Hermes no Ciberespaço. Uma interpretação da cultura na era digital<br />Cláudio C. Paiva<br />Prefácio<br />Introdução: O ...
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Hermes no ciberespaço completo - 22.06.2011

  1. 1. Hermes no Ciberespaço. Uma interpretação da cultura na era digital<br />Cláudio C. Paiva<br />Prefácio<br />Introdução: O espírito de Hermes e a complexidade da comunicação; <br />Do Cavalo de Tróia ao Wikileaks: Os Estilhaços do Poder no Ciberespaço; <br />Para uma epistemologia da comunicação e cultura digital;<br />Hermes & Afrodite: afeto, cognição e convergência tecnológica;<br />Walter Benjamin e a imaginação cibernética; <br />YouTube: arte, informação e videocultura;<br />A blogosfera, o webjornalismo e as mediações colaborativas;<br />O Blog do Tas e a crise do Senado Federal na gestão Sarney<br />O Observatório da Imprensa e a crítica da mídia na era digital;<br />Um paradigma lusobrasileiro da pesquisa em comunicação;<br />A contempl@ção do mundo: o Google Earth e a Terra digitalizada;<br />O cinema, a realidade virtual e a memória do futuro;<br />Vale Tudo nas redes sociais?<br />Para concluir: verdade e ilusão do ciberespaço;<br />Referências e links de leitura<br />Notas<br />Sob o Signo de Hermes. Mediações no Ciberespaço<br />Prefácio<br />Cláudio Paiva é um intelectual. Um verdadeiro intelectual. Não são muitos em atividade. Tem a libido do saber. Pensa com o corpo inteiro. Sente aquilo que investiga. Consegue mesclar o erudito e o popular com uma desenvoltura invejável. Domina o universo do cinema como poucos. Vai de um ponto a outro do imaginário contemporâneo com leveza e conhecimento. <br />Esta sua incursão no mundo virtual não poderia ser diferente. Traz a marca de quem reflete sem preconceitos e sem amarras. Examina, avalia, interpreta e compreende. Acessa um número incrível de fontes e nunca se limita a navegações de cabotagem. Aposta na renovação. <br />Cláudio Paiva não quer apenas repetir as rotas tradicionais. Tem a ousadia dos aventureiros. Está longe de se deixar dominar pela camisa-de-força dos discursos acadêmicos positivistas. Produzir conhecimento para ele é gerar novidade, abrir novos caminhos, sair dos trilhos e indicar novas pistas. Parece fácil. Não é. <br />Poucos têm essa predisposição para o confronto. Poucos sentem o aroma da inovação. Pesquisar é muito mais do que levantar dados. Exige uma curiosidade profunda e uma determinação especial. A determinação para abalar fundamentos, descobrir, “desencobrir”, fazer emergir o novo, revelar, desvelar e até mesmo “desconstruir”.<br />Todas essas qualidades caracterizam o perfil do pesquisador Cláudio Paiva. Conheço-o desde o tempo em que fazíamos doutorado em Paris e ele via todos os filmes em cartaz na cidade. Eu o admirava silenciosamente. Gostava de ver a sua autonomia, a sua liberdade de pensamento, a sua errância pela cidade-luz. <br />Aprendi a conhecer um intelectual, homem livre, com suas idéias e paixões. Não preciso dizer mais. Este livro mostra o quanto todas essas minhas observações são limitadas para descrever ou qualificar o que Cláudio Paiva representa como pensador do contemporâneo. Sem perda de tempo, comecem a ler. É tudo.<br />JUREMIR MACHADO DA SILVA<br />Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS. Porto Alegre, 01 de abril de 2011.<br />1<br />O espírito de Hermes e a complexidade da comunicação<br />No cenário globalizado atual, os dispositivos tecno-informacionais têm gerado vigorosas redes sociais. O fenômeno da internet e os sistemas hipermídia configuraram uma nova realidade eletrônica, em que os cidadãos conectados interagem de maneira colaborativa, formando laços afetivos, comerciais e políticos. Porém, a modernização tecnológica parece não ter trazido benefícios para todos; do lado de fora da sociedade digital estão os desplugados, os “sem banda larga”, os outsiders do século 21.<br />Logo, constatamos que a grande batalha do nosso tempo se coloca em favor da democratização da informação, facilidade de acesso, conexão ágil e banda larga para todos. Por essa e outras razões defendemos um princípio ético-político e comunicacional que reconhece a inclusão digital como um caminho para a cidadania. <br />Basta observarmos os movimentos de Chiapas, Gênova, Seatle e a explosão das Torres Gêmeas, até a chamada “Primavera Árabe” para percebermos como as estratégias de comunicação são tramadas em rede. Após um século de debate sobre o status dos cidadãos na sociedade de massa, a discussão pública se volta para os meios pós-massivos e as estratégias de empoderamento gerado pelas redes colaborativas. <br />Pulsa na paisagem cotidiana uma inteligência coletiva conectada que perpassa o vasto conjunto das atividades socioculturais e políticas, abrangendo experiências tão diversas como o correio eletrônico, o webjornalismo, o sistema bancário informatizado, a medicina computadorizada, o voto eletrônico, o GPS, as enciclopédias, dicionários e bibliotecas virtuais, teleconferências e programas de ensino mediados pela tecnologia.<br />Em pouco mais de uma década a nossa relação com o mundo social e natural mudou radicalmente. Do presencial ao virtual (e vice-versa) estamos tecnologicamente e sensorialmente interligados através de ambientes gerados por meios digitais como o chat, o blog, o MSN, o Facebook, o Twitter e o YouTube, que teletransportam os corações e mentes para uma outra dimensão da experiência individual e coletiva.<br />Em casa, na rua, na esfera pública e privada, nas atividades das empresas, instituições e organizações, novos atores, códigos, valores e procedimentos ganham vigência: um novo ethos se instala enredado nos fluxos da informatização social. <br />A partir da segunda metade do século 20, a mídia eletrônica passou a influir - efetivamente - nos modos de pensar, falar e agir dos atores sociais. <br />Contudo, é preciso separar o joio e o trigo: há um complexo midiático massivo controlado pelo sistema global de produção capitalista, meramente comercial e voltado - exclusivamente - para o lucro. E existe, por outro lado, um complexo pós-massivo que, parte dos “sistemas sociais de resposta” (BRAGA, 2006), favorecendo estratégias de distribuição e socialização da informação. E sem descartar a importância do mercado na economia de trocas materiais e simbólicas, é mais democrático e concilia a diversidade de interesses e expectativas sociais, sendo eticamente mais inclusivo.<br />O acesso aos jornais e mídias do mundo inteiro, informações ao vivo, em tempo real, a conexão simultânea entre os vários setores de produção, distribuição e consumo, tudo isso atesta um surpreendente estado de convergência de formas, conteúdos e linguagens, sinalizando conquistas e elevação da qualidade de vida material e simbólica.<br />Neste novo nicho comunicacional, os espectadores se tornam e-leitores, editores, cibercidadãos. Ou seja, ocorreu uma transformação profunda no contexto da experiência cultural. Antes dos meios digitais havia um ambiente sócio-político e comunicacional orientado pelas regras da separação: de um lado, os autores, a produção massiva, a indústria cultural, e do outro, os espectadores, a recepção passiva, o consumo de massa.<br />Hoje, o agenciamento coletivo dos usuários sinaliza uma conjunção mais equilibrada face aos paradoxos comunicacionais: as redes favorecem processos de veiculação, cognição e colaboração, assegurando a inserção dos indivíduos na economia de trocas informacionais, num contexto comunicativo mais democrático e participativo.<br />Todavia, a experiência da comunicação, que evolui em sintonia com o processo civilizatório, não se realiza num mar de águas tranqüilas; pelo contrário, opera num contexto minado pelas tensões e conflitos, tendo que enfrentar desafios.<br />Como adverte Benjamin, no ensaio “Sobre o conceito de história”, inspirado em Freud, “nunca houve um monumento da cultura que não fosse um monumento de barbárie” (BENJAMIN, 1985, p.225). Ou como afirma McLuhan, no livro Os meios são as massagens, citando Whitehead, “os maiores avanços na civilização são processos que quase arruínam as sociedades em que ocorrem” (MCLUHAN, 1969, p. 7).<br />Vários pesquisadores têm contribuído para elucidar algumas verdades e mitos sobre o fenômeno tecnológico. Nesse filão, Lemos ajuda a distinguirmos a cibercultura e a tecnocultura. Para ele, “na modernidade, cria-se uma tecnocultura como um fenômeno técnico expandindo-se para todos os domínios da vida social, sendo a preocupação principal ‘procurar em todas as coisas o método absolutamente mais eficiente’ ”(LEMOS, 2004, p. 50). E, em defesa do uso social criativo (e responsável) das tecnologias de comunicação, conclui: “A cibercultura é um exemplo forte dessa vida social que se quer presente e que tenta romper e desorganizar o deserto racional, objetivo e frio da tecnologia moderna”. (LEMOS, 2004, p. 262).<br />É preciso encontrar um dispositivo teórico-conceitual para enfrentar o paradoxo da comunicação - que se quer aberta, transparente, democrática, mas é atravessada por forças econômicas, políticas, institucionais, que a impelem numa direção contrária. Então, recorremos à imagem de Hermes, o patrono da comunicação, que se inscreve aqui como uma alavanca metodológica para nortear uma interpretação da cultura digital.<br />A sabedoria de Hermes e o poder da comunicação em rede<br />Há milênios, muito antes de esse corpo de conhecimento que hoje chamamos de ciência existir, a relação dos seres humanos com o mundo era bem diferente. A natureza era respeitada e idolatrada, sendo a única responsável pela sobrevivência de nossa espécie, que vivia basicamente da caça e de uma agricultura rudimentar. Na esperança de que as catástrofes naturais como os vulcões, tempestades e furacões não destruíssem as suas casas e plantações, ou matassem os animais e os peixes, várias culturas atribuíram aspectos divinos à natureza. (...) Os mitos são histórias que procuram viabilizar ou reafirmar sistemas de valores, que não só dão sentido à nossa existência como também servem de instrumento no estudo de uma determinada cultura. (Muitos) exemplos mostram que o poder do mito não está em ele ser falso ou verdadeiro, mas em ser efetivo. (...) na cosmogonia moderna, encontramos alguns traços dessas idéias antigas, memórias distantes talvez, que de alguma forma permaneceram vivas nos confins de nosso inconsciente, demonstrando uma profunda universalidade da criatividade humana”.<br />GLEISER, 1998, pag.20.<br />Explorando os domínios da filosofia, antropologia, sociologia, psicanálise, história e crítica literária, encontramos o espírito de Hermes, como o intérprete e mediador diante das grandes causas da humanidade. Homero, Petrônio, Dante, Shakespeare, Proust, Dostoievsky, entre outros arcanos do pensamento ocidental, nos atualizam a imagem de Hermes como fonte de leitura do grande livro do mundo. E, sendo o gestor perspicaz no enfrentamento dos contrários, pode ajudar a decifrarmos os paradoxos e complexidades da cultura na era da comunicação digital.<br />Hermes é Mercúrio (na acepção latina), e é igualmente Hermes Trismegistos (em hibridação com o deus Thot egípcio); sendo esse último mais próximo da imaginação mítico-racionalista, do pensamento holístico . E Mercúrio está mais ligado ao cogito matemático, ao saber pragmático, à dedução e contabilidade do mundo. <br />Hermes tem a incumbência de contemplar a vasta prosa universal e desvelar as camadas de sentido que formam a complexidade do discurso como doxa (opinião vivenciada no senso comum), como techné (expressão da arte e dos saberes práticos), e como epistème (saber especulativo, ciência, filosofia). <br />Origem, significado e atualidade do culto de Hermes. <br />Hermes era, na mitologia grega, um dos deuses olímpicos, filho de Zeus e de Maia, e possuidor de vários atributos. Divindade muito antiga, era cultuado na pré-história grega possivelmente como um deus da fertilidade, dos rebanhos, da magia, da adivinhação, das estradas e viagens, entre outros atributos. Ao longo dos séculos seu mito foi extensamente ampliado, tornando-se o mensageiro dos deuses e patrono da ginástica, dos ladrões, dos diplomatas, dos comerciantes, da astronomia, da eloqüência e de algumas formas de iniciação, além de ser o guia das almas dos mortos para o reino de Hades. Com o domínio da Grécia por Roma, Hermes foi assimilado ao deus Mercúrio, e através da influência egípcia, sofreu um sincretismo também com Toth, criando-se o personagem de Hermes Trismegisto. Foi um dos deuses mais populares da Antiguidade clássica, teve muitos amores e gerou prole numerosa. Com o advento do Cristianismo, chegou a ser comparado a Cristo em sua função de intérprete da vontade do Logos. As figuras de Hermes e de seu principal distintivo, o caduceu, ainda hoje são conhecidas e usadas por seu valor simbólico, e vários autores o consideram a imagem tutelar da cultura ocidental contemporânea. <br />Wikipédia, 01.04.2011.