conto crônica poema       coelho de moraes                      1
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conto crônica poema                                                         coelho de moraes        A bicicleta era nossa ...
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conto crônica poema                                                      coelho de moraesJESUS EM APARECIDAMateus (21,12):...
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conto crônica poema                                                      coelho de moraesDIÁRIO DE PIRATADia Um, como se n...
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COLEÇÃO DE TEXTOS ONDE MOCOCA É PANO DE FUNDO E INSPIRAÇÃO.

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Conto crônica poema

  1. 1. conto crônica poema coelho de moraes 1
  2. 2. conto crônica poema coelho de moraes Direitos de Cópia para Cecília Bacci & Guilherme Giordano ceciliabaccibscm@yahoo.com.br menuraiz@hotmail.com EDITORA ALTERNATIVAMENTE produtoresindependentes@yahoo.com.br TIRAGEM 15000 POR E-MAIL DOWNLOAD EXCLUSIVO http://www.paginadeideias.com.br Coleção BROCHURA / PDF / ESPIRAL Capa COELHO DE MORAES coelhodemoraes@terra.com.br Cidade de Mococa São Paulo julho 2010 2
  3. 3. conto crônica poema coelho de moraesCONTO CRÔNICA POEMA Coelho De Moraes 3
  4. 4. conto crônica poema coelho de moraesCÂNTICOS ESPIRITUAISNão(!), não é uma idéia nova. Vejamos os Salmos. Reconhecidamente peças literárias que sepode acompanhar com saltério de plectro (sabe, aquele instrumento que se vende nas praças:uma tabuinha com cordas tendo um papel com a música por baixo, sendo tocado com a penade algum frango desavisado "?", pois é! é ele), címbalos (pequenos pratos), aulos (simplesflautas, como as de bambu) e órgãos (que, possivelmente, eram tubos soprados por algumtipo de vento, fole armado com pesos de pedra ou água ou no braço de algum escravo). Ofato é que já se cantava, se tocava e se bailava em música de devoção. Davi que o diga.Exímio bailarino e sedutor. Urias que o diga.O texto que aqui vai é inspirado em DHARMENDRA, ou Ernani Fornari, que, por bem montouum livro com músicas para devoção, buscando facilitar sua execução de um lote delas, doOriente ao Ocidente. É muito satisfatório.Abro esta conversa falando sobre o Mantra (Man - pensar, meditar, devanear, articular umaforma mental, e Tra - instrumento, objeto para emissão de som). O Mantra é a palavra, ou otexto sagrado retirado das escrituras védicas. E o que é o Veda? Pergunto e respondo: sãoantigos textos sagrados dos hindus. São Shruti, ou seja, texto da revelação divina, escritos emsânscrito, por volta de 1500 ou 2000 a.C., durante e após o período de invasão ariana àÍndia: Yajurveda - ritos de sacrifício; Samaveda - melodias e cânticos para sacrifício;Atarvaveda - fórmulas e palavras mágicas; Rigveda - hinos de louvor a deuses da natureza,principalmente Agni (o do fogo).O idioma sânscrito, por causa da sua fonética, tem a capacidade de criar vibrações e favorecera emanação de energia de suas fontes. Daí que cantar adequadamente o seu mantra ou oMahtma Mantra (o Grande Mantra) conhecidíssimo como OM, o leitor estará energizando-sede maneira ímpar. Experimente. Por isso comprova-se como verdadeiro o dito popular de que"Quem canta os seus males espanta", porém em parte, já que nos tratos da energia é sabidoque energia não tem direção nem sofre a ação do maniqueísmo - energia Má ou Boa - energiaé energia e só. O uso dela é que pode se alterar. De qualquer maneira, diz o autor, aentonação correta dos mantras nos coloca em sintonia com Deus.Há mantras curtos, longos, secretos, populares.Combina o mantra com três formas básicas: Bhajans - canções devocionais normalmentelentas, de adoração acompanhada por harmônio, flauta, tampoura (um tipo de instrumentode corda); Kirtans - canto geralmente acompanhado de dança vindo com karatalas (pratinhosde mão) e mridangas (tumbadora com pele nas duas extremidades). O participante baterápalmas e acompanhará o cantor; Japa - canto de repetição onde se repete o nome dadivindade ou um mantra completo.Importante em todas essas situações é que o aspecto de devoção está sempre ligado ao fatoralegria, na ato de dançar e movimentar o corpo e respirar e ser saudável.OM SARVE SHAM SWASTIR BHAVATU – leio:OM SARVE CHAM SUASTIR BHAVATU (h aspirado ou r carioca, as sílabas com o mesmo pesotônico). 4
  5. 5. conto crônica poema coelho de moraesKETZACOATLCresce sobre nossa terra a serpente / toda de ouro e solE do chão se vai o pranto / a clamar por paz pra nossa gentePassa pelo céu como um corisco aveludadoe rasgando vai a imensidão do azulÉ um anjo emplumado / serafim com tanta asa /Que escurece a nuvem da manhãEle é nosso rei senhor / Ele é KetzacoatlPreces cantam nosso povo / acredite a vida é duro fioE da mão se faz um tanto / a gritar por flor e um canto novoPassa pelo céu como um brilhante cravejadoe rumando vai na direção do anilÉ o algoz dos enricados / um arcanjo disfarçado /Que incendeia os mares / num brasilEle é nosso rei senhor / Ele é KetzacoatlOuve / ouve a minha preceCanto bem alto / quero que o céu / olhe por mimEu... / eu já não tenho de meu mais nada /Só minha sombraE talvez o chão pra percorrerMas se eu encontrar / a tua sombraTudo o que é que sonho a mim viráAh! / Que ousadia / eu me intrometerA serpente emplumada há de me atender?Encherá de nenúfar e néctar o vaso /Esse meu corpo de barro sagrado /Cresce sobre nosso mundo a serpente / toda de ouro em póTraz consigo a semente fecundada / germinada / vivaPassa pelo céu como um corisco em flor carnadoe rasgando vai a imensidão do azulVem do mar oriental / rompendo o ar que nos envolveCom / a / sua branca luz solarEle é nosso rei senhor / Ele é KetzacoatlPreces cantam nossa gente, acredite a vida é duro fioE da mão se faz cinzel / a gritar por flor e um canto novoPassa pelo céu como um brilhante marejadoe rumando vai na direção do anilÉ o algoz dos poderosos / um arcanjo disfarçado /Que incendeia o oceano / num brasilEle é nosso rei senhor / Ele é Ketzacoatl 5
  6. 6. conto crônica poema coelho de moraesO PESO POLÍTICO DE UM FÁ MAIORNão há a necessidade direta da consciência.Tudo pode - como acontece -, no cômodo repetir quotidiano. Da rotina que nos leva e trazpara atos impensados, mas reais.Ora, direis, que política haverá por trás de um Fá Maior?Haverá a política das Igrejas e dos poderes medievais estabelecidos. E vejamos como.A voz humana tem limites. A voz humana canta. E canta dentro de limites. Normalmenteprocura o limite que lhe é mais cômodo, para cantar sem grandes esforços.Muita música é construída em função disso. Fica fácil para qualquer um cantar. A construçãode um hino tem essa obrigação ou o hino ficaria ridículo - esganiçado ou gutural.Nos medievos, lá pelo século VIII ou IX, a Igreja Católica recebeu uma herança que foi asalmodia. E salmodia é cantar salmos ou recitá-los. E isso foi feito com o canto que chamamosGregoriano ou cantochão. As vozes - masculinas em sua maior parte - em uníssono a entoaros salmos e as orações.A Igreja era dona de um poder magnífico, costas largas, se dizendo representante de Deus, etodos sabemos o poder - aí sim - que tem a música. Ela envolve e enfeitiça. Qualquer padremedieval podia ser acusado de bruxaria em função da música.O fato é que ao se cantar dentro da tessitura cômoda do canto, dentro das igrejas oumosteiros, aquele volume sonoro se expandia e caía como um pesado fardo opressor sobre aspessoas, especialmente quando a fundamental de um modo (se é que podemos ter essaliberdade) desabava sobre as palavras mais terrenas como "pecado", "humanidade", "poder deDeus", enquanto as notas mais agudas e singelas ou sensíveis cabiam para as passagens ondeo texto dizia "céus", "excelso", "santificações".Quando aquele Fá Maior - ou Mi Maior ou Mi bemol Maior, tanto faz, pois o diapasão daépoca mudava de país para país sem, no entanto, fugir daquele "comodo cantabile" - quandoele passava a expressar sua pujança, ao fim do canto o confessionário era tomado a tapa pelaplatéia...ou fiéis.Era a Igreja passando a sua informação e demonstrando a sua condição de baluarte deverdades. A música logo de início sendo usada como dominadora de mentes e mentora.Eis o princípio gerador do que hoje dizemos ser música comercial e música artística.A primeira obedece a fórmulas - olhe o termo - consagradas (ligadas ao sagrado), queidentificam o ser com uma verdade qualquer que, comodamente, ele não quer negar, pois ofaria pensar e - sabemos - pensar dói.A segunda, preocupada coma criação de novas linguagens e imagens, passa a ser tida comoprofana, de difícil compreensão e, portanto, desagregadora, obrigando a um estudo equeimação de mufa constante. Cuidado com a música que você ouve. Poderá estarequivocado e começar a fazer coisas que nunca faria antes, como rebolar sobre uma garrafa,saltitar como um boneco de cordas, cantar repentes de presidiário, oferecer o tchan e aindadescobrir que está completamente inserido no contexto dos consumidores insanos. 6
  7. 7. conto crônica poema coelho de moraesLIBERDADE... AINDA QUE TARDEChefes Reis e Governantesserão sempre tiranosSuas idéias de Bem e de Malimposta sobre a multidão servilque se amotina e que se traie, por se trair à servidão retornaAo lutar se retrai esse povo / é mentira que é povo de paz /certamente é um povo covardeEntão retornam a servidãoDa desunião nasceu a traiçãoSem pensamento sem lutaSem voz ativa sem garra não teremos PátriaCada um luta buscando iguaisdo lado que mais lhe convém lutarHá sofrimento e um preçoAlgo além desejar: O sonho de ser livreLiberdade mesmo que tarde / Liberdade e Fraternidade /Igualdade mesmo que tardePor desejar algo além / Inalcançável utopia /o sonho do crescimento / da busca infinda / eterna /a nos obrigar a lutar pelaLiberdade / liberdade 7
