Foucault e os domínios da linguagem vanice sargentini e pedro navarro-barbosa (orgs.)

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Foucault e os domínios da linguagem vanice sargentini e pedro navarro-barbosa (orgs.)

  1. 1. (01 F762 fitulo: I : o'dCdult e us dominion da linguagem ; liscurso, poder. su 302735 115562 UFES BC AG u!t para i Lfttia vez qu ;, so transform < j que podert :ios principle; . i varios olhares, f suasmdagagoes ierertcttis e semtrv -•;-. Disponibili/.' os da teoria <: y'io e urn dew io cada unta >: vindiea J-J.'". ;; aAnaihf fV' disc oDjo' i >ntro (argentiniS Pedro Navai ISBN 85-88638-08-8 claraluz 1 >'I7!«;X588II638082
  2. 2. • A do corpc inspire tambem :<jlo 4, ; as si -.aiividades. As r : itadas peios autores ; rtanto, no ambito da m o acrescimo de -. . -- . . c,r a nogao de • agao com a produc;ao dentidade -.i.ilo 5. Foucault, o discurso iiterario e a •:ge!ica. as autoras buscam no -.snto do filosofo frances aspectos rnetodologicos que permiiern tracer lelo enire dispositive de interpreta^ao « a le:t!jra do texto liierario e entre teoria do enunciado e manifesfagoes discursivas nao- everbo-vouais. Os artigos reunidos neste livro sao resultado de cmco anos de discussao e de pesquisas que o Grupo de Estudos- em Analise do Discurso de Araraquara GEADA vem reatizando em tomo das proposFoucault. Nossa tarefa e situa-lo no campo ,:=tudos da tinguagem, com a consequencia de fazer frenle a outras, iivas que nao v^em nessa postura a constiiui^ao do que se poderia chamar de dos fatos tingiiisticos, " '-nice Sargentini & Pedro Navarro-Barbosa) FOUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE
  3. 3. Vanice Sargentini & Pedro Navarro-Barbosa (Org; FOUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE claraluz EDITOR A 2004
  4. 4. Diagramagao Claudia de Oliveira Projeto Grafico e Elaborate de Capa Dez e Dez Multimeios/Galeria Design Impressao e acabamento Grdfica Supremo. Sistema Integrado e Bibliotecas/UFES Sumario Apresentacao. CAPITULO 1 Foucault e a teoria do discurso O enunciado e o arquivo: Foucault (entre)vistas Maria do Rosario Valencise Gregolin Formagao discursiva em Pecheux e Foucault: uma estranha paternidade Roberto Leiser Baronas. Uma teoria do discurso num certo prefacio Maria de Fatima Cruvinel 23 45 63 CAPITULO 2 Foucault, o discurso e a Historia Ficha Catalografica elaborada pela Se?ao de Tratamento da lnforma$ao da Biblioteca "Prof. Achtlle Bassi"- Institute de Clencias Matematicas e de Computa^ao - ICMC/USP F652 Foucault e os dominios da linguagem: discurso, poder, subjetividade / Vanice Sargentini, Pedro NavarroBarbosa. - Sao Carlos : Claraluz, 2004. 260 p. : 21 cm ISBN 85-88638-08-8 A descontinuidade da Historia: a emergencia dos sujeitos no arquivo Vanice Maria Oliveira Sargentini O acontecimento discursive e a construcao da identidade na Historia Pedro Luis Navarro-Barbosa 77 97 CAPITULO 3 Foucault, o discurso e o poder Entre vozes, carries e pedras: a lingua, o corpo e a cidade na construcao da subjetividade contemporanea Carlos Piovezani Filho 133 Articulacoes entre poder e discurso em Michel Foucault Francisco Paulo da Silva .159 CAPITULO 4 1. Analise do discurso. 2. Teoria de Foucault. I. Sargentini, Vanice, org. II. Navarro-Barbosa, Pedro, org. III. Titulo. Foucault, o discurso e as subjetividades A disciplinaridade dos corpos: o sentido em revista Nilton Milanez Weblogs: a exposicao de subjetividades adolescentes Maria Regina Momesso de Oliveira. .183 .201 CAPITULO 5 2004 Editora Claraluz Rua Rafael dc A. Sampaio Vidal, 1217 CEP 13560-390 - Centra / Sao Carlos - SP Fone/Fax: (16) 3374 8332 www.editoraclaraluz.com.br Foucault, o discurso literario e a linguagem imagetica Teorias e alegorias da interpretacao: no theatrum de Michel Foucault 217 Marisa Martins Gama Khalil Foucault nas visibilidades enunciativas 231 Nadea Regina Caspar
  5. 5. FQUCAULT E OS DOMJNIOS DA LINGUAGEMi &ISCURSO, PODER. SUB3ETIVIDADE A PRESENTAgAO Foucault, como o imaginamos? Essa retomada do titulo que Maurice Blanchot 1 da as suas reflexoes sobre o filosofo Frances poderia bem sintetizar aquilo que pretendemos oferecer aos leitores, com a organiza9ao de um livro cujo objetivo e compreender aspectos fundamentals do pensamento desse autor e articula-los a analise do saber e do poder que se manifestam na materialidade discursiva. A retomada desse enunciado-titulo, entretanto, ja opera um deslocarnento: nao se trata aqui de registrar impress6es ou suposi<,;6es sobre a vida de Michel Foucault, falecido em 1984. Imaginar pode sugerir um discurso fantasioso, inventive, portanto desprovido de rigor cientifico — n3o que tenha sido essa a intencao de Blanchot. Mas imaginar pode ser tornado no sentido de relembrar, de recordar, o que faz remissao a outra obra sobre o fil6sofog. Imaginar e recordar. Imaginar e recordar. A juncao dessas duas palavras pode conduzir a outra leitura, a de que estariamos convidando o leitor a fazer uma volta no tempo para conhecer o homem por tras de sua obra. Aventura prazerosa, ja empreendida por seus biografos. Novamente, uma ressalva aqui se faz necessaria: este livro nao se destina a perscrutar a vida de Foucault, suas idiossincrasias, seus afetos e desafetos, palavras e atitudes que poderiam qualifica-lo de tal ou qual modo ou enquadra-lo em um "LANCHOT, M. Foucault como o imagine. Tradu<;iio de Miguel S. Pereira e Ana L ''aria. Lisbon: Relogio D'agua Editora, s/d. , R. .1 Recordar Foucault: os textos do Cxjloquio Foucault. Sao Paulo Bi-asihenso,
  6. 6. FOUCAULT E OS DOMiHIOS^DA^LINGUAgEM^DISCURSO, POOER, jUBJETTVrDADE determinado padrao psicossocial, corno se faze-lo fosse possivel e relevante. Tampouco, enumerar Lima serie de adjetivacOes que, dada a sua importancia no cenario intelectual e politico frances dos anos 60, poderia rotula-lo como, por exemplo, o filosofo da geraciio francesa de 68, o historiador das descontinuidades, aquele que prodamou a morte do homem, o filosofo das genealogias do poder e das praticas de subjetivacao dos corpos, o pensador da posmodernidade on, ainda, o defensor do sistema, titulo que o incomodava. Sem diivida, e precise reconhecer a dificuldade de separar o homem da obra, sobretudo quando se estii diante de um pensador que aprofundou e provocou importantes modificacoes em conceitos centrais da historiografia francesa. Embora nosso objeto de estudo seja a teoria das condicSes de emerge'ncia dos saberes e dos dispositivos de exercicio do poder e nao a pessoa que foi Foucault, essa elisSo n3o e de todo possivel, pois a sensibilidade que ele demonstrou as experiencias diversas, as conjunturas e as atmosferas culturais nas quais esteve envolto1'1 deixam-se fazer presentes nas analises que realizou das estruturas que subjazem a constituicao dos discursos, dos mecanismos coercitivos que pesam sobre quern fala, do exercicio do poder nas sociedades disciplinadoras e da estetica da existencia, o que atesta urn pensamento inquietante e em constante ebulicSo. Deixemos falar, pois, a obra. Oual foi a contribuicao de Foucault para as ciencias humanas? Nao e de hoje que muitos tentam responder a essa pergunta. E cada vez que um novo comentdrio surge, o discurso fundador desse autor se desloca, se transforma e se dispersa nas diversas interpretacoes. Unidade na dispersao e o " ROJAS, C. A. A. Os annales e a historiografia francesa: trad e JurHndir Malerba. Maringa: Ediiem, '2000. E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE 11 nue podemos constatar nas inumeras pesquisas que se orientam nas nocoes e nos principios foucaultianos. Estudos que procuram objetivar a obra do filosofo sob varios olhares. Estudiosos que falam de lugares distintos, em busca de resposta as suas indagacoes. E sSo tantas e diferentes, como podemos observar nos titulos de conferencias e seminarios realizados no Brasil na passagem dos vinte anos de sua morte. Disponibilizar a comunidade academica um livro que pretende discutir alguns pontos da teoria desse filosofo, numa data tao significativa, e para n6s motive de satisfagao e um desafto. Satisfa^ao, porque temos a oportunidade de reunir nos capitulos que seguem resultados de cinco anos de discussao e de pesquisas que o Grupo de Estudos em Analise do Discurso de Araraquara - GEADA vem realizando em torno das propostas de Foucault1; desafio, pois, em meio as ciencias que reclamam a presenca desse autor, nossa tarefa e situa-lo no campo dos estudos da linguagern, com a consequ^ncia de fazer frente a outras perspectivas que nao veem nessa postura a constitui9ao do que se poderia chamar de estudo dos fatos linguisticos. O desafio, na verdade, e duplo, Primeiro, £ necessario que nos situemos dentro dos estudos linguisticos e, ao mesmo tempo, fora deles, ou seja, o objeto de nossas reflexoes nao e a materialidade linguistica, mas a constituicao dos discursos e a possibilidade de serem enunciados. No entanto, so e possivel fazer uma analise dos 4 Vinculacto a pos-jrradua^ao em Lingiiisticii da Univerwidade E.stadiinl Pauli.sta (Unesp), alem da presence obra, o GEADA publicou tambem os seguinte.s titulos: GREGOLIN, M. R- V (org.). Filigranas do discurso: as vozes Ja historia. Araraqiiara: FCL/Lalwratorio Editorial/UN ESP; Sao Paulo: Cultura Academica Editora, "000. GREGOLIN, M. R- V, CRUVINEL, M. F., KHALIL, M. C. (org.). Analise do discurso: entornos dn sentido. Araraquara: FCL/Labiiratorio Edicorial/UNESP; Sao Paulo: Cultura Academica Editora, 2001. GREGOLIN. M. R., BARONAS, R. L. (org.)- Analise do discurso: a-s materialidades do sentido. Sao Carlos: Editora Claraluz, '2QG<2. QREGOLIN, M. R. V (org.) Discurso e niidia: a tultura do espetaculo. Sao Carlos: Editora Claralu?,. 2003.
