Adopt dtv estudo-etnografico_out2011

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Adopt dtv estudo-etnografico_out2011

  1. 1. 

 
 
 
 
 “ADOPT_DTV:
Barreiras
à
adopção
da
televisão
digital
no
contexto
da
 transição
da
televisão
analógica
para
o
digital
em
Portugal”

 (
PTDC/CCI‐COM/102576/2008)
 
 Relatório
do
Estudo
Etnográfico
 
Setembro
de
2011



 1

  2. 2. 







Este
relatório
constitui
uma
das
componentes
de
investigação
do
projecto
“ADOPT‐DTV:
Barreiras
à
adopção
da
televisão
digital
no
contexto
da
transição
da
televisão
analógica
para
o
digital”
(PTDC/CCI‐COM/102576/2008),
da
responsabilidade
do
Centro
de
Investigação
em
Comunicação,
Artes
e
Novas
Tecnologias
(CICANT)
da

Universidade
Lusófona
de
Humanidades
e
Tecnologias,
com
o
financiamento
da
Fundação
para
a
Ciência
e
Tecnologia,
em
parceria
com
o
Obercom
e
Anacom.



EQUIPA
DE
INVESTIGAÇÃO
Universidade
Lusófona
de
Humanidades
e
Tecnologias
‐
Manuel
José
Damásio
(investigador
responsável)
‐
Célia
Quico
(coordenação‐geral)
‐
Iolanda
Veríssimo
‐
Sara
Henriques
‐
Rui
Henriques
‐
Inês
Martins
‐
Ágata
Sequeira


PARCEIROS
‐
Obercom
–
Observatório
da
Comunicação
‐
Anacom
–
Autoridade
Nacional
das
Comunicações


FICHA
TÉCNICA
Título:
 
 
 “ADOPT‐DTV:
Estudo
Etnográfico”
Autoria:

 
 Iolanda
Veríssimo,
com
Sara
Henriques
e
Célia
Quico
(coordenação
e
revisão)
Data
de
Publicação:

 Setembro
de
2011

 2
 


  3. 3. 
Índice

1.
 Introdução...................................................................................................................... 4
 Trabalho
de
campo
e
amostra .................................................................................................. 8
2.
 Principais
resultados
do
estudo
etnográfico ................................................................. 14
 Conhecimento
sobre
a
TV
Digital ........................................................................................... 16
 Vantagens
e
desvantagens
da
TV
Digital ................................................................................ 20
 Motivos
para
ter
ou
não
ter
TV
digital.................................................................................... 23
 Conhecimento
do
“switch‐off” ............................................................................................... 26
 A
TV
nos
próximos
5
e
10
anos ............................................................................................... 31
3.
Bibliografia ...................................................................................................................... 38


 3
 


  4. 4. 
 1. Introdução

 O
 estudo
 etnográfico
 nas
 três
 zonas‐piloto
 de
 transição
 para
 a
 Televisão
 Digital
Terrestre
(TDT)
em
Portugal,
inserido
no
projecto
de
investigação
“ADOPT
–
DTV:
Barreiras
à
adopção
 da
 televisão
 digital
 no
 contexto
 da
 transição
 da
 televisão
 analógica
 para
 o
 digital
(PTDC/CCI‐COM/102576/2008)”,
 teve
 por
 principal
 objectivo
 compreender
 em
 contexto
natural
 quais
 são
 as
 suas
 atitudes,
 grau
 de
 conhecimento,
 usos
 ou
 expectativa
 de
 uso
 em
relação
 à
 TV
 digital.
 Ainda,
 houve
 a
 intenção
 de
 compreender
 como
 estas
 famílias
 adoptam
novas
 tecnologias
 de
 informação
 e
 comunicação
 ou
 novos
 equipamentos
 de
 entretenimento
doméstico
e
pessoal
e
quais
são
os
seus
estilos
de
aprendizagem.
 A
realização
de
entrevistas
semi‐estruturadas
e
a
observação
presencial
da
rotina
das
famílias
teve
também
o
objectivo
de
avaliar
as
atitudes
e
preferências
em
relação
à
televisão,
abordando‐se,
por
exemplo,
os
géneros
televisivos
favoritos
dos
indivíduos,
a
frequência
com
que
 estão
 em
 frente
 ao
 ecrã
 e
 a
 forma
 como
 interagem
 com
 este
 através,
 por
 exemplo,
 de
serviços
 como
 o
 teletexto.
 Finalmente,
 aos
 participantes
 foi
 pedido
 que
 projectassem
 no
futuro
as
suas
preferências
relativamente
à
televisão:
o
que
gostariam
de
ver
ou
obter
através
da
televisão
e
como
seria
sua
televisão
ideal
no
futuro
próximo.
 
 A
 Etnografia
 (do
 Grego
 ‘ethnos’
 =
 nação
 e
 ‘graphein’
 =
 escrita)
 é
 uma
 abordagem
teórica
e
prática
herdada
da
Antropologia
que
procura
obter
uma
descrição
holística
detalhada
e
proceder
à
análise
de
culturas
através
de
trabalho
de
campo
intensivo
(Barker,
2000‐2003).
Para
Clifford
Geertz
(1973)
o
que
define
a
Etnografia
é
ser
uma
demanda
arriscada
e
complexa
para
obter
uma
descrição
densa
ou
‘thick
description’,
tomando
de
empréstimo
uma
noção
do
filósofo
Gilbert
Ryle.
 No
campo
dos
Estudos
Culturais,
a
Etnografia
está
centrada
na

exploração
qualitativa
dos
valores
e
significados
no
contexto
de
um
modo
de
vida
total
(Barker,
2003).
Ganhar
acesso
aos
domínios
naturalizados,
na
expressão
de
David
Morley
(1992:
186),
e
às
suas
actividades
características
 é
 o
 objectivo
 principal
 da
 Etnografia
 e
 de
 outras
 estratégias
 de
 investigação
qualitativas
 usadas
 nos
 Estudos
 dos
 Media.
 Morley
 defende
 que
 uma
 acção
 como
 a
 de
 ver
televisão
 deve
 ser
 compreendida
 na
 dinâmica
 e
 na
 estrutura
 do
 contexto
 doméstico
 de
consumo
 do
 qual
 é
 parte
 (1992).
 As
 limitações
 dos
 inquéritos
 quantitativos
 baseados
 em
dados
estatísticos
estão
bem
estabelecidas,
afirma
Morley,
para
quem
as
técnicas
estatísticas
são
desagregadoras,
já
que
inevitavelmente
isolam
unidades
de
acção
dos
contextos
que
lhes
dão
significado.
De
notar
que,
com
frequência
a
Etnografia
tem
vindo
a
ser
invocada
de
forma
 4
 


  5. 5. polémica
 contra
 a
 tradição
 da
 investigação
 quantitativa
 em
 comunicação,
 já
 que
 trata
 da
compreensão
qualitativa
da
actividade
cultural
em
contexto
(Barker,
2003:
26).
O
argumento
apresentado
por
Morley
(1992)
é
que,
em
primeiro
lugar,
o
requisito
essencial
é
o
de
fornecer
uma
 descrição
 densa
 adequada
 à
 complexidade
 da
 actividade
 de
 ver
 televisão,
 seguindo
Geertz,
e
que
as
perspectivas
antropológicas
e
etnográficas
são
utilidade
para
se
atingir
este
objectivo.
 Este
 sociólogo
 integrou
 o
 Centre
 for
 Contemporary
 Cultural
 Studies
 (CCCS)
 da
University
 of
 Birmingham,
 onde
 de
 1975
 a
 1979
 liderou
 o
 importante
 estudo
 Nationwide
Audience,
 baseado
 no
 noticiário
 de
 assuntos
 correntes
 transmitido
 todos
 os
 dias
 úteis
 pela
BBC1
das
18
às
19
horas.
Na
sequência
deste
estudo,
Morley
viria
a
adoptar
a
Etnografia
como
metodologia
 no
 projecto
 de
 investigação
 Family
 Television
 (1985‐86),
 no
 qual
 se
 procedeu
 a
entrevistas
de
famílias
nas
suas
próprias
casas,
de
forma
a
se
averiguar
como
percepcionam
o
papel
da
televisão
no
conjunto
das
actividades
de
tempos
livres.
 Antes
de
Morley,
já
o
antropólogo
cultural
norte‐americano
James
Lull
havia
recorrido
à
 Etnografia
 como
 método,
 ao
 realizar
 um
 estudo
 com
 a
 duração
 de
 3
 anos
 no
 qual
 os
investigadores
 viveram
 com
 200
 famílias
 dos
 estados
 da
 Califórnia
 e
 Wisconsin,
 integrados
durante
2
a
7
dias
no
seu
dia‐a‐dia.
Neste
estudo,
que
decorreu
na
década
de
70,
optou‐se
por
considerar
 os
 usos
 sociais
 da
 televisão,
 com
 recurso
 à
 Antropologia
 e
 à
 Etnometodologia
(observação
 dos
 comportamentos
 rotineiros).
 Deste
 trabalho
 de
 investigação,
 Lull
 concluiu
que
 os
 usos
 sociais
 da
 televisão
 são
 primordialmente
 de
 dois
 tipos:
 estruturais
 e
 relacionais
(Gauntlett
&
Hill,
1999).

 No
entanto,
a
aplicação
de
métodos
de
investigação
de
matriz
etnográfica
no
campo
dos
 Estudos
 de
 Audiências
 coloca
 novas
 questões
 e
 desafios.
 Ien
 Ang,
 autora
 de
 livros
fundamentais
neste
campo
como
Watching
Dallas
(1986)
e
Desperately
Seeking
the
Audience
(1991),
pergunta
que
tipo
de
conhecimento
pode
ser
produzido
pela
investigação
empírica
das
audiências,
melhor
dizendo,
qual
é
a
política
da
etnografia
das
audiências
(cit.
Morley,
1992).
De
 um
 momento
 para
 outro,
 todos
 eram
 etnógrafos,
 refere
 ainda
 Morley
 (1992:
 186),
 que
pergunta
se
o
etnógrafo
não
se
tornou
uma
‘fashion
victim’,
seguindo
de
perto
a
observação
de
Lull,
que
considerava
já
no
final
da
década
de
80
que
a
palavra
Etnografia
se
tornou
numa
‘buzz‐word’
utilizada
abusivamente
nos
Estudos
de
Audiências.
 A
 utilização
 abusiva
 do
 termo
 Etnografia
 também
 foi
 notada
 por
 David
 Gauntlett
 e
Annette
 Hill,
 autores
 de
 outra
 obra
 de
 referência
 nos
 estudos
 de
 audiências
 TV
 Living:
Television,
Culture
and
Everyday
Life
(1999),
com
base
num
estudo
longitudinal
com
a
duração
de
 cinco
 anos
 promovido
 pelo
 British
 Film
 Institute,
 com
 recurso
 a
 diários
 de
 utilização
 de
media
 por
 parte
 de
 500
 de
 participantes,
 tendo
 por
 objectivos
 explorar
 questões
 de
 género,
 5
 


  6. 6. identidade,
impacto
das
novas
tecnologias
e
o
impacto
das
próprias
ideias
e
experiências
dos
espectadores.
 Gauntlett
 e
 Hill
 consideram
 que,
 apesar
 de
 tudo,
 o
 termo
 Etnografia
 não
 será
inapropriado
 (1999:
 8),
 já
 que
 reflecte
 um
 compromisso
 com
 o
 quotidiano
 e
 com
 a
investigação
 qualitativa,
 porém
 o
 seu
 significado
 no
 campo
 dos
 estudos
 de
 audiências
 é
diferente
 do
 atribuído
 tradicionalmente
 na
 Sociologia
 ou
 Antropologia,
 cujos
 investigadores
observam
 durante
 meses
 ou
 mesmo
 anos
 os
 seus
 sujeitos
 de
 investigação.
 Ainda
 assim,
 o
contributo
 da
 Etnografia
 para
 o
 desenvolvimento
 dos
 estudos
 de
 audiências
 tem
 vindo
 a
 ser
extremamente
 importante
 ao
 introduzir
 os
 contextos
 quotidianos
 nos
 quais
 os
 media
 são
usados
 e
 ao
 permitir
 que
 os
 consumidores
 exprimam
 ou
 demonstrem
 nos
 seus
 próprios
termos
 o
 que
 fazem
 com
 os
 media
 (Gauntlett
 &
 Hill,
 1999:
 8),
 sendo
 bem
 evidente
 nos
seguintes
estudos
de
autoria
de
David
Morley
(1985‐86)
Family
Television,
de
Patricia
Palmer
(1986)
 The
 Lively
 Audience
 e
 de
 David
 Morley
 &
 Roger
 Silverstone
 (1990)
 –
 Household
 Uses
ofInformation
and
Communication
Technology
project.
 


