1  HERMES NO CIBERESPAÇO  Arte, técnica, sociedade e política Uma interpretação da comunicação      e cultura na era digit...
2   HERMES NO CIBERESPAÇO  Arte, técnica, sociedade e política Uma interpretação da Comunicação      e Cultura na Era Digi...
3Prefácio ...................................................................................................................
46.     A blogosfera, o webjornalismo e as mediações colaborativas ........................... 91     O estado da arte na ...
5   Uma nova ambiência comunicacional ...................................................................... 169   Sexo, a...
6Prefácio       O autor deste livro é um intelectual. Um verdadeiro intelectual. Não são muitosem atividade. Tem a libido ...
7Apresentação       Este livro é uma viagem pelas encruzilhadas e labirintos da atual cibercultura. Oleitor será levado pe...
8informação jornalística, do comércio e das relações de trabalho, das artes e das relaçõesinterpessoais. O livro é assim d...
9        1. Introdução - O espírito de Hermes e a complexidade da comunicação       Há algo de novo no ar! O fenômeno da i...
10       Em casa, na rua, na esfera pública e privada, nas atividades das empresas,instituições e organizações, novos ator...
11       Vários pesquisadores têm contribuído para se elucidar algumas verdades e mitossobre o fenômeno tecnológico. Nesse...
12                                                                    GLEISER, 1998, p.20.        Explorando os domínios d...
13                     usadas por seu valor simbólico, e vários autores o consideram a imagem                     tutelar ...
14negócios, favorecendo uma vigorosa imaginação criativa no mundo da propaganda e domarketing, e a sua marca no imaginário...
15       O espírito de Hermes como anjo é uma figura complexa, cuja força simbólicareside justamente no seu mistério, sexu...
16                     De um modo geral, as encruzilhadas (daí, do mundo) são loci da                     comunicação, das...
17técnico, informacionista, encarnando uma espécie de “curandeiro high tech” queconserva o “disco duro”, salvando a memóri...
18seja, os e-leitores, usuários, internautas se regozijam manuseando o computador, demaneira diletante, descobrindo mundos...
19artes, explodindo nos quadros de Botticelli, Rubens, Turner, Celine, De Vries, e naimaginação poética de escritores como...
20como O Inferno de Dante 9, passando pela videologia de Harry Potter e os ambientesimersivos como o Second Life 10, até o...
21        O controle sobre o livre arbítrio e a liberdade de expressão é perceptível nasconjecturas e refutações de Santo ...
22Hermenêutica e Theatrum Philosoficum       A recorrência às obras Hermenêutica (PALMER, 1986), Questões fundamentaisda h...
23linguagem como estratégia de estabelecimento dos efeitos de verdade. (Logo, antecipaBaudrillard e a sua crítica dos simu...
24                         recriados paralelamente à evolução da materialidade e das relações                         huma...
25        2. Do cavalo de Tróia ao Wikileaks: os estilhaços do poder no ciberespaço        A mutação tecnológica do século...
26Inteligência conectada e empoderamento coletivo        Há diferentes maneiras dos cidadãos utilizarem os computadores, a...
27ciberespaço e a “economia da atenção”; Henrique Antoun analisando a “democracia,multidão e guerra no ciberespaço”; Ascot...
28       Com     efeito,     as     redes   telemáticas,   tecnoafetivamente,     esteticamente,sensorialmente, geram proc...
29exigências, competências e empoderamentos sociais. Também por isso, no Campo daComunicação, na era das redes sociais, di...
30        A enumeração de alguns títulos dos trabalhos disponibilizados pode indicar oquanto o Grupo de Trabalho “Internet...
31o acesso às diversas modalidades socioculturais e políticas que podem ajudar aequilibrar o desnivelamento dos fluxos sóci...
32novas gerações23. E hoje, a imaginação vigilante dos pesquisadores contemporâneos, emescala global, tem buscado acompanh...
33        Nessa direção, são exemplares os Pontões de Cultura, “entidades reconhecidas eapoiadas financeira e instituciona...
34(1983), e o ícone teórico da contracultura norte-americana, Theodor Roszak, O culto dainformação: o folclore dos computa...
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Hermes no ciberespaço   - 03.11.2011 - 14h38
Upcoming SlideShare
Loading in …5
×

Hermes no ciberespaço - 03.11.2011 - 14h38

2,977 views

Published on

Published in: Education
0 Comments
1 Like
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total views
2,977
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
2
Actions
Shares
0
Downloads
42
Comments
0
Likes
1
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Hermes no ciberespaço - 03.11.2011 - 14h38

  1. 1. 1 HERMES NO CIBERESPAÇO Arte, técnica, sociedade e política Uma interpretação da comunicação e cultura na era digital Cláudio C. PaivaUNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA 2012
  2. 2. 2 HERMES NO CIBERESPAÇO Arte, técnica, sociedade e política Uma interpretação da Comunicação e Cultura na Era DigitalUNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA 2012
  3. 3. 3Prefácio ............................................................................................................................ 6Apresentação................................................................................................................... 71. Introdução - O espírito de Hermes e a complexidade da comunicação.............. 9 A sabedoria de Hermes e o poder da comunicação em rede ...................................... 11 Origem, significação e atualidade do mito de Hermes. .............................................. 12 A imaginação mitopoética, a história e as nervuras do re@l ..................................... 17 O conflito das interpretações no ciberespaço ............................................................. 19 O sono da razão sensível desperta os monstros .......................................................... 20 Hermenêutica e Theatrum Philosoficum .................................................................... 222. Do cavalo de Tróia ao Wikileaks: os estilhaços do poder no ciberespaço ........ 25 Inteligência conectada e empoderamento coletivo ..................................................... 26 A comunicação digital, a força do coletivo e a tecnologia colaborativa .................... 28 Estratégias político-informacionais: da tecnocracia à digitofagia .............................. 30 Informação, Mobilidade e Potência nas Redes Sociais .............................................. 32 Fenomenologia da cultura digital ............................................................................... 34 Interfaces emergentes, estratégias de comunicação em rede ...................................... 383. Hermes, Afrodite e a cultura de convergência.................................................... 40 A cultura de convergência não é um mar de águas tranqüilas.................................... 43 Conexões sociotecnológicas e iconicidades contemporâneas .................................... 46 Aportes teóricos e etnografias do ciberespaço ........................................................... 48 A expansão do saber e as mídias colaborativas .......................................................... 50 Complexidades da Informação, Linguagem e Comunicação ..................................... 51 Não existe ação afirmativa sem tensões e conflitos ................................................... 534. Walter Benjamin e a Imaginação Cibernética.................................................... 55 O singular de Benjamin: a percepção de uma cultura no plural ................................. 58 As imagens digitais têm aura? .................................................................................... 60 Emanações barrocas na era do virtual ........................................................................ 61 Figuras da sorte , figuras do azar: os clichês na Internet ............................................ 64 Alegoria do ciberespaço e sabedoria da comunicação ............................................... 66 Redes de sonhar, redes da imaginação criadora ......................................................... 67 Variações da cultura pop e contracultura no ciberespaço........................................... 70 Fim de partida............................................................................................................. 735. YouTube: artes, invenções e paródias da vida cotidiana .................................. 75 Estrutura e funcionamento do YouTube..................................................................... 77 O YouTube: a escola, o mercado, o domicílio eletrônico .......................................... 79 Competência técnica, educação estética e memória afetiva ....................................... 82 A paródia e o riso na praça pública informatizada ..................................................... 84 Das narrativas da televisão às narrativas telemáticas ................................................. 87 Uma visão mitopoética da TV do futuro .................................................................... 89
  4. 4. 46. A blogosfera, o webjornalismo e as mediações colaborativas ........................... 91 O estado da arte na pesquisa sobre os blogs ............................................................... 94 O retorno da escrit@ na era digital............................................................................. 97 Pureza e perigo dos diários e da blogosfera ............................................................... 99 Categorizações no mercado do entretenimento ........................................................ 101 O jornal e as mediações digitais: o blog, o podcast, o Twitter ................................. 103 Os blogs como extensões da casa, da escola e da empresa ...................................... 1057. O Blog do Tas e a crise do Senado Federal na gestão Sarney ......................... 106 Indignação e perplexidade na comunicação em rede ............................................... 108 O espaço público digital e as intervenções infanto-juvenis...................................... 111 O blog e as experiências midiáticas compartilhadas ................................................ 112 Os blogs e as nuances da Comunicação Política ...................................................... 115 Ética, Direito e diplomacia no trato das competências comunicativas..................... 1168. A Crítica da Mídia no site Observatório da Imprensa ....................................... 118 A estrutura organizacional e o espírito comunitário do webjornalismo ................... 120 Monitoramento das notícias na cultura digitalizada ................................................. 122 A economia e política das troc@s digitais ............................................................... 124 O empoderamento dos usuários, e-leitores, cidadãos ............................................... 126 Hipermídia e Comunicação: inteligência, tecnologia e sensibilidade ...................... 128 A Ética e o ethos midiatizado ................................................................................... 130 Emanações do belo na cultura digital ....................................................................... 132 A inteligência crítica para além da vida digital ........................................................ 1339. BOCC - Um paradigma luso-brasileiro de Comunicação colaborativa ......... 135 A imagem do monge eletrônico e o espírito da Biblioteca Virtual .......................... 137 A economia organizacional de um Portal Científico ................................................ 140 Origem e Atualidade da Biblioteca Digital Portuguesa............................................ 142 Importância da BOCC na pesquisa avançada em Comunicação .............................. 143 Estratégias de comunicação: competência editorial e colaboração permanente ...... 144 A nova ambiência pedagógica e a linguagem informacional ................................... 145 Gramáticas e sintaxes da comunicação luso-brasileira............................................. 14610. A contempl@ção do mundo: Google Earth, a Terra-Pátria digitalizada....... 150 Uma exploração crítica da Google-Mundo .............................................................. 155 Estrutura e funcionamento do Google Earth ............................................................ 156 O olho grande digital e a politização do cotidiano ................................................... 158 Para entender os altos e baixos da “hipermodernidade”........................................... 159 Transcendências efêmeras nas interfaces digitais .................................................... 160 Geopolítica da Comunicação e sensorialidade do ciberespaço ................................ 16411. O cinema, a realidade virtual e o chip do futuro .............................................. 166 Máquinas de visão e iluminações do pensamento .................................................... 168
  5. 5. 5 Uma nova ambiência comunicacional ...................................................................... 169 Sexo, afeto e arte tecnológica ................................................................................... 172 Ética e estética do cinema na era do virtual ............................................................. 174 Para entender as tramas do mundo virtual ................................................................ 176 Avatares, fakes, nossos semelhantes pós-humanos .................................................. 17812. “Quem matou Odete Roitman?” - Vale Tudo nas Redes Sociais? .................. 180 Consumo, transmídia, comunicação colaborativa .................................................... 183 Blogs, interações e subversões na telenovela Vale Tudo.......................................... 186 YouTube: convergência minimalista e tecnologia da interatividade........................ 187 O FaceBook, a potência da infocomunicação e os estilhaços da política................. 190 O Twitter: a ficção, a mediação e o ethos midiatico ................................................ 190 Orkut: mídia colaborativa, afeto e inteligência conectada ....................................... 19213. A bomba informática do WikiLeaks e o jornalismo no século 21 ................... 194 A repercussão do Wikileaks no espaço público midiático ....................................... 196 WikiLeaks como vetor de empoderamento coletivo ................................................ 199 Convergências tecnológicas e divergências políticas ............................................... 200 WikiLeaks & broadcasting: conect@ndo com o inimigo......................................... 202 Os devaneios da tecnocultura e as razões da comunicação ...................................... 204 O estado da arte do jornalismo no século 21 ............................................................ 20614. Considerações finais ............................................................................................ 20815. Referências ........................................................................................................... 213
  6. 6. 6Prefácio O autor deste livro é um intelectual. Um verdadeiro intelectual. Não são muitosem atividade. Tem a libido do saber. Pensa com o corpo inteiro. Sente aquilo queinvestiga. Consegue mesclar o erudito e o popular com uma desenvoltura invejável.Domina o universo do cinema como poucos. Vai de um ponto a outro do imagináriocontemporâneo com leveza e conhecimento. Esta sua incursão no mundo virtual não poderia ser diferente. Traz a marca dequem reflete sem preconceitos e sem amarras. Examina, avalia, interpreta ecompreende. Acessa um número incrível de fontes e nunca se limita a navegações decabotagem. Aposta na renovação. É um pesquisador que não quer apenas repetir as rotas tradicionais. Tem aousadia dos aventureiros. Está longe de se deixar dominar pela camisa-de-força dosdiscursos acadêmicos positivistas. Produzir conhecimento para ele é gerar novidade,abrir novos caminhos, sair dos trilhos e indicar novas pistas. Parece fácil. Não é. Poucos têm essa predisposição para o confronto. Poucos sentem o aroma dainovação. Pesquisar é muito mais do que levantar dados. Exige uma curiosidadeprofunda e uma determinação especial. A determinação para abalar fundamentos,descobrir, “desencobrir”, fazer emergir o novo, revelar, desvelar e até mesmo“desconstruir”. Todas essas qualidades caracterizam o perfil desse pesquisador. Conheço-odesde o tempo em que fazíamos doutorado em Paris e ele via todos os filmes em cartazna cidade. Eu o admirava silenciosamente. Gostava de ver a sua autonomia, a sualiberdade de pensamento, a sua errância pela cidade-luz. Aprendi a conhecer um intelectual, homem livre, com suas idéias e paixões. Nãopreciso dizer mais. Este livro mostra o quanto todas essas minhas observações sãolimitadas para descrever ou qualificar o que o autor representa como pensador docontemporâneo. Sem perda de tempo, comecem a ler. É tudo. JUREMIR MACHADO DA SILVA Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS. Porto Alegre, 2011.
