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ALMIRANTE NEGRO

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HISTÓRIA DO ALMIRANTE NEGRO

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ALMIRANTE NEGRO

  1. 1. A Revolta da Chibata (1910) <ul><li>O Congresso brasileiro restabeleceu, no mês de agosto de 2003, os direitos de todos os marinheiros envolvidos na chamada &quot;Revolta da Chibata&quot;, ocorrida em 1910. O decreto devolve aos marinheiros suas patentes, permitindo que recebam na Justiça os valores a que teriam direito se tivessem permanecido na ativa. Após 93 anos, resgata-se a memória dos marujos, especialmente do líder da Revolta, João Cândido Felisberto, o &quot;Almirante Negro&quot;. </li></ul>
  2. 2. Rebelião <ul><li>Na noite do dia 22 de novembro de 1910, o novo presidente recebe a notícia: os canhões de alguns dos principais navios de guerra da Marinha Brasileira – neste momento ancorados em frente à cidade, na Baía de Guanabara - apontam para a capital do Rio de Janeiro e para o próprio palácio de governo. As tripulações se rebelaram e tomaram os principais navios da frota. </li></ul>
  3. 3. 1910 <ul><li>Para entender a história de João Cândido e da Revolta da Chibata - uma das poucas revoltas populares que atingiu seus objetivos no Brasil - é preciso voltar a 1910. Neste ano, no meio de uma grande instabilidade política, o militar Hermes da Fonseca é eleito para a presidência. </li></ul>
  4. 4. O recrutamento militar <ul><li>Desde o período colonial, o recrutamento de soldados e marinheiros era feito de maneira particularmente violenta. Para começar, o recrutamento era forçado, arbitrário e recaía sobre pessoas de origem humilde, que não tinham como se defender. Os que dispunham de alguma fortuna compravam sua isenção do serviço militar. Além disso, os homens recrutados eram submetidos a constantes violências, que incluíam desde uma péssima alimentação até castigos corporais. </li></ul>
  5. 5. A rebelião <ul><li>A Revolta da Chibata ocorreu na Marinha. Em comparação com o Exército, a Marinha era tradicionalmente elitizada, e a distância entre oficiais e marinheiros era muito maior do que a existente entre postos análogos no Exército. Desde meados do século XIX, o tratamento humilhante e violento na Marinha vinha sendo questionado sem nenhum resultado concreto. Com o advento da República, cuja história iniciou-se um ano após a abolição, aquela forma de tratamento que vinha do Império era insustentável. Contudo, foi necessária uma rebelião ameaçadora dos marinheiros para que a Marinha adotasse medidas disciplinares menos brutais. </li></ul>
  6. 6. A rebelião <ul><li>A rebelião ocorreu em 1910. Nesse ano, o marinheiro Marcelino Rodrigues Meneses, que servia na belonave Minas Gerais, fora condenado a 250 chibatadas. Seus companheiros - obrigados, como de costume, a assistir ao castigo - não se contiveram e, na noite de 22 de novembro, se rebelaram. Os outros três navios (São Paulo, Bahia e Deodoro) estacionados na Guanabara aderiram. O líder da revolta foi o marinheiro João Cândido. </li></ul>
  7. 7. A rebelião <ul><li>Embora tenha sido precipitada pelo castigo de Meneses, a revolta já vinha sendo preparada havia muito tempo. Assim, os rebeldes estavam razoavelmente organizados, o que lhes permitiu dominar com rapidez os quatro navios. O comandante do Minas Gerais, Batista Neves, foi morto, juntamente com outros oficiais. Também houve mortes do lado dos marinheiros. </li></ul>
  8. 8. Fim do Castigo Corporal <ul><li>O objetivo da revolta era simples, conforme declarou o cabo Gregório do Nascimento, que assumiu o comando do navio São Paulo: conseguir o fim do castigo corporal e melhorar a alimentação. </li></ul>
  9. 9. Revolta <ul><li>João Cândido enviou pelo rádio uma mensagem ao Catete, ameaçando bombardear a cidade e os navios que não haviam aderido à revolta, caso suas reivindicações não fossem imediatamente atendidas. O presidente era Hermes da Fonseca, recém-empossado. </li></ul>
