Revista Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentavel 2012

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Revista Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentavel jan-abr/2012 EmaterRS

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Revista Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentavel 2012

  1. 1. 5 Estamos apresentando o número 1 do volume 5 da revista Agroecologia e De- senvolvimento Rural Sustentável. Nesta edição, a entrevista é com o professor La- dislau Dowbor, economista cujas palavras revelam sua sensibilidade social e a coe- rência na manutenção de uma trajetória e currículo que o afirmam como uma re- ferência na pesquisa dedicada ao desen- volvimento local que prevê a articulação entre o econômico, o social e o ambiental. Nesta mesma perspectiva está o rela- to da experiência de resgate e sistemati- zação da produção de queijo serrano, um exemplo do reconhecimento da cultura local como um fator de desenvolvimento endógeno. Os sistemas de financiamento à produ- ção rural são analisados no artigo “Meca- nismos de financiamento à produção ru- ral no Noroeste Colonial do Estado do Rio Grande do Sul: uma análise na perspecti- va dos produtores rurais”, de autoria dos pesquisadores João Arami Martins Perei- ra e Alessandro Porporatti Arbage. Neste ensaio, os autores identificam a ampliação desses mecanismos e, ao mesmo tempo, analisam a permanência do grau de en- dividamento por parte do produtor rural. Em artigo de opinião, o assistente téc- nico estadual em Solos da Emater/RS- -Ascar, Edemar Valdir Streck, faz uma análise crítica do que chama de “mitos e verdades” sobre a conservação dos solos no Rio Grande do Sul, apontando os limi- tes e avanços de programas anteriores e a situação atual no Estado. A utilização de espécies arbóreas for- rageiras como estratégia na alimentação animal em um assentamento da reforma agrária na caatinga sergipana é o objeto do ensaio assinado por Fábio São Mateus, Alfredo Fantini e Anabel de Mello. Estratégias para o resgate e conser- vação da agrobiodiversidade, a partir da participação ativa dos atores sociais lo- cais (agricultores familiares e indígenas), com foco em variedades de milho crioulo, são objetos do artigo dos pesquisadores Silmara Patrícia Cassol Vogt, Marcos Cé- sar Pandolfo, José Manuel Ballivián Pala- zuelos e José Cleber Dias de Souza. Terminando o conjunto de ensaios des- ta edição está o artigo de Livio Sergio Dias Claudino, Walkymário de Paulo Lemos e Laura Angélia Darnet-Ferreira, que trata dos fatores capazes de interferir no pro- cesso de transição para uma produção ba- seada nos princípios da Agroecologia. Além disso, as tradicionais colunas de ecodicas, ecolinks e resenhas reafirmam a opção editorial desta publicação em se associar aos temas da Agroecologia, do desenvolvimento rural sustentável, com foco na agricultura de base familiar, pú- blico prioritário nas ações de extensão ru- ral desenvolvidas pela Emater/RS-Ascar. Ao expor o conjunto de temas tratados nesta edição, desejamos uma boa leitura a todos e que os assuntos aqui apresentados sirvam de reflexão, apontamentos e con- tribuição para debates futuros. Gervásio Paulus Diretor técnico da Emater/RS-Ascar Diversidade e conservação sob o prisma da Agroecologia Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, jan./abr. 2012
  2. 2. Sumário 6 © Emater/RS-Ascar 2012 Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável v. 5, n. 1, jan./abr., 2012. Coordenação geral: Diretoria Técnica da Emater/RS-Ascar Conselho Editorial: Ari Henrique Uriartt, Carlos Guilherme Adalberto Mielitz Netto, Claudio Fioreze, Códula Eckert, Décio Souza Cotrim, Dulphe Pinheiro Machado Neto, Fábio Kessler Dal Soglio, Flávia Charão Marques, Francisco Manteze, Francisco Roberto Caporal, Gervásio Paulus, Ivaldo Gehlen, Jaime Miguel Weber, José Antônio Costa Beber, José Ernani Scwengber, Leonardo Melgarejo, Luiz AntonioRocha Barcellos, Luiz Fernando Fleck, Marta Helena DornellesTejera, Paulo Sérgio Mendes Filho e Pedro Urubatan Neto da Costa. Editora Responsável: Jornalista Marta Helena Dornelles