Metodologia
e
procedimento
 Em
 relação
 à
 metodologia
 seguida
 para
 o
 presente
 estudo
 etnográfico,
 optou‐se
 por
recorrer
ao
tipo
de
etnografia
‘quick
&
dirty’
por
esta
possibilitar
de
forma
rápida
e
eficaz
uma
compreensão
rica
e
detalhada
de
diferentes
contextos
domésticos
de
uso
dos
media
e
TIC
por
parte
de
famílias
portuguesas.
Os
estudos
etnográficos
‘quick
&
dirty’
são
distintos
dos
estudos
etnográficos
 convencionais
 por
 terem
 uma
 duração
 temporal
 mais
 limitada
 e
 por
 não
 serem
exaustivos
 em
 relação
 aos
 contextos
 que
 se
 propõem
 investigar,
 ou
 seja,
 são
 breves
 e
fornecem
 uma
 ideia
 geral
 mas
 informada
 dos
 contextos
 (Hughes,
 King,
 Rodden
 &
 Andersen,
1994:
432).

 
 A
 etnografia
 ‘quick
 &
 dirty’
 tem
 vindo
 a
 ser
 utilizada
 na
 área
 do
 design
 de
 sistemas
para
informar
designers
e
programadores
sobre
os
modos
como
os
utilizadores‐finais
actuam
em
contextos
concretos,
sobretudo
em
locais
de
trabalho.
Dos
diferentes
usos
e
aplicações
da
etnografia
 no
 design,
 John
 Hughes
 e
 sua
 equipa
 do
 Computer
 Supported
 Cooperative
 Work
(CSCW)
 Research
 Centre
 da
 University
 of
 Lancaster
 identificaram
 (1994)
 para
 além
 da
etnografia
 ‘quick
 &
 dirty’,
 a
 etnografia
 concorrente,
 a
 etnografia
 avaliativa
 e
 o
 reexame
 de
estudos
 prévios.
 Transpondo
 o
 que
 Hugues
 e
 sua
 equipa
 afirmaram
 (1995)
 sobre
 a
 utilidade
dos
 estudos
 etnográficos
 ‘quick
 &
 dirty’
 no
 desenvolvimento
 de
 sistemas
 e
 software
 para
 a
 6
 


  7. 7. investigação
 das
 audiências,
 ao
 optar
 por
 esta
 via
 há
 o
 entendimento
 de
 que
 será
 capaz
 de
fornecer
conhecimento
válido
e
valioso
sobre
um
dado
contexto
num
período
curto
de
tempo.
 O
 procedimento
 geral
 para
 estas
 sessões
 de
 observação
 etnográfica
 consistiu
 na
observação
 presencial
 da
 família,
 com
 duração
 aproximada
 de
 30
 a
 60
 minutos
 e
 registo
 em
vídeo,
à
qual
se
seguiu
a
condução
de
uma
entrevista
semi‐estruturada
a
toda
a
família,
com
duração
aproximada
de
30
a
60
minutos,
também
com
registo
em
vídeo
e
com
anotações
no
guião
da
entrevista.
 

Procedimento
 1.
Introdução


 - descrever
objectivo
do
estudo
etnográfico
e
o
seu
enquadramento
no
trabalho
de
 investigação;
 - assegurar
a
confidencialidade
dos
dados.
 
 
2.
Observação
etnográfica
(cerca
de
30
a
60
minutos)
 ‐
instalação
de
câmara
de
filmar
num
local
central
da
sala
de
estar:
registo
vídeo
da
 dinâmica
familiar
na
sala
de
estar
+
tomada
de
notas;
 - duração
da
observação:
limite
60
minutos.
 
 3.
Entrevista
semi‐estruturada
(cerca
de
30
a
60
minutos)
 - pedir
a
cada
membro
da
família
para
descrever
um
dia
típico
de
semana
e
um
dia
 típico
de
fim‐de‐semana.


 - questões
sobre
padrões
de
uso
de
televisão,
e
respectivas
atitudes
e
preferências:
 I
–
Ocupação
de
tempo
no
dia‐a‐dia
e
actividades
nos
tempos
livres
 II
–
Televisão:
posse,
usos,
preferências
e
atitudes

 III
–
TV
digital:
conhecimento,
atitudes
e
expectativas
 
 4.
Conclusão
(5
minutos)
 - pedir
 a
 todos
 os
 membros
 da
 família
 para
 assinar
 um
 compromisso
 de
 7
 


  8. 8. confidencialidade
 para
 utilizar
 dados
 e
 que
 no
 qual
 fique
 assegurada
 a
 confidencialidade
da
informação
prestada,
 - agradecer.
 
 
Trabalho
de
campo
e
amostra
 O
 trabalho
 de
 campo
 decorreu
 entre
 Setembro
 de
 2010
 e
 Março
 de
 2011,
 e
 o
recrutamento
da
amostra
foi
feito
através
do
contacto
com
as
câmaras
municipais
de
Alenquer
e
 da
 Nazaré,
 bem
 como
 com
 as
 juntas
 de
 freguesia
 de
 Agualva,
 Cacém,
 Mira‐Sintra
 e
 São
Marcos,
 na
 tentativa
 de
 encontrar
 famílias
 com
 os
 perfis
 adequados
 aos
 objectivos
 do
projecto.
A
juntar
à
colaboração
das
câmaras
de
Alenquer
e
da
Nazaré,
e
da
junta
de
freguesia
de
 Agualva,
 houve
 a
 necessidade
 de
 se
 recorrer
 a
 algumas
 pessoas
 conhecidas,
 para
 que
sugerissem
famílias
nas
três
zonas‐piloto
potencialmente
disponíveis
para
participar
no
estudo
etnográfico.
 Deve
ser
notado
que
houve
a
preocupação
de
incluir
nesta
amostra
famílias
com
pelo
menos
 um
 elemento
 com
 mais
 de
 65
 anos
 de
 idade
 e
 com
 pelo
 menos
 um
 elemento
 com
necessidades
especiais,
de
modo
a
obter
uma
melhor
percepção
das
características
específicas
destas
populações
em
relação
à
TV
digital.
Desta
forma,
entre
a
amostra
de
30
famílias,
13
são
constituídas
 por
 um
 ou
 mais
 elementos
 com
 mais
 de
 65
 anos,
 como
 era
 objectivo
 inicial
 do
projecto.
 Da
 mesma
 maneira,
 duas
 das
 famílias
 visitadas
 incluem
 um
 elemento
 com
necessidades
especiais.
Num
dos
casos,
visitou‐se
a
família
de
uma
adolescente
que
sofre
de
deficiência
mental,
e
no
outro,
entrevistou‐se
um
indivíduo
invisual,
de
64
anos.
 
 No
 conjunto,
 foram
 contabilizadas
 117
 pessoas,
 das
 quais
 63
 estiveram
 presentes
 e
participaram
activamente
nas
entrevistas.
Apesar
de
não
ter
sido
possível
entrevistar
todos
os
elementos
das
famílias,
não
raras
vezes
os
indivíduos
entrevistados
descreveram
as
rotinas
dos
familiares
que
não
falaram
ou
não
estiveram
presentes.
 No
 universo
 da
 amostra,
 apenas
 duas
 pessoas
 afirmaram
 não
 ver
 televisão
 todos
 os
dias,
tendo‐se
apurado
que,
em
14
famílias,
em
média
assiste‐se
entre
3
a
5
horas
de
televisão
por
dia.
Em
contrapartida,
a
amostra
inclui
também
famílias
onde
se
vê
menos
de
uma
hora
de
televisão
diária
(3
famílias),
até
famílias
cujos
os
elementos
em
média
passam
mais
de
7
horas
em
frente
ao
ecrã
(6
famílias).

Finalmente,
é
de
salientar
que
se
atribuíram
nomes
fictícios
aos
participantes
no
estudo,
de
forma
a
preservar
o
anonimato
dos
participantes.
 

 8
 


  9. 9. Tabela
1
Estudo
etnográfico
“ADOPT‐DTV”
‐
Participantes
 ID:
 Data
e
local:
 Participantes:
 Parentesco:
 Adelaide
(33
anos)
 Mãe
 Carlos
(37
anos)
 Pai
 Pedro
(8
anos)
 Filho
 Família
1
‐
Rosário

 17‐09‐2010
 Martim
(4
anos)
 Filho
 (7
elementos)
 Nazaré
 Filipe
(2
anos)
 Filho
 João
(59
anos)
 Avô
 Marta
(53
anos)
 Avó
 17‐09‐2010
 José
(68
anos)
 Pai
 Família
2
 Nazaré
 
Sobral
 
 Beatriz
(60
anos)
 Mãe
 (3
elementos)
 
 Laura
(70
anos)
 Irmã
 
 Patrícia
(22
anos)
 Filha
 Margarida
(35
anos)
 Mãe
 Jacinto
(40
anos)
 Pai
 Célia
(20
anos)
 Filha
 Sandra
(18
anos)
 Filha
 Família
3
‐
Roda
 11‐10‐2010
 Fátima
(15
anos)
 Filha
 (8
elementos)
 Nazaré
 Inês
(19
meses)
 Filha
 Henrique
(14
anos)
 Filho
 Neto
(filho
de
 Júlio
(recém‐nascido)
 Célia)
 Família
4
‐
Pereira

 15‐10‐2010
 Isabel
(73
anos)
 Casal
 (2
elementos)
 Nazaré
 João
(77
anos)
 Família
5
‐
Santos

 19‐10‐2010
 Catarina
(73
anos)
 
 (1
elemento)
 Alenquer
 Marília
(43
anos)
 Mãe
 Vasco
(51
anos)
 Pai
 Luísa
(32
anos)
 Filha
 João
(25
anos)
 Filho
 Família
6
‐
Alves

 21‐10‐2010
 Mário
(15
anos)
 Filho
 (10
elementos)
 Nazaré
 Raquel
(13
anos)
 Filha
 Joana
(9
anos)
 Neta
 Sofia:
(8
anos)
 Filha
 Miguel
(1
ano)
 Neto
 Família
7
‐
Pinto
 23‐10‐2010
 Margarida
(69
anos)
 Casal
 (2
elementos)
 9
 


  10. 10. Nazaré
 António
 
 
 Família
8
–
Lopes
 29‐10‐2010
 Joana
(71
anos)
 
 (1
elemento)
 Alenquer
 Adelaide
(37
anos)
 Mãe
 Família
9
 29‐10‐2010
 Teresa
(6
anos)
 Filha
 Gaudêncio
 Alenquer
 (3
pessoas)
 Rita
(11
anos)
 Filha
 05‐11‐2010
 Celeste
(74
anos)
 Família
10
‐
Graça
 Casal
 (2
elementos)
 Alenquer
 Américo
(77
anos)
 05‐11‐2010
 Rosa
(76
anos)
 Família
11
‐
Assis

 Casal
 (2
elementos)
 Alenquer
 António
(76
anos)
 Carla
(50
anos)
 Mãe
 Lara
(18
anos)
 Filha
 Família
12
 08‐11‐2010
 Marques
 Cristiano
(23
anos)
 Filho
 Nazaré
 (5
elementos)
 Rodrigo
(71
anos)
 Avô
 Amélia
(76
anos)
 Avó
 Júlia
(26
anos)
 Mãe
 Família
13
 15‐11‐2010
 Manuel
(48
anos)
 Pai
 Andrade
 Nazaré
 Rui
(6
anos)
 Filho
 (4
elementos)
 Ivo
(9
anos)
 Filho
 Família
13
 Paula
(59
anos)
 22‐11‐2010
 Freitas
(2
 Casal
 Nazaré
 Jorge
(64
anos)
 elementos)
 Família
15
‐
Matos
 25‐11‐2010
 Celeste
(72
anos)
 Casal
 (2
elementos)
 Nazaré
 Manuel
(71
anos)
 Família
16
 25‐11‐2010
 Rita
(70
anos)
 Mendonça
 Casal
 Nazaré
 Ricardo
(71
anos)
 (2
elementos)
 Família
17
‐
Sousa

 26‐11‐2010
 Maria
(65
anos)
 Avó
 (4
elementos)
 Nazaré
 Sara
(46
anos)
 Filha
 Joana
(6
anos)
 Neta
 10
 


  11. 11. 
 