  7. 7. 7Apresentação Este livro é uma viagem pelas encruzilhadas e labirintos da atual cibercultura. Oleitor será levado pelas mãos de Hermes, divindade complexa, associada àcomunicação. Rebelde, é o mensageiro dos Deuses, o angelos, o Deus Mercúrio dosromanos, ao mesmo tempo formal e agregador. Assim é o trabalho: formal, agregador,mensageiro e rebelde. Com maestria, o autor nos leva para conhecer os meandros dacibercultura com um olhar aguçado, atento ao atual, sem abdicar de uma atenção àhistória e à tradição das mídias. O autor discute as funções massivas da indústria cultural e as atuais funções pós-massivas em jogo com as mídias eletrônicas, explicando tanto as convergênciastecnológica e cultural, como a emergência das novas redes e mídias sociais, a ampliaçãoda inteligência coletiva e crescimento do ativismo na rede. Nada mais oportuno, emuma época de ocupações potencializadas por redes sociais e de revelaçõesconstrangedoras de segredos de Estados e de empresas (como os hackers do grupoAnonymous ou o site Wikileaks). Investiga a cultura no plural, uma cultura pop, audiovisual, onde o jornalismo, aindústria cultural e a sociabilidade são tensionadas, crescem e se complexificam emmeio ao desenvolvimento de blogs, microblogs, sites de redes sociais e decompartilhamento de música, fotos ou vídeos. O livro é de amplo alcance, assim comosão os impactos da atual cultura digital. O leitor é imerso em um mosaico, ao mesmo tempo imagem fragmentada emétodo mcluhaniano, que permite apreender a comunicação, a indústria cultural, ojornalismo e as diversas facetas da cultura contemporânea através de múltiplos olhares.O livro é escrito em uma linguagem inteligente, descontraída, sem deixar de ser séria eprofunda, passando em revista o que há de mais importante na bibliografia nacional einternacional sobre o tema. O ciberespaço e a cibercultura, como diz o autor na conclusão, não são uma“segunda vida”, um mundo virtual, a parte, mas uma experiência vicária, quotidiana ereal, que mudou, muda e continuará mudando as formas do entretenimento, da
  8. 8. 8informação jornalística, do comércio e das relações de trabalho, das artes e das relaçõesinterpessoais. O livro é assim de interesse para estudantes, pesquisadores ou parapessoas interessadas em compreender a revolução da comunicação e das mídias digitaisno mundo atual. A figura ambígua de Hermes é o fio condutor do livro, mostrando as potênciasdo imaginário, as aberturas do sentido e as complexas relações entre o sensível e oracional em jogo nesse ainda iniciante século XXI. Como diz o autor, contrariandoBenjamin, o ciberespaço tem sim, uma aura, “e é neste fenômeno aurático que devemosprocurar o significado mitológico, semiológico ou semiótico cultural do ciberespaçopara os contemporâneos”. Cabe ao leitor aceitar o passeio e se deixar levar pela potênciacomunicativa e agregadora de Hermes.André Lemos é Professor da Faculdade de Comunicação da UFBA e pesquisador doCNPq. http://andrelemos.info
  9. 9. 9 1. Introdução - O espírito de Hermes e a complexidade da comunicação Há algo de novo no ar! O fenômeno da internet, hipermídias e redes sociaisconfiguraram uma nova realidade sociocultural, em que os cidadãos interconectadosinteragem de maneira colaborativa, formando laços afetivos, comerciais e políticos. Osgrandes clássicos do cinema, as obras de arte, a música universal, as relíquias literárias,as novidades no mundo da ciência e da tecnologia, tudo isso está disponível em rede.Porém, a modernização tecnológica não trouxe benefícios para todos; do lado de fora dasociedade digital estão os desplugados, os “sem banda larga”, os outsiders do século 21. Logo, constatamos que a grande batalha do nosso tempo se coloca em favor dademocratização da informação, facilidade de acesso, conexão veloz e banda larga paratodos. Por essa e outras razões defendemos um princípio ético-político e estratégico-comunicacional que reconhece a inclusão digital como um caminho para a cidadania. Basta observarmos os acontecimentos recentes como Primavera Árabe, OccupyWall Street, Campanha Ficha Limpa, Movimento de Combate à Corrupção, etc., parapercebermos como as estratégias de comunicação são tramadas, simultaneamente, demaneira presencial e em rede. Após um século de debate sobre o status dos cidadãos nasociedade de massa, hoje, as atenções e a discussão pública se voltam para os meiospós-massivos e as estratégias de empoderamento gerado pelas redes colaborativas. Pulsa na paisagem cotidiana uma inteligência coletiva conectada que perpassa ovasto conjunto das atividades econômicas, socioculturais, ético-políticas, abrangendoexperiências tão diversas como o correio eletrônico, o webjornalismo, o sistemabancário informatizado, o comercio on line, a medicina computadorizada, o voto digital,o GPS, as enciclopédias, dicionários e bibliotecas virtuais, teleconferências e programasde ensino mediados pela tecnologia. Em pouco mais de uma década a nossa relação com o mundo social e naturalmudou radicalmente, de maneira que as experiências sociotécnicas fazem parte dasnossas mediações fundamentais com a chamada “realidade objetiva”. Do presencial ao virtual (e vice-versa) estamos tecnologicamente esensorialmente interligados através de ambientes gerados por meios digitais como ochat, o blog, o MSN, o Facebook, o Twitter e o YouTube, que teletransportam oscorações e mentes para uma outra dimensão da experiência individual e coletiva.
  10. 10. 10 Em casa, na rua, na esfera pública e privada, nas atividades das empresas,instituições e organizações, novos atores, códigos, valores e procedimentos ganhamvigência: um novo ethos se instala enredado nos fluxos da informatização social. A partir da segunda metade do século 20, a comunicação digital passou a influir- efetivamente - nos modos de pensar, falar e agir dos atores sociais. Contudo, é preciso separar o joio e o trigo. Há um complexo midiático massivo(seja analógico ou digital) controlado pelo sistema global de produção capitalista,meramente comercial e voltado - principalmente - para o lucro. E existe, por outro lado,um complexo pós-massivo que, parte do coletivo, dos “sistemas sociais de resposta”(BRAGA, 2006), favorecendo estratégias de distribuição e socialização da informação. Sem descartar a importância do mercado na economia de trocas materiais esimbólicas, a comunicação compartilhada é mais democrática e concilia a diversidadede interesses e expectativas sociais, sendo eticamente mais inclusiva. O acesso aos jornais e mídias do mundo inteiro, informações ao vivo, em temporeal, a conexão simultânea entre os vários setores de produção, distribuição e consumo,tudo isso atesta um surpreendente estado de convergência de formas, conteúdos elinguagens, sinalizando conquistas e elevação da qualidade de vida social e política. Neste novo nicho comunicacional, os espectadores se tornam e-leitores, editores,cibercidadãos. Ou seja, ocorre uma transformação profunda no contexto da experiênciamidiática. Antes dos meios digitais havia um ambiente sócio-político e comunicacionalorientado pelas regras da separação: de um lado, os autores, a produção massiva, aindústria cultural, e do outro, os espectadores, a recepção passiva, o consumo de massa. Hoje, o agenciamento coletivo dos usuários expressa uma conjunção maisequilibrada face aos paradoxos comunicacionais: as redes favorecem processos deveiculação, cognição e colaboração, assegurando a inserção dos indivíduos na economiade trocas informacionais, num âmbito comunicativo mais democrático e participativo. Todavia, a experiência da comunicação - que evolui em sintonia com o processocivilizatório - não se realiza num mar de águas tranqüilas; pelo contrário, opera numcontexto minado pelas tensões e conflitos, tendo que enfrentar desafios. Como adverte Benjamin, no ensaio “Sobre o conceito de história”, inspirado emFreud, “nunca houve um monumento da cultura que não fosse um monumento debarbárie” (BENJAMIN, 1985, p.225). Ou como afirma McLuhan, no livro Os meios sãoas massagens, citando Whitehead, “os maiores avanços na civilização são processos quequase arruínam as sociedades em que ocorrem” (MCLUHAN, 1969, p. 7).