  8. 8. conto crônica poema coelho de moraesSERVIÇO MILITAR OBRIGATÓRIO?Eis aí uma atividade arcaica, completamente perdida no tempo por variadas circunstâncias.Uma delas, e penso, a mais importante, é o fato de ser obrigatória.A pergunta que, imediatamente, me vem, é: Para quê?Fabricar soldados da reserva, potencialmente armados ou aptos a lidar com armas.Novamente: Para quê?A desculpa é a possível invasão de algum povo bárbaro que, ensandecido, tenta tomar nossasterras e violentar as mulheres ou alguns homens. Invadidos já estávamos, quando atrelamosnossa soberania ao Fundo Monetário Internacional - FMI - e, que eu me lembre, nuncapediram para que eu guerreasse contra os monetaristas.Só resta o fato de que essa obrigatoriedade está estribada em uma atitude ditatorial,opressora, oportunista, inconseqüente e castradora.Parece que os que bolaram isso - todos os Bilacs parnasianos e ocos do mundo - quiseramfazer mães e filhos sofrerem a troco de nada. A troco da formação de buchas de canhão.Ora, se se é obrigado, aos dezoitos anos, sofrer o Serviço Militar - sim, pois isso é um quadroclínico - e Obrigatório, por que não fazermos o Serviço Teatral Obrigatório? Ou o ServiçoMusical Obrigatório? Ou de Artes Plásticas, também obrigatório? Que tal o de Literatura...Obrigatório?Muitas serão as vantagens. São serviços que podem ser feito por ambos os sexos. Dificilmentemanterá um sentimento belicoso no ser humano, aliás, é justamente o empreendedor dehumanidade no ser. Ciências Humanas, de nosso largo conhecimento. São produtores deconciliação e são apoiados pela teoria da relatividade: tudo tem outras maneiras de se expor etudo tem vários significados ou caminhos - contrário aos ensinamentos militares onde acriatividade é nula e os modelitos usados são "kitsch".Quem tiver tendência ao militarismo ou for levado a isso pela família terá a opção do ServiçoMilitar...agora opcional. Da mesma forma que as pessoas artistas terão a opção de outrosServiços entre os listados acima e outros que inventaremos ao longo do tempo.Já pensaram nosso jovem recebendo sua convocação para se alistar no Grupo Coral maisperto, tendo que cantar em coro durante um ano?Ou se inscrever num Grupo de Teatro e montar uma peça ou duas no ano?E para fazer essas coisas inteligentes não é preciso levantar às quatro da manhã. Só temvantagens, esse negócio.É claro que as armas de guerra não terão mais em quem mandar, o que será uma perda...mas, só para eles. Nada que importe.Se as três armas - Água, Terra e Mar - ainda quiserem gastar dinheiro à-toa poderão financiartambém esse Serviços Opcionais. Ninguém reclamará.Então, hoje, começamos a pensar nisso.Queremos o fim do Serviço Militar Obrigatório.É uma bobagem sem base científica ou humana.Não estamos na Idade Média (talvez alguns). As pessoas usarão farda se quiserem. Mas,poderão querer mexer em tinta, ou escultura, ou num violino, talvez numa caneta e emeditores de texto.Os jovens terão meu apoio para acabar com essa pusilânime obrigatoriedade.Essa prática da Autoridade Nenhuma.As Escolas devem fazer a sua parte. 8
  9. 9. conto crônica poema coelho de moraesPOESIA ANACRÔNICA IDessa vez temos oportunidade de entrar em contato (não muito íntimo, acredite) com o poetafenício Abu-ben-Bim-bom. Além de divagar e devanear, ainda se deu ao luxo de querer olugar de Hamurabi, o do Código. Não tendo conseguido seu lugar ao sol do deserto, nem àsombra do palácio, Abu-ben passou a escrever. Como esse pessoal que nasce pra lá da divisãoda Terra escreve da direita pra esquerda, o nosso tradutor teve certos problemas na colocaçãode algumas palavras. Mas - para o que é -, serve.Dão!Beu cabelo dão!Gomo farei bara beber a areia do deserto?!?!Dão, dão!Bor que lebaste Kabel, bara o oásis de Omar?Kabel, o cabelo, é beu trâsborte,Beu aconchego das horas tardias da doite.Abu chora.Abu quer Kabel.Kabel me deixou para cantar no coro muslim.Cabelo fii da mãe, esse!! 9
  10. 10. conto crônica poema coelho de moraesUM SARAU NADA AMISTOSOImaginemos que artistas renomados se reunissem alhures.Do que falariam, imersos em suas ociosas genialidades, algures escondida, crípticas nasimensas circunvoluções de seus cérebros?Lendo Cesar Pinto, topei com um série de fofocas brejeiras que certamente, como boasmentiras, farão parte dos saraus onde os artistas estiverem.A mesa farta, talheres de prata e Haendel falando sobre Gluck:—- O meu cozinheiro é mais músico que Gluck. Do outro lado Rossini grita:—- É por que você não conhece a música de Weber. Me dá cólicas.Mas certamente haverá aqueles com dor de cotovelo, porém, justos. André Getry, célebrecrítico teria dito de Mozart:— Ele coloca a estátua na orquestra e o pedestal na cena.Ainda na mesma mesa, com a colher silverada empapuçada de maionese ouvimos a opiniãode Schumann:—Você, Rossini, é o mais notável pintor-decorador, mas se tirarmos a iluminação fictícia e asedutora perspectiva teatral, não sobra mais nada. Você é uma borboleta que voa pelocaminho da águia. A águia é Beethoven. A águia se desviou para não esmagá-la com o baterde suas asas.É claro que temos que descontar a pinimba entre italianos e germânicos.Sabemos também que, entupido de dinheiro, Rossini se desligou do show-business. Elemesmo dizia que sempre usou fórmulas que sempre deram sucessos.Há pinimba entre franceses e germânicos. Berlioz disse que se achava vingado ao ouvir aimensa vaia na estréia do Tanhäuser de Wagner. Mas, cá entre nós, Wagner vivia de vaias.Conhecemos povo de melhor nível.Tchaikowsky — um dos meus prediletos — dizia que a música de Brahms não lhe despertavacalor, mas frio, sendo grave e profunda, às vezes sublime. Taí um cara mais fino.Sobre Wagner, um outro francês, provavelmente na Sala de Fumar, Camille Saint-Saens — omais sábio dos músicos:— O wagnerismo, sob pretexto de arte, foi uma maravilhosa máquina montada para roer elimar o patriotismo dos franceses . Era a alma alemã se insinuando pouco a pouco em nossopovo.Para acabar essa contagiante fofocada, tem uma do Liszt.Nicolau da Rússia, o Czar, disse que não apreciava duas coisas em Liszt: seus cabelos longos eas suas opiniões. Liszt sabendo disso mandou a seguinte resposta ao Czar:— Quanto aos meus cabelos, deixei-o crescer em Paris, e só em Paris eu os cortarei.—Quanto a idéias políticas, só as direi quando tiver 300 mil baionetas à minha disposição. 10
  11. 11. conto crônica poema coelho de moraesLILITHEu seiA lua vem manchar o teu saberBrilhar no paraíso / Luzir onde é precisoRasgar a minha pele /Expor tesouros tão vastos como o marVouO mundo me espera do outro ladoUm mundo repleto de paixõesMuito além do jardimNão pensa que tem poder para impedirEu parto e não voltoAcreditei / mas eu não via nada cativanteSaio já / Saio jáÉ hora de despedirAdeus / a lua é negraCansei do nada igualFaltou mais vida e salO portão já vai se abrir /e aquele anjo está prestes sorrirVouO mundo me espera do outro ladoUm mundo repleto de paixõesMuito além do jardimVejo que o mar já queimaArde em fogo / É um sol /e a vida vai brotar em mimE o que resta fica aquiParto agora / digo adeus / e vou 11
  12. 12. conto crônica poema coelho de moraesANÁLISE SEMÂNTICA E FILOSÓFICASOBRE A PALAVRA BOCETApelo indefectível Dr. Valfrido Masca-AraniasValfrido Masca-Aranias é irmão em primeiro grau de Boiardo Masca-Aranias, outro articulista.Os dois são colegas de academia da Dra. Moth de Costard e primos por parte de não se sabede quem, de Akenathon Pinto, tio de Tut-Ank-Os-Pés. A questão de comer (ou mascar)aranhas não tem nada a ver com a presente análise, pois nem um nem outro irmão mantevequalquer contato com Raul Seixas e ou Paulo Coelho enquanto estes ainda eram vivos, muitoembora tenham, os dois, Boiardo e Valfrido, um pezinho na família dos leporídeos, a dos taiscoelhos e afins. No brasão da família consta um báculo e dois destes bichinhos caídos, um dolado do outro, ao que consta, mortos ou dopados. Ou "do prados", para fazer um trocadrilho(como diria Toni Quéloguis) infame com os coelhos. Sob estas figuras, uma inscrição, emlatim: Matatum une duni cuniculus cum unicum baculoratum. Amém.Vade retro nu rectus tuus.Para saber a tradução, escreva para scarparomaciel@uol.com.br pedindo a transcriçãointegral a um dos nossos sábios. Se quiser que façamos também o seu mapa astral, envie-nosdata e hora de nascimento, nome, telefone e o que fez na noite deste último sábado. Ah... nãose esqueça de R$ 5,00 (cinquinho) pro incenso e pra conta de telefone e uso da Internet.A palavra BOCETA é uma das mais ilustres palavras do vocabulário. Mas, só serve para quemfala. Não serve para quem escreve. E quando a BOCETA se instala na altura do pescoço —sabe-se lá por quais ginásticas — já começamos a nos referir a santos escapulários.Há quem diga que a BOCETA é uma caixinha ovalada onde muitos insignes enfiavam o dedoou depositavam seu rapé.Outros, mais afoitos, sugerem que é uma estrutura ovalada onde outros depositam outrascoisas, inhclusive o dedo. Kurulan, por exemplo, batedor etíope da minha colega Dra. Moth deCostard, deposita ali o seu báculo, com precisão beduína.Os cretenses, muito safados, dizem que a palavra deriva de BOQUETE que é um métodoantigo de cura contra os males da mordedura ofídica. Os cretenses teriam inventado o métodoquando Minos, pai adotivo do Minotauro, tendo ido visitar seu filho no labirinto, foi picado poruma cobra. Pasífae, mulher de Minos, porém, já uma vez jantada por Zeus — teve umarepentina idéia e mordeu a perna de Minos, com o intuito de arrancar a dor ou de piorá-la.Porém, em vez de agradecimentos ouviu:— Para com isso, mulher não foi aí! Foi aqui!— Aqui, onde?— Aqui. Nos entremeios da virilha.Bem, Pasífae disse que já estava acostumada com aquelas coisas de picadurismo de insetos eoutros bichos, tascou-lhe uma dentada lá nos entremeios das virilhas minóicas.Ao se levantar, Pasífae estava com a boca banhada em sangue; Argineu — que ninguémnunca soube quem é — já estava rindo quando tomou uma traulitada tamanha, que perdeu orumo. E saiu da história sem ninguém nem saber por que entrou. Labirintus in vitro.As moças de Creta começaram, então, a pintar a boca com um vermelho intenso — imitando 12
  13. 13. conto crônica poema coelho de moraesPasífae — para chamar atenção dos rapazes, como que demonstrando, que o que elas tinhamem cima era bem parecido com o que elas tinham, por debaixo dos panos, em baixo. Nosentremeios das virilhas.Como é sabido, em volta da boca temos músculos bucinadores. Portanto, bucinar, bucinare,buçanha (já aí uma corruptela). De BUÇANHA para BOCETA é um pulo ou uma abertura depernas, já que estamos na Grécia em tempos de jogos Olímpicos.O lema da bandeira paulista nos dá uma pista sobre essas desinências e magias dovocabulários: "Non ducor. Duco". Ou seja : "Não sou conduzido. Conduzo". Exegetas expõem aidéia de que a palavra BOCETA deriva também de expressões idiomáticas daqueles povos doPindo, já devidamente invadidos pelos latinos ladinos Romanos. Alguém poderá ter dito: "Nonbucor. Buco", ou seja. "Não sou abocanhado. Abocanho"; querendo dizer "Como com a boca,Envolvo com lábio e degluto, Boqueta-se, enfim, BUCETA-SE. A palavra muda com o tempo elugar.No entanto, isso parece mais uma coisa chula do que de exegetas.A gente ri e pronto.Muitos povos transformam o V em B e vice-versa ou bice-bersa. São modos de falar. Como oslatinos já se apropriavam das coisas dos outros, naquelépoca, há uma linha de estudos quequer indicar a origem das palavras de nada mais e nada menos que de VOX, VOZ. Aquele somque sai da boca. Certos povos, ainda não estudados devidamente, diriam BOX OU BOZ. Umpequena voz: vozeta, vozetinha e vocês já sabem como fica o resultado disso. Um vozeirão,então... mas, são itens a serem ainda comprovados por mentes mais científicas.Bem, certo de que o tema foi palpitante, carente ainda de mais estudo e pesquisa, daremospor encerrada nossa conversa de hoje.Prometemos para o futuro uma análise importante sobre a palavra CULATRA.Só. 13