Tejera – RP 1352 Normalização: Bibliotecária Cleusa Alves da Rocha – CRB 10/2127 Projeto Gráfico: Wilmar de Oliveira Marques Revisão Textual: Greice Santini Galvão Fotografia: Kátia Marcon e acervo fotográfico da Emater/RS- Ascar - Capa: “Artesanato kaingang” de Kátia Marcon Periodicidade: Quadrimestral Tiragem: 1.500 exemplares Impressão: Gráfica Calabria Distribuição: Biblioteca da Emater/RS-Ascar Apoio: Fepagro Emater/RS-Ascar Rua Botafogo, 1051 Bairro Menino Deus CEP 90150-153 Porto Alegre-RS – Brasil Fone: 51 2125 3144 FAX: 51 21253156 Endereço eletrônico da revista: http://www.emater.tche.br/hotsite/revista/ E-mail: revistaagroecologia@emater.tche.br A Revista Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável é uma pu- blicação quadrimestral da Associação Rio-grandense de Empreen- dimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater/RS) e da Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural (Ascar). Os artigos publicados nesta Revista são de inteira responsabilidade dos autores. Cartas Cartas podem ser endereçadas para à biblioteca da Emater/RS- Ascar, rua Botafogo, 1051, 2º andar, bairro Menino Deus, CEP 90150- 053, Porto Alegre, RS ou para revistaagroecologia@emater.tche.br. Entrevista ........................................................................... 5 Ladislau Dowbor: “A melhor maneira de aumentar a felicidade média do planeta é aumentar os recursos para baixo” Relato de Experiência .................................................... 10 Projeto de qualificação e certificação do queijo serrano produzido nos Campos de Cima da Serra do Rio Grande do Sul - relato parcial da experiência Ries, Jaime Eduardo et al. Dica Agroecológica ......................................................... 20 Cobertura do solo com capim-elefante e milheto triturados Claro, Soel Antonio Artigo ............................................................................... 22 Mecanismos de financiamento à produção rural no Noroeste Colonial do Estado do Rio Grande do Sul: uma análise na perspectiva dos produtores rurais Pereira, João Arami Martins et al. Opinião ............................................................................. 31 Mitos e verdades sobre a conservação do solo no Rio Grande do Sul Streck, Edemar Valdir Artigo ............................................................................... 39 Arbóreas forrageiras: pastagem o ano todo na Caatinga Sergipana São Mateus, Fábio A. P. et al. Econotas ........................................................................... 46 Artigo ............................................................................... 48 Estratégias para o resgate e conservação de variedades de milho crioulo e nativo: a experiência dos Guardiões da Agrobiodiversidade de Tenente Portela, RS Vogt, Silmara Patrícia Cassol et al. Ecolinks ............................................................................ 55 Artigo ............................................................................... 56 Fatores capazes de interferir na transição agroecológica externa e mudança social Claudino, Livio Sergio Dias et al. Resenha ............................................................................ 63 Normas para publicação ................................................ 64 Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural - EMATER/RS Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural - ASCAR Lino De David Presidente da EMATER/RS e Superintendente Geral da ASCAR Gervásio Paulus Diretor Técnico da EMATER/RS e Superintendente Técnico da ASCAR Valdir Pedro Zonin Diretor Administrativo da EMATER/RS e Superintendente Administrativo da ASCAR Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, jan./abr. 2012 Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável Porto Alegre v. 5 n. 1 p. 1-66 jan./abr. 2012