  7. 7. jj FOUCAULT E OS DOMJNIO5 DA LINGUAGEH: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDAPE discursos porque eles tern uma existencia material, porque eles con tern as regras da lingua, de um lado, e aquilo que foi efetivamente dito, de outro. Segundo, e preciso marcar tambem nossa posisao no interior mesmo da vertente francesa de Analise do Discurso praticada aqui nesses tropicos. Essa posicSo, subjacente as reflexoes dos autores, insere-se num projeto de analise discursiva que, desde os ultimos trabalhos de Michel Pecheuxr>, desloca-se de um althusserianismo stricto sensu para as propostas de Foucault e da Nova Historia. As discussoes aqui realizadas registram, portanto, uma mudanca de perspective teorica, que se afasta de determinadas noc.oes erigidas no interior do materialismo historico, tais como: ideologia, aparelhos ideologicos, divisao e luta de classes, para se aproximar de uma perspectiva que concebe o discurso como pratica discursiva e o poder como algo que nao e localizavel em um unico polo. Nesse sentido, a proposta que se encontra formulada no desenvolvimento de cada uma das reflexoes reunidas neste livro tenciona por em pratica aquilo que reivindica J-J. Courtine6 ao analisar os efeitos da alianca entre marxismo e linguistica para a Analise do Discurso. Para esse autor, os projetos de pesquisa precisam devolver ao discurso sua espessura hist6rica, isto e, as analises que tomam o discurso como objeto devem considerar o modo como historicamente efetua-se o cruzamento entre os regimes de praticas e as series enunciativas disperses e heterogeneas que o analista seleciona. Sabemos que o percurso hist6rico de constituicao do FOUCAULT E OS DOMJNIOS DA LINGUAGEH: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDflDE dispositive teorico de interpretacao no qual se tornou a Analise do piscurso registra um dialogo com Michel Foucault, marcado ora por aceitacao, ora por uma necessidade de reelaboracao, ora por recusa das nocoes e dos principios que ele elaborou7. A entrada do filosofo nessa ciencia do discurso se fez de modo restrito, quando as analises comecaram a denunciar a necessidade de se olhar para o discurso nao mais como uma mSquina fechada e homogenea. Nesse momento, segundo registros sobre o desenvolvimento. da Analise do Discurso, a nocao de "formacao discursiva", desenvolvida por Foucault em sua Arqueologia do saber, e redefmida por Michel Pechuexs, que o faz, no entanto, mantendo ainda o vinculo com a nocao de ideologia. A presenca de Althusser nos anos GO e 70 e muito forte. Em outros momentos, Foucault e negado, porque se acredita que ele sustenta um discurso marxista paralelo!'. Segundo seus criticos, Foucault mata a historia, uma vez que nao trabalha com as nocoes de ideologia, de divisao e de luta de classes; soma-se a isso o fato de que ele, conforme Pecheux1", nao teria considerado, em suas analises das condicoes de possibilidade do discurso, a categoria marxista da contradicao. Vale lembrar que, enquanto a Analise do Discurso reunia esforcos para compreender os discursos politicosf com o objetivo de oferecer um instrumento para a sua leitura, Michel Foucault enipenhava-se na tarefa de ouvir e de tirar do anonimato o recalcado essa relate entre os dois filosofos, ver GREGOLIN, M.R. Foucault e Pecheux na nalise do discurso. Dialogos £? Duelos. Sao Carlos; Claraluz, 20O4. Sobre o consenso de que a no9ao de "forma^ao discursiva" tenha sido tomada de er nprestimo a Michel Foucault, ver aqui o testo dfc Roberto Leiser Baronas, no qual ele lscu te a "paternidade" dessa no^ao. !) LECOURT, D. Siir I'archeoloeie du savoir, a propos de M. Foucault. La Pensee, agosto l970 X, M. Reim.ntons de Foucault a Spinoza. In: MALDIDIER, D. L'inquictude du a •TECHEUX, M. O discurso; estimura ou acontecimento. Tradu9ao de Eni P. Orlandi, 2. ed., Campinas: Pontes, 1907. COURTINE, J-J. O discurso inatingivet: marxismo e linguistica (1065-1985). In: CONRADO, V L. A. (org). Cademos de tradu^ao, n. 6. Traducao de Heloisa M. Rosario. Porto Alegre: Univer.sidade Federal do Rio Grande du Sul, ahr-jun, 1909, p. 5-18. 13 . Paris: Cendres, 1900.
  8. 8. 14 FOUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUB3ETIVIDADE da razao ocidental", inaugurando aquilo que, anos depois, tornouse alvo de interesse dos pesquisadores: os discursos do cotidiano. Poderfamos listar ainda outros exemplos dessa relagao conflituosa e, ao mesmo tempo, de harmonia entre Michel Foucault e a Analise do Discurso, mas deixemos essa missao aos autores. O que nos cabe nessa apresentacao e enfatizar a necessidade de marcar a posicao do filosofo no campo dos estudos do discurso; salientar que, vinte anos depois de sua morte, as suas propostas continuam vivas e provocando inquietacoes. A denominacao dos c a p f t u l o s deste livro evidencia a aproximacao entre M. Foucault e os dominios da linguagem, sobretudo no que tange a discurso, historia, poder e subjetividade. No capitulo 1, intitulado Foucault e a teoria do discurso, os autores abordam pontos fundamentals do pensamento de Foucault, desenvolvidos na fase em que sua preocupagao estava voltada a teoria do discurso e a explicitacao do metodo de analise. Maria do Rosario Gregolin, em 0 enundado e o arqmvo: Foucault (entre)mstas, presenteia-nos com um texto que mescla o sabor da narracao ficticia de uma entrevista entre ela e Michel Foucault, que teria ocorrido no verao de 1969, na calcada da Rive Guache, com a compreensao de conceitos centrais desenvolvidos em A Arqueologia do Saber. O torn ficcional do qual se serve a autora poderia, em principio, impedir a emergencia de um discurso comprometido com o fazer cientifico. A entrevista ficticia, entretanto, emoldura e da um certo dinamismo a esse texto, pois, com esse recurso, a autora deixa o discurso de Foucault falar de si mesmo, o que nos desvenda um grande texto metalingiiistico. Nesse sentido, o texto expoe sua heterogeneidade, sendo marcado ora por aspas, ora por italico, num exercicio linguistico-discursivo constants para 11 FOUCAULT, M. Hist6ria da Loucura. Sao Paulo: Per spec tiva, 1SI78. FOUCAULT E OS DOMJNIOS DA UNGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE 15 deixar que o pensamento do filosofo se sobressaia a voz da autora cuja interpretacao, presente na formulagao das perguntas, destinase a tracar um "programa de leitura" que oferece ao leitor elementos para compreender as tr£s nog5es pilares que sustentam o metodo arqueologico: enunciado, formacao discursiva e arquivo. Formafdo discursiva em Pecheux e Foucault: uma estranha patermdade, de Roberto Leiser Baronas, apresenta uma discussao circunstanciada sobre o conceito de formacao discursiva, resgatando os contextos nos quais tal sintagma surge ou sofre reconfiguracoes. O autor evidencia que a nogao de formagao discursiva tern "paternidade partilhada" e apresenta a relevancia de se repensar esse conceito em sua complexidade, considerando tanto o genero como o posicionamento ideologico como "elementos essenciais no fornecimento das condicoes que possibilitam a irrupcao das discursividades". Nesse sentido o texto expoe a atualidade e a produtividade desse conceito para as teorias do discurso. Em Uma teoria do discurso num certo prefdcio, Maria de Fatima Cruvinel busca elementos para compreender a teoria do discurso esbogada no prefacio de As palavras e as coisas. O texto de Cruvinel e, antes de tudo, um convite ao leitor para se deixar conduzir pelo "discurso diferente" de Foucault, um discurso apaixonante e, ao mesmo, provocante, pois "perturba todas as familiaridades do pensamento" da "epoca (seculo 20) e lugar (Ocidente)" em que se encontrava o filosofo. De inicio, a autora alerta-nos sobre as especificidades desse prefacio, um texto "nada facil", que usa a escrita de Jorge Luis Borges como "isca" para seduzir o leitor a aceitar a tarefa que Ihe e proposta no texto que antecede a obra, a saber: o estudo da emergencia e da ruptura do saber em periodos historicos especificos da civilizacao ocidental. O capitulo 2, Foucault, o discurso e a Historia, contempt tambem, aspectos da arqucologia do discurso, mas o foco, iies
  9. 9. 16 FOUCAULT E OS POMJNIOS DA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDAOE momento, sao os pontos de contato entre discurso e historia, numa perspective que considera a Historia como descontinuidade e o discurso como acontecimento. Vanice Maria Oliveira Sargentini, com o texto A descontiinudade da Historia: a emergenaa dos sujeltos no arqmvo, faz uma reflexao FOLfCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUB3ETIVIDADE 17 500 anos do Brasil. O fio condutor em torno do qual apresentam-se as reflexoes realizadas no capitulo 3, Foucault, o discurso e o poder, aponta para a fase genealogica das investigacoes de Foucault, na qual o autor volta seu olhar para a relagao entre poder, saber e as diversas sobre aspectos teoricos que permitem tracar um dialogo entre a arqueologia dos discursos empreendida por Foucault e o dispositive de interpretacao erigido pela Analise do Discurso. Essa tarefa e fbrmas de sujeicao do corpo na sociedade moderna. A a r t i c u l a c a o entre discurso, poder e a producao de subjetividades do tempo presente e explorada no artigo Entre. realizada de um lugar discursive determinado, que consiste na retomada de estudos realizados tanto por lingiiistas quanto por -oozes, carries e pe.dras: a lingua, o corpo e. a adade na constru$ao da subjetimdade contemporanea, de Carlos Piovezani Filho. O autor historiadores que veem a necessidade de estabelecer uma relagao entre "linguistica e hisuJria", Essa retomada, entretanto, e feita tambem de um lugar de fala especifico: o estudo da linguagem observa o controle das representacoes e dos usos da lingua e do corpo na midia, bem como das formas de circulacao no espaco urbano. Para tal parte do texto de M. Pecheux — Dehmitafdes, atravessado por uma perspective discursiva, o que justifica a busca por pontos de contato entre as propostas de Michel Pecheux e de Michel Foucault. Essas reflexoes possibilitam a autora realizar uma segunda tarefa: analisar o modo como o sujeito £ visto no interior dos estudos do discurso e, com isso, '''apontar a emergencia do sujeito no arquivo". inversoes e deslocamentos — e observa como entre o z>er e o di%?,r estao presentes os projetos urbanos e as politicas linguisticas das sociedades ocidentais. Apoiando-se na nogao de sociedade Com o proposito de abordar a construcao da identidade na produgao discursiva da midia impressa sobre o V Centenario do Descobrimento do Brasil, Pedro Luis Navarro-Barbosa, em O acontechnento discursive e a construfdo da identidade na Historia, situa sens estudos a partir das nocoes foucaultianas de historia e de acontecimento discursive. Conduz-nos a elucidative apresentacao das conduces de aparicao desses conceitos, encaminhando-nos a reflexoes sobre o sujeito do discurso, visto como uma "plurahdade de posicoes e uma descontinuidade de funcoes". O autor desenvolve a a n a l i s e da produgao de i d e n t i d a d e n a c i o n a l no d i s c u r s o jornalistico, considerando a dispersao de emmciados Jmageticos e verbais que atualizam temas em confronto sobre o aniversario de de controle, proposta por Foucault, recupera como se dao as relagoes entre as edificacoes u r b a n a s e o controle dos usos lingiusticos e dos embelezamentos do corpo no final do seculo passado e inicio deste. Em conclusao, aponta para a "ubiqiiidade midiatica de nossa sociedade de controle", que engendra modelos de c o n d u t a p a r a o c o m p o r t a m e n t o l i n g u a g e i r o , p a r a a apresentagao corporal e para a ocupagao da cidade. Francisco Paulo da Silva, partindo do principio segundo o qual a descricao do funcionamento discursivo solicita a procura de "algo a mais" que a simples representacao entre palavras e coisas, examina o modo como se efetuam as Articulafdes entre poder e discurso em Michel Foucaidt. O objetivo do autor e, portanto, "rastrear" nas propostas do filosofo o conceito de poder, a relacao entre saber e poder, os efeitos de poder, a sua atuacao sobre o sujeito e os modos de materializagao dessa relacao no discurso. As formulagoes
  10. 10. 18 FOUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM: DISCURSO, POPER, SUBJETIVIDADE enunciativas analisadas por Silva oferecem-lhe condicoes para a POUCAULT E OS DOMINIOS PA LINGUASEM; DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE 19 No quinto e ultimo capitulo, Foucault, o discurso literario e compreensao das estrategias de subjetivacao empregadas para a linguagem imagetica, as autoras buscam no pensamento do produzir uma subjetividade capaz de "funcionar socialmente no dominio da ordem que se deseja estabelecer". filosofo Frances aspectos te6rico-metodologicos que permitem tracar A tecnologia politica do corpo inspira tambem as discussoes literario e entre teoria do enunciado e manifestacoes discursivas r e a l i z a d a s no q u a r t o capitulo, Foucault, o discurso e as um paralelo entre dispositivo de interpretacao e a leitura do texto nao-verbais e verbo-visuais.. subjetividades. As analises apresentadas pelos autores inscrevem- A questao da interpretacao esta no centro das reflexoes se, portanto, no ambito da genealogia do poder, com o acrescimo de realizadas no texto Teorias e alegorias da interpre.tafao: no theatrum uma proposta que visa articular a nocao de pratica de subjetivacao com a producao discursiva da identidade. de Michel Foucault, de Marisa Martins Gama Khalil, que focaliza o discurso literario na sua fun^ao primeira, que e a de ser um "espa90 Centrando-se em questoes relativas ao sujeito, Nil ton Milanez, instigador de leituras e de interpretagoes". Essa natureza do fazer em A disciplinaridade dos corpos; o sentido em remsta, explora a analise literario permite que Khalil estabeleca um dialogo entre Michel de um texto verbal e nao-verbal, presente em uma revista, Foucault e um numero delimitado de literatos universais — Miguel compreendida como um suporte que encerra dispositivos de de Cervantes, Italo Calvino, Jorge Luis Borges, Henry James, constituicao de i d e n t i d a d e s . O autor pauta-se nos e s t u d o s Guimaraes Rosa, Fernando Pessoa e Camoes -, o qual nos conduz foucaultianos que apontam o sujeito como uma fabrica9ao historica por um percurso analitico que desvenda nao "uma teoria da e, portanto, vulneravel ao mecanismo da disciplinaridade e do interpretagao, mas a sugestao de uma rede de apontamentos controle. Observa, pela analise, que a disciplinaridade dos corpos plausiveis para uma interpretacao da interpretacao". transfer ma em objetos as pessoas, monitorando-as a partir de "tecnicas de si". Em Foucault nas visibt.hda.des enuna.at7.vas, Nadea Regina Caspar" apresenta como questionamento a possibilidade de aplicar a teoria Weblogs: a exposicao de suhjetimdades adolescentes, de Maria Regina arqueologica em outras materialidades discursivas que nao somente Monies so de O l i v e i r a , e um texto q u e procura a n a l i s a r a verbal. Para isso, a autora explora os conceitos de enunciado, de os"ciberdiarios" - paginas pessoais nas quais internautas na faixaetaria entre 14 e 21 anos registram suas experiencias afetivas, suas musicas p refer idas, suas frustracoes entre outros assuntos do cotidiano - com base no conceito foucaultiano de "tecnicas de si". 0 depoimento de "blogueiros" e as experiencias que a autora encontra narradas nos ivfevdes tin ados a esse uso permitem que ela veja nessas paginas pessoais uma pratica discursiva de busca e de construcao de identidades, uma vez que acabam por se constituir em "uma tecnica de si" para os adolescentes "blogueiros". acontecimento e de visibilidades enunciativas, com o objetivo de evidenciar que a proposta do metodo arqueologico revela-se tambem interessante para a analise de textos imageticos e de textos que conjugam palavra, som e imagem, como e que o caso da linguagem cinematografica. Foucault alerta-nos que as margem de urn livrojamais sao nitidas rtem ri.goromme.nte determmadas: alem do titulo, das pnmeiras linhas e do ponto final, alf.m de sua coufigurafdo niterna e, da forma que Ihe da ®itto?iomia, elf. estd preso em um sistern'a de remissoes a outros Irvros,
  11. 11. 20 FOUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE outros textos, outrasfrases: no em uma rede1*. Assim, todo livro - e este nao poderia ser diferente - e, ao mesmo tempo, espaco de reuniao e Capitulo 1 dispersao. Conscientes dessa teia na qual todo texto se plasma e da qua) tlra sen sentido, convidamos nossos leitores a habitarem as proximas paginas, completando-as ou recompondo-as com sua leitura. Vanice Sargentim e Pedro Navarro-Barbosa Foucault e a teoria do discurso rOUCAULT, M A arqueologia do saber Rio <!e .FanL-iro Furense Universitaria, p.26.