 Matilde
(9
anos)
 Neta
 Sandra
(34
anos)
 Mãe
 Jacinto
(32
anos)
 Padrasto
 Família
18
 29‐11‐2010
 Filipe
(14
anos)
 Filho
 Fragoso
 Alenquer
 (5
elementos)
 João
(12
anos)
 Filho
 Miguel
(8
anos)
 Filho
 Sofia
(37
anos)
 Mãe
 Família
19
 Rui
(40
anos)
 Pai
 Baptista
 28‐12‐2010
Cacém
 Filipa
(10
anos)
 Filha
 (4
elementos)
 Ana
(18
anos)
 Filha
 Sónia
(35
anos)
 Mãe
 Família
20
 Ricardo
(35
anos)
 Pai
 10‐01‐2011
 
Mendes
 Alenquer
 Marta
(7
anos)
 Filha
 (4
elementos)
 João
(5
anos)
 Filho
 10‐01‐2011
 Carla
(65
anos)
 Família
21
‐
Costa

 Casal
 (2
elementos)
 Alenquer
 Rogério
(64
anos)
 Josefa
(47
anos)
 Mãe
 Família
22
 António
(46
anos)
 Pai
 10‐01‐2011
 Guerreiro
 Alenquer
 Verónica
(22
anos)
 Filha
 (4
elementos)
 Guilherme
(18
anos)
 Filho
 Ana
(33
anos)
 Mãe
 Alberto
(38
anos)
 Pai
 Família
23
 10‐01‐2011
 Carlos
(8
anos)
 Filho
 
Simões
 Alenquer
 (5
elementos)
 Clarisse
(4
anos)
 Filha
 Sofia
(4
anos)
 Filha
 10‐01‐2011

 Isabel
(39
anos)
 Mãe
 Família
24
 11
 


  12. 12. Isabel
(39
anos)
 Mãe
 Filipa
(48
anos)
 Tia
 Matilde
(32
anos)
 Tia
(Irmã
de
Isabel)
 
Fonseca
 Cacém
 (6
elementos)
 Pedro
(21
anos)
 Filho
 Mário
(19
anos)
 Filho
 Rui
(14
anos)
 Filho
 Cristina
(24
anos)
 Filha
 Antónia
(48
anos)
 Mãe
 Fámilia
25
‐
Neves

 11‐01‐2011
Cacém
 (4
elementos)
 Pedro
(14
anos)
 Primo
 Miguel
(17
anos)
 Primo
 Joana
(83
anos)
 Avó
 Família
26
 José
(50
anos)
 Tio
 
Gomes
(4
 12‐01‐2011
Cacém
 Maria
(50
anos)
 Tia
 elementos)
 Carla
(28
anos)
 Neta
 Rita
(47
anos)
 Mãe
 Família
27
‐
Brito

 17‐01‐2011
Cacém
 Jorge
(35
anos)
 Irmão
 (3
elementos)
 Inês
(20
anos)
 Filha
 Clara
(67
anos)
 Mãe
 Jorge
(70
anos)
 Pai
 Família
28
 Pedro
(29
anos)
 Filho
 21‐01‐2011
 Cardoso
 Alenquer
 Carlos
(35
anos)
 Filho
 (7
elementos)
 Sofia
(37
anos)
 Filha
 Jacinta
(89
anos)
 Avó
 Família
29
 10‐02‐2011
Cacém
 Carlos
(43
anos)
 Pai
 
Justino
(5
 elementos)
 Amanda
(42
anos)
 Mãe
 Margarida
(12
anos)
 Filha
 12
 


  13. 13. 
 
 Maria
(10
anos)
 Filha
 Fátima
(5
anos)
 Filha
 Ana
(34
anos)
 Mãe
 Família
30
 17‐03‐2011
Cacém
 Luís
(54
anos)
 Pai
 
Ribeiro
 (3
elementos)
 Francisco
(11
meses)
 Filho


As
 sessões
 de
 observação
 e
 as
 entrevistas
 em
 profundidade
 foram
 registadas
 em
 vídeo
 e
procedeu‐se
a
uma
análise
das
transcrições
e
das
imagens
recolhidas,
através
da
utilização
do
software
de
análise
qualitativa
NVivo.
Este
software
permitiu
a
codificação
das
entrevistas
em
33
 categorias
 de
 análise,
 que
 foram
 derivadas
 das
 respostas
 dadas
 pelos
 participantes,
 bem
como
 das
 perguntas
 colocadas
 no
 decorrer
 as
 entrevistas
 semi‐estruturadas. 13
 


  14. 14. 
 2. Principais
resultados
do
estudo
etnográfico


 O
 estudo
 etnográfico
 com
 30
 famílias
 das
 três
 zonas‐piloto
 de
 transição
 para
 a
Televisão
Digital
Terrestre
possibilitou
a
análise
de
algumas
tendências
por
parte
das
famílias
no
que
toca
à
televisão,
presença
tão
importante
na
maior
parte
dos
lares,
e
sobretudo
tendo
em
conta
o
novo
contexto
digital.
As
entrevistas
permitiram
registar
algumas
preferências
dos
indivíduos
 em
 relação
 aos
 conteúdos
 ‐
 como
 os
 géneros
 televisivos
 de
 eleição
 ou
 os
 mais
detestados
–
e
a
observação
das
rotinas
ajudou
ainda
a
avaliar
o
peso
que
a
televisão
ocupa
no
dia‐a‐dia
 das
 famílias,
 em
 comparação
 com
 outras
 actividades
 e
 mesmo
 com
 a
 utilização
 de
outros
media.

 Porém,
este
capítulo
debruça‐se
especialmente
sobre
os
aspectos
relacionados
com
o
conhecimento
sobre
a
televisão
digital,
o
“switch‐off”
e
as
expectativas
dos
indivíduos
perante
o
 novo
 panorama
 digital.
 É
 de
 salientar
 que,
 neste
 estudo,
 a
 amostra
 é
 pequena
 para
 se
extraírem
 conclusões
 que
 possam
 ser
 extrapoladas
 para
 o
 universo,
 valorizando‐se
 antes
 a
possibilidade
de
ouvir
abertamente
os
entrevistados,
retirando
daí
uma
perspectiva
geral
dos
contextos
 concretos
 que
 são
 estas
 três
 zonas‐piloto,
 num
 período
 temporal
 ainda
 mais
delimitado,
como
é
o
que
antecede
o
“switch‐off”.

Em
síntese,
eis
algumas
das
principais
conclusões
deste
estudo
etnográfico
com
30
famílias,
relativamente
aos
usos,
atitudes
e
expectativas
em
relação
à
televisão:

‐
 verifica‐se
 um
 desconhecimento
 ‐
 independentemente
 da
 idade
 ou
 do
 género
 ‐
 sobre
 as
características
 da
 televisão
 digital.
 Entre
 as
 30
 famílias,
 pelo
 menos
 um
 elemento
 de
 26
famílias
 afirmou
 já
 ter
 ouvido
 falar
 no
 tema,
 mas
 apenas
 três
 pessoas
 souberam
 explicar
 no
que
consiste
este
tipo
de
transmissão;

‐
É
perceptível
a
hesitação
dos
indivíduos
ao
falar
das
vantagens
e
desvantagens
da
televisão
digital,
 acabando
 por
 nenhum
 elemento
 de
 15
 das
 famílias
 por
 responder
 não
 conhecer
nenhum
 dos
 seus
 pontos
 fortes
 ou
 fracos.
 Ainda
 assim,
 a
 vantagem
 mais
 mencionada
 foi
 a
melhor
qualidade
de
imagem
e
som,
seguida
da
alta
definição
e
do
3D.
A
desvantagem
mais
apontada
foi
o
custo
que
a
TV
digital
implica;

 14
 


  15. 15. ‐
 É
 de
 salientar
 que
 as
 vantagens
 da
 TV
 digital
 mais
 mencionadas
 pelos
 entrevistados
 não
coincidem
com
as
principais
razões
que
estes
dizem
poder
levar
a
aderir
à
TV
digital.
Neste
caso,
o
aumento
da
grelha
de
canais
e
a
existência
de
pacotes
vantajosos
são
as
razões
mais
mencionadas,
em
vez
da
melhoria
da
qualidade
de
imagem,
da
alta
definição
e
do
3D;


‐
 Verifica‐se
 que
 os
 indivíduos
 que
 já
 ouviram
 falar
 no
 “switch‐off”
 têm
 dificuldades
 em
explicar
o
processo
e
em
apontar
uma
data‐limite
para
o
apagão.
Alguns
até
sabem
que
as
famílias
 terão
 que
 investir
 num
 “aparelho”,
 apesar
 de
 desconhecerem
 os
 custos
 e
 se
 serão
afectados;

‐
 Verifica‐se
 que
 as
 fontes
 mais
 citadas
 pelos
 entrevistados
 quando
 lhes
 perguntam
 como
souberam
 do
 “switch‐off”
 são
 o
 “boca‐a‐boca”,
 os
 media
 nacionais
 e
 locais,
 bem
 como
 as
operadoras
de
telecomunicações,
via
telefone;

‐
É
perceptível
que,
quando
as
famílias
não
sabem
como
resolver
um
problema
com
um
dado
equipamento
 tecnológico,
 recorrem
 maioritariamente
 a
 amigos
 ou
 familiares.
 As
 pessoas
com
 mais
 de
 50
 anos
 tendem
 a
 pedir
 “aos
 mais
 novos”
 ajuda
 para
 lidar
 com
 os
 aparelhos,
sejam
telemóveis,
computadores
ou
uma
televisão.
Porém,
regra
geral,
os
assuntos
ligados
à
televisão
são
resolvidos
por
técnicos
especializados;