  14. 14. conto crônica poema coelho de moraesPOESIA ANACRÔNICA IIApresentamos a poeta Anninha. Doce, afável, de olhos azuis e uma tez aveludada, uma cútisagradável de se tocar co’a fímbria dos dedos; nos surpreende quando extravasa as suaspotencialidades de artista e mostra o seu outro lado, ficando imediatamente de costas.No nosso grupo é a mimosinha do papai Tunico e foi ela quem deu a idéia daquele cuboenxadrezado, que é o símbolo da nossa equipe de literatos.Ela sempre mantém os pés no chão ao recitar e quando saem seus versos é possível ver suaúvula tremulante e vermelha, na expressão máxima da sua veia poética. É, decididamente,uma poetisa venérea. Essa poesia é em homenagem a ela mesma e a todas as poetas manuais. A POE(nhe)TAMãos másTurbamPensamentoMãos levesRoçam láRoçam lábios... RoçamMãos másCarasBocasBaba-beijoSalivoso... pensamentoDança leveAbro a portaA salivaA gosma leveLeva-te ao meu sucoSuco meuAparta leveLábios meus... InvadaMãos másTurbam-se a siNo portar do glúteoLouco apertoMexo leveManso ir e virSuplicoGemer cantoInvasor tesoInvaginar... Aberta a mina 14
  15. 15. conto crônica poema coelho de moraesKAROSHI: TRABALHO ATÉ NA MORTEManda a sociedade / nós obedecemostrabalho é punição / trabalho é banco abertotrabalho é lucro alheio / na da mais / nada menosQue fará o mundo numa greve eterna onde todos parem?Que fará o chefe sem poder mandar - manifesta tara?Karoshi: no Japão / trabalha até morrer / pois a fila é grandetrabalho e vitória são hinos danados / ocupam nossa almalá na escola / jovem puro /enfiou-nos na cabeça o futuro / o amanhã que nunca veioenfiou-nos na cabeça o professor / que já morreutrabalha para o país / e menino de amanhãTorpe a idéia da vocação / o dom / o talentoQuer saber? Para de trabalhar / deixa o banco / sai da fábricaVá fazer poesia / faça música doentia / sobe ao palco / mete o malhoO jornal te espera em brancas folhasNotícia:operário agressivo segue ordem densa durasobrecarga é o trabalho / a ninguém dignifica /a vítima sofre dos nervos / o dono da empresa coleta o dinheiroa vítima se perde nos rumos / o dono da empresa vai a ParisNotícia:Nasceram margaridas nos camposNinguém veio colherMuita gente foi ao SUSMuita gente ficou láa vítima se perde nos rumos / o dono da empresa vai a Paris 15
  16. 16. conto crônica poema coelho de moraesBOMBA!!!D. SEBASTIÃO RETORNA DE ALCÁCER-KIBIRdo correspondente Amenófis PintoÁfrica ( UPI ) – A notícia caiu como uma bomba em Porto Calle. O amado Don Sebastião, dado comomorto na batalha de Alcácer-Kebir, após centenas de anos, retorna mais jovial do que nunca,reclamando tronos e vantagens.Veio diretamente para a Colônia e hoje o encontramos às portas dos gabinetes governamentaisrequisitando o poder que era seu de herança e de direito e de fato – tudo ao mesmo tempo –mandando que um tal Fernando caia fora – imediatamente – do trono português.As autoridades européias não querem facilitar a coisa para o fantasmagórico Rei e afirmam que lutarãonas cortes de todo o mundo para a manutenção do status quo daquelas regiões.D. Sebastião, logo ao chegar, tomara posse de terras em Brasília e na Bahia, determinando um ReinoAlgarviano na faixa que liga as duas capitanias. Com ele vieram 2 638 soldados muito bem treinados emais 1200 mercenários africanos que se aliaram ao reaparecido monarca durante esses anos todos.Para esse bando de gente burra que não sabe nada, D. Sebastião, também conhecido como "oDesejado", foi o décimo sexto rei de Porto Calle, filho do príncipe D. João e sua Mulher D. Joana, o queaté hoje é motivo de debates e seminários, o fato dele ser filho de sua própria mulher e ao mesmotempo um homem traído. Isso fez com que ele se enfronhasse nas guerras.Quando alcançou a maioridade, empreendeu expedições a Tanger e a Ceuta, desaparecendo nabatalha de Alcácer-Kebir que é uma cidade (alcácer – the castle - o castelo) do Marrocos mais oumenos do tamanho de Casa Branca.Estamos todos aflitos à espera de uma invasão.O exército se manifesta e se põe de prontidão. O TG de Mococa está emprestando uma artilhariapesada para impedir a entrada do monarca em terras mocoquenses. Foi pedida a ajuda de El Cid, elspaniol, que sabe falar e comer muitas línguas.A guerra parece iminente!Amenófis Pinto, Irmão de Akenathon Pinto, envia do Continente Africano notícias fresquinhas sobre omundo moderno, o de 500 anos atrás. Como ainda não mandou nenhuma fotografia sua para aredação, não sabemos nem como ele é. Mas para não deixar você, leitor, sem nenhuma figura paraabstrair, fica valendo esta mandala. Sem trocadilhos, evite criticar esta matéria e mandá-la para o Cabodas Tormentas ou, como é chamado nesta porção ocidental de terra, "onde o Judas perdeu as botas",ou as meias (que é mais longe) ou, coisa que o valha. 16
  17. 17. conto crônica poema coelho de moraesMILÊNIOReverendo TiburtiusMinha gente, o novo milênio alcançou a cidade à toda. Atividade total. Muitas manifestaçõesreligiosas e científicas alvoroçam o morador da cidade que mais cresce nesse nordeste deEstado.Será uma Cidade-Estado? Não! Isso é coisa do passado.Agora é uma cidade abrigo de pássaros Beraldinos da cabeça branca, e, aquele outro pássaroconstrutor de torres, o tal do João Sem-Terra.Estamos no novo milênio e a cidade mostra toda a sua pujança e criatividade. Uma cidadesem preconceitos. Numa tacada só elegeu uma única pessoa com todas as minorias juntasembutidas nela. Só faltou ser negro, ou afro-algum lugar.É o tal do "modernismo" que muita gente repele. Os velhos ficam alucinados com as novidadese ficam mais velhos. Não conseguem dedilhar um ábaco nem a pau – coisa que qualquercriança chinesa fazia a 4 000 anos atrás. Eis algumas:Outra: O Papa tem novos filhos. Serão herdeiros do pontificado? Um desses filhos é mulher eum outro é mulherzinha... tá valendo assim mesmo?Descobriram ou inventaram ou roubaram uma nova música, éééééééé! Chama-se cantochão.O pessoal da Península Ibérica, principalmente os que ficam virados para o mar – os de PortoCalle - pensaram que era coisa de se cantar com a cara na terra ou algo parecido e já foramtorcendo o nariz para o modismo. Mas, não tem nada disso. É só u’a maneira nova de fazer acabeça do povo. Parece que o autor da nova composição se chama padre Martchelo.Dizem que é o Benedeto Martchelo, o nome do gajo.Na Cidade, é bem sabido, o novo milênio vem trazendo alucinações. O alcaide do Burgo iatentar o poder novamente, mas sua candidatura foi pro buraco (sem risos!!) e a oposição searticulou em torno de uma tchurma nova. Eles carregam uma estrela vermelha e deram o quefalar. Gastaram pouco e ficaram lado a lado com o que gastou muito e teve o mesmo númerode escolhas. Mas quem ganhou mesmo foi uma equipe de contrabandistas de um outropássaro – em extinção, é bem verdade – um que tem nariz grande, amarelo e preto.Ganharam e queremos ver levar.Na Cidade há pouco teatro, há pouco grupo coral (mesmo porque essas coisas aparecerão sódaqui a quinhentos anos. Não vamos nos precipitar). Por outro lado, alguma coisa nova naarte da tortura já está em ação: a fogueira, por exemplo. É uma invenção recente. Antes sededicavam ao palito entre as unhas (inspirados nos fenícios de um tal Malufio), e na costurade vaginas rebeldes, para adúlteras e viúvas – alguns ainda usam enfiar o palito nas vaginas— porém, o novo milênio trouxe a modernidade e agora eles usam fogueiras. Joana d’Arcserá a matrona da primeira fogueira.Na Cidade, estamos no ano 1 000. Muita gente morreu por isso, pensando que o mundo fosseacabar. De certo modo, para esses que morreram, o mundo acabou e não foram poucos. NaCidade eles não acreditam de jeito nenhum que o mundo seja redondo. Para eles, o planeta éum cubo. Não sabem ainda, do uso de caravelas, mas parece que reconhecem logo de caraum côco. Quem tinha deu e quem não tinha comeu, e assim foi. 17
  18. 18. conto crônica poema coelho de moraesÉ a crise da passagem do milênio.Eu, Reverendo Tiburtius, alquimista, discípulo de Paracelso, de hoje em diante o cronista daCidade, contando a saga daquela gente moderna e acompanhando, de longe, a passagem dotempo.E, fiquei sabendo agorinha, uma notícia de matar o ganso: Don SEBASTIÃO RETORNA DEALCÁCER-KEBIR. O nosso correspondente Amenófis Pinto trará detalhes.POESIA ANACRONICA IIIRecebemos uma cartinha sensível de um poeta magistral. O Rabino Joshua. Dono de uma veiasó, ele, sempre que pode, vai ao hospital desentupi-la. Os médicos já o proibiram,peremptoriamente, de escrever poesia. No entanto, o nosso estimado Rabino Joshua semprenos surpreende com sua fecundidade, facundidade e ficundidade (ele tem uma produção defigos, em Israel). Eis sua obra:Queria teu queijo, forte e catingosoTeu queixo pontudo dilacera meus olhosE choro...Os crocodilos de Jafa não choram como euE o queijo, como eu.A pele da mama, quente de sol,Me dá um queijo prontoE choro...Tira esse queixo da minha orelha !! 18
  19. 19. conto crônica poema coelho de moraesVOZ DO INTERIORHá grupos artísticos – assim se denominam – no interior, na interland, fora do circuito dacapitais.Os grupos se acham artísticos e se dizem culturais.Misturam tudo isso ao ‘aprendizado’ advindo da televisão e começam a elucubrar o sonhoglobal.Falta a formação. O básico da formação. Falta a leitura e a capacidade de saber ler. Faltasaber ler e pão isso entender o texto.Um dia ator interpretava um texto e perguntei-lhe sobre o significado de uma palavra que eledissera. A resposta foi: É... procurei em vários dicionários e não encontrei. (pausa) Ia até teperguntar.Uau!Uma palavra que não tem nos dicionários.Nos vários dicionários que ele pesquisou. E que tendo pesquisado e nada achado, interpretouassim mesmo.Interpretou o que? A falta do significado?E que dicionários são esses, exaustivamente procurados, que não possuem a palavra‘imberbe’?Acima foi o exemplo da maioria dos grupos interioranos. Há músicos que são (sic) ‘auto dedatas’; assim se chamam ‘auto de datas’, orgulhosos da situação. E é mais um exemplo doequívoco geral.Nenhum deles é humilde. São todos arautos da cultura ou da contracultura mas, enfim, sãolutadores anacrônicos de uma era rebelde que já foi, cujos frutos colhemos agora, e,percebemos que os frutos estão sem sumo.O equívoco finaliza quando o pretenso artista tem que entrar no mercado de trabalho e vaidireto para a loja, vender eletro-domésticos, pois têm de sobreviver, eu acho.São desculpas, pois enquanto são jovens desdenham a busca da formação e praticam,viciosamente, a construção do ator segundo a técnica d’A Malhação. É triste.São rebeldes e exigem apoio do poder público, de quem se dizem inimigos. Chorosos clamam“ninguém nos apóia”, como se dissessem “nós, gênios das artes, ninguém nos dá apoio,temos a sabedoria das musas, ninguém nos apóia”, e copiosas lágrimas crocodilianas caemsugestivamente.Sábio aquele, interiorano, que desenvolve sua arte abrindo a mente para as várias tendências.Sábio o que ouve e aprende, e apreende e testa para ver se é bom mesmo.Sábio o que lê e se nutre da experiência alheia.Pobres PaulosVilhenas sem QIs em todas as suas articulações. Pobres! 19