  12. 12. FQLJCAUIT E OS DOMINIp_S_DA LINGUAGEH: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDflDE 23 O enunciado e o arquivo: Foucault (entre )vistas13 Maria do Rosai-jo Valencise Gregotin* I Ha um conceito que e fundamental para o seu metodo • arqueologico: o enunciado. Tanto que ele ocupa todo o terceiro capitulo de A Arqueologia do Saber1*. A sua defmicao se faz por oposicoes a outros conceitos (frase, proposi£ao, speech acts) e pela analise da relacao entre enunciado e lingua. For que o enunciado ocupa esse lugar central no seu metodo? Qual e o seu conceito de enunciado? A discussao sobre o enunciado ocupa todo capitulo III da Arqueologia do Saber, cujo titulo e, justamente, O enunciado e o arquivo. Como o proprio nome diz, quis mostrar a relacao de dependencia e de hierarquia entre essas duas nocdes - a mais ampla (arquivo) e a mais molecular (enunciado} do metodo que estou propondo. Todo o capitulo se articula a partir de duas questoes, derivadas da minha reflexao sobre o que eu investiguei nos meus trabalhos anteriores15: Naquele verao de 1900. quando Pans esteve clara como ntinca, eu podena te-!c> encontrado. A cal^ada da Rive Gauche fei-vilhava dt; transeuntes absortos demais na vida. Estariamos sentados num daqueles cates cm que pululam pessoas lendo jornal. Enquanco conversavamos, sobre a mesa, pousada, estaria a primeira editito da Arqueotogia da Saber (os livi-os sao passaros que voarn e dc repente pinisam sua fuia plumagem sobre as nossas maos) e ele interrompia a fala, de quatido em quando, para .sorver lentos goles de cKa. * Prafessora da Univei'sidade Estadual Paulista, Araraquara, SP. Coordenadora do Grupo Je Estudos de Analise do Discurso de Araraquara (GEADA). 14 FOUCAULT, M. (lyey). A Arqueologia do Saber. Trad. bras. Luis Felipe Baeta Neves. Rn> de Janeiro: Forense Universitaria. 1986'. ''' No momento de^ta entrevista, em 1969, ana da publicafao de A Arqueologia do Saber, Foucault ja havia publicado A Historia da Loucura (19B^), O Nascimentu da Clinica (19G3) e •^i palavran e ax Coisas (I96fi) A Arqueolugia e um momento te6rico-inetodo!6gico, de leiiexao solire esses traballiot; antenores.
  13. 13. 24 FOUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM: DI5CUR5O, PODER, SUB3ETIVIDADE FOUCAULT E OS DQMINIQS DA HNGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE 25 "o que e o enunciado?" e "como a teoria do enunciado pode se ajustar estrutura proposicional, mas com caracteres enunciativos bastante a analise das formacoes discursivas?". A elas vou tentar responder, nesse capitulo III, seguindo certos passos: primeiro, definindo o distintos); b) ao contrario da frase, o enunciado nao esta, necessariamente, que entendo por "enunciado"; logo a seguir, destacando as submetido a uma e s t r u t u r a linguistica canonica {como, em caracten'sticas da "funcao enunciativa"; depois, teorizando a port ague's, sujeito-verbo-predicado), isto e, nao se encontra um "descricao dos enunciados"; para, entao, a partir da exposicao das enunciado encontrando-se os constituintes da frase. Um quadro caracteristicas do enunciado (raridade, exterioridade, aciunulo), classificatorio das especies botanicas e constituido de enunciados chegar a desenvolver a articulacao entre os conceitos principals que nao sao "frases"; uma arvore genealogica; um livro contabil; a que tenho manipulado em meus trabalhos - "enunciado" / "formacao formula algebrica; um grafico, urna piramide... todos tern leis de discursiva" / "arquivo". Como pode ver, o enunciado {ou, como uso e regras de constru9ao que sao diferentes daquelas das frases. espero ter deixado claro, a.Jimcdo enunciativa} e a unidade elementar Por isso, nao parece possivel defmir um enunciado pelos caracteres do discurso. Em sen modo de ser singular (nem inteiramente lingiiistico, nem exdusivamente material) o enunciado e indispensdvel para que se gramaticais da frase {1986, p. 93); c) o enunciado, parece, a primeira vista, mais proximo do que possa dizer se hd ou ndo frase, proposicao, ato de hnguagem. [...J ele ndo se chama os speech acts (atos de Hnguagem). No entanto, diferentemente e, em si mestno, uma unidade, mas s'mi uma funpao que, cruza um dominio de estruturas e de unidades possiveis e que faz com que aparecam, com das pesquisas pragmaticas da filosofia analitica inglesa, nSo proponho procurar o ato material {falar e/ou escrever); ou a intencao conteudos concretes, no tempo e no espa$o. {1986, p. 98-99). Se o descrevo do individuo que esta realizando o ato (convencer; persuadir etc.) a partir de oposicoes com outras unidades — frase, proposicao, atos ou o resultado obtido (se foi "feliz" ou nao). O que procure e descrever de Hnguagem - e para marcar as diferencas e para acentuar que os estudos lingiiisticos sempre deixaram o enunciado como um resto, a operacdo que foi efetuada, em sua emergencia — nao o que ocorreu antes, em termos de mtenfao, ou o que ocorreu depots, em termos de "eficdcia" - um elemento residual e, portanto, pressuposto, mas nao analisado. was sim o que se produziu pelo proprio fato de ter sido enunciado — e Se voce seguir minha exposicao, ate certo ponto didatica, nesse precisamente neste enunciado (e nenhuin ontro) em circunstancias bem capitulo III, podera ver que o enunciado se distingue desses tres conceitos porque: determinadas (1986, p. 94). Para defmir o enunciado, alem de mostrar suas diferencas com £ sses conceitos {frase, proposi^ao, speech acts), tambem o correlaciono a) ao contrario da proposi9ao, o enunciado esta no piano do com o conceito de lingua. Quero mostrar que lingua e enunciado discurso e, por isso, nao pode ser submetido as provas de verdadeiro/falso. Por isso, diferentemente da proposicao logica, para na os enunciados nao ha formulacoes equivalentes (por exemplo, "ninguem ouviu" e diferente de "e verdade que ninguem ouviu" quando os encontramos em um romance. Trata-se de uma mesma COn o estao no mesmo nivel de existencia. Dou como exemplo dessa "lerenca as letras que estao numa mdqurna de escrever, que nao stituem enunciados; no entanto, quando eu as disponho ern uma Pagma - seguindo regras que vem do sistcma da lingua - tornamei -iunciado. A lingua e um sistema de construcao para enunciados
  14. 14. 26 FOUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE FOUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM: DISCURSQ, PODER, SUB3ETIVIDADE 27 possiveis. No entanto, para a analise arqueologica nao interessa relacao gramatical, logica ou semantics; ha uma relacao que envolve esse campo de virtualidades das formas lingiiisticas, porque nao os sujeitos, que passa pela historia, que envolve a propria basta qualquer reahzacao material de eleimntos lingiiisticos, ou qualquer materialidade do enunciado. emergencia de signos no tempo e no espafo, para que mn enunciado aparefa e passe a existir (1986, p. 98}. Porque o que torna uma frase, uma proposi9ao, um ato de Imguagem em um enunciado e justamente a funfdo enunaativa-. o fato de ele ser produzido por um sujeito, em 3 Exatamente esses serao os pontos discutidos a seguir. Voce • poderia falar um pouco sobre a relacao entre o sujeito e o enunciado? um lugar institucional, determinado por regras socio-historicas que defmem e possibilitam que ele seja enunciado. Toda a discussao O sujeito do enunciado nao pode ser reduzido aos elementos sobre o conceito de enunciado e feita para precisar o objeto da gramaticais. Veja, por exemplo, que, em uma formulacao verbal, descricao arqueo!6gica: nao o enunciado atomico — com sen efeito de sentido, sua origem, sens hmites e sua individualidade - mas sim o campo mesmo quando nao aparece gramaticalmente a primeira pessoa, de exercicio dafunfao enundativa e as condifdes segimdo as quais elafaz que o enuncia nao e a mesma se um mesmo conjunto de signos aparecerem nnidades diversas (que podem ser, mas nao necessanamente, de ordem gramatic.al ou logica] (1986, p. 122). estiver em uma conversa ou em um romance (por exemplo, "deitei- ha sujeito. Do mesmo modo, a relacao do enunciado com o sujeito me cedo ontem" pode ser dito por um sujeito qualquer e pode E essa funpao enunciativa que interessa a Arqueologia. Por aparecer num livro de Proust como Em busca do tempo p&rdido). Para isso, desenvolvo-a no item 2 do capitulo III, momento em que discuto que um enunciado exista e necessario assinalar-lhe um "autor" ou o exercicio dessa funfao, suas condicoes, suas regras de controle, o campo em que ela se realiza. uma iustancia produtora t!i . Mas esse "autor" nao e identico ao sujeito do enunciado (em termos de natureza, status, funcao, identidade). Existem romances nos quais ha varies sujeitos que enunciam. Isso 2 nao e caracteristica apenas dos textos romanescos - e uma Entende-se, entao, que o enunciado e um conjunto de signos caracteristica geral, j& que o sujeito do enunciado nao e o rnesmo de • emfunfao enunciatwa. Portanto, ser um elemento do nivel enunciativo e a primeira caracteristica do enunciado? um enunciado a outro; essa fun9ao pode ser exercida por diferentes sujeitos, isto e, um umco e mesmo indimduopode ocupar, alternadame.nte,, em uma serie de enunciados> diferentes posi^oes e assumir o papel de Sim, a primeira e a mais fundamental. Insisto nesse ponto, porque ha Lima relacao muito especial entre o enunciado e o que ele enuncia. Essa relacao e diferente daquela que existe entre outros pares: entre o significante e o significado; entre o nome e o que ele designa; entre a frase e seu sentido; entre a proposicao e o seu referente. Entre o enunciado e o que ele enuncia nao ha apenas diferentes sujeitos (1986, p. 107). Num enunciado como "duas quantidades iguais a uma terceira sao iguais entre si" a posi9ao de sujeito e neutra, pois pode ser ocupada por qualquer enunciador. Ja em "ja demonstramos que..." o sujeito e localizado em uma serie lu Essa figiu-a discur-siva do "autor", Foucaulc tratarS em seu texto 0 qua sum autor? (1971).