  10. 10. Anistia <ul><li>O governo estava sem alternativas, pois os canhões estavam apontados para a cidade. Assim, por iniciativa de Rui Barbosa, na época senador, foi proposto e aprovado um projeto que atendia aos marinheiros e lhes concedia anistia. Com isso, os revoltosos depuseram as armas e se submeteram às autoridades. </li></ul>
  11. 11. Ilhas das Cobras <ul><li>Porém as concessões do governo ficaram no papel. Os novos comandantes nomeados para os navios revoltados ordenaram a prisão de João Cândido e seus companheiros, muitos dos quais morreram numa masmorra na ilha das Cobras. Desse modo, os oficiais e o governo se vingaram dos marinheiros que ousaram revoltar-se. João Cândido, no entanto, conseguiu sobreviver a todas as atrocidades, sendo enfim absolvido em julgamento realizado em 1912. Conhecido como Almirante Negro, João Cândido faleceu em 1969. </li></ul>
  12. 12. Marinheiros <ul><li>Três oficiais e o comandante do encouraçado Minas Gerais, João Batista das Neves, estão mortos. Os demais oficiais são pegos de surpresa: os marinheiros manobram a frota exemplarmente, como não acontecia sob seu comando. O movimento, articulado por marinheiros como Francisco Dias Martins, o &quot;Mão Negra&quot; e os cabos Gregório e Avelino, tem como seu porta-voz o timoneiro João Cândido . </li></ul>
  13. 13. A última chicotada <ul><li>Os motivos principais da Revolta eram simples: o descontentamento com os baixos soldos, a alimentação de má qualidade e, principalmente, os humilhantes castigos corporais. Estes haviam sido abolidos no começo do século, acompanhando o final da escravidão, sendo depois reativados pela Marinha como forma de manter a disciplina a bordo. </li></ul>
  14. 14. Rio Grande do Sul <ul><li>Os pais de João Cândido eram escravos. Nascido em 1880, no distrito de Rio Pardo, no Rio Grande do Sul, João Cândido, acompanhado de sete irmãos, viveu numa fazenda até os dez anos de idade, quando foi recrutado para a Marinha, como represália às suas rebeldias. Nessa época era comum elementos tidos como desordeiros serem encaminhados à escola de correção da Marinha. Mas seu espírito irrequieto fez com que muito cedo João Cândido abraçasse a causa em favor dos direitos humanos em alto mar. </li></ul>
  15. 15. 13 Anos de Idade <ul><li>Por ocasião do movimento contra o então Presidente da República Floriano Peixoto, João Cândido, nessa época com treze anos, faz sua primeira viagem, como aprendiz de marinheiro. Pouco antes de completar 20 anos, tornou-se instrutor de escolas da Marinha, tendo oportunidade de presenciar fatos interessantes: a revolta de Plácido de Castro, no Acre, quando bolivianos tentaram invadir o território brasileiro; participou do traslado do esquife do Embaixador Joaquim Nabuco, dos Estados Unidos para o Brasil; fez parte da tripulação de Benjamim Constant, para supervisionar o término da construção do navio &quot;Minas Gerais&quot; (mais tarde, esse navio serviu de palco a rebelião contra os maus tratos na Marinha) em um estaleiro na Inglaterra. </li></ul>
  16. 16. Rebelde <ul><li>Sua condição de rebelde lhe valeu um comentário do Comandante Pereira da Cunha que emitiu um parecer, mais tarde, condenando a atitude de seus comandados, sugerindo que o integrante da comitiva deveria apresentar atestado de bons antecedentes. Eis a íntegra de seu parecer: &quot;Em contato com a Marinha Inglesa, evoluída um século sobre o nosso pessoal, essa gente foi sofrendo a inevitável influência da comparação&quot;. </li></ul>
  17. 17. Escravos? <ul><li>Averiguando a vida coerente dos colegas estrangeiros que aportavam no cais britânico, João Cândido tornou-se um dissidente do regime adotado pelos comandantes brasileiros. Passou a questionar, o sistema, influenciando seus companheiros, em busca de condições mais humanas. Propunha também o fim dos castigos corporais, do excesso de trabalho, dos salários baixos e da má alimentação, sugerindo uma nova relação com a Marinha, para a qual os marinheiros &quot;não passavam de meros escravos da Armada Brasileira&quot;. </li></ul>