  3. 3. 7 Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 5-9, jan./abr. 2012 Por Patrícia Strelow A postura humilde e o linguajar acessível podem levar Ladislau Dowbor a ser classifi- cado como um pacato professor universitário. Mas o currículo de peso desse franco-brasilei- ro que fala sete idiomas e é autor e coautor de cerca de 40 livros, somado a sua história de vida, que em muito lembra um romance policial, logo convence o interlocutor de que a ausência de soberba advém exatamente dessa riqueza de conhecimentos e vivências experi- mentados ao longo de seus 71 anos. Filho de pais poloneses, Dowbor nasceu na França, quando a família fugia da primeira guerra mundial. Migrou para o Brasil ainda criança, escreveu para jornais e viveu um amor proibido com uma moça de origem ju- daica, Pauline Reichstul, relacionamento que os levou a percorrerem Israel e Europa em busca de abrigo. Acabaram na Suíça, onde Do- wbor graduou-se em Economia Política pela Universidade de Lausanne. De volta ao Brasil, foi pre- so, acusado de terrorista e comunista. Refugiou-se na Argélia, para onde Pauli- ne partiu em seu encontro. Após um breve período jun- tos, uma nova separação, dessa vez, definitiva: Pauli- ne retornou ao Brasil a fim de tentar ajudar compa- nheiros ameaçados pela di- tadura militar, e foi morta junto com eles. Em busca de suas raízes, Dowbor partiu novamente para a Polônia, onde re- encontrou sua mãe e co- nheceu a segunda esposa, Fátima, filha do também refugiado Paulo Freire. Naquele país, fez curso superior de Planificação Nacional e tornou-se doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia. Foi convidado então para lecionar na Universida- de de Coimbra, nas cátedras de Economia do Desenvolvimento e Finanças Públicas — sen- do que nesta o último titular havia sido Fran- cisco Salazar. Em 1977, trocou a Europa pela África, onde se tornou coordenador técnico do Ministério do Planejamento da Guiné-Bissau. Retornou ao Brasil na década de 80, quando foi secretário de Negócios Extraordinários da Prefeitura de São Paulo. Atuou como consul- tor do Secretário Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), na área de Assuntos Políticos Especiais, e assessor técnico princi- pal de projetos, cargo que o levou a organi- zar sistemas de gestão econômica na Guiné Equatorial e na Nicarágua. Hoje Dowbor trabalha como professor ti- Ladislau Dowbor: “A melhor maneira de aumentar a felicidade média do planeta é aumentar os recursos para baixo”
  4. 4. 8 Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 5-9, jan./abr. 2012 tular no departamento de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Pau- lo, nas áreas de Economia e Administração. É consultor para agências da ONU e de vários governos como Costa Rica, Equador e África do Sul, além de atuar como conselheiro em instituições como a Fundação Abrinq e o Ins- tituto Pólis. Dowbor estuda há mais de três décadas o desenvolvimento sustentável, tema que norteou a entrevista concedida a seguir pelo pesquisador. Revista Agroecologia - A necessidade de mudança para um sistema produtivo mais sustentável, mais que uma questão de consciência ambiental, é também um imperativo econômico? Ladislau Dowbor - O interessante é que é um imperativo ao mesmo tempo econômico, social, ambiental e político. Nós somos sete bilhões de habitantes, todos querendo consu- mir mais, e isso simplesmente não é viável. Temos que pensar então em um novo mode- lo de consumo, já que o atual é destrutivo à natureza e idiota em termos de resultados. Temos inúmeras pesquisas que mostram, por exemplo, que nas últimas décadas o Produto Interno Bruto americano aumentou muito, mas a satisfação das pessoas com a vida não melhorou. A partir de um certo nível, o au- mento do consumo de bens materiais deixa de melhorar sua vida. E é um nível relativa- mente modesto, que está fundamentado em conceitos básicos: você tem que poder alimen- tar os seus filhos decen- temente, ter o mínimo de espaço de convívio domiciliar, acesso à água limpa, a um con- junto de serviços públi- cos — educação, saúde, cultura, lazer, informação, segurança. Uma vez que o básico está preenchido, você não vai melhorar sua qualidade de vida. Mas se você não tem o básico, sua qualidade de vida po- derá ser muito ampliada na medida em que esses pontos forem atendidos. Então, a melhor maneira de aumentar a felicidade média do