  15. 15. 28 FOUCAULT E OS DOMINIOS DA LJNGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE POUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE 29 enunciativa, fixado no interior de um dominio constituido por um Ao contrario daquelas (que mesmo isoladas, amputadas de todos conjunto finito de enunciados ditos antes e que sao retomados - ha os elementos a que podem remeter, continuam sendo frases e a existencia previa de um conjunto de operacoes efetivas que talvez proposicoes, sendo reconheciveis pelos seus elementos gramaticais nao tenham sido realizadas por um unico sujeito. Ao contrario, em e logicos) o enunciado tern que ser correlacionado a um campo "chamo de reta a...", o sujeito do enunciado e o sujeito da operagao. subjacente. Derivada dessa ideia, que insere o enunciado no campo Toda essa discussao e muito interessante, pois o que torna uma da intertextualidade, pode-se pensar no papel da memoria na frase em um enunciado e o fato de podermos assinalar-lhe uma producao dos sentidos? posi^.ao de sujeito. Assim, descrever uma formulacao enquanto enunciado consiste em determinar qual e a posicao que pode e deve Quando se trata do enunciado, o efeito de contexto so pode ser ocupar todo mdividuo para ser sen sujeito (1986, p. 109). Todas essas determinado por uma rede verbal. As margens nao sao, tampouco, questoes relacionadas ao sujeito do enunciado levaram-me a concluir que nao e preciso, pois, conceber o sujeito do enunciado como identico ao identicas para todos os enunciados: o modo de presenga de outros enunciados e diferente, quer se trate de um romance ou de uma autor da formulacao, nem substancialmente, nemfuncionalmente. Ele nao conversa rotineira, pois o halo psicologico de uma formulacao e e causa, ongem ouponto departida dofendmeno de articulacao escrita ou comandado de longepela disposicao do campo enunciativo (1986, p. 112). oral de. uma frase; nao e, tampouco, a inten$ao significativa que, invadindo Desse modo, o que chamo de "campo associativo" forma uma trama silenciosamente o terreno das palavras, as ordena com o corpo invisivel de complexa: sua intuigao; nao e o niicleo constante, imovel e identico a si mesmo de uma serie de operacoes que as enunciados, cada um por sua vez, viriam a) Ele e constituido pela serie das outras formula9oes, no manifestar na superftcie do discurso. E um lugar determinado e vaxio que pode ser efehvamente ocupado por indimduos diferentes; m-as esse lugar interior das quais o enunciado se inscreve; b) Ele e constituido, tambem, pelo conjunto das formulacoes a em. vex de ser defimdo de uma vez. por todas e de se manter umforme ao que o enunciado se refere (implicitamente ou nao) seja para repeti- longo de um texto, de um livro ou de uma obra, varia - ou melhor, e las, seja para modifica-las ou adapta-las; seja para se opor a elas, varidvel o bastante para poder continuar identico a si mesmo, atraves de seja para falar de cada uma delas. Por isso, todo enunciado liga-se a vdrias frases, bem como para se modificar a cada uma (1986, p. 109). uma memoria e, assim, nao ha enunciado que, de uma forma ou de outra, nao reatualize outros enunciados (1986, p. 113); c) Ele e constituido, ainda, pelo conjunto das formulacoes cuja 4 Outra caracteristica do enunciado e o fato de que ele tern • se-mpre margens povoadas de outros enunciados {1986, p. 112). Ha uma relacao do enunciado com a serie de formulacoes com as quais ele coexiste. Isso atesta sua historicidade. Do seu ponto de vista, essa e mais uma diferenca entre frase, proposicao e o enunciado. possibilidade ulterior e propiciada pelo enunciado e que podem v 'ir depois dele como conseqiiencia, sua seqtiencia natural ou sua replica; d) Ele e c o n s t i t u i d o , f i n a l m e n t e , pelo c o n j u n t o das coes cujo status e compartilhado pelo enunciado em
  16. 16. 30 FOUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE POUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE 31 questao, em relacao as quais se apagara ou tomara um ]ugar O enunciado e sempre apresentado em uma espessura material, (sera valorizado,' conservado,' sacralizado e oferecido como objeto J que o constitui. Ele e caracterizado por seu status material e sua possivel a um discurso future). For estar imerso nesse movimento identidade e sensivel a uma modificacao desse status, dependendo que institui sua enunciabilidade, pode-se diz&r, de modo geral, que do genero de texto em que esta inserido. A materialidade e uma seqiiencia de elementos linguisticos so e enunciado se estiver imersa constitutive do enunciado: ele precisa ter uma substancia, um em um campo enunciativo em que apareca como elemento singular (1986, p. 113). suporte, um lugar, uma data. Alem disso, e necessario que essa Com tudo isso, quero dizer que, desde sua raiz, o enunciado ha um regime de materialidade repetivel (1986, p. 117) defmida por se delineia em um campo enunciativo onde tern lugar e status, que certas instituicoes, como a literatura, a ciericia, o juridico etc. Essa Ihe apresenta relacoes possiveis com o passado e que Ihe abre urn repetibilidade material define antes possibilidades de reinscri9ao e mturo eventual. Imerso nessa rede verbal, ele so pode ser apanhado de transcricao (mas tambem limiares e limites) do que em uma trama complexa de producao de sentidos e, por isso, podemos concluir com uma caracteristica geral e determinante sobre individualidades limitadas e pereciveis. A identidade do enunciado esta submetida, tambem, aos limites as relacoes entre o enunciado, o funcionamento enunciativo e a que Ihe sao impostos pelo lugar que ocupa entre outros enunciados. memoria em uma sociedade: ndo hd enunciado em geral, livre, neutro e independente; mas sempre um enunciadofazendo parts de uma serie ou de "A terra e redonda" e um enunciado diferente antes e depois de um conjunto, desempenhando um papel no meio dos outros, neles se apotando modificou-se a relac5o dessa afirmagao com outras proposicoes. O e deles se disttngiundo: ele se tntegtu sempre em umjogo etmticiativo (1986, p. 114). mesmo conjunto de elementos verbais e inserido em um campo de materialidade possa ser manipulada pelos enunciadores e, por isso, Copernico: apesar de o sentido das palavras nao ter mudado, estabihzacdo que permite, apesar de todas as diferencas de enunciacao, repeti-los em sua identidade e fazer surgir um novo enunciado (1986, 5 P- 119). Ao mesmo tempo, institui-se um campo de utilizacdo, que Segundo sua proposta arqueologica, a quarta condicao para • que uma seqiiencia de elementos linguisticos possa ser considerada e analisada como um enunciado t§ a sua existencia permite a sua constancia, a manuten9ao de sua identidade atraves dos acontecimentos singulares das enuncia9oes. material. Sobre essa questao, o sen texto lanca uma pergunta: poderiamos falar de enunciado se uma voz ndo o tivesse enunaado, se uma superjicie ndo registrasse os seus sigiios, se ele ndo tivesse tornado corpo em um elem.ento sensivel e se ndo tivesse de.ixa.do marca - apenas aigims instantes — em uma memoria ou em um espafo? (1986, p. 115). Do seu ponto de vista, do que se compoe essa materialidade do enunciado? 6 Isso significa que os enunciados agenciam a memoria, constroem a historia, projetando-se do passado ao futuroP Certamente. Ao inves de ser uma coisa dita de forma definilwa perdida no passado como a de.ci.mo de uma batalha, uma catdstrofe a ou a morte de um rei - o enunciado, ao mesmo tempo em que
  17. 17. 32 FOUCAULT E OS DOMJNIOS DA LINGUAGEM: DISCURSQ, POPER, SUBJETIVIDADE surge em sua materialidade, aparece com, um status, entra em redes, se coloca em campos de utilizacao, se oferece a transferencias e a modiftcacoes possiveis, se Integra a operacoes e em estrategias onde sua identidade se mantem oi/ se apaga. Assim, o enunciado arcula, serve, se esquwa, permits ou impede a reahzacdo de, um desejo, e docil ou rebelde a interesses, entra na ordem das contestacoes e das lutas, torna-se tema de apropriacdo ou de rivahdade {1986, p. 121). 7 Quais sao, pois, as tarefas da descrigao dos enunciados? A grande tarefa que se propoe na descri^ao dos enunciados e a de defmir as condi9oes nas quais se realizou o enunciado, conduces que Ihe dao uma existencia especifica. Esta existencia faz o enunciado aparecer em rela?ao com um dominio de objetos; como jogo de posicoes possiveis para um sujeito; como elemento em um campo de coexi.stencia; como materialidade repetivel. No entanto, acredito que ainda nao desenvolvi uma teoria do enunciado: essa e uma tarefa que deixo para o future, para que eu ou outros a fagam. For ora, tomo apenas o cuidado de fazer algumas precisSes terminologicas, fixando um vocabulario, ja que estou operando com conceitos sem atribuir-lhes exatamente o significado que tern para os gramaticos, para os logicos e para os lingiiistas. For exemplo, posso te dar um pequeno glossario, so por precaucao 17 : performance linguistics: todo conjunto de signos efetivamente produzidos em lingua natural {ou artificial); POUCAULT E OS POMINIOS DA LINGUAGEM^DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE 33 fyrtnulacao: ato individual {ou, a rigor, coletivo) que faz surgir, em Lim material qualquer e segundo uma forma determinada, esse p-rupo de signos; e um acontecimento demarcavel no espaco e tempo, relacionado a um autor e pode constituir um "ato de fala" (speech ad}; frase ou proposicao: unidades que a gramatica e a logica podem reconhecer em um conjunto de signos; enunciado: chamaremos enunciado a modahdade de existencia propria desse conjunto de signos: modalidade que Ihe permite ser algo diferente de uma serie dt, tracos, algo diferente de uma sucessao de marcas em uma substancia, algo diferente de um objeto qualquer fabricado por um ser humano; modalidade que Ihepenmte estar em rela$ao com um dominio de objetos, prescrever uma posifao dejinida a qualquer sujeito possivel, estar situado entre outras performances ve.rbais, estar dotado, enfim, de uma materialidade, repetivel (1986, p. 123); formacao discursiva: lei de serie, principle de dispersao e de reparti9ao dos enunciados; discurso: conjunto de enunciados que se apoia em um mesmo ststema de formacao (discurso clinico, economico, da historia natural, etc.) {1986, p. 124). 8 Apesar de afirmar que ainda nao desenvolveu uma teoria • no sentido forte do termo - acho que ja estao delineadas as Hnhas-mestras do metodo arqueologico. Voce poderia pontuar a %umas caracteristicas da natureza dessa descricao dos enunciados esta em elaboracao? Realmente, eu adverti que ainda nao e a hora de formular teoria. O que pretendo, por enquanto, e inostrar como se pode Qr ganixart semfalha, sem contradicao, sem nnposicao interna, um dominio