  18. 18. Liberalidade? <ul><li>Na época, o Ministro da Marinha classificou essa tomada de consciência como uma posição anarquista, com este comentário: &quot;Lá sofreram as piores influências dos centros anarquizados pelas idéias subversivas de um liberalismo mal compreendido&quot;. </li></ul>
  19. 19. Inglaterra <ul><li>A morte do Presidente Afonso Pena (1909) chega ao conhecimento de João Cândido, na Inglaterra. Em seguida, fica sabendo da posse do novo Chefe de Estado, Nilo Peçanha, de quem era simpatizante. Manda desenhar um retrato a carvão do novo Presidente, fixando-o no &quot;Minas Gerais&quot;. </li></ul>
  20. 20. Rui Barbosa? <ul><li>Chegando ao Rio, João Cândido é indicado para fazer a mostragem do navio ao Presidente e seu Ministério. Oportunamente, mostrou o quadro ao visitante, o que lhe valeu um convite ao Palácio do Catete. Por ocasião da visita ao Palácio, João Cândido narra ao Presidente as más condições a que eram submetidos os marinheiros. Pede a abolição da chibata e reivindica melhores condições de vida. O atendimento dessas reivindicações ficou só na esperança, pois Nilo Peçanha, mesmo que desejasse atendê-lo, não teria tempo, porque deixou o governo pouco tempo depois. Há rumores de que esse governo, depois, acobertou o levante de 22 de novembro de 1910. Com o objetivo de se promoverem, alguns políticos defendiam os marujos. Rui Barbosa foi um deles, só que suas posições contraditórias o tornavam um político sem muita credibilidade. Ao mesmo tempo que defendia pontos de vista favoráveis à causa dos marujos, valorizava a criação da Campanha Correcional - uma lei que agredia os direitos humanos. O jornalista gaúcho Paulo Ricardo de Morais, pesquisador da vida de João Cândido, questiona o fato de Rui Barbosa ter mandado queimar a documentação referente à escravidão no Brasil, sob alegação de que esse passado era vergonhoso para a Nação e, por isso, deveria desaparecer. </li></ul>
  21. 21. Mão Negra <ul><li>No início do novo governo, a violação aos direitos humanos na marinha aumentou consideravelmente. Surgem, então, os primeiros indícios de nova rebelião na esquadra brasileira, enviada às comemorações do I Centenário da Independência do Chile. Durante a viagem, os castigos tornam-se insuportáveis, provocando um motim contra a Armada. O marinheiro Francisco Dias Martins escreve uma carta e a coloca debaixo da porta da cabine do comandante, esclarecendo: &quot;Venho por meio destas linhas pedir não maltratar a guarnição deste navio, que tanto se esforça para trazê-lo limpo. Aqui nunguém é salteador, nem ladrão. Desejamos paz e amor. Ninguém é escravo de oficiais e chega de chibata. Cuidado! Assinado, Mão Negra&quot;. </li></ul>
  22. 22. Chibatadas <ul><li>Faziam parte da frota os navios &quot;São Paulo&quot;, &quot;Bahia&quot;, Deodoro&quot; e o &quot;Minas Gerais&quot;, no qual João Cândido e mais 887 marujos prestavam serviços a uma tripulação de 107 oficiais e oito chibatadores. Na volta, a situação agrava-se devido ao enquadramento de oito marinheiros na Correcional. Um deles teve suas mãos e pés atados, recebendo 250 chibatadas para servir de exemplo aos demais rebeldes. Foi a gota que faltava para a explosão da revolta, forçando a antecipação, para o dia 22, do lançamento do plano de recusa aos maus tratos, anteriormente marcado para o dia 24 de novembro de 1910. </li></ul>