  11. 11. 11 Vários pesquisadores têm contribuído para se elucidar algumas verdades e mitossobre o fenômeno tecnológico. Nesse filão, Lemos ajuda a distinguirmos a ciberculturae a tecnocultura. Para ele, “na modernidade, cria-se uma tecnocultura como umfenômeno técnico expandindo-se para todos os domínios da vida social, cujapreocupação principal é ‘procurar em todas as coisas o método absolutamente maiseficiente’ ”(LEMOS, 2004, p. 50). E, em defesa do uso social e criativo das tecnologiasde comunicação, conclui: “A cibercultura é um exemplo forte dessa vida social que sequer presente e que tenta romper e desorganizar o deserto racional, objetivo e frio datecnologia moderna”. (LEMOS, 2004, p. 262). As novas mídias geradas pela telemática criaram algo afirmativo na civilizaçãotécnica, favorecendo a dimensão sociocultural quando esta parecia engolida pelo“buraco negro” industrial-tecnológico. Todavia, mídia é poder e os grandes predadorespolíticos e econômicos não medem esforços para utilizá-la em benefício próprio. Então, é preciso encontrar um dispositivo teórico-conceitual para enfrentar oparadoxo da comunicação, que se quer aberta, transparente, democrática, mas éatravessada por forças econômicas, políticas, institucionais que a impelem numa direçãocontrária. Assim, recorremos à imagem arquetípica de Hermes, o patrono dacomunicação, o grande mediador entre as forças opostas, que se inscreve aqui comouma alavanca metodológica para nortear uma interpretação da cultura na era digital.A sabedoria de Hermes e o poder da comunicação em rede Há milênios, muito antes de esse corpo de conhecimento que hoje chamamos de ciência existir, a relação dos seres humanos com o mundo era bem diferente. A natureza era respeitada e idolatrada, sendo a única responsável pela sobrevivência de nossa espécie, que vivia basicamente da caça e de uma agricultura rudimentar. Na esperança de que as catástrofes naturais como os vulcões, tempestades e furacões não destruíssem as suas casas e plantações, ou matassem os animais e os peixes, várias culturas atribuíram aspectos divinos à natureza. (...) Os mitos são histórias que procuram viabilizar ou reafirmar sistemas de valores, que não só dão sentido à nossa existência como também servem de instrumento no estudo de uma determinada cultura. (Muitos) exemplos mostram que o poder do mito não está em ele ser falso ou verdadeiro, mas em ser efetivo. (...) na cosmogonia moderna, encontramos alguns traços dessas idéias antigas, memórias distantes talvez, que de alguma forma permaneceram vivas nos confins de nosso inconsciente, demonstrando uma profunda universalidade da criatividade humana”.
  12. 12. 12 GLEISER, 1998, p.20. Explorando os domínios da filosofia, antropologia, sociologia, psicanálise,história e crítica literária, encontramos o espírito de Hermes, como o intérprete-mediador diante das grandes causas da humanidade. Homero, Petrônio, Dante,Shakespeare, Proust, Dostoievsky, entre outros arcanos do pensamento ocidental,modelaram a imagem de Hermes como fonte de leitura do grande livro do mundo. E,sendo o gestor perspicaz no enfrentamento dos contrários, o mediador pode ajudar adecifrarmos os paradoxos e complexidades da cultura na era da comunicação digital. Hermes é Mercúrio (na acepção latina), e é igualmente Hermes Trismegistos(em hibridação com o deus Thot egípcio); sendo esse último mais próximo daimaginação mítico-racionalista, do pensamento holístico 1. E Mercúrio está mais ligadoao cogito matemático, ao saber pragmático, à dedução e contabilidade do mundo. Hermes tem a incumbência de contemplar a vasta prosa universal e desvelar ascamadas de sentido que formam a complexidade do discurso como doxa (opiniãovivenciada no senso comum), como techné (expressão da arte e dos saberes práticos), ecomo epistème (saber especulativo, ciência, filosofia).Origem, significação e atualidade do mito de Hermes. Hermes era, na mitologia grega, um dos deuses olímpicos, filho de Zeus e de Maia, e possuidor de vários atributos. Divindade muito antiga, era cultuado na pré-história grega possivelmente como um deus da fertilidade, dos rebanhos, da magia, da adivinhação, das estradas e viagens, entre outros atributos. Ao longo dos séculos seu mito foi extensamente ampliado, tornando-se o mensageiro dos deuses e patrono da ginástica, dos ladrões, dos diplomatas, dos comerciantes, da astronomia, da eloqüência e de algumas formas de iniciação, além de ser o guia das almas dos mortos para o reino de Hades. Com o domínio da Grécia por Roma, Hermes foi assimilado ao deus Mercúrio, e através da influência egípcia, sofreu um sincretismo também com Toth, criando-se o personagem de Hermes Trismegisto. Foi um dos deuses mais populares da Antiguidade clássica, teve muitos amores e gerou prole numerosa. Com o advento do Cristianismo, chegou a ser comparado a Cristo em sua função de intérprete da vontade do Logos. As figuras de Hermes e de seu principal distintivo, o caduceu, ainda hoje são conhecidas e 1 No Egito, o deus da comunicação é Thot, representado metade homem, metade com as feiçõesora de um íbis, ora de um babuíno; deus da escrita, da ciência e senhor de todo o conhecimento. A ele éatribuída a invenção de todas as palavras que existem, sendo também guardião da magia; inventou amatemática, a geometria, o uso dos medicamentos; a arte de trabalhar os metais, a invenção da música. Aele é atribuída a invenção da lira de três cordas. Calculador do tempo, dos anos e regente das divisõestemporais. Cf. Castro e Silva. In: Dicionário da Comunicação, 2009.
  13. 13. 13 usadas por seu valor simbólico, e vários autores o consideram a imagem tutelar da cultura ocidental contemporânea. Wikipédia, 01.04.2011. Seguimos uma cartografia minuciosa, na obra de Junito de Souza Brandão(1994), narrando o percurso de Hermes, que nasceu precoce, e ainda pequeno foicolocado no oco de um salgueiro (símbolo da fertilidade e da imortalidade 2 ). A origem do seu nome está ligada à “herma”, que significa um platô feito decipós, grande pilar fálico emanando o sentido de consistência, altivez e perpetuidade.Hermes tem o poder de ligar, desligar, formar laços afetivos, comerciais e políticos. Dentre as suas características particulares, é impulsivo, rebelde, outsider, possuimatizes contraculturais: roubou o rebanho de Apolo e após devolvê-lo ganhou umcaduceu de ouro que lhe concedeu a curiosidade, a adivinhação e o pendor para aengenharia. Essa alegoria lembra o métier dos engenheiros de comunicação, arquitetos ecriadores do soft, técnicos, inventores, atuando em meio às brechas, abrindo caminho noemaranhado das redes de informação. Hermes antecipa a ação dos cyberpunks, hackers,phreakers que modificam o comando dos computadores e telefones 3. Astucioso, do casco de uma tartaruga, Hermes fez uma lira e inventou a flauta dePã. É uma divindade complexa. É agrário (também protege os pastores) e simboliza odom da astúcia, do ardil, de uma sabedoria sagrada. E na versão latina, Mercúrio, é odeus dos comerciantes (dos mercadores, dos negociantes e dos “ladrões”). Mercúrio tem sido, ao longo da história, semanticamente associado às atividadesligadas ao comércio: merces é mercado, mercadoria; liga-se - portanto - a um nível deprocedimento cerebral, contábil, pragmático. Mercúrio tem o discernimento para os 2 Convém remontar ao sentido antropológico do “oco”, “concha”, “cavidade”, “nicho”, signo deafetividade, acolhimento, que reúne as diferenças e diversidades, em oposição ao sentido da “espada” quesepara, divide e exclui. Há um vigoroso simbolismo que se renova e atualiza o imagináriocontemporâneo, como demonstram distintamente as obras de Eliade (1998); Jung (1990), Durand (1988);Maffesoli (1999), Rocha Pitta (2005), Machado da Silva (2006), Contrera (2010). Cada um desses autores– ao seu modo - favorece interpretações lúcidas dos atuais processos sociotécnico-comunicacionais,abrindo caminho para uma antropológica da comunicação e das culturas midiáticas. 3 O conceito de ciberespaço nasce na obra Neuromancer (GIBSON, 1984) e se epifaniza noimaginário do cinema, desde filmes como Hackers, piratas de computador (1995) até Matrix (1999) eAvatar (2009). Para entender o ciberpunk, consultar Lemos (2004), Amaral (2006) e o manual EtikaHacker no site Hacker Teen (com Sérgio Amadeu Oliveira) que instiga os jovens a pensar sobre ummelhor uso da tecnologia em favor da sociedade. Cf. http://www.hackerteen.com/link/etica-hacker.html 3 A acepção de Hermes como outsider é uma parte essencial na sua ontologia, e se atualiza hojena experiência da “pirataria digital”, no embate entre os hackers e as grandes corporações. Hermes -como intérprete e mediador - pode nortear um percurso para se entender o netativismo e a cibermilitância. Nessa direção, cumpre destacar o norteamento ético das estratégias acionadas pelo sociólogoSergio Amadeu Silveira, reputado pela militância em favor da utilização do software livre. Cf. Blog doSérgio Amadeu. http://samadeu.blogspot.com/2008/04/things-hackers-detest-and-avoid.html.
  14. 14. 14negócios, favorecendo uma vigorosa imaginação criativa no mundo da propaganda e domarketing, e a sua marca no imaginário do consumo tem grande receptividade 4. A propósito, a “galáxia de McLuhan” é inteiramente atravessada pelohermetismo: McLuhan é hermético na ambigüidade, no paradoxo, no oxímoro, naprovocação sistemática e na arte de aproximar os contraditórios. A sua visão da culturaeletrônica possui analogia com a alquimia cognitiva de Trismegistus, tem algo depremonitório: nos anos 60, McLuhan previu as redes sociais, as cross mídia, ofenômeno das convergências socio-tecnológicas do século 21. A exploração de McLuhan dos meios de comunicação e os célebres aforismos,como “o meio é a mensagem” e “os meios são as massagens”, remetem às conjunçõesentre o cérebro e a mente, o sensorial e o tecnológico, as redes neurais e os estímuloseletrônicos, a percepção cognitiva e a tactilidade das mídias. A sua escrita em mosaico,malgrado a assistematicidade, representa uma vigorosa hermenêutica. Buscou, juntocom o seu filho, Eric McLuhan, decifrar “as leis da mídia”, querendo entender ospadrões de extensão dos humanos e as suas conexões tecnólogicas. Sob o signo de Trismegistus, McLuhan, involuntariamente, decifrou asmitologias do homem industrial: além do carro como metáfora da “noiva mecânica”, aeletricidade irradiada no ambiente significa massagem, tactilidade, mensagem pura: A roda é um prolongamento do pé; o livro é um prolongamento do olho; a roupa é um prolongamento da pele; os circuitos elétricos, um prolongamento do sistema nervoso central. (...) Os meios ao alterarem o meio ambiente, fazem germinar em nós percepções sensoriais de agudeza única. O prolongamento de qualquer de nossos sentidos altera nossa maneira de pensar e de agir – o modo de perceber o mundo. Quando essas relações se alteram, os homens mudam. MCLUHAN, 1969, p.59-79. Certamente, a transmigração simbólica mais importante de Hermes, dopaganismo ao catolicismo, está encarnada na imagem do anjo. A figura mais bemacabada do Hermes como intérprete-explorador está no filme Asas do Desejo (WinWenders, 1987), em que os anjos se tele-transportam para Berlim, captando, nasbibliotecas, vias públicas, automóveis e metrôs, as vozes e os sons das mentes humanas. 4 A emanação de Hermes está bem presente no cotidiano, nas expressões populares, lembradocomo o mensageiro dos deuses. Sob o signo do planeta Mercúrio, tem marca indelével no zodíaco.Transita com desenvoltura no mundo secular: nos almanaques, revistas e jornais de larga circulação. Estánas agências de correio, na marinha e na aeronáutica. O seu caduceu consta em brasões de várias cidadese jurisdições. Empresas, periódicos, produtos e pessoas adotaram seu nome. Internacionalmente é muitoprestigiada a griffe Hermès, de artigos de luxo, trazendo um nome de família. (Wikipedia, 01.04.2011).