  20. 20. conto crônica poema coelho de moraesMINICOITONesse sincronismo de andar de Gradiva indica que o fetiche se mostra implacável. O senso dosincronismo é um sinal do gênio, já disse um certo Jeremias, enquanto lambiscava dedos eoutros artelhos. No entanto, a Gradiva – aquela que avança, - e a Gradisca – aquela queagrada ou dá – têm alguma coisa de similar em suas andanças pela face do abismo ou ruínas.As lendas, mesmo as verdadeiras, convergem a um imaginário perdido que enaltece qualquercego de espírito. Vejam o meu caso, absoluto ignorante nas coisas do dia-a-dia social, nuncapenso no coletivo da sociedade, mesmo porque eu cai aqui e não fui convidado por ninguém apartir dessa ou aquela civilização... se me fosse dado a escolher eu seria grego... que tenho aver com isso então? O ideal comum do sublime não me é suficiente para amar ninguém, muitomenos quem avança ou quem dá. Interessa o meu prazer direto.Foi com essa falta de atenção mundana que eu me apresentei à Gradiva tentando, no mesmomomento, beijar-lhe a fímbria da roupa, com meta de alçar-lhe os pés saltitantes. A meninapassou a correr desabaladamente enquanto eu me via preso por uma dentada, em sua roupa.Amante das artes da corrida de 100 metros Gradiva esfolou minha boca desejosa esfregando-a na areia da pista assim como quem nada quer. Não foi por isso que deixei de desejaraqueles pés ligeiros, parentes dos pés de Aquiles, se bem que os pés de Aquiles deixavammuito a desejar...Consegui reconhecer a inteligência da velocidade e arte da desenvoltura vendo-a pular pelasruínas de Atenas como quem foge de cabritos monteses. Em termos de expressão humanaGradiva era inumana e sabia disso. Uma deusa? Tudo bem, mas eu só queria seus pésconvidativos e sublimar o coito que não viria. Beijar-lhe os pés corresponderia a um rápidointercurso sexual. Acredito, muitas vezes, que com essas sublimações eu ainda atinja o statusde santo.A inteligência física, coisa que não me faz cabeça pois não me interessa o domínio da razão,é uma forma de inteligência importante para acadêmicos e outros doentes, mas é irrelevantecomo qualquer outra, para fetichistas de plantão, como eu.Gradiva era deusa. Deusa da carreira. Corredora dos mais amplos e largos saltos. Suas pernasatingiam amplitude de mulher lapidar. Mas, suas sandálias estavam sempre sujas. E isso écoisa de gênio. Não somente em termos de saltos ornamentais como em salto sobre obstáculo,mas também em termos humanos gerais de salto triplo. Ela, Gradiva, é matriz irreverente deoutras corredora sensuais de belo corpo e calças justas. Original da linguagem do atletismomais desenvolto; matriz de espasmos sexuais dos mais esportivos se bem que devendo tudo aOnan. Se corresse como correm os atletas nos vasos cretenses!Tirem a roupa de Gradiva e verão que não minto. Magnífica estátua surgida sob as mãos deum Fídias olímpico. Observem seus saltos e piques de oitocentos metros que já estão em nívelsobre-humano de coordenação, e percebam que minha boca ainda está presa aos ilhoses decouro de sua sapatilha bem moldada. Que pés. Que jarretes!Tenho trabalhado para escapar do feitiço de Gradiva, trabalho com artistas que me expulsamrapidamente de seus estúdios, pois quando chegam no final do dia há pés espalhados por 20
  21. 21. conto crônica poema coelho de moraestoda parte. Pés de pano e palha, pés de mármore ou pedra e granito. Pés pintados nasparedes no mais puro afresco... enfim, pés. Ao longo da minha carreira de podólatra fuicurador de variadas mostras de sucesso, mas, nunca me esqueci de Gradiva e sua capacidadeimpar de saltar fora dos relevos em que se metia e calcar o tornozelo na nossa cara.QUATRACRÓSTIOCOELEMENTALAção / realizAção / do mundo / da idéia / éter / planAstral / psiquInconcienteRáArRá / das fadas o mundo / pensamentHermético / Sílfides molengas de suorFogo Salamandra te queima / te convém / contra todo mal / passado /presente / futuroO desejo / a vontade / mais mudança / tudo muda / purifica em queima lavaGeme a flama ondulante / crepitante em dourada energia / religar um deus alhuresOnde há vela / há fogueira / Luz Divina e Fé Poder / onde há alma... o plasma queimaAmorosa emoção de fluida cauda em tanque lago / nutre o sonho / despertarGuante azul de fera Ondina / feminina fluida ninfa / esperança líquida a gotejarUrge o rio / o mar / o lago sacrOrnamental / urge a grísea linfa ocultaAté quando esperar que se calme a onda / até quando esperar / até quando / até...Terra e vida bem visível / concretude em pedra e rocha / a semente duralexElemento ativo em litográfica assinatura / marca a terra co’a palavra soltaRasga o ventre em barro e lama / faz nascer AdãoAdamah / faz sentir o éden rôtoRisca a marca em testa arisca / cainita testa ampla / foge agora! / tão grande é o crimeAra o leito frouxo / planta já na areia / vem fazer crescer o orbe / grita e canta melodias! 21
  22. 22. conto crônica poema coelho de moraesUMA ABORDAGEM SEMÂNTICA E FILOSÓFICASOBRE A PALAVRA BOSTADr. Boiardo Masca-AraniasBoiardo Masca-Aranias é terapeuta psicofísicopropedêutico e tem como lema "LEVAR A VIDA BOIANDO", ao invés de "flauteando", como era de se esperar. numa região inóspita da Austrália e vive de recuperar cangurus estressados. A palavra BOSTA nos remete a estudos especializados da linguagem humana. Emmuitos momentos ela reflete o DaSein (ou seja, o ser de si mesmo, enquanto outro); emoutros muitos momentos ela é negativa e bastante plástica na sua textura, o que nos fazpensar em material em decomposição de uma Psiché conturbada. Somando-se esses muitosmomentos, vimos que deu mais de 130% e que alguma coisa nessa conta deve estar errada. Como Filosofia e Semântica não são Matemática, por enquanto, tanto faz.A origem da palavra BOSTA remonta à antigüidade. Não se encontrou nenhuma referência aela no futuro. O que mais se aproxima de BOSTA é uma referência a Boeotarches que foi umados principais magistrados da Beócia ou Boeotia (a letra "t" falada com uma leve sibilância, umquase c). A Boeotia era uma província central da Grécia (Hélade) continental. Lá viviam os Beócios, e consta que eram muito burros, daí o epíteto. De Beócio para Beostios foi um "t" na cara. Outros povos — certamente os bárbaros que não sabiam falar bla-blá-blá, massomente bar-bar-bar — não sabendo ou não podendo falar: — "Beostios!", acabaram porfalar: "Bóstos!", donde a possível origem desse vernáculo curioso e, não vai aquí, nem alí, nemacolá, trocadilho algum, se é que o caríssmo leitor está pensando nisso. Uma outra referência, no entanto, muda a geografia da coisa.Encontraremos em Cartago um certo Bóstar, adestrador de bois (bos) e iniciador das atuaistouradas de Madrid. Naquela época eram as Bostárias de Cartago muito concorridas, tantoque Asdrúbal e Aníbal — os irmãos Barca — não perdiam uma, só que teimavam em corrercom elefantes. Pagavam uma multa e corriam. Podiam perder corrida de elefantes mas asBostárias de Cartago, nunca! Sempre aos domingos. Hoje conseguimos dizer: "Isso é umabosta!", e queremos dizer que aquilo não passa de uma bosta mesmo. Também falamos: "Bom por bosta!", e que podemos nos referir a um elogio apreciável,de alguém que por coisa pouca, e sem esperar nada em troca, pratica o bem. É que BOSTA éum vocábulo muito rico. Vejam bem: Em 1630 os puritanos chegaram aos Estados Unidos e fundaram umacidade entre os Rios Charles e Mistic. Traziam muitos carneiros — não me perguntem como— e tais carneiros eram muito cagadores. Encheram aquelas cercanias de bosta de carneiro,toneladas e toneladas de um adubo excrementoso, importado da Europa. Foi então que surgiua cidade de Boston e todos os produtos que podem vir de um centro como esse, tendo comoexemplo a Universidade de Harvard. Harvard é pura Boston! Assim, caros leitores e pesquisadores, findaremos o nosso brevíssimo estudo sobre aorigem da palavra BOSTA e esperamos que — como essa não é uma obra fechada — que nosenviem, pelo correio eletrônico, mais informações sobre tão sugestivo tema. Sabemos que há BOSTA para o mal e BOSTA para o bem. Mas, esse já é um conjunto de idéias a serem desenvolvidas com o auxílio de um certoTeodoro, de São João da Boa Vista, que está escrevendo um ensaio que versa sobre as quinzemil maneiras de se falar a palavra BOSTA. Até mais. 22
  23. 23. conto crônica poema coelho de moraesPOESIA ANACRONICA Vno decorrer de incidentes ínfimosno terreno amoroso de uma contra-imagema boa imagem se altera e se inverteO corpo do morto intacto / inalteradocom um pequeno traçoUm ponto em decomposiçãoO gesto a palavra e o modoUm sestro rápido e rasteiro de falhaUm pontoAlgo que surge / inesperado / de local insuspeitoSeria o outro vulgar?Se revela nela um’outra raça pelo gesto?Pelo jeito se mostra umaoriginalidade insuspeita / explosiva / irritanteEu me alarmo e grito no instante sem voltaUma síncope na linda frase me desarmao chão como que some debaixo de mimRasgou-se a imagemquebrou-se o cristal da alma luzidiapor mim criadaUm ponto opaco sobre o espelhodesfascinado... sem dor / sem face... sem corFico envergonhadoe permaneço no caminho do Bemtomando conta de minha própria imagemque se rasgou / esfacelada / sem face / selada a facebruscamente rompida pelo pontoMinha imagem se torna mesquinhamas não se torna máReflitoO outro se alterou pela linguageme isso é freqüenteQuando ela falao mundo se alteraum mundo novo se mostraum mundo que não é o meu-isso me comove-mas devo saber que ao dizervá tomar no rabo 23