planeta é aumentar os recursos para baixo. A melhoria em termos sociais é grande e, como o pessoal do andar de baixo da economia consome produtos sim- ples, como mais educação, mais saúde, mais saneamento básico, o impacto gera uma de- manda local de produtos que permite res- posta muito forte por pequenos agricultores, pequena e média empresa urbana, dinamiza o emprego através da expansão da educação, da saúde preventiva. Então, no conjunto, você terá, a partir do impacto social, uma dinami- zação econômica das regiões. Isso é hoje mui- to evidente quando fazemos um balanço dos oito anos do Governo Lula. O investimento na base da sociedade gerou mais bem-estar, sentimento de inclusão, gerou muito mais fe- licidade, e ao mesmo tempo nos protegeu das dinâmicas cíclicas da crise mundial. Agroecologia - É com base nessas prerro- gativas que o senhor sustenta sua afirmação
  5. 5. 9 Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 5-9, jan./abr. 2012 de que há uma contra- dição muito grande na forma como é calcula- do o PIB mundial? Dowbor - O social e o econômico são articu- lados. O meio ambiente está diretamente vin- culado a isso porque a redistribuição de renda desloca o consumo para a base da sociedade, e esse não é um consu- mo que gera impactos negativos, em geral, a não ser que seja uma imitação do perfil de consumo dos ricos. Por exemplo, nas cidades nós precisamos de mais transporte coletivo. Isso é muito bom para as pessoas ganharem mais tempo, o que vem se tornando muito escasso na vida familiar, e ao mesmo tempo, você reduz o uso de automó- veis, o que tem um impacto climático também. Outra coisa central na melhoria das con- dições sociais e econômicas é o saneamen- to básico. Ele tem altos impactos imediatos pela redução da poluição sobre o meio am- biente. Ao melhorar, ou dinamizar, todo o processo educativo, a tendência é ter um comportamento mais inteligente no uso dos recursos. Então o econômico, o social e o am- biental se casam. E o quarto eixo, que acho muito importante, é o impacto político disso. Nós temos muitas cidades no mundo que passaram a ter políti- cas inteligentes, integradas. Desenvolvimen- to local que faz sentido. Melhora a qualidade de vida das pessoas, reduz a desigualdade, portanto, gera mais segurança. Para chegar a esses resultados, em geral, ocorrem articu- lações entre os diversos atores da sociedade. Não é necessário medir qual “ismo” funciona, capitalismo ou socialismo, e sim, o quanto as pessoas se organizam em torno dos seus in- teresses e constroem o seu entorno. Uma ci- dade como São Paulo, com 18 mil dólares de renda per capita, ter esgoto a céu aberto e ter as periferias que têm, pelo amor de Deus, e as dondocas não querem pagar mais imposto. Compram apartamento de R$ 14 milhões na beira do Rio Pinheiros, e depois têm que viver com ar-condicionado porque não podem abrir as janelas, já que o Rio Pinheiros é um esgoto a céu aberto. Então há uma dinâmica econômica, social, ambiental e política. Pega uma cidade como Pintadas, no interior da Bahia, que não é nenhuma metrópole nem tem muito dinhei- ro, mas que ao invés de eleger um político tradicional, elegeu a Neusa, uma mulher que vem dos movimentos sociais. De Pinta- das, no semiárido baiano, a 68 quilômetros do asfalto, todo ano vinha gente cortar cana em São Paulo, porque lá não tinha emprego, porque era muito pobre, o que em si é uma besteira, porque se é muito pobre é porque ainda há muito o que fazer. Quando elege- ram a Neusa, o governador mandou fechar a única agência bancária, para mostrar quem manda. Eles fizeram então uma cooperativa de crédito. A Universidade Federal da Bahia fez a eles um plano de recuperação das terras do semiárido, que são férteis, mas que preci- sam ser utilizadas de uma maneira diferen- te. As pessoas que iam a São Paulo cortar