  15. 15. 15 O espírito de Hermes como anjo é uma figura complexa, cuja força simbólicareside justamente no seu mistério, sexualidade polimorfa, silêncio e invisibilidade. Eisso, ao mesmo tempo, fascina e perturba a imaginação dos humanos. Numa cultura narcisista que idolatra a publicização e visibilidade total, o anjo,invisível, detém uma alteridade radical. Como oráculo, intérprete, hermeneuta, traz apromessa de revelação do oculto; não é à toa que o culto dos anjos seja tão bemsucedido nos mercados globais de “auto-ajuda”. A imagerie dos anjos persiste indelével no mundo secular; está nas capelas, nasesculturas, nos grandes afrescos e resplandecem no cinema, em Cidade dos Anjos (BradSilberling, 1998) e na série apocalíptica Anjos na América (Mike Nichols, 2003), semesquecer o anjo erotizado em Barbarella (Roger Vadim, 1968) e O anjo exterminador(Buñuel, 1962). É importante guardar a sua ontologia complexa que talvez possa ajudara compreendermos o espírito do tempo, a extensão das subjetividades e o regime dassociabilidades, na era dos clones, ciborgues e avatares, os chamados “pós-humanos”. O espírito hermenêutico nos leva a conhecer o poder da linguagem formal,contábil, legislativa, e simultaneamente, reconhecer a potência da linguagem cotidiana,informal, performativa, assimilando a parte lúdico-criadora da experiência comunicante. Sob o signo de Hermes podemos entender as noções que derivam do seu culto,como “hermeneia”, “hermético”, “hermetismo”, “hermenêutica”. A comunicaçãohermética transcende a lógica da facilidade e instiga a perspicácia humana para lidarcom a coincidência dos opostos, concedendo a sabedoria para lidarmos com ascomplexidades, os temas difíceis, situações extremas (como tão bem conhecem osjuízes, legisladores e advogados). O código binário da linguagem informacional é hermético para os leigos;entretanto, a aquisição das instruções básicas e a sua aplicabilidade podem transformaros cidadãos em eficazes gestores dos processos sociotécnico-comunicacionais. Hermes, no sincretismo místico religioso brasileiro, à luz da antropologia(BIÃO, 2009), se traduz na figura emblemática de Exu, do candomblé que - no Brasilarcaico - durante a hegemonia cultural branca, precisou se comportar secretamente parasobreviver. É uma entidade mediadora entre o mundo dos vivos e dos mortos, protetorda sexualidade masculina. Reúne a dimensão lógico-gerencial, material, quantitativa, e adimensão involuntária, lúdica e exploratória da comunicação.
  16. 16. 16 De um modo geral, as encruzilhadas (daí, do mundo) são loci da comunicação, das línguas, das feiras temporárias e permanentes, dos mercados, das cidades, dos teatros edificados e das profissões das artes do espetáculo. Aí se encontra a Esfinge (e suas charadas mortais), Tirésias (o que vê mais quer os demais, sem nada ver, tão importante para theorein e para theatrum), Hermes (o que nos legou o poder da interpretação dos textos sagrados e o grande problema da traduzir e trair; na expressão italiana: traduttore traditore). BIÃO (2009). O simbolismo de Hermes-Mercúrio está associado às aptidões para o cálculo, amatemática, a estatística, as ciências duras, pelo seu altíssimo poder de concentração ediscernimento, mas também às virtudes criativas, procriadoras e transformadoras. E, aestrutura simbólica de Hermes-Trismegisto está ligada às faculdades espirituais, àsessências humanas (às ciências do espírito, a filosofia, a antropologia, a psicologia, asociologia, a semiologia), reafirmando a sua simbologia complexa. Um detalhe importante na sua indumentária é o capacete que ganhou de Hades;concedendo-lhe a astúcia, inteligência, o poder da gnose, do saber e da magia. Logo, éum experto no campo da imaginação criativa (artes da publicidade, design, arquitetura,propaganda, gestão organizacional e administrativa). Hermes é o protetor das ciênciasda contabilidade. Mas, o caduceu lhe envolve principalmente numa circunstância designificação esotérica, transmitindo-lhe o dom de decifrar o silêncio e a invisibilidade,permitindo-lhe trabalhar com as experiências de leitura, interpretação e decodificação. É pelo fazer, visando à utilidade da ação, que se aprende a conviver com a liberdade. É pela ação construtiva que o cidadão, o empresário, o político, o comunicador, todos nós, descobrimos a essência, o daimon, no dizer dos gregos. Na “Tábua das esmeraldas”, atribuída ao deus Hermes, pode-se ler: “Descobre o gênio imortal que te habita (Daimon), aquela energia apaixonada que te torna em algo e te impulsiona em direção à tua missão aqui na terra”. VIANA, 2006, pag. 15. Na história do culto de Hermes podemos detectar um simbolismo ligado ao devirdos acontecimentos, o que nos remete à atividade da reportagem, a transformação dosfatos em notícias, matérias jornalísticas. Cumpre relembrar, o hermetismo envolve o“segredo”, a parte oculta, a linguagem subliminar da comunicação, os não-ditos, osinterditos, os silêncios, a matéria ainda em estado de elaboração. Para os antigos, Hermes é um especialista também na fabricação dos antídotos,poções, remédios; é pródigo nas mediações. E hoje, se atualiza na figura profissional do
  17. 17. 17técnico, informacionista, encarnando uma espécie de “curandeiro high tech” queconserva o “disco duro”, salvando a memória virtual, o nosso cérebro eletrônico. Em suma, Hermes é o ágil detentor de um saber que lhe permite atuar comoleitor, mediador, decodificador; é tanto um oráculo, decifrador, quanto repórter,intérprete, mensageiro: não é à toa que é o “patrono dos jornalistas” (VIANA, 2006). Todo aquele que recebe deste deus o conhecimento das fórmulas mágicas, torna-se invulnerável a toda e qualquer obscuridade. Pode dar à luz, e pode também lançar na escuridão. O olhar de Hermes, iluminado, resiste às atrações das trevas. Assimilado ao deus egípcio Thot, torna-se o mestre da escrita, da palavra e da inteligência. Hermes Trismegisto se desloca do hermetismo à alquimia. É resultado do sincretismo entre o Mercúrio latino e o deus ctônico Thot; é o criador do mundo através do logos e da palavra. BRANDÃO, Mitologia Grega, 2003. Na obra As Metamorfoses, de Ovídio, Hermes-Mercúrio é sábio, inteligente,judicioso, encarna o próprio logos. É aquele que transmite toda a ciência secreta, e faz arevelação. Seu filho, com Afrodite - o hermafrodita - é o decifrador da “pedra filosofal”no clássico de Petrônio (Satyricom). Hermes tem a estatura de Virgílio guiando Danteem A divina Comédia, entre os mortos, nos círculos do inferno.A imaginação mitopoética, a história e as nervuras do re@l Fazendo uma leitura mais atenta do estudo antropológico de André Lemos,Cibercultura, vida social e tecnologia (2004), encontramos uma etnologia das formasde vida mental, incluindo o mito e o logos, a técnica e a magia, desde um estágio pré-moderno da civilização 5. O trabalho demonstra como a techné e a epistème estavaminterligadas na sabedoria antiga, e como isso repercute na era da cibercultura. É neste sentido que podemos compreender a popularidade e idolatria em tornodos chats, redes sociais, blogs, games, ambientes míticos e interativos, dispositivossensoriais e colaborativos que reúnem a dimensão diurna e noturna do imaginário,coligando linguagens e experiências advindas de interesses e motivações diferentes. Ou 5 “O imaginário grego sobre as técnicas será influenciado pelas narrativas míticas. Os mitos deorigem do homem são também os mitos de origem da técnica (Prometeu, Décalo, Ícaro, Hefaístos,Atenas, Pandora) que nos colocam diante da questão do homem como ser da técnica”. (LEMOS, 2004).
  18. 18. 18seja, os e-leitores, usuários, internautas se regozijam manuseando o computador, demaneira diletante, descobrindo mundos virtuais, fascinados como se estivesse imersosnuma experiência mágica, mas ao mesmo tempo, há muitos que trabalham atentos,perseverantes, dedicados e retiram dali os meios práticos de sua sobrevivência material. Por esse ângulo podemos entender a força simbólica da internet na sociedademidiatizada: como “toda mídia” oferece lazer, diversão e entretenimento (o e-comerce éa sua expressão mais evidente), e como uma new media cria oportunidades de trabalho eeducação (como e-learning, as teleconferências, as publicações virtuais). Seguimos aqui a via de uma perspectiva interdisciplinar que reúne ascontribuições da antropologia simbólica, dos estudos culturais em comunicação, daspesquisas avançadas em cibercultura. Trata-se de um esforço de leitura e interpretaçãoguiado pela empiricidade dos dados capturados na internet durante mais de dez anos.Mapeamos as experiências do YouTube, blogs, bibliotecas virtuais, jornalismo digital,sistemas de monitoramento e geolocalização, cinema e realidade virtual, processos detransmidiatização e netativismo, objetivando contribuir para uma interpretação dacomplexidade cultural na era da comunicação digital. Resgatamos a iconicidade de Hermes (Mercúrio/Trismegistus), uma vigorosachave interpretativa dos “mistérios do mundo” na mitologia antiga, que nos serve comoferramenta metodológica para entendermos as mídias e mediações atuais. O signo de Hermes se faz presente nas narrativas mitopoéticas de Homero,Hesíodo, Ésquilo, Sóflocles, Euripides, Píndaro e Aristófanes, servindo de farol aoshomens e mulheres de todas as épocas. Inscreve-se na filosofia antiga (na dialética 6platônica e na metafísica aristotélica 7) como uma figura de linguagem poderosa,atuando colaborativamente na articulação dos sistemas de pensamento racionais daantiguidade – no domínio do Direito, da Medicina e da Engenharia, e hoje suasemanações atualizam a trama das vivências e linguagens eletrônicas compartilhadas. Com o advento monoteísta do cristianismo, evidentemente, foram confiscados osseus atributos pagãos; todavia, persistiram na extraordinária iconografia das obras de 6 Hermes pode ter derivado de hermeneus, que significa intérprete. Platão, dando voz a Sócrates,tentou estabelecer uma origem do nome, dizendo que Hermes estava ligado ao discurso, à interpretação eà transmissão de mensagens, atividades ligadas ao poder da fala (eirein), e segundo supunha no curso dotempo eirein havia sido embelezada e transformada em Hermes. In: Wikipédia, 2001. 7 Aristóteles sistematizou o conceito da hermenêutica, a ciência da interpretação, da tradução eda exegese, a partir dos atributos de Hermes. Ibidem. A aplicabilidade da hermenêutica filosófica deAristóteles permanece com vigor no jargão dos profissionais do Direito e da Jurisprudência.