  23. 23. Bombardeio <ul><li>O comitê do complô decide assumir o controle do &quot;Minas Gerais&quot; e troca o toque de silêncio pelo de combate. Prende os oficiais nos camarotes e entra em contato com os outros navios dos quais receberam apoio. Já nas imediações da Capital Federal - Rio de Janeiro - a esquadra ancora em alto mar. Na cidade, o Presidente Hermes da Fonseca e seus Ministros assistiam a uma ópera, quando tomaram conhecimento da seguinte mensagem passada pelo telégrafo: &quot;Não queremos de volta a chibata. É o que pedimos ao Presidente da República e ao Ministro da Marinha. Queremos respostas, já e já. Caso não as tenhamos, bombardearemos a cidade e os navios que não se revoltarem&quot;. </li></ul>
  24. 24. Alimentação? <ul><li>Os revoltosos, para provar que estavam dispostos a levar em frente o movimento, enviam corpos de dois oficiais do &quot;Minas Gerais&quot; a plataforma da Marinha. Esse gesto provocou desespero na população e algumas família procuravam refugiar-se fora da cidade. A cúpula da Marinha, apreensiva, envia o Deputado gaúcho José Carlos Carvalho para agir como mediador junto aos revoltosos. O político ouviu o pedido enfático dos marujos: </li></ul><ul><li>&quot;Nada queremos, senão o alívio dos castigos corporais. Que nos dêem meios para trabalhar, compatíveis com as nossas forças. Vossa Senhoria pode percorrer o navio, para ver como ele está em ordem. Só queremos que o Presidente nos dê liberdade, abolindo as barbaridades que sofremos, dando-nos alimentação e folga no serviço. Nós temos, ou não razão?&quot; </li></ul>
  25. 25. Falsidade? <ul><li>O deputado levou ao Presidente as reivindicações dos marujos, mas o governo não se dispôs a atendê-las, forçando os marinheiros a recuar nos diálogos. Imediatamente, o Senador Rui Barbosa entra em cena e apresenta um projeto de anistia aos rebeldes. João Cândido consente na retomada das negociações e passa uma mensagem ao conterrâneo mediador pelo telégrafo: </li></ul><ul><li>&quot;Entraremos amanhã, ao meio-dia. Agradecemos os seus bons ofícios em favor da nossa causa. Se houver qualquer falsidade, o senhor sofrerá as conseqüências. Estamos dispostos a vender caro as nossas vidas&quot;. </li></ul>
  26. 26. Pá de Cal <ul><li>No dia 26 de novembro cumprem o prometido. Os navios entram na barra. Em terra firme, a anistia é revogada e os marinheiros são apanhados desprevenidos. João Cândido é preso e enviado para uma masmorra na Ilha das Cobras. Lá permanece por 18 meses. Ele mesmo contou a Edmar Morel, autor de &quot;A Revolta da Chibata&quot;, como viveu este período: </li></ul><ul><li>&quot;__Foi horrível! Dos dezoito camaradas, instalados num mesmo cubículo, só escaparam dois: eu e o Pau de Lira, que trabalhava na estiva (no porão do navio) no cais dos Mineiros, no Caju. O resto foi comido pelo cal, que se misturava com água, era jogada dentro do subterrâneo. Outros, de tão inchados, pareciam sapos... Alguns, corroídos pela sede, bebiam a própria urina. Fazíamos necessidades num barril que, de tão cheio, rolou inundando tudo. Resistimos a pão e água. Quando abriram a porta, havia gente podre. Retiraram os cadáveres, deixando apenas nós dois. Lá fiquei, até ser internado como louco&quot;. </li></ul>
  27. 27. Almirante Negro <ul><li>Após receber alta, João Cândido retorna à mesma prisão, permanecendo por lá até o dia em que o Senador Rui Barbosa o elogiou no Congresso, pela atitude como comandou a revolta dos marinheiros, evitando um confronto de maiores conseqüências. Lembra o jornalista Paulo Ricardo que, na mesma época, enquanto João Cândido usava de estratégias para evitar ataque sangrento, o Presidente, Marechal Hermes da Fonseca, permitia o bombardeio da Bahia. Absolvido, com auxílio de uma junta de advogados contratada pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, João Cândido é aclamado pelos amigos como o &quot;Almirante Negro&quot;, fazendo jus à frase que ouvira mais tarde, de um marinheiro: </li></ul><ul><li>&quot;__A sua história ficou na Marinha. Hoje, não apanhamos, temos soldo regular e comemos bem. Agradecemos tudo isto ao Senhor&quot;. </li></ul>