  6. 6. 10 Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 5-9, jan./abr. 2012 cana, em vez disso, passaram a trabalhar na recuperação das terras, e a partir daí passou a ter uma base produtiva local. Isso teve im- pacto também na educação: acrescentou ao currículo o ensino da economia do semiárido, que inclui física, química, economia, etc. Então, quando você observa Pintadas — por isso que eu digo que é um impacto po- lítico — é uma cidade que parou de esperar que a resposta viesse de outro lugar. A ideia é que o desenvolvimento não se espera, se faz. O básico é o que chamamos de desenvol- vimento endógeno: você pegar os potenciais de cada lugar. Então aos tradicionais fatores econômico, social e ambiental, eu acrescento um quarto pilar, o político, que passa pela democratização. Por que isso funciona? Porque a população se apropria. O Brasil tem inúmeros exem- plos. Publicamos pelo Instituto Pólis um livro intitulado “135 exemplos de Desenvolvimen- to Local Integrado”. Na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, analisamos oito mil experiências inovadoras durante dez anos. Selecionamos umas 400 mais significativas como, por exemplo, o município de Piraí, no Rio, que generalizou o acesso de banda larga à Internet. Olha, o pessoal está se mexendo. Agroecologia - En- tão já temos inúme- ros exemplos no Bra- sil? Dowbor - E como temos! Não sai no Fan- tástico, isso é óbvio. Muitas vezes ficamos no desespero em função da ignorância, por não sabermos das coisas que estão acontecen- do. Como sou obrigado profissionalmente a me meter em tudo quanto é canto, como eu estou em uma rede de pesqui- sadores, eu acabo vendo muita coisa. Por exem- plo, o projeto Minha escola meu lugar, em Santa Catarina. Um sistema de ensinar o próprio local nas escolas, que gera cidadania, as pessoas se apropriam da realidade. Agroecologia - Em termos de agricul- tura familiar, o senhor acredita que se deve investir em circuitos curtos de pro- dução e comercialização? Dowbor - A unidade agrícola familiar é mais produtiva do que a monocultura exten- siva. Ela é menos violenta em termos de agro- tóxicos e de uso de energia. É um sistema em que um produto serve para outro. Os resíduos de uma cultura vão servir para alimentar os porcos, o esterco das galinhas servirá para a horta etc. O emprego da pequena agricultura é diferente da grande, na qual você contrata as pessoas por períodos temporários, o que desarticula. Para o pequeno agricultor, quan- do termina uma safra, ele começa a plantar outra coisa, entre os dois ele está arrumando a cerca etc. Você tem um equilíbrio energético no ciclo reprodutivo da pequena propriedade. O importante para fazer funcionar as coi- sas é não pensar apenas na unidade produti- va, mas em todo o ciclo de reprodução, o que
  7. 7. 11 Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 5-9, jan./abr. 2012 significa acesso às sementes adequadas, siste- mas de informações meteorológicas, apoio de sistemas de análise de solo e complementos para esse solo, apoio técnico científico para potencializar o uso das máquinas para produ- ção. A produção agrícola se deteriora muito rapidamente, por isso os sistemas regionais de silagem, de apoio para estocagem, têm que ser muito ágeis, além de coletivos. Depois tem a questão de sair do atravessa- dor, o processo de financiamento, de requali- ficação permanente em função das mudanças tecnológicas. Esses diversos subsistemas não são de produção, mas são serviços de apoio. Na agricultura europeia, o pequeno agricul- tor utiliza a terra de maneira muito diversifi- cada e intensiva, com uma produção apoiando a outra, o que é bom. Mas como ele é pequeno, não resolve sozinho o problema do suporte ne- cessário, coisa que o grande faz, ao contratar consultores, assessoria jurídica, comprar má- quinas, fazer os acordos de longo prazo com os grandes fornecedores de agrotóxicos etc. O pequeno precisa romper uma de suas maiores fragilidades, que é o isolamento. Com esse tecido de suporte, acrescido da tendên- cia observada nos últimos anos, de que qua- se todos eles estão se colocando online, o pe- queno agricultor se livra dos atravessadores. No Quênia, por exemplo, o pequeno produtor está com celular, consulta preços, possíveis fornecedores. Eu mesmo já enfrentei as dificuldades im- postas pela falta de suporte. Eu criava fran- gos em Paulínia, no interior de São Paulo. Como pequeno