‐
 Nota‐se
 que
 as
 pessoas
 mais
 idosas
 julgam
 que,
 daqui
 a
 cinco
 anos,
 verão
 ainda
 mais
televisão,
porque
estarão
cada
vez
mais
desocupadas.
Por
outro
lado,
a
crise
e
as
dificuldades
em
manter
um
emprego
actualmente,
levam
as
pessoas
mais
jovens
a
antecipar
que
cada
vez
menos
 verão
 televisão.
 Por
 último,
 alguns
 indivíduos
 julgam
 que
 vão
 ver
 menos
 televisão
 no
futuro,
pois
vão
substituir
a
TV
por
outro
media;

‐
As
famílias
prevêem
que
a
televisão
daqui
a
dez
anos
seja
muito
diferente.
As
características
mais
mencionadas
pelos
entrevistados
apontam
para
televisores
cada
vez
maiores,
mais
finos
e
com
tecnologia
“táctil”;

‐
 É
 perceptível
 que
 as
 pessoas
 estão
 interessadas
 numa
 televisão
 que
 lhes
 permita
 novos
serviços
 e
 funcionalidades,
 como
 a
 gravação
 de
 programas
 (em
 11
 famílias
 houve
 sugestões
neste
sentido).
Por
outro
lado,
o
acesso
a
serviços
de
saúde
e
bem‐estar,
através
da
televisão,
 15
 


  16. 16. é
 encarado
 como
 um
 ganho,
 mais
 do
 que
 a
 existência
 de
 canais
 locais
 ou
 regionais,
 ou
 o
aparecimento
de
um
novo
canal
gratuito
generalista,
como
o
5º
canal;


Conhecimento
sobre
a
TV
Digital

 A
 televisão
 digital
 não
 é
 um
 conceito
 estranho
 para
 26
 das
 30
 famílias
 entrevistadas
em
 Alenquer,
 no
 Cacém
 e
 na
 Nazaré.
 Com
 o
 intuito
 de
 compreender
 até
 que
 ponto
 os
indivíduos
 conheciam
 esta
 tecnologia,
 foi
 colocada
 a
 questão
 “Já
 ouviu
 falar
 de
 televisão
digital”,
 a
 que
 os
 entrevistados
 responderam
 maioritariamente
 “sim”.
 Em
 26
 famílias,
 pelo
menos
 um
 elemento
 do
 agregado
 afirmou
 ter
 ouvido
 falar
 em
 televisão
 digital
 através
 dos
media
 nacionais
 ou
 locais,
 de
 familiares
 ou
 de
 amigos,
 de
 técnicos
 especializados,
 ou
 das
empresas
operadoras
de
televisão,
via
telefone.
«Eu
ouvi
na
televisão,
até
parece
que
ia
ser
a
partir
 de
 Janeiro
 ou
 qualquer
 coisa,
 mas
 não
 sei
 bem...»,
 aponta
 Sofia,
 alenquerense
 de
 37
anos.
 «Já
 ouvi
 falar,
 através
 do
 senhor
 das
 televisões,
 o
 nosso
 técnico.
 Ele
 já
 tinha
 dito
 que
qualquer
dia…
E
disse
que
Alenquer
era
uma
das
zonas
de
experiência‐piloto»,
conta
Carla,
de
65
anos,
depois
de
explicar
que,
quando
comprou
a
sua
última
televisão,
lhe
disseram
que
esta
já
estava
 equipada
com
«não
 sei
o
quê
para
a
era
digital».
«Fui
 abordado
pelo
 telefone,
 por
mais
 de
 uma
 vez
 (…)
 Falaram
 em
 televisão
 digital,
 diziam
 que
 iam
 aplicar
 um
 equipamento
para
 poder
 fazer
 a
 transformação
 no
 caso
 dos
 televisores
 que
 já
 existem,
 porque
 os
 futuros
vêm
já
preparados»,
refere
Manuel,
de
71
anos,
sublinhando
que
é
pelo
telefone,
através
das
empresas,
 que
 normalmente
 lhe
 chegam
 as
 primeiras
 informações
 sobre
 equipamentos
tecnológicos. Figura
1
Família
“Pinto”
–
Margarida
diz
que
o
seu
técnico
de
televisões
a
avisou
de
que
as
antenas
tradicionais
 iriam
deixar
de
funcionar
 16
 


  17. 17. 
Daqui
podemos
retirar
que,
em
9
das
26
famílias
em
que
pelo
menos
um
dos
seus
respectivos
elementos
disseram
conhecer
o
novo
meio
de
transmissão,
falar
em
televisão
digital
envolve
falar
 do
 “switch‐off”.
 Isto
 é,
 em
 9
 agregados
 familiares,
 ouviu‐se
 falar
 pela
 primeira
 vez
 em
televisão
digital
quando
lhes
chegou
informação
sobre
a
transição
para
a
TDT.


 É
o
caso
de
Margarida,
doméstica,
de
69
anos:
«acho
que
é
uma
televisão
dessas
que
agora
 vão
 pôr,
 não
 é?
 O
 Jaime
 (técnico
 de
 televisões)
 quando
 veio
 aqui
 uma
 vez
 arranjar
 a
antena
 disse‐me:
 “isto
 depois
 já
 não
 presta.
 Daqui
 a
 dois
 anos
 isto
 vai‐se
 embora
 tudo”».
Também
Joana,
de
71
anos,
reporta
para
o
anúncio
do
apagão
da
televisão
analógica
quando
questionada
sobre
se
“já
ouviu
falar
em
TV
Digital”:
«li
no
jornal
de
Alenquer.
Li
que
ia
ser
a
primeira
a
fazer
a
experiência
da
televisão
digital.
Ora,
a
partir
daí
nem
sei
do
que
é
que
isso
é
feito
nem
como
é
que
funciona».
Já
Ricardo,
de
71
anos,
identifica
a
televisão
digital
com
a
sua
mais
 recente
 aquisição
 tecnológica.
 Antes
 de
 ter
 sido
 avisado
 de
 que
 a
 televisão
 analógica
terrestre
 iria
 deixar
 de
 existir,
 este
 reformado
 não
 sabia
 o
 que
 era
 televisão
 digital.
 «A
televisão
 digital
 foi
 agora
 posta
 há
 pouco
 tempo,
 há
 uns
 meses.
 Diz
 que
 daqui
 por
 algum
tempo
 é
 só
 digital
 que
 vai
 funcionar
 e
 então
 eles
 lá
 me
 convenceram
 e
 lá
 pus
 a
 digital».
Posteriormente,
Ricardo
apercebeu‐se
de
que
não
precisava
de
ter
actualizado
a
sua
televisão
para
continuar
a
receber
sinal,
visto
que
já
tinha
televisão
paga,
por
cabo
analógico.
 Figura
2:
Família
“Alves”
–
Nesta
família
da
Nazaré,
ninguém
sabia
ao
certo
o
que
é
a
TV
digital.
Luísa,
uma
das
 filhas,
sugeriu
que
é
a
televisão
que
já
não
necessita
de
comando

 17
 


  18. 18. Apesar
de,
aparentemente,
as
pessoas
se
demonstrarem
familiarizadas
com
o
termo,
as
ideias
sobre
televisão
digital
parecem
ser
vagas
em
21
das
26
famílias
que
afirmaram
já
ter
ouvido
falar
 no
 tema,
 chegando
alguns
indivíduos
a
relacionar
televisão
digital
com
aspectos
ainda
distantes
da
realidade.
«O
que
eu
entendi
como
TV
Digital
é
que
são
aquelas
televisões
em
que
a
gente
não
precisa
de
ter,
por
exemplo,
um
comando
para
ligar
e
desligar»,
sugere
Adelaide,
 de
 37
 anos.
 «Agora
 já
 não
 há
 comandos,
 já
 não
 há
 nada.
 É
 tudo
 pelo
 ecrã,
 muito
fininho»,
 explica
 Luísa,
 apostando
 na
 mesma
 ideia,
 de
 que
 digital
 é
 sinónimo
 de
 ”touch”.
 Na
verdade,
apesar
de
mais
de
40
indivíduos,
de
26
famílias,
terem
assumido
conhecer
o
termo
“televisão
 digital”,
 muito
 poucos
 souberam
 defini‐la,
 sendo
 as
 expressões
 mais
 recorrentes:
«já
ouvi
falar
na
televisão
digital,
mas
muito
sinceramente
não
tenho
bem
uma
ideia
do
que
é…»
(Sónia,
35
anos);
«Ouvir
falar
já
ouvi,
mas
não
estou
assim
muito
por
dentro…»
(Isabel,
73
anos);
«Já
ouvi
falar.
Mas,
no
fundo,
não
sei
mesmo
o
que
é
que
se
passa»
(Adelaide,
37
anos);
«Eu
ouvi
falar,
mas
não
liguei
nenhuma»
(Américo,
77
anos).


 Por
 outro
 lado,
 quase
 não
 se
 ouviram
 definições
 precisas
 de
 televisão
 digital,
destacando‐se
 apenas
 três
 respostas
 mais
 concretas:
 «A
 ideia
 que
 eu
 tenho
 é
 que
 é
 um
formato
 diferente,
 que
 tem
 a
 capacidade
 de
 transportar
 muito
 mais
 informação.
 O
 que
permite
 uma
 série
 de
 funcionalidades.
 No
 imediato,
 uma
 melhor
 qualidade
 de
 imagem
 e
 de
som.
E
depois
uma
série
de
funcionalidades
que
a
TV
normal
não
permite»,
explicou
Carlos,
de
37
 anos;
 «É
 diferente,
 vai
 ser
 uma
 televisão
 com
 mais
 qualidade…
 É
 o
 que
 dizem…
 Mais
qualidade
 de
 emissão»,
 definiu
 Jorge,
 de
 64
 anos;
 «Fala‐se
 muito
 na
 televisão
 digital.
 Que
 é
um
 sistema
 de
 transmissão
 de
 televisão
 diferente
 daquele
 actualmente
 está
 em
 uso.
 Os
pormenores
 técnicos,
 não
 sei.
 A
 ideia
 que
 eu
 tenho
 é
 que
 é
 uma
 coisa
 nova,
 que
 vai
 ser
aplicada
 em
 Portugal,
 mas
 não
 só
 na
 televisão.
 Noutros
 sistemas
 de
 comunicação
 também»,
considerou
Manuel,
de
71
anos.
Figura
 3
 Manuel
 e
 Celeste
 esperam
 que
 a
 TV
 digital
 seja
 sinónimo
 de
 melhores
 conteúdos.
 Os
 programas
 de
teatro
e
variedades,
são
os
preferidos
do
casal
 18
 


  19. 19. De
 facto,
 em
 todas
 as
 famílias
 foi
 necessário
 explicar
 no
 que
 consiste
 a
 televisão
digital,
 havendo
 até
 casos
 em
 que
 a
 família
 já
 possuía
 um
 serviço
 de
 televisão
 digital
 e
 não
sabia.
 O
 tema
 da
 televisão
 parece
 interessar
 aos
 indivíduos,
 mas
 o
 facto
 de
 ser
 digital
 ou
analógica,
 é‐lhes
 indiferente.
 Como
 em
 casa
 de
 Rosa
 e
 Carlos,
 reformados
 de
 76
 anos.
 Para
este
casal,
o
que
importa
são
os
conteúdos
e
só
uma
avaria
que
os
deixe
sem
TV
poderá
levar
a
pensar
nas
questões
técnicas.
Consumidores
assíduos
de
televisão
confiam
no
filho
para
tratar
dessas
 questões,
 não
 pensando
 sequer
 nelas.
 Também
 Celeste
 e
 Manuel,
 de
 71
 e
 72
 anos,
consideram
que
antes
da
qualidade
de
imagem
e
do
som,
deve
haver
uma
preocupação
com
a
qualidade
dos
conteúdos.
É
essa
que
verdadeiramente
lhes
importa,
ou
não
ligarão
sequer
o
televisor.