  19. 19. 19artes, explodindo nos quadros de Botticelli, Rubens, Turner, Celine, De Vries, e naimaginação poética de escritores como Dante, Goethe, Oscar Wilde e Fernando Pessoa.O conflito das interpretações no ciberespaço No contexto da civilização cristã tardia, é interessante notar o surpreendentesincretismo ocorrido entre os mitos antigos e os santos forjados pelo catolicismo, cujaatual força simbólica é extraordinária junto às comunidades de crentes. Talvez a suaexpressão mais forte, nos tempos do turismo global, seja a permanência do culto eperegrinação no caminho de Santiago de Compostela, que arrebanha milhões de fiéis detodas as partes do mundo, revelando um hermetismo e nomadismo surpreendentes. O imaginário popular é fértil e os ícones derivados da figura de Hermes e suashibridações fervilham no sincretismo cultural contemporâneo, como indicam o culto dossantos ligados – simbolicamente – à comunicação, à conexão e à velocidade: NossaSenhora dos Navegantes (e da Boa Viagem), São Cristovão (padroeiro dos motoristas),São Rafael (padroeiro dos motociclistas), São Francisco Sales (padroeiro dosjornalistas), Santo Antonio (protetor dos feirantes e dos namorados), incluindo a incrívelfigura de Santo Isidoro de Sevilha (padroeiro dos internautas), são exemplares8. Os cortejos em torno da iconicidade formada por essas figuras híbridas, em suaaparente banalidade, atestam a potência do imaginário simbólico que se estrutura apartir de distintas e diversificadas influências multiculturais. Em nossa época imagético-publicitária, a iconologia de Hermes-Mercúrio se projeta numa cartografia híbrida emultifacetada: na hermenêutica jurídica, comercial, médica, psicanalítica, nos rituais docandomblé, na astrologia, nos esportes, no circuito da moda e no show business. Importa aqui perceber a arte da comunicação como uma hermenêutica queatualiza um olhar sobre as novas experiências cotidianas, desde os games interativos, 8 Comemora-se em 4 de abril o dia do padroeiro dos usuários da Internet, Santo Isidoro deSevilha. Em março de 2000, o Serviço de Observação da Internet, sob a inspiração do Conselho Pontifíciopara a Comunicação Social, do Vaticano, resolveu apoiar o nome do santo para ser o patrono da Internet.Santo Isidoro de Sevilha foi indicado por ter escrito uma enciclopédia em 20 volumes, as “Etimologias”,que tratam de tudo que se conhecia em sua época (século VI), desde gramática até pássaros, de animais emedicina, de construção de estradas a moda e mobília, bem como meditações teológicas sobre aDivindade. Ele descobriu também um sistema de pensamento, chamado de “flashes”, e ainda tido comocoisa muito moderna. Seria o Google daquela época. Cf. BlogdoQueMel. Consultoria Doméstica.http://blog.consultoriadomestica.com.br/2011/04/04/santo-isidoro-de-sevilha-padroeiro-dos-internautas/
  20. 20. 20como O Inferno de Dante 9, passando pela videologia de Harry Potter e os ambientesimersivos como o Second Life 10, até o caleidoscópio de imagens do site pornotube.com. As novas artes tecnológicas e as mídias colaborativas solicitam novos olharesque podem ser instigados pela sabedoria antiga; este é o sentido do convite a Hermespara uma interpretação das formas culturais contemporâneas. Miramos os dispositivos de arte-net minimalista dos PPS, o vasto repertório detextos postados no site de compartilhamento Slideshare. Contemplamos as epifaniasciber-astrológicas das páginas eletrônicas (como o site Porto do Céu), os bizarros posts“comemorativos” pela morte de Bin Laden, no YouTube, os comentários indignados dosciberativistas no Orkut 11 e os “segredos de polichinelo” revelados no wikileaks. O amplo repertório destas iconicidades expressa o estilo das “idolatrias pós-modernas”, conforme se mostra no “inventário” de Maffesoli (1997) mapeando os“mitos, tribalizações e nomadismos contemporâneos”; De Kerckhove (2009)investigando “os efeitos da nova realidade eletrônica”; Di Felice (2009) apreendendo osentido da nova “ecologia comunicacional e as formas comunicativas do habitar”. Descortina-se assim uma experiência de contemplação e desvelação do sentido,uma atitude filosófica presente nas formulações de Benjamin, Simmel, Flusser e Latour,que, movidos por uma “lógica da razão sensível”, empenharam-se na exploração daarte, técnica, comunicação e poder, e hoje têm irrigando o pensamento das novasgerações no campo da pesquisa em Ciências Humanas, Sociais e na Comunicação. Essa constelação de pensadores possui analogia com a imaginação“antroposófica” (e interpretativa) de Hermes Trismegistus, o alquimista que parece terprevisto a nossa era de hibridações e convergências desconcertantes.O sono da razão sensível desperta os monstros 9 Dantes Inferno é um jogo eletrônico de ação-aventura em terceira pessoa publicado pelaElectronic Arts e desenvolvido pela Visceral Games (antiga EA Redwood Shores) e Artificial Mind andMovement (versão PSP). No jogo, lançado em fevereiro de 2010, o jogador controla a personagem Dantenuma viagem pelo inferno. A história do jogo foi escrita por Will Rokos e baseia-se na primeira parteInferno da obra Divina Comédia, de Dante Alighieri. (Wikipedia, 2011). 10 O Second Life é o mundo virtual gráfico tridimensional desenvolvido pela empresa LindenLabs e inaugurado em 2003. Cf. VALENTE & MATTAR. Second Life e Web 2.0 na Educação: opotencial revolucionário das novas tecnologias. Novatec, 2007 11 Cf. “Eu odeio quem odeia... considerações sobre o comportamento dos usuários brasileiros na‘tomada’ do Orkut”. In: FRAGOSO, XXXII Compós, 2006. www.compos.org.br/seer/index.php/e-compos/article/viewFile/89/89 Acesso: 05.05.2011
  21. 21. 21 O controle sobre o livre arbítrio e a liberdade de expressão é perceptível nasconjecturas e refutações de Santo Agostinho, na teologia de Tomás de Aquino e no pós-medievalismo de Spinoza, em que se denunciam a manipulação e o controle sobre ainformação, a comunicação e o conhecimento. Esse fenômeno se projeta no romance ONome da Rosa (Umberto Eco, 1980), uma contemplação do mundo dos mosteiros,quando os livros, o sexo e o riso (des)velavam segredos trancados a sete chaves. A experiência de “conflito das interpretações” foi vivenciada Teilhard deChardin (1881-1955), padre jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo francês querealizou, em sua obra herética, uma ousada visão integradora da ciência e a teologia 12. A filosofia hermenêutica nos favorece uma leitura do código impresso e tambémaudiovisual. Assim, os filmes Janela da Alma (João Jardim & Walter Carvalho, 2002) eEnsaio sobre a Cegueira (Fernando Meirelles, 2008) são interpretações do mundo eexercícios hermenêuticos, sob a dupla forma da textualidade e da audivisibilidade. Aliás, a linguagem hipertextual da web, de maneira inédita propiciainterpretações, leituras imersivas, transversais, e dependendo do modo de usar, podetornar mais claras as nossas idéias acerca da complexidade do mundo em que vivemos. A inteligência coletiva conectada, graças à grande hermenêutica digital geradapela web, como uma máquina sociotécnica provedora de leituras do mundo, tem o poderde transformar o discurso em ação. Todavia, essa tarefa não é fácil, pois a comunicaçãoem rede é atravessada permanentemente por poderes em conflito. O Estado, o capital eos ativistas em rede disputam o ciberespaço com interesses e objetivos distintos. E oêxito no exercício das empreitadas em rede vai depender do modo como puderem gerarestratégias coletivas de informação, comunicação e interpretação do mundo. A inteligência sociotécnica conectada pelos sistemas hipermídia realiza o sonhohermenêutico de desvelamento do mundo através da visão, audição e tactibilidade. Eisuma experiência cultural que modifica os padrões de linguagem, encorajando os atoressociais a usarem os equipamentos tecnológicos para acederem ao status de cidadãos. 12 Teilhard de Chardin é o fundador do conceito de “noosfera” (esfera do pensamento ou espíritohumano), que influenciou Bachelard, McLuhan e Maffesoli. Cf. Wikipedia, 01.06.2011. Chardin é autorde obras como O meio divino (1927) e O fenômeno humano (1940), em que indica as potências do meio,o sentido do contato, da tactilidade, da sensorialidade irradiadas nas dimensões do espaço e tempo, nanoosfera que nos abriga como uma comunidade simbólica, invisível, virtual. O tema foi tratado pordiversos pensadores no evento O Século McLuhan. ATOPOS, S. Paulo, 02 a 03.05.2011.http://www.atopos.usp.br/mcluhan/. Papers das conferências disponíveis em: http://vimeo.com/23890132 Acesso em: 02.06.2011.