<br />Seguimos uma cartografia lúcida e minuciosa, na obra de Junito de Souza Brandão (1994), narrando o percurso de Hermes, que nasceu precoce, e ainda pequeno foi colocado no oco de um salgueiro (símbolo da fertilidade e da imortalidade ). <br />A origem do seu nome está ligada à “herma”, que significa um grande platô feito de cipós, um pilar, emanando o sentido de consistência, justiça e perpetuidade. Evoca o poder de ligar, desligar, performar laços afetivos, comerciais e políticos.<br />Dentre as suas características particulares, é impulsivo, rebelde, outsider, possui matizes contraculturais: roubou o rebanho de Apolo e após devolvê-lo ganhou um caduceu de ouro, que lhe concedeu a curiosidade, a adivinhação e o pendor para a engenharia. Essa alegoria lembra o métier dos engenheiros de comunicação, arquitetos e criadores do soft, técnicos, inventores, atuando em meio às brechas, abrindo caminho no emaranhado das redes de informação. Hermes antecipa a ação dos cyberpunks, hackers, phreakers que modificam o comando dos computadores e telefones .<br />Astucioso, do casco de uma tartaruga, Hermes fez uma lira e inventou a flauta de Pã. É uma divindade complexa. É agrário (também protege os pastores) e simboliza o dom da astúcia, do ardil, de uma sabedoria sagrada. Na versão latina, Mercúrio, como vimos, é o deus dos comerciantes (dos mercadores, dos negociantes e dos “ladrões” ).<br />Mercúrio tem sido, ao longo da história, semanticamente associado às atividades ligadas ao comércio: merces é mercado, mercadoria; liga-se - portanto - a um nível de conhecimento cerebral, contábil, pragmático. Mercúrio tem o discernimento para os negócios; favorece uma vigorosa imaginação criativa no mundo da propaganda e do marketing, a sua marca no imaginário do consumo tem grande receptividade .<br />A “galáxia de McLuhan” é inteiramente atravessada pelo hermetismo: McLuhan é hermético na ambigüidade, no paradoxo, no oximoro, na provocação sistemática e na arte de aproximar os contraditórios. A sua visão da cultura eletrônica tem analogia com a alquimia cognitiva de Trismegistus, tem algo de premonitório: nos anos 60, previu o híbrido, o fenômeno das convergências sócio-tecnológicas do século 21.<br />A exploração de McLuhan dos meios de comunicação e os célebres aforismos, como “o meio é a mensagem” e “os meios são as massagens”, remetem ao “mistério das conjunções” entre o cérebro e a mente, o sensorial e o tecnológico, as redes neurais e os estímulos eletrônicos, a percepção cognitiva e a tactilidade das mídias. A sua escrita em mosaico, malgrado a assistematicidade, representa uma vigorosa hermenêutica. Buscou, junto com o seu filho Eric McLuhan, decifrar “as leis da mídia”, querendo entender os padrões das extensões dos humanos e as conexões tecnólogicas.<br />Sob o signo de Trismegistus, McLuhan, involuntariamente, decifrou a mitologia mais celebrada do homem industrial (e não é o carro como metáfora da “noiva mecânica”), mas sim a eletricidade como massagem, tactilidade, mensagem pura: <br />A roda é um prolongamento do pé; o livro é um prolongamento do olho; a roupa é um prolongamento da pele; os circuitos elétricos, um prolongamento do sistema nervoso central. (...) Os meios ao alterarem o meio ambiente, fazem germinar em nós percepções sensoriais de agudeza única. O prolongamento de qualquer de nossos sentidos altera nossa maneira de pensar e de agir – o modo de perceber o mundo. Quando essas relações se alteram, os homens mudam. <br />MCLUHAN, 1969, p.59-79.<br />Certamente, a transmigração simbólica mais importante de Hermes, do paganismo ao catolicismo, está encarnada na imagem do anjo. A figura mais bem acabada do Hermes como intérprete-explorador está no filme Asas do Desejo (Win Wenders, 1987), em que os anjos se tele-transportam para Berlim, captando, nas bibliotecas, vias públicas, automóveis e metrôs, as vozes e os sons das mentes humanas. <br />Hermes como anjo é uma figura complexa, cuja força simbólica reside justamente no seu silêncio, sexualidade polimorfa e invisibilidade total. E isso, ao mesmo tempo, fascina e perturba a imaginação dos humanos. <br />Numa cultura narcisista que idolatra a publicização e visibilidade total, o anjo, sendo invisível, detém uma alteridade radical. Sob o signo do oráculo, intérprete, hermeneuta, traz a promessa de revelação do oculto; não é à toa que o culto dos anjos nos mercados globais de “auto-ajuda” seja tão bem sucedido.<br />A imagerie dos anjos persiste indelével no mundo secular; está nas capelas, nas esculturas, nos grandes afrescos e resplandecem no cinema, além de Asas do Desejo, em Cidade dos Anjos (Brad Silberling, 1998) e na série apocalíptica Anjos na América (Mike Nichols, 2003). É importante guardarmos a sua ontologia complexa, que talvez possa ajudar a compreendermos a extensão de nossas subjetividades e sociabilidades, na era dos bots, ciborgues e avatares, os chamados seres “pós-humanos”.<br />O espírito de Hermes conhece o poder da linguagem formal, contábil, legislativa, e simultaneamente, reconhece a potência da linguagem cotidiana, informal, performativa, assimilando a parte lúdico-criadora da experiência comunicante. A sua perícia em lidar com a coincidência dos opostos lhe concede sabedoria para lidar com as complexidades, os temas difíceis, situações extremas. Por aí podemos entender as noções que derivam do seu culto, como “hermético”, “hermetismo” e “hermenêutica”.<br />O código binário da linguagem informacional é hermético para os leigos; entretanto, a aquisição das instruções básicas e a sua aplicabilidade podem transformar os cidadãos em eficazes gestores dos processos sociotécnico-comunicacionais. <br />Hermes, no sincretismo místico religioso brasileiro, à luz da antropologia (BIÃO, 2009), se traduz na figura emblemática de Exu, do candomblé que, no Brasil arcaico, durante a hegemonia cultural branca, precisou se comportar secretamente para sobreviver. É uma entidade mediadora entre o mundo dos vivos e dos mortos, protetor da sexualidade masculina. E reúne a dimensão lógico-gerencial, corpórea, quantitativa, e a dimensão involuntária, lúdica e exploratória da comunicação.<br />De um modo geral, as encruzilhadas (daí, do mundo) são loci da comunicação, das línguas, das feiras temporárias e permanentes, dos mercados, das cidades, dos teatros edificados e das profissões das artes do espetáculo. Aí se encontra a Esfinge (e suas charadas mortais), Tirésias (o que vê mais quer os demais, sem nada ver, tão importante para theorein e para theatrum), Hermes (o que nos legou o poder da interpretação dos textos sagrados e o grande problema da traduzir e trair; na expressão italiana: traduttore traditore). BIÃO (2009).<br />O simbolismo de Hermes-Mercúrio está associado às aptidões para o cálculo, a matemática, a estatística, a engenharia, as ciências duras, pelo seu altíssimo poder de concentração e discernimento, mas também às virtudes criativas, procriadoras e proativas. E, a estrutura simbólica de Hermes-Trismegisto está ligada às faculdades espirituais, às essências humanas (às ciências do espírito, filosofia, antropologia, psicologia, sociologia, semiologia), o que reafirma a sua simbologia complexa.<br />Um detalhe importante na sua indumentária é o capacete que ganhou de Hades; concede-lhe a astúcia, inteligência, o poder da gnose, do saber e da magia. Logo, é um experto no campo da imaginação criativa (artes da publicidade, design, arquitetura, propaganda, gestão organizacional e administrativa). Hermes é o protetor das ciências da contabilidade. Mas, o caduceu lhe envolve principalmente numa circunstância de significação esotérica, transmitindo-lhe o dom de decifrar a invisibilidade, permitindo-lhe trabalhar com as experiências de interpretação e decodificação.<br />É pelo fazer, visando à utilidade da ação, que se aprende a conviver com a liberdade. É pela ação construtiva que o cidadão, o empresário, o político, o comunicador, todos nós, descobrimos a essência, o daimon, no dizer dos gregos. Na “Tábua das esmeraldas”, atribuída ao deus Hermes, pode-se ler: “Descobre o gênio imortal que te habita (Daimon), aquela energia apaixonada que te torna em algo e te impulsiona em direção à tua missão aqui na terra”. <br />VIANA, 2006, pag. 15.<br />No seu culto, historicamente, podemos detectar um simbolismo ligado ao devir dos acontecimentos, o que nos remete à atividade da reportagem, a transformação dos fatos em notícias, matérias jornalísticas. Cumpre destacar, o hermetismo envolve o “segredo”, a parte oculta, a linguagem subliminar da comunicação, os não-ditos, os interditos, os silêncios, a matéria ainda em estado de elaboração.<br />Hermes é um especialista também na fabricação dos antídotos, poções, remédios; é pródigo nas mediações. E se atualiza na figura profissional do técnico, informacionista, encarnando em nossos dias uma espécie de “curandeiro high tech”, que conserva o “disco duro”, salvando a memória virtual, o nosso cérebro eletrônico.<br />Em suma, Hermes é o ágil detentor de um saber que lhe permite atuar como leitor, mediador, decodificador; é tanto um oráculo, decifrador, quanto repórter, intérprete, mensageiro: não é à toa que é o “patrono dos jornalistas” (VIANA, 2006).<br />Todo aquele que recebe deste deus o conhecimento das fórmulas mágicas, torna-se invulnerável a toda e qualquer obscuridade. Pode dar à luz, e pode também lançar na escuridão. O olhar de Hermes, iluminado, resiste às atrações das trevas. Assimilado ao deus egípcio Thot, torna-se o mestre da escrita, da palavra e da inteligência. Hermes Trismegisto se desloca do hermetismo à alquimia. É resultado do sincretismo entre o Mercúrio latino e o deus ctônico Thot; é o criador do mundo através do logos e da palavra.<br />BRANDÃO, Mitologia Grega, 2003. <br />Na obra As Metamorfoses, de Ovídio, Hermes-Mercúrio é sábio, inteligente, judicioso, encarna o próprio logos. É aquele que transmite toda a ciência secreta, e faz a revelação. Seu filho, com Afrodite - o hermafrodita - é o decifrador da “pedra filosofal” no clássico de Petrônio (Satyricom). Hermes tem a estatura de Virgílio guiando Dante em A divina Comédia, entre os mortos, nos círculos do inferno.<br />A imaginação mitopoética, a história e as nervuras do re@l<br />Fazendo uma leitura mais atenta do estudo antropológico de André Lemos, Cibercultura, vida social e tecnologia (2004), encontramos uma etnologia das formas de vida mental, incluindo o mito e o logos, a técnica e a magia, desde um estágio pré-moderno da civilização . A obra demonstra como a techné e a epistème estavam interligadas na sabedoria antiga, e como isso repercute na era da cibercultura.<br />É neste sentido que podemos compreender a popularidade e idolatria em torno dos chats, redes sociais, blogs, games, ambientes míticos e interativos, dispositivos sensoriais e colaborativos, que reúnem a dimensão diurna e noturna do imaginário, coligando linguagens e experiências advindas de interesses e motivações distintos. <br />Por esse ângulo podemos entender a força simbólica da internet na sociedade midiatizada: como “toda mídia”, oferece lazer, diversão e entretenimento (o e-comerce é a sua expressão mais evidente), e como uma “nova mídia” cria oportunidades de trabalho e educação (como e-learning, as teleconferências, as publicações virtuais).