 No
que
toca
às
pessoas
que
desconheciam
completamente
o
termo
“televisão
digital”,
podemos
 referir,
 por
 exemplo,
 o
 caso
 de
 Célia
 e
 Sandra,
 de
 20
 e
 18
 anos
 respectivamente,
pertencentes
 a
 uma
 família
 numerosa,
 da
 Nazaré.
 As
 duas
 jovens
 já
 não
 estudam
 e
 estão
desempregadas,
 passando
 a
 maior
 parte
 do
 tempo
 em
 frente
 ao
 ecrã.
 Ainda
 assim,
desconheciam
 a
 nova
 forma
 de
 transmissão
 que
 lhes
 poderia
 trazer
 melhor
 qualidade
 de
imagem
 e
 som,
 ou
 mesmo
 funcionalidades
 que
 lhes
 poderiam
 ser
 úteis,
 e
 demonstraram‐se
desinteressadas
 no
 tema.
 É
 de
 sublinhar
 que
 estas
 jovens
 não
 têm
 por
 hábito
 assistir
 aos
noticiários
ou
a
programas
de
informação,
baseando
a
sua
experiência
televisiva
no
consumo
de
telenovelas.
Ao
contrário
da
mãe,
Margarida,
de
35
anos,
que
obteve
informação
sobre
a
televisão
 digital
 no
 telejornal,
 sabendo
 até
 que
 vai
 haver
 uma
 mudança
 que
 obrigará
 os
portugueses
a
pagar
para
continuar
a
ver
televisão,
desta
vez
no
formato
digital.
Este
é
um
dos
casos
em
que
alguns
elementos
da
família
já
tinham
conhecimento
sobre
a
televisão
digital
e
outros
não.
 Figura
4:
Família
“Santos”
‐
Catarina
passa
os
dias
sozinha
e
espera
que
os
noticiários
a
coloquem
a
par
do
 que
se
passa
no
mundo
 19
 


  20. 20. No
 caso
 de
 Catarina,
 de
 73
 anos,
 seria
 muito
 difícil
 ouvir
 falar
 em
 televisão
 digital
através
de
outros
meios
que
não
a
televisão.
Por
passar
quase
todo
o
tempo
isolada,
em
casa,
Catarina
obtém
informações
sobre
o
que
se
passa
no
mundo
quase
exclusivamente
através
do
seu
televisor.
Deitada
na
cama,
em
frente
ao
ecrã
com
interferências,
a
idosa
explica
que
já
lá
vai
o
tempo
em
que
se
entretinha
a
fazer
bordados
e
os
dias
em
que
saía.
De
vez
em
quando,
para
 se
 distrair,
 ainda
 vai
 ao
 baile,
 mas
 não
 como
 antigamente.
 Por
 isso,
 o
 seu
 principal
passatempo
 é
 a
 televisão
 e
 é
 esta
 que
 lhe
 proporciona,
 muitas
 vezes,
 a
 sensação
 de
 estar
acompanhada,
bem
como
as
notícias
sobre
o
que
se
passa
lá
fora.

 Aliás,
depois
de
lhe
ter
sido
brevemente
explicado
o
processo
de
“switch‐off”,
que
lhe
era
completamente
estranho,
a
idosa
questionou:
«porque
é
que
eu
ainda
não
ouvi
falar
nisso
na
 televisão?».
 O
 facto
 de
 ter
 apenas
 os
 quatro
 canais,
 pela
 “reforma
 muito
 pequena”
 que
recebe,
 deixou
 Catarina
 muito
 alarmada
 perante
 a
 possibilidade
 de
 ficar
 sem
 televisão.
 «Oh
meu
Deus…
Isto
é
a
minha
companhia!»,
desabafava,
já
prevendo
os
problemas
que
poderão
surgir,
 por
 ser
 uma
 pessoa
 sozinha,
 sem
 possibilidades
 de
 recorrer
 à
 família
 para
 resolver
 a
situação.
 Na
 mesma
 localidade,
 Guilherme,
 de
 18
 anos,
 dá
 resposta
 idêntica
 à
 de
 Catarina:
“nunca
ouvi
falar”.
O
jovem,
que
divide
o
seu
tempo
de
lazer
entre
a
televisão,
o
computador,
o
 novo
 iPad
 e
 a
 Playstation,
 diz
 conhecer
 a
 “televisão
 3D,
 com
 óculos”,
 não
 a
 “digital”.
 No
entanto,
 parece
 tudo
 uma
 questão
 de
 desconhecimento
 da
 terminologia,
 uma
 vez
 que
Guilherme
 tem
 televisão
 digital
 em
 casa
 e
 até
 está
 habituado
 a
 usufruir
 de
 serviços
 como
 a
gravação
de
programas
ou
o
“vídeo‐on‐demand”.

Vantagens
e
desvantagens
da
TV
Digital

 Tendo
 em
 conta
 que
 a
 maior
 parte
 dos
 entrevistados
 não
 soube
 explicar
 no
 que
consistia
 a
 televisão
 digital,
 reconhecendo
 apenas
 o
 termo,
 as
 famílias
 tiveram
 algumas
dificuldades
em
apontar
as
vantagens
e
desvantagens
deste
sistema.
Entre
 as
 26
 famílias
 que
 admitiram
 já
 ter
 ouvido
 falar
 em
 TV
 digital,
 um
 ou
 mais
 dos
respectivos
elementos
de
15
famílias
afirmaram
não
saber
quais
são
os
seus
benefícios
e
em
11
famílias
pelo
menos
um
dos
seus
membros
disseram
não
conhecer
quais
as
desvantagens.
Depois
do
maioritário
“não
sei”
(por
15
famílias),
a
vantagem
mais
mencionada
foi
a
melhoria
da
 qualidade
 de
 imagem
 e
 do
 som
 (por
 6
 famílias).
 Seguidamente,
 em
 2
 famílias,
 a
possibilidade
 de
 trazer
 a
 alta
 definição
 ou
 o
 3D
 para
 as
 salas
 de
 estar
 são
 vantagens
reconhecidas,
 tal
 como
 a
 possibilidade
 de
 haver
 mais
 canais
 (2
 famílias),
 mais
 serviços
 e
funcionalidades
(2
famílias).

 
 20
 


  21. 21. Há,
 por
 outro
 lado,
quem
 não
encontre
qualquer
vantagem
na
televisão
digital.
Em
casa
dos
Baptista,
por
exemplo,
a
mãe,
Sofia,
de
37
anos,
admite
que
não
vê
nenhuma
vantagem
na
TV
digital,
 ao
 que
 a
 filha
 mais
 nova,
 Filipa,
 de
 10
 anos,
 responde:
 «Oh
 mãe,
 eu
 vejo
 vantagens.
Imagine
 que
 decide
 dar
 o
 jantar
 numa
 altura
 que
 está
 a
 dar
 um
 programa
 importante,
 eu
posso
meter
na
pausa
e
assim
não
perco
o
programa...».
A
diversificação
dos
conteúdos,
a
redução
das
falhas
técnicas
e
a
evolução
tecnológica
foram
outras
das
vantagens
mencionadas
pelos
entrevistados.
No
Cacém,
Ana,
de
34
anos,
considera
que
as
vantagens
da
televisão
digital
são
«coisas
que
mulheres
não
reparam».

Figura
5:
Família
“Ribeiro”
–
Ana
está
familiarizada
com
as
novas
tecnologias.
A
jovem
mãe
teme
que
os
seus
pais
e
avós
tenham
dificuldades
em
adaptar‐se
à
TV
digital,
mais
difícil
de
manusear

A
jovem
funcionária
pública
explica
que
a
televisão
digital
permite
uma
melhor
qualidade
de
imagem
 e
 de
 som,
 evitando
 também
 as
 falhas
 técnicas
 habituais
 da
 televisão
 analógica.
«Nunca
falha
a
televisão
porque
há
um
temporal
e
ficámos
sem
antena...».
No
entanto,
na
sua
opinião,
 isso
 são
 questões
 pouco
 relevantes
 para
 as
 mulheres.
 «Desde
 que
 se
 veja
 bem
 e
 se
consiga
ler
as
legendas,
tudo
bem»,
considera.
Não
ser
necessária
antena
para
haver
imagem,
ou
 comando
 de
 televisão
 para
 o
 manuseamento
 do
 aparelho
 são
 outras
 das
 vantagens
mencionadas.
 E,
 por
 último,
 a
 poupança
 de
 energia,
 mencionada
 como
 possível
 vantagem
numa
das
famílias.
Quanto
 às
 desvantagens,
 as
 famílias
 demonstraram
 novamente
 desconhecimento
 sobre
 o
tema,
 prevalecendo
 a
 resposta
 “não
 sei”.
 Para
 Jorge,
 invisual
 de
 64
 anos,
 é
 uma
 perda
 de
tempo
 pensar
 nisso,
 já
 que
 a
 sua
 família
 se
 sente
 bem
 servida
 com
 a
 Cabovisão.
 Apesar
 de
conhecer
a
principal
e,
na
sua
opinião,
única
vantagem
da
televisão
digital
–
melhor
qualidade
 21
 


  22. 22. de
imagem
–
este
nazareno
desconhece
os
pontos
fracos
da
transmissão
digital.
«Não
sei.
Não
estamos
informados
de
nada
disso.
Nem
informados,
nem
com
intenções
de
pôr
esse
sistema.

Só
se
for
obrigatório»,
explica.
Apesar
de
não
conseguir
ver
o
que
está
a
passar
no
ecrã,
Jorge
é
consumidor
assíduo
de
televisão,
tal
como
a
esposa,
Paula,
de
59
anos.
Uma
grelha
de
canais
mais
alargada
ajuda‐os
a
passar
o
tempo,
e
a
televisão
é
dos
bens
mais
essenciais
da
casa.
Para
não
repetir
o
desamparo
semelhante
ao
de
uma
noite,
há
alguns
meses,
em
que
ficaram
sem
televisão,
 Jorge
 assegurou‐se
 de
 que
 pelo
 menos
 um
 dos
 televisores
 da
 casa
 é
 moderno
 e
Figura
6:
Família
“Freitas”
–
Jorge
é
invisual
e
considera
que
a
única
vantagem
da
TV
digital
é
a
melhor
qualidade
de
imagem,
que
para
ele
não
é
importante
preparada
para
o
futuro,
seja
ele
digital
ou
não.
«Aquela
televisão
(a
mais
nova)
já
tem
o
DTI,
ou
DNI…
não
sei,
já
está
preparada
para
esse
sistema»,
assegura.

Apesar
de
11
famílias
referirem
que
não
sabem
o
suficiente
sobre
a
TV
digital
para
apontar
as
suas
 desvantagens,
 os
 custos
 são
 o
 primeiro
 “senão”
 de
 quem
 se
 atreve
 a
 sugerir
 os
inconvenientes
 deste
 tipo
 de
 transmissão.
 «As
 desvantagens
 são
 para
 a
 carteira!»,
 exclama
Jacinto,
de
32
anos.
«É
mais
uma
coisa
para
a
gente
gastar
dinheiro»,
completa
Sandra,
de
34
anos.
«É
conforme
o
custo
dela…»,
aponta
Laura,
de
70
anos,
virando‐se
para
o
irmão
que
diz
ainda
não
conhecer
as
desvantagens
da
TV
digital,
por
não
ter
informação
suficiente
sobre
o
assunto.
Depois,
a
obrigatoriedade
da
adesão,
a
necessidade
de
adaptar
os
equipamentos
e
a
precisão
de
haver
dois
comandos
são
desvantagens
mencionadas
pelas
famílias.
Clara,
de
67
anos,
habitante
de
Alenquer,
considera
que
o
facto
de
não
haver
nenhuma
vantagem
evidente
na
 mudança,
 mas
 apenas
 a
 obrigação
 de
 mudar,
 é
 a
 maior
 das
 desvantagens:
 «Não
 há
motivação…»,
defende,
ao
que
o
marido,
Jorge,
de
70
anos,
responde:
«O
progresso
é
assim
 22
 


  23. 23. não
é?
Ninguém
acha
bem,
toda
a
gente
refila,
mas
depois
acaba
por
aceitar».
Já
Ana,
de
34
anos,
vê
a
geração
dos
seus
pais
e
avós
a
confrontarem‐se
com
mais
uma
evolução
tecnológica
que
lhes
trará,
em
vez
de
vantagens,
complicações
nas
tarefas
mais
simples
do
manuseamento
da
 televisão:
 «Para
 a
 geração
 dos
 nossos
 pais,
 que
 não
 estão
 habituados
 a
 lidar
 com
 novas
tecnologias,
 a
 desvantagem
 é
 que
 o
 comando
 é
 muito
 complexo.
 Porque
 há
 o
 comando
 da
televisão
e
o
comando
da
box...
São
dois
comandos...
Qual
é
o
comando
de
onde?
E
do
quê?».