  28. 28. Pobreza <ul><li>Em liberdade, enfrenta o preconceito, as doenças adquiridas na prisão e as dificuldades financeiras. Para sobreviver, sujeita-se a trabalhar desde carregador de navio a vendedor de peixe. A Marinha nem sequer lembra-se de ajudá-lo pelo fim da chibata, um fato marcante na sua história, mas sufocado pelas batalhas dos almirantes. Casou-se com Marieta, constituiu família e veio a falecer no dia 6 de dezembro de 1969, no Rio, vítima de um câncer. </li></ul><ul><li>As pedras em seu caminho tortuoso foram muitas e muitas, mas mesmo assim conseguiu forças para retirá-las, com dignidade, sagrando-se um herói do povo, como disse Edmar Morel: &quot;Você dignificou a espécie humana. Adeus, João Cândido...&quot; </li></ul>
  29. 29. Encruzilhada do Sul <ul><li>João Cândido Felisberto (Encruzilhada do Sul, Rio Grande do Sul, 24 de Junho de 1880 — Rio de Janeiro, 6 de Dezembro de 1969) foi um militar brasileiro, líder da Revolta da Chibata (1910). </li></ul>
  30. 30. Encruzilhada do Sul <ul><li>Nascido no estado do Rio Grande do Sul, no município de Encruzilhada do Sul, que havia sido distrito de Rio Pardo, filho dos ex-escravos João Felisberto Cândido e Inácia Felisberto, apresentou-se na Escola de Aprendizes Marinheiros com uma recomendação de &quot;atenção especial&quot;, aos cuidados do Delegado da Capitania dos Portos em Porto Alegre. Esta recomendação deveu-se à iniciativa de um velho amigo e protetor de Rio Pardo, o então capitão de fragata Alexandrino de Alencar, que o encaminhara àquela escola. </li></ul><ul><li>Desse modo, numa época em que a maioria dos aprendizes era recrutada pela polícia, João Cândido alistou-se com o número 40 na Marinha do Brasil (1894), aos 13 anos de idade, ingressando como grumete a 10 de dezembro de 1895, fazendo a sua primeira viagem como Aprendiz de Marinheiro[1]. </li></ul><ul><li>Em 1908, para acompanhar o final da construção de navios de guerra encomendados pelo governo brasileiro, João Cândido foi enviado para a Inglaterra, onde tomou conhecimento do movimento realizado pelos marinheiros britânicos entre 1903 e 1906, reivindicando melhores condições de trabalho. </li></ul>
  31. 31. O movimento dos marinheiros da Armada <ul><li>As eleições presidenciais de 1910, embora vencidas pelo candidato situacionista Marechal Hermes da Fonseca, expressaram o descontentamento da sociedade com o regime vigente. O candidato oposicionista, Rui Barbosa, realizou intensa campanha eleitoral, suscitando a esperança de transformações. </li></ul><ul><li>Em 16 de novembro de 1910, um dia após a posse do Marechal Hermes, o marinheiro Marcelino Rodrigues de Menezes foi punido com 250 chibatadas, que não se interromperam nem mesmo com o desmaio do mesmo, conforme noticiado pelos jornais da época, aplicadas na presença de toda a tripulação do Encouraçado Minas Gerais, nau capitânia da Armada. </li></ul>
  32. 32. O movimento dos marinheiros da Armada <ul><li>O uso da chibata como castigo na Armada brasileira já havia sido abolido em um dos primeiros atos do regime republicano. Todavia, o castigo cruel continuava de fato a ser aplicado, a critério dos oficiais. Num contingente de 80% negra e mulatos, centenas de marujos continuavam a ter seus corpos retalhados pela chibata, como no tempo do cativeiro. Entre os marinheiros, insatisfeitos com os baixos soldos, com a má alimentação e, principalmente, com os degradantes castigos corporais, crescia o clima de tensão. </li></ul>
  33. 33. Revolta da Chibata <ul><li>No dia 22 de novembro de 1910, João Cândido deu início ao levante, assumindo o comando do Minas Gerais, pleiteando a abolição dos castigos corporais na Marinha de Guerra brasileira. Foi designado à época, pela imprensa, como Almirante Negro. Por quatro dias, os navios de guerra Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Deodoro apontaram os seus canhões para a Capital Federal. No ultimato dirigido ao Presidente Hermes da Fonseca, os revoltosos declararam: &quot;Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha brasileira&quot;. Embora a rebelião tenha terminado com o compromisso do governo federal em acabar com o emprego da chibata na Marinha e de conceder anistia aos revoltosos, João Cândido e os demais implicados foram detidos. </li></ul>