  18. 18. 34 FOUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE FOUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEHi DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE 35 permitem descreve-los (1986, p. 132). Acredito, no entanto, que alguns 9 tracos mais gerais da descrigao ja estao enunciados no capitulo III se relacionam o enunciado e as formapoes discursivas, no interior da Arqueologia do Saber. Trata-se de uma descri^ao historica, mas do me"todo arqueologico... em que, estao em questao os enunciados, sen prmdpio de agtitpamentos, as grandes unidades lustoricas que eles podem constituir e. os metodos que A segunda pergunta que se coloca, nesse capitulo III da 0 Arqueolog!.a, indaga sobre as relacoes entre o enunciado e as formacoes discursivas. Mais clararnente, voc^ pretende pensar como que nao pergunta pelo sentido secreto dos enunciados e sim o que significa o fato de terem aparecido e nenhum outro em seu lugar na evidencia da linguagem efetiva (1986, p. 126). Trata-se de uma singularidade do enunciado, procure analisar certas formas de descrigao que se diferencia da Hermeneutica: a polissemia - que grupamentos enigmaticos. Os principios de unificacao desses autoriza a hermeneutica e a descoberta de um outro sentido — diz grupamentos nao sao nem gramaticais, nem logicos e exigiram que respeito a frase e aos campos semanticos que ela utiliza. O enunciado nao e assombrado pela presenca secreta do ndo-dito, das significacoes ocultas, eu me voltasse para o problema do enunciado. Foi assim que eu Partindo do problema da descontmmdade no discurso e da percebi que as dimensoes proprias do enunciado sao utilizadas na das repressoes; ao contrdrio, a maneira pe.la qual os elementos ocultos demarcacao das formacoes discursivas. O que eu descrevi como fuucionam e podem ser restituidos depende da propna modalidade fonnafao discursiva constitui grupos de enunciados, isto e, conjunto enundativa: sabemos que o "ndo-dito", o "reprimido", nao e o mesmo nem em sua estrntura nem em seu efeito - quando se trata de um mundado de performances verbals que estao ligadas no nivel dos enunciados. Isso supoe que se possa defmir o regime geral a que obedecem seus matemdtico e de um enunciado economico, quando se trata de uma objetos, a forma de dispersao que reparte regularmente aquilo de autobiografta on da narracdo de um sonho. (1986, p. 127)' s . Trata-se que fa lam, o sis tema de seus referenciais; que se defina o regime de uma descricao que nao ere que o enunciado tenha uma clareza geral ao qual obedecem os diferentes modos de enunciacao, a total: as analises gramaticais, logicas etc. tomam o enunciado como distribuigao possivel das posicoes subjetivas e o sistema que os tao obvio, que nao os analisam. A tarefa da arqueologia e tentar define e prescreve. A defmigao de formacoes discursivas ocupa todo tornar visi'vel e analisavel essa transparencia tao proxima que o capitulo II da Arqueologia do Saber. constitui o elemento de sua possibilidade. Nem oculto, nem visivel, o nivel enunciativo estd no limite da linguagem (...) o subito aparecimento de uma frase, o lampejo do sentido, o brusco indice da designacdo, surgem sempre no dominio do exercido de uma enundativa (1986, p. 130). 10 E dessa defini9ao, podemos deduzir o que voce entende como "discurso" e "pratica discursiva"? Em minhas obras anteriores, usei o conceito de discurso de ° ma muito flutuante, polissemica, entendendo-o ora como dominio de todos os enunciados; ora como grupo individualizavel de >; ora como pratica r eg ul amenta da de um certo numero r
  19. 19. 36 FOUCAULT E O5 DOMINIOS DA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE POUCAULT E OS POMJNIOS DA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUB3ETIVIPAPE 37 de enunciados. A partir de minhas reflexoes sobre as formacoes todos os outros. Essas "exclusoes" nao sao o sentido secreto, mas a discursivas, posso agora chamar de "discurso" a urn con-junto de evidencia de que o enunciado efetivamente realizado esta sempre enunciados, na medida em que se apoiem na mesma formacdo discursiva; em sen lugar proprio. Ao mesmo tempo, essa raridade indica que ele e constituido de wn nimie.ro limitado de enunciados, para os quais os enunciados nao tern uma transparencia infmita: nem tudo pode podemos definir um conjunio de condicoes de existencia; e, deparle. aparte, ser dito num lugar qualquer por um sujeito qualquer i!> . histonco — fragmento de lustona, nmdadc, e desconhnuidade na propria Proponho uma an&lise que busca determinar o "valor" dos historia, que coloca o problema de sens propnos limites, de sens cort.es, de enunciados: sen lugar, sua capacidade de crrculacao e de troca, sua suas transformacoes, dos modos especificos de sua temporalidade (1986, possibdidade de transfortnacao; de aparece como um bem —finito, limitado, p. 135-36). Do inesmo modo, posso definir pratica discursiva como desejavel, uhl - que tern suas regras de aparecimento e. tambem suas um conjunto de regras anommas, histoncas, sempre determinadas no tempo condifdes de apropriacao e de utihzacao — e que coloca, por consegumte, e no espaco, que definiram, em uma dada epoca e para mna determmada desde sua existencia a questao do poder20; que e objeto de uma lula, e de area social, econ.om.ica, geogrdfica ou hngiiistica, as condifoes de exercicio dajjmcdo ennnciatwa (1986, p.136). uma luta politica (1986, p. 139). A ideia de raridade me auxilia na tarefa de libertar a analise dos enunciados de Lima historicidade que recorre ao psicologismo, as mentalidades, a teleologia, ao n Ha, ainda, tres caracteristicas que a sua a n a l i s e • enunciativa leva em conta ao tratar dos enunciados: a histonco transcendental. Assim fazendo, minha investigagao procura restituir os enunciados a sua dupersao, para considera-los em sua descontmuidade, para apreender sua propria irrupcao no lugar raridade, a exlerioridade e o acumulo. Voce pode nos indicar como e no momento em que se produziratn; para reencontrar sua relacionar esses conceitos aos outros, ja defmidos nesta entrevista? incidencia de acontecimento (1986, p. 140). Dai, a ideia de exterioridade: a analise busca reencontrar o exterior onde se repartem, Ao contrario de uma certa analise do discurso, que trata do em sua relativa raridade, em sua vizinhanca lacunar, em sen espa9o sentido implicito, soberano e comunitario, a analise enunciativa que aberto, os acontecimentos enunciativos. Isso tern algumas eu proponho leva em conta um efeito de raridade. Para essa analise consequencias teoricas: a) o campo dos enunciados e entendido como do discurso tradicional, o discurso e, ao mesmo tempo, plenitude e local de acontecimentos, de regularidades, de relacionamentos; b) o riqueza indefmida. A analise que eu proponho - dos enunciados e dominio enunciativo nao torna como referencia nem um sujeito das fbrmacoes discursivas - quer determinar o princfpio segundo o ^dividual, nem uma mentalidade coletiva, mas um campo anonimo qua! puderam aparecer os linicos conjuntos significantes que fbram c uja configura^ao defina o lugar possivel dos sujeitos falantes; c) as enunciados, busca estabelecer, portanto, uma lei de raridade (19SG, p. 138). Disso decorre que se pressupoe que nem tudo e sempre 'iiscussao soln-<; us rnecamsmos de controle do discurKo e sua relai^ao coin o poder ^ ° api'ofunclados por Foucault em A Ordem do Discurso (1971). oucault ja anmnjia, na Arquevlugia, a centralidade que o estudo do poder ira aclquinr em as '"^flexoes, a partir dos estudos de Vigiar e Pumr (1975). r l dito; por isso, estudam-se os enunciados no limite que os separa do que nao esta dito, na instancia que os faz surgirem a exclusao de M
  20. 20. 38 FOUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE FOUCAULT E OS DOHJNIOS DA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE 39 series sucessivas nao obedecem a temporalidade da consciencia: o esquecimento e o grau zero da remanencia: os jogos da memoria e tempo dos discursos nao e a tradufao, em uma cronologia msivel, do tempo <ja lembranca podem ai se desenrolar. Assim, remanencia, obscu.ro do pensamento (1986, p. 141). A abordagem da raridade e da aditividade e recorrencia sao tres fenomenos por meio dos quais se exterioridade tern, ainda, uma conseqiiencia que afeta todo o node analisar a relagao entre os enunciados e a temporalidade. A dispositive teorico-metodologico da analise: nao nos situamos no remanencia diz respeito a conservagao dos textos por meio de nivel de um cogito, do pensamento, mas no conjunto das coisas ditas, dispositivos tecnicos (livro, biblioteca, instituicao etc.); pela buscando as relafoes, as regularidades e ax transformafdes qne podem ai aditividade, os enunciados coexistem e se relacionam com outros, ser observadas, o domimo do qual certasfiguras e certos entrecruzamentos de maneiras diferentes de acordo com sua natureza; quanto a mdicam o lugar singular de um sujeito falante e podem receber o nome de recorrencia, ela se refere ao fato de que todo enunciado compoe um um autor. "Nao importa quern Jala", mas o que ele diz nao e dito de campo de elementos antecedentes, em rela$ao aos quais ele deve se qualquer lugar. E conszderado, necessariamente, no jogo de uma situar. exterioridade (1986, p. 1*1-42). Sobre a 110530 de aaimulo, ela parece estar entrelacada a essas ideias de raridade e de exterioridade... Parece-me que, nela, encontramos o fio da temporalidade... 13 E e a analise de tudo isso que vai fazer aparecer a positividade de um discurso? Sim, e a isso que eu chamo - de bom grado - fapositividad& A positividade de um discurso caracteriza-lhe a unidade Acho que sim. A leitura, o traco, a decifrafao, a memoria atraves do tempo e muito alem das obras individuals, dos livros e defmem o sistema que permite, usualmente, arrancar o discurso dos textos. Se ela nao revela quern estava com a verdade, pode passado de sua inercia e reencontrar, num momento, algo de sua mostrar como os enunciados "falavam a mesma coisa", colocando- vivacidade perdida (1986, p. 142). Minha analise nao propoe se no "mesmo nivel", no "mesmo campo de batalha". Ela define um despertar textos de seu sono atual para reencontrar as marcas espaco limitado de comunicagao (mais extenso, entretanto, do que legiveis em sua superficie. Pelo contrario, ela propoe segui-los ao o jogo de influencias entre um autor e outro). Toda a massa de longo de seu sono, ou antes, levantar os iemas relacionados ao sono, ao textos que pertencem a uma mesma formagao discursiva (pouco esquecimento — na es-pessura do tempo em que subsistem, se conservaram importa se os autores se conhecem ou nao, se percebem a trama onforam esquecidos. A remanencia dos enunciados - sua conservacao que os enreda) se comunica pela forma de positividade de seus - ocorre devido a um certo numero de suportes (como o livro, por exemplo), certos tipos de instituicoes (e o caso das bibliotecas, que tern, primordialmente, essa func.ao), certas modalidades estatutarias (pense, por exemplo, no texto religiose, no j u r i d i c o etc.). O "' E ele acrescenta, num torn de ironica confidencia: E se substituir a busca das totahdades pela analise da. raridade, o tema dofundamento transcendental pela descrifao das relafdes de extenondade, a busca da origempelu analise dos acumuhs, e ser positivista, pois hem, eu sou posittvtsta feliis, ce> ncnrd<> fanlmmte (1986, p. 14-t).
