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Os Anos Jk

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Os Anos Jk

  1. 1. A história não fala por si só. Em oposição ao atual regime, dado co- Para que fale, é preciso que a façamos mo negativo, propõem-se o governo e a falar. figura de Juscelino como positivos. De Os Anos JK, uma Trajetória Política, que forma isto se dá? de Sílvio Tendler, segue o percurso políti- Um bloco de seqüências parece dese- co de Juscelino Kubitsthek, através do nhar a imagem que Os Anos JK pretende qual desponta um período recente da vi- transmitir do presidente. Começa com a da política brasileira. Quais os mecanis- revolta de Aragarças, a primeira crise mi- mos que Sílvio Tendler aciona para fazer litar do governo JK, e vai até a primeira falar este período da história do Brasil? seqüência de Brasília. No caso de Aragar- Apontarei para alguns desses mecanismos ças, JK defronta-se com a extrema direita: que me parecem básicos para a construção ele opta pela anistia; sua prudência e ha- da história nesse filme. bilidade evitam crise maior, a revolta é O filme parte da premissa de que o re- neutralizada e absorvida. — A seguir, o gime político atualmente vigente no Bra- então presidente da UNE conta seu en- sil é ruim. O que ele não precisa demons- contro com JK: JK sabe demover o estu- trar, pois dirige-se implicitamente a um dante do movimento que a UNE estava público que pensa dessa forma. Bastarão desenvolvendo, JK esvazia a crise estu- algumas imagens grotescas e sinistras de dantil em nome da nação. — Um líder presidentes militares (por exemplo, a de sindical conta que JK fez promessas aos Costa e Silva com Castelo Branco) para operários de São Paulo e as cumpriu, mas confirmar esse dado. os operários perderam na justiça; falando NOVOS ESTUDOS N.º 1
  2. 2. serenamente, JK evitou que o movimento rica de que Juscelino Kubitschek é um elo, operário se radicalizasse. — O advogado em referir-se a uma tradição histórica, de Luís Carlos Prestes explica como o líder positiva para a Nação, de que o presidente comunista saiu da cadeia e ficou em liber- é o continuador. dade durante todo o governo JK, que ele A pedra de toque dessa tradição é Getúlio qualifica de liberal. — Mário Martins, ex- Vargas. Inicialmente qualificado de deputado da UDN, conta como JK pediu caudilho e ditador, Vargas sai da vida e ao Congresso autorização para processar do filme como personalidade positiva. O Lacerda, foi derrotado, e JK respeitou o filme faz, então, uma associação entre Congresso. Vargas e Kubitschek. A carreira de Jusce- Esta série de situações e relatos selecio- lino nasce nos anos em que impera Getú- nados pelo filme valorizam a imagem de lio e se desenvolve a partir daí como um um presidente liberal, que sabia lidar processo contínuo. Não é apenas no início com os vários setores da sociedade e as vá- que a trajetória de JK encontra-se com a rias forças em presença no jogo político. de GV. É também no final: o caixão de De um presidente que absorve e neutrali- Juscelino é carregado pelo povo, como o za os conflitos dentro da legalidade, in- fora o de Getúlio. E mais: o suicídio de clusive quando é hostilizado. Fica acima Vargas ecoa na eventualidade de um sui- dos interesses particulares, sabe harmoni- cídio de Kubitschek que seus amigos sou- zar contradições e antagonismos. Funcio- beram evitar quot;porque a Nação não supor- na como um regente da Nação. É essa taria mais um cadáverquot;. A tese do suicí- imagem positiva de Juscelino que o filme dio, o locutor do filme não a encampa, constrói. mas a montagem deixa ao depoente Má- Mas seria ingênuo construir uma ima- rio Martins todo o tempo para desenvolvê- gem totalmente positiva. Isso poderia fa- la. zer de JK um herói, o que acabaria tendo A linha de continuidade, porém, co- um efeito contraproducente. Assim, o fil- meçara bem antes, com os bandeirantes: me procura mostrar também, pelo me- Juscelino retoma o desbravamento inicia- nos, as críticas que já são feitas a Kubits- do três séculos antes — comenta o locu- chek. JK será, portanto, alvo de críticas: tor, não sem alguma ironia, mas ironia ele abre o País ao capital estrangeiro, não que não chega a desmentir a informação. altera a estrutura agrária etc. Mas o filme Essa continuidade quot;bandeirantes-GV-JKquot; toma o cuidado de fazer absorver essas crí- — de caráter positivo — prossegue com ticas de modo a não prejudicar o caráter João Goulart, que tem a coragem de tocar positivo da imagem do presidente. As crí- em problemas que JK não ousara abor- ticas são formuladas com graça irônica. dar. Essa linha positiva (o