Motivos
para
ter
ou
não
ter
TV
digital


 No
 universo
 das
 30
 famílias
 entrevistadas,
 14
 já
 possuíam
 um
 serviço
 de
 televisão
digital
em
pelo
menos
uma
televisão
da
casa
(11
famílias
através
do
cabo
digital,
2
famílias
por
IPTV
e
1
família
por
satélite).
Questionadas
sobre
as
razões
que
as
motivaram
a
ter
televisão
digital,
 8
 destas
 famílias
 apontaram
 o
 aumento
 da
 grelha
 de
 canais
 como
 um
 dos
 principais
incentivos.
 Os
 canais
 de
 desporto,
 sobretudo
 a
 Sport
 TV
 e
 o
 Benfica
 TV,
 são
 importantes
alavancas
 para
 aderir
 a
 um
 serviço
 de
 televisão
 paga
 e,
 consequentemente,
 de
 televisão
digital.
Jacinto,
de
32
anos,
trabalhador
de
uma
fábrica
de
sabonetes,
admite
que
«a
vida
está
difícil»,
 mas
 conta
 que
 aderiu
 à
 MEO
 para
 «poder
 saber
 tudo
 sobre
 o
 seu
 clube»,
 o
 Benfica,
através
do
canal
Benfica
TV.
A
esposa,
Sandra,
de
34
anos,
modera
um
pouco
o
entusiasmo
do
marido,
explicando
que
a
família
tem
passado
por
dificuldades
e
que
só
tem
televisão,
porque
esta
lhes
foi
oferecida.
Sandra
lembra
que,
mais
do
que
o
Benfica
TV,
o
serviço
de
IPTV
a
que
aderiram
inclui
internet
e
telefone,
o
que
lhe
permite
comunicar
com
os
familiares
que
estão
longe.

 Figura
7:
Família
“Fragoso”
–
A
única
televisão
dos
Fragoso
passou
a
ter
outras
funcionalidades
com
a
passagem
 para
o
digital,
mas
foi
o
pacote
económico
de
TV,
telefone
e
internet
que
levou
a
que
aderissem
ao
serviço
 23
 


  24. 24. 
A
 existência
 de
 pacotes
 vantajosos
 foi,
 aliás,
 a
 segunda
 motivação
 mais
 citada
 pelos
entrevistados
quando
falavam
nas
razões
para
aderir
à
TV
digital.
No
caso
de
Sandra,
o
pacote
que
 englobava
 telefone
 fixo,
 televisão
 e
 internet
 ficava
 mais
 em
 conta
 e
 proporcionava‐lhe
mais
comodidade
para
falar
com
a
filha,
que
vive
com
o
pai
biológico:
«A
gente
teve
que
pôr
MEO
porque
eu
assim
falo
mais
vezes
com
a
minha
filha.
Porque
se
eu
não
tivesse
telefone
em
casa,
tinha
que
ir
a
uma
cabine
telefonar
até
às
20h30.
E
assim
com
telefone
em
casa,
até
às
dez
da
noite
eu
posso
telefonar‐lhe.
É
uma
coisa
boa
que
eu
tenho».
Na
verdade,
este
pacote
acaba
por
responder
às
diferentes
necessidades
da
família
Fragoso,
uma
vez
que
Sandra
utiliza
muito
 o
 telefone
 e
 a
 internet,
 e
 Jacinto
 consome
 ainda
 mais
 televisão.
 Para
 este
 último,
 o
digital
 representa
 muito
 mais
 do
 que
 a
 televisão
 tradicional:
 «Que
 serviços
 utiliza
 na
 MEO?
Jacinto:
 Tudo.
 Gravação,
 vídeo‐clube,
 jogos,
 música,
 tudo…».
 Durante
 a
 entrevista,
 o
trabalhador
 fabril
 demonstrou
 um
 pouco
 da
 sua
 experiência
 televisiva,
 mostrando,
 por
exemplo,
como
se
joga
xadrez
ou
“4
em
linha”
com
o
televisor,
e
acedendo
a
algumas
das
suas
gravações,
 sublinhando
 que
 agora
 já
 pode
 dormir
 e
 deixar
 o
 wrestling
 ou
 o
 Dragon
 Ball
 a
gravar
 de
 madrugada.
 Efectivamente,
 a
 existência
 de
 novos
 serviços
 e
 funcionalidades
 é
apontada
por
alguns
entrevistados
como
outra
das
razões
que
levam
à
escolha
da
TV
digital.
Ainda
assim,
este
último
factor
não
parece
ter
um
peso
decisivo
para
a
maioria
das
famílias.
 Figura
8:
Família
“Pereira”
–
Isabel
liga
mais
a
televisão
do
que
João.
A
lojista
aproveita
a
hora
do
almoço
para
 espreitar
o
ecrã,
mas
ainda
não
teve
tempo
de
explorar
os
novos
serviços
da
TV
digital

 24
 


  25. 25. Por
vezes,
os
indivíduos
reconhecem
que
a
TV
digital
lhes
traz
estes
novos
serviços,
vêem
isso
como
uma
vantagem,
mas
depois
acabam
por
não
os
utilizar,
como
é
o
caso
de
Isabel,
de
73
anos:
«Isto
(TV
digital)
traz
coisas
que
ainda
não
aprendi,
mas
sei
que
tem,
que
é
gravar
um
programa
 enquanto
 estamos
 a
 ver
 outro.
 Mas
 ainda
 não
 aprendi,
 ainda
 não
 tive
 tempo».
Acompanhar
a
evolução
tecnológica
e
ter
uma
melhor
qualidade
de
imagem
e
de
som
foram
também
 razões
 mencionadas
 pelos
 entrevistados.
 A
 juntar
 a
 estas
 razões,
 o
 anúncio
 do
“switch‐off”
 pode
 ser
 decisivo
 no
 momento
 de
 passar
 para
 o
 digital,
 como
 no
 caso
 dos
Mendonça,
da
Nazaré,
que
optaram
por
aderir
à
televisão
digital,
com
receio
de
ficar
sem
sinal
de
televisão.
Rita
e
Ricardo,
de
70
e
71
anos,
já
possuíam
televisão
paga
há
alguns
anos,
mas
ainda
 assim
 julgaram
 necessário
 fazer
 uma
 mudança,
 para
 não
 deixarem
 de
 ver
 televisão.
Depois
 de
 vários
 telefonemas
 por
 parte
 da
 empresa
 que
 lhes
 fornece
 televisão
 por
 cabo,
 a
juntar
 ao
 gosto
 de
 Ricardo
 pelos
 canais
 de
 desporto,
 os
 Mendonça
 foram
 finalmente
convencidos
a
mudar.
«A
maior
razão
foi,
de
facto,
o
canal
do
Benfica
‐
metido
no
canal
digital
‐
 e
 ver
 mais
 programas.
 E
 essa
 informação
 que
 o
 senhor
 me
 deu,
 de
 que
 daqui
 por
 algum
tempo
era
só
o
digital
a
funcionar»,
conta
Ricardo.
Por
outro
lado,
não
houve
qualquer
referência
à
alta
definição
ou
ao
3D
como
possíveis
iscos
para
uma
transição
para
o
digital.
No
que
respeita
às
razões
que
desmotivam
as
famílias
a
terem
televisão
digital,
a
questão
dos
custos
aparece
em
primeiro
lugar.
O
caso
de
Joana,
de
71
anos,
é
semelhante
ao
de
Catarina,

Figura
9:
Família
“Lopes”
–
Joana
mostra
uma
TV
avariada
que
tem
pena
de
deitar
fora.
A
costureira
gostava
de
ver
televisão
com
mais
qualidade,
mas
há
outras
prioridades
no
orçamento

 25
 


  26. 26. dois
 anos
 mais
 velha.
 Em
 comum,
 estas
 reformadas
 têm
 o
 facto
 de
 viverem
 no
 concelho
 de
Alenquer,
sozinhas,
e
da
televisão
lhes
servir
de
companhia
todos
os
dias.
Da
mesma
maneira,
Joana
 e
 Catarina
 gostariam
 de
 ter
 mais
 canais
 para
 preencher
 as
 várias
 horas
 em
 frente
 ao
ecrã,
mas
deparam‐se
sempre
com
as
mesmas
quatro
estações.
Na
verdade,
Joana
lembra
que
nem
 os
 quatro
 canais
 consegue
 apanhar,
 e
 Catarina
 sublinha
 as
 constantes
 interferências
 a
roubarem‐lhe
 a
 imagem.
 Ainda
 assim,
 estas
 idosas
 ‐
 que
 nem
 se
 conhecem
 ‐
 rejeitam
completamente
 a
 hipótese
 de
 virem
 a
 ter
 um
 serviço
 de
 televisão
 paga,
 mais
 uma
 vez,
 por
uma
mesma
razão:
a
baixa
reforma.
Por
outro
lado,
também
há
jovens
famílias
a
descartar
a
opção
 “televisão
 digital”.
 A
 família
 “Simões”,
 por
 exemplo,
 é
 servida
 pelo
 sinal
 analógico
terrestre
de
televisão.
Ana
explica
que
não
pode
juntar
mais
uma
mensalidade
às
despesas
de
uma
 família
 numerosa
 como
 a
 sua.
 «Como
 estou
 pouco
 tempo
 em
 casa,
 não
 se
 justifica
 eu
Figura
10:
Família
“Mendes”
–
Em
casa
dos
Mendes,
há
televisão
paga.
No
entanto,
a
mãe,
Sónia,
considera
que
há
falta
de
informação
sobre
os
procedimentos
a
ter
face
ao
switch‐off
pagar
 um
 valor
 acrescido
 para
 ver
 mais
 televisão.
 Porque
 esse
 valor
 também
 conta
 no
orçamento
 da
 família
 e
 é
 um
 grande
 abalo
 no
 agregado
 familiar.
 Num
 agregado
 familiar
grande
como
o
meu,
tudo
conta,
e
não
se
justifica.
Às
vezes
os
miúdos
chateiam‐me
porque
gostavam
 de
 ver
 o
 Panda.
 E
 eu
 digo
 “quando
 lá
 fores
 abaixo
 ao
 café,
 vês”.
 Têm
 que
 ter
paciência
(…)
Não
se
justifica
porque
os
preços
também
são
elevadíssimos».