  21. 21. 40 FOUCAULT E OS DOMJNIOS DA LINGUAGEMi DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE discursos, A positividade desenvolve um campo em que podem ser estabelecidas identidades formais, continuidades tematicas, translates de conceitos, jogos polemicos. Assim, a positividade desempenha o papel do que se podena chamar um a priori historico (1986, p. 146): as condicoes de emergencia dos enunciados, a lei de sua coexistencia com outros, a forma especifica de seu modo de ser, os principios segundo os quais subsistem, se transformam e desaparecem. O que chamo de a priori historico e o conjunto das regras que caracterizam uma pratica discursiva (1986, p. 147). Q u a n t o a positividade, e o termo que venko empregando, enfim, para designar a meada que venho tentando desenrolar. (1986, p. 144). "I / Acho que chegamos, enfim, ao conceito mais amplo de -M~^T0 sua proposta de analise: acho que estamos tocando no conceito de arquivo... A p a r t i r dele, p e n s a n d o em termos hierarquizado.s, podemos unir todos os conceitos - enunciado; FOUCAULT E OS DOMJNIOS PA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUB3ETIVIDADE 41 por ibrmacoes discursivas distintas £../] 6 um volume complexo em que se diferenciam regioes lieterogeneas e em que se desenrolam, segundo regras especfficas, praticas que nao sti podem superpor. Ao inves de vermos alinharem-se, no grande livro mi'tico da liistoria, p a l a v r a s que tradu/.em, em caracteres visfveis, pensamentos const!tuidos antes e em outro lugar, ternos nas praticas discursivas sistemas que instauram os enunciados como acontecirnentos (tendo siias condicoes e seu dominio de a p a r e c i m e n t o ) e coisas (compreendendt) sua possibilidade e seu campo de utili/.acao). Sao todos esses sistemas de enunciados (acontecimentos de um lado, coisas de outro) que proponho chamar de arquivo. £...3 Trata-se do que faz com que tantas coisas ditas por tantos homens, ha tantos milenios [^...3 tenham aparecido gracas a todo um jogo de relacoes que caracterixam particularmente o nfvel discursive. £..7j O arquivo e, de infcio, a lei do que pode ser dito, o sistema que rege o aparecimento dos enunciados como acontecimentos singulares. [../] e o que define o sistema da enunciabilidade do enunciado-acontecimento. Q...J e o sistema de seu funcionainento. Q..]] entre a tradiciio e o esquedmento, ele fax aparecerem as regras de uma prfttica que perrnite aos enunciados subsistirem e, ao inesmo tempo, se modificarem regularmente. E o sistema geral da formacao e da transformagao dos enunciados- r_...] O arfMiivn nao e descritivel em sua totalidade e incontomavel em sua atualidade. conJLinto de enunciados (discurso); formacoes discursivas; praticas discursivas; a priori historico; positividade; arquivo. Posso pensar assim? Uma questao geral: a denominagao de "arqueologia" para Acredito que sim, de uma certa maneira eu venho operando essa analise - e, logicamente, ja sabendo das restricoes por circulos concentricos. Veja o que eu escrevi em algumas paginas 22 : que voce faz sobre alguns dos sentidos contidos na etimologia da O dominio dos enunciados assim articulado por a priori historicos, assim caracterizado por diferentes tipos de positividade e escandido -2 Pequena pausa. Abro meu exemplar da primeira edi^ao da Artjueohgta (i|iit± en acabara de comprar numa daquelas bvrarias do Qvartier Latin, e que ja estuva gas to de tan to metis dedoK deslizarem, na leitura, pela branca superficie de suas piginas) leio e transcrevo, na Integra, o que me parece um achado. palavra, confer me aquela entrevista que acaba de ser publicada no Magazine Litleraire-'3 ~ deriva desse conceito nuclear de "arquivo"? nua-se do Lex to "Michel Foucault explica .seu ultimo livro". (Entreviini turn .1.1 chier) Magazine Litt^raire a* 1909. |) ii^-a") Trad bras, em: Moua, M.B (Org} ichel Foucaulr. Arqueologia das Cieiicias e Historia dos Sistemas de Pcnsaniento. l. Dt'to.1 & £,.(-,,;,,.,- {/) R,,, d e Janeiro Foreu.se Llniver.sHiiria, aooo, p. 1'!•')-1 .W
  22. 22. 42 FOUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE FOUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM; DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE 43 Talvez possamos pensar assim, se considerarmos que o "arquivo" e o centre em torno do qual gravitam os outros conceitos dos d i s p o s i t i v o s de c o n t r o l e da p a l a v r a , algo que t e n h o denominado como "a ordem do discurso"* 4 . Tambem pretendo operatorios da minha analise. O arquivo forma o horizonte geral a que pertencem a descngao das formafdes discursivas, a analise das avancar um pouco mais os principios da an&lise do discurso. positimdades, a demarcagao do campo enunciativo. Por isso, o nome de Um deles, e talvez o mais importante, estou d e n o m i n a n d o "principio da inversao", porque proponho que, em vez de arqueologia aos estudos que venho empreendmdo. Como voce afirmou, enxergar a originalidade, a origem, a continuidade, e preciso restrinjo o sentido de "arqueologia", pois ele nao deve mdtar a busca da origem on a uma escavacdo geologica. Ele designa o tema geral de uma ver o jogo negative de um recorte e de uma rarefacao do discurso. A ele, acrescenta-se a necessidade de atender ao "principio de d e s c o n t i n u i d a d e " : porque os discursos sao rarefeitos nao descrifdo que mterroga o jd-dito no nivel de sua existencia: dafun^ao enunaativa que nele se exerce, daformafdo discursiva a que pertence, do sistema gerat de arquivo de que faz parte. A arqueologia descreve os discursos como prdticas especificadas no demento do arquivo (1986, p. 151). Para fmalizar: agora que ja delineou o "metodo arqueologico" - e, de alguma forma, ja acertou as contas com seus criticos - esta pensando em um novo trabalho, certamente... "Acertar contas" e uma expressao muito forte, p r i n c i p a l m e n t e p o r q u e t e n h o inumeros interlocutores e, certamente, nao poderei nunca estar quite com todos. Ademais, nunca pensei em escrever um livro que fosse o ultimo, que interditasse as vozes futuras. Pelo contrario, escrevo para que outros livros possam ser escritos e nao necessariamente por mini. Quanto ao que estou escrevendo agora... Estou trabalhando o texto de minha aula inaugural no College, de France: trata-se de uma fala em que abordo os perigos que o discurso representa para a nossa sociedade - n u n c a se falou tanto e n u n c a , na historia do ocidente, se temeu tanto as palavras. Pretendo tratar significa que para alem deles reine um grande discurso ilimitado, contmuo e silencioso que fosse por eles reprimido e recalcado; sabendo disso, os discursos devem ser tratados como praticas descontinuas, que se cruzam por vezes, mas tambem se ignoram e se excluem. Ha, alem disso, o "principio de especificidade": o discurso nao pode ser tornado como um jogo de significa9oes previas; ao contrario, ele deve ser concebido como uma violencia que fazemos as coisas, como uma pratica; e e nesta pratica que os acontecimentos do discurso encontram o "principio de sua regularidade". E seguindo o "principio da exterioridade", e necessario nao se concentrar no niicleo interior e escondido do discurso, mas, a partir do proprio discurso, de sua aparicao, de sua r e g u l a r i d a d e , passar as s u a s condicoes e x t e r n a s de possibilidade, aquilo que da lugar a serie aleatoria desses acontecimentos e fixa suas fronteiras (1996, p. 53). Como ve, estou tomando alguns pontos da arqueologia e aprofundando°s. Quero, alem disso, tratar de uma figura que ficou pouco es bocada na Arqueologia do Saber: o autor. Quero escrever um que procure problematizar a questao "o que e um autor?". t-ssa aula inaugural sera publicada em: FOUCAULT, M (1971). A ordem do discurso. - bras, de Laura Fraga Sampaio. Sao P;uilo Loyola, 199(i rad
  23. 23. 44 FOUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM; DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE Talvez para fechar um ciclo. Estou caminhando na direcao de analises que focalizem as relacoes entre o saber e o poder...-" Enfirn, o future... nao e ele apenas um pequeno lampejo, quase invisivel, num fim de tarde como e esse hoje — incontornavel em sua atualidade, assim intervalar entre o que somos e o que imaginamos no devir?se FOUCAULT E OS DOMINIOS PA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUB3ETIVIDADE 45 Forma^ao discursiva em Pecheux e Foucault: uma estranha paternidade27 Roberto Leiser Raronas * ll accovplera.it /c chat avt-'t: le ckeval et I'art modern avec £ socialism!: et que, si c'etait du donquicfiotttiitMi, il voidaii etre un Don Qtiichotte, pares que le socialism* etait pour lui fere de la hberle ut da pLustr et qud rejetait tout autfe socialisms. Milan Kundera Michel Foucault em Vigiar e Pumr, ao se reportar ao carater heuristico do discurso nietzscheano, afirma que o unico sinal de reconhecimento que se pode ter com um pensamento como o de Friedrich Nietzsche e precisamente utdizd-lo, faze-lo ranger, gritar. Penso que essa pratica possa ser deslocada para trabalhos que se propoem realizar um dialogo entre a Analise do Discurso de orientacao francesa e o arcabou9o teorico de Michel Foucault, por exemplo. Para tan to, e necessario, contudo, que se faca nao so o -* Esse cexto, que ruarca inn l i m i a r da passagem de Foucault para as retlexoos snbre o discurso e (> poder, sera publicado em: FOUCAULT, M. (19G9). Qu'est-ce qu'un auteii!'?. Ill: Bulletin dc la Societe FVancaise de Philosophic, n°3. Trad. port. Lisboa: Vega, 199-2 3(1 Levanta-se. Di/_ adeus Vejo sua silhueta e.sjrma caimnhar contra o sol que se poe ientamente. Estou ainda na mesa do cafe e a cliiivena ]a fna, e.squecida na alvura da toallia U m a5^v i s a o de sonho sua ilcrura recortada contra a tarde, cammhaiido lentanii-nte s,e . . ,. mi.stura aos trati>euntes Foi-se, desl^iln entre milliares de rnstos que cruxam a nevoa do cotidiano Imerso nil bruma da histona, ileixa, indelevel, a inscn^ao de um lugar unde eu poderia te-lo (.-ncontrado e dai registrado em frap;eis palavru.s o que c!e tiio r igorosame»te me dava Enncando um pu 111:0 com as palavras, ta^'ii 14111 trocadilho a partir da expn-'ssao de Michel Pecheux — estranlia i'amihat'idade - quando estu desenvolve com P;iul Henry o conceito dt pre-conMiriiido Sabe-se que ;i palavra uiema unheimhch designs aquiio que e afetadu pelo signo do familiar e do estrangeiro A ulassica tradu^ao da expressao de Freud por "inqmetanCe estrangeindade'', Micliiit Pecheux sempre preferiu, em relacao a sua interpretacao do jire-constrtiido, nquela da "estranha familiaridade". Essa expi'essao tainbetii aparece no textu de abertura do Coloquio Materialites Discur-sives, realizado na Universidade Paris X - Nanterrc em 1980, no qual Michel Pecheux despediu-se, nao sein ierocidade, da teoi-ia do disturso" apresentadii como um "fantasma tuonco unilicador". Ele se dirige a quelys que "trabalham no campo da lingiiistica, d:i liistona, da anah.fe do discurso e da psicaiii'dise'', con ocando o teixe de suas questoes em tnrno do "triplo real d;i lingua, da histona e do mc<inscn_'iue" "A estranha (arniliandade" das materialidades distursi'as nao s e maniiesta no miiinento paradoxal em que os liistoriadores descohrem que o texto do.s arquivos nao k trarisparente aos seus ollios, no qual os hngiiistas se advertcm (JUL- todo o '•'steiha lingufitico guarda um resto assistematico irrepresentavel, em que o.s aniilistas v cni chocar-se sohre a religiao como um efeito de grupo consolidado com um .stiilidn licjiiiogeneo l_'nia crsao ba.stante modificada deste texco ioi apresentada em forma de c oniunica<;ao oral i n d i v i d u a l duraute a realizacao !>12" Seimnario do Grupo de Estudoi kmgtiisticos dc> Sao Paulo - CJEL - em Campma.s/SP no dia .SO de julho de iiOO-lProfessor da I'niversidade do Estado de Mato firosso (UNEMAT).