quot;sistema de Comentando a implantação da indústria Vargasquot;, quot;os de dentroquot;, para retomar automobilística diz-se, por exemplo, que expressões de Skidmore, que devem ter JK confunde a Volkswagen do Brasil com inspirado, em parte, os autores do filme) a Volkswagen no Brasil. sofre interrupções: o filme tratará negati- Um tom de amável irreverência já tinha vamente quot;os de foraquot; quando chegam ao sido usado quando se comentavam as poder: o largo sorriso de Café Filho (quase qualidades mundanas de Juscelino: dan- um primeiro plano) logo após o suicídio çava bem e era apelidado quot;pé-de-valsaquot;. de Vargas, em contraste com a comoção No momento em que o locutor faz esse nacional, dá desse outro personagem a comentário, a imagem mostra Juscelino imagem de um oportunista maquiavélico. O dançando mas esbarrando no casal atrás quot;entreatoquot; Jânio Quadros é apresentado de de si, brincadeirinha que cria uma relação forma quase (?) grotesca. descontraída e prepara o clima para que sejam feitas críticas, amáveis, a que não se A continuidade individual dará maior peso. Ao lado da linha de continuidade his- A continuidade histórica tórica, encontramos outra: a individual. Biografias de homens políticos não raro Como se inscreve essa imagem positiva apresentam a vida política do biografado do regente da Nação dentro da História? como a realização de uma vocação pessoal: Tenho a impressão de que o filme monta o filme de Jorge Ileli, por exemplo, detecta dois mecanismos básicos para organizar a na criança Getúlio Vargas os sinais do que História e situar JK dentro dela. Um deles viria a ser o chefe de Estado. consiste em criar uma continuidade histó- Os Anos JK não segue essa linha. Meca- DEZEMBRO DE 1981
  3. 3. nismos extrapessoais são levados em con- morto na ditadura militar. À anistia con- sideração, quando se diz, por exemplo, cedida aos rebeldes de Aragarças, corres- que é a máquina política mineira que leva ponde a não aceitação, pelos militares, da Juscelino à presidência. De qualquer mo- anistia concedida por Goulart aos mari- do, aspectos psicológicos de Juscelino são nheiros, e as quot;puniçõesquot; infligidas pelos ressaltados: ele é dinâmico, entusiasta, governos militares inclusive ao próprio próximo ao povo, cordial etc. E há nele Kubitschek. Não é necessário que cada se- algo como uma vocação, uma linha de qüência tenha seu eco para que este me- força individual: essa trajetória, que vai, canismo de paralelismo comparativo fun- sem pausas, do adolescente telegrafista ao cione como princípio de organização da presidente da República. As suposições História. Bastam algumas. que O locutor faz: em Diamantina, talvez A estrutura de algumas frases da locu- Juscelino já sonhasse com Pampulha, em ção também nos propõe uma compreen- Belo Horizonte talvez Kubitschek já so- são da História pelo paralelismo. Por- nhasse com Brasília. exemplo quando o locutor fala de quot;um O gesto político aparece então como a 11 de novembro às avessasquot;: a metáfora concretização de um sonho anterior. Tra- refere-se ao 11 de novembro de Lott — jetória individual e trajetória nacional não que assegura a legalidade e a posse de JK se contradizem. O locutor — sempre (ato positivo) — para designar o ato nega- pronto a nos indicar como devemos en- tivo de impedir a tomada de posse de tender as coisas — nos dá a moral da his- Goulart. Ou quando diz que os tanques tória ao citar uma frase atribuída a substituíram os palanques na Central: o Jusceli-no: quot;Os indivíduos, como as golpe (ato negativo) é designado através Nações, fazem destinoquot;. Com JK, de uma referência ao comício de 13 de destino individual e destino nacional março (ato positivo). Ou ainda ao afirmar fundem-se harmoniosamente. que Juscelino Kubitschek personificou o quot;opostoquot; do que Jânio Quadros expres- O sistema de ecos sou, a quot;inviabilidade da democraciaquot;. A história do filme é organizada em ecos Outro mecanismo a que recorre o filme positivos e ecos negativos. é o que se poderia chamar de sistema de O que me parece que sustenta a cons- ecos. trução do filme tal como a descrevo é que Já falamos de alguns desses ecos: o sui- a História fornece lições e devemos apren- cídio e o caixão de Getúlio ecoam no hi- der com elas. E a História, de fato, forne- potético suicídio e no caixão de Juscelino. ce lições, modelos políticos etc., mas ela São ecos positivos. só fornece as lições e os modelos que se Em 1964, a linha de continuidade é in- puserem previamente nela. terrompida, entra-se na fase negativa. O filme dispõe elementos em ecos positivos Na medida em que os autores de Os (JK) e