  22. 22. 22Hermenêutica e Theatrum Philosoficum A recorrência às obras Hermenêutica (PALMER, 1986), Questões fundamentaisda hermenêutica (CORETH, 1973) e Interpretação e Ideologias (RICOEUR, 1988) érelevante para o refinamento da percepção acerca dos diferentes modos de construçãodos discursos. É uma estratégia filosófica essencial para a evolução do pensamento quese desloca do preconceito ao pré-entendimento, abrindo clarividências diante do novo. Seguimos as pistas lançadas pela hermenêutica visando a uma estratégia demediação entre gramáticas discursivas emergentes. E cabe ao cidadão virtual exercer olivre arbítrio, fazer a sua própria interpretação e escolher o seu modo de agir em rede. Este é um processo que certamente poderia ser retomado a partir da crítica deHeidegger à técnica ou da filologia iconoclasta de Nietzsche, exorcizando a hegemoniados valores morais, filosóficos, estéticos através de aforismos desconcertantes. Todavia, optamos pela contemplação de um roteiro das interpretações, partindode um momento histórico em que o mundo começou a ser pensado à maneira moderna. E esse momento pode ser datado a partir de Kant (1724-1804), antes de tudo, umgrande intérprete, exegeta da razão, que buscou conciliar o racionalismo dedutivo, deDescartes e Leibniz, com o empirismo inglês (Hume-Locke-Berkeley). Kant nasceu emKönigsberg, e num certo sentido antecipou McLuhan, e sem nunca ter saído da sua“aldeia” – reza a lenda – almejou decifrar o mundo forjando filosoficamente uma“globalização” avant la lettre, através das extensões de uma razão pura e transcendental. O filósofo das Luzes empreendeu um rigoroso projeto de interpretação do real(portanto uma hermenêutica); entretanto, empenhado em uma explicação do mundoatravés de um “imperativo categórico”, deixou de fora a perspectiva da razão sensívelno ato de contemplação do mundo. (Este projeto será levado a cabo por outros estetas epensadores, como os neoidealistas e românticos como Schiller e Fichte). Capturamos em Kant a noção de “imperativo categórico”, para repensar oconceito de “imperativo da visibilidade”, empregado por Paula Sibilia (2008) nainvestigação da sociabilidade virtual, quando as experiências da visibilidade, conexão emobilidade aparecem como pré-requisitos para a entrada do ser na ordem da cultura. Na filosofia hermenêutica, cintila a obra do teólogo Schleiermacher (1768-1834), fazendo a crítica dos milagres e das escrituras que, em última instância, nos levaa entender para além da magia do ciberespaço um sistema de padronização da
  23. 23. 23linguagem como estratégia de estabelecimento dos efeitos de verdade. (Logo, antecipaBaudrillard e a sua crítica dos simulacros e simulações). Dilthey (1833-1911), o psicólogo-pedagogo alemão, dedicado ao estudo das“ciências do espírito” e das “ciências da natureza”, abre caminho para as futurasreflexões, no sec.21, sobre o espírito do tempo, a inteligência cognitiva e a ecologia dacomunicação (desenvolvida por Bateson e outros visionários da Escola de Chicago). Husserl (1859-1938), filósofo-matemático, ousou prever uma fenomenologia doSer diante do número, antecipando a idéia da automação, conexão e comunicaçãonumérica da “modernidade tardia”. (Um processo especulativo que vai ganhar novasproporções na pragmática da comunicação, com Austin, Searle e Peirce, no século 20). Caminhando sozinho na rota das idéias do seu tempo, Heidegger (1889-1976),investigador da metafísica e da teologia, antecipou uma filosofia crítica da técnica, edesta maneira vai dominar o pensamento norteador da tradição crítica da tecnocultura. Gadamer (1900-2002), filósofo hermeneuta, autor da obra Verdade e Método,empenhou-se em decifrar o “caráter verdadeiro das coisas”, e findou como um estudiosodo belo, nos estimulando a explorar os “enigmas, segredos e mistérios” da realidadesensível estetizada pelas tecnologias audiovisuais colaborativas. Paul Ricoeur (1913-2005), o filósofo do sentido, dedicou-se às “interpretações eideologias”, enfrentando “conflito das interpretações”, e hoje o seu legado filosófico nosencoraja a compreender os paradoxos e complexidades do ciberespaço. Deste modo, valorizamos as leituras híbridas como estratégias sensíveis e atentasna apreensão da complexidade do real midiatizado. Apreendemos as iluminaçõesfilosóficas clássicas e os insights recentes de pensadores do contemporâneo, como ogeógrafo Milton Santos, cujos esforços em compreender o significado da história,técnica, geopolítica e vida social, na era da globalização, deixaram marcas indeléveis nano contexto da inteligência brasileira: A questão que se colocam os filósofos é a de distinguir entre uma natureza mágica e uma natureza racional. Em termos quantitativos ou operacionais, a tarefa é certamente possível. Mas é talvez inútil buscar o momento de uma transição. No fundo, o advento da Ciência Natural ou o triunfo da ciência das máquinas não suprimem, na visão da Natureza pelo homem, a mistura entre crenças, mitigadas ou cegas, e esquemas lógicos de interpretação. A relação entre teologia e ciência, marcante na Idade Média, ganha novos contornos. “A magia, o poder da fabulação”, como diz Bergson, “é uma necessidade psicológica, tal como a razão...”. Os sistemas lógicos evoluem e mudam, os sistemas de crenças religiosas são
  24. 24. 24 recriados paralelamente à evolução da materialidade e das relações humanas e é sob essas leis que a Natureza vai se transformando. MILTON SANTOS, 1997, p. 16. Recorremos à (moderna) tradição filosófica, para encorajar o espírito das novasgerações a decifrar a potencialidade do ser na era das tecnologias colaborativas. É essahermenêutica que nos importa: de olho nas redes, convergências, hibridações. Partimos de uma perspectiva interdisciplinar que aceita o diálogo com a filosofiaclássica e moderna, a filosofia espontânea dos cientistas, o empirismo dos especialistas,a sabedoria da praça pública informatizada, em que a doxa (o saber comum), a episteme(o saber filosófico-científico), a techné (artes e práticas do saber-fazer) se equivalem naarborescência do conhecimento. 13 13 Há um detalhe em nosso trajeto que não pode ser esquecido: o exercício de investigaçãocientífica não pode prescindir do trabalho empírico. Este trabalho é fruto da observação sistemática,análise e interpretação, da contextualização social e histórica. O livro resultou de um esforço coletivo, umtrabalho de investigação realizado em conjunto com jovens pesquisadores engajados nos temas dacibercultura (PIBIC/CNPq/PPGC/UFPB): Cf. RIOS, P; OLIVEIRA, A. Home Pages. O acesso às auto-estradas da cibercultura (1997/1998); __ A Internet e a busca da comunicação horizontal (1998);RODRIGUES, J. Estudo dos chats (2002); ARAÚJO, A.H.C. As organizações no Ciberespaço (2003);LIESEN, M. Comunicação, Sensibilidade e Mediação Tecnológica (2007); SERRANO, P.H.S.M.Cognição e Interacionalidade através do YouTube (2007); MARTINS, A.V. Blogs, Blogueiros,Blogosfera (2008); FELIX, L. Socialidades Efêmeras no Ciberespaço (2008); LIMA, N.R.A.S.Webjornalismo (2009); FALCÃO, L. O Second Life e a Teoria da Calda Longa (2009); MEDEIROSNETO, R.B. Twitter, a credibilidade da mensagem sintetizada (2010); MAGALHÃES, M. Orkut eComunidades Virtuais (2009/2011); MEDEIROS, E. Blogs, Jornalismo e Redes Sociais (2009/11).
  25. 25. 25 2. Do cavalo de Tróia ao Wikileaks: os estilhaços do poder no ciberespaço A mutação tecnológica do século 20, desencadeada pelos audiovisuaiseletrônicos, redirecionou o sentido da vida mental na metrópole. Logo, as geraçõespensantes do novo milênio têm diante de si o desafio de compreender, decodificar einteragir nos espaços reconfigurados pelas tecnologias da informação e da comunicação. As mídias constituem um forte instrumento de poder na era tecnológica. De umlado, o Estado e as grandes corporações, do outro, os cidadãos, as inteligências coletivasconectadas, disputam o controle do poder mediado pelas tecnologias midiáticas. A interface “poder e comunicação” atravessa a história da vida pública eprivada, desde as eras mais remotas. Foi assim ontem, no tempo dos deuses, heróis eguerreiros, como narra Homero na Ilíada e na Odisséia, e é assim também hoje, notempo dos hackers e do Wikileaks14, das navegações, do ciberpoder e da piratariavirtual, em que descobrimos novas formas éticas, sociais e políticas do compartilhar. A expressão “navegar no ciberespaço” tem analogia com a história doconhecimento, em que incidem erros, acertos, naufrágios e conquistas. Como naodisséia de Ulysses, o trajeto do saber é atravessado por crises, rupturas, derivas,sobrevivências, novos achados e permanentes modificações no mapa da viagem. O ciberespaço concretiza a imagem conceitual de “noosfera”, que animou aimaginação criativa e vigilante de pensadores como Chardin, Bachelard e McLuhan. É azona sensível do acontecimento, em que se movem as inteligências coletivas mediadaspela tecnologia. Um campo gravitacional atravessado por forças sociais, econômicas epolíticas que lhe condicionam. Mas, principalmente, o ciberespaço, em sua complexaamplitude e ubiquidade, é um motor que libera a energia tecno-social dos usuários, cujairradiação afeta a percepção neuro-sensorial, estética e cognitiva, encorajandoempoderamentos coletivos que desafiam os sistemas dominantes. 14 WikiLeaks é uma organização transnacional sem fins lucrativos, sediada na Suécia, quepublica, em seu site, posts de fontes anônimas, documentos, fotos e informações confidenciais, vazadasde governos ou empresas, sobre assuntos sensíveis. (...) O site, administrado por The Sunshine Press, foilançado em dez./2006 e, em meados de nov./2007, já continha 1,2 milhão de documentos. Seu principaleditor e porta-voz é o australiano Julian Assange, jornalista e ciberativista. (...) Ao longo de 2010,WikiLeaks publicou grandes massas de documentos confidenciais do governo dos Estados Unidos, comforte repercussão mundial. Cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/WikiLeaks Acesso: 13.05.2011
  26. 26. 26Inteligência conectada e empoderamento coletivo Há diferentes maneiras dos cidadãos utilizarem os computadores, a internet, osequipamentos hipermídia em suas rotinas diárias. Para a maioria a rede funciona comoum canal de diversão e entretenimento; para outros, além de se constituir como um meiode informação permanente, a rede funciona como uma alavanca operacional no campoda pesquisa científica e cria oportunidades de trabalho numa época de desemprego. Os defensores do ciberespaço apontam dentre os seus aspectos positivos adinâmica dos processos de numeralização, disponibilização e compartilhamento dainformação em tempo real, mas sobretudo o seu alto poder de interacionalidade. Há osusuários que apreciam as redes como vias de acesso a outras espiritualidades,sensorialidades e corporeidades. (Os sites Porto do Céu, Second Life e PornoTubedistintamente servem como exemplos). Todavia, há os desconfiados que vêem a internete o ciberespaço como um produto do turbocapitalismo, uma garra da tecnoburocraciagerada em alta velocidade, apagando os valores humanos e distanciando os corposfísicos do espaço público; uma experiência com vetores regressivos. 15 Em nossa interpretação da cultura biotecnológica e sócio-colaborativa,exploramos objetos, fenômenos e processos que representam nacos no tecido dacibercultura, a qual tem sido popularmente bem assimilada a partir do desempenho dasredes sociais. Buscando nos orientar no pensamento, guarnecermo-nos de uminstrumental conceitual, moldando um corpus teórico para decifrar esta experiênciarecente na história da cultura que nos envolve, nos fascina e nos escapa. Examinamos algumas realizações da comunicação em rede, com o apoio dosestudos de especialistas, cujos trabalhos, de cunho exploratório, analítico, crítico,compreensivo, têm sido bons condutores para o debate. “Enredar é tecer a arte de organizar encontros”: este o mote epistemológico dacoletânea Tramas da Rede (PARENTE, 2004), um arsenal teórico que reúne estudiososde vulto como Bruno Latour fazendo uma exploração racional e sensível dos“laboratórios, bibliotecas e coleções”; Marc Guillaume estudando a “comunicaçãocomutativa”; Hardt & Negri inspecionando a “biopolítica”; Pierre Lévy estudando o 15 André Lemos faz uma distinção fundamental: para ele, a “tecnocultura”, fundada no sec.XIX,consiste na aplicação da máquina e o industrialismo nos domínios do pensamento, da comunicação e davida social, forjando as condições materiais de existência. (LEMOS, 2004, p. 59-61). A ciberculturasurge na metade dos anos 70, com a influência da microinformática no domínio sociocultural. Ou seja, astransformações técnicas, sociais e ideológicas propiciadas pelo microcomputador. (ibidem, p. 101).