  24. 24. 46 FOUCAULT E OS DOMIN1OS DA LINGUAGEM; DISCURSO, PODER, SUSJETIVIDflDE cnUCAUlT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM; DISCURSO, PQDER, SUBJETIVIDADE 47 pensamento foucaultiano ranger, gritar, isto e, render o maximo, pelo menos uma paternidade partilhada, procure numa segunda mas a propria teoria do discurso proposta por Michel Pecheux e, hipotese inicialmente explicitar tal eclipse e, posteriormente, tambern, alguns dos conceitos desenvolvidos por Mikail Bakhtin. evidenciar que, desde que reconfigurado*1' a partir do mirante do Neste trabalho, certamente, nao darei conta dessa herculea tarefa; dialogismo bakhtiniano, por exemplo, esse conceito pode ainda ser apontarei apenas algumas indicaooes de uma perspectiva de analise bastante produtivo para a teoria do discurso. Para tanto, entrando discursiva que procura retomar algo tanto do fio do discurso quanto do interdiscurso. defmitivamente na ordem arriscada do discurso cientifico, trago de Ao ler algumas das narrativas da escrita da analise do discurso francesa e possi'vel constatar que urn de sens conceitos mais caros, inicio em forma de citagao uma nota de rodape que faz parte do artigo Qs fundamentos teoncos da 'Anahse Automdtica do Discurso' de Michel Pecheuj;, cujo autor e Paul Henry: o de formacao discursiva, foi abandonado no infcio dos anos oitenta na Franga. As razoes para a sua renuncia, apontadas por tais Existem muitos pontos de contato entre aquilo que Michel Foucault elaborou no que se refere ao discur^o e aquilo que fez Michel Pecheux, pe!o menos no nive! teorico (por exemplo, encontra-se em Foucault uma nocao de "formacao discursiva" que tern alguns pontos em cornum com nquela de Pecheux), e em particular no nfvel prStico (Foucault nunca tentou elnborar um dispositive operacional de anSlise do diKcurso) ... Pecheux partilhava com Foucault um interesse comum pelt! liistoria das ciencias e das ideia.s que pode explicar por que ambus, mais do que qualquer outro autor, ibcalixararn o discurso (HENRY, narrativas, nern sempre muito claras, vao desde a alegacao de que a formacao discursiva possui um carater eminenterriente taxionornico ate a existencia de uma relagao conflituosa entre o marxismo e Michel Foucault. Ha em rela^ao a narrativa do conceito formacao discursiva nos termos de Guilhaumou (2003), "um eclipse nao explicitado". Contudo, embora denegado pelo grupo de Michel Pecheux na Franca e, apesar do e s t a t u t o desse conceito se 1993, p. 38). apresentar muitas vezes de maneira indefinida, ele permanece ainda bastante operative nas pesquisas sobre o discurso, principalmente Parto entao dessa citacao para tentar precisar quais seriam no Brasil, Essas narrativas publicadas em frances e em portugues efetivamente os pontos de contato e de afastamento entre as nocoes asseveram que Michel Pecheux teria emprestado o sintagma — foucaultianas e de Michel Pecheux de formacao discursiva. Devo formafao discursiva — d a A Arqueologia do Saber, de Michel Foucault, para, a luz do materialismo historico, reconfigura-lo, relacionando- dizer que nao sou o primeiro a empreender tal tarefa. Ha todo um o com o conceito althusseriano de ideologia. competencia e mais legitimidade, se debru9aram sobre essa questao, conjunto de estudiosos do discurso que anteriormente, com Neste texto, numa primeira hipotese de trabaIho* B , alem de que lateralmente. Dentre esses pesquisadores, citaria pelo questionar esse posicionamento, asseverando que tal conceito tern dois: Denise Maldidier e Jean-Jacques Courtine, ambos lln "B Como "bom ladrao de palavras", tomo de emprestimo essa expressao de Michel Fuucault (1973), o (jut eu gostar/a. de dizer-lkes nesta-^ conferenaas sao caisas possivelmente inzratas, fatsas, erroneas, qt/e apresmtarei a titulo de hipoteses de tmbalho; hipoteses lie traballw para um trabaUlo Juturo. Pedma, portanto sua indulgencia e, mais do (jtie isto iua maldo.de. giiistas franceses, que participaram ativamente do grupo de *a p " •-• C-ssa articulatao tbi sugerida pela Profa. Maria do Rosano Gregolin durante uma aula "rograma de P6s-Gradua^ao em Linguistica e Lingua Portuguesa da FCL/Unesp — Ara raquara em 2000. 0
  25. 25. 48 FOUCAULT E OS DOMINIOS DA UNGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE E OS DOHJN1OS DA LINGUASEM;: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDAPE Analise do Discurso, fundado por Michel Pecheux. A primeira ex- limite do possfvel, re-pensar tuJo o que o discurso, enquanto conceito ligado a um dispositivo, destgnava para eie (MALDIDIER, l!>90; professora da Universidade de Paris X, morta tragicamente em 2003, p. 1G). 1990 e o segundo, atualmente, e professor na Universidade de Paris III - Sorbonne Nouvelle. Courtine, na re vista Langages n. 62, Alguns probkmas teoricos e Maldidier em L'lnquietude du discours: textes choisis de Michel Pecheuj:™, na apresentacao, intitulada (Re)Ler Michel Pecheux hoje, historiciza o percurso de Michel Pecheux, dividindo-o em tres grandes momentos: primeiro, o das grandes construcoes, no qual Michel Pecheux, com base nos postulados althusserianos, construiu todo um dispositivo teorico-analftico de analise automatica do discurso que procura desconstruir as evidencias de LaPalice; depois, aquele dos tateamentos, em que o filosofo Frances, com a crise do marxismo e com a cegueira e a surdez dos sociolingiiistas marxistas, reve muitos de sens posicionarnentos e se propoe a "quebrar o estranho espelho da Analise do Discurso" e, por ultimo, o da "desconstrucao domesticada", quando Pecheux, aproximando-se de Foucault e de Lacan, tenta precisar os limites entre descri5ao e interpretacao, vendo o discursive na sua estrutura e no seu acontecimento. Como diz Denise Maldidier: •tnetodologicos em Analise do Discurso: a proposito do discurso comunista dirigido aos cristaos*1, no capital o II, intitulado "O conceito de formacao discursiva", empreende uma discussSo teorica que objetiva refletir sobre o uso que e feito do conceito de formafao discursiva nos trabalhos de Michel Pecheux, tanto no nivel te6rico quanto no das praticas de analise, bem como, mostrar as contribuicoes que a no9ao foucaultiana de formacao discursiva poderia trazer no sentido de eliminar o problema da homogeneidade na constituicao dos corpora discursive em Analise do Discurso. Passaremos agora a um exame da nocao de formacao discursiva em A arqiteologia do saber, de Michel Foucault. No escritos foucaultianos, a no9ao de formacao discursiva aparece pela primeira vez em A arqueologia do saber, texto que, posteriormente, nos Ditos e escntos, o proprio Foucault diz que teria sido escrito como introducao de As palavras e as coisas e que depois O projeto de Michel Pecheux nasceu na conjiintuni dos anos de [060, sob o stgno da articulacao entre a lingtifstica, o materialismo historico e a psicanalise. Ele, progressivamente, o amadureceu, explicitou, retificou. Seu percurso encontra em uheio a virada da conjuntura teoriua que se avoluma na Fran<;a a partir de 1975. Crftica da teoria e das coertindas gtohalizante.s, desestal>ili7.acao da.s positividades, de um lado. Retomo do sujeito, derivas na diregao do vivido e do individuo, de outro. Deslizamc'iito da politica'para o espetactilo! Era a grande quebra. Deixavanms o tempo da "luta de classes na teoria" para entrar no do "debate". Nesse novo contexto, Michel Pecheux tentou, ate o fora transformado num livro que tenta teorizar sobre a historia das chamadas ciencias do homem. Contudo, nao numa historia traditional, contmua na qual os seres humanos marcham em busca de um telos, de um devir, mas numa historia descontinua que descreve o momento mesmo de irrupcao dos acontecimentos discursivos, tornando-os inteligiveis em termos de regras que os governam e os regulam. Agrade^o ao Prof. Sirio Possenti que gentilmetite nos ceden a sua tradu<;ao brasileira 'e.sse ni'imero da Langages. Cahe aqui di^ei- tamliem que o proprio Michel Pecheux e i|uem r P efacia essa revista, com o texto O Estmnha Espeltiti.daAnali.ie du Di.icitiyo. Texto ewse iimda "ledity em portugue.s e por nos tradu/.ido provisoriamente. ( *" TraduvSo brasileira Eni P. Orlandi, Maldidier, Denise. A inquietafao do discurso: (Re)lei MSchd Pecheus hoje. Campinas, Pontes, 2003. 49 1
  26. 26. SO FOUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE Na verdade A arqueologia do saber se constitui numa descricao bastante complexa e didatica do metodo arqueologico, uma teoria que procura compreender o funcionamento dos discursos que constituem as ciencias humanas, tomando-os nao mais como conjuntos de signos e elementos signiflcantes que remeteriam a determinadas representac6es e conteudos, tal como pensavam os estruturalistas tributaries de Saussure, mas como um conjunto de praticas discursivas que instauram os objetos sobre os quais enunciam, circunscrevern os conceitos, legitimam os sujeitos enunciadores e fixam as estrategias serias que rareiam os atos discursivos. Com o metodo arqueologico Michel Foucault busca descrever nao so as condicoes de possibilidade dos enunciados que formam as ciencias empiricas, mas as condicoes mesmo de existe'ncia desses enunciados. Para tanto, segundo Foucault, e precise renunciar a todo.s os temas - tradi^ao; influencia; desenvolvimentoeevolugSo; mental idade ouespiritojtipos egeneros; livro e obra; ideia da on gem; ja-dito e nao dito -que tern por funcSo garantir a infinita continuidade do discurso e sua secreta presenca MO jogo de uma ausencia sempre reconduzida. E preciso estar pronto para acoiher cada momento do discurso em sua irrupcao de acontecimentos, nessa pontualidade e dispersao temporal, que Ihe permitc ser repetido, sabido, esquucido, transfbrmado... Nao remeteio a longinqua presenca da origeiri; e preciso trata-to nojogo da sua instancia (FOUCAULT, 19BR, p. 28). Ao colocar ern suspense todas essas "sujeicoes antropologicas", e possivel descrever quais os atos discursivos que conquistaram sua liberdade condicionada, apos terem passado por um interrogators numa especie de "polfcia discursiva", que se reativa a cada um dos discursos efetivamente ditos e que determine aquilo que pode e deve ser dito por um sujeito autorizado, com base num metodo aceito, se inserindo dessa maneira no verdadeiro da epoca. FQUCAULT E OS DOMJNIOS DA LINGUAGEM: PISCUR5O, PODER, SUB3ETIVIDAPE SI Nao se trata, todavia, de qualquer ato discursivo: enunciados do cotidiano, por exemplo, mas de "atos discursivos serios", isto e, enunciados3^ que manifestam uma incessante "vontade de verdade". Esses enunciados serios entao se relacionam com enunciados do mesmo ou de outros tipos e sao condicionados por um conjunto de regularidades internas, constituindo um sistema relativamente autonomo, denominado de forma^ao discursiva. E e nesse sistema que internamente se produz um conjunto de regras as quais definem a identidade e o sentido dos enunciados que o constituem. Em outros termos, e a propria forma9ao discursiva como uma lei de serie, principio de dispersao e de repartigSo dos enunciados que define as regularidades que validam os seus enunciados constituintes; por sua vez, tais regularidades instauram os objetos sobre os quais elas falam, legitimam os sujeitos para falarem sobre esse objeto e definem os conceitos com os quais operarao e as diferentes estrategias que serao utilizadas para definir um "campo de opcoes possiveis para reanimar os temas ja existentes... permitir, com umjogo de conceitos determinados, jogar diferentes partidas" (FOUCAULT, 1986, p. 45). Depois dessa breve apresentacao do conceito de formacao discursiva em Foucault, discuto a emergencia desse conceito em Pecheux. O conceito de forma?ao discursiva aparece pela primeira v ez em Michel Pecheux no seu artigo A semdntica e o carte sanssureano: ttngua, linguagem e discurso33. Ao criticar os lingiiistas pos"ara Foucault o enunciado difcre-se tanto da f'rase, da propoM^ao quanto do ati» de iala, s ele e ;i unidiide elementar do discurso. "Em seu modo de ser smguhir (nern iiiteiramente iJMistico, nem exciusivamente material) o enunciado e indis|iensav«l para que .se pos.sa 1 se ha ou nrlo Ji-ase, proposicao, ato de lineuairem (. )! ele nao e. em si mesmo, uma llni Iatle j f> f^ > niiis Mini uma 11111930 que cruza um domimo de estruturas e. de unidades possiveis L e ' com q«e apare^-am, com conteudos concretes, no tempo e no espafo (p. 98-9). Js . _ e ^to produzido em cnlaboracao com Clamline H a r o i h f e Paul Henry, publicado MA a lnu " te lla R e v 'ista Langages, niimero '24-, 1 9 7 1 Inedito em portugues. I n O1DIER, D. L'InquietudeduDiscoiirs.-textesdeMRliel Pecheux. Editions dnCenclres, '95)0, in i'33-53 T- radu^ao provisona nos.sa. q « fiu I , -
