirós(Resumo)Por LivrosResumo do LivroNota: Share on emailShare on facebookShare on twitterShare on stumbleuponMore Sharing Services Análise da obra Publicado em 1901, no ano seguinte ao da morte de Eça de Queirós, o romance A Cidade e as Serras foi desenvolvido a partir da idéia central contida no conto Civilização, datado de 1892. É um romance denso, belo, ao longo do qual Eça de Queirós ironiza ferrenhamente os males da civilização,fazendo elogio dos valores da natureza.É uma obra das mais significativas de Eça de Queirós. Nela o escritor relata a travessia deJacinto de Tormes, um ferrenho adepto do progresso e da civilização - da cidade para asserras. Ele troca o mundo civilizado, repleto de comodidades provenientes do progressotecnológico, pelo mundo natural, selvagem, primitivo e pouco confortável, no sentido dosbens que caracterizam a vida urbana moderna, mas onde encontra a felicidade, mudandoradicalmente de opinião.A Cidade e as Serras preconiza uma relação entre as elites e as classes subalternas naqual aquelas promovessem estas socialmente, como faz Jacinto ao reformar suapropriedade no campo e melhorar as condições vida dos trabalhadores.Por meio do personagem central, Jacinto de Tormes, que representa a elite portuguesa, aobra critica-lhe o estilo de vida afrancesado e desprovido de autenticidade, que enaltece oprogresso urbano e industrial e se desenraiza do solo e da cultura do país.Na obra, a apologia da natureza não pode ser confundida com o elogio da mesmice e damediocridade da vida campestre de Portugal. Ao contrário, trata-se de agigantar o espíritolusitano, em seu caráter ativo e trabalhador. Assim, podemos afirmar que depois da tese (ahipervalorização da civilização) e da antítese (a hipesvalorização da natureza), oprotagonista busca a síntese, ou seja, o equilíbrio, que vem da racionalização e damodernização da vida no campo.Um argumento para tal interpretação está no fato de que, quando se desloca para a serra,Jacinto sente uni irresistível ímpeto empreendedor, que luta inclusive contra asresistências dos empregados ao trabalho.Concluindo, Jacinto de Tormes, ao buscar a felicidade, empreendeu uma viagem que oreencontrou consigo mesmo e com o seu país. Tal viagem, que concomitantemente éexterior e interior, abarca a pátria portuguesa e se reveste de uma significação particular,
  2. 2. pode ser lida como um processo de auto-conhecimento: um novo Portugal e um novoportuguês se percebem nas serras que querem utilizam da cidade o necessário para secivilizarem sem se corromperem.Podemos considerar A Cidade e as Serras um romance no qual se destaca a categoriaespaço, na medida em que os ambientes são fundamentais para a compreensão dahistória, destacando-se os contrastes por meio dos quais se contrapõem. Assim, aamplidão da quinta de Tormes contrasta com a estreiteza do universo tecnológico do 202,o que aponta para a oposição entre o espaço civilizado e o espaço natural, presente emtodo o romance.Foco narrativoEscrito em primeira pessoa, A Cidade e as Serras, como a maioria dos romances de Eçade Queirós, há um narrador-personagem, José Fernandes, o qual não se confunde com oprotagonista da obra, Jacinto de Tormes. Este narrador coloca-se como menos importantedo que o protagonista, como podemos perceber, por exemplo, no início da obra.Nos primeiros parágrafos do livro o narrador, em vez de apresentar-se ao leitor, coloca-seem segundo plano para apresentar toda a descendência dos de Tormes, até aparecer afigura de Jacinto. Além disso, dá-lhe tratamento diferenciado, parecendo idealizar Jacinto,na medida em que o chama de "Príncipe da Grã-Ventura", conforme apelido estudantil doprotagonista.PersonagensUma particularidade da personagem José Fernandes, está na importância que dá aosinstintos, sobrepondo-os à sua capacidade de sentir ou de pensar. Assim, tanto desilusõesamorosas quanto preocupações sociais são tratadas com almoços extraordinários. Aolongo do romance ele procura provar o engano que as crenças civilizatórias de seu amigo,Jacinto de Tormes, podem conduzir, embora o admire exageradamente.Jacinto de Tormes é filho de uma família de fidalgos portugueses, mas nascido e criadoem Paris. Se cerca de artefatos da civilização e de tudo o que a ciência produz de maismoderno. Entretanto, o excesso de ócio e conforto o entedia, a ponto de fazê-lo perder oapetite, a sede lendária, a robustez física e a disposição intelectual da juventude. Levadopelas circunstâncias a conhecer suas propriedades nas serras portuguesas, apaixona-sepelo campo, lá introduzindo algumas inovações.Mesmo em contato com a natureza, Jacinto não abandona alguns de seus hábitosurbanos. Desenha futuras hortas, planeja bibliotecas na quinta, traz banheiras e vidrosdesconhecidos dos habitantes do lugar. Por fim, manda instalar uma linha telefônica nasserras, o que comprova que no fundo não houve grandes modificações em suas crenças.Ele representa não apenas uma crítica do escritor à ultracivilização, mas também a utopiade um novo Portugal, uma nova pátria, capaz de modernizar-se, sem perder as tradições eas particularidades nacionais.
  3. 3. Trata-se, enfim, de um D. Sebastião atualizado pelo socialismo e pelo positivismo. Atrajetória percorrida pelo protagonista Jacinto de Tormes deve-se em grande parte, àsinstâncias e insistências de José Fernandes, que ao mesmo tempo é contador da históriae um de seus personagens principais.Os personagens ligados à vida no campo caracterizam-se por atitudes simples etransparentes, embora tradicionalistas. Um exemplo pode ser o avó de Jacinto, Gatão,cuja ligação ancestral com o referido ambiente manifesta-se pela total devoção à realezaabsolutista, que o leva a abandonar Portugal depois da expulsão de D. Miguel.Entretanto, a melhor representação desse grupo de personagens da obra pode seratribuída a Joaninha, a mulher por quem Jacinto se apaixona, graças a seus atributosnaturais e sua simplicidade de espírito.EnredoO narrador centraliza seu interesse na figura de um certo Jacinto, descrevendo-o como umhomem extremamente forte e rico, que, embora tenha nascido em Paris, no 202 dosCampos Elíseos, tem seus proventos recolhidos de Portugal, onde a família possuiextensas terras, desde os tempos de D. Dinis, com plantações e produção de vinho,cortiça e oliveira, que lhe rendem bem.O avô de Jacinto, também Jacinto, gordo e rico, a quem chamavam D. Galeão, era umfanático miguelista. Quando D. Miguel deixou o poder, Jacinto Galeão exilou-sevoluntariamente em Paris, lá morrendo de indigestão. D. Angelina Fafes, após a morte domarido, não regressou a Portugal, e, em Paris, criou seu filho, o franzino e adoentadoCintinho que se casou com a filha de um desembargador, nascendo desta união nossoprotagonista.Desde pequeno Jacinto brilhara, quer por sua inteligência, quer por sua capacidade. Aos23 anos tornou-se um soberbo rapaz, vestido impecavelmente, cabelos e bigodes bemtratados, e feliz da vida. Tudo de melhor acontecia com ele, sendo chamado peloscompanheiros de “Príncipe da Grã-Ventura”.Positivista animado, Jacinto defendia a idéia de que “o homem só é superiormente felizquando é superiormente civilizado”. A maior preocupação de Jacinto era defender a tesede que a civilização é cidade grande, é máquina e progresso que chegavam através dofonógrafo, do telefone cujos fios cortam milhares de ruas, barulhos de veículos,multidões... Civilização é enxergar à frente.Com estes olhos que recebemos da Madre Natureza, lestos e sãos, nós podemos apenasdistinguir além, através da Avenida, naquela loja, uma vidraça alumiada. Nada mais! Se euporém aos meus olhos juntar os dois vidros simples de um binóculo de corridas, percebo,por trás da vidraça, presuntos, queijos, boiões de geléia e caixas de ameixa seca.Concluo, portanto, que é uma mercearia.
  4. 4. Obtive uma noção: tenho sobre ti, que com os olhos desarmados vês só o luzir da vidraça,uma vantagem positiva. Se agora, em vez destes vidros simples, eu usasse os de meutelescópio, de composição mais científica, poderia avistar além, no planeta Marte, osmares, as neves, os canais, o recorte dos golfos, toda a geografia de um astro que circulaa milhares de léguas dos Campos Elísios. É outra noção, e tremenda!Tens aqui, pois, o olho primitivo, o da natureza, elevado pela Civilização à sua máximapotência da visão. E desde já, pelo lado do olho, portanto, eu, civilizado, sou mais feliz queo incivilizado, porque descubro realidades do universo que ele não suspeita e de que estáprivado. Aplica esta prova a todos os órgãos e compreende o meu princípio.Enquanto à inteligência, e à felicidade que dela se tira pela incansável acumulação dasnoções, só te peço que compares Renan e o Grilo... Claro é, portanto, que nos devemoscercar de Civilização nas máximas proporções para gozar nas máximas proporções avantagem de viver.Em fevereiro de 1880, José Fernandes foi chamado pelo tio e parte para Guiães e,somente após sete anos de vida na província, retorna e reencontra Jacinto no 202 dosCampos Elíseos.O narrador presenciou coisas espantosas: um elevador para ligar dois andares dopalacete; no gabinete de trabalho havia aparelhos mecânicos cheios de artifício; e,enquanto Jacinto escreve para Madame d’Oriol, José Fernandes visita uma enormebiblioteca de trinta mil títulos, os mais diversos possíveis, dos mais renomados autores àsmais diferentes ciências. A visita termina com uma refeição em que foram servidas as maissofisticadas iguarias e um convite de Jacinto ao narrador que ele se hospede no 202.Primeiros desencantosJosé Fernandes, a partir daí, pôde observar com maior atenção o amigo; suas intensasatividades o desgastavam e, com o passar do tempo, constatou que Jacinto foi perdendo acredulidade, percebendo a futilidade das pessoas com quem convivia, a inutilidade demuitas coisas da sua tão decantada civilização.Nos raros momentos em que conseguiam passear, confessava ao amigo que o barulhodas ruas o incomodava, a multidão o molestava: ele atravessava um período de nítidodesencanto.Alguns incidentes contribuíram sobremaneira para afetar o estado de ânimo de Jacinto: orompimento de um dos tubos da sala de banho, fazendo jorrar água quente por todo oquarto, inundando os tapetes, foi o bastante para aparecer uma pilha de telegramas,alguns inclusive com um riso sarcástico, com o do Grão-duque Casimiro, dizendo que nãomais apareceria pelo 202 sem que tivesse uma bóia de salvação.