  27. 27. 27ciberespaço e a “economia da atenção”; Henrique Antoun analisando a “democracia,multidão e guerra no ciberespaço”; Ascott vislumbrando o “homo telematicus, nojardim da vida artificial”, e Maciel “contemplando os espaços híbridos”. Um rearranjo das propostas interdisciplinares contidas nos fragmentos teórico-conceituais e empíricos, que abundam em cada um desses textos, nos leva a articularuma reflexão sobre algumas preocupações específicas no campo da cibercultura. A noção de rede vem despertando tal interesse nos trabalhos teóricos e práticos de campos tão diversos como a ciência, a tecnologia e a arte, que temos a impressão de estar diante de um novo paradigma, ligado, sem dúvida, a um pensamento das relações em oposição a um pensamento das essências. (PARENTE, 2004, p. 64). 16 Refazendo um estudo da obra Sociedade em Rede (1999) , percebemos que,numa perspectiva crítica, Castells se empenha em decifrar o alcance e os limites dasredes sociais, como o produto mais acabado na nova fase do capitalismo global. Em suaperspectiva, a hiperconcentração de renda, os fundamentalismos (religioso emercadológico), a globalização do crime, o apartheid tecnológico e a exclusão digitalcompõem a face regressiva da nova conjuntura mundial na era das redes de informação. Todavia, a sua perspicácia reside em mostrar como, no contexto da globalização,se inscrevem novas redes de solidariedade, agenciamentos sociopolíticos afirmativos.Essa problemática será atualizada nas obras posteriores, A Galáxia Internet, reflexõessobre a internet, os negócios e a sociedade (2003) e Communication Power (2010),vislumbrando os modos de empoderamento coletivo por meio das tecnologias digitais. Há autores que vêem nas (novas) redes de informação a projeção das atuaiscontradições socioeconômicas, políticas e culturais, as zonas de tensão e perplexidadeda vida social, conforme se inscreve no livro Diferentes, desiguais, desconectados: As diferenças na modernidade existem às vezes como desenvolvimentos culturais distintos, outras vezes como resultado da desigualdade das classes, entre as nações, entre os grupos sociais, e mais recentemente em relação com as possibilidades de conexão e desconexão das comunicações, ou das redes de informação, entretenimento e participação social. A mobilidade identitária tem muito a ver com essas diferenças, desigualdades, conexões e desconexões, com uma combinação dessas modalidades. (CANCLINI, 2005). 16 Primeiro volume da trilogia de CASTELLS, A era da informação: Economia, Sociedade eCultura (1999); seguem-se, o vol.2, O Poder da Identidade (1999), e o vol.3, Fim de Milênio. (1999).
  28. 28. 28 Com efeito, as redes telemáticas, tecnoafetivamente, esteticamente,sensorialmente, geram processos sociais de identificação, convergência e participação.Os atores sociais conectados interagem e colaboram na nova ambiência tecno-comunicacional, acionando estratégias de ação afirmativa. Exemplos vivos dessesprocessos são os ambientalistas que se tornam cibermilitantes, organizando suasestratégias biopolíticas no interior do ciberespaço, abrindo caminho para os chamadoscibercidadãos, ou “cidadãos culturais”, como podemos ler no trabalho Leitores,espectadores e internautas (2008): (Um exame) das fusões entre empresas dedicadas à produção de livros, mensagens audiovisuais e eletrônicas, em particular os hábitos culturais. Breves artigos, ordenados como num dicionário, interagem à maneira de um hipertexto para redefinir, não apenas o que é ser leitor, espectador e internauta, (mas) o modo pelo qual agora somos cidadãos culturais, e nos relacionamos com o patrimônio, os museus e as marcas e para onde vai a pirataria, o zapping e os usos do corpo. (CANCLINI, 2008). A correspondência on line, o webjornalismo, o cinema 3D, a tevê interativa, onamoro virtual, o marketing digital, e-comerce, as teleconferências, o ensino mediadopela tecnologia, a digitalização, disponibilização e compartilhamento das informaçõesplanetárias, entre outras experiências tecno-informacionais, criaram novasespacialidades e temporalidades redefinindo o estatuto do ser na cultura, do “estar-junto”, novas formas comunicativas e de interpretação do mundo. Mas esses processos não se efetivam harmonicamente, envolvem relações depoder, acirradas disputas e rivalidades. A experiência do ciberativismo sinaliza algo denovo no contexto da tecnologia e vida social, pois adverte como é possível nosinstalarmos no interior dos “sistemas fechados” e contribuir para uma estratégia decomunicação compartilhada e colaborativa. E nesse sentido, os hackers podem servistos positivamente como “ativistas midiáticos” (TRIGUEIRO, 2011), que utilizamuma tática socio-comunicacional democrática, contribuindo para a inclusão digital.A comunicação digital, a força do coletivo e a tecnologia colaborativa Hoje, na chamada “Idade Mídia”, emergem novas configurações sócio-político-comunicativas que nos interpelam sobre o significado do espaço público e dos modos departicipação social no contexto das decisões públicas. À medida que a consciênciacoletiva planetária vai se irrigando pelos feixes sócio-informacionais, eclodem novas
  29. 29. 29exigências, competências e empoderamentos sociais. Também por isso, no Campo daComunicação, na era das redes sociais, diversos esforços têm sido despendidos naelaboração de um conhecimento sistemático da interface Poder e Comunicação Digital. Ganham expressão de destaque nesta seara os congressos da AssociaçãoBrasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política – COMPOLITICA, atuantedesde 2006, dos quais sublinhamos aqui a relevância da pesquisa em Política eCibercultura17. Na época dos mercados globais faz-se necessário perceber os níveis de expansãoe concentração, conexão e mobilidade, em que se misturam os padrões sócio-culturaistradicionais e os arrojados padrões tecnológicos. E convém reconhecer, essasconjunções, nem sempre são bem balanceadas, e se projetam num contexto histórico esociopolítico envolvendo poderes locais e globais, que podem afetar – positivamente ounegativamente – as experiências dos indivíduos e grupos sociais. Daí a importância de um debate vigoroso, num espaço público como a internetque agrega os discursos dos acadêmicos, políticos, jornalistas, profissionais eespecialistas em mídia, e sobretudo dos cidadãos interconectados em rede. Nessa direção, considerando a escassez de estudos na área, é pertinente listaraqui alguns dos papers dos congressos anuais da COMPOLÍTICA, resultantes daspesquisas avançadas dos profissionais de primeira linha. Sua relevância reside naatualização dos temas que têm lugar na esfera pública (presencial e midiatizada) e alisendo problematizados, com rigor e sistematização, lançam luzes sobre um conjuntoimportante de fenômenos e acontecimentos de ordem política que ganham novoscontornos na era da informação. 18 17 A COMPOLÍTICA foi fundada em 2006, mantendo assiduidade, nos anos de 2007, 2009,2011, atualmente sob a presidência de Afonso Albuquerque (UFF), Vera Chaia (vice-presidente) e MariaHelena Weber (Secretaria Executiva). 18 Destacaríamos neste fórum a inscrição do Grupo de Trabalho – Internet e Política, sob ascoordenações de Wilson Gomes (2011/2007), Alessandra Aldé (2009), Othon Jambeiro (2006).Consultar, dentre outros textos da COMPOLÍTICA – Salvador / UFBA 2006: “Urbes contemporâneas ePolíticas de informação e comunicações” (JAMBEIRO); “Blogs de Política: caminhos para reflexão”(PENTEADO; SANTOS; ARAÚJO); Entre o silêncio e a visibilidade: o Orkut como espaço de luta porreconhecimento do movimento social dos surdos (GARCEZ, R. L. O.); Ágoras digitais: a emergência dosblogs no ciberespaço (ALONGE, W); Internet e associativismo no debate público acerca dodesmatamento (GUICHENEY, H.). COMPOLÍTICA – Belo Horizonte / UFMG 2007: Governo eDemocracia Digital (MARQUES, F. P. J.A); O movimento Cansei na blogosfera (PENTEADO, C. L. C;SANTOS, M. P.B; ARAÚJO, R. P. A); Democracia Digital: Que Democracia? (GOMES, W); Blogs ejornalismo (MARTINS, A. F.); Participação democrática e Internet: breve análise dos websites dosGovernos Federais dos quatro maiores países sul-americanos (BRAGATTO, R. C.). COMPOLÍTICA –São Paulo / PUC-SP 2009: Twitosfera: a expansão da ágora digital e seus efeitos no universo político(RAMALDES, D); Humor e Política na dinâmica das NTICs (MARTINHO, S.G.). COMPOLÍTICA –Rio de Janeiro / UERJ 2011: O Twitter na campanha eleitoral 2010 (GOMES, W); O debate sobre o
  30. 30. 30 A enumeração de alguns títulos dos trabalhos disponibilizados pode indicar oquanto o Grupo de Trabalho “Internet e Política” contribui para o debate sócio-políticoe para a decifração da complexidade sócio-política e comunicacional contemporânea: “Os blogs, o jornalismo e a Política”, “Orkut e os surdos”, “as ágoras digitais”,“Internet e Desmatamento”, “Governo e Democracia Digital”, “O movimento Cansei nablogosfera”, “Acesso à informação na América Latina”, “Websites dos GovernosFederais na América do Sul”, “O Twitter na campanha eleitoral”, “Humor e Política”, 19“O debate sobre o Marco Civil na Internet” , “O blog e a ciberpolítica”, “Internet eMinistério da Cultura”, “Democracia e Monitoramento”, “O fenômeno wikileaks”,“Movimentos sociais na era digital” são alguns dos grandes temas analisados e podemser compartilhados na internet, o que revigora o trabalho de interpretação da culturapolítica mediada pelas tecnologias colaborativas.Estratégias político-informacionais: da tecnocracia à digitofagia Hoje, no campo da comunicação a batalha se dá em defesa dos creativecommons20, na luta em defesa do copyleft21, software livre22, redes gratuitas, banda largapara todos. Defende-se aqui os modos de acesso à informação substantiva concernenteàs atividades vitais, como educação, saúde, trabalho, transporte, segurança, mas tambémMarco Civil da Internet (SEGURADO, R); A ciberpolítica no caminho da rede (LÉVY, D; SILVA, J.F.);Internet, cidadania e esfera pública: um estudo comparativo dos Ministérios da Cultura do Brasil,Argentina e França (SANTOS, M.B; ARAÚJO, R; PENTEADO, C.); Democracia Monitorada: Internet epoder cidadão (FEENSTRA, R; COUTO, D. R.T.); O fenômeno Wikileaks e as redes de poder(SILVEIRA, S.A.); Internet e mobilização política – os movimentos sociais na era digital (PEREIRA,M.A.). Os papers estão disponíveis no site: http://www.compolitica.org/home/ Acesso: 12.04.2011 19 O Marco Civil da Internet é um projeto de Lei que visa estabelecer direitos e deveres nautilização da Internet no Brasil; tem um significado similar à Constituição da Internet. 20 Creative Commons é uma organização não governamental sem fins lucrativos localizada emSão Francisco, Califórnia, nos Estados Unidos, voltada a expandir a quantidade de obras criativasdisponíveis, através de suas licenças que permitem a cópia e compartilhamento com menos restrições queo tradicional todos direitos reservados. Para esse fim, a organização criou diversas licenças, conhecidascomo licenças Creative Commons. A organização foi fundada em 2001 por Larry Lessig, Hal Abelson, eEric Eldred[1] com apoio do Centro de Domínio Público. (Wikipedia, 15.05.2011). 21 Copyleft é uma forma de usar a legislação de proteção dos direitos autorais com o objetivo deretirar barreiras à utilização, difusão e modificação de uma obra criativa devido à aplicação clássica dasnormas de propriedade intelectual, exigindo que as mesmas liberdades sejam preservadas em versõesmodificadas. O copyleft diferere assim do domínio público, que não apresenta tais exigências. "Copyleft"é um trocadilho com o termo “copyright” que, traduzido literalmente, significa “direitos de cópia”.(Wikipedia, 15.05.2011). 22 Software livre, segundo a definição criada pela Free Software Foundation, é qualquerprograma de computador que pode ser usado, copiado, estudado e redistribuído sem restrições. O conceitode livre se opõe ao conceito de software restritivo (software proprietário), mas não ao software que évendido almejando lucro (software comercial). (Wikipedia, 15.05.2011).