  34. 34. Expulsão da Marinha <ul><li>Pouco tempo depois, a eclosão de um novo levante entre os marinheiros, agora no quartel da ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, em 9 de Dezembro de 1910, foi reprimida pelas autoridades. </li></ul><ul><li>Apesar de não haver participado deste levante, João Cândido foi expulso da Marinha, sob a acusação de ter favorecido os rebeldes. Em Abril de 1911 foi detido no Hospital dos Alienados, como louco e indigente, de onde foi solto em 1912, absolvido das acusações juntamente com os seus companheiros. À época, o seu defensor foi o rábula Evaristo de Moraes, contratado pela Ordem de Nossa Senhora do Rosário e dos Homens Pretos, que declinou o recebimento dos honorários que lhe eram devidos. </li></ul>
  35. 35. Expulsão da Marinha <ul><li>Banido da Marinha, João Cândido sofreu grandes privações, vivendo precariamente, trabalhando como estivador e descarregando peixes na Praça XV, no centro do Rio de Janeiro. </li></ul><ul><li>De acordo com a sua ficha, nos quinze anos em que permaneceu na Marinha, foi castigado em nove ocasiões, preso entre dois a quatro dias em celas solitárias &quot;a pão e água&quot;, além de ter sido duas vezes rebaixado de cabo a marinheiro. A sua ficha registra ainda dez elogios por bom comportamento, o último três meses antes da revolta. </li></ul><ul><li>A sua vida pessoal foi profundamente abalada pelo suicídio de sua segunda esposa (1928). Em 1930 foi novamente detido, acusado de subversão. </li></ul>
  36. 36. Adesão ao Integralismo <ul><li>Em 1933 foi convidado e aderiu à Ação Integralista Brasileira, movimento nacionalista de direita inspirado no fascismo italiano fundado em 1932 pelo escritor Plínio Salgado, chegando a ser o líder do núcleo integralista de Gamboa, no Rio de Janeiro. Em entrevista gravada em 1968, João Cândido declarou manter sua amizade com Plínio Salgado e de ter orgulho em ter sido integralista, o que está evidenciado na entrevista que concedeu ao médico-historiador Hélio Silva e que se encontra arquivada no Museu da Imagem e do Som (MIS), no Rio de Janeiro. </li></ul><ul><li>Em 1959 voltou ao Sul do País para ser homenageado, mas a cerimônia foi suspensa por interferência da Marinha do Brasil </li></ul>
  37. 37. Falecimento <ul><li>Discriminado e perseguido até ao fim de sua vida, faleceu de câncer no Hospital Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, pobre e esquecido, em 1969, aos 89 anos de idade. </li></ul>
  38. 38. Herói da Pátria <ul><li>A sua memória foi resgatada na década de 1970 pelos compositores João Bosco e Aldir Blanc, no samba &quot;O mestre-sala dos mares&quot;. </li></ul><ul><li>Em outubro de 2005, o deputado nacionalista Elimar Máximo Damasceno (PRONA/SP) apresentou o projeto de lei n. 5874/05, determinando inscrever o nome de João Cândido no &quot;Livro dos Heróis da Pátria&quot;, que se encontra no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF). </li></ul><ul><li>Em Setembro de 2007, faleceu, aos 82 anos de idade, Zeelândia Cândido, filha mais nova de João Cândido, que dedicou a vida a obter a reintegração do nome de seu pai à Marinha, corporação de onde saiu sem quaisquer direitos. </li></ul>