ecos negativos (ditadura militar). Anos JK elegeram Juscelino como mode- Um primeiro elemento é evidentemente lo, mesmo com ressalvas, eles constroem a o militar, positivo na figura legalista e na- História de modo a que ela lhes forneça, e cionalista do General Lott, negativo nas a seu público, o modelo que eles nela pu- figuras dos ditadores pós-64. seram. A História devolve o que foi inves- Outras situações organizam-se nessa tido nela. Poderíamos estender a questão forma de paralelismo. Por exemplo: Ku- e perguntar se seriam esses mecanismos — bitschek pede ao Congresso autorização o do paralelismo, o da construção em para processar um deputado. Autorização ecos etc. — uma forma de elaborar a His- negada, Governo derrotado, JK respeita a tória do Brasil no cinema, uma vez que decisão. O Governo militar quer processar encontramos procedimentos muito pare- um deputado. O Governo é derrotado, o cidos em filmes como Rebelião em Vila Congresso é fechado. Rica, dos irmãos Santos Pereira, Terra em Ao diálogo de JK com o presidente da Transe, de Glauber Rocha, ou Os Herdei- UNE, o filme responde com o estudante ros, de Carlos Diegues. NOVOS ESTUDOS N.º 1
  4. 4. Imagem e locução mens, num aeroporto, com bandeiras brasileiras nas costas, a locução nos infor- Nesse processo, as imagens, catadas no ma que estamos vendo revoltosos de volta acervo das imagens cinematográficas do ao Rio, ''retoricamentequot; envoltos em passado, têm uma função legitimadora, bandeiras. A rigor, não era preciso dizer dão chancela de autenticidade ao modelo que estavam envoltos em bandeiras, já escolhido. As imagens cinematográficas que o estamos vendo. A redundância são cercadas por toda uma mitologia que imagem/locução tem a finalidade de iso- as qualifica como documento, reflexo, ex- lar determinado elemento, canalizar o pressão do real. Ainda mais no caso brasi- olhar e a atenção do espectador sobre ele, leiro, em que poucas imagens sobrevive- e desviá-lo de outros possíveis elementos. ram à destruição do acervo cinematográfi- Não só isolar o elemento, qualificá-lo co, e em que se julga que não conhece- também: o locutor especifica: quot;retorica- mos a História, que a História é surripia- mentequot;. Há — por parte da locução — da pela educação, pela propaganda e pela como que o temor de que se estabeleça ideologia oficiais. O simples resgate de entre o espectador e as imagens uma rela- imagens-documento do passado parece ção não prevista. E a nossa tendência é ser o próprio reerguimento da História so- aceitar essas significações quase como ex- terrada que falaria por si só. pressões espontâneas das imagens. As imagens, de fato, falam muito pou- Às vezes, pode ocorrer que o especta- co. A potencialidade que elas têm de fala dor alcance um relacionamento mais rico é enorme, mas sempre tão dispersa e tão com as imagens, subvertendo o filme, isto ambígua, que as imagens nunca apresen- é, escapando às significações, especifica- tariam o discurso da História se não fos- ções, seleções etc., criadas pela locução e sem rigorosamente domadas e enquadra- pela montagem. Tal olhar, que os meca- das por uma série de mecanismos (sele- nismos de significação do filme rejeitam ção, montagem, música, locução), meca- ou não destacam, poderá ser valorizado nismos que as levam a dizer o que se quer por um espectador que o terá detectado que digam. por conta própria. Os Anos JK, como muitos outros filmes Ou seja, o espectador, acima e além da históricos, é loquaz. O texto (depoimen- construção do filme, poderá encontrar tos e locução) tem como função dirigir a outras leituras, ou mesmo entrar no cam- imagem para a significação pretendida, po de ambigüidade da imagem. limpá-la de outras interpretações possí- veis, tirá-la de sua ambigüidade. O texto, O olhar de Getúlio nessa concepção de filme, é a muleta da imagem. Os Anos JK oferece inúmeros Outro caso: Getúlio Vargas discursa, o exemplos que comprovam essa afirmação. microfone é alto, ou o ângulo da câmera Peguemos o caso de Aragarças: uma série dá a impressão de que o microfone é tão de fatos é-nos comunicada com o acom- ou até mais alto que o orador, o qual qua- panhamento de sua significação: revolta, se desaparece atrás dele; Getúlio está cir- anistia, chegada ao aeroporto, o sentido cundado por pessoas que se comprimem, da anistia. Toda a amplitude dos fatos e formando em volta dele uma espécie de sua significação nos são transmitidas pela parede compacta de roupas e gente. Num locução, sem a qual não teríamos idéia determinado momento, Getúlio desvia o quot;do que aconteceuquot;. olho do texto que vinha lendo e dirige As imagens ilustram as afirmações da um olhar tenso em direção à câmera, co- locução e nos dão uma ambiência, uns mo que por baixo do microfone. A ima- rostos, umas roupas, uns olhares, que em gem termina com esse olhar. A situação si não significam nem X nem Y. Mesmo de Vargas é periclitante, ele está prestes a nessa ambiência, a locução sente necessi- perder o poder, é o que nos informa a lo- dade de intervir para canalizar-lhe a signi- cução. O locutor não faz nenhuma refe- ficação e expulsar outras não pertinentes à rência ao olhar do personagem. Assim quot;liçãoquot; da História. Quando vemos ho- mesmo, a significação desse olhar está DEZEMBRO DE 1981