<br />Seguimos a via de uma perspectiva interdisciplinar, que reúne as contribuições da antropologia simbólica, dos estudos culturais em comunicação, das pesquisas avançadas em cibercultura. Trata-se de um esforço de leitura e interpretação guiado pela empiricidade dos dados capturados na internet. Mapeamos as experiências do YouTube, blogs, Bibliotecas Virtuais, Jornalismo Digital, sistemas de geolocalização, Cinema e realidade virtual e os processos de transmidiatização, objetivando contribuir para uma interpretação da complexidade cultural na era da comunicação digital.<br />Recuperamos a iconicidade de Hermes (Mercúrio e Trismegistus) como uma vigorosa chave interpretativa dos “mistérios do mundo” na mitologia greco-latina, que nos serve como uma ferramenta metodolólógica para entender a prosa pós-moderna.<br />O signo de Hermes está presente nas narrativas mitopoéticas de Homero, Hesíodo, Ésquilo, Sóflocles, Euripides, Píndaro e Aristófanes, servindo de farol aos homens e mulheres de todas as épocas. Inscreve-se na filosofia antiga (na dialética platônica e na metafísica aristotélica ) como uma figura de linguagem poderosa, atuando colaborativamente na articulação dos sistemas de pensamento racionais da antiguidade – no domínio do Direito, da Medicina e da Engenharia, e cujas emanações são irradiadas, atualizando-se hoje na trama das vivências e linguagens eletrônicas.<br />Com o advento monoteísta do cristianismo, evidentemente, foram confiscados os seus atributos pagãos; todavia, persistiram na extraordinária iconografia das artes visuais, que explodem nos quadros de Boticelli, Rubens, Turner, Celine, De Vries, e na imaginação poética de escritores como Dante, Goethe, Oscar Wilde e Fernando Pessoa.<br />O conflito das interpretações no ciberespaço<br />No contexto da civilização cristã, é interessante notar o surpreendente sincretismo ocorrido entre os mitos antigos e os santos forjados pelo catolicismo, cuja atual força simbólica é extraordinária junto às comunidades de crentes. Talvez a sua expressão mais forte, nos tempos da globalização, seja a permanência do culto e da peregrinação no caminho de Santiago de Compostela, que arrebanha milhões de fiéis de todas as partes do mundo, forjando um hermetismo e nomadismo surpreendentes.<br />O imaginário popular é fértil e os ícones derivados da figura de Hermes e suas hibridações fervilham no sincretismo cultural contemporâneo, como indicam o culto dos santos ligados – simbolicamente – à comunicação, à conexão e à mobilidade: Nossa Senhora dos Navegantes (e da Boa Viagem), São Cristovão (padroeiro dos motoristas), São Rafael (padroeiro dos motociclistas), São Francisco Sales (padroeiro dos jornalistas), Santo Antonio (protetor dos feirantes e dos namorados), incluindo a incrível figura de Santo Isidoro de Sevilha (padroeiro dos internautas) .<br />Os cortejos em torno da iconicidade formada por essas figuras híbridas, em sua aparente banalidade, atestam a potência do imaginário simbólico que se estrutura a partir de distintas e diversificadas influências multiculturais. Em nossa época imagético-publicitária, a iconologia de Hermes-Mercúrio se projeta numa cartografia híbrida e multifacetada: na hermenêutica jurídica, comercial, médica, psicanalítica, nos rituais do candomblé, na astrologia, nos esportes, no circuito da moda e no show business. <br />Importa aqui é perceber a arte da comunicação como uma hermenêutica que se atualiza nas invenções cotidianas. Desde os games interativos, como O Inferno de Dante , passando pela videologia de Harry Potter e os ambientes imersivos e sensoriais como o Second Life , até o caleidoscópio de imagens do site pornotube.com. Fervilha nos dispositivos de arte-net minimalista dos PPS, no vasto repertório de textos postados no site de compartilhamento Slideshare. E fulgura nas epifanias ciber-astrológicas das páginas eletrônicas (como o site Porto do Céu), nos bizarros posts “comemorativos” pela morte de Bin Laden, no YouTube, nos comentários indignados dos ciberativistas no Orkut e nos “segredos de polichinelo” revelados no wikileaks.<br />O amplo repertório destas iconicidades expressa o estilo das “idolatrias pós-modernas”, conforme se mostra no “inventário” de Maffesoli (1997) mapeando as “tribalizações e nomadismos contemporâneos”; De Kerckhove (2009) “investigando os efeitos da nova realidade eletrônica”; Di Felice (2009) apreendendo a nova “ecologia comunicacional” e as “formas comunicativas do habitar”. <br />Descortina-se assim uma experiência de contemplação e desvelação do sentido, presente nas formulações de Benjamin, Simmel, Flusser e Latour, que, movidos pela “lógica da razão sensível”, têm irrigando o pensamento das novas gerações.<br />Essa constelação de pensadores possui analogia com a imaginação “antroposófica” (e interpretativa) de Hermes Trismegistus, o alquimista que parece ter previsto a nossa era de hibridações e convergências desconcertantes.<br />O sono da razão (sensível) desperta os monstros<br />Numa época de controle sobre o livre arbítrio e a liberdade de expressão, como na idade média, e perceptível na leitura das conjecturas e refutações de Santo Agostinho, da teologia de Tomás de Aquino e do pós-medievalismo de Spinoza, pesam severas formas de controle sobre a informação, a comunicação e o conhecimento. Esse fenômeno se projeta no romance O Nome da Rosa (Umberto Eco, 1980), uma contemplação do mundo dos mosteiros, quando os livros, o sexo e o riso (des)velavam segredos trancados a sete chaves. <br />A experiência de “conflito das interpretações” foi vivenciada Teilhard de Chardin (1881-1955), padre jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo francês, que realizou, em sua obra herética, uma ousada visão integradora da ciência e a teologia .<br />A filosofia hermenêutica nos favorece uma leitura do código impresso e também audiovisual. Assim, os filmes como Janela da Alma (João Jardim & Walter Carvalho, 2002) e Ensaio sobre a Cegueira (Fernando Meirelles, 2008) são interpretações do mundo, exercícios hermenêuticos, sob a forma da textualidade e audivisibilidade. <br />A linguagem hipertextual da web, semaneira inédita, propicia interpretações, hermenêuticas, leituras imersivas, transversais, e dependendo do modo de usar, pode tornar mais claras as nossas idéias acerca da complexidade do mundo em que vivemos.<br />A inteligência coletiva conectada, graças à grande hermenêutica digital, à máquina sociotécnica provedora de vigorosas leituras do mundo, tem o poder de transformar o discurso em ação. Todavia, essa tarefa não é fácil, pois a comunicação em rede é atravessada permanentemente por poderes em conflito. O Estado, o capital e a sociedade civil disputam o ciberespaço com interesses e objetivos distintos. E o êxito no exercício das inteligências em rede vai depender do modo como puderem gerar estratégias coletivas de informação, comunicação e interpretação do mundo.<br />A inteligência coletiva conectada pelos sistemas hipermídia realiza o sonho hermenêutico, de desvelamento do mundo através da visão, audição e tactibilidade. Eis uma experiência cultural que modifica os padrões de linguagem, encorajando os atores sociais a usarem os equipamentos tecnológicos para se tornarem cidadãos.<br />Hermenêutica e Theatrum Philosoficum<br />A recorrência às obras Hermenêutica (PALMER, 1986), Questões fundamentais da hermenêutica (CORETH, 1973) e Interpretação e Ideologias (RICOEUR, 1988) é relevante na pesquisa para o refinamento da percepção acerca dos diferentes modos de construção dos discursos. Uma estratégia filosófica essencial para a evolução do pensamento que se desloca do preconceito ao pré-entendimento. Sendo esta uma primeira exploração da cibercultura, buscamos capturar o significado da engrenagem sociotecnológica que agrega a máquina de escrever, o rádio, o telefone e o video. Ou seja, justapõe produtos de eras tecnológicas distintas e formas de percepção distintas.<br />A internet nos convoca e nos instiga ao exercício de uma múltipla leitura e à coragem de criar por uma via hipertextual, polifônica, transmetodológica.<br />Seguimos as pistas lançadas pela hermenêutica visando a uma estratégia de mediação entre gramáticas discursivas diferentes. Cabe ao cidadão virtual exercer o libre arbítrio, fazer a sua própria interpretação e escolher o seu modo de agir em rede.<br />Este é um processo que certamente poderia ser retomado a partir da crítica de Heidegger à técnica ou da filologia iconoclasta de Nietzsche, exorcizando a hegemonia dos valores morais, filosóficos, estéticos através de aforismos desconcertantes. <br />Todavia, optamos pela contemplação de um roteiro das interpretações, partindo de um momento histórico em que o mundo começou a ser pensado à maneira moderna.<br />E este momento pode ser datado a partir de Kant (1724-1804), antes de tudo, um grande intérprete, exegeta da razão, que buscou conciliar o racionalismo dedutivo, de Descartes e Leibniz, com o empirismo inglês (Hume-Locke-Berkeley). Kant nasceu em Königsberg, e num certo sentido antecipou McLuhan, pois nunca saiu da sua “aldeia” e – reza a lenda – almejou decifrar o mundo forjando filosoficamente uma “globalização” avant la lettre, através das extensões de uma razão pura e transcendental. <br />O filósofo das Luzes empreendeu um rigoroso projeto de interpretação do real (portanto uma hermenêutica); entretanto, empenhado em uma explicação do mundo através de um “imperativo categórico”, deixou de fora a perspectiva da razão sensível na contemplação do mundo. (Este projeto será levado a cabo por outros estetas e pensadores, como os neoidealistas e românticos como Schiller e Fichte).<br />Capturamos em Kant a noção de “imperativo categórico”, para repensar o conceito de “imperativo da visibilidade”, utilizado por Sibilia (2008), para entender o estado da experiência de sociabilidade digital, quando as faculdades da visibilidade, conexão e mobilidade são pré-requisitos para a entrada do ser na ordem da cultura.<br />Na filosofia hermenêutica, cintila a obra do teólogo Schleiermacher (1768-1834), fazendo a crítica dos milagres e das escrituras que, em última instância, nos leva a entender o sistema de padronização da linguagem como estratégia de estabelecimento dos efeitos de verdade. (Logo, antecipa Baudrillard e a sua crítica do simulacro).<br />Dilthey (1833-1911), o psicólogo-pedagogo alemão, dedicado ao estudo das “ciências do espírito” e das “ciências da natureza”, abre caminho para as futuras reflexões, no sec.21, sobre o espírito do tempo, a inteligência cognitiva e a ecologia da comunicação (desenvolvidas por Bateson e outros visionários da Escola de Chicago).<br />Husserl (1859-1938), filósofo-matemático, ousou prever uma fenomenologia do Ser diante do número, antecipando a idéia da automação, conexão e comunicação numérica da “modernidade tardia”. (Um processo especulativo que vai ganhar novas proporções na pragmática da comunicação, com Austin, Searle e Peirce, no século 20).<br />Caminhando sozinho na rota das idéias do seu tempo, Heidegger (1889-1976), investigador da metafísica e da teologia, antecipou uma filosofia crítica da técnica, e desta maneira vai dominar o pensamento norteador da tradição crítica da tecnocultura.<br />Gadamer (1900-2002), o hermeneuta filosófico, autor da obra Verdade e Método, empenhou-se em decifrar o “caráter verdadeiro das coisas”, e findou como um estudioso do belo, nos estimulando a explorar os “enigmas, segredos e mistérios” da realidade sensível estetizada pelas tecnologias audiovisuais. <br />Paul Ricoeur (1913-2005), o filósofo do sentido, dedicou-se às “interpretações e ideologias”, enfrentando “conflito das interpretações”, e hoje o seu legado filosófico nos encoraja a compreender os paradoxos e complexidades do ciberespaço.