  24. 24. conto crônica poema coelho de moraesNOTAS ROUBADASSim, sim... tudo é roubado.É evidente que se trata aqui de uma intencionalidade, que Rita me perdoe, a leve Apoena,aquela que se deita, lânguida, entre fronhas e lençóis, vestida apenas de pele morena, às vezesdoce, às vezes salgada, às vezes coberta de uma seda negra, soerguendo um livro, tambémnegro... É inútil interrogar sobre a sinceridade do escritor voyeur.Como manifestar a essência de Rita sem glorificá-la? O escritor, quando a vê, nota que ela seesconde entre as flores e folhas, em um mimetismo que acelera sua perigosa manifestaçãocomo doçura ou como um animal pelágico, darwiniano, na mesma cor que as água do mar.Rita adormece. Deixou que seu lábios se mantivessem entreabertos e, como um novo CastroAlves, o escritor percebe que balançam sobre seu corpo as tranças do cortinado, fazendo levesombra, sobre ela e o livro. Curioso, o escritor, aí, bem diferente do Alves, se aproxima e quersobrepor seus lábios contra os dela, mas, o que há pior do que notar que as pernas da moçase entreabrem, também, num movimento furtivo e a doçura de suas intimidades se mostramsuaves. Cálidas.O escritor se permite perguntar. “E agora. Que lábios beijarei?”Ela está úmida e sorri, em meio ao sono. “Dormirá de verdade? Ou será poetisa fingidora, umPessoa mulher, fingindo o que sente, sentindo o que inventa sentir?” Poetisa apetitosa e oanagrama bem cabe naquela situação.Veremos mais adiante o quanto o tema do adormecimento é maléfico na vida do escritor. Nodevaneio do escritor. Convém opor esse temor do dormir ao temor da sombra, do oculto, danoite, e enquanto os lábios se tocam... a boca do escritor e os lábios molhados da vulva dapequena... as pálpebras se fecham e os braços se recolhem como bem queriam os dois. É ocaráter invertido do escritor antigo e obcecado pelos sentidos e pelo prazer. Rita geme. Amorte seca a domina e ela se torce na cama. “Finge dormir?” Finge estorcer como se emsonho estivesse alheia aos desejos do escritor faminto? A encarnação de Deus no homem serenovando em cada uma de suas paixões.O desejo pertence a todos os tempos.O escritor pensa nisso, abre os olhos para o baixo ventre da moça e vê os seios morenos,bicos salientes, agora, massageados pelas mãos da índia. “Ela dorme?” Ele sorri.Ângulos salientes e reentrantes, simetricamente opostos e talvez inimigos... o escritor sedebruça sobre a cama e o livro sai para a lateral, despejando letras e imagens não lidas.Ritinha geme e se abre. O escritor se percebe um gibelino, uma cor germânica no andar e nofalar; uma lealdade perdida entre paredes caiadas; e ela, Rita, a índia, a Apoena de cabeloslisos, parece recender a razão e lei de desejos mais vorazes e mais densos, algo como umguelfo. E esse par é um tema de valorização do ardor e da paixão imediata.O escritor está desesperado e lento. Saliva inteiramente a entrada da gruta da mulher que seergue no ar, buscando degraus. Nessas horas tão plenas, tão prodigiosamente concentradas,onde os minutos valem séculos, não importa se o escritor se encontra no século 21 e Ritinhavive em 1920, somente a morte responderá à impaciência dos espíritos à pressa das coisas.Ela fala: “Escritor, o que é esse nosso romance?”“Rita, é o que neste momento você tem no espírito, sem a preocupação com pátria, comciência...com religião”, ele responde.“É um romance insípido... ah!... não é uma grande poesia, o que temos?”, ela pergunta.“Nada disso. Não há amor sem a devastação do desejo sobre o corpo. Fora disso é abstraçãoe mesmo subversão... “ 24
  25. 25. conto crônica poema coelho de moraes“Perversão... perversão!”, ela grita, “Me ama, me destrói, me deseja!”, ela continua a gritarenquanto seus cabelos negros são jogados para todos os lados e a roupa de seda – serácetim? – desaparece não se sabe onde.O escritor é um catador de ossos, restaurador da poeira humana e o escritor percebe que,foder, é um enterro precipitado. Por isso ele evitava penetrar no corpo moreno. Mania daépoca? Como gozar com essa mulher se o escritor só a conhece através de fotografias eescritos e poesias?Ela, agitada, diz entre lábios marcados e mordidos: “Quem é você?“Sou vegetariano, domesticador de pássaros e procuro nas vidas uma história em espiral,nada mais”. Ela não pode saber muito sobre o escritor pois a fantasia se desdobra em nada.“Você me faz lembrar da glória e da falsa mistura da donzela com a necessidade de amar .Provavelmente você não existe”.“Há a idéia e há o pensamento. Onde caberá um, não existirá o outro”, e o escritor, após dizerisso, desaparece.Rita fecha as pernas molhadas, devagar, sorvendo últimos sopros de prazer, de tanto beijo emordidas e, senta-se no leito, procurando o livro. Olha para todos os lados e corre à janela.Nada.Decide retomar da obra que lia, no ponto em que parou e lá estava: “A humanidade não é umhomem que envelhece; é um homem que rejuvenesce, e que tem a infância à sua frente comoum paraíso... Sim, sim... tudo é roubado... É evidente que se trata aqui de umaintencionalidade, que Rita me perdoe, a Apoena... aquela que se deita, lânguida, entre fronhase lençóis... vestida apenas de pele morena, às vezes doce, às vezes salgada... às vezes cobertade uma seda negra...É inútil interrogar sobre a sinceridade do escritor... 25
  26. 26. conto crônica poema coelho de moraesORFEUVou com a alma lavada / Uma oração / fome e paixãoSaio co’a palma virada ao céu / É a danação / sem coraçãoCorre um mar de fogoSigo essa luz na estrada / Uma noção / de confusãoLembro da boca / cheirava a mel / Beijo e razão / força e emoçãoUm luar amigoQuero que o dia floresça / Num jardim exalando delíciasQuero que a noite emudeça / Os teus lábios de aroma violetaMeu amorEu atravesso a porta / Mas a Esperança foge de mimQuero lembrar do sabor da ninfa / E não me canso / lago sem fimTomo a barca e vouVou / sem descansar / vou procurar meu bem-querer /Nessa terra / onde o sol / não brilha maisVou /a me rasgar/ quebro os espinhos / nem vai doer / Resgatar a antiga paixão / o amor e aPazQuero que o dia amanheça / Num jardim orvalhado em riquezasQuero que à noite me cresça / Denso mar de abraços e rezasMeu amorVou com a alma lavada / Uma oração / fome e paixãoSaio co’a palma virada ao céu / É a danação / sem coraçãoCorre um mar de fogoQuero que o dia endureça / O caminho não é fácil de andarNão não! virar a cabeça / ou a ninfa / em nuvem / em brisa sumirá... sem descansar / vou procurar meu bem-querer /Nessa terra / onde o sol / não brilha maisVou / a me rasgar / quebro espinhos / nem vai doer /Resgatar a antiga paixão / o amor e a Paz 26
  27. 27. conto crônica poema coelho de moraesVÔO DE BICICLETA Cada pessoa é uma humanidade. Uma história universal... uma força decidida voando pelas estradas, se quiser... Quando tomei de minha bicicleta eu percebi que armava uma revolução de sentidos, para restaurar os ventos de meu prestígio, e todos os que saíram às ruas e me viram em roupas coloridas e um capacete transparente. A corrida começava. Lavar a mancha de lama de uma vida desprezível era pilotar com argúcia e temperamento a minha bicicleta. Ao meu lado outros ciclistas se arrumavam, cavaleiros andantes cervantinos? - e conversavam a valer, exibindo luvas de couro. Esguichei uma golada boa de bom líquido e deixei meu sonho vagar pela pista demarcada. Era uma corrida dura de suportar a todo filho daquela terra... pior do que aquilo só a fome, câimbras e uma queda. Mas a leitura de páginas ardentes de técnicas antigas e ensinamentos modernos me fizeram erguer a cabeça. Digestão, enriquecimento e prudência e as pernas seriam móveis alavancas sorvendo os metros da estrada em busca de um primeiro lugar. Os juízes se aproximaram com instruções. Fomos posicionados e os números tremularam nas camisetas pois um vento simples nos alcançou, trazendo aromas insuspeitos de café. Testemunhas desesperadas se estendiam pela pista, aos gritos, em torcidas familiares, alguns consternados, se ofereciam para nos ajudar. Aí experimentamos um ardor de viver e a enorme responsabilidade de atrelar nossos antepassados àquela corrida. Um tiro. Partimos. * Poucos somos nós, ciclistas que ingenuamente temos confiança em algumas idéias simples: a meus olhos, principalmente, o progresso e a velocidade, voando pelas ruas me inspiravam um perdão universal; a verdade e a justiça traçavam, juntas, um desenho arbitrário sob o céu de ventos e sombras e nuvens; as leis da natureza eram cumprimento obrigatório das normas para uma vitória ampla e discreta. As rodas da bicicleta deslizavam vertiginosas e essas obras eram verdadeiros atos de fé. O paradoxo que me detinha era o fato de não podermos, todos os corredores, chegarmos juntos e felizes, vencendo a prova, pois não haveria prêmio maior do que imensamente correr sobre bicicletas, deslizando sobre asfalto perfeito. Já me disseram que isso é ter pouca consciência dos limites da razão. E a meu lado zuniam aparelhos metalizados de inclemente fibra. Pingos de suor do ciclista deslizavam sobre os guidons, mas, sumiam com as brisas violáceas. Pernas fortemente treinadas faziam reinar correntes e engrenagens dentadas. A mudança de marcha me fez subir centímetros e alcançar metros à frente. Andar de bicicleta é um belo ato de fé. Penso que muitas vezes eu me extraviava nas estradas. A mim valia mais o viajar do que vencer a corrida. Uma curiosidade malsã de saber a quantas ia o vento no meu rosto? Mesmo assim, a virtude de ser um ciclista nos conduziam, no entender de competidores que éramos, às nossas verdades mais profundas. Mesmo que cada um fosse para um lado. Mesmo que eu me perdesse sem pedalar e decifrar os enigmas dos aros metálicos de minha SILVER pujante. Correr e manter a cabeça erguida. 27
  28. 28. conto crônica poema coelho de moraes A bicicleta era nossa vítima e morria ao sabor de longas jornadas. Muitas vezes com suas partes em desalinho. Era natural que os valores dos técnicos fossem invertidos a cada campeonato. Não estavam, tais males, do lado do ciclista desaparecido e com sua corrida? A bicicleta encarnava a humanidade infeliz. Essas visões, certamente em parte infundadas, ameaçavam impedir o ciclista de levar mais longe seu olhar. Mas, sua defesa de causa dissimula um alcance profundo nos tempos e nas medidas de recordes. A bicicleta em si, ou o binômio ciclista-cicleta daria, ao mundo que representava, mais do que um caráter de revolta? Uma preocupação superior de assegurar o futuro, a duração de uma corrida e a duração de uma vitória. Com isso víamos limites à nossa liberdade de voar, liberdades de buscas que constituíam o sentido desse mundo de pistas asfaltadas e turbulências de pontos de partidas e chegadas. Seja dito, sem querer rebaixar nada, sem distinções de pódios ou mesmo de equipes (eu gostaria de sugerir, ao contrário, um sentimento de força), a própria vida do ciclista corresponde a um equívoco. Ele gostaria de ser um pássaro. A angústia, evidentemente, me guiava entre atletas atentos – isso me extraviava novamente – pensando em escrever um livro ou uma história que falasse do ciclismo. Por mim passavam dez outros, em uma velocidade amarga e deslustrosa. Seriam também escritores? - Corre Michelet, corre! – gritou um deles, enquanto eu pedalava afobado para voltar ao meu ponto. Numa passagem árdua, entre curvas e florestas (que não cheguei a curtir como queria,mas obtive de terceiros informações precisas) vi que meu trabalho e minha insegurança eramfruto de um medo e uma falta de respeito com os outros atletas. Eu os desdenhei, confiandoplenamente nas funções da minha bicicleta. Faltou-me inspiração. Vi minha velocidadedespencar e percebi que a respiração encontrava outros ritmos, alheios ao ensaio, ao treino,aos conselhos da equipe técnica. Tento imaginar meu rosto, resfolegante, emaciado, nobre, as narinas frementes. * -Michelet é sem igual!! Viva! Corre! Força – e a torcida me animava. Diziam os jornais que ninguém podia ser comparado a mim, em função da acuidadevisual, dramática, muitas vezes, com um elemento quase shakespeariano do acontecimentovivido. Eu corro para esse espectador invisível, que passa sob a viseira de meu capacetecomo um borrão, como um polichinelo risonho, sacudindo braços e dando vivas. Traço meucaminho na história. E corro. Os técnicos censuram meus erros, detalhes, posicionamento no selim, mas tiveram quese curvar diante da minha força de visionário. E eu corri. E, sou realmente um ciclista, nosentido em que pedalar é um feito majestoso, em que o homem centauro que doma suabicicleta, projete sentidos e quimeras e não, pura e simplesmente, uma ciência. Corro e vôo.As asas não aparecem mas esbatem-se no rosto dos atletas que ficam para trás. O ritmo docoração retorna aos gradis da introspecção. Sei muito bem reconhecer a grandeza esuspeitar das intrigantes melopéias dos cantadores de vitória, mas eu lanço minhapersonagem do momento – Michelet, o ciclista – numa ardorosa e rápida pincelada noscenários da estrada e transmito meu vôo para um pujante regozijar das almas, que na lateralgritam meu nome. O proscênio da fatalidade, segundo Piscator, meu mestre e preparadorfísico. Ele me vigia e eu me metamorfoseio no grande corredor, no grande domador docavalo metálico – na magrela dos tempos juvenis, no camelo dos tempos de aprendiz deciclista. 28