  5. 5. OS ANOS J.K: COMO FALA A HISTÓRIA quase totalmente determinada pela signi- jornal nos filmes de montagem históricos, ficação global da seqüência em que foi já que os autores não têm outro material montado. De fato, nessa posição, o que documentário a que recorrer. Dificilmen- lemos é um Getúlio cercado, encurralado te se poderá mostrar imagens que não se- no palanque, engolido pela situação, e jam as das elites ou que não sejam as do seu olhar é interpretado como o de uma ponto de vista das elites. pessoa que se sente acuada. O que tam- Em que medida as características desse bém pode ter sido reforçado pelo corte. A material já não operam uma seleção te- imagem original talvez se prolongasse mática? O que mostrar da vida operária após o olhar, diluindo-se no conjunto do nesses anos JK, se os operários nunca fo- plano; mas o corte logo após o olhar pode ram tema do material cinematográfico ter lhe dado um realce maior. Aqui, a usado pelo filme? Que fatos eventual- montagem atribui à imagem uma função mente importantes tiveram que ser elimi- metafórica. Esse olhar, que pode ter tido nados ou só brevemente referidos, se não mil causas, desde a tensão provocada pela há filmes que os tenham documentado? situação política até um ruído ou uma Como escapar às implicações ideológicas movimentação inesperada perto do pa- das imagens originais, que são imagens lanque, recebe uma significação à qual o tomadas da ótica do poder? espectador não consegue escapar: Getúlio A quase totalidade dos filmes de mon- acuado, em perigo político; estar espre- tagem históricos feitos no Brasil gira em mido no palanque vale por estar espremi- torno de chefes de Estado: os três sobre do pela situação. GV, o JK, brevemente JQ, filme ainda O sorriso já citado de Café Filho rece- inconcluso. Por fazerem biografias de ho- beu um tratamento semelhante. mens políticos, por abordarem a política ao nível da cúpula, por aderirem bastante Os temas do poder ou totalmente às figuras abordadas, os fil- mes sobre GV e JK circulam na mesma es- O material de base de Os Anos JK era fera de seu material de base, mesmo que provavelmente tedioso. São os Primo Car- elaborem significações diferentes deste: a bonari, os Canal 100 da época. No entan- política profissional, a cúpula do poder. to, o filme não é nem um pouco tedioso. Por esse motivo — e, acredito, só por esse É que o material — fornecido por velhos motivo — tais filmes são realizáveis. cinejornais que nos apresentavam discur- Outros temas, como sejam o movimen- sos intermináveis, banquetes, assinaturas to operário, a repressão e o medo durante de documentos, mundanismos — foi re- o Estado Novo ou o Governo Médici, a vi- trabalhado pelos mecanismos que apontei da cotidiana etc., não poderiam ser trata- e adquiriu novas significações. Filmes co- dos através do sistema de filmes de mon- mo Os Anos JK são como que a redenção tagem com material de arquivo. A recu- dos aborrecidos cinejornais. peração, a revalorização, a nova significa- Mas eis um novo problema. Qual o ma- ção das imagens cinematográficas ligadas terial de base que os cinejornais oferecem à História do Brasil acabam operando pre- a um filme como Os Anos JK? Um histo- dominantemente, senão totalmente, no riador cunhou uma expressão feliz para âmbito do poder. Quando se louva tão designar o cinejornal brasileiro e toda insistentemente a recuperação das ima- uma modalidade de filmes documentá- gens históricas brasileiras, o que de fato se rios: a quot;crônica dos vencedoresquot;. Esse ci- louva é a recuperação das imagens do po- nema só mostra autoridades, políticos, der, mesmo se tratadas com ironia. militares, atos oficiais, alta sociedade em exibições etc. Pela sua forma de produ- ção, o cinejornal brasileiro não tem como escapar: ou produção estatal (no caso dos jornais do DIP ou da Agência Nacional), ou algo muito próximo da matéria paga. É de perguntar que marcas deixa o cine- NOVOS ESTUDOS N.º 1

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