  39. 39. 97 Anos da Revolta? <ul><li>Em 22 de Novembro de 2007 (aniversário de 97 anos da Revolta), foi inaugurada uma estátua em homenagem ao Almirante Negro, nos jardins do Museu da República, antigo Palácio do Catete, bombardeado durante a revolta. A estátua, de corpo inteiro, de João Cândido com o leme em suas mãos, foi afixada de frente para o mar. Como parte da solenidade, que teve a presença de autoridades, familiares e representantes dos movimentos sociais, foi exibido o filme Memórias da Chibata, de Marcos Manhães Marins, e feita uma exposição fotográfica da Revolta da Chibata, sob a curadoria do cientista político e juiz de direito João Batista Damasceno. </li></ul><ul><li>Em 24 de julho de 2008, 39 anos depois da morte de João Cândido Felisberto, publicou-se, no Diário Oficial da União, a Lei Nº 11.756 que concedeu anistia[4] ao líder da Revolta da Chibata e a seus companheiros, idéia que partiu do Senado Federal e foi aprovada pela Câmara dos Deputados, em 13 de maio de 2008, dia em que se comemora a Abolição da Escravatura no Brasil. </li></ul>
  40. 40. Legado, homenagens e resgates <ul><li>No entanto, a lei foi vetada na parte em que determinava a reintegração de João Cândido à Marinha do Brasil. O motivo do veto é que esse reabilitação &quot;post mortem&quot; importaria em impacto orçamentário para o qual a lei não apontou a referida fonte de custeio. Assim, uma vez que tal reconhecimento imporia à União o pagamento dos soldos atrasados e das promoções que lhe seriam devidas, bem como na concessão de aposentadoria e pensão aos seus dependentes, nesse particular a lei foi vetada por ser contrária ao interesse público. </li></ul>
  41. 41. Orientação sexual <ul><li>Perdura certa controvérsia sobre a vida particular de João Cândido, precisamente no que toca à sua orientação sexual. Muito embora o almirante negro tenha se casado e gerado filhos, existem detalhes de sua vida e pessoa que levam alguns historiadores a crer que ele tenha sido homossexual na prática. João Cândido é até mesmo apontado como um ... claro protótipo de Adolfo Caminha para criar, em 1895, o protagonista do Bom-Crioulo... </li></ul>
  42. 42. Homossexual? <ul><li>Lembremos ainda que na Revolta da Chibata, no início do século XX, o seu líder foi o Almirante Negro, o marinheiro João Cândido, homossexual que até era prendado nas artes, àquela época femininas, do bordado. Mais tarde o tão cantado insurreto da Marinha apoiaria as teses da Ação Integralista Brasileira e, em suas inúmeras entrevistas, nunca assumiu publicamente sua homossexualidade e, muito menos, o seu gosto pela aristocrática arte de bordar. Fonte: http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/gatoqueri.html </li></ul>
  43. 43. 250 Chibatadas <ul><li>No Minas Gerais, por exemplo, no dia da Revolta, o marinheiro Marcelino Menezes é chicoteado como um escravo por oficiais, à frente de toda a tripulação. Segundo jornais da época, recebe 250 chibatadas. Desmaia, mas o castigo continua. O movimento então eclode. João Cândido no primeiro momento não está presente. No calor da luta, são mortos os oficiais presentes no navio, o que terá conseqüências trágicas para os revoltosos. </li></ul>
  44. 44. Ordem e Liberdade <ul><li>Além do Minas Gerais, os marinheiros tomam os navios Bahia, São Paulo, Deodoro, Timbira e Tamoio. Hasteiam bandeiras vermelhas e um pavilhão: &quot;Ordem e Liberdade&quot;. A frota inclui mais de 80 canhões, que são apontados para a cidade. Alguns tiros de aviso chegam a ser disparados. Os marujos enviam um radiograma, onde apresentam ao governo suas exigências: querem o fim efetivo dos castigos corporais; o perdão por sua ação e que melhorem suas condições de trabalho. </li></ul>
  45. 45. Insubordinação? <ul><li>A Marinha quer punir a insubordinação e a morte dos oficiais. O governo, contudo, cede. A ameaça à cidade e ao poder de Hermes da Fonseca são reais. Aprovam-se então medidas que acabam com as chibatadas e também um projeto que anistia os amotinados. Depois de cinco dias, a revolta termina vitoriosa. </li></ul>
  46. 46. A despedida do marinheiro <ul><li>Os marinheiros, em festa, entregam os navios. O uso da chibata como norma de punição disciplinar na Marinha de Guerra do Brasil finalmente está extinto. </li></ul>