produtor, tinha uma data fixa para vender três mil frangos, porque era pre- ciso liberar essa parte para receber os três mil pintinhos do ciclo seguinte. Fecho, mas o cara não aparece. Passa o final de semana, estou isolado. Vou até a cidade, ligo para ele, que diz que o caminhão quebrou e vem no outro dia. No dia seguinte não vem, mais dois dias e nada. Estou desesperado, porque tenho que liberar tudo para desinfetar e esperar os ou- tros pintinhos, e assim não quebrar o ciclo. Quando ele chega, afirma que o preço no mer- cado caiu, e o que tinha sido fixado já foi. Já tive caras que chegaram e escolheram os me- lhores, largaram o refugo comigo, e, apesar de termos tratado um conjunto, disse que se eu não quisesse assim, não levava mais. Agroecologia - O senhor acredita que um caminho para os pequenos produto- res seria incentivar o cooperativismo e as parcerias? Dowbor - Sem dúvida, mas é preciso enten- der antes de tudo o ciclo de reprodução, em que a produção — transformar semente em mais semente — é apenas um segmento dessa roda. Apoio técnico, apoio à comercialização, sistema de silagem e estocagem, sistema de comerciali- zação primária, sistema de informação comer- cial, em conjunto, num serviço de apoio. Você não precisa transformar todos os serviços de apoio em cooperativas de produtores. Você faz uma cooperativa de serviços que servem ao conjunto. Isso eu já vi muito funcionar. Agroecologia - Inclusive aqui no Brasil? Dowbor - Sim. Em Caxias, por exemplo, pequenos produtores se juntaram e fizeram uma associação de garantia de crédito. Jun- taram sete municípios, cada um aportou um milhão de reais. O BID se interessou e colocou mais sete, então ficaram com R$ 14 milhões. Assim, ao invés de dependerem do banquei- ro, quando não estão conseguindo fechar o ci- clo, a associação, em nome de um conjunto de agricultores, pede um empréstimo ao banco e negocia a taxa de juros. Isso é possível porque o banco não terá riscos, já que a associação tem recursos para dar de garantia a qualquer um que quebrar — por isso se chama agência de garantia de crédito. Como eles sabem que não irão quebrar mais de 5% dos produtores, com R$ 14 milhões, eles garantem R$ 280 mi- lhões de crédito. É isso que eles precisam ter em caixa, para aqueles que possam quebrar. Textos técnicos de Ladislau Dowbor estão disponíveis gratuitamente para download no site http://dowbor.org.
  8. 8. 1212 Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 10-19, jan./abr. 2012 Ries, Jaime Eduardo 1 , da Luz, João Carlos Santos 2 , Wagner, Saionara Araújo 3 1 INTRODUÇÃO O Queijo Artesanal Serrano, ou simplesmen- te Queijo Serrano, é um produto típico e ex- clusivo dos Campos de Altitude do Rio Grande do Sul (Campos de Cima da Serra) e de Santa Catarina (Planalto Sul-catarinense). É produ- zido nessa região há cerca de 200 anos, através da adaptação de receita de origem portuguesa, passada de geração para geração. Até hoje, é um dos principais produtos das fazendas serranas, representando, não raras vezes, mais da metade da renda agrícola bru- ta desses estabelecimentos rurais e a princi- pal atividade na rotina diária das famílias. É produzido em pequena escala, com leite cru, nas próprias fazendas, na sua maioria por pecuaristas familiares 4 que desenvolvem Projeto de qualificação e certificação do queijo serrano produzido nos Campos de Cima da Serra do Rio Grande do Sul - relato parcial da experiência 1 Zootecnista, mestre - Assistente técnico regional - Escritório Regional de Caxias do Sul - Emater/RS. 2 Médico veterinário, especialista - Supervisor regional - Escritório Regional de Caxias do Sul - Emater/RS. 3 Médica veterinária, doutora - Professora de Extensão Rural - Faculdade de Veterinária - UFRGS. sua atividade de forma extensiva, com peque- no uso de insumos externos à propriedade. O sistema de produção é baseado nos campos nativos, preservando o ambiente, a beleza das paisagens e a cultura do homem serrano. Apenas no Rio Grande do Sul, estima-se em 1.500 o número de famílias produtoras desse queijo. Apesar de sua importância, a produção ocorre geralmente na informalidade, colocan- do