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Ensaio

  1. 1. A SEXUALIDADE NA FILOSOFIA ALCOVA E O FILME O LIBERTINO Maria Edinolia de Souza Oliveira Orientador Msc.: Ramon José Ayres Souza Universidade Tiradentes - UNITIntrodução A sexualidade é um fenômeno anterior ao aparecimento do homem, porém, vemsendo estudada objetivamente há apenas algumas centenas de anos. Longe de sersomente um ato físico, de natureza imutável, adquiriu significado simbólico bastantecomplexo e hoje funciona como uma estrutura social e cultural em si mesma, situadadentro de um sistema de poder. Este ensaio propõe uma revisão dos principais aspectosligados à sexualidade, numa ótica que privilegia a visão histórico-social do tema. A sexualidade pode ser abordada por diversos aspectos, dada sua complexidadee importância em todas as dimensões da vida humana. No presente ensaio, pretende-seconstruir uma visão histórico-social do tema, tendo como foco principal o filme “OLibertino”, a Filosofia de Alcova e alguns capítulos de apostilas que se refere asexualidade na Idade Média. Para tanto, a sexualidade será sempre vista em termos deprocesso, em contínua transformação. O objetivo é observar como e porque mudaram,ao longo dos últimos séculos, os códigos e valores ligados ao sexo, bem como indicarque certas mudanças no comportamento sexual coincidem com transformaçõeseconômico-sociais e políticas, não por acaso.1. História da sexualidade segundo Freud e Foucault Durante o período helenístico (século que procediam ao cristianismo) ainda nãose tem as ideias de sexualidade e sexo, mas de um “aphrodisia”, uma arte erótica (muitocitada no filme “O libertino”). Nesta, a sexualidade não é vista como um mal oudecadência, mas como algo natural e indispensável. A partir da Idade Média, o sacramento da confissão intensificou-se, em que acarne passa a ser a origem dos pecados e desejo, um mal que atinge a todos os homens. Para Foucault, a sexualidade burguesa é marcada pela repressão intensa. Elaconstitui a própria individualidade. A partir do século XIX, a sexualidade vai fixando-sena forma de família, lugar obrigatório do afeto e dos sentimentos do amor. No final do século XIX, instala-se a psicanálise que amplia o conceito desexualidade. Esta para Freud é a “ciência da confissão”, com seu procedimento parafalar do sexo. A psicanálise emerge para tratar das “doenças nervosas”, para ajudar asfamílias burguesas que sofrem os efeitos da forte repressão da sexualidade. Para a psicanálise é constitutiva da subjetividade humana. Caracteriza-se por nãolimitasse a sexualidade e ao prazer, ao corpo biológico, mas também, pelas experiênciaspsíquicas inconscientes, uma psicossexualidade. A hipótese central da psicanálise é a
  2. 2. repressão, ou seja, o inconsciente estrutura na repressão da sexualidade. Para essaciência é um vínculo entre a sexualidade e a produção de neuroses e outras doençaspsíquicas na vida adulta.2. Conceito Para Michel Foucault (2005), compreender a sexualidade, em sua complexidade,prevê enxergá-la também como um produto das densas relações de poder: entre homense mulheres, pais e filhos, educadores e alunos, padres e leigos e assim por diante. Nasrelações de poder, a sexualidade é, segundo o autor, um elemento dotado deinstrumentalidade. Pode ser usado em inúmeras manobras, nas relações sociais, bemcomo pode tornar-se útil na articulação das mais variadas estratégias. Para o autor(2005): A sexualidade é o nome que se pode dar a um dispositivo histórico: não à realidade subterrânea que se apreende com dificuldade, mas à grande rede da superfície em que a estimulação dos corpos, a intensificação dos prazeres, a incitação ao discurso, à formação dos conhecimentos, o reforço dos controles e das resistências, encadeiam-se uns aos outros, segundo algumas grandes estratégias de saber e de poder.3. Uma comparação entre o livro a Filosofia na alcova e o filme Libertino A obra “Filosofia na Alcova”, afirma que o século XVIII foi particularmente àépoca onde surgiram as mais diferentes formas de literatura romanesca. Havia umamultiplicidade de gêneros romanescos como o romance histórico e galante, opsicológico, o epistolar, o realista, o sentimental, em diálogos, o filosófico, o libertino,de costumes, ou seja, os gêneros não apenas são muitos como também parte dessesromances apresenta uma estrutura híbrida, com mais de um ou vários gêneroscondensados. A crueldade sadeana é apenas uma estratégia de negação do mundo, uma formade demonstrar seus equívocos e quão distante ele se encontra do ideal de felicidadehumana. Nos romances sadianos, é sabido, a palavra desencadeia as ações perversas. Apalavra dos libertinos é a lei. “A natureza fala de nós mesmos”. No entanto, só