  5. 5. As reuniões sociais estavam ficando maçantes. Em uma recepção ao Grão-Duque, Jacintojá não agüentava o farfalhar das sedas das mulheres quando lhes explicava o uso dosdiferentes aparelhos, o tetrafone, o numerador de páginas, o microfone...O criado veio lhe informar que o peixe a ser servido ficara preso no elevador e osconvidados puseram-se a pescá-lo, inutilmente, porque o peixe acabou não indo para amesa, fato que deixou ainda mais aborrecido o anfitrião.Claramente percebia eu que o meu Jacinto atravessava uma densa névoa de tédio, tãodensa, e ele tão afundado na sua mole densidade, que as glórias ou os tormentos de umcamarada não o comoviam, como muito remotas, inatingíveis, separadas da suasensibilidade por imensas camadas de algodão.Pobre Príncipe Grã-Ventura, tombado para o sofá de inércia, com os pés no regaço dopedicuro! Em que lodoso fastio caíra, depois de renovar tão brava mente todo o recheiomecânico e erudito do 202, na sua luta contra a força e a matéria!Preocupado, Zé Fernandes consulta o fiel criado Grilo sobre o que está ocorrendo comJacinto. O homem respondeu com tamanho conhecimento de causa que espantou onarrador. Uma simples palavra poderia definir todo o tédio de que era acometido: o patrãosofria de “fartura”.Era fartura! O meu Príncipe sentia abafadamente a fartura de Paris; e na Cidade, nasimbólica Cidade, fora de cuja vida culta e forte (como ele outrora gritava, iluminado) ohomem do século XIX nunca poderia saborear plenamente a "delícia de viver", ele nãoencontrava agora forma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse oesforço de uma corrida curta numa tipóia fácil.Pobre Jacinto! Um jornal velho, setenta vezes relido desde a crônica até aos anúncios,com a tinta delida, as dobras roídas, não enfastiaria mais o solitário, que só possuísse nasua solidão esse alimento intelectual, do que o parisianismo enfastiava o meu docecamarada!Se eu nesse verão capciosamente o arrastava a um café-concerto, ou ao festivo PavilhãodArmenonville, o meu bom Jacinto, colado pesadamente à cadeira, com um maravilhosoramos de orquídeas na casaca, as finas mãos abatidas sobre o castão da bengala,conservava toda a noite uma gravidade tão estafada, que eu, compadecido, me erguia, olibertava, gozando a sua pressa em abalar, a sua fuga de ave solta... Raramente (e entãocom veemente arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus clubes, aofundo dos Campos Elíseos.Não se ocupara mais das suas sociedades e companhias, nem dos telefones deConstantinopla, nem das religiões esotéricas, nem do bazar espiritualista, cujas cartasfechadas se amontoavam sobre a mesa de ébano, de onde o Grilo as varria tristementecomo o lixo de uma vida finda.
  6. 6. Também lentamente se despegava de todas as sua convivências. As páginas da agendacor-de-rosa murcha andavam desafogadas e brancas. E se ainda cediam a um passeio demail-coach, ou a um convite para algum castelo amigos dos arredores de Paris, era tãoarrastadamente, com um esforço saturado ao enfiar o paletó leve, que me lembravasempre um homem, depois de um gordo jantar de província, a estalar, que, por polidez ouem obediência a um dogma, devesse ainda comer uma lampreia de ovos!Jazer, jazer em casa, na segurança das portas bem cerradas e bem fendidas contra toda aintrusão do mundo, seria uma doçura para o meu Príncipe se o seu próprio 202, com todoaquele tremendo recheio de Civilização, não lhe desse uma sensação dolorosa deabafamento, de atulhamento!Certo dia, enquanto esperavam ser recebidos por Madame dOriol, José Fernandes eJacinto subiram à Basílica do Sacré-Coeur, em construção no alto de Montmartre. Ao serecostarem na borda do terraço, puderam contemplar Paris envolta em uma nuvemcinzenta e fria, motivando profunda reflexões, pois a cidade - tão cheia de vida, de ouro, deriquezas, de cultura e resplandecência, incluindo o soberbo 202, com todas as suassofisticações - estava agora sucumbida sob as nuvens cinzentas, a cidade não passava deuma ilusão.(...) uma ilusão! E a mais marga, porque o homem pensa ter na cidade a base de toda asua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria. Vê, Jacinto! Na Cidade perdeuele a força e beleza harmoniosa do corpo e se tornou esse ser ressequido e escanifradoou obeso e afogado em unto de ossos moles como trapos, de nervos trêmulos comoarames, com cangalhas, com chinós, com dentauros de chumbo sem sangue, sem febre,sem viço, torto, corcunda - esse ser em que Deus, espantado , mal pôde reconhecer o seuesbelto e rijo e nobre Adão!Na Cidade findou a sua liberdade moral; cada manhã ela lhe impõe uma necessidade, ecada necessidade o arremessa para uma dependência; pobre e subalterno, a sua vida éum constante solicitar, adular, vergar, rastejar, aturar: rico e superior como um Jacinto, asociedade logo o enreda em tradições, preceitos, etiquetas, cerimônias, prazer, ritos,serviços mais disciplinares que os de um cárcere ou de um quartel... A sua tranqüilidade(bem tão alto que Deus com ele recompensa os santos) onde está, meu Jacinto?Sumida para sempre, nessa batalha desesperada pelo pão ou pela fama, ou pelo poder,ou pelo gozo, ou pela fugidia rodela de ouro! Alegria como a haverá na Cidade para essesmilhões de seres que tumultuam na arquejante ocupação de desejar - e que, nuncafartando o desejo, incessantemente padecem de desilusão, desesperança ou derrota? Ossentimentos mais genuinamente humanos logo na cidade se desumanizam!Vê, meu Jacinto! São como luzes que o áspero vento do viver social não deixa arder comserenidade e limpidez; e aqui abala e faz tremer; e além brutamente apaga; e adianteobriga a flamejar com desnaturada violência. As amizades nunca passam de alianças queo interesse, na hora inquietada da defesa ou na hora sôfrega do assalto, ataapressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da rivalidade
  7. 7. ou do orgulho.E o amor, na Cidade, meu gentil Jacinto? Considera esses vastos armazéns comespelhos; onde a nobre carne de Eva se vende, tarifada ao arrátel, como a de vaca!Contempla esse velho deus do himeneu, que circula trazendo em vez do ondeante fachoda paixão a apertada carteira do dote!(...) Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Inteligência, porque ou lhaarregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a extravagância. Nesta densa epairante camada de idéias e fórmulas que constitui a atmosfera mental das cidades, ohomem que a respira, nela envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados sóexprime todas as expressões já exprimidas; ou então, para se destacar na pardacenta echata rotina e trepar ao frágil andaime da gloríola, inventa num gemente esforço, inchandoo crânio, uma novidade disforme que espante e que detenha a multidão. (...)Assim, meu Jacinto, na Cidade, nesta criação tão antinatural onde o solo é de pau e feltroe alcatrão, e o carvão tapa o céu, e agente vive acamada nos prédios com o paninho naslojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se murmuram através de arames - ohomem aparece como uma criatura anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade,sem riso, sem sentimento, e trazendo em si uma espírito que é passivo como um escravoou impudente como um histrião... E aqui tem o belo Jacinto o que é a bela Cidade!Zé Fernandes continuou a filosofar, acrescentando preocupações de caráter pessoal,indagando a posição dos pequenos que, como vermes, se arrastavam pelo chão,enquanto os poderosos os massacravam; eles iam às óperas aquecidos, lançando aospobres não mais que algumas migalhas. Religiosamente, acreditava ser necessário umnovo Messias que ensinasse às multidões a humildade e a mansidão.Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade e os gozos especiais que ele a cria. Oresto, a escura, imensa plebe, só nela sofre, e com sofrimento especiais, que só nelaexistem! (...) A tua Civilização reclama incansavelmente regalos e pompas, que só obterá,nesta amarga desarmonia social, se o capital der ao trabalho, por cada arquejante esforço,uma migalha ratinhada. Irremediável é, pois, que incessantemente a plebe sirva, a plebepene! A sua esfalfada miséria é a condição do esplendor sereno da Cidade. (...)Pensativamente deixou a borda do terraço, como se a presença da Cidade, estendida naplanície, fosse escandalosa. E caminhamos devagar, sob a moleza cinzenta da tarde,filosofando - considerando que para esta iniqüidade não havia cura humana, trazida peloesforço humano.Ah, os Efrains, os Trèves, os vorazes e sombrios tubarões do mar humano, sóabandonarão ou afrouxarão a exploração das plebes, se uma influência celeste, pormilagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes converter as almas! O burguês triunfa,muito forte, todo endurecido no pecado - e contra ele são impotentes os prantos doshumanitários, os raciocínios dos lógicos, as bombas dos anarquistas. Para amolecer tão