  27. 27. 52 FOUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE saussureanos - estruturalistas e gerativistas - por terem de alguma maneira trazido o modelo fonologico saussureano para o dominio do sentido, produzindo u m a especie de filosofonema que caracterizaria toda a lingtiistica, Pecheux rnostra que, ao se pensar FOUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUflGEM: DISCURSO, PODER, SUB3ETIVIDADE metalexis: iesprobtem.es des determinants^, escrito a quatro maos com C. Fuchs. Na verdade, o esboco de tal conceito aparece em forma de nota de fim no texto de A. Culioli, Notes sur la formahsation en lingtiistique. as sistematicidades da lingua como um continuum de niveis, se esta na verdade, recobrindo o corte saussureano entre langiie/parole. "O elo que liga as significances de um texto as suas condicoes s6ciohistoricas, nao e secundario, mas constitutive das pr6prias significasoes" {Pecheux, 1971, p. 147). Pecheux propoe entao uma Le fonctionnement du langage a ses multiples niveaux interdit la dichotomic simplifkatricc' entre la langue (concue comme systenie necessaire) et la parole (notion baprisant, sans 1'expliquer, la distance entre cette nei:e,ssite du systeme et la fameuse'liberte dulocuteur') : en fait il importe de reconnaitre que ces niveaux de fonctionnement du langagc sont eux-rnemes soumis a des regies, mais que I'apprehension de ces regies echape (partiellement) an linguists, dans la rnesure ou de.s determinations non linguistiques d»ir exemple de.s effets institutionneis lies aux proprietes d'une formation sociale) entrent necessairement en jeu. II ne s'agit nullemimt de remettre en cause 1'idee selon laquelle 'la langue n'est pas une superstructure' (an sens marxiste de ce mot} mais d'avancer que les formations discursives sont, elles, fondamentalernent iiees aux superstructures, a !a fois comme effets et comme causes. Une theorie de Teffet de discours' ne peut ignorer ce point, quelle que soit par ailleurs la maniere dont elle fbrmule son objet (sous !a tonne d'une 'pragniatiqiie' d'une 'rhetorique' on d'une 'strategic de la argumentation'} (PECHEUX & FUCHS, 1!H>8, p. 32, grifos meus). mtervenfdo epistemologica nas semanticas lingiiisticas. E precise "mudar de terreno" e encarar uma nova problematica o discurso. Esse conceito devera ser pensado a luz do materialismo historico. E a partir dele que se pode fazer a localizacao de novos objetos, colocando-os ern relacao corn a ideologia. Nous avancerons, en nous appuyant sur uin grand nombre de remarques contenues dans- ce qu'oi appelle "les classiques du marxisme" que les formations ideologiques ainsi definiee.s comportent necessairement, comme tine de leurs composants, une on plusiers formations discursives interreliees, qui determiner! t ce qui pent et doit etre dit (articule sous la tonne d'uri harangue, d'um sermon, d'um pamphlet, d'um expose, d'un programme, etc.) a partir d'un position donneedans conjocture donnee: le point essentiel ici est qu'il ne s'agit pas seulement de la nature de.s mots employes, rnais aussi (et surtout) des constructions dans lequelles ce.s mots se combinent, dans la rnesure ou el les determinent la signification que prennent ces mots: comme nous 1'indiquions en commencant, les mots changent de sens selon les positions tenues par ceux qui les emploint; on peut preciser maintenant: les mots "changent de sens" en passant d'ime formation discursive & une outre (PECHEUX, ]j)7l, p. 148). Entretanto, ao verificar o inventario intelectual de Michel Pe'cheux e possivel constatar que o germen desse conceito aparece alguns anos antes de 1971, num outro texto de Pecheux, Lexis et 53 Chamo atencao para o fato de que o conceito/0rm.afao discursiva, embora nao esteja desenvolvido, esta enunciado desde 1968, data da publicacao do artigo de Culioli, Pecheux e Fuchs. O que me possibilita asseverar que, pelo menos no sen processo de gestacao, e sse conceito nao veio da A Arqueologia do Saber de Michel Foucault, c HJa primeira publicacao data de 1969. Embora as discussoes sobre ^ Arqueologia do Saber estivessem latentes entre a intelligentsia francesa, mesmo antes de sua publicacao, penso que esse conceito te nha derivado do paradigma marxista fortuafao social, formafdo ~ "ULIOU. A. (org.). Cahiers pour 1'analyse, Editions du Seuil, n. 9, juiliet
  28. 28. 54 FOUCAULT E 05 DOMINIOS DA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJETIVIDADE ideologica e, a partir dai, formacao discursiva. Somente em 1977iM e que Pecheux reordena o conceito foucaultiano de formacao discursiva a anilise das contradicoes de classe. Acredito que Pecheux propoe mais urna considera9ao formal dos processes discursivos tanto no interior dos discursos quanto entre um discurso e outro, e menos uma consideracSo substantiva de ideologias particulares e formacoes discursivas dentro de uma forma concreta, estabelecida. De acordo com essa defmicao, uma formafao discursiva parece-me melhor compreendida como um jogo de principios reguladores que formam a base de discursos efetivos, mas que permanecem separados deles. Essa formulacao sugere entao que palavras, expressoes e proposicoes adquirem seus significados a partir de determinadas formacoes discursivas nas quais sao produzidas (os elementos lingiiisticos selecionados, como eles sao combinados) e, assim o sentido se torna um efeito sobre um sujeito ativo, e nSo uma propriedade estavel. Novamente, uma expressao ou proposi?ao nao possui sentido "proprio" perpetuamente imovel e inerente a ela. Pecheux enfatiza o ponto resultante que produziu a emergencia dessa "matriz de sentido", individuos sao entao interpelados "como sujeitos falantes (como sujeitos de seu discurso) pelas formacfies discursivas nas quais representam dentro da 36 Em um texto ainda medito aqui no Brasil, Retnimtons de Fvucault a. Spmaza (1977), Michel Pecheux exphcita a retotnada e reelabora^ao que fnz do conceito de formacao discursiva de Michel Foucault: "isso nos conduz a pensar que toda formacao ideologica deve necessariamente ser analisada de um ponto de vista 'regional', e pode ser que isso expllque que toda ideologia seja dividtda (nao identica a si mesma). b porque as fbrmacoes ideologicas tern um carater regional que elas se referem as inesmas 'coisas' de modo diferente (Liberdade, Dens, a Justica etc), e e porque as forma9f>es ideologicas tern um carater de classe que elas se referem simultaneamente as mesmas 'coisas' (por exemplo, a Liberdade) sob modalidades contraditdrias ligadas aos antagonismos de classes. Nessas condi9oes, parece que e na modalidade pela qual se designa (pela fala ou pela escrita) essas 'coisas1 cada vez 'identicas' e divididas que se especifica aquilo que se node, sem inconveniente.s, chamar de 'formacao discursiva', com a condieao de se entender bem que a perspectiva regional das fbrma.s de 'reparticiio' e dos 'sistema.s de dispersao 1 de Foucault se encontram assun reordenados a analise das contradi^Ses de classe". (Tradu^ao provisona Maria do Rosano Gregolm). FOUCAULT E OS DOMINIOS PA LINGUAGEM: DISCURSO, POPER, SUBJETIVIDADE 55 linguagem as formacoes ideologicas que os correspondent" (P&CHEUX, 1975, p. I l l - 12). Tal concepcao obriga Michel Pecheux a declarar que o sujeito e "suscetfvel de esquecer", ou seja, esse sujeito interpreta mal ou absorve a "causa" ou determinaca'o de seu discurso, pensando ao contrario ser seu criador, fonte e origem do sentido. O entrelagamento de elementos de uma a outra fbrmaca'o discursiva oposta e especificado como o efeito das imposi9oes das lutas hegemonicas atravessando o campo social. E possivel entao asseverar que essa nocao tern uma paternidade partilhada: inicialmente a de Pe'cheux em 1968 e depois a de Foucault em 1969. No caso deste ultimo pensador, esse conceito, prolongando seu projeto inicial da episteme em As Palavras e as Coisas, oscila constantemente entre uma interpretacao em termos de regras e outra em termos de dispersao. Foucault parece obedecer a duas injuncoes contraditorias: trabalhar sobre sistemas e, no mesmo processo, desfazer toda unidade ou trabalhar sobre as regularidades da dispersao. Para Foucault a forma9ao discursiva e vista como um conjunto de enunciados que nao se reduzem a objetos lingtiisticos, tal como as proposicoes, atos de fala ou frases, mas submetidos a uma mesma regularidade e dispersao na forma de uma ideologia, cigncia, teoria etc. Dito de outro modo, para o fi!6sofo frances o que garante a unidade de um discurso clinico, por exemplo, nao e a sua linearidade formal — sintatica ou semlintica -, mas algo comparavel a uma diversidade de mstancias enunciativas simultaneas (protocolos de experiencias, r egulamentos administrativos, politicas de saude publica etc). Michel Foucault chama de ecart enunciativo a regra de formas&o (as 'Tiodalidades enunciativas) dos enunciados na sua heterogeneidade, n a sua impossibilidade de se integrar a uma unica cadeia sintatica. Ja em Pecheux o conceito, gestado no ventre do marxismo/ a lthusserianismo, aparece como "aquilo que pode e deve ser dito
  29. 29. 56 FOUCAULT E OS DOMINIOS OA LINGUAGEM: DISCURSO, PODER, SUBJET1VIDADE {articulado sob a forma de um arenga de um sermao, de um panfleto, de uma exposicao, de um programa etc) a partir de uma posicao dada na conjuntura social" {Pecheux, 1975, p. 188). £ possivel interpretar esse conceito, por meio dos exemplos dos generos textuais entre parenteses, a partir de uma dupla leitura: em termos de genero ou em termos de posicao. Parece-me que Pecheux, ao sublinhar aquilo que pode e deve ser dito e se situar no espaco da luta de classes, trazendo como exemplos de generos os que privilegiam uma luta ideologica explicita, opta pela segunda interpretacao. A questao dos generos mesmo indiciada, nao e discutida. Embora f u n d a m e n t a l para fugir de uma interpelacao ideologica homogenea do sujeito e, tambem, de uma OUCAULT E OS DOMINIOS DA LINGUAGEM; DISCURSO, PODER, SUB3ETIVIPADE 57 techniques de conservation .sophistiquees est rnoins un concept ouvrant .sur Line metbodolo^ie precise d'analyse de discours qu'une invitation fructueuse a se deprendre des categories de Phistoire des idees et a remettre en cause notamment les notions d'objft et de sujet du discours. La notion dt j formation discursive elaboree par M. Pecheux (dans le cadre d'un projet d'analyse du discours appuye sur la hngnisticjue) pose des problemes mat sunnontables, notamment lorsque 3'analyste ne travailie plus sur des ecrits doctrinaux ou administrates bien stabilises, ce qui entratne I'impossibilite de circonscrire quelque chose qu'on puisse appeler formation discursive. Dans cette deuxieme configuration, il reste de 1'idee premiere- la presence forte de I'interdiscours, la prise en compte du fait que le discours est en reaction, en reactivity aux discours qui le boi'dent, le travail consistant a traquer la pi'esence de Palterite au ccx*ur des enonces (BRANCA, 2003, p. 7). gramaticalizagao do discurso, nos termos de Courtine (1999), essa articulacao entre posicSo de um lado e genero de outro nao e feita A afirmacao de Branca sugere a necessidade de se repensar o nem por Foucault nem por Pecheux. E n q u a n t o este ultimo conceito de formacao discursiva, levando-se em consideracao, de exemplifica essa nocao a partir de discursos ideologicamente uma parte, a propria nocao de formacao discursiva em forma de marcados, privilegiando notadamente a luta polftica, Foucault a posicionamento subjetivo-ideologico e, de outra parte, o conceito de genero do discurso de Bakhtin (1985). Essa articulacao proposta exemplifica com discursos da historia das ciencias, verificando as condigoes que p o s s i b i l i t a m a i r r u p g a o e a legitimacao de determinados discursos no verdadeiro de uma epoca. Como entao por Branca permite que a constituicao-bordeamento exterior da pensar por um lado a irrupcao de discursividades distintas daquelas determinacao ideologica, mas tambem em termos de conteudo as quais Foucault pensara, por exemplo as do cotidiano e, por outro, tematico, estilo verbal e estrutura composicional. Dito de outro rnodo, a irrupcao dessas ultimas discursividades em uma sociedade na qual a existencia de classes se relativiza ao extreme. alem do posicionamento ideologico, os elementos que constituem o Em um artigo ainda inedito aqui no Brasil, Sonia Branca™ assevera o seguinte: sujeito. Ademais, tal articulacao possibilitaria a compreensao de discursividades que sao menos marcadas institucionalmente, por La notion de formation discursive elaboree par M. Foucault pour aborder un ensemble de textes fixes par Pecriture et qui font 1'ob jet de Texto apresentado em forma de comunica^ao oral no evento intitulado Moti, Diamun, Id deologic: dc /-'analyse dv ducoun, a celle de I'tdealogie les formation* ducitr.'iive.'i, Montpelher, 26'27 de abril de 20O2. formacao discursiva nao seja reescrita somente em termos de uma genero possibilitam uma especie de trajeto de interpretacao para o exemplo, os discursos do cotidiano. Jean-Michel Adam, ern seu livro Linguistique textuelle: des genres de discours aux textes (1999), talvez tenha sido o primeiro autor francofono a se preocupar com uma possivel articulacao entre genero, interdiscurso e formacao disrursiva. Les discours se forment

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