  29. 29. conto crônica poema coelho de moraes Os juizes se viram atarantados quando surgi na reta final, convulso, instigante, alegre, cabeça inclinada para trás, rompendo o brilho do olhar gelado dos adversários e vencendo a minha primeira corrida. A multidão alvoroçada, gritava meu nome. Eu sorri. Ornado da coroa de louros, levantei o troféu. Nele se refletiu um perdido raio de sol.AVE POIESIS ANIMA MEAAntero conta que:Estava a Morte ali, em pé, diante, coberta de penasSelvática ave, “Sim, diante de mim”, como serpente,diz ele, serápis dormente na selva dos dias,cobra que dormisse replumada na estradaDe repente, Antero diz:A ave/serpente ergueu-se nos céuscuspindo poemas de fogoBacante funérea queimando a noite!Gesto de demente envolto em cinzas de estrelas!Antero nos disse : “Que busca, ave dorida,pomba faminta, errante no mundo dos homens?”Erguidos os olhos, Antero se fala em silêncio:“Não acredito no que ouço!Mas, já que perguntei...”— Não tema, responde a ave volante/ Sinistra ironia domina as lonjuras /Estranha voz, atroz e calma, alma desnudaem asas flambantes torcera o bico reinolTorcera em cruel a boca fria em bicas pesada- Eu não busco o teu corpo nem teus ais puerisAnima mea me basta dolente e fugaz... É troféu e Gloria de mais e mais nos meu dias... Busco a alma tua gentil que não partiuAntero responde: “Sou Fausto!Que sei da minha alma?”E a ave, em fogo, gritou enquanto partia:- Sai, capeta! 29
  30. 30. conto crônica poema coelho de moraesO MESMO VÔO DE BICICLETAVERSÃO DIAMANTE NEGRO Cada pessoa é a humanidade. História universal... força decidida correndo pelos campos, pelas tardes de várzea, nas ruelas sem calçamento... Percebi que se armava uma revolução de sentidos, para restaurar os ventos de meu prestígio, e todos os que saíram às ruas e me viram em roupas coloridas e meias longas, a chuteira dourada, lançavam gritos de alegria. Lavar a mancha de lama de uma derrota era dominar com argúcia e temperamento a minha bola. Os jogadores se arrumavam, cavaleiros andantes cervantinos? - e conversavam a valer. Deixei o sonho vagar pela grama demarcada. Era uma partida dura de suportar a todo filho daquela terra pois não há ícone maior do que representar as cores de Quintino, terra de Zico e outros deuses... pior do que aquilo só a fome, câimbras e uma queda. Mas a leitura de técnicas antigas e ensinamentos modernos me fizeram erguer a cabeça. Fomos posicionados e os números tremularam nas camisetas. Testemunhas desesperadas se estendiam nas arquibancadas. Experimentamos um ardor de viver e a enorme responsabilidade de atrelar antepassados àquela peleja. O apito. A meus olhos, principalmente, o progresso e a velocidade, inspiravam um perdão universal; a verdade e a justiça traçavam, juntas, um desenho arbitrário; as leis da natureza eram cumprimento obrigatório das normas para uma vitória ampla e discreta. As pernas deslizavam vertiginosas e essas obras eram verdadeiros atos de fé. O paradoxo que me detinha era o fato de não podermos, todos os jogadores, chegarmos juntos, fazendo o mesmo gol na mesma hora. Já me disseram que isso é ter pouca consciência dos limites da razão. E a meu lado zuniam atletas de inclemente fibra. Pernas treinadas faziam reinar subjetivas correntes e engrenagens dentadas. Jogar futebol é um belo ato de fé. Penso que muitas vezes me extraviava no campo. A mim valia mais o estar jogando do que vencer. Mesmo assim, a virtude de ser jogador nos conduzia, no entender de competidores que éramos, às nossas verdades mais profundas. Mesmo que cada um fosse para um lado. Mesmo que me perdesse da bola por segundos. A bola era vítima e morria ao sabor de jornadas. Muitas vezes atingia alturas inimagináveis. A bola encarnava a humanidade. Essas visões, certamente em parte infundadas, ameaçavam o atleta de levar mais longe o olhar. A bola em si, ou o binômio bolatleta daria, ao mundo que representava, mais do que um caráter de revolta? Uma preocupação superior de assegurar o futuro, a duração de uma partida e a duração de uma vitória. Com isso víamos limites à nossa liberdade de voar nos ares em busca da pelota magnífica, liberdades de buscas que constituíam o sentido desse mundo de campos, de gramados ou poeira e turbulências de pontos de partidas e chegadas. A vida do jogador corresponde a um equívoco. Ele gostaria de ser um pássaro. A angústia, evidentemente, me guiava entre atletas atentos – isso me extraviava novamente – pensando em escrever um livro ou ir para a Europa. Lembrei dos antigos campos de várzea da Gamboa. As brigas de campo em Cascadura. Por mim passavam dez outros jogadores, tática armada, um desalinho de condutas e marcações. Seriam também escritores? 30
  31. 31. conto crônica poema coelho de moraes - Corre Guilherme, avança! – gritou um deles, enquanto eu me dirigia afobado para a ponta direita. Numa passagem árdua, entre dois zagueiros (que não cheguei a curtir como queria,mas obtive de terceiros informações precisas) vi que meu trabalho e minha insegurança eramfruto de um medo e uma falta de respeito com os outros atletas. Eu os desdenhei, confiandoplenamente nas funções da minha perna direita. Faltou-me inspiração. Vi minha velocidadedespencar e percebi que a respiração encontrava outros ritmos, alheios ao ensaio, ao treino,aos conselhos da equipe técnica. Tento imaginar meu rosto, resfolegante, emaciado, nobre... as narinas frementes. * Diziam os jornais que ninguém podia ser comparado a mim, em função da acuidadevisual, dramática, muitas vezes, com um elemento quase shakespeariano do acontecimentovivido. Eu corro para esse espectador invisível, que passa como um borrão, como umpolichinelo risonho, sacudindo braços e dando vivas. O técnico censura meus erros, detalhes, posicionamento, mas teve que se curvar dianteda minha força de visionário. Sou realmente um jogador, no sentido em que o homem quedoma a bola, projete sentidos e quimeras e não, pura e simplesmente, uma ciência. Corro evôo, até, em cabeçadas majestosas. As asas não aparecem mas esbatem-se no rosto dosoutros atletas. O ritmo do coração retorna aos gradis da introspecção. Lanço minhapersonagem do momento – Guilherme, o atacante – numa ardorosa e rápida pincelada noscenários do estádio e transmito meu vôo para um pujante regozijar das almas que, na lateral,gritam meu nome. O proscênio da fatalidade, segundo Piscator, meu mestre e preparadorfísico. Ele me vigia e eu me metamorfoseio no grande azougue, no grande domador daesfera colorida. O juiz se viu atarantado quando surgi na entrada da área, convulso, instigante, alegre,cabeça inclinada para trás, rompendo o brilho do olhar gelado dos adversários e vencendo alinha de defesa. Contorcendo meu corpo joguei a bola por cima de mim e do zagueiro próximo. Elapassou pelo goleiro, estirado, ar de espanto... vendo a bola cair. A multidão alvoroçada, gritava meu nome. Ornado da coroa de louros, levantei a taça no pódio, de frente para a tribuna de honra. Nele se refletiu um perdido raio de sol que vinha perdido e rebatido dos montes baixos deJacarepaguá. 31
  32. 32. conto crônica poema coelho de moraesCHUVA DE LIVROSBom.Eu bem me lembro e foi assim.Nimrod andava de um lado para o outro e preparava mais uma de suas artimanhas. O rei eradanado para inventar cousas. O fato é que o tempo fechou e uma chuva densa, preta, sidérea,carregada de nuvens grávidas, intensa, desceu intempestiva sobre aquele povo que aindanão tinha inventado o guarda-chuva.Olhando o céu, assim como quem tira piolho da cabeça de macaco, Nimrod teve a idéia.Construir uma imponente torre, que alcançasse o céu e fizesse parar aquela chuva tremenda.Meu filho Jordão, dado a invenções e musicismos ao som da lira, disse que era mais fácilinventar um guarda-chuva do que construir a tal da torre. Achei graça e pus, tais palavras, naconta dos anseios do jovem imberbe que crescia rapidamente. E, choveu outra vez, para fúriade Nimrod, que estreava suas novas galochas.O fato é que, após as chuvas, o chão local ficava impregnado de substancia escura,escorregadia. Diziam que era neve. Nimrod, furibundo, gritava: "Neve escura, cara-pálida!. E ofrio? Cadê o gelo?" e, o cara-pálida dava de ombros ocultando-se rapidamente do olharnocivo de Nimrod.O rei, por sua vez, saiu atrás de patrocinadores e conseguiu, com Baal & Co., dinheirosuficiente para alugar uns dois mil escravos e, usando a matéria prima local - palha e barro,segundo estudado apurados de C.B.de Mille - iniciou o trabalho de ereção... ereção da torre,bem entendido.E chovia. Uma chuva estranha que à medida que a torre subia se tornava mais e mais grossa.Até doía de tão pontuda. Cravejada de arestas. Ornada de arabescos friáveis.Mas, a torre, se tornava imponente, a olhos vista, mesmo por que não havia outra maneira deolhar a não ser com olhos.A chuva era cada vez mais torrencial. Descia meio quadrada, volumétrica, retangúlica,enciclopédica; quando batia na cabeça da vítima era desmaio na certa, e, dessa forma, aolongo de trinta meses de construção, a torre se impunha no horizonte, enquanto os povos, jádesorientados, jaziam por terra. Ao sopé um chão de couro e barro, gelatina e ossos.De escravos, porém, mais nenhum. Todos quedavam inconscientes nas estradas que seguiama encosta da torre.Em pé apenas Nimrod e sua namorada, a Bebel.Ele a levou para o alto daquela simbólica construção, passando por cima dos corpos dosescravos e, de alguns representantes do povo, pré-putados, pós-putados e deputados parabatizar a construção em sua homenagem. A Torre de Bebel, seria conhecida nos quatrocostados do mundo.Então a primeira gota da definitiva chuva caiu.Era um volumoso livro de culinária caldaica. Ele despencou e atingiu o bestunto da Bebel.Ela não agüentou o tranco e caiu. Desmiolada, num primeiro momento. Desmaiada numsegundo, apesar de não Maio não ter sido inventado, ainda.Aquela chuva estranha eram livros de todos os tamanhos e se espalhavam pelo orbe,avançando sobre vilas e lugarejos longínquos.Nimrod se escondeu debaixo do corpo da mulher e foi se esquivando o quanto pode, mas,não demorou muito naquele balé no alto da torre: A coleção completa de uma enciclopédiasumeriana atingiu sua moleira e ele emborcou naquela lama livresca.O estado de animação suspensa durou exatamente um ano, ou seja, sete meses, já que aquelepovo não tinha um calendário moderno para se guiar. Então, todos acordaram do sono 32