  8. 8. duro granito só uma doçura divina. Eis pois a esperança da Terra novamente posta numMessias!...O auto da compadecidaA peça retoma elementos do teatro popular, contidos nos autos medievais, e da literatura decordel para exaltar os humildes e satirizar os poderosos e os religiosos que se preocupamapenas com questões materiais.- Leia a análise de O auto da CompadecidaResumoA primeira peripécia narrativa da peça, o enterro do cachorro, pode ser encontrada emdiversas obras anteriores, como no cordel "O Dinheiro", de Leandro Gomes de Barros (1865-1918). Nesse cordel, um cachorro também deixara uma soma em dinheiro no testamento coma condição de que fosse ―enterrado em latim‖.As duas próximas peripécias, ambas encontradas na segunda parte da peça (que pode serdividida em três atos), apresentam um gato que supostamente ―descome‖ dinheiro e de uminstrumento musical que seria capaz de ressuscitar os mortos. Essas duas estruturas narrativasestão no romance de cordel "História do Cavalo que Defecava Dinheiro", também de LeandroGomes de Barros.Na peça, porém, Suassuna substituiu o cavalo por um gato, certamente para facilitar aencenação. Esse é um exemplo de como uma necessidade prática pode influir na narrativa,obrigando o autor a transformá-la conforme as necessidades impostas pela forma deapresentação.A apropriação da tradição, ao contrário de ser facilitada pela tematização prévia, édificultada, pois, ao imitar, é preciso fazer jus a quem se imita, superando-o ou pelo menosigualando-se a ele em qualidade e inventividade. No texto de Leandro Gomes, o instrumentomusical capaz de levantar defuntos era uma rabeca e, em Suassuna, passa a ser uma gaita,provavelmente também por causa de uma necessidade cênica.No último ato da peça ocorre o julgamento dos personagens que foram mortos por Severinode Aracaju, e do próprio Severino, morto por uma facada de João Grilo. É impossível nãopensar no "Auto da Barca do Inferno", de Gil Vicente, em que uma série de personagens éjulgada por seus atos em terra e tem como juízes um anjo e um demônio. A fonte direta deSuassuna, porém, estava mais próxima. É "O Castigo da Soberba", romance popularnordestino, de autoria anônima, no qual a compadecida aparece para salvar um grupo decondenados.Fica patente o cunho de sátira moralizante da peça, que assume uma posição cujo foco estána base da pirâmide social, a melhor maneira de desvelar os discursos mentirosos dasautoridades e integrar os homens e mulheres por meio da compaixão, a qual só osdesprendidos podem desenvolver. Nesse aspecto, a moral que se depreende da peça é muitosemelhante à do cristianismo primitivo, que se baseava no preceito ―amai-vos uns aosoutros‖.PersonagensOs personagens de "Auto da Compadecida" são alegóricos, ou seja, não representamindivíduos, mas tipos que devem ser compreendidos de acordo com a posição estrutural que
  9. 9. ocupam. A criação desses personagens possibilita que se enxergue a sociedade de umacidadezinha do Nordeste. É por isso que a peça pode ser chamada sátira social, pois procurareformar os costumes, moralizar e salvar as instituições de sua vulgarização.Palhaço: é o anunciador da peça e também o grande comentador das situações. Suas falasapresentam muitas vezes um discurso mais direto, que dá a impressão de vir do autor. Naverdade, o Palhaço exerce função metalinguística no espetáculo, ao refletir sobre o própriomecanismo mágico de produção da imitação e ao suprimir a distância entre realidade erepresentação.João Grilo: protagonista, personagem pobre e franzino, que usa de sua infinita astúcia paragarantir a sobrevivência. Já foi comparado a Macunaíma, o herói sem caráter. Talcomparação, no entanto, revela-se inadequada, já que João Grilo, ao contrário dopersonagem criado por Mário de Andrade, trabalha de forma dura, ajuda seu grande amigoChicó e tem como justificativa de suas traquinagens ser assolado por uma pobreza absoluta. Omais acertado seria compará-lo ao personagem picaresco, encontrado no romance medievalLazarilho de Tormes. Mas nem é preciso ir tão longe, pois Pedro Malazarte – cuja origemibérica está em Pedro Urdemalas – é o personagem popular mais próximo de João Grilo.Chicó: é o contador de causos, o mentiroso ingênuo que cria histórias apenas para satisfazerum desejo inventivo. Chicó se aproxima do narrador popular, e suas histórias revelam muitodo prazer narrativo desinteressado da cultura popular. Chicó e João Grilo são como a dupla depalhaços entre os quais a esperteza é mal repartida — um sempre a tem de mais e o outro, demenos.Padre João: mau sacerdote local, preocupado apenas em angariar fundos para suaaposentadoria.Sacristão: outro exemplo de mau religioso.Bispo: juntamente com o padre João e o sacristão, ajudará a compor o quadro derepresentação da Igreja corrompida.Antônio Moraes: típico senhor de terras, truculento e poderoso, que se impõe pelo medo,pelo dinheiro e pela força.Padeiro: representante da burguesia interessada apenas em acumular capital, explora seusempregados e tem acordos com as autoridades da Igreja.Mulher do padeiro: esposa infiel e devassa, tem amor genuíno apenas por seus animais deestimação.Frade: bom sacerdote, serve, no enredo da peça, para salvaguardar a instituição Igreja dascríticas do autor.Severino do Aracajú: cangaceiro violento e ignorante.Cangaceiro: ajudante de Severino, seu papel é apenas puxar o gatilho e executar outrospersonagens.Demônio: ajudante do Diabo, parece disposto a condenar todos os personagens mortos nofinal do segundo ato.
  10. 10. O Encourado (o Diabo): segundo uma crença nordestina, o diabo utiliza roupas de couro eveste-se como um boiadeiro. Funciona como uma espécie de antagonista de João Grilo; comoele, também é astuto, mas acaba sendo derrotado pelo herói.Manuel (Nosso Senhor Jesus Cristo): personagem que simboliza o bem, porém um bem semmisericórdia. É representado por um ator negro, a fim de que isso produza um efeito deestranhamento no público.A Compadecida (Nossa Senhora): heroína da peça, funciona como uma advogada de JoãoGrilo e de seus conterrâneos, derrotando com seus argumentos cheios de misericórdia osplanos do Encourado de levar todos ao inferno.Sobre Ariano SuassunaAriano Suassuna nasceu na cidade de João Pessoa, Paraíba, em 16 de junho de 1927. Quandotinha cerca de três anos de idade, seu pai foi assassinado por motivos políticos durante aRevolução de 30 e após isso o restante da família mudou-se para Taperoá, no sertãoparaibano. Nessa cidade ele realizou seus primeiros estudos e começou a se familiarizar coma linguagem e cultura do sertão nordestino.Em 1942, mudou-se com a família para o Recife, onde terminou seus estudos. Iniciou em 1946a Faculdade de Direito, onde conhece Hermilo Borba Filho e com ele funda o Teatro doEstudante de Pernambuco. Em 1947, Ariano Suassuna publica sua primeira peça, Uma mulhervestida de sol, com a qual ganhou o prêmio Nicolau Carlos Magno.Em 1950, forma-se em Direito e passa a exercer também a carreira de advogado. Apósescrever mais algumas peças, Suassuna publica O Auto da Compadecida em 1955. Dois anosdepois, essa peça é encenada pelo Teatro Adolescente do Recife e ganha a medalha de ouroda Associação Brasileira de Críticos Teatrais, projetando o escritor para todo o país.Em 1957, abandona a carreira de advogado para tornar-se professor na Universidade Federalde Pernambuco. No ano seguinte, casa-se com Zélia de Andrade Lima, com a qual teve seisfilhos. Mais uma vez junto com Hermilio Borba Filho, funda em 1959 o Teatro Popular doNordeste. Além disso, foi membro fundador do Conselho Federal de Cultura (1967) e doConselho Estadual de Cultura de Pernambuco (1968).Em 1969, Suassuna foi nomeado Diretor do Departamento de Extensão Cultural daUniversidade Federal de Pernambuco, cargo que ocupou até o ano de 1974. Nessa mesmauniversidade, doutorou-se em História em 1976 e ocupou o cargo de professor de Estética eTeoria do Teatro, dentre outras matérias, durante mais de trinta anos.Em 1970, lança o Movimento Armorial, que se interessava pelo conhecimento edesenvolvimento das formas de expressão populares tradicionais.Suas principais obras são: "Uma mulher vestida de sol" (1947), "O castigo da soberba" (1953),"O rico avarento" (1954), "O Auto da Compadecida" (1955), "O santo e a porca" (1957), "Acaseira e a Catarina" (1962) e "O Romance dA Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta" (1971).hicó e João Grilo, personagens principais da peça, conseguem um emprego napadaria da cidade, onde vivem o Padeiro e a Mulher do Padeiro. Os patrõescuidam melhor da cadela do que dos seus empregados. João Grilo sempre
  11. 11. reclama que há “bife passado na manteiga para a cadela e fome para JoãoGrilo”.Quando a cadela morre, a Mulher do Padeiro exige que João Grilo e Chicópeçam ao padre que benza sua cachorra antes do enterro. O padre nãoconcorda e João Grilo, amarelo esperto e embromador, alega que a cachorra édo temido Major Antônio Morais e, então, o padre aceita.Para conseguir que o padre realizasse o enterro em latim, João Grilo tambémdiz que a cachorrinha era uma cristã devota e que deixara em testamento 10contos de reis para a igreja.O padre realiza o desejo de todos e quando voltam à igreja encontram o bispocontrariado que logo se arrefece ao saber que a cachorrinha deixara 7 contosde réis para a paróquia, ou seja, sob sua responsabilidade e 3 contos de réispara a igreja.Chicó apaixona-se pela filha de Major Antônio Morais, Rosinha, e junto comJoão Grilo engendram um plano para conseguir a benção do major.Em uma de suas armações, onde Chicó deveria parecer valente diante detodos, eles se encontram com o cangaceiro Severino que faz com que seusubordinado mate o padre, o bispo, o Padeiro e a Mulher do Padeiro.Na vez de João Grilo e Chicó, João Grilo engana Severino com uma gaitamágica que ressuscita mortos e Severino, crente que visitaria seu PadrinhoPadre Cícero e depois voltaria, pede ao seu guarda que o mate. O subordinadovendo que seu chefe não voltava, mata João Grilo e foge.Todos se encontram no céu para o julgamento final e, após uma discussãoacirrada com o Diabo, João Grilo consegue a presença de Nossa Senhora quesugere ao filho, Jesus Cristo, que envie Severino diretamente para o céu, poisele não era responsável pelos seus atos, que envie o Padeiro, a Mulher doPadeiro, o padre e o bispo para o purgatório, pois na hora da morte todosperdoaram seus agressores, e que João Grilo volte para terra.Quando João Grilo volta, encontra Chicó e os dois conseguem fugir comRosinha e seguem juntos seu caminho pelo sertão.ESTRELA DA VIDA INTEIRA - Manuel Bandeira(Resumo)Por LivrosResumo do LivroNota: Share on emailShare on facebookShare on twitterShare on stumbleuponMore Sharing Services A Obra
  12. 12. A posição entre uma natureza apaixonada que aspirava a plenitude, e o exílio em que adoença o obrigara a viver, marcaram profundamente a sua sensibilidade, traduzindo-se, noplano estrutural, pelo gosto das antíteses, dos paradoxos, nos contrastes violentos; noplano emocional, por um movimento polar, uma oscilação constante que, no decorrer daobra, vai alternar a atitude de serenidade melancólica e o sentimento de revolta impotente.(Gilda e Antonio Cândido de Mello e Souza - Introdução in Estrela da vida inteira)Pasárgada: a poesia das coisas mais simplesQuando Manuel Bandeira morreu, em outubro de 1968, um jornal dedicou-lhe a mancheteBandeira, enfim, Pasárgada! em referência ao seu mais conhecido poema - Vou-meembora pra Pasárgada. Neste poema o poeta evoca a vida que poderia ter sido e que nãofoi, uma espécie de paraíso pessoal, lugar de sonhos e de desejos, em que ele poderiarealizar as felicidades mais simples, como andar em burro bravo, subir em pau-de-sebo,andar de bicicleta, tomar banho de mar...A enumeração, neste lugar ideal, de fantasias tão simples e despojadas já revela um dadobiográfico que se transformará em fonte de muitos temas da poesia de Bandeira: apresença da morte, anunciada em plena adolescência, sob a forma de uma tuberculose,doença mortal na época (início do século XX). (...) fui vivendo, morre-não-morre, e, em1914, o doutor Bodner, médico-chefe do Sanatório de Clavadel, tentando-lhe euperguntado quantos anos me restariam de vida, me respondeu assim: o senhor tem lesõesteoricamente incompatíveis com a vida: no entanto, está sem bacilos, come bem, dormebem, não apresenta em suma nenhuma sintoma alarmante. Pode viver cinco, dez, quinzeanos...Quem poderá dizer? Continuei esperando a morte para qualquer momento, vivendosempre como que provisoriamente. (Manuel Bandeira - Itinerário de Pasárgada)A permanente consciência da morte, a luta contra ela, a convivência com sua presença -fazedoras de ausências - transformam-se poeticamente numa descoberta essencial devida, numa valorização intensa da existência mais cotidiana, redescoberta como única,irrepetível, insubstituível.Não é possível separar a experiência de vida da experiência poética do autor dePasárgada, embora sua poesia - de uma universalidade intensa, ardente e simples - nãopossa ser reduzida a acontecimentos biográficos, que se revelam matrizes de imagens, deemoções, de ritmos, transfigurados na alquimia da criação.O critico Alfredo Bosi, em sua História concisa da literatura brasileira, escreve: (...)veremos que a presença do biográfico é ainda poderosa mesmos nos livros de inspiraçãoabsolutamente moderna, como Libertinagem, núcleo daquele seu não-me-importismoirônico, e, no fundo, melancólico, que lhe deu uma fisionomia tão cara aos leitores jovensdesde 1930.O adolescente mau curado da tuberculose persiste no adulto solitário que olha de longe o
  13. 13. carnaval da vida e de tudo faz matéria para os ritmos livres do seu obrigadodistanciamento.A sua obra, escrita ao longo de mais de meio século, atravessa praticamente toda ahistória do Modernismo no Brasil e apresenta muitos dos mais expressivos livros da poesiamoderna, como Ritmo dissoluto, Libertinagem, Estrela da manhã e outros.Estrela da vida inteira / Da vida que poderia / Ter sido e não foi. Poesia, / Minha vidaverdadeira.Nascido na Recife, em 1886, tendo passado a infância principalmente no Rio e no próprioRecife, Manuel Bandeira publica seu primeiro livro de poema em 1917 - A cinza das horas,que será seguido por Carnaval, em 1919, em que apresenta pela primeira vez, versoslivres na literatura brasileira. Conhece Mario de Andrade e os modernistas paulistas em1921.Não participa diretamente da Semana de Arte Moderna de 1922, mas o seu poema Ossapos, paródia contundente dos parnasianos, provoca um dos momentos de maiorescândalo, ao ser lido por Ronald de Carvalho, no Teatro Municipal de São Paulo, no dia15 de fevereiro: o de maior polemica de toda a Semana.A partir de então, não é possível pensar a poesia moderna no Brasil sem a presença deBandeira, que atravessará todas as chamadas fases do Modernismo, com uma produçãopoética de mais alto nível. Já na fase heróica, de 1922, em que a ruptura com o passado ecom as estruturas estabelecidas era a mais vital palavra de ordem, Mário de Andradechamava o poeta de S. João Batista do Modernismo, reconhecendo o seu papel deanunciador da nova poesia.Aos poemas de Bandeira nascem e crescem dos acontecimentos mais cotidianos, maiscomuns, dos momentos que aparentemente são banais e insignificantes. Do dia-a-dia miadesapercebido desentranha sua poesia, em que instantes da existência aparecemtransfigurados em pura essencialidade da vida.Detalhes prosaicos e perdidos na rotina descolorida dos dias revelam-se instantes deiluminação, instantes de transcendência e de proximidade da essência mais profunda - emais simples - da vida. O grande milagre da existência, a mais cotidiana, que aconsciência da morte revelará como algo intenso, único, irrepetível.Sua linguagem coloquial e, despojada, atinge algum dos momentos mais expressivos dalíngua: grande intensidade, grande condensação, com imensa simplicidade. Ao lado deCarlos Drummond, Bandeira é o grande incorporador do prosaico e do coloquial na poesiabrasileira moderna.... a poesia está em tudo - tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicascomo nas disparatas.
  14. 14. Uma poética de iluminações da existência cotidiana, com a mais expressivacoloquialmente, e com intensa condensação de imagens e ritmos, a obra de Bandeiralembra muitas vezes a criação poética dos haicais japoneses, em que se flagram instantede plenitude, de frágil e plena percepção da vida, concentrada em um detalheaparentemente banal.Ao mesmo tempo, em unidade indissociável, a obra de Bandeira representa a mais longaconvivência com a morte, de toda a poesia brasileira. Sem ser dominado pelo desespero,sem ser possuído pelo medo, sem dramatizações retóricas. Com amadurecida amargura.Com ironia e auto-ironia, melancólicas. Com sofrida serenidade. Com nostalgia da vidaque poderia ter sido e que não foi e nem será.Até mesmo com ternura pela morte, companhia constante de muitos anos, interlocutorasecreta que, paradoxalmente, revela o valor absoluto de cada dia, de cada pessoa, decada coisa. A sabedoria da morte - quando se descobre que não apenas os outros morrem- transformou-se, como em muitas correntes filosóficas, em sabedoria de vida. Aimportância da existência, de cada um: simples, essencial, passageira. Milagre. E a morte,também milagre.Bandeira é poeta da mais intensa ternura. De ardor terno e intenso pela vida. Umasensibilidade moderna, não grandiloqüente. Ternura melancólica pela infância perdida, epor seus personagens. Ternura ardente pelo corpo. A sua poesia amorosa revela-se comoardente lírica erótica.Poesia do corpo, de grande intensidade. Os corpos se estendem, as almas não. Imagenseróticas que se tornam experiências sagradas, transcendentalizadas, tal a naturalidade, oardor e a intensidade da ternura. O físico se funde com o onírico, terna edesconcertantemente.Além disso, revela-se um dos mais versáteis e flexíveis fazedores de versos domodernismo brasileiro. Suas estruturas de métrica e de ritmo vão desde as mais libertáriasexperiências de verso livre, dos fluxos mais soltos e irregulares até as estruturas maistradicionais, de verso em redondilhas da lírica medieval, dos versos decassílabos clássicose neoclássico e outros combinados com variadas formas fixas de estrófica regular, comsonetos, canções etc.Um fazedor de versos e estrofes extremamente versátil, com raro domínio técnico e comgrande erudição, capaz de traduzir de varias línguas e de escrever à moda de, imitandoestilos os mais diversos, da época e autores.Manuel Bandeira é também expressivo criador de imagens, com igual e desconcertantesimplicidade. Nas constelações de imagens dos seus poemas percebemos um movimentooposto e complementar: por um lado, o cotidiano parece transfigurado, instante deiluminação, com aura de símbolo transcendente, e, por outro lado, o desconhecido, omisterioso, o onírico aparecem configurados familiarmente, tornados próximos econfidentes, tornados íntimos do dia-a-dia.
  15. 15. Morto a mais de vinte anos, Bandeira continua se revelando como o mais simples e maisdespojado dos poetas do Modernismo brasileiro, como o poeta capaz de simplicidade maisessencial e mais expressiva."Memórias de um Sargento de Milícias" - Resumo da obrade Manuel Antônio de Almeida03/09/2012 21h 35O romance de Manuel Antônio de Almeida, escrito no período do romantismo, retrata a vidado Rio de Janeiro no início do século XIX e desenvolve pela primeira vez na literatura nacionala figura do malandro.- Leia a análise Memórias de um Sargento de MilíciasResumoPor ser originariamente um folhetim, publicado semanalmente, o enredo necessitava prendera atenção do leitor, com capítulos curtos e até certo ponto independentes, em geralcontendo um episódio completo. A trama, por isso, é complexa, formada de histórias que sesucedem e nem sempre se relacionam por causa e efeito.―Filho de uma pisadela e de um beliscão‖ (referência à maneira como seus pais flertaram, aose conhecer no navio que os conduz de Portugal ao Brasil), o pequeno Leonardo é uma criança
  16. 16. intratável, que parece prever as dificuldades que irá enfrentar. E não são poucas:abandonado pela mãe, que foge para Portugal com um capitão de navio, é igualmenteabandonado pelo pai, mas encontra no padrinho seu protetor. Esse é dono de uma barbearia etem guardada boa soma em dinheiro.Enquanto o pequeno Leonardo apronta as suas diabruras pela vizinhança, seu pai, LeonardoPataca, se envolve amorosamente com a Cigana, mas essa o abandona logo. Ele, então,recorre à feitiçaria (proibida naquela época) para tentar trazê-la de volta. Porém, no auge dacerimônia o major Vidigal e seus homens invadem a casa do feiticeiro, açoitam os praticantese levam Leonardo Pataca preso. Ele pede socorro à Comadre, que pede ajuda a um Tenente-Coronel que se considerava em dívida com a família de Pataca, e ele logo é solto.Já o Compadre (ou padrinho) que cuidava do menino Leonardo havia aprendido o ofício debarbeiro com o homem que o criara. Foi para a África como médico em um navio negreiro e,durante a volta, o capitão em seu leito de morte lhe confiou um baú de dinheiro para que oentregasse a sua filha. Ele, porém, ficou com o dinheiro. Após isso aparenta ter se tornadoum homem de bem e cria o Leonardo como se fosse um filho, sonhando em torna-lo padre. Omenino, porém, causa transtornos por qualquer lugar onde passa e, após levar uma enormebronca do padre da cidade, jura vingança.O padre era um homem que aparentava ser santo, mas na realidade era um lascivo e fora elequem roubara a Cigana de Leonardo Pataca. Como o padre passava boa parte de seu tempona casa dela, um dia o menino Leonardo resolve armar uma emboscada para desmascará-lo.Ele vai até a casa da Cigana para informar o horário de uma festa, mas ele mente o horáriopara que o padre chegue atrasado. Quando por fim chegou à igreja, o padre repreende aomenino perguntando-lhe qual era a hora certa do sermão. Leonardo, então, diz que falou ohorário correto e que a Cigana estava de prova, pois ouviu tudo. Sem saber o que fazer frenteao choque de todos, ele dispensa o menino.Leonardo Pataca, ao saber que havia sido trocado pelo padre, resolve tentar conquistarCigana novamente. Ela, porém, não dá bola para ele. Para se vingar, ele contrata um amigopara causar uma confusão em uma festa que ela iria promover em sua casa. No momento dabagunça Vidigal, que já havia sido avisado por Pataca, aparece e prende o padre emflagrante, somente de cueca, meia, sapato e gorrinho na cabeça. Com isso, Leonardo Patacaconsegue ficar mais um tempo com a Cigana.O Compadre passou a frequentar a casa de D. Maria, uma rica mulher com gosto pelo Direito,sempre acompanhado do afilhado Leonardo. Com o tempo o menino foi sossegando, até quechegou a idade dos amores. Luisinha, uma menina descrita como feia e que era filha dorecém-falecido irmão de D. Maria, foi morar com a tia. No dia da festa do Espírito Santoforam todos ver a queima de fogos. A menina se divertiu, abraçou Leonardo pelas costas e nofinal os dois voltaram de mãos dadas. Após isso, porém, Luisinha voltou a ficar tímida.Um dia entra em cena José Manuel, homem mais velho que fica interessado em Lusinha porconta da herança que ela havia recebido do pai e que iria receber de D. Maria, já que ela eraa única herdeira. O Compadre, percebendo os interesses de José Manuel, se junta à Comadrepara tentar espantar o interesseiro. Enquanto isso, Leonardo tenta conquistar Luisinha, masele acaba saindo muito sem jeito e acaba espantando ela. Porém, fica claro que Luisinhatambém gosta de Leonardo. Para tentar afastar José Miguel, a Comadre inventa uma série dementiras, que logo são descobertas. Então, D. Maria, ao invés de expulsar José, acaba seafastando da Comadre, agora desacreditada.Enquanto isso, novamente traído pela Cigana, Leonardo Pataca junta-se com a filha daComadre e têm um filho juntos. Pouco depois o Comadre morre e Leonardo vai morar juntocom o pai. Porém, ele e sua madrasta não conseguem se entender e, após muitas brigas, elefoge de casa. Afastado de todos, Leonardo conhece um grupo que estava fazendo piqueniquee reconhece dentre eles um amigo seu de infância.
  17. 17. Leonardo passa a morar junto com eles na Rua da Vala. Lá vivem duas quarentonas viúvas eseus seis filhos, sendo que uma tinha três rapazes e outra três moças. Vidinha era a maisbonita e era disputada por dois primos. Porém, ela acaba se enamorando com Leonardo e osdois passam o dia namorando dentro de casa, o que desperta ciúmes dos outros rapazes.Esses, por sua vez, vão falar para Vidigal que Leonardo está vivendo como intruso na casa etirando proveito das mulheres. Num dia, Vidigal aparece e leva Leonardo preso, mas esseconsegue fugir.A Comadre arruma um emprego para Leonardo na ucharia real, mas ele se envolve com aesposa do patrão e acaba despedido. Vidinha vai até a casa de Toma Largura, ex-patrão deLeonardo, para brigar com ele e com sua esposa. Enquanto isso, Vidigal consegue prenderLeonardo. Acontece que Toma Largura ficou encantado com Vidinha e começa a cerca-la detodas as formas. A moça, encarando a ausência de Leonardo como consequência das últimasbrigas, resolve ceder à insistência de Toma Largura.Obrigado pela polícia, Leonardo começa a servir ao exército. Depois de um tempo, Vidigal ocoloca no batalhão de granadeiros para combater os malandros do Rio. Porém, ao contráriodo que ele pensava, Leonardo continua aprontando dentro do próprio batalhão de polícia. Naúltima delas, Vidigal planejava prender um homem que fazia imitações suas para animarfestas. Mas Leonardo acaba se divertindo com as graças do imitador e o avisa das intenções deVidigal. Quando o major descobre a traição de Leonardo, prende o moço sob juramento dealgumas chibatadas.A Comadre fica sabendo disso e vai pedir ajuda à D. Maria e à Maria Regalada, antiga amantede Vidigal. Elas vão até a casa do major, que as recebe com roupa civil da cintura para baixoe farda da cintura para cima. Não conseguindo resistir aos pedidos das três mulheres, Vidigalperdoa Leonardo e ainda promete promove-lo à sargento do exército.Enquanto tudo isso acontecia, Luisinha estava casada com José Manuel, que a tratava mal esó se preocupava com o dinheiro da moça. D. Maria resolve preparar uma ação judicial contrao homem, mas ele acaba morrendo vítima de um ataque apopléctico (parecido com umderrame). Após o enterro de José Manuel, preparam tudo para o casamento de Luisinha,agora uma mulher feita e bonita, com Leonardo, bonito e muito elegante em sua farda desargento do exército. Algum tempo depois, D. Maria e Leonardo Pataca também morrem e,junto com as outras heranças que já tinham, receberam mais duas.Lista de personagensLeonardo: protagonista que garante unidade à narrativa. O sargento de milícias a que serefere o título da obra é Leonardo, embora o personagem obtenha esse cargo somente nasúltimas páginas do livro.Leonardo Pataca: pai de Leonardo, um meirinho (oficial de Justiça) que fora vendedor deroupas em Lisboa e, durante sua viagem ao Brasil, conhece Maria das Hortaliças, o queresultará no nascimento de Leonardo.Maria das Hortaliças: mãe de Leonardo, uma saloia (camponesa) muito namoradeira, queabandona o filho para ficar com outro homem.O Compadre ou O Padrinho: é dono de uma barbearia e toma a guarda de Leonardo após ospais abandonarem a criança. Torna-se um segundo pai para ele.A Comadre ou A Madrinha: mulher gorda e bonachona, apresentada como ingênua,frequentadora assídua de missas e festas religiosas.Major Vidigal: homem alto, não muito gordo, com ares de moleirão. Apesar do aspectopachorrento, era quem impunha a lei de modo enérgico e centralizado.Dona Maria: mulher idosa e muito gorda, não era bonita, mas tinha aspecto bem-cuidado. Erarica e devotada aos pobres. Tinha, contudo, o vício das demandas (disputas judiciais).
  18. 18. Luisinha: sobrinha de dona Maria. Seu aspecto, inicialmente sem graça, se transformagradualmente, até se tornar uma rapariga encantadora.Vidinha: mulata de 18 a 20 anos, muito bonita, que atrai as atenções de Leonardo.Sobre Manuel Antônio de AlmeidaManuel Antônio de Almeida nasceu em 17 de novembro de 1830 na cidade do Rio de Janeiro.Enquanto fazia a Faculdade de Medicina começou a carreira de jornalista levado pordificuldades financeiras. Formou-se em 1855, mas nunca chegou a exercer a profissão demédico.Durante 1852 e 1853 publicou anonimamente (assinava como ―um Brasileiro‖) os folhetins quedariam origem ao livro Memórias de um Sargento de Milícias (1854-55). Na terceira edição,que saiu postumamente em 1863, o nome verdadeiro do autor passou a constar na obra. Aindadurante essa mesma época, publicou uma peça, alguns poemas, um libreto de ópera eescreveu sua tese de Doutorado em Medicina.Em 1858 foi nomeado Administrador da Tipografia Nacional, onde conheceu Machado de Assis.Em 1859 é nomeado 2º Oficial da Secretaria da Fazenda e, no dia 28 de novembro de 1861,acaba falecendo no naufrágio do navio Hermes.Seu único livro é "Memórias de um Sargento de Milícias" (1852), mas publicou também diversoscontos, crônicas, poesias e ensaios. Além disso, escreveu uma peça teatral chamada "DoisAmores" (1961).Esta é uma história fantástica, narrada por um defunto-autor. Brás Cubas, o narrador-personagem, é apresentado nela, por Machado de Assis, como um homem pretensamentesuperior, a fim de revelar exatamente o oposto, ou seja, o quanto a condição huamana seriafrágil, precária. Vemos que se revela o realismo irônico, de forma universal e intemporal,surgindo ante os leitores a postura niilista, ou seja, de completa negativa de tudo, misturada àfilosofia e à metafísica.De acordo com Lúcia Miguel-Pereira, a obra, em sua ousadia, deixa de fora o sentimentalismo,o moralismo de superfície, a sonhada unidade do ser humano, o plavreado sentimentalóide, omedo de escandalizar os preconceituosos, a ideia de que o amor sempre deveria prevalecersobre qualquer outro tipo de paixão, a eterna recorrência à natureza, como se esta fosse aúnica forma de se colocar a cor local para o leitor. Em contrapartida, homens e mulheresrevelam-se como personagens, independentemente de nacionalidade ou regionalismos; avisão do ambiente e da época aparecem com clareza e o humor é utilizado com maestria, emnossa literatura, pela primeira vez."Memórias Póstumas de Brás Cubas" é a obra que sela a nossa independência literária, anossa maturidade intelectual e social, a liberdade de concepção e expressão de que o Brasil seencontrava necessitado na época. Machado de Assis atribuiu ao romance um caráter regional,sem entretanto deixar de ser brasileiro. Apenas, não teve mais, como acontecia com autoresde escolas anteriores, que ficar provando brasilidade em seu texto.Como perfeitamente sabemos, essa obra é conhecida como um "divisor de águas" naLiteratura Brasileira. É ela que divide em duas partes o trabalho do escritor Machado de Assis:a fase romântica e a fase realista, que tem início com sua publicação. Também é ela, em 1881,que faz a passagem do Romantismo para o Realismo brasileiro.Supostamente, as memórias foram escritas por um "defunto-autor", ou seja, um narrador-personagem que conta sua vida depois de morto, do além-túmulo, o que nos reporta aos"Diálogos dos Mortos" de Luciano de Samósata, escritor grego, dando à obra um caráter
  19. 19. luciânico, o que também ocorre no "Auto da Barca do Inferno", de Gil Vicente, e em "DomCasmurro", do mesmo Machado - uma obra aberta, também característica herdada do escritorgrego já citado.O foco narrativo em primeira pessoa dá ao personagem Brás Cubas o monopólio do texto.Aparentemente, seu relato caracteriza-se por uma postura de isenção, ou seja, prima pelaimparcialidade, já que um morto não teria qualquer necessidade de mentir, já que deixara omundo dos vivos e, assim, abandonara qualquer comprometimento, ilusão ou envolvimento.No entanto, se observarmos com cuidado, a obra só poderá ser entendida se começarmos poranalisar o que o personagem conta, procurando perceber certos sinais, que indicam que elemente, exagera e chega, inclusive, a ser incongruente. Brás Cubas manipula a história, mostra-se sempre superior, com mania de grandeza, desde o início de seu relato. Chega a compararseu relato ao Pentateuco, que é um livro sagrado, histórico, fundador de uma tradição religiosa,atribuído a Moisés, um profeta universalmente importante, insinuando que a diferença radicalentre este relato e o seu seria apenas o fato de Brás narrar sua existência partindo da morte eMoisés, seguindo a cronologia normal, tomando o nascimento como início. Logicamente,apenas um grande presunçoso não perceberia a diferença entre as duas narrativas, o grau deimportância de cada uma, o que nos revela o grande presunçoso que ainda vive no "defunto-autor" Brás Cubas.A ironia destaca-se no decorrer da obra e direciona-se a vários objetos. Um exemplo, seria apostura romântica, quando apresenta alguns trechos em que a ridiculariza - como a frase deque a natureza chora sua morte ou ao questionar a bondade e a fidelidade do amigo que oelogia em seu funeral, insinuando que o comprara.Mostra o ridículo de um enterro com onze pessoas presentes, mas não deixa de explicar queos anúncios e cartas não foram feitos, portanto as pessoas não haviam sido avisadas de suamorte. Vemos, mais uma vez, o jogo de Machado de idas e vindas e suas colocações, só quefeitos por intermédio de Brás.É como se Machado de Assis buscasse transmitir uma forma de encarar o mundo, mostrandoque a piedade, a suavidade, o afeto, e tantos outros valores estão perecendo na conjuntura emque a Humanidade cada vez mais se acomoda.Notamos que o "defunto-autor" estabelece-se distanciado de Machado de Assis, assim comoda humanidade, que não teme desmascarar, ferir, escandalizar, chegando a dizer ao leitor que,se não se agradar de sua obra, tome um piparote, como um inseto que incomoda ou um grãode poeira em nossa roupa, jogado para longe com a ponta dos dedos. Vemos que Brás Cubasnão crê no ser humano, daí escrever com a "pena da galhofa", da ironia, do rídiculo, sem,entretanto, sentir-se ferido, usando a "tinta da melancolia" para demonstrá-lo.O verdadeiro caráter do narrador-personagem revela-se gradativamente, no decorrer doromance. Aos poucos, o leitor vê do que ele é capaz, o que pensa sobre si e sobre os outros,como não tem limites para chegar ao que deseja atingir, sem freios, sem cuidados.Um forte niilismo pode ser verificado, quando, no capítulo final do romance, ele enumera todasas negativas que lhe compuseram a existência, em todos os sentidos e planos. Apenas algunspontos positivos, como o fato de não ter que morrer pobre como D. Plácida, de nãoenlouquecer como Quincas Borba e de não necessitar de trabalho para sobreviver sãomencionados, como uma pequena compensação para tantos "nãos". É um burguês, de acordocom os personagens realistas, cheio de ilusões e empáfias. Acha-se quite com a vida.
  20. 20. No entanto, ao refletir melhor, em mais uma de suas voltas, acaba por desmentir aquilo queseria um consolo, uma conciliação com a vida. Diz que fez mais, e que carrega um saldo, aindaque pequeno, o qual se constitui na derradeira negativa do romance e em mais uma grandeironia de Machado: em um radicalismo niilista, Brás nega que a Humanidade mereça tercontinuidade, vangloria-se de não ter tido filhos, de não dar prosseguimento a sua família.Vinga-se da vida, recusa-a radicalmente, trata de demoli-la. "Não tive filhos, não transmiti anenhuma criatura o legado da nossa miséria" é uma frase que nos revela a universalidade damiséria humana, tanto que o narrador troca o "eu" pelo "nós" e, assim, podemos verificar queBrás Cubas se revela como síntese de muitas, ou talvez, de todas as pessoas, com seusfracassos não assumidos, escamoteados, e não apenas um ser. Machado analisa a todos, deforma profunda, com sua capacidade imensa de penetração psicológica. Desvenda-nos asfaces do ser humano, como se de um só falasse.Temos uma obra em estilo substantivo e anti-heróico, revelado, em uma linguagem ambígua,sutil, repleta de causticidade e humor, usada para ironizar e destruir todas as ilusõesromânticas mencionadas.No romance, surgem o uso da linguagem e a interlocução ou conversa com o leitor, quetambém é denominada "processo do leitor incluso". O nosso narrador, que não é nadaconfiável, ilude, provoca e desconcerta seu leitor, servindo-se de conversas nas quais ironizasuas expectativas, fazendo, inclusive, reflexões metalinguísticas, usadas para criticar alinguagem e a estrutura das narrativas tradicionais e questionar o próprio processo de criaçãoliterária. Um exemplo disso é quando Brás faz a metalinguagem, ironizando, por meio dela, oleitor apressado e acostumado com a estrutura utilizada nos folhetins românticos, nas quais anarração é direta, regular e fluente.Ocorre, ainda, a quebra da linearidade do enredo, aparecendo microcapítulos digressivos,usados para comentar, explicar e exemplificar outros capítulos. Essa atitude de Machado deAssis fragmenta o romance tradicional. Faz com que o leitor tenha que se esforçarconstantemente na montagem, organização, recriação crítica e criativa da obra. Um bomexemplo disso seria o episódio da borboleta preta, uma alegoria à personagem Eugênia, que émanca e pobre. Outros exemplos de fragmentação mais radicais são "O velho diálogo de Adãoe Eva" e "De como não fui ministro", capítulos compostos apenas e tão-somente de sinais depontuação, repletos de ideias, mas vazios de palavras, levando a imaginação do leitor afuncionar.O romance tem como o espaço o Rio de Janeiro e temos o tempo psicológico - das memórias -,com quebra de linearidade, embora diversas datas sejam citadas.Podemos dizer que Brás Cubas assume uma posição transtemporal, pois enxerga a própriaexistência de fora dela, de modo onisciente e descontínuo. Os fatos são narrados quandosurgem na memória e várias digressões são feitas. Cortiço Um homem qualquer, trabalhador e muito economizador adquire fortuna, amiga-se a uma negra de um cego e sente cada vez mais sede de riqueza. Arranja confusões com um novo vizinho(Miranda) ao disputar palmos de terra. Chega a roubar para construir o que tanto almejava: um cortiço com casinhas e tinas para lavadeiras. Prosperou em seu projeto. João invejava seu vizinho. Veio morar na casa de Miranda, Henrique, acadêmico de medicina, a fim de terminar os estudos. Nessa casa, além de escravos e sua
  21. 21. família morava um senhor parasita (Botelho, ex-empregado). D. Estela(esposa de Miranda) andava se "escovando" com o Henrique, porémacabaram sendo flagrados pelo velho Botelho.O cotidiano da vida no cortiço ia de acordo com a rotina e a realidade deseus moradores, onde lavadeiras eram o tipo mais comum. Jerônimo(português, alto, 35 a 40 anos), foi conversar com João oferecendo-lheserviços para a sua pedreira. Com custo, depois de prosearem bastante,João aceitou a proposta, com a condição dele morar no cortiço e comprar emsua venda. A mudança de Jerônimo e Piedade se sucedeu sob comentáriose cochichos das lavadeiras. Após alguns meses eles foram conquistando atotal confiança de todos, por serem sinceros , sérios e respeitáveis. Tinhamvida simples e sua filhinha estudava num internato. No domingo todos vestema melhor roupa e se reúnem para jantar, dançar, festejar, tudo muito avontade. Depois de três meses Rita Baiana volta. Nessas reuniõessobressaia o "Choro", muito bem representado pela Baiana e seu amanteFirmo.Toda aquela agilidade na dança deixara Jerônimo admirado ao ponto deperder a noite em claro pensando na mulata. Pombinha tirava esses diaspara escrever cartas. Henrique entretia-se a olhar Leocádia, que em troca deum coelho satisfez sua vontade física(transa), quando foram pegos porBruno(seu marido), que bateu na mesma e despejou-a de sua casa depoisde fazer um baita escândalo. Jerônimo mudou seus costumes, brigava comsua e a cada dia mais se afeiçoava pela mulata Rita. Firmo sentia-seenciumado. Florinda engravidou de Domingos (caixeiro da venda de JoãoRomão), o mesmo foi obrigado a casar-se ou fornecer dotes.Foi aquele rebuliço em todo cortiço, nada mais falavam além disso, Florindaviu-se obrigada a fugir de casa. Léonie(prostituta alto nível) apareceemperiquitada com sua afilhada Juju, todos admiravam quanta riqueza, masnem por isso deixaram sua amizade de lado. Léonie era muito amiga dePombinha. Na casa de Miranda era uma festa só! Ele havia sido agraciadocom o título de Barão do Freixal pelo governo português. João indagava-se,por não ter desfrutado os prazeres da vida, ficando só a economizar. Diantede tal injúria, com muito mau humor implicava com tudo e todos do cortiço.Fez despejar na rua todos os pertences de Marciana. Acusou-a devagabunda, acabando ela na cadeia.A festa do Miranda esquentava e João recebeu convite para ir lá, o que odeixou ainda mais injuriado. O forró no cortiço começou, porém briga feia setravou entre Jerônimo e Firmo. Barricada impedia a polícia entrar, o incêndiono 12 fez subir grande desespero, era um corre-corre, polícia, acidentados(Jerônimo levou uma navalhada) e para finalizar caiu uma baita chuva.Joãofoi chamado a depor, muitos do cortiço o seguiram até a delegacia, como emmutirão. Rita incansavelmente cuidava do enfermo Jerônimo dia e noite.No cortiço nada se dizia a respeito dos culpados e vítimas. Piedade não seagüentava chorando muito descontente e desesperada por seu maridoacidentado. Firmo não mais entrava por lá, ameaçado por João Romão deser entregue a polícia. Pombinha amanheceu indisposta decorrente da visitafeita no dia anterior à Léonie. Esta, como era de seu costume, atrancouPombinha em beijos e afagos, pois era além de prostituta, lésbica. Issodeixara a menina traumatizada, que por força e insistência de sua mãe, saiua dar voltas atrás do cortiço, onde cochilou, sonhou e ao acordar viroumulher.A festa se fez por D. Isabel, ao saber de tão esperada notícia. Estava
  22. 22. Pombinha a preparar seu enxoval quando Bruno chegou e lhe pediu queescrevesse uma carta a Leocádia. Ele chorava... Ela, ao ver a reação desubmissão dele, desfrutava sua nova sensação de posse do domíniofeminino. Imaginava furtivamente a vida de todos, pois sua escrivania serviade confessionário. Via em seu viver que tudo aquilo continuaria, pois nãohaviam homens dignos que merecessem seu amor e respeito. Pombinha,mesmo incerta, casa-se com o Costa, foi grande a comoção no cortiço.Surgiu um novo cortiço ali perto, o "Cabeça de Gato". A rivalidade com ocortiço de João Romão foi criada. Firmo hospedou-se lá, tendo ainda maismotivos contra Jerônimo. João, satisfeito com sua segurança sobre oshóspedes, investia agora em seu visual e cultura, com roupas, danças,leituras e uma amizade com Miranda e o velho Botelho.Ele e o velho estavam tramando coisa com a filha do Barão. Fez-se um jantarno qual João foi todo emperiquitado. João naquele momento de auge em suavida, via-se numa situação em que necessitava livrar-se da negra, chegou apensar em sua morte. Sem nem mesmo repousar após sua alta do hospital,Jerônimo foi conversar com Zé Carlos e Pataca a respeito do extermínio doFirmo. O dia corria, João proseava com Zulmira na janela da casa deMiranda, sentindo-se familiarizado. Jerônimo foi realizar seu planoencontrando-se com os outros dois no Garnisé (bar em frente ao cemitério).Pataca entrou no bar, encontrou por acaso com Florinda, que se ajeitara navida e dera-lhe notícia que sua mãe parara num hospício. Firmo aparece ePataca o faz sair até a praia com pretexto de Rita estar lá. Muito chapadoseguiu-o. Lá os três treteiros espancaram-lhe e lançaram-lhe ao mar. Choviamuito e ao ir para casa, Jerônimo desiste e se dirige à casa da Rita. Oencontro foi efervescente por ambas as partes. Tudo estava resolvido,fugiriam no dia seguinte. Piedade, ao passar das horas, mais desesperadaficava. Ao amanhecer do dia chorava aos prantos e no cortiço nada mais seouvia senão comentários sobre o sumiço do Jerônimo.A morte de Firmo já rolava solta no cortiço. Rita encontrava-se com Jerônimo.Ele, sonhando começar vida nova, escreve logo ao vendeiro despedindo-sedo emprego, e à mulher constando-lhe do acontecido e prometendo-lhesomente pagar o colégio da garota. Piedade e Rita se atracaram no momentoem que a mulata saía de mudança, o cortiço todo e mais pessoas quesurgiram, entraram na briga. Foi um tremendo alvoroço, acabara sendo umadisputa nacional (Portugueses x Brasileiros).Nem a polícia teve coragem de entrar sem reforço. Os Cabeças de Gatotambém entraram na briga. Travou-se a guerra, a luta dos capoeiristas rivaisaumentava progressivamente quando o incêndio no 88 desatou,ensangüentando o ar. A causa foi a mesma anterior, por um desejomaquiavélico, a velha considerada bruxa incendiou sua casa, onde morreuqueimada e soterrada, rindo ébria de satisfação. Com todo alvoroço, surgiaágua de todos os lados e só se pôs fim na situação quando os bombeiros,vistos como heróis, chegaram. O velho Libório (mendigo hospedado numcanto do cortiço) ia fugindo em meio a confusão, mas João o seguiu.Estava o velho com oito garrafas cheias de notas de vários valores, essasque João roubou e fugiu, deixando-o arder em brasas. Morrera naqueleincêndio a Bruxa, o Libório e a filhinha da Augusta além de muitos feridos.Para João o incêndio era visto como lucro, pois o cortiço estava no seguro,fazendo ele planos de expansão baseado no dinheiro do velho mendigo. Porconseqüências do incêndio Bruno foi parar no hospital, onde Leocádia foivisitá-lo ocorrendo assim a reconciliação de ambos. As reformas expandiram-se até o armazém e as mudanças no estilo de João também alcançavam um
  23. 23. nível social cada vez mais alto. Com amizade fortificada junto ao Miranda e sua família, pediu a mão de Zulmira em casamento. Bertoleza, arrasada e acabada daquela vida, esperava dele somente abrigo em sua velhice, nada mais.Jerônimo abrasileirou-se de vez. Com todos costumes baianos deleitava-se a viver feliz com a mulata Rita. Piedade desolada de tristeza habituara-se a beber e começou a receber visitas aos domingos de sua filhinha (9 anos), que logo cativou todo o cortiço, crismada por todos como "Senhorinha". Acabados por desgraças da vida, Jerônimo e Piedade não mais guardavam rancor um do outro, ambos se estimavam e em comum possuíam somente a filha a cuidar. Jerônimo arrependia-se , mas não voltaria atrás. Deu-se a beber também. O cortiço não parecia mais o mesmo, agora calçado, iluminado e arrumado todo por igual. O sobrado do vendeiro também não ficara para trás nas reformas. Quem se destacou foi Albino (lavadeiro homossexual) com a arrumação de sua casa. A vida transcorria, novos moradores chegavam. Já não se lia sob a luz vermelha na porta do cortiço "Estalagem de São Romão", mas sim "Avenida São Romão". Já não se fazia o "Choradinho" e a "Cana- verde", a moda agora era o forrobodó em casa, e justo num desses em casa de das Dores, Piedade enchera a cara e Pataca é que lhe fizera companhia querendo agarrá-la depois de ouvir seus lamentos, mas a caninha surtiu efeito (vômito) e nada se sucedeu. João Romão não pregara os olhos a pensar no que fazer para dar um fim na crioula Bertoleza. Agostinho (filho da Augusta) sofrera acidente na pedreira, ficara totalmente estraçalhado. Foi aquele desespero no cortiço. Botelho foi falar a João logo cedo. Bertoleza ao ouvir, pôs-se respeito diante da situação e exigiu seus direitos, discutiram o assunto e nada resolveram. João se irritara e tivera a idéia de mandá-la de volta ao dono propondo esse serviço ao velho Botelho, que aliás recebia dele remuneração por tudo que lhe prestava. Em volta do desassossego e mau estar de João e Bertoleza o armazém prosperava de vento em poupa aumentando o nível dos clientes e das mercadorias. Sua Avenida agora era freqüentada por gente de porte mais fino como alfaiates, operários, artistas, etc. Florinda ainda de luto por sua mãe Marciana, estava envolvida agora com um despachante. A Machona (Augusta) quebrara o gênio depois da morte de Agostinho. Neném arrumara pretendente. Alexandre fora promovido à sargento. Pombinha juntara-se à Léonie e atirara-se ao mundo. De tanto desgosto, D. Isabel (mãe de Pombinha) morrera em uma casa de saúde. Piedade recebia ajuda da Pombinha para sobreviver, pois estimava Senhorinha, apesar de saber que o fim da pobre garotinha seria como o seu. Mesmo assim Piedade foi despejada indo refugiar-se no Cabeça de Gato, que tornara-se claramente um verdadeiro cortiço fluminense. Ocorreu um encontro em uma confeitaria na Rua do Ouvidor, entre a família do Miranda, o Botelho e o João Romão que puseram-se a prosear. Na volta, seguindo em direção ao Largo São Francisco, João e Botelho optaram em ficar na cidade a conversar sobre o fim que se daria a crioula. Estava tudo certo, seu dono iria buscá-la junto á polícia. Quando isso sucedeu-se, ao ver-se sem saída, impetuosa a fugir, com a mesma faca que descamava e limpava peixes para o João, Bertoleza rasgou seu ventre fora a fora. Naquele mesmo instante João Romão recebera um diploma de sócio benemérito da comissão abolicionista.Home
  24. 24. Resumo do LivroPRIMEIRAS ESTÓRIAS – Guimarães Rosa (Resumo)PRIMEIRAS ESTÓRIAS – Guimarães Rosa(Resumo)Por LivrosResumo do LivroNota:Share on emailShare on facebookShare on twitterShare on stumbleuponMore Sharing Services A Obra Obra publicada em 1962, reúne 21 contos. Trata-se do primeiro conjunto de histórias compactas a seguir a linha do conto tradicional, daí o "Primeiras" do título. O escritos acrescenta, logo após, o termo estória, tomando-o emprestado do inglês, em oposição ao termo História ,designando algo mais próximo da invenção, ficção.No volume, aborda as diferentes faces do gênero: a psicológica, a fantástica, aautobiográfica, a anedótica, a satírica, vazadas em diferentes tons: o cômico, o trágico, opatético, o lírico, o sarcástico, o erudito, o popular.As estórias captam episódios aparentemente banais.As ocorrências farejadas através dos protagonistas transformam-se de uma espécie demilagre que surge do nada, do que não se vê, como diz o próprio Guimarães Rosa;"Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo".Este milagre pode ser então, responsável pela poesia extraída dos fatos mais corriqueiros,pela beleza de pensar no cotidiano e não apenas vivê-lo, pelo amor que se pode ter pelascoisas da terra, pelo homem simples, pelo mistério da vida.Dos "causos " narrados brotam encanto e magia frutos da sensibilidade de um poetadeslumbrado com a paisagem natural e/ou recriada de Minas Gerais.ENREDOSI - "As margens da alegria".Um menino descobre a vida, em ciclos alternados de alegria (viagem de avião,deslumbramento pela flora, e fauna) e tristeza (morte do peru e derrubada de uma árvore).II - "Famigerado".
  25. 25. O jagunço Damázio Siqueira atormenta-se com um problema vocabular: ouviu a palavra"famigerado" de um moço do governo e vai procurar o farmacêutico, pessoa letrada dolugar, para saber se tal termo era um insulto contra ele, jagunço.III - "Sorôco, sua mãe, sua filha".Um trem aguarda a chegada da mãe e da filha de Sorôco, para conduzi - las ao manicômiode Barbacena. Durante o trajeto até a estação, levadas por Sorôco, elas começamsurpreendentemente a cantar.Quando o trem parte, Sorôco volta para casa cantando a mesma canção, e os amigos dacidadezinha , solidariamente, cantam junto.IV - "A menina e lá".Nhinhinha possuía dotes paranormais : seus desejos, por mais estranhos que fossem,sempre se realizavam. Isolados na roça, seus parentes guardam em segredo o fenômeno,para dele tirar proveito. As reticentes falas da menina tinham caráter de premonição: porexemplo, o pai reclamara da impiedosa seca.Nhinhinha "quis" um arco-íris, que se fez no céu, depois de alentadora chuva. Quando elapede um caixãozinho cor-de-rosa com enfeites brilhantes ninguém percebe que o que elaqueria era morrer...V - "Os irmão Dagobé".O valentão Damastor Dagobé, depois de muito ridicularizar Liojorge, é morto por ele. Noarraial, todos dão como certa a vingança dos outros Dagobé : Doricão , Dismundo eDerval. A expectativa da revanche cresce quando Liojorge comunica a intenção departicipar do enterro de Damastor.Para surpresa de todos, os irmãos não só concordam, como justificam a atitude deLiojorge, dizendo que Damastor teve o fim que mereceu.VI - "A terceira margem do rio".Um homem abandona família e sociedade, para viver à deriva numa canoa, no meio deum grande rio. Com o tempo, todos, menos o filho primogênito, desistem de apelar para oseu retorno e se mudam do lugar. O filho, por vínculo de amor, esforça-se paracompreender o gesto paterno: por isso, ali permanece por muitos anos.Já de cabelos brancos e tomado por intensa culpa, ele decide substituir o pai na canoa ecomunica-lhe sua decisão. Quando o pai faz menção de se aproximar, o filho se apavora efoge, para viver o resto de seus dias ruminando seu "falimento" e sua covardia.VII - "Pirlimpsiquice".
  26. 26. Um grupo de colegiais ensaia um drama para apresentá-lo na festa do colégio. No dia daapresentação, há um imprevisto, e um dos atores se vê obrigado a faltar. Como não haviamais possibilidade de se adiar a apresentação, os adolescentes improvisam uma comédia,que é entusiasticamente bem recebida pela platéia.VIII - "Nenhum, nenhuma".Uma criança, não se sabe se em sonho ou realidade, passa férias numa fazenda, emcompanhia de um casal de noivos, de um homem triste e de uma velha velhíssima, dequem a noiva cuidava.O casal interrompe o noivado, e o menino, que conhecera o Amor observando-os, voltapara a casa paterna. Lá chegando, explode sua fúria diante dos pais ao notar que eles sesuportavam, pois tinham transformado seu casamento num desastre confortável.IX - "Fatalidade".Zé Centeralfe procura o delegado de uma cidadezinha, queixando-se de que HerculinãoSocó vivia cantando sua esposa. A situação tornara-se tão insuportável que o casalmudara de arraial. Não adiantou: o Herculinão foi atrás.O delegado, misto de filósofo, justiceiro e poeta, depois de ouvir pacientemente a queixa,procura o conquistador e, sem a mínima hesitação, mata-o, justificando o fato comonecessário, em nome da paz e do bem-estar do universo.X - "Seqüência".Uma vaca fugitiva retorna a sua fazenda de origem. Decidido a resgatá-la, um vaqueiropersegue-a com incomum denodo. Ao chegar à fazenda para onde a vaca retornara, ovaqueiro descobre que havia outro motivo para sua determinação: a filha do fazendeiro,com quem o rapaz se casa.XI - "O espelho".Um sujeito se coloca diante de um espelho, procurando reeducar seu olhar. apagando asimagens do seu rosto externo. A progressão desses exercícios lhe permite, daí a algumtempo, conhecer sua fisionomia mais pura, a que revela a imagem de sua essência.XII - "Nada e a nossa condição".O fazendeiro Tio Man Antônio, com a morte da esposa e o casamento das filhas, sente-seenvelhecido e solitário. Decide vender o gado, distribuindo o dinheiro entre as filhas egenros.A seguir, divide sua fazenda em lotes e os distribui entre os empregados, estipulando emtestamento uma condição que só deveria ser revelada quando morresse. Quando o fato
  27. 27. ocorre, os empregados colocam seu corpo na mesa da sala da casa-grande e incendeiama casa: a insólita cerimônia de cremação era seu último desejo.XIII - "O cavalo que bebia cerveja".Giovânio era um velho italiano de hábitos excêntricos: comia caramujo e dava cerveja paracavalo. Isso o tornara alvo da atenção do delegado e de funcionários do Consulado, queconvocam o empregado da chácara de "seo Giovânio", Reivalino, para um interrogatório.Notando que o empregado ficava cada vez mais ressabiado e curioso, o italiano resolveentão abrir a sua casa para Reivalino e para o delegado: dentro havia um cavalo brancoempalhado.Passado um tempo, outra surpresa: Giovânio leva Reivalino até a sala, onde o corpo deseu irmão Josepe, desfigurado pela guerra, jazia no chão. Reivalino é incumbido deenterrá-lo, conforme a tradição cristã. Com isso, afeiçoa-se cada vez mais ao patrão, aponto de ser nomeado seu herdeiro quando o italiano morre.XIV - "Um moço muito branco".Os habitantes de Serro Frio, numa noite de novembro de 1872, têm a impressão de queum disco voador atravessou o espaço, depois de um terremoto. Após esses eventos,aparece na fazenda de Hilário Cordeiro um moço muito branco, portando roupasmaltrapilhas.Com seu ar angelical, impõe-se como um ser superior, capaz de prodígios: os negócios deHilário Cordeiro, o fazendeiro que o acolheu, têm uma guinada espantosamente positiva.Depois de fatos igualmente miraculosos, o moço desaparece do memo modo que chegara.XV - "Luas-de-mel".Joaquim Norberto e Sa- Maria Andreza recebem em sua fazenda um casal fugitivo, versãosertaneja de Romeu e Julieta. Certos de que os capangas do pai da moça virão resgatá-la,todos se preparam para um enfrentamento: a casa da fazenda transforma-se num castelofortificado.É nesse clima de tensão que se celebra o casamento dos jovens, a que se segue a lua-de-mel, que acontece em dose dupla: dos noivos e do velho casal de anfitriões, cujo amorfora reavivado com o fato. Na manhã seguinte, a expectativa se esvazia com a chegada doirmão da donzela, que propõe solução satisfatória para o caso.Clarice Lispector o primeiro BeijoCerca de 1 frases e pensamentos: clarice lispector o primeiro beijoO PRIMEIRO BEIJOOs dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro eambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.
  28. 28. - Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas mediga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Elefoi simples:- Sim, já beijei antes uma mulher.- Quem era ela? perguntou com dor.Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio dagarotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe peloscabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezesquieto, sem quase pensar, e apenas sentir - era tão bom. A concentração no sentir eradifícil no meio da balbúrdia dos companheiros.E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que obarulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida naboca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, asaliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhetomava agora o corpo todo.A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e aopenetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto?Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvezminutos apenas, enquanto sua sede era de anos.Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a maispróxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrandoentre os arbustos, espreitando, farejando.O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entrearbustos estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibusparou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafarizde pedra, antes de todos.De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de ondejorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Eraa vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agorapodia abrir os olhos.Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era aestátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se deque realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que aágua.E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. Avida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulherque sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida... Olhou a estátua nua.
  29. 29. Ele a havia beijado.Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lheo corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou parafrente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte deseu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e issonunca lhe tinha acontecido.Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendofundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, eraoutra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade.Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...Ele se tornara homem.(In "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998)

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