Conhecimento
do
“switch‐off”

 Analisar
o
conhecimento
e
as
expectativas
de
algumas
famílias
portuguesas
acerca
do
desligamento
 do
 sinal
 analógico
 terrestre
 de
 televisão
 era
 um
 dos
 objectivos
 maiores
 deste
 26
 


  27. 27. estudo
etnográfico.
Entre
as
30
famílias
entrevistadas,
15
disseram
saber
que
o
sinal
analógico
de
 televisão
 ia
 ser
 desligado,
 e
 outras
 15
 afirmaram
 desconhecer
 o
 acontecimento.
 Na
verdade,
entre
as
15
famílias
a
par
do
apagão,
houve
3
lares
em
que
alguns
elementos
sabiam
do
“switch‐off”
e
outros
não.
Em
casa
dos
Rosário,
por
exemplo,
podia
notar‐se
que
Carlos,
o
pai,
 de
 37
 anos,
 estava
 muito
 mais
 a
 par
 das
 novidades
 tecnológicas
 do
 que
 qualquer
 outro
membro
 da
 família.
 Apesar
 de
 a
 esposa
 e
 os
 sogros
 também
 terem
 afirmado
 conhecer
 o
“switch‐off”,
foi
Carlos
o
único
que
imediatamente
utilizou
a
palavra
“apagão”
para
responder
e
demonstrou
estar
mais
ou
menos
a
par
da
data‐limite
para
o
“switch‐off”.
Da
mesma
forma,
na
família
Matos,
Manuel,
de
70
anos,
já
sabia
que
o
apagão
ia
acontecer,
enquanto
a
esposa
disse
 que
 a
 situação
 lhe
 «passou
 ao
 lado».
 Para
 além
 do
 “boca‐a‐boca”,
 estas
 informações
chegaram
 a
 Manuel
 através
 dos
 media.
 No
 entanto,
 nunca
 deu
 muita
 atenção
 ao
 assunto,
explicando
 que
 o
 mais
 provável
 é
 que,
 daqui
 a
 algum
 tempo,
 se
 preocupe
 mais
 em
 saber
Figura
11:
Família
"Fragoso"
–
Jacinto
sabe
que
a
Televisão
Digital
Terrestre
já
existe
desde
2009,
mas
julga
que
o
“switch‐off”
obrigará
todos
os
portugueses
a
comprar
um
aparelho
descodificador
pormenores
«para
não
ser
apanhado
de
surpresa»1.
«Já
ouvimos
dizer
que,
a
partir
de
certa
altura
do
 próximo
 ano,
 esse
 sinal
 desaparece
e
passa
a
haver
só
 o
 sinal
digital.
Isso
está
nos
jornais,
em
revistas
e
vamos
ouvindo.
E
também
já
se
sabe
que
a
Nazaré
é
uma
das
localidades
escolhidas
como
projecto‐piloto
(…)
Os
jornais
locais
de
vez
em
quando
falam
nisso
e
há
agora
aí
uma
revista
que
saiu,
que
também
traz
um
trabalho
sobre
isso.
Já
se
vai
sabendo»,
conta.

No
caso
de
Sónia,
de
35
anos,
o
tema
do
apagão
também
não
lhe
era
estranho.
A
trabalhadora
de
uma
empresa
de
Seguros
afirmou
já
ter
ouvido
falar
no
assunto,
mas
não
saber
o
suficiente





























































1 
Note‐se
que
a
entrevista
com
os
“Matos”
foi
realizada
a
25
de
Novembro
de
2010.
 27
 


  28. 28. para
falar
dele.
Sónia
afirmou
que
«sabia
que
isso
ia
acontecer»,
mas
precisava
que
alguém
lhe
explicasse
 o
 processo.
 «Passa
 a
 ser
 uma
 única
 via,
 não
 é?
 Tinha
 ouvido
 falar,
 mas
 não
 estou
muito
esclarecida
acerca
do
assunto»,
diz,
assumindo
que
não
faz
ideia
da
data‐limite
para
o
“switch‐off”.
Mãe
de
duas
crianças,
de
5
e
7
anos,
Sónia
afirmou
que
a
sua
família
não
saberá
como
 proceder
 caso
 se
 veja
 confrontada
 com
 a
 necessidade
 de
 adaptar
 as
 duas
 televisões
 à
era
 digital.
 Já
 Verónica,
 professora
 de
 dança,
 de
 22
 anos,
 conta
 que
 soube
 do
 apagão
 numa
conversa
com
a
cunhada,
que
vive
em
Espanha,
e
que
lhe
explicou
que
o
país
vizinho
já
tinha
feito
a
transição.
Apesar
de
Verónica
não
ter
ficado
muito
esclarecida
sobre
o
tema,
percebeu
que
 iria
 haver
 uma
 mudança:
 «Na
 conversa
 com
 a
 minha
 cunhada
 apercebi‐me,
 mas
sinceramente
eu
não
liguei
muito.
Achei
estranho…
Pensei
“Ai
agora
TV
digital,
também
agora
fazem
 tudo.
 Não
 me
 digam
 que
 me
 vão
 tirar
 o
 comando”.
 Foi
 a
 primeira
 coisa
 que
 eu
 disse
(risos)».
 A
 resposta
 de
 Verónica
 não
 foi
 a
 única
 deste
 género,
 a
 reflectir
 um
 pouco
 a
persistência
 de
 dúvidas
 nas
 famílias
 em
 relação
 aos
 pormenores
 da
 transição.
 Por
 exemplo,
Margarida,
mulher‐a‐dias
de
69
anos,
recorda
que
há
dois
anos,
quando
comprou
a
sua
mais
recente
televisão,
o
técnico
que
a
auxiliou
falou‐lhe
no
“switch‐off”,
de
que
teria
de
adquirir
um
aparelho
para
continuar
a
ter
televisão
ou
de
investir
numa
televisão
moderna.
Porém,
as
ideias
 sobre
 o
 apagão
 permaneceram
 confusas
 para
 a
 nazarena.
 «Eu
 perguntei‐lhe:
 “Então,
mas
se
vai‐se
embora
tudo
e
o
que
é
que
a
gente
faz
às
nossas
televisões?”.
E
ele
disse‐me
que
eu
tinha
que
comprar
um
aparelho
não
sei
o
quê.
Ele
até
me
disse
que
a
gente
depois
tinha
que
 ter
 plasmas
 e
 mais
 não
 sei
 o
 quê»,
 recorda.
 No
 caso
 de
 Jacinto,
 o
 trabalhador
 fabril
 já
atrás
 mencionado,
 que
 se
 tenta
 manter
 sempre
 actualizado
 acerca
 das
 novas
 tecnologias,
também
disse
estar
a
par
do
apagão.
No
entanto,
as
confusões
surgem
novamente.
Jacinto,
que
já
tem
televisão
digital,
julgava
que
também
ele
teria
de
comprar
um
descodificador.
«Jacinto:
É
a
TDT
(…)
Vai
entrar
em
vigor
em
2013.
 Já
 deu
 nas
 notícias
 e
 tudo.
 Eles
 já
 avisaram.
 Ou
 compra‐se
 o
 aparelho
 para
 estas
televisões
 ou
 a
 pessoa
 é
 obrigada
 a
 comprar
 uma
 televisão
 LCD
 que
 suporte
 esse
 sistema.
Senão…
 Entrevistadora:
 Esta
 televisão
 que
 tem,
 com
 MEO?
 Jacinto:
 Sim.
 Se
 não
 comprar
 o
aparelho.
Mas
o
aparelho
custa
50
euros».
Para
Ana,
de
34
anos,
o
“switch‐off”
também
não
é
uma
novidade.
A
jovem
mãe
foi,
aliás,
uma
das
entrevistadas
que
demonstrou
ter
mais
conhecimentos
sobre
o
“switch‐off”,
já
que
o
seu
emprego
 implica
 estar
 ao
 corrente
 das
 notícias
 sobre
 televisão.
 «Já
 sabia.
 Dia
 12
 de
 Abril...
Não,
em
Abril
de
2012.
O
dia
acho
que
ainda
não
está
decidido
(…)
Ou
compram
uma
caixa,
que
faz
a
conversão,
para
a
televisão
antiga,
ou
têm
que
comprar
uma
televisão
nova.
Até
sei
o
preço
 dessa
 caixa:
 varia
 entre
 os
 50
 e
 os
 250
 euros»,
 conta.
 No
 café
 da
 família
 Simões,
 em
 28
 


  29. 29. Alenquer,
 outra
 Ana,
 de
 33
 anos,
 também
 afirmou
 conhecer
 vagamente
 o
 processo
 da
transição
da
televisão
analógica
para
o
digital,
explicando
que,
através
das
conversas
no
café,
percebeu
que
uma
mudança
se
avizinhava.
«Ouvi
dizer
que
estava‐se
a
pensar
retirar
todo
o
tipo
de
ecrãs
do
mercado…
Aliás,
não
é
todo
o
tipo
de
ecrãs,
mas
sim
os
ecrãs
mais
antigos,
para
fazer
uma
instalação
de
TV
digital.
Mas
só
ouvi
assim
isto
muito
vagamente.
Também,
na
altura,
não
me
despertou
interesse
porque
estava
ocupada
e
passou.
Não
falei
sobre
o
assunto
com
 ninguém.
 Não
 sei
 como
 é
 que
 esse
 processo
 poderá
 ser
 feito,
 não
 sei
 que
 custos
 é
 que
poderá
ter,
não
sei
se
posso
tirar
alguma
vantagem
ou
não
daí».
À
questão
«Acha
que
vai
ser
afectada
 por
 esse
 processo?»,
 Ana
 respondeu
 não
 saber,
 acrescentando
 que
 «depende
 da
obrigatoriedade
 das
 coisas»
 e
 admitindo
 que
 não
 faz
 ideia
 da
 data
 limite
 para
 o
 processo.
Depois
de
saber
o
preço
médio
de
um
descodificador,
a
empregada
de
balcão
sugeriu
que
esse
é
 «um
 investimento
 que
 se
 pode
 justificar».
 «Se
 o
 investimento
 for
 só
 um
 descodificador…
Não
é
por
aí…
Mesmo
que
o
descodificador
custasse
o
dobro
do
dinheiro
que
me
disse,
100
euros.
Não
é
uma
coisa
que
vou
comprar
todos
os
meses.
Não
é?
É
um
investimento
a
longo
prazo»,
disse.
Ainda
assim,
Ana
afirmou
não
saber
a
quem
se
poderá
dirigir
de
forma
a
obter
apoio
ou
ajuda
para
continuar
a
ter
os
quatro
canais
gratuitos
em
casa.
Normalmente,
quando
não
 sabe
 como
 utilizar
 um
 equipamento
 electrónico,
 recorre
 «a
 um
 familiar
 habilidoso»
 que
costuma
resolver
os
problemas.
Se
a
transição
para
o
digital
trouxesse
um
acréscimo
de
canais,
«seria
o
ideal»
para
Ana,
uma
vez
que,
nestas
condições,
não
se
sente
motivada
para
fazer
a
transição.
«Não
há
oferta.
A
melhoria
da
qualidade
de
imagem
não
é
suficiente
para
motivar,
mas
nós
os
portugueses
também
não
nos
chateamos
com
nada,
somos
muito
permissivos.
E
se
foi
uma
decisão
da
União
Europeia,
nós
vamos
ter
que
acatar
com
ela.
Claro
que,
se
puderem
melhorar
 alguma
 coisa…
 Se,
 ao
 facto
 de
 sermos
 obrigados
 a
 mudar
 para
 continuar
 a
 ter
televisão,
conseguissem
juntar
uma
mais‐valia
ao
cliente,
só
caía
bem
(risos)»,
considera.
No
ponto
e
vista
da
empregada
de
balcão,
a
sua
família
beneficiaria
ainda
mais
caso
a
Televisão
Digital
 Terrestre
 lhe
 trouxesse,
 para
 além
 do
 aumento
 do
 número
 de
 canais,
 mais
 serviços,
como
o
da
gravação
de
programas
ou
de
Pausa
TV.
«Podiam
ser
uma
mais‐valia
por
causa
da
situação
dos
horários».
Gravar
os
filmes
permitiria
a
Ana
não
ter
de
perder
algumas
horas
de
descanso
para
poder
ver
um
filme
que
lhe
interesse.
Quanto
aos
serviços
de
informação
útil,
estes
 também
 parecem
 positivos
 aos
 olhos
 de
 Ana.
 «As
 farmácias
 de
 serviço
 então…
 Muito
importante…
Acho
que
facilitava
a
vida
a
muita
gente
(…)
É
uma
informação
que
toca
a
todos.
Na
 Internet
 é
 verdade
 que
 já
 temos
 tudo,
 mas
 esquecemo‐nos
 que
 Portugal
 tem
 uma
população
 muito
 envelhecida
 e
 o
 nosso
 concelho
 aqui
 de
 Alenquer
 também.
 Ou
 seja,
 nem
todas
 as
 pessoas
 têm
 capacidades
 nem
 sabedoria
 para
 trabalhar
 com
 a
 inovação
 que
 é
 um
 29
 