  33. 33. conto crônica poema coelho de moraeslivresco e passaram a relatar, para o amigo do lado, a experiência por eles vivida. Mas, ofaziam em vão.Amigo não entendia amigo. Inimigo muito menos. Ninguém entendia coisa alguma.Exasperados tomavam dos livros e procuravam o significado das palavras, suas e osignificado da dos outros. Alhures, muitos ainda jaziam em terra pois o livro, que lhesabiscoitara a memória, ainda era feito daquelas argilas duras de Súmer e Goshen. Com direitoa galo e tudo mais. Pouca palha e muito barro, como sói dizer.E foi assim que Nimrod viu-se em um local onde nada se poderia explicar ou entender, a nãoser que passasse a estudar, ler e reler aquela quantidade toda de livros. Buscar conhecimentoe entendimento com o material que descera dos céus. O novo maná.Meu filho Jordão, com o qual só pude conversar novamente quando fez dezoito anos, por quenada do que dizia me era compreensível, abriu um livro e encontrou uma história sobre ainvenção do guarda-chuva e partiu a ser cantor de ópera para os lados de uma Cashemiraainda a ser inventada.Bebel quase ficou paralítica em função da volumosidade da obra que lhe atingira a cabeça,mas, a poder de muita flexão de pernas e um amplo relacionamento com os homens locais –única linguagem que lhe era possível - suas habilidades foram preservadas e hoje ela trabalhanas docas de Jaffa.Nimrod, por sua vez, graças ao contínuo trabalho de captar livros e melhor compreender asituação do mundo, construiu uma vasta biblioteca levada para Alexandria. Encarandoseriamente a importância daquela chuva de livros passou a entender que sua postura foraerrônea e lutou bravamente pela libertação dos escravos do mundo. Aqueles que sofreram aação da chuva tornaram-se imediatamente livres (livres-pensadores?), em pensamentos,palavras e obras (pedreiros-livres?).Eu escrevo livros, conto histórias e estórias, de todos os tempos. Tento mostrar que cada povodiz uma coisa, e que muita coisa com o mesmo nome pode significar diferenças.Os povos conhecem a mim como Cronos e sabem que lerei tudo o que a humanidadeproduzir, para sempre. 33
  34. 34. conto crônica poema coelho de moraesDE LENTEJOULAS E OUTROS ERROScaríssimo poetaenvio anexada uma flora espalmada como sonho como fadotrago a ficha de inscrição amarrada em caderno e adornada para maiolanço o tema em perspectivateu olhar / a visão /assinada a missiva / rubricados vários temas / desnudada ilusãomanda tua idéia / livre / leve / em pesocaríssimo poetalembra que o sonho é de tênue tão fugaz e nada valeo trabalho da formiga é ineficaz / demora / desculpacolibri com a gotinha nunca apaga fogo algumsão desculpas engraçadas / sedentárias / bem burguesasexiste o diferente e assim perdura o mundoo fraco chorarásó perdura em poema antigose há sociedade não pode haver igualdadeos poderes são de opressãocivilização construída e pagaaltera o mundo num vez e nunca mais se volta ao primo esboçoacreditar em mundo novo – acreditar em mundo outro é conto de fadas velhuscassempre tem um lobo atrás da casacaro poetase eu quiser um diao valor do dia-a-dia / o amor das coisas simpleseu não usava NETnão entrava em CHATNão ligava carroNem logava BLOGnão tinha namoricos virtuaiscaro poetaesquece o ParnasoBilac já dorme em outros berçoseu prefiro alguém que saiba do que fazem vez do voluntário ineficaz / a formiga / o colibritá ligado?Mas escreve assim mesmo / escreve qualquer coisaElogia a torto e a direito / o caderno fecha em maioE a WEB nos esperaUm abraçoCOELHO 34
  35. 35. conto crônica poema coelho de moraesJESUS EM APARECIDAMateus (21,12): Tendo Jesus entrado no templo, expulsou a todos os que ali vendiam ecompravam; também derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiampombas. 13) E disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; vós,porém, a transformais em covil de salteadores.Marcos (11,15): E foram para Jerusalém. Entrando ele no templo passou a expulsar os queali vendiam e compravam; derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiampombas. 16) Não permitia que alguém conduzisse qualquer utensílio pelo templo; 17)também os ensinava e dizia: Não está escrito: A minha casa será chamada casa de oraçãopara todas as nações? Vós porém a tendes transformado em covil de salteadores. 18) E osprincipais sacerdotes e escribas ouviram estas cousas e procuravam um modo de lhe tirar avida, pois o temiam, porque toda a multidão se maravilhava de sua doutrina.Lucas (19,45): Depois, entrando no templo, expulsou os que ali vendiam, 46) dizendo-lhes:Está escrito: A minha casa será casa de oração; mas vós a transformastes em covil desalteadores.João nada fala a respeito do episódio no Templo.Coelho (capítulo e versículos ainda indeterminados, pois o Evangelho segundo Coelho aindaestá em processo de inspiração): A) Tendo Jesus chegado à Aparecida, lá nem perceberamda sua presença pois todos os visitantes, também chamados peregrinos, preocupavam-se coma sagrada compra de santinhos e amuletos e bentinhos e terços abençoados e escapulários eimagens em cera, da mesminha forma que faziam os seguidores de Baal. Jesus viu que nadaaprenderam de seus ensinamentos e isso turvou seu semblante. B) Disse-lhes Jesus, em altosbrados: Está escrito. Isso aqui é um templo de orações, mas vocês o transformaram nummercado. Parece um covil de ladrões. Quem são esses caras de saiote preto? Serão fariseus?Quem deu permissão para vender bugigangas em meu templo? C) Alguns incautos riram avaler e nisso Jesus saiu a chicotear a todos, tanto os padres, os bicheiros, os gatunos, osbanqueiros, os exploradores da cruz, os beatos, as beatas, os vendilhões do templo, os quedizem plantar a civilização do amor, bem como os que vendiam pombas plásticas, comolembrança de Aparecida e outras quinquilharias inúteis, pernas de cera, braços de madeira ecabeças ocas. D) Nesse momento todos se atemorizaram e se perguntavam: Quem é estedoudo? Quem é o barbudo sujo e maltrapilho? Quem é este louco sacripanta? Assim diziam ospagadores de promessas, os que negociavam com os santos, os traficantes de favores e seusmediadores, representantes do céu em terra, donos de TVs Universais. E) Então a milíciapública, a polícia, chegou, alertada pelos serviçais do templo, e, a poder de umas boas einesquecíveis cacetadas derrubaram Jesus, ao que o Rabi disse: Outra vez? Essa não! F) Amultidão apupou. Podia, novamente, comprar e vender, comercializara figura do crucificado,expor os seus santinhos em paz! Jesus foi levado para a Delegacia de Polícia de Aparecida.Exegetas de várias tendências religiosas ensinaram que a conversa foi assim direcionada:Delegado: - Quem sois vós? (é claro que o delegado não disse assim, na segunda do plural,mas nós, escribas contemporâneos temos que obedecer as regras do vernáculo e do bemfalar). Quem sois vós, seu bagunceiro?Jesus: - Jeoshua bem Yussuf, bem MiriamDelegado: - O que? É alguma brincadeira? Não entendi nada. Respeite a autoridade presente– Jesus olhou em volta procurando alguém - Responda direito – tornou o delegado - Daonde vem o senhor?Jesus: - Você não vai acreditar.Delegado: - Tente. 35
  36. 36. conto crônica poema coelho de moraesJesus: Está bem. Eu avisei...é muito difícil de acreditar, mas, lá vai... Venho do céu. (Ospoliciais começaram rir. Jesus observou essa questão e muito se turbou em seu semblante) Eunão disse?Delegado: - Não tem mais nada para inventar?Jesus: - Nasci em Belém.Delegado: (escrevendo em seu pergaminho) Ah! Agora sim... Belém... do... Pará. Deve estarem São Paulo há muito tempo , pois não consigo perceber o sotaque.Jesus: - Paulo está aqui também? Ué? Por que não me avisou. Eu não teria enfrentadosozinho aquela multidão, sim, pois, e repito, a multidão estava ensandecida e Paulo é grande,pesado e gosta de descer o braço de vez em quando... Eu nasci em Belém da Judéia....O resto é fragmento ainda em tradução... difícil de compreender... o fato é que Jesus notouque os policiais eram menos violentos que os policiais de Mel Gibson, e achou isso bom. Chegade cacetada. Resolveram prendê-lo por destruir bens alheios, abriram um processo portransitar sem documentos de identidade e por falta de decoro público.O delegado ficou na dúvida se o repatriava ou o levava para o departamento de identificação.O delegado já estava cheio de hippies bandalheiros.O delegado lavou as mãos na pia.Imediatamente carregaram Jesus para a cela. Lá o homem de Nazaré encontrou-se com a raléda cidade e disse: ‘Eis que me encontro onde devo realmente estar. Em meio a publicanos,pecadores e dissolutos, para orar e pregar.’Jesus levantou a voz de muitas águas e falou: ‘Filhinhos. Não temais, pois estou aqui. Sou ocaminho, a verdade e a luz.’Ao que um dos presos bradou: - Ih! Lá vem outro evangélico.Nesse momento uma pomba cinzenta adejou pelo vestíbulo.Os presos a pegaram e a comeram ante o assombro de Jesus que disse:- Pusta, mas o que que é isso, meu Deus! Onde fui amarrar o meu jumento?- Se preocupa não, barbaça, - disse um dos encarcerados – que Deus é Pai!E Jesus retrucou: - É! Tô vendo!Pouca coisa mais se sabe dessa história. 36
  37. 37. conto crônica poema coelho de moraesDIÁRIO DE PIRATADia Um, como se nascessePerdidos entre beijos e vagasabraços de morte eu e RoseBragaresolvemos invadir a baía dos lábiosAssim começa um conto comum e vulgar.Terá começo meio e fim? Não!Terá saltos e ondinas corcovas.Com quantas asas veremos no ar as aves de arribação?Já conhecemos a AméricaRoseBraga, jovem, munida de adaga,melindrosa, ofereceu destinos e costas e lombadas tremulantesno íntimo da alcovaperseguida pelo destino e fogo amorosoO episódio foi de banalidade comovedora,e envolveu uma pulseira perdida de uma tiaas pérolas de um governadoro baú marchetado de quilhase um mal-entendido, além dissoA cabeça do capitão rolou assim mesmo.Menos irrelevante será talvez relatarcomo sucedeu que corsários atônitospartilhassem algo maior que a vontade tenazde transformar a Mogiana – caravela indomável –num imenso palco para trânsito e brado de Pentesiléia e Aquilesde toda fauna de bucaneiros intrépidosdos muitos que já ocuparam, e ocupam, as madeiras da nave- madeiras que aceitaram o suor de RoseBraga e eu...em noites de calores e luas cheias vagais / vagabundas / perdulárias -mas / nada que tenham construídoa não ser a capacidade de observar o tempo passarpois tudo o que construímos já existiaterra / mar / onda / escuma e sirenaa história feita de equívocos, e de amores vaziosa história feita de estórias e de valores tardiosValha-me Alexandre, o Herculano,que chamava a cousa vulgar como coisa bundae nada mais.O povo da cidadilha elegeuduas vezes/ três vezes / quatro vezespadres e asnos / pró-rogos vicariato /sem vergonha para um projeto Curra 37