olibertino pode se reconhecer nesse “nós”, só ele pertence à casta privilegiada dos queentendem a “linguagem da volúpia”. É esse ato de reconhecimento que divide o mundosadiano em duas categorias, os libertinos e as vítimas. Os primeiros são dotados de uma“organização especial” pela natureza e favorecidos por sua condição na sociedade quercomo ricos e/ou poderosos: Dolmancé, segundo Saint-Ange, dirigia “o gládio das leis”,assim como o pai libertino de Eugénie é “um dos mais ricos arrecadadores da capital”.Geralmente os libertinos são os senhores dos castelos ou os bispos das Igrejas ondeconfinam suas vítimas. Os segundos, as vítimas, são seres virtuosos e sensíveis. Estesnaturalmente jama66is poderão ouvir a natureza, por estarem imersos em ilusões epreconceitos impostos pela moral e pela religião. Não podem praticar libertinagem
  3. 3. violenta porque sua relação com o outro é mediada por sentimentos como a piedade e oamor ao próximo. Já o livro “A Filosofia na Alcova”, mostra que as violências que acompanhavamsuas práticas sexuais, suas carícias “inúteis”, o sexo fora das relações matrimoniais, daprocriação, sexo pelo simples prazer, status da sodomia em relação às outras práticas,rompimento das leis do casamento, o incesto, coprofagia, o sexo grupal, práticas sexuaishomoeróticas, procura de formas “estranhas” de sentir prazer etc., fazia dele um tipo deabominação particular. Segundo Sade, a sodomia permitia o maior grau de prazer, degozo para o homem. Seria o melhor lugar para gozar; o altar do prazer. Ainda segundo o autor, defensor do naturalismo, acreditando que o instintosexual não teria um propósito e, por isso, não haveria uma maneira de frustrar opropósito do sexo, pois o sexo não teria propósito. Assim, o instinto sexual não existiapara levar os animais apenas à reprodução. Seu ateísmo intelectual defendia que o únicoDeus existente era a natureza, para a qual o bem e o mal não são aspectos antagônicos,mas sim essenciais para a manutenção do equilíbrio, legitimando, a partir dessaconcepção, a perversão sexual como apenas o outro lado de vivenciar o prazer sexual, enão como sendo uma patologia, uma prática realizada por um “louco/pervertido” sexual.Já no filme “O libertino”, conta a história de um homem entregue as farras (mulheres,bebidas e homens). Que vai do seu ápice á decadência por isso… ele faz a mesmacomparação da mulher com uma ratazana que faz com todos.4. Conclusão No mundo atual, somos continuamente assediados por um “ambiente sexual”que se manifesta nos mecanismos de sustentação da sociedade. O ato físico, praticadopara aliviar tensões corpóreas ou para reprodução, ao longo dos anos transformou-senuma área básica para a moralidade e até mesmo para a forma de organização dassociedades. No mundo contemporâneo, era imprescindível confrontar ignorância comconhecimento e informação. Novas formas de educação sexual passam a seremconsideradas e postas em prática, antigos conceitos, como o onanismo, são reinterpretados.A própria noção de doença sofreu um importante impacto. Ela não estava mais situada noscorpos ou nas pessoas, mas era fruto das superstições e repressões. Nos debates, novos assuntos ganham espaço: o sexo fora do casamento (previsto nas“relações abertas”, o adultério consentido), o controle voluntário da reprodução e até aprocriação (que passa a ser socialmente aceita como uma opção, a ser discutida pelo casal,podendo não prevalecer sobre a decisão de não ter filhos). No entanto, embora tenha havido um repensar dos valores sexuais, o que osestudiosos do assunto têm deixado claro é que o processo de racionalização que marcouprofundamente a forma de entender e orientar a vida sexual continua praticamenteinalterado. A norma reprodutiva continua sendo referência principal e a maioria doscontemporâneos ainda vistos sua sexualidade de forma fragmentada e imperfeita, levandoem conta os conceitos de gênero arraigados à cultura popular, a ideia de renúncia à carne –difundida pela religião – e as normas científicas, que determinam o que é permitido e o queé proibido, definindo alguns desejos como perigosos.
  4. 4. 5. ReferênciasBRANDÃO, E. P. Nem Édipo, nem barbárie: uma contribuição genealógica aodebate psicanalítico sobre aliança e sexualidade na contemporaneidade. Rio deJaneiro: UFRJ, 2008.DUNMORE, L. Filme O Libertino, Inglaterra, 2004.FOUCAULT, M. História da sexualidade: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal,2005.FREUD, S. Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna. In: _____. Obrascompletas. Rio de Janeiro: Imago, 1986.SADE, Marquês de. A Filosofia na Alcova, ou Os Preceptores Imorais. 3 ed. SãoPaulo: Iluminuras, 2003.

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