  47. 47. Traição <ul><li>Logo, no entanto, o governo trai a anistia. Os marinheiros começam a ser perseguidos. Surgem notícias de uma nova revolta, desta vez no quartel da Ilha das Cobras. O governo recebe plenos poderes do Congresso para agir. A ilha é cercada e bombardeada. </li></ul>
  48. 48. Cruz Vermelha <ul><li>Cerca de 100 marinheiros são presos e mandados, nos porões do navio &quot;Satélite&quot; - misturados a ladrões, prostitutas e desocupados recolhidos pela polícia para &quot;limpar&quot; a capital - para trabalhos forçados na Comissão Rondon, ou simplesmente para serem abandonados na Floresta Amazônica. Na lista de seus nomes, entregue ao comandante do &quot;Satélite&quot;, alguns estão marcados por uma cruz vermelha. São os que morrerão fuzilados e, depois, serão jogados ao mar. </li></ul>
  49. 49. O Carcereiro <ul><li>João Cândido, embora não tenha participado do novo levante, também é preso e enviado para a prisão subterrânea da Ilha das Cobras, na noite de Natal de 1910, com mais 17 companheiros. Os 18 presos foram jogados em uma cela recém-lavada com água e cal. A cela ficava em um túnel subterrâneo, do qual era separada por um portão de ferro. Fechava-a ainda grossa porta de madeira, dotada de minúsculo respiradouro. O comandante do Batalhão Naval, capitão-de-fragata Marques da Rocha, por razões que ninguém sabe ao certo, levou consigo as chaves da cela e foi passar a noite de Natal no Clube Naval, embora residisse na ilha. </li></ul>
  50. 50. As Chaves <ul><li>A falta de ventilação, a poeira da cal, o calor, a sede começaram a sufocar os presos, cujos gritos chamaram a atenção da guarda na madrugada de Natal. Por falta das chaves, o carcereiro não podia entrar na cela. Marques da Rocha só chegou à ilha às oito horas da manhã. Ao serem abertos os dois portões da solitária, só dois presos sobreviviam, João Cândido e o soldado naval João Avelino. O Natal dos demais fora paixão e morte. </li></ul>
  51. 51. O Carcereiro <ul><li>O médico da Marinha, no entanto, diagnosticou a causa da morte como sendo &quot;insolação&quot;. Marques da Rocha foi absolvido em Conselho de Guerra, promovido a capitão-de mar-e-guerra e recebido em jantar pelo presidente da República. </li></ul>
  52. 52. Nuvens de Cal <ul><li>João Cândido continuou na prisão, às voltas com os fantasmas da noite de terror. O jornalista Edmar Morel (1979, p. 182) registrou assim seu depoimento pessoal: &quot;Depois da retirada dos cadáveres, comecei a ouvir gemidos dos meus companheiros mortos, quando não via os infelizes, em agonia, gritando desesperadamente, rolando pelo chão de barro úmido e envoltos em verdadeiras nuvens da cal. A cena dantesca jamais saiu dos meus olhos. </li></ul>
  53. 53. Hospício <ul><li>Atormentado pela lembrança dos companheiros mortos, João Cândido é algum tempo depois internado em um hospício. </li></ul>
  54. 54. Vendedor <ul><li>Aos poucos, ele se restabelece. É solto e expulso da Marinha. Os navios mercantes não o aceitam: nenhum comandante quer por perto um ex-presidiário, agitador, negro, pobre e talvez doido. João Cândido continuará contudo perto do mar, até morrer, em 1969, aos 89 anos de idade, como simples vendedor de peixe. </li></ul>
  55. 55. Fim? <ul><li>Os que fizeram a Revolta da Chibata morreram ou foram presos, desmoralizados e destruídos. Seu líder terminou sem patente militar, sem aposentadoria e semi-ignorado pela História oficial. No entanto, o belíssimo samba &quot;O Mestre-Sala dos Mares&quot;, de João Bosco e Aldir Blanc, composto nos anos 70, imortalizou João Cândido e a Revolta da Chibata. Como diz a música, seu monumento estará para sempre &quot;nas pedras pisadas do cais&quot;. A mensagem de coragem e liberdade do &quot;Almirante Negro&quot; e seus companheiros resiste. </li></ul>

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