tanto os produtores quanto os consumido- res em situação de insegurança: por um lado, os consumidores por, não terem a garantia de estar adquirindo o legítimo Queijo Serrano e 4 DeacordocomoDecretonº48.316,de31deagostode2011, que regulamenta a Lei nº 13.515, de 13 de setembro de 2010, sãoconsideradospecuaristasfamiliaresosprodutoresqueaten- dem cumulativamente os seguintes critérios: tenham como ati- vidadepredominanteacriaouarecriadebovinose/oucaprinos e/oububalinose/ouovinoscomafinalidadedecorte;utilizemna produção trabalho predominantemente familiar, podendo utili- zar mão de obra contratada em até 120 dias ao ano; detenham a posse, a qualquer título, de estabelecimento rural com área total, contínua ou não, inferior a 300 hectares, tenham residên- cia no próprio estabelecimento ou em local próximo a ele; obte- nhamnomínimo70%dasuarendadaatividadepecuáriaenão agropecuáriadoestabelecimento,excluídososbenefíciossociais eosproventosprevidenciáriosdecorrentesdeatividadesrurais.
  9. 9. 1313 Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 10-19, jan./abr. 2012 que o mesmo seja inócuo para a sua saúde e, por outro lado, os produtores, por serem tra- tados como transgressores ou criminosos por vender um produto artesanal, tal como seus antepassados sempre fizeram. Em função do seu trabalho na região, a Asso- ciação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ema- ter/RS) tem tido a demanda de contribuir na busca de uma solução para esse impasse. As- sim, a partir do ano de 2001, com a realização de um seminário sobre agroindústria, na cida- de de Bom Jesus/RS, identificou-se a necessi- dade da formatação de um projeto baseado no tripé: qualificação do produto, legalização do processo artesanal e certificação do produto. Em 2004, a partir de parceria estabelecida com a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri/ SC), através de pesquisadores da Estação Ex- perimental de Lages, foram estabelecidas as diretrizes norteadoras desse projeto: • contribuir para a viabilização de uma par- cela expressiva dos pecuaristas familiares da região dos Campos de Altitude do Rio Gran- de do Sul e Santa Catarina, dependentes da produção artesanal do Queijo Serrano para a manutenção de suas famílias e propriedades; • resgatar, identificar e sistematizar os des- critores de processos que qualifiquem um queijo como tipicamente “Serrano”, preservando os pro- cessos tradicionais e valorizando o saber local; • fornecer aos produtores subsídios para a certificação do Queijo Serrano, preservando os direitos de sua produção à população rural dos Campos de Altitude do Rio Grande do Sul e Santa Catarina; • desenvolver e padronizar tecnologias que garantam a segurança alimentar, sem desca- racterizar o produto; • gerar informações que permitam a legali- zação da produção artesanal do Queijo Serrano. Em face da complexidade da tarefa e da ne- cessidade de se agregarem recursos humanos e financeiros para o seu desenvolvimento, a partir de 2005, foram estabelecidas parcerias também com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com a Fundação Es- tadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro), prefeituras municipais da região e representa- ções dos produtores rurais, além de convênios com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e Ministério do Desen- volvimento Agrário (MDA). Desde 2006, com a liberação dos primeiros recursos financeiros, começaram a ser desen- volvidas atividades com o objetivo de: • resgatar a história do Queijo Serrano e elaborar livreto sobre o assunto; • identificar os sistemas de produção asso- ciados à produção do Queijo Serrano; • caracterizar os campos nativos da região; • identificar os processos de fabricação; • descrever as características físico-quími- cas e sensoriais do queijo; • avaliar a qualidade microbiológica dos queijos; • delimitar a região produtora; • identificar os pontos críticos de contami- nação; • capacitar os produtores em higiene na or- denha e boas práticas de fabricação; • elaborar manual de boas práticas de fa- bricação; • implementar ou reorganizar os serviços municipais