<br />Entretanto, valorizamos as leituras híbridas como estratégiass ensíveis e inteligentes de apreensão da complexidade do real. Assim, apreendemos as iluminações filosóficas clássicas, e os insights recentes de pensadores do contemporâneo, do calibre de Milton Santos, por exemplo, cujos esforços em compreender o significado da história, técnica, geopolítica e vida social na era da globalização, deixaram marcas indeléveis no imaginário ético-político da inteligência brasileira:<br />A questão que se colocam os filósofos é a de distinguir entre uma natureza mágica e uma natureza racional. Em termos quantitativos ou operacionais, a tarefa é certamente possível. Mas é talvez inútil buscar o momento de uma transição. No fundo, o advento da Ciência Natural ou o triunfo da ciência das máquinas não suprimem, na visão da Natureza pelo homem, a mistura entre crenças, mitigadas ou cegas, e esquemas lógicos de interpretação. A relação entre teologia e ciência, marcante na Idade Média, ganha novos contornos. “A magia, o poder da fabulação”, como diz Bergson, “é uma necessidade psicológica, tal como a razão...”. Os sistemas lógicos evoluem e mudam, os sistemas de crenças religiosas são recriados paralelamente à evolução da materialidade e das relações humanas e é sob essas leis que a Natureza vai se transformando.<br />MILTON SANTOS, 1997, p. 16.<br />Procuramos nos ater às significações do simbolismo complexo e polivalente de Hermes, em que arte, ciência, técnica e política se mesclam no dorso da cultura.<br />E recorremos à (moderna) tradição filosófica, para encorajar o espírito a decifrar a potencialidade do ser na era das tecnologias colaborativas. É essa hermenêutica que nos importa: de olho nas redes, convergências, hibridações. Lançamos um olhar sobre a era das mídias e redes sociais. Sem medo de enfrentar o novo discurso, a nova escrita, o novo mundo que se apresenta no tempo forte da comunicação eletrônica colaborativa.<br />Convém enfrentar o híbrido, flagrar a empiricidade que está por toda parte. Nas enciclopédias (em clássico formato iluminista) e na Wikipédia (em formato digital), no grande livro do mundo, que não pode prescindir da ciência, da filosofia, da arte e do pensamento organizado pela razão mítica.<br />Partimos de uma perspectiva interdisciplinar que aceita o diálogo com a filosofia clássica, a filosofia espontânea dos cientistas, o jargão dos especialistas, a sabedoria da praça pública informatizada, em que a doxa (o saber comum), a episteme (o saber filosófico-científico), a techné (artes e práticas do saber-fazer) se equivalem na arborescência do conhecimento. .<br />2<br />Do cavalo de Tróia ao Wikileaks: os estilhaços do poder no ciberespaço<br />A mutação tecnológica do século 20, desencadeada pelos audiovisuais eletrônicos, redirecionou o sentido da vida mental na metrópole. Logo, as gerações pensantes do novo milênio têm diante de si o desafio de compreender, decodificar e interagir nos espaços reconfigurados pelas tecnologias da informação e da comunicação. <br />As mídias constituem um forte instrumento de poder na era tecnológica. De um lado, o Estado e as grandes corporações, e do outro, os atores sociais, as inteligências coletivas conectadas, disputam o controle do poder mediado pelas tecnologias midiáticas. <br />A interface “poder e comunicação” atravessa a história da vida pública e privada, desde as eras mais remotas. Foi assim ontem, no tempo dos deuses, heróis e guerreiros, como narra Homero na Ilíada e na Odisséia, e é assim também hoje, no tempo dos hackers e do Wikileaks, das navegações, do ciberpoder e da pirataria virtuais, em que descobrimos novas “formas comunicativas do habitar”. <br />A expressão “navegar no ciberespaço” tem analogia com a história do conhecimento, em que incidem erros, acertos, naufrágios e conquistas. Como na odisséia de Ulysses, o trajeto do saber é atravessado por crises, rupturas, derivas, sobrevivências, novos achados e permanentes modificações no mapa da viagem. <br />O ciberespaço realiza a imagem conceitual de “noosfera”, que animou a imaginação criativa e vigilante de pensadores como Chardin, Bachelard e McLuhan. É a zona sensível do acontecimento, em que se movem as inteligências coletivas mediadas pela tecnologia. Um campo gravitacional atravessado por forças sociais, econômicas e políticas, que lhe condicionam. Mas, principalmente, o ciberespaço, em sua complexa amplitude e ubiquidade, é um motor que libera a energia tecno-social da cibercultura, cuja irradiação afeta a percepção neuro-sensorial, estética e cognitiva, encorajando empoderamentos coletivos que desafiam os sistemas dominantes.<br />O triunfo na aventura do conhecimento consiste, desde os clássicos, na habilidade para enfrentar o híbrido, a conexão entre o vivido e o sensível, a teoria e a prática, a história e a imaginação mitopoética. E diante dessa complexidade, o espírito de Hermes “baixa” como o mediador, árbitro, espírito ordeiro da comunicação fornecendo as pistas para decifrarmos os altos, baixos e clarividências da cultura digital.<br />Inteligência conectada e empoderamento coletivo<br />Há diferentes maneiras dos cidadãos utilizarem os computadores, a internet, os equipamentos hipermídia em suas rotinas diárias. Para a maioria a rede funciona como um canal de diversão e entretenimento; para outros, além de se constituir como um meio de informação permanente, a rede funciona como uma alavanca operacional no campo da pesquisa científica e cria oportunidades de trabalho numa época de desemprego. <br />Os defensores do ciberespaço apontam dentre os seus aspectos positivos a dinâmica dos processos de digitalização, disponibilização e compartilhamento da informação em tempo real, mas sobretudo o seu alto poder de interacionalidade. Há os usuários que apreciam as redes como vias de acesso a outras espiritualidades, sensorialidades e corporeidades. (Os sites Porto do Céu, Second Life e PornoTube distintamente servem como exemplos). Todavia, há os desconfiados que vêem a internet e o ciberespaço como um produto do turbocapitalismo, uma garra da tecnoburocracia gerada em alta velocidade, apagando os valores humanos e distanciando os corpos físicos do espaço público; uma experiência com vetores regressivos. <br />Em nossa interpretação da cultura sociotecnológica e colaborativa, exploramos alguns objetos, fenômenos e processos que representam nacos no tecido expressivos na cibercultura, que tem sido popularmente bem assimilada a partir do desempenho das redes sociais. Buscando nos orientar no pensamento, guarnecermo-nos de um instrumental conceitual, moldando um corpus teórico (contemplativo) para decifrar esta experiência recente na história da cultura que nos envolve, nos fascina e nos escapa. <br />Examinamos algumas realizações da comunicação em rede, com o apoio dos estudos de especialistas, cujos trabalhos, de cunho exploratório, analítico, crítico, compreensivo, têm sido bons condutores para o debate . <br />“Enredar é tecer a arte de organizar encontros”: este o mote epistemológico da coletânea Tramas da Rede (PARENTE, 2004), um arsenal teórico que reúne estudiosos de vulto como Bruno Latour fazendo uma exploração racional e sensível dos “laboratórios, bibliotecas e coleções”; Marc Guillaume estudando a “comunicação comutativa”; Hardt & Negri inspecionando a “biopolítica”; Pierre Lévy estudando o ciberespaço e a “economia da atenção”; Henrique Antoun analisando a “democracia, multidão e guerra no ciberespaço”; Ascott vislumbrando o “homo telematicus, no jardim da vida artificial”, e Maciel “contemplando os espaços híbridos”. <br />Um rearranjo das propostas interdisciplinares contidas nos valiosos fragmentos teórico-conceituais e empíricos, que abundam em cada um desses textos, nos encoraja a articular uma reflexão sobre nossas preocupações particulares no campo da cibercultura.<br />A noção de rede vem despertando um tal interesse nos trabalhos teóricos e práticos de campos tão diversos como a ciência, a tecnologia e a arte, que temos a impressão de estar diante de um novo paradigma, ligado, sem dúvida, a um pensamento das relações em oposição a um pensamento das essências. (PARENTE, 2004, pag).<br />Refazendo um estudo da obra Sociedade em Rede (1999) , percebemos que, numa perspectiva crítica, Castells se empenha em decifrar o alcance e os limites das redes sociais, como o produto mais acabado na nova fase do capitalismo global. Da sua perspectiva, a hiperconcentração de renda, os fundamentalismos (religioso e mercadológico), a globalização do crime, o apartheid tecnológico e a exclusão digital compõem a face regressiva da nova conjuntura mundial na era das redes de informação. <br />Todavia, a sua perspicácia reside em mostrar como, no contexto da globalização, se inscrevem novas redes de solidariedade, agenciamentos sociopolíticos afirmativos. Essa problemática será atualizada nas obras posteriores, A Galáxia Internet, reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade (2003) e Communication Power (2010), vislumbrando os modos de empoderamento coletivo por meio das tecnologias digitais. <br />Há autores que vêem nas (novas) redes de informação a projeção das atuais contradições socioeconômicas, políticas e culturais, as zonas de tensão e perplexidade da vida social, conforme se inscreve no livro Diferentes, desiguais, desconectados:<br />As diferenças na modernidade existem às vezes como desenvolvimentos culturais distintos, outras vezes como resultado da desigualdade das classes, entre as nações, entre os grupos sociais, e mais recentemente em relação com as possibilidades de conexão e desconexão das comunicações, ou das redes de informação, entretenimento e participação social. A mobilidade identitária tem muito a ver com essas diferenças, desigualdades, conexões e desconexões, com uma combinação dessas modalidades. (CANCLINI, 2005). <br />As redes telemáticas, tecnoafetivamente, esteticamente, sensorialmente, geram processos sociais de identificação, convergência e participação. Os atores sociais conectados interagem e colaboram na nova ambiência tecno-comunicacional, acionando estratégias de ação afirmativa. Exemplos vivos desses processos são os ambientalistas, que se tornam cibermilitantes, organizando suas estratégias biopolíticas no interior do ciberespaço, abrindo caminho para os chamados cibercidadãos, ou “cidadãos culturais”, como podemos ler no trabalho Leitores, espectadores e internautas (2008):<br />(Um exame) das fusões entre empresas dedicadas à produção de livros, mensagens audiovisuais e eletrônicas, em particular os hábitos culturais. Breves artigos, ordenados como num dicionário, interagem à maneira de um hipertexto para redefinir, não apenas o que é ser leitor, espectador e internauta, (mas) o modo pelo qual agora somos cidadãos culturais, e nos relacionamos com o patrimônio, os museus e as marcas e para onde vai a pirataria, o zapping e os usos do corpo. (CANCLINI, 2008).<br />A correspondência on line, o webjornalismo, o cinema 3D, a tevê interativa, o namoro virtual, o marketing digital, e-comerce, as teleconferências, o ensino mediado pela tecnologia, a digitalização, disponibilização e compartilhamento das informações planetárias, entre outras experiências tecno-informacionais, criaram novas espacialidades e temporalidades redefinindo o estatuto do ser na cultura, do “estar-junto”, novas “formas comunicativas do habitar” (Di FELICE, 2009). <br />Mas esses processos não se efetivam harmonicamente, envolvem relações de poder, acirradas disputas e rivalidades. A experiência do ciberativismo sinaliza algo de novo no contexto da tecnologia e vida social, pois adverte como é possível nos instalarmos no interior dos “sistemas fechados” e contribuir para uma estratégia de comunicação compartilhada e colaborativa. E nesse sentido, os hackers podem ser vistos como “ativistas midiáticos” (TRIGUEIRO, 2011), que utilizam uma tática tecno-socio-comunicacional democrática, contribuindo para a inclusão digital.<br />Comunicação Digital, Poder e Tecnologia<br />Hoje, na chamada “Idade Mídia”, emergem novas configurações sócio-político-comunicativas que nos interpelam sobre o significado do espaço público e dos modos de participação social no contexto das decisões públicas. À medida que a consciência coletiva planetária vai se irrigando pelos feixes informacionais, eclodem novas exigências, competências e empoderamentos sociais. Também por isso, no Campo da Comunicação, na era das redes sociais, diversos esforços têm sido despendidos na elaboração de um conhecimento sistemático da interface Poder e Comunicação Digital.<br />Têm expressão de destaque nesta seara os congressos da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política – COMPOLITICA, atuante desde 2006, dos quais sublinhamos aqui a relevância da pesquisa em Política e Cibercultura.<br />Na época dos mercados globais faz-se necessário perceber os níveis de expansão e concentração, conexão e mobilidade, em que se misturam os padrões sócio-culturais tradicionais e os arrojados padrões tecnológicos. E convém reconhecer, essas conjunções, nem sempre são bem balanceadas, e se projetam num contexto histórico e sociopolítico envolvendo poderes locais e globais, que podem afetar – positivamente ou negativamente – as experiências dos indivíduos e grupos sociais.<br />Daí a importância de um debate vigoroso, num espaço público como a internet que agrega os discursos dos acadêmicos, políticos, jornalistas, profissionais de mídia e, sobretudo, dos cidadãos interconectados em rede. <br />Nessa direção, é pertinente a disponibilização dos papers dos congressos anuais da COMPOLÍTICA, resultantes das pesquisas avançadas dos profissionais de primeira linha. Sua relevância reside na atualização dos temas que têm lugar na esfera pública (presencial e midiatizada) e ali sendo problematizados, com rigor e sistematização, lançam luzes sobre um conjunto importante de fenômenos e acontecimentos de ordem política, que ganham novos contornos na era da informação. <br />A enumeração de alguns trabalhos disponibilizados pode indicar o quanto o Grupo de Trabalho “Internet e Política” contribui para o debate sócio-político e para a decifração da complexidade sócio-política e comunicacional contemporânea: <br />“Os blogs, o jornalismo e a Política”, “Orkut e os surdos”, “as ágoras digitais”, “Internet e Desmatamento”, “Governo e Democracia Digital”, “O movimento Cansei na blogosfera”, “Acesso à informação na América Latina”, “Websites dos Governos Federais na América do Sul”, “O twitter na campanha eleitoral”, “Humor e Política”, “O debate sobre o Marco Civil na Internet”, “O blog e a ciberpolítica”, “Internet e Ministério da Cultura”, “Democracia e Monitoramento”, “O fenômeno wikileaks”, “Movimentos sociais na era digital” são alguns dos grandes temas analisados e podem ser compartilhados na internet, o que revigora o trabalho de interpretação da cultura política mediada pelas tecnologias colaborativas.<br />Estratégias político-informacionais: da tecnocracia à digitofagia<br />Hoje, no campo da comunicação a batalha se dá em defesa dos creative commons, na luta em defesa do copyleft, software livre, redes gratuitas, banda larga para todos. Defende-se aqui os modos de acesso à informação substantiva concernente às atividades vitais, como educação, saúde, trabalho, transporte, segurança, mas também o acesso às diversas modalidades socioculturais e políticas que podem ajudar a equilibrar o desnivelamento dos fluxos sócio-tecno-informacionais. <br />A especificidade do hibridismo cultural contemporâneo modela características particulares no estilo de vida cotidiana, influenciando os modos de pensar, falar e agir, modos de usar, “modos de fazer” (e de interagir) diante das tecnologias, como mostram, em registros diferentes, Certeau, em A invenção do Cotidiano (1980), Maffesoli, em Tempo das Tribos (1987) e Nomadisme: vagabondagens initiatiques (1997) e Latour, em Jamais fomos modernos (1994). Essas leituras, ao largo de suas abstrações filosóficas, históricas, antropológicas, apresentam os atores em rede, que se organizam tactilmente, por vezes atuando com êxito face aos processos industriais e tecnológicos, por vezes em desvantagem numa interface desequilibrada. <br />Diversas são as estruturas de exercício do poder tecnocrático dominante, assim como são surpreendentemente múltiplas as estratégias de empoderamento sócio-tecnológico, como demonstra o instigante trabalho Net_Cultura 1.0: Digitofagia (ROSAS; VASCONCELOS, 2006), empenhado no esforço em refletir e repertoriar as estratégias sociais inteligentes e conectadas geradoras de empoderamento coletivo no Brasil e no mundo.<br />A concepção da digitofagia (surgiu do) pensar uma prática antropofágica que reatualizasse esse ideário no contexto da cultura digital, reabastecendo seu viés libertário. Para tanto, abraçar práticas espontâneas na cultura contemporânea brasileira, como a pirataria, os camelôs e a gambiarra, seria, quem sabe, uma forma de trazer a mídia tática para um campo mais familiar e cotidiano aos praticantes, teóricos e ativistas brasileiros, e também publicamente expor o sentido da colaboração nas trocas de informações, fazeres e recursos materiais, a parafernália tecnológica compartilhada para ações coletivas. <br />ROSAS; VASCONCELOS, 2006, p. 11. <br />A interface comunicação e tecnologia, no contexto brasileiro e latino-americano, tem sido explorada por Martin-Barbéro, desde a obra Dos Meios às mediações (1997), incluindo os estudos sobre a “alteridade tecnológica” (1985), a conexão entre a oralidade e a tecnologia, até a sua defesa do uso da “inteligência coletiva (e conectada)” e do “empoderamento social”, no enfrentamento dos problemas econômicos, políticos e culturais (Cf. BARBÉRO, CISECO, 2010). <br />A experiência cultural na era da informação tem gerado investigações, consistentes desde os anos 80, resultando num acervo privilegiado para a reflexão das novas gerações. E hoje, a imaginação vigilante dos pesquisadores contemporâneos, em escala global, tem buscado acompanhar esse movimento, atualizando-se com base nas obras, entre outros, de Morin, McLuhan, Benjamin, Flusser, Simmel, Latour:<br />Para Latour, entre objetos, idéias ou pessoas, não existe qualquer espécie de diferença ontológica. Todos são “atores” (ou actantes), dotados de força própria e de capacidade de produzir efeitos no mundo. Por isso, nenhuma teoria ou idéia que busque reduzir a heterogeneidade do real a algum princípio unificador é efetivamente satisfatória. Nem o deus da religião, nem o inconsciente da psicanálise, nem o “poder” de Foucault conseguem traduzir adequadamente essa perspectiva. Todos os seres, animados ou inanimados, orgânicos ou inorgânicos, materiais ou imateriais, conscientes ou inconscientes localizam-se no mesmo patamar ontológico (“on the same footing”, como não se cansa de repetir Harman). Como bem explica nosso comentarista, “o mundo é uma série de negociações entre uma multiforme armada de forças, os humanos entre elas, e um tal mundo não pode ser dividido nitidamente entre dois pólos preexistentes chamados ‘natureza’ e ‘cultura’ ”.<br />FELINTO, 17.05.2010 .<br />Mobilidade e Poder nas Redes Sociais<br />Na era da visibilidade, convergência e mobilidade, é importante sublinharmos a emergência de vigorosas ações afirmativas em curso, na organicidade da vida vivida, formas autênticas de politização do cotidiano, aproximando as fronteiras entre a modernidade tecnológica e a vontade de modernização social e política.<br />Nessa direção, são exemplares os Pontões de Cultura, “entidades reconhecidas e apoiadas financeira e institucionalmente pelo Ministério da Cultura, que desenvolvem ações de impacto sócio-cultural em suas comunidades”; e a criação do Pontão Digital, que possui as mesmas funções dos Pontões de Cultura, porém, com a peculiaridade de utilizar predominantemente os meios digitais na promoção de suas atividades. <br />E, analogamente, destacam-se as experiências dos Telecentros, uma estratégia de democratização e inclusão digital, “um espaço público onde pessoas podem utilizar microcomputadores, a Internet e outras tecnologias digitais que permitem coletar informações, criar, aprender e comunicar-se com outras pessoas, enquanto desenvolvem habilidades digitais essenciais”. (Cf. Wikipedia, 13.05.2011).<br />Para uma práxis teórica dessas experiências, consultar o livro Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea (Lemos, 1996), assim como outros trabalhos do autor, desde os registros internacionais no seu blog “Carnet de Notes”, até a coletânea Comunicação e Mobilidade, Aspectos socioculturais das tecnologias móveis de comunicação no Brasil, em parceria com Josgrilberg (2009) e a obra recente, com Lévy, O futuro da internet; em direção a uma ciberdemocracia planetária (2010). Ou seja, Lemos apresenta um sólido alicerce teórico-conceitual para compreendermos os processos sócio-técnicos, culturais e comunicacionais, reunindo pesquisa empírica, reflexão e síntese das tendências atuais, no Brasil e no mundo.<br />Diante do complexus da sociedade em rede, a percepção tout court racionalista, cartesiana e lógico-dedutiva é confrontada com outra geografia de pensamento, que inclui, por um lado, as investigações de Edgar Morin, focalizando as interconexões e complexidades socioculturais e políticas globais, o que abrange os insumos tecnológicos, e por outro lado, o trajeto antropológico composto por uma legião de pensadores e estudiosos, como Bachelard, Durand, Maffesoli, Rocha Pitta, Machado da Silva, dentre outros instigando uma decifração da cultura digital, pela leitura da força simbólica que – antropologicamente – reúne e restrutura os laços sociais.<br />A “nova realidade eletrônica” tem sido historicamente vasculhada por distintos especialistas preocupados com a conexão entre o homem e a tecnologia, desde Alvim Tofler, A terceira Onda (1980), passando por Fritjof Capra, O ponto de Mutação (1983), e o ícone teórico da contracultura norte-americana, Theodor Roszak, O culto da informação: o folclore dos computadores e a verdadeira arte de pensar (1988).<br />Há todo um legado exploratório, analítico e explicativo, que tem fertilizado o imaginário mitopoético e científico do ciberespaço. Em tempo, nessa perspectiva conviria apontar a obra A pele da cultura (De KERCKHOVE, 2009), uma exploração da nova realidade eletrônica que atualiza o debate numa ótica pós-mcluhaniana.<br />Sob prismas diferenciados, organiza-se um repertório importante de enquetes, diagnósticos e investigações sobre o fenômeno de intersecção da tecnologia & comunicação e suas repercussões no contexto da civilização. Estes estudos constituem passagens obrigatórias para uma compreensão histórica e social, e contribuem para uma mediação afirmativa face à inserção das “máquinas inteligentes” na vida cotidiana.<br />Uma interpretação fenomenológica da cultura digital<br />Particularmente, miramos a comunicação digital numa perspectiva que assimila as contribuições de uma “antropologia interpretativa” (GEERTZ, 1989), o que significa contemplar a interface das culturas humanas com as tecnologias; interpretar a lógica interna dessa cultura tecnológica, observando as articulações do fenômeno técnico com o mundo da natureza e da sociedade.<br />Por esse prisma, é instigante examinar como funcionam as suas relações com as formas ético-políticas, místico-religiosas, materiais e simbólicas, e como isto repercute nos estilos de apropriação das linguagens e empoderamentos sócio- tecnológicos.<br />Nessa direção, são esclarecedoras as idéias de Gleiser, em A dança do Universo (1997), uma exploração das ligações entre as ciências duras e as ciências do espírito, que nos lança para outra margem do pensamento, o que nos concede distanciamento e nos permite compreender melhor as experiências da comunicação na era digital.<br />Igualmente instigantes são as investigações de Zielinsky, filósofo-cientista, mago da comunicação que, como um autêntico hermeneuta, realiza uma “arqueologia da mídia, em busca do tempo remoto das técnicas do ver e do ouvir” (2006).