  30. 30. computador».
Na
 verdade,
 tudo
 isto
 são
 possibilidades
 que
 as
 famílias
 não
 sabem
 quando
 vão
 aparecer.
Apesar
 de
 alguns
 entrevistados
 já
 terem
 ouvido,
 de
 facto,
 falar
 no
 “apagão”
 analógico,
 14
famílias
 não
 fazem
 ideia
 da
 data‐limite
 para
 se
 concretizar
 o
 processo.
 Assim,
 na
 altura
 de
perguntar
 a
 data
 em
 que
 as
 emissões
 analógicas
 iriam
 deixar
 de
 funcionar,
 ouviram‐se
respostas
como:
«não»;
«não
faço
a
mínima
ideia»;
«não
sei
nada
do
que
nos
espera».
Quanto
aos
 procedimentos
 a
 ter
 nessa
 altura,
 como
 já
 foi
 mencionado,
 algumas
 famílias
 afirmaram
Figura
 12:
 Família
 “Andrade”
 –
 Família
 recebe
 a
 visita
 dos
 técnicos
 de
 uma
 empresa
 que
 faz
 a
 instalação
 da
internet
saber
da
necessidade
de
se
comprar
«um
aparelho»
(6
famílias).
Algumas
até
sabiam
o
preço
médio
deste
equipamento
(2
famílias),
mas
na
maioria
dos
lares
(18
famílias),
as
dúvidas
sobre
quem
será
afectado
e
como
deverá
proceder
subsistem.
De
 forma
 a
 compreender
 quais
 são
 normalmente
 os
 primeiros
 recursos
 para
 os
 indivíduos
quando
 têm
 alguma
 dúvida
 ou
 problema
 com
 equipamentos
 tecnológicos,
 foi
 colocada
 a
questão:
«Quando
não
sabe
como
funciona
um
dado
equipamento
electrónico,
como
resolve
a
situação?».
 A
 resposta
 mais
 ouvida
 foi
 «a
 familiares
 ou
 amigos»,
 com
 11
 famílias
 a
 eleger
 a
rede
 de
 conhecimentos
 mais
 próxima
 como
 o
 primeiro
 recurso
 em
 caso
 de
 problemas.
«Quando
há
qualquer
coisa
é
com
os
meus
filhos»,
conta
Joana,
de
71
anos.
«Recorremos
aos
mais
 novos
 (risos)»,
 diz
 Celeste,
 de
 74
 anos,
 referindo‐se
 à
 família
 e
 aos
 empregados
 do
 seu
restaurante.
«Tenho
um
familiar
muito
habilidoso»,
garante
Ana,
de
33
anos.
«Em
relação
ao
computador,
 tenho
 pessoas
 conhecidas
 que
 percebem,
 que
 me
 vão
 explicando
 algumas
coisas»,
 afirma
 Júlia,
 de
 26
 anos,
 depois
 de
 mencionar
 que
 começou
 a
 fazer
 um
 curso
 de
 30
 


  31. 31. informática
 recentemente.
 «Ligo
 a
 um
 familiar
 ou
 a
 um
 amigo
 meu
 que
 é
 técnico»,
 explica
Jacinto,
de
32
anos,
que,
na
maioria
das
vezes,
consegue
resolver
os
problemas
sozinho.
Nota‐se
 que,
 muitas
 vezes,
 as
 pessoas
 com
 mais
 de
 50
 anos
 recorrem
 aos
 mais
 novos
 quando
 se
trata
 de
 resolver
 um
 problema
 no
 computador,
 no
 telemóvel
 ou
 mesmo
 na
 televisão.
 No
entanto,
 no
 que
 respeita
 a
 esta
 última,
 normalmente
 os
 indivíduos
 recorrem
 a
 técnicos
especializados.
 «Chamamos
 um
 técnico.
 Por
 exemplo,
 a
 gente
 tem
 a
 ZON,
 se
 temos
 algum
problema,
 ligamos
 para
 lá»,
 assegura
 Sofia,
 de
 37
 anos,
 já
 habituada
 a
 recorrer
 aos
 call
centers,
 tal
 como
 Amanda,
 de
 42
 anos,
 que
 afirma
 que
 se
 a
 televisão
 se
 desligar,
 liga
 para
 a
operadora.
«Recorremos
a
quem
nos
vendeu
o
equipamento
e
que
nos
possa
dar
assistência»,
descreve
 também
 Sónia,
 de
 35
 anos.
 «Falamos
 com
 os
 técnicos.
 Normalmente
 nós
 estamos
sempre
 em
 contacto
 com
 eles
 se
 for
 preciso
 alguma
 coisa»,
 explica
 Carla,
 de
 65
 anos.
 Por
outro
lado,
houve
famílias
5
que
afirmaram
que,
antes
de
pedirem
ajuda
a
outros,
consultam
o
manual
de
instruções
do
equipamento,
havendo
ainda
casos
em
que,
se
o
manual
não
ajudar,
se
recorre
à
internet.
«Também
nos
suportamos
na
net.
No
outro
dia
eu
não
sabia
do
manual
de
instruções
da
consola
para
sintonizar
um
comando
e
fui
ver
na
net»,
descreve
Adelaide,
de
33
anos.
«Se
as
instruções
não
me
esclarecerem,
vou
à
net
procurar
a
marca
e
tento
encontrar
instruções
 com
 bonecos,
 que
 sejam
 de
 percepção
 mais
 fácil»,
 responde
 Ana,
 de
 34
 anos,
habituada
 a
 lidar
 com
 tecnologia.
 Há
 ainda
 quem
 prefira
 resolver
 os
 problemas
 através
 da
“experimentação”,
ou
“aventurando‐se”.
Cinco
famílias
referiram
este
método.
A
TV
nos
próximos
5
e
10
anos


 Pedimos
aos
entrevistados
que
se
imaginassem
daqui
a
cinco
anos,
e
nos
dissessem
se
estariam
a
ver
mais,
menos
ou
o
mesmo
tempo
de
televisão
do
que
actualmente.
As
respostas
foram
 variadas.
 Começando
 pelos
 que
 se
 projectam
 a
 ver
 mais
 tempo
 de
 televisão
 (12
famílias),
podemos
destacar
aqueles
que,
com
o
avanço
da
idade
e
a
entrada
na
reforma,
se
imaginam
a
ter
menos
actividades
fora
de
casa
e,
consequentemente,
a
passar
mais
tempo
em
frente
 ao
 ecrã.
 «Acho
 que
 vou
 ver
 mais
 ainda.
 Já
 posso
 sair
 menos…
 Cada
 vez
 vou
 podendo
sair
menos
e
acho
que
poderei
ver
mais
ainda.
E,
na
medida
em
que
estou
sozinha,
não
vejo
outras
 alternativas»,
 antecipa
 Joana,
 de
 71
 anos,
 explicando
 que
 só
 quando
 vai
 a
 casa
 dos
filhos,
 ao
 fim‐de‐semana,
 se
 sente
 mais
 acompanhada
 e,
 ainda
 assim,
 acaba
 sempre
 por
 ver
televisão.
«Se
for
vivo,
de
certeza
absoluta
que
vou
ver
mais
televisão.
Porque
daqui
a
cinco
anos
já
tenho
65
anos,
já
vou
para
a
reforma
e
vou
ter,
portanto,
mais
tempo
livre
(risos)»,
diz
João,
de
59
anos.
«Começo
a
ter
dificuldades
em
mexer
no
computador
e
deixo‐me
adormecer
a
 olhar
 para
 a
 televisão
 (risos).
 Digo
 eu,
 mas
 isso
 é
 no
 caso
 de
 perder
 a
 mobilidade,
 etc.»,
 31
 


  32. 32. prevê
João,
de
77
anos,
que
actualmente
passa
a
maior
parte
do
tempo
no
computador,
com
a
gestão
 de
 dois
 blogues,
 colocando
 a
 TV
 num
 segundo
 plano.
 «Daqui
 a
 cinco
 anos
 os
 meus
netos
já
são
maiores,
já
não
estão
aqui
com
a
gente
e
já
temos
que
ter
qualquer
coisa
que
nos
entretenha
 (risos).
 A
 televisão
 é
 uma
 companhia»,
 desabafa
 Paula,
 de
 59
 anos.
 Há
 também
quem
 se
 projecte
 a
 ver
 mais
 televisão
 por
 ser
 sinal
 de
 melhor
 qualidade
 de
 vida,
 e
 quem
coloque
a
melhor
qualidade
de
imagem
–
que
a
TDT
poderá
trazer
‐
e
a
melhor
programação,
como
 factores
 que
 decidirão
 o
 maior
 ou
 menor
 consumo
 de
 televisão.
 «Se
 for
 assim
 (com
 a
TDT)
 acho
 que
 vou
 ver
 mais,
 porque
 assim
 já
 não
 há
 interferências
 e
 uma
 pessoa
 pode
escolher
 o
 canal
 que
 quiser
 ver»,
 reflecte
 Catarina,
 de
 73
 anos.
 «Provavelmente
 mais…
 Se
tivermos
 mais
 tempo
 disponível
 e
 se
 a
 programação
 agradar…
 Agora,
 se
 a
 programação
 não
agradar,
 aquilo
 tem
 ali
 um
 botão
 e
 a
 gente
 desliga.
 Até
 porque
 gostamos
 de
 ouvir
 música
 e
isso
é
uma
grande
vantagem»,
promete
Manuel,
de
71
anos,
mais
adepto
da
rádio
do
que
da
televisão.

No
 que
 respeita
 aos
 elementos
 de
 14
 famílias
 que
 planeiam
 ver
 menos
 televisão
 do
 que
actualmente,
verificamos
que
são
indivíduos
mais
jovens
que,
com
o
maior
peso
do
trabalho
e
a
diminuição
dos
períodos
de
lazer,
contam
ver
menos
televisão.
«Menos.
Isto
cada
vez
temos

Figura
13:
Família
“Graça”
–
Celeste
acha
que
ver
cinco
horas
por
dia
de
televisão
já
é
suficiente,
e
confessa
que
gostaria
de
ter
um
cinema
em
casa

que
trabalhar
mais
para
ter
alguma
coisa
(risos),
sublinha
Margarida,
de
35
anos.
«Da
maneira
que
 o
 país
 está
 acho
 que
 não.
 Porque
 acho
 que
 nós
 cada
 vez
 trabalhamos
 mais
 e
 cada
 vez
temos
menos
tempo
para
o
lazer,
defende
Ana,
de
33
anos,
acrescentando
que
valoriza
muito
 32
 



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