  31. 31. 31o acesso às diversas modalidades socioculturais e políticas que podem ajudar aequilibrar o desnivelamento dos fluxos sócio-tecno-informacionais. A especificidade do hibridismo cultural contemporâneo modela característicasparticulares no estilo de vida cotidiana, influenciando os modos de pensar, falar e agir,modos de usar, “modos de fazer” (e de interagir) diante das tecnologias, como mostram,em registros diferentes, Certeau, em A invenção do Cotidiano (1980), Maffesoli, emTempo das Tribos (1987) e Nomadisme: vagabondagens initiatiques (1997) e Latour,em Jamais fomos modernos (1994). Essas leituras, ao largo de suas abstraçõesfilosóficas, históricas, antropológicas, apresentam os atores em rede, que se organizamtactilmente, por vezes atuando com êxito face aos processos industriais e tecnológicos,por vezes em desvantagem numa interface desequilibrada. Diversas são as estruturas de exercício do poder tecnocrático dominante, assimcomo são surpreendentemente múltiplas as estratégias de empoderamento sócio-tecnológico, como demonstra o trabalho Net_Cultura 1.0: Digitofagia (ROSAS;VASCONCELOS, 2006), empenhado em refletir e repertoriar as estratégias sociaisgeradoras de empoderamento coletivo no Brasil e no mundo. A concepção da digitofagia (surgiu do) pensar uma prática antropofágica que reatualizasse esse ideário no contexto da cultura digital, reabastecendo seu viés libertário. Para tanto, abraçar práticas espontâneas na cultura contemporânea brasileira, como a pirataria, os camelôs e a gambiarra, seria, quem sabe, uma forma de trazer a mídia tática para um campo mais familiar e cotidiano aos praticantes, teóricos e ativistas brasileiros, e também publicamente expor o sentido da colaboração nas trocas de informações, fazeres e recursos materiais, a parafernália tecnológica compartilhada para ações coletivas. ROSAS; VASCONCELOS, 2006, p. 11. A interface comunicação, sociedade e tecnologia - no contexto brasileiro elatino-americano - tem sido explorada por Martin-Barbéro, desde a obra Dos Meios àsmediações (1997), incluindo os estudos sobre a “alteridade tecnológica” (1985), aconexão entre a oralidade e a tecnologia, até a sua defesa do uso da “inteligênciacoletiva conectada” e do “empoderamento social” no enfrentamento dos problemaseconômicos, políticos e culturais (Cf. BARBÉRO, CISECO, 2010). A experiência cultural na era da informação tem gerado investigações,consistentes desde os anos 80, resultando num acervo privilegiado para a reflexão das
  32. 32. 32novas gerações23. E hoje, a imaginação vigilante dos pesquisadores contemporâneos, emescala global, tem buscado acompanhar esse movimento, atualizando-se com base nasobras, entre outros, de Morin, McLuhan, Benjamin, Flusser, Simmel, Latour: Para Latour, entre objetos, idéias ou pessoas, não existe qualquer espécie de diferença ontológica. Todos são “atores” (ou actantes), dotados de força própria e de capacidade de produzir efeitos no mundo. Por isso, nenhuma teoria ou idéia que busque reduzir a heterogeneidade do real a algum princípio unificador é efetivamente satisfatória. Nem o deus da religião, nem o inconsciente da psicanálise, nem o “poder” de Foucault conseguem traduzir adequadamente essa perspectiva. Todos os seres, animados ou inanimados, orgânicos ou inorgânicos, materiais ou imateriais, conscientes ou inconscientes localizam-se no mesmo patamar ontológico (“on the same footing”, como não se cansa de repetir Harman). Como bem explica nosso comentarista, “o mundo é uma série de negociações entre uma multiforme armada de forças, os humanos entre elas, e tal mundo não pode ser dividido nitidamente entre dois pólos preexistentes chamados ‘natureza’ e ‘cultura’ ”. FELINTO, 17.05.2010 24.Informação, Mobilidade e Potência nas Redes Sociais Na era da visibilidade, convergência e mobilidade, é importante sublinharmos aemergência de vigorosas ações afirmativas em curso, na organicidade da vida vivida,formas autênticas de politização do cotidiano, aproximando as fronteiras entre amodernidade tecnológica e a vontade de modernização social e política. 23 Convém assinalar um dos primeiros estudos em Comunicação & Tecnologia, coordenados porMarcondes Filho e o Grupo NTC/USP, a partir da obra seminal Pensar-Pulsar: cultura comunicacional,tecnologia e velocidade (1996), a revista Atrator Estranho (NTC, 1997) e Superciber: a civilizaçãomístico-tecnológica do século 21 (NTC, 1997), entre outros. E caberia destacar, igualmente, o esforçointerdisciplinar dos pesquisadores da UFRJ, Carneiro Leão, Márcio Tavares D’Amaral, Muniz Sodré;Francisco Doria, num trabalho pioneiro que antecipa o estudo das “redes sociais”: A Máquina e seuAvesso (1987). E enfim, indicaríamos a coletânea organizada por Anamaria Fadul, Novas tecnologias decomunicação: impactos políticos, culturais e sócio-econômicos. (1986), atestando a preocupação com as“redes de informação”, ainda na época da Nova República. Hoje, no debate sobre as redes sociais, distingue-se a obra crítica de Trivinho, A dromocraciacibercultural. Lógica da vida humana na civilização mediática avançada (2007), assim como os demaistrabalhos do grupo do ABCiber (Associação Brasileira de Cibercultura), que reúne os principaispesquisadores na área, no Brasil. Logo, temos a formação de um vigoroso pensamento comunicacional,com fôlego interdisciplinar, que tem redimensionado o enfoque teórico e empírico, institucional eepistemológico no campo das Ciências da Comunicação Digital. 24 Cf. Carpintaria das Coisas. Um blog sobre tecnologia, filosofia e as materialidades dos meios.(Erick FELINTO). http://poshumano.wordpress.com/2010/05/17/bruno-latour/ Acesso: 15.05.2011
  33. 33. 33 Nessa direção, são exemplares os Pontões de Cultura, “entidades reconhecidas eapoiadas financeira e institucionalmente pelo Ministério da Cultura, que desenvolvemações de impacto sócio-cultural em suas comunidades”; e a criação do Pontão Digital,que possui as mesmas funções dos Pontões de Cultura, porém, com a peculiaridade deutilizar predominantemente os meios digitais na promoção de suas atividades25. E, analogamente, destacam-se as experiências dos Telecentros, uma estratégia dedemocratização e inclusão digital, “um espaço público onde pessoas podem utilizarmicrocomputadores, a Internet e outras tecnologias digitais que permitem coletarinformações, criar, aprender e comunicar-se com outras pessoas, enquanto desenvolvemhabilidades digitais essenciais”. (Cf. Wikipedia, 13.05.2011). Para uma práxis teórica dessas experiências, consultar o básico Cibercultura:tecnologia e vida social na cultura contemporânea (LEMOS, 1996), assim como outrostrabalhos do autor, desde os registros internacionais no seu blog “Carnet de Notes”, atéa coletânea Comunicação e Mobilidade, Aspectos socioculturais das tecnologias móveisde comunicação no Brasil, em parceria com Josgrilberg (2009) e a obra recente, comLévy, O futuro da internet; em direção a uma ciberdemocracia planetária (2010) 26. Ouseja, Lemos apresenta um sólido alicerce teórico-conceitual para compreendermos osprocessos sócio-técnicos, culturais e comunicacionais, reunindo pesquisa empírica,reflexão e síntese das tendências atuais, no Brasil e no mundo. Diante do complexo da sociedade em rede, a percepção tout court racionalista,cartesiana e lógico-dedutiva é confrontada com outra geografia de pensamento, queinclui, por um lado, as investigações de Edgar Morin, focalizando as interconexões ecomplexidades socioculturais e políticas globais, o que abrange os insumostecnológicos, e por outro lado, o trajeto antropológico composto por uma legião depensadores e estudiosos, como Bachelard, Durand, Maffesoli, Rocha Pitta, Machado daSilva, Contrera, dentre outros instigando uma decifração da cultura digital, pela leiturada força simbólica que – antropologicamente – reúne e restrutura os laços sociais. A “nova realidade eletrônica” tem sido historicamente vasculhada por distintosespecialistas preocupados com a conexão entre o homem e a tecnologia, desde AlvimTofler, A terceira Onda (1980), passando por Fritjof Capra, O ponto de Mutação 25 Cf. Site institucional do Ministério da Cultura http://www.inclusaodigital.gov.br/noticia/edital-para-pontoes-de-cultura-e-prorrogado-ate-o-dia-20-de-agosto/ Acesso em: 13.05.2011 26 Cf. Vide blog Carnet de Notes. http://andrelemos.info/ Acesso em: 15.05.2011
  34. 34. 34(1983), e o ícone teórico da contracultura norte-americana, Theodor Roszak, O culto dainformação: o folclore dos computadores e a verdadeira arte de pensar (1988). Há todo um legado exploratório, analítico e explicativo, que tem fertilizado oimaginário mitopoético e científico do ciberespaço. Em tempo, nessa perspectivaconviria apontar a obra A pele da cultura (De KERCKHOVE, 2009), uma exploraçãoda nova teia eletrônica que atualiza o debate numa ótica pós-mcluhaniana. Sob prismas diferenciados, organiza-se um repertório importante de enquetes,diagnósticos e investigações sobre o fenômeno de intersecção da tecnologia &comunicação e suas repercussões no contexto da civilização. Esses estudos constituempassagens obrigatórias para uma compreensão histórica e social, e contribuem para umamediação afirmativa face à inserção das “máquinas inteligentes” na vida cotidiana.Fenomenologia da cultura digital Particularmente, miramos a comunicação digital numa perspectiva que assimilaas contribuições de uma “antropologia interpretativa” (GEERTZ, 1989), o que significacontemplar a interface das culturas humanas com as tecnologias; isto é, interpretar alógica interna dessa cultura tecnológica, observando as articulações do fenômenotécnico com o mundo da natureza, sociedade e cultura. Por esse prisma, é instigante examinar como funcionam as suas relações com asformas ético-políticas, místico-religiosas, materiais e simbólicas, e como isto repercutenos estilos de apropriação das linguagens e empoderamentos sócio- tecnológicos. Nessa direção, são esclarecedoras as idéias de Gleiser, em A dança do Universo(1997), uma exploração das ligações entre as ciências duras e as ciências do espírito quenos lança para outra margem do pensamento, o que nos concede distanciamento e nospermite compreender melhor as experiências da comunicação na era digital. Igualmente instigantes são as investigações de Zielinsky, filósofo-cientista,mago da comunicação que, como um autêntico hermeneuta, realiza uma “arqueologiada mídia, em busca do tempo remoto das técnicas do ver e do ouvir” (2006). (Zielinsky) propõe, para a geração que começa a trabalhar com a imaginação nos mundos da mídia, ser de vital importância saber que uma abordagem mágica, em relação à tecnologia continua a ser possível, assim como assegurar que o investimento nessa abordagem é significativo. “Esses equipamentos não estão à espera para ser

×