<br />(Zielinsky) propõe, para a geração que começa a trabalhar com a imaginação nos mundos da mídia, ser de vital importância saber que uma abordagem mágica, em relação à tecnologia continua a ser possível, assim como assegurar que o investimento nessa abordagem é significativo. “Esses equipamentos não estão à espera para ser descobertos pelos ativistas midiáticos de hoje, como foi o caso em relação aos movimentos de vanguarda da década de 1920, dos pioneiros do pós-guerra da arte, dos fluxos, da ação e dos conceitos, do vídeo ou dos primeiros networkers. Pelo contrário, eles estão cercados por todos os lados por equipamentos e sistemas técnicos padronizados. Encontrar um caminho através de tudo isso - e conseguir uma expressão criativa e original - não é tarefa fácil. (...) A atitude de uma moderna Teoria das Mediações, em contraposição àquelas Teorias da Comunicação que se ocupam meramente dos produtos e da produção, (...) uma teoria deveria se ocupar, por um lado, com as raízes profundas, ou com o tempo profundo da mídia, uma arqueologia que desobstrua o passado e recupere uma real dimensão dos meios (de comunicação); por outro deveria voltar-se para as projeções e desdobramentos futuros. Uma visão ecológica avant la lettre, na medida em que pensa longos trajetos e seus possíveis impactos sobre o ambiente comunicacional. <br />BAITELLO. In Arqueologia da Mídia (ZIELINSKY, 2006).<br />Faz-se necessário explorar as interfaces da cibercultura buscando captar o sentido do pensamento social, que tanto se estabelece nas conversações corriqueiras na praça pública, nos debates acadêmicos ou no âmbito dos mercados especializados. É importante perceber as diferentes maneiras como os indivíduos interagem nos ambientes gerados pela “terceira onda” do ciberespaço porque as escolhas, usos e gratificações, as estratégias de consumo e resposta dos atores sociais face às máquinas de comunicar, principalmente com as mídias locativas, são geralmente imprevisíveis.<br />Para uma visão atualizada sobre a cultura das redes, particularmente, focalizando os sistemas de poder e as legislações prevalentes, e para entender os modos de empoderamento dos indivíduos na sociedade informacional e suas estratégias de comunicação mediadas pelas redes sociais, convém acessar o site e conhecer o livro Cidadania e Redes Digitais, do especialista Sergio Amadeu da Silveira (2010). <br />Trata-se de um enfoque do fenômeno das redes sociais abertas e colaborativas, demonstrando exemplos de adoções bem sucedidas, e a crítica das regressivas modalidades de controle por parte das corporações e do Estado. É conhecida o seu combate frente à chamada Lei Azeredo (o chamado “AI-5 digital”), que – na visão dos cidadãos e cibermilitantes – consiste numa forma de controle e uma ameaça para a liberdade de informação propiciada pelo ciberespaço.<br />O PLC (projeto de lei da câmara) incentiva o temor, o vigilantismo e a quebra da privacidade. Prejudica a liberdade de fluxos e a criatividade. Impõe o medo de expandir as redes. (...) O projeto de lei é tão absurdo que iguala os adolescentes que compartilham músicas aos crackers e suas quadrilhas que invadem as contas bancárias de cidadãos ou o banco de dados da previdência. <br />SILVEIRA, O.I, 01,07. 2008.<br />Sérgio Amadeu Silveira combate igualmente a estratégia política voltada para a tecnologia do Ministério da Cultura, na gestão atual, apontando para o retrocesso que significa a retirada da licença do creative commons do site do Ministério.<br />Primeiro é preciso esclarecer que as licenças Creative Commons surgiram a partir do exemplo bem sucedido do movimento do software livre e das licenças GPL (General Public Licence). O software livre também inspirou uma das maiores obras intelectuais do século XXI, a enciclopédia livre chamada Wikipedia. Lamentavelmente, os lobistas do ECAD chegam a dizer que a Microsoft apóia o software livre e o movimento de compartilhamento do conhecimento. Segundo, o argumento do ECAD de que defender o Creative Commons é defender grandes corporações internacionais é completamente falso. As grandes corporações de intermediação da cultura se organizam e apóiam a International Intellectual Property Alliance® (IIPA, Associação internacional de Propriedade Internacional) e que é um grande combatente do software livre e do Creative Commons. <br />SILVEIRA, 30.01.2011 on line<br />Enfrentamos em nosso estudo os paradoxos e contradições da nossa modernidade tecnológica, procurando transcender os espectros de crise e pessimismo. E apostamos ser possível nos instalarmos no interior desse sistema e descobrir novas estratégias de comunicação, contribuindo para a reversão das adversidades, e neste sentido os meios interativos podem se constituir como vetores favoráveis.<br />Uma perspectiva estimulante se apresenta na obra A sociedade enfrenta a sua mídia, dispositivos sociais de crítica midiática (BRAGA, 2006). Uma articulação de temas no âmbito da cultura midiática, que se efetiva a partir da eleição de três objetivos:<br />a) observar empiricamenteas lógicas do processo crítico-interpretativo da mídia pela sociedade; b) desenvolver o conceito de sistema de resposta social sobre a mídia; c) estabelecer bases mínimas para uma perspectiva praxiológica, para comentar criticamente as práticas do sistema. <br />BRAGA, 2006, p.339.<br />No que concerne ao nosso objeto de estudo, Braga dedica um capítulo ao estudo do site “Ética na TV – Campanha “Quem financia a baixaria”, pertinente para estudarmos as interfaces poder social e ciberespaço. No texto, o autor explica “o objetivo da campanha investigada, promover o respeito aos direitos humanos e à dignidade do cidadão nos programas de televisão” (BRAGA, 2006, p. 232) e analisa a processualidade dessa experiência, avaliando em que proporção o seu resultado se mostra substancialmente relevante, e quais os limites e o poder de alcance das suas estratégias programáticas. Ou seja, instiga a refletirmos sobre o poder dos usuários.<br />Paulo Paz faz a apresentação da obra e nos anima a reconhecer como Braga “apresenta uma contribuição para a teoria da comunicação”, e nos leva a vislumbrar uma modalidade específica da crítica do ciberespaço pela via dos fluxos, da circulação:<br />A circulação própria do sistema de resposta não é aquela que faz chegar o produto da mídia ao indivíduo, e sim aquela que se inicia após o consumo; a circulação é diferida e difusa, após a recepção, e sem necessariamente passar por grupos organizados e instituições. <br />BRAGA, 2006, p. 15.<br />Assim, concluimos que existe uma inteligência crítica social, um exercício de crítica do (poder e do) ciberespaço, que se efetiva nos campos da produção, recepção e circulação das mensagens. Uma leitura mais detida do texto de Braga nos revela os níveis de atuação dessa inteligência, que o autor nos apresenta envolvida na designação de “dispositivos sociais de crítica midiática”. <br />Por sua vez, Fausto Neto (2009) investiga as estratégias da recepção (e consumo), “pelas bordas da circulação”. Ajuda a entender como a configuração rizomática do ciberespaço modificou a natureza e os níveis de produção, circulação e consumo. O seu olhar sobre a comunicação em rede nos permite flagrar a intervenção do usuário-intérprete-cidadão na instância de circulação da mensagem. Nos labirintos hipermídia os cibercidadãos se instalam deflagrando novas relações de sentido no processo comunicacional. As estratégias de ação dos hackers atuam na espessura de uma comunicação blindada, mas que não resiste aos agenciamentos colaborativos.<br />Interfaces emergentes, estratégias de comunicação em rede<br />Na atividade político-partidária percebemos como o voto digital tem inibido as fraudes eleitorais, nos espaços geopolíticos historicamente marcados pelo coronelismo e pelo chamado “voto de cabresto”. Observamos também mudanças nos espaços geoeconômicos em que os fluxos comerciais se perfaziam lentamente; a informatização dos mercados tem agenciado uma economia de trocas mais ágil gerando bons dividendos. Isto implica em novas descobertas, investimentos e também desafios.<br />Na era das imersões digitais, convém reconhecer o poder da experiência ético-estética. Os ambientes tecno-informacionais envolvem os corações e mentes, alcançam a biologia e a psicologia do ser por meio de imagens-sensações, estímulos eletrônico-afetivos, informações em ondas tecno-sensoriais. Essas informações de ordem estética e cognitiva são atravessadas por normas, valores, capitais simbólicos que moldam o habitus, a formas do estar-junto, os estilos do gosto, a cognição e a conduta.<br />No plano das estruturas do cotidiano há novos modos de interação e socialidade mediados pela tecnologia, que animam os diálogos e as conversações dos indivíduos e grupos, criando um estilo de conjunção e magnetismo que reorganiza as experiências coletivas através das redes sociais. Funcionam principalmente como vetores de entretenimento, mas pragmaticamente otimizam o trabalho nas ONGs e instituições sem fins lucrativos, voltadas para as estratégias de desenvolvimento social.<br />Incluímos aqui alguns exemplos garimpados por Denis Moraes, monitorando as estratégias de ação afirmativa, na obra O concreto e o Virtual (2001), que perfazem uma (n)etnografia das instituições e organizações atreladas aos projetos de autonomia, emancipação e desenvolvimento, e aí se inscrevem positivamente os organismos da sociedade civil que decidiram apostar na web:<br />O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Ação da Cidadania contra a Fome e a Miséria e pela Vida, Anistia Internacional, a Rede Telemática de Direitos Humanos (Dhnet), o Human Rights Watch, o Geenpeace, SOS Mata Atlântica, o Fundo Mundial para a Natureza, a Rede de Informações do Terceiro Setor (Rits), a Federação de Orgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), a Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB), a Comissão Pastoral da Terra, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Global Exchange, o Social Watch, a Confédération Internationale des Syndicats Libres, o Fórum Nacional pela Democratização dos Meios de Comunicação, a Ação pela Tributação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos (ATTAC), a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA), o Enfants du Monde, o Centro de Educação Sexual (CEDUS), Women Rights, o Centro Feminista de Estudos e Assessoria, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) e o Médico Sem Fronteiras. <br />MORAIS, 2001, pag.?<br />É importante observar a eficácia dos regimes de comunicabilidade que estruturam os serviços na “sociedade em rede”, na medida em que os novos formatos implicam mutações evolutivas na divisão do trabalho. A informatização social tem propiciado favoravelmente a otimização dos recursos nas áreas da saúde, agricultura, política, jornalismo, arte, economia e educação. E novas estratégias colaborativas vão sendo postas em prática na medida em que as comunidades vão se interconectando.<br />Cumpre discutir os processos educacionais, cognitivos, estéticos, políticos e comunicacionais que interagem no contexto das redes sociais. Embora ainda incipientes, considerando-se o índice populacional, as novas tecnologias têm contribuído para o aprimoramento das condições de ensino, pesquisa e extensão nos quadros do ensino superior, o que significa uma modalidade inédita de empoderamento coletivo.<br />É preciso considerar a importância da universidade nos espaços socioeconômicos, políticos e culturais, cujos níveis de participação dos atores sociais na esfera pública se mostram desbalanceados. <br />A sociedade em rede nos alerta para a urgência em enfrentar a complexidade socioeconômica, política e cultural em que o pensamento, a linguagem e a ação passam pelo crivo de novas articulações entre os saberes, as técnicas, a política e os mercados.<br />Logo, é necessário igualmente considerar a relevância do mercado dos bens simbólicos em circulação no cotidiano midiatizado, em que proliferam competências e saberes que levam os atores sociais, como “actantes”, a participar ativamente dos processos de produção, distribuição e consumo.<br />Sob o signo de Hermes, o mentor dos interpretes e das comunicações, buscamos encontrar um termo equidistante que nos permita decodificar as leis que presidem as estranhas conjunções, aproximando interesses e expectivas distintos, mas que fazem parte de uma mesma tessitura sócio-cultural.<br />3<br />Hermes & Afrodite na era das convergências<br />Observaremos aqui teoricamente e empiricamente as conexões e convergências que formam a complexidade do ciberespaço, enredando as interesses e expectativas distintas (como a educação, o entretenimento, o mercado e a política), mas que se aglutinam (sob a égide da inteligência coletiva conectada) na comunicação em rede.<br />Na modernidade clássica (do Iluminismo até meados do século XX), a espada era a lei. Havia, então, uma ambiência marcada pela divisão, separação, dicotomias e polaridades. Era assim: ou isto ou aquilo. O processo civilizatório foi implacável na construção da identidade do homo sapiens moderno, estabeleceu o cogito cartesiano com senha de acesso ao conhecimento e expulsou do pensamento lógico-dedutivo, tudo o que não pôde dominar, ou seja, considerado desumano, imundo, irracional. <br />Para preservar a sua integridade e assegurar sua permanência, o regime simbólico da modernidade separou a razão e a fé, o científico e o poético, a arte e a técnica, o privado e o público, a escola e o mercado, o individual e o coletivo. A “alta modernidade” estabeleceu categorizações e hierarquias que engessaram a vida social e a política, modelando - canhestramente - as formas de pensar, falar e agir dos indivíduos. Em sua obstinada busca pelo progresso e desenvolvimento, o capitalismo tardio promoveu o princípio geral da exclusividade, reforçando o “mal-estar da civilização”.<br />Entretanto, já na “modernidade tardia”, os anos 60/70 foram pródigos na contestação de uma experiência cultural e política, cujos valores estavam em descompasso com a vontade geral de transformação social. As gerações que amadureceram durante os chamados “anos rebeldes”, sob o signo da contracultura, deixaram um legado importante para os sucessores. E os anos 80/90 têm sido descritos como os anos youppies, da globalização, da era Reagan, Tatcher e Guerra nas Estrelas; mas, por outro lado, da queda do muro de Berlim, do fim da União Soviética e dos regimes fechados no Leste Europeu: os verdes, os cyberpunks, os alternativos do planeta sinalizaram novas convergências, tribalizações inéditas e ciberativismos vigorosos. Neste período, os atores sociais prepararam o terreno para uma nova reordenação do mundo, contestando os princípios da separação, exclusão e bipolaridade.<br />Certamente, Edgar Morin foi um dos primeiros a sistematizar uma estratégia de reflexão profunda do mundo despedaçado após a 2ª Guerra Mundial. Primeiramente, contemplando a cultura de massa no século 20, fez diagnósticos cruéis sobre o “espírito do tempo”, como “neurose” e “necrose”. Contudo, seduzido pelas estrelas do cinema, escreveu duas obras que atenuam um pouco o sentimento pessimista, entrevendo as sensações do grande público, em júbilo, ligados na “comunidade afetiva” forjada pela sétima arte. Cf. O cinema ou o homem imaginário [1956] e As estrelas [1957].<br />Posteriormente, Morin elaborou um sólido edifício conceitual (O Método, 1980-1996), com base na “teoria da complexidade”, rearticulando os campos em que atuam o biológico, o psicológico, o social, o histórico, político, o econômico e o cultural, sem esquecer-se das experiências da educação, tecnologia, ecologia e comunicação.<br />Nada será como antes, na geografia do pensamento ocidental, após Foucault e Deleuze. Desde a obra As palavras e as coisas (1966) até a publicação postmortem dos Ditos e Escritos (1954-1988), Foucault construiu uma rede de conceitos, propiciando o encontro inédito entre as instâncias consideradas irreconciliáveis, no plano da filosofia, ciência, arte, política, comunicação e vida cotidiana. Assim, liberou agenciamentos positivos através de conceitos como “arqueologia do saber”, “genealogia e microfísica do poder”, “biopoder” e “biopolítica”, que nos permitem entender as interfaces entre o saber e o poder, a mente e o corpo, a natureza e a cultura.<br />Por sua vez, Deleuze (em colaboração com Felix Guattari), transitando entre a crítica e a clínica, propôs, nas obras O Anti-Édipo (1972) e Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia (1979), a “esquizoanálise” (uma investigação crítica da psicanálise, apreciando a alma espedaçada na era atômica); uma cartografia do social (pós-marxista e pós-freudiana); uma filosofia atenta para a formação dos “grupelhos”, “revoluções moleculares”, “máquinas desejantes”, estratégias de ação micropolítica que têm lançado provocações estimulantes às pesquisas em Comunicação, Ciências Humanas e Ciências sociais . A obra de Deleuze, particularmente, postula uma “filosofia da diferença” que reúne a economia política e a economia libidinal, o corporal e o mental, o virtual e o atual, o orgânico e o tecnológico, o devir humano abrindo caminho para as novas gerações se lançarem numa reflexão acerca do “pós-humanismo” e da “pós-metafísica”.<br />No campo das Ciências da Comunicação, verificamos também uma divisão arbitrária, que separou em dois blocos os “apocalípticos” e “integrados”, gerando efeitos regressivos. Lamentavelmente, o “paradigma clássico da comunicação” deixou de fora a potência do social no processo comunicativo. Separou o emissor e o receptor, o ator e o espectador, a comunicação e a sociedade; um ato falho no campo da comunicologia. Entretanto, desde os anos 60, McLuhan já vinha revolucionando a área, forjando os conceitos de “aldeia global” e “tribalização” formados pela comunicação eletrônica. <br />Aos atuais pesquisadores das interações mediadas pelas tecnologias digitais, caberia fazer uma arqueologia no passado recente, resgatando – na história do pensamento comunicacional – os autores e escolas que vão fundo no exame da complexidade da interface Comunicação e Cultura. E aí, teríamos de incluir os trabalhos de Paulo Freire, criador de um avançado método pedagógico e gerador de competências empenhadas em reunir a Educação e a Comunicação, práticas voltadas para a liberdade e autonomia. Freire contempla as relações entre o aprendizado, as histórias de vida, o trabalho, o cotidiano, os valores humanos e sociais na experiência do conhecimento. Hoje, suas idéias são atualizadas pelo viés da Educomunicação, que busca decifrar as complexas conexões entre a escola e a mídia, entre os processos comunicacionais e processos educacionais .<br />Com o aparecimento das mídias interativas, expressões importantes têm sido recuperadas no campo das Ciências da Comunicação, como a Escola de Chicago e a Escola de Iowa, que pesquisaram teoricamente e empiricamente o “interacionalismo simbólico”. Da mesma forma, recorre-se à Escola de Palo Alto (o dito “Colégio Invisível”) para embasar as análises dos processos interacionais. São importantes, pois consideram os movimentos sociais e as estratégias comunicacionais em conexão com as instâncias econômicas, políticas e tecnológicas, prenunciando os atuais estudos das redes sociais e das convergências tecnológicas. Convém anotar também o legado de Norbert Wiener (o pai da cibernética), que servirá de base para as pesquisas dos processos sociotécnicos e suas interfaces culturais, no século 21. <br />Cumpre ressaltar a chamada Escola de Toronto, iniciada a rigor com Harold Innis, autor dos livros Império e Civilizações (1950) e O viés da comunicação (1951), cujas ideias serão básicas no pensamento de McLuhan. Neste filão epistemológico, convém igualmente estudar o trabalho de Kerckhove, A pele da Cultura (2009), estudioso das extensões humanas, das redes neurais e bio-sociotecnológicas. E mais recentemente a obra de Di Felice, Paisagens pós-urbanas (2009), sondando as “formas comunicativas do habitar”, no contexto do chamado “pós-humanismo”.<br />A cultura de convergência não é um mar de águas tranqüilas<br />Percebemos que historicamente, as conjunções sócio-comunicacionais e tecnológicas não se perfazem sem tensões e conflitos. Como no campo da ação pragmática (nas organizações, empresas, instituições públicas e privadas), também no terreno da pesquisa científica, a “coincidência dos opostos” provoca disputas, rivalidades e confrontos. Assim acontece nas relações entre a universidade e o mercado, a academia e a esfera profissional, o “senso comum” e o conhecimento científico. E de modo mais abrangente, esta ocorrência se sucede em outras modalidades de relações, como entre o Estado laico e as mídias religiosas, as corporações multinacionais e os ambientalistas, os advogados do copyright e os defensores dos creative commons.<br />E não podemos também prescindir da crítica às conjunções malditas, geradoras de regressão social, desde os grandes trustes e cartéis da comunicação, dos agrupamentos sem ética nem responsabilidade, até as redes do narcotráfico e da criminalidade, que provocam a desordem e o caos social. Assim, convém entender que a era das convergências encerra – simultaneamente - conseqüências positivas e negativas.<br />Dentre os seus defensores, Henry Jenkins chama a atenção para as narrativas transmidiáticas como instâncias geradoras de uma cultura da convergência, com reflexos positivos nos processos socioculturais, como informa Jenkins, em entrevista a Vinícius Navarro, publicada na revista Contracampo (da UFF):<br />Henry Jenkins é um dos pesquisadores da mídia mais influentes da atualidade. Além do livro sobre convergência midiática, ele já escreveu sobre comédia no cinema hollywoodiano, sobre jogos de computador e sobre comunidades de fãs. De forma mais ampla, Jenkins é um entusiasta daquilo que chama de cultura participatória. Segundo ele, os usuários da mídia contradizem a idéia de que somos consumidores passivos de conteúdo midiático ou meros recipientes de mensagens geradas pela indústria da comunicação. Jenkins prefere pensar nos consumidores como agentes criativos que ajudam a definir como o conteúdo midiático deve ser usado e, em alguns casos, dão forma ao próprio conteúdo. A convergência midiática tende a expandir essa possibilidade de participação porque permite maior acesso à produção e à circulação de cultura <br />NAVARRO, 2010, on line.<br />O que ocorre de “novo” na dimensão cultural é um despertar coletivo para a possibilidade de se usar a dinâmica das interações entre os domínios da vida social, que estiveram ideologicamente separados. Convém capitalizar os benefícios trazidos – por exemplo – pela convergência entre a ciência e a tecnologia, a arte e a comunicação, os agenciamentos virtuais e os presenciais, o esforço reflexivo-intelectual e o trabalho dos profissionais de mídia, gerando também modalidades de empoderamento social.<br />Hoje, na sociedade em rede, vislumbramos uma cartografia regida pelo princípio da conjunção, convergência e compartilhamento, em que “isto” e “aquilo” se conjugam e interagem, propiciando experiências inéditas no cotidiano e na história da cultura. <br />É necessário entender essa nova constelação, que é de ordem fenomenológica (pois traduz a natureza do próprio fenômeno tecno-social e comunicacional) e - ao mesmo tempo - de ordem epistemológica (pois revela novos saberes e fazeres nas conexões da arte, tecnologia e comunicação). <br />Faz-se preciso reconhecer que o campo das Ciências da Informação e da Comunicação, sendo partes integrantes das Ciências Humanas e das Ciências Sociais, distintamente das ciências duras, passam sempre pelo crivo da interpretação, pelo exercício de hermenêutica, como os domínios científicos do Direito, da História, da Sociologia e da Pedagogia.<br />Uma mudança básica no que concerne à pesquisa em Comunicação é que se pode hoje, com as redes colaborativas, aliar a dimensão empírica (da análise quantitativa) e a dimensão especulativa (da análise qualitativa); os data base e outros “dispositivos sociais de resposta” (BRAGA, 2006) gerados em rede asseguram um novo rumo às investigações.<br />Logo, reconhecemos, portanto, que as narrativas sociais (no mundo do trabalho e do lazer, na vida pública e na vida privada) são perpassadas pela linguagem mitopoética, incluindo a dimensão simbólica da intuição, da subjetividade, induzindo à criatividade. Assim, a “razão mitopoética”, que na antiguidade conviveu com o discurso da história, da ciência e da política, hoje pode revigorar o pensamento e ação através de um “novo espírito científico”, diante dos fenômenos, experiências e acontecimentos ainda em processo e, conseqüentemente, ainda por serem decifrados. <br />Hoje, no cenário multicultural, percebemos a atualização das estruturas antropológicas antigas, que sempre nortearam o imaginário coletivo e hoje potencializam a imaginação criadora da comunicação. (Não se trata de recorrer ao passado para explicar o presente, mas contemplá-lo com os olhos do presente).<br />No jornalismo, na publicidade, no marketing digital, no show business, nas artes do espetáculo, nos esportes, no mundo da moda, no cinema, nos games e videoclipes, observamos a efervescência de símbolos, que revelam a natureza dos desejos, e aspirações humanos, projetando-se em nossas atuais vivências eletrônicas. <br />O exemplo mais gritante disso é a reverência do homem pós-moderno diante do novo totem, o computador. Nessa direção, é bastante oportuno revisitar os estudos de Comunicação e Cultura voltados para esta temática, como os trabalhos já clássicos Mitologias (BARTHES, 2003), As estrelas (MORIN, 1979), e os mais recentes, Mitoironias do Virtual (BAUDRILLARD, 1997) e Iconologi@s, nossas idolatrias pós-modernas (MAFFESOLI, 2008) e A pele da cultura (De KERCKHOVE, 2009).<br />Conexões sociotecnológicas, mitologias, iconicidades contemporâneas<br />Na sociedade informatizada, estamos inapelavelmente interligados por inteligências compartilhadas, que sinalizam um novo estágio na história da civilização.<br />A consciência dessa experiência tem gerado novas orientações, notadamente no conjunto dos saberes que constituem as Ciências da Informação e da Comunicação. Por exemplo, no que concerne à imaginação antropo-tecno-comunicacional , fazendo referência específica às mitologias, há uma série de livros instigantes, demonstrando a força do seu simbolismo, seja numa apreciação de cunho mais crítico.<br />Aliás, no contexto antropológico das mitologias, encontramos o simbolismo marcante de Vênus (Afrodite) , a deusa do amor e da beleza, nascida das espumas do mar e que se apresenta numa “concha”, objeto pertencente à mesma bacia semântica da “taça”, da “copa”, do “ninho”, da “rede”, na antropologia simbólica (Jung; Eliade; Bachelard; Durand), implicando no acolhimento das substâncias, mensagens e conteúdos distintos, que resultam numa formação fenomênica híbrida e complexa.<br />Essa figura mitológica, de acepção lunar, corresponde, na mitologia afrobrasileira, a Oxum, divindade ligada à decifração dos mistérios, à arte da adivinhação. Também aqui, o seu elemento estimula a união, o matrimônio e a concepção. Assim, a mitologia remete a uma fenomenologia e a um espírito científico, norteado por um ethos agregador, como se lê na obra filosófica de um especialista nas ciências exatas, A dança do universo (GLEISER, 2000).<br />Mas a grande experiência mitológica contemporânea está no cinema, funcionando como um radar, arca da aliança das nossas simbologias fundamentais. Desde a cinematografia pós-metafísica do filme 2001. Uma odisséia no espaço (Stanley Kubrick) passando pela trilogia narrativa tecnodocumental de Koyaanisqatsi (Vida em desequilíbrio, 1982), Powaqqatsi (Vida em transformação, 1988) e Naqoyqatsi (Vida em estado de guerra, 2002), de Godfrey Reggio (com trilha sonora de Philip Glass). Projeta-se nas denúncias ético-políticas e ecológicas, em filmes como Blade Runner, Matrix, Avatar, portais privilegiados para contemplarmos as “conjunções, disjunções, transmutações” humanas, no contexto da comunicação e cultura tecnológica .<br />Desde a antiguidade, segundo Nietzsche, os princípios “apolíneo” e “dionisíaco” equilibram o imaginário coletivo face às expressões da ordem e do caos do mundo.<br />Nessa direção, Michel Serres recorre à significação de Hermes (Mercúrio), o mensageiro dos deuses, patrono da comunicação, fazendo uma mediação (uma hermenêutica) entre as circunstâncias extremas, arbitrando entre as polarizações do apolíneo e do dionisíaco. E, por sua vez, a sua meio-irmã, Vênus (Afrodite), atua igualmente, favorecendo as conjunções, convergências e aproximação dos contrários. <br />Tais imagens nos orientam no pensamento, instigando uma reflexão sobre o caráter dos processos ético-comunicacionais na era das tecnologias de convergência.<br />Então, inscrevem-se estilos inéditos de transcendências efêmeras no ciberespaço, que conferem sentido à existência dos internautas. É no “instante eterno” das conexões neuro-sensoriais, telemáticas que os cibercidadãos realizam as suas formas de catarse; eis um dado antropológico que nenhuma etnologia comunicacional pode negligenciar.<br />As dimensões tecnoafetivas, neuroperceptivas, estético-cognitivas geradas por meio das sensações, emoções, sentimentos, durante as conexões digitais, não podem ser ignoradas numa análise da comunicação e cibercultura.<br />O ciberespaço consiste num lugar privilegiado das relações, vinculações, conjunções e conectividades. Onde se encontram (e se confrontam) o público e o privado, o editor e o leitor, o objetivo e o subjetivo, o racional e o lúdico. <br />Esta circunstância – atravessada por empiricidades inéditas – nos solicita uma epistemologia para tratar dos fenômenos da comunicação digital. Isto ocorre com o correio eletrônico, sites, chats, listas de discussão, comércio virtual, marketing digital. E os populares dispositivos formadores de comunidades virtuais (Orkut, My Space, MSN, FaceBook, SecondLife, etc), o webjornalismo (nos blogs, twitter, portais, e outros hipermeios) e as formas recentes das narrativas transmidiáticas (que migram dos formatos analógicos do cinema e da TV), configurando o fenômeno das redes sociais.<br />Aportes teóricos e etnografias do ciberespaço<br />Assim, alguns elementos se apresentam para uma análise das experiências da convergência no mundo digital, e os indicamos como pertinentes para uma netnografia. Neste sentido, contemplamos o panorama do pensamento contemporâneo, voltado para os aportes teóricos dos estudos culturais em comunicação, principalmente, após a segunda metade do século 20. Exploramos os estudos realizados a partir dos anos 80/90, quando se instalam as redes tecno-sociais de informação, sem esquecer-se das recorrências ao tempo histórico dos saberes que precedem a idade mídia e a era da informação, como o faz Zielinsky, “em busca do tempo remoto das técnicas do ver e ouvir” (2006), arqueologizando as práticas socio-técnicas de reprodução, consumo (e compartilhamento) dos ícones imagéticos e sonoros.<br />Verificamos que as redes, por um lado, impulsionam as estratégias do neoliberalismo, os processos de globalização e informatização planetária, favorecendo a dinâmica dos capitais transnacionais, das instituições econômicas e das políticas globais. Por outro lado, geram a potencialização das forças criativas, modalidades de empoderamento e ações afirmativas, no plano sociopolítico e sociocultural. Neste contexto, conviria apontar o trabalho de Lévy, em colaboração com Lemos, O futuro da Internet (2010), que apresenta uma etnografia das experiências sociais mediadas pelas tecnologias, favorecendo modos efetivos de participação colaborativa.<br />A questão fundamental concernente à cultura digital não é formalizar um veredito acerca dos seus pecados e virtudes. Isto seria inócuo, pois como adverte Walter Benjamin, “não há civilização sem barbárie”. O que pode existir de mais relevante numa apreciação crítica da experiência cultural na sociedade informatizada é problematizar a parte frágil dos novos “paraísos artificiais”, que retornam como a parte forte da comunicação através das comunidades geradas pelas redes sociais. <br />É importante, igualmente, explorar a parte nobre da tradição que a modernidade reprimiu (do Iluminismo aos anos de 60/70). Um dos méritos da “subversão pós-moderna” é buscar decifrar o sentido da coincidência dos opostos, como no caso dos seres híbridos formados pela conjunção do humano, animal e digital. A partir daí, podemos chegar a um “conhecimento aproximado” da nossa realidade contemporânea, atravessada pelos dispositivos midiáticos e tecnológicos.<br />Convém examinar as interlocuções fundamentais que se processam na arena epistemológica comunicacional. Neste sentido, é salutar rever o “diálogo” entre McLuhan (1969; 1972) e Walter Benjamin (1984), realizado - em verdade - pelos seus leitores, pois ambos examinaram a cultura tecnológica sob prismas opostos. Igualmente, cumpre conhecer as convergências e divergências teóricas entre Bauman (autor crítico de uma epistemologia da “modernidade líquida”) e Maffesoli (estudioso atento às tribalizações, nomadismos, conjunções afetivas, sociais e tecnológicas). <br />Da mesma forma, é essencial ler Castells, investigador da “sociedade em rede” (1999) e dos “empoderamentos sócio-tecnológicos” (1999b; 2007; 2009a; 2009b), mas isso pode ser mais instigante se criarmos as condições para um diálogo interdisciplinar, a partir das contribuições de autores como Kerckhove (2009), que focaliza as redes eletrônicas, neurais e inteligências conectivas, e Latour (1994), observando os atores em rede, como “actantes” (sujeitos e subjetividades) geradores de agenciamentos positivos.<br />Examinamos os processos de miniaturização de um mundo que se tornou complexo e que parece se deslocar muito depressa, solicitando estratégias sensíveis para captar os processos midiáticos nômades, locativos (LEMOS & JOSGRILBERG, 2010). <br />É este o problema que se impõe decifrar: a configuração de uma realidade que se modificou desde a invenção do telescópio, trazendo para perto toda uma cosmologia que estava distante. E convém explorarmos este jogo de lentes e espelhos que estilhaçou o cotidiano da modernidade, numa multiplicidade de imagens e simulacros. Faz-se necessário observar os fractais, enquanto expressões das “disjunções e conjunções” de nossa era líquida. Tudo isso que parece ganhar vida nos vídeos, nas telas, no plasma eletrônico dos livros digitais, nos ambientes informatizados. É necessário fazer bom proveito desta profusão de objetos, fenômenos e experiências, buscando analisar os nervos dos sistemas informacionais para a instalação dos agenciamentos coletivos.<br />Relembramos – em tempo – que um MUD como o Second Life pode ter ficado fora de moda, mas permanece, juntamente com os games interativos, como uma modalidade de ambiência em que a infocomunicação se faz táctil, sensorial, em que o envolvimento dos usuários, cibercidadãos, e-leitores imersivos é total.<br />A expansão do saber e as mídias colaborativas<br />Tudo aquilo que se mostrou no cinema de ficção científica já é muito “real” e faz parte do trabalho cotidiano, nos domínios da Engenharia, da Medicina, da Biologia e do Direito, campos fundamentais na organização da vida mental na cidade. <br />Em nosso esforço de compreender os rumos da comunicação e cultura digital, mantivemos em mente as ações compartilhadas e as reflexões teóricas interdisciplinares. Em nossa cartografia, buscamos assimilar as contribuições de Lemos, Lévy, Kerckhove, Di Felice e seus diagnósticos sobre as inteligências coletivas, neurais, conectadas.<br />Nesta seara, convém destacar a relevância dos trabalhos de Lúcia Santaella, que realiza uma original semiótica do ciberespaço, demonstrada em obras importantes como: Culturas e artes do pós-humano (2003), Navegar no ciberespaço (2004), Linguagens líquidas na era da mobilidade (2007), Ecologia pluralista da Comunicação (2010), Redes Sociais Digitais (2011), entre outras. Cumpre ressaltar, na obra de Santaella, o êxito no esforço em aglutinar o texto denso, conciso e bem fundamentado, a atualização permanente de um objeto fugidio e mutante, por meio de um código de linguagem atento à pluridiversidade das formas assumidas pela cibercultura. <br />Exploramos um campo do saber interdisciplinar, caracterizado pela conjunção de aportes teóricos distintos, acolhendo os insights filosóficos, como o grupo coordenado por Marcondes Filho, explorando o “pensar-pulsar comunicacional” (1996).<br />Encontramos investigações epistemológicas relevantes para uma desvelação do sentido

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