  38. 38. conto crônica poema coelho de moraesdentro da leiesquecidos dos piratas que vagavam na noite / largo de baíasA eternidade se desdobra além de nossa lucidezem piscinas inúteis / adulteradas / em tavernas popularesa felicidade ignara e feia / a lucidez feliz sem peiaprofunda e permanente sobre as razões e timbres da infelicidadeEu, Marcus Pirata e RoseBraga de brunas coxascriamos vínculo menos quebradiçomenos um passado de banco de escola ou de caserna partilhada.Mas as cousas não se ficam por aquihá também a paixão comum pela gastronomia dos mares do sulo segredo mais bem guardado das cavernas de netunoPerdições entre polvos e coraisO vento nas nossas facesA nave deslizando por umbrais 38
  39. 39. conto crônica poema coelho de moraesCÂNTICOS E VINHOS E PERFUMESAbigail está isolada.Ela tomou do livro e copia uma poesia de Augusto dos Anjos, remetendo, sem pressa oudores, para o amante que a esquece.Abigail pensa duas vezes em dormir com outro mas se arrepende.A beleza de Abigail se desfaz entre lágrimas e cabelos desgrenhados. A loucura a cerca entreparedes descarnadas.Um misto de índio e negro e branco se confundem em seu rosto marchetado do desespero.Inflamada de amor físico ela não quer enfiar a mão entre as coxas para diminuir a tensão.Percebe-se um sopro mórbido em Abigail, uma certa febre, assim parecido com os ventosoutonais, carregados de cargas violáceas. Tudo está muito claro, mesmo que Martes tivesse ointeresse em tornar a história obscura.Martes encontrou Abigail na entrada da primavera, ela, a moça, perdida em flores e jardinsreclusos. Abriam vinhos e degustavam suas bocas. O sangue intenso de Martes se insinuavaem Abigail que mantinha a boca entreaberta, donde caía um vinho apetitoso. Caía na areia,areia de amores cegos, de prazeres perdidos e rascantes, areia movida a prantos. Martes -filho de guerreiros das ruas, até formoso não fosse um desvio na sobrancelha esquerda, nãofosse o colorido de um jambo leve - se dirigia à cidade para beber um pouco de vinho ecantar louvaminhas aos deuses locais, e caiu aos pés da jovem, encontrando Abigail no meiodo caminho. Ela se dedicava a colher flores e a roupa se despegava dos ombros mostrandouma palidez singela.Ela o convidou para colher mais flores.“Quero rosas”, ele disse, num leve sotaque sulista. Ela disse: “Quer a rosa, mas deve levar oespinho junto.”Martes percebeu que ela era de uma ignorância definida. Muito definida mesmo. Apesar docorpo tinha a voz de menina fugaz. Ele pediu vinho. Abigail também bebeu e começou acantar, palpitante, tendo a pele rosada e um torvelinho em sua mente.Ela disse: “Quero mais... toma de minha coxa... Beija minha boca... Tocar você é mais doceque o vinho... Um aroma para que eu siga o seu perfume...”Ele falou: “Um peito tão branco (Martes segurou um dos seios) parece iluminado com um azuldo céu que nasce (ele beijou ternamente o peito de Abigail). Vejo daqui seu delicado sorriso...é preciso protegê-la de algo, disso bem o sei. Talvez protegê-la de mim... quero crer.”“É preciso me proteger. Diz pra mim... onde estão suas carroças e casas?”, ela perguntouenquanto Martes ria. “ É bom que diga para que eu não me deite por aí, resguardada poroutros braços.” Mas, ele continuou calado, ornado apenas com o gentil sorriso e nada mais.Você tem um sorriso maroto, ela pensou, considerando as covinhas e um pouco da barba.Não seria melhor esquecer?, Martes se pergunta.“Sete espíritos habitam em mim”, ela disse, “e de uma só palavra eu sou capaz de fazer ummundo. Eu não resisto e agüento a tempestade, me entrego completamente e poderia dizerque morro de amor... mas... eis algo que mulheres não dizem jamais.”“Você me parece um pequeno poema alado, ladeado por alas de demônios famintos”, eleexplicou, enquanto sua mão deslizava pela cintura de Abigail, puxando-a para si.“Em sete noites eu crescerei de modo inopinado e você, de conquistador, Martes, seráconquistado sem piedade. Pode acreditar!”, completou Abigail, escondendo o rosto do sol quese filtrava entre as folhas da palmeira. “Eu sou a dama da casa. Vem. Moremos nos campos...longe das conversas e das pessoas.” 39
  40. 40. conto crônica poema coelho de moraes“Eu não posso”, Martes retorquiu cuidadoso, “eu não posso. Já percebo que a mandrágoraestá plantada em algum chão da campina, mas eu não posso.”“Pode sim.”**Na manhã seguinte Abigail está diferente. Talvez grávida. Está diferente. Mãe naquela mesmanoite. É o sangue do meio-dia. Lembra Rama e Sita e a queda da montanha, ainda virgem esolene. Naquele meio-dia há muito aroma e sombras, há sabores acres e a busca pelo vinhomedicamentoso. O Ramayana desdobrado em pétalas.O fato é que Abigail transcende mirra e canela e parece haver dormitado sobre esses incensosdurante meses. Há tanto óleo de mirra que parece suficiente para três cadáveres.Ela, já mãe enternecida, e Martes, se encaminham para o poente, numa caravana decamelos ordinários, pensando na vida que se abre entre o odor insípido de lírios flutuantes e oamaro rancoroso do aloé que a cada dez anos dará sua flor.Lembra cuidadoso... a cada dez anos, não menos. 40
  41. 41. conto crônica poema coelho de moraesESTRATÉGIA PARA OBSERVAR O CÉU... morto... foi / sem o desejarHeliocêntrico desde criançadefendeu a mudança do céuradical e completa mudança do céuestratégia para ver o céuestratégia no pensar do cosmoestratégia do olhar humano- O Sol é o centro de tudo!gritou do centro de si mesmocaelum e mundus / clareza e ornamentoantiga escultura antiga...mortocaiu de cara nas estrelas que lhe espetaram o olho esquerdoneocósmica teoriaah! Danado de especulador celestialnem gregos nem troianosa Terra não é o centro do universo!É o Sol!Ora / direis /ouvir solaresmunido com triquetrum e baculussem lentes / solitário / avarento filósofo do céumorreu matemáticocomo o mestre Millor /como o Mestre Millor sofreu todas as operaçõesfelizmente todas matemáticas...Ah! A geografia das constelações...confuso e sem sentido / membros perfeitos de corpos diversosfranqueinstain do céu... antes de morrer...testemunha da diária revolução diária do firmamentona isolada contemplação do firmamento... com ou sem nevoeiros...não temia a vara do bispo ou do inquisidorReceava os militantes da ignorânciaprontos a incinerar cientistas ou vegetaiso que viesse primeiro... morreu assim mesmo / pois ninguém vira sementea ciência / água pura / se no chão / virava lamaem sua mão plantou-se um céuora / direis / olhar estrelasmorreu aos 70 com a cabeça cheiaa cabeça como céu estrelaso estrago estava feito e o mundo perdeu seu centro 41
  42. 42. conto crônica poema coelho de moraesREENCONTROS Minha mãe me enviara, numa tarde sol e chuva – casamento de viúva como diziamnas terra Mogianas - para depositar dinheiro no banco. Ela fazia isso todo mês e este era umdinheiro regrado e guardado no aperto. Era o dinheiro que minha mãe me dava para garantiruma parte do futuro, como se assim fosse possível. O mal ou bem desses seres humanossimples é que acreditam em contos de fadas da mesma forma como bebem água. Naquelatarde eu tinha 12 anos e ao entrar no prédio da empresa sugadora de dinheiro alheio vi-menuma agencia da cidade pequena conclamando a gritos como era pujante o tal do banco...grande; piso de granito brilhante, escadas e murais de artistas brasileiros de importância.Aquilo muito me impressionou e acabou provando que muito dinheiro alheio havia sido gastonaquela casa onde se paga para guardarem seu dinheiro e ainda o usam. Beleza doespetáculo – pois tudo é espetáculo - pela quantidade de vidros coloridos e painéis emmosaico que se faziam de paredes. Fui ao caixa, sujeito já cansado estava lá carimbando e cansado estava de tantocarimbar papel e soube, depois, que quando inventarem algo melhor que o carimbo ele serásubstituído por outro profissional, mais jovem e mais hábil na tecnologia do momento. Falei daminha missão. O nome dele era Leonides. Leonides – igual o leão da fábula - choramingouque não sabia usar computador. Era este seu argueiro enfiado na pata. Eu disse que tinha 12anos, não sabia o que era um computador – uns monstros com enormes fitas giratórias queenchiam, uma ala inteira do prédio, no departamento de compensação de cheques - e nãoestava entendendo nada do que ele falava entre lágrimas. Leonides era um sujeito de seus 30 e tantos anos, talvez, e, hoje penso que parecia,mas não era, recém ingresso no banco, começando a vida profissional naquele momento,parecia, obedecendo claramente os preceitos de RH: mostrar atenção seletiva com seusclientes e boa vontade seletiva no trabalho. Quem tiver ara de rico deve ser atendido primeiro.Ralé e velhos devem ficar na fila ao lado. Apesar de chorão Leonides, com pronto atendimento, conversava comigoperguntando se estudava, se tinha amigos, se gostava de música, se tocava alguminstrumento, e dizia tudo isso sem olhar para mim pois era texto e enredo decorado de seutreinamento para atendimento de clientes. Segurava entre amarelo pálido e branco marfim,muito sem graça nem brilho, um sorriso no rosto empedrado. A cortesia sólida e estabelecidade acordo com o manual. Leonides facilitou meu depósito ao saber que minha mãe tambémtrabalhava no banco - coisas do corporativismo - e ainda saí de lá com folhetos das novidadesde investimentos e cartas de crédito para minha mãe ler e pensar em possibilidades ealternativas de enriquecimento rápido. Senti-me muito importante carregando os tais papeiscoloridos. E, assim foi. O tempo passou. Cresci, estudei música e teatro, o cabelo cresceu, abarba também; havia mudado de cidade mas tudo era um truque para escapar do cerco dapolicia ditatorial. Nem sei quantas vezes pintei meu cabelo. Mudava de endereço e talvezestivesse ai um sintoma ou motivo de suspeição em tempos de terror. Fui parar no interiorpaulista junto a vários amigos e montamos nosso aparelho em Casa Branca; através deconcursos em quartéis e cursos de guerrilha no exterior – digo curso, mas tratava-se deevidente treinamento - ao longo de minha vida jovem, naquele novo dia especial eu estava àsvésperas de invadir o banco da cidade armado de metralhadora e muitos sacos para forrar dedinheiro. 42

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