de inspeção; • construir e adequar as queijarias à legislação; • elaborar fôlder para a divulgação do quei- jo artesanal serrano; • discutir a adequação da legislação esta- dual à produção artesanal. O artigo apresenta uma pequena parcela desse trabalho, mais particularmente algu- mas informações componentes do diagnós- tico realizado a partir de entrevistas com os produtores, das observações realizadas pelos extensionistas em relação aos procedimentos utilizados na fabricação do queijo e algumas análises laboratoriais realizadas durante o desenvolvimento desse projeto. Por fim, são tecidas algumas breves considerações sobre os avanços e desafios para a produção artesa- nal de queijos no Brasil. 2 UM POUCO DA HISTÓRIA A primeira atividade econômica desenvol-
  10. 10. 1414 Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 10-19, jan./abr. 2012 vida nos Campos de Cima da Serra foi a pe- cuária de corte, até hoje uma das mais impor- tantes no território. Nessa região, o gado foi introduzido antes mesmo do processo de ocupação da região pe- los europeus. Os animais foram levados para esse lugar pelos índios das reduções jesuí- tas dos Sete Povos das Missões, entre 1702 e 1707. Esse gado era proveniente da região conhecida na época como Vacaria do Mar (re- gião Sul do Estado) e esse novo local de cria- ção, considerado seguro, em função de seu isolamento natural e dificuldade de acesso, ganhou o nome de Vacaria dos Pinhais (Ba- quería de los Piñales). A partir de 1733, com a abertura de um novo caminho, por Cristóvão Pereira Abreu, a região passou também a fazer parte da rota dos tropeiros, através da qual se conduziam as tropas de “mulas xucras” até a Feira de So- rocaba, em São Paulo. A existência de gado tido como sem dono - ou “alçado”, associada ao conhecimento da região por parte dos portugueses, a partir da abertura da nova rota comercial, foi fator preponderante para despertar o interesse so- bre a região. A região denominada Campos de Cima da Ser- ra foi integrada ao país e mesmo ao restante do RS, através dos tropeiros que, por aqui passan- do, foram requerendo terras e, ganhando-as, ins- talaram suas propriedades, as quais ao longo do tempo ficaram conhecidas como as fazendas dos Campos de Cima da Serra [...]. (SANTOS, 1995) 5 . Os primeiros colonizadores a se estabele- cerem nos Campos de Cima da Serra foram tropeiros de origem portuguesa, vindos de La- guna/SC e São Paulo. A ocupação formal da terra deu-se através da concessão de sesma- rias, em meados do século XVIII, como forma de ocupação e defesa da terra, sendo muitas vezes uma retribuição a favores militares prestados à coroa portuguesa. Com o passar do tempo, as sesmarias transformaram-se nas primeiras fazendas que foram divididas em função da partilha das terras. Atualmente, predominam na re- gião médias propriedades rurais dedicadas à pecuária de corte, desenvolvida por pecuaris- tas familiares. É difícil precisar exatamente o início da produção de queijo na região dos Campos de Cima da Serra. No entanto, é bastante pro- vável que tenha começado já nas primeiras décadas após a ocupação da região. Ofício datado de 1831, encaminhado ao então Presidente da Província, já solicitava melhorias dos caminhos em função da neces- sidade de se transportar os produtos da “Fre- guezia e Districto de Cima da Serra”, entre eles, o queijo e a manteiga 6 . Esse documen- to comprova que, quatro anos antes do início da Revolução Farroupilha, os queijos já eram produzidos em quantidade considerável nos Campos de Cima da Serra e possuíam noto- riedade. Outro relato curioso 7 dá conta que Antonio Machado de Souza, que veio a ser conhecido como “Desbravador dos Campos dos Bugres”, com a intenção de comprovar a abertura de um novo caminho entre o Vale do Rio Caí e os Campos de Cima da Serra, levou de volta um Queijo Serrano como prova de seu sucesso. Após 51 dias de viagem e diversas escaramu- ças com os bugres - indígenas que habitavam a região onde atualmente está situada a cida- de de Caxias do Sul - ele retornou levando um queijo adquirido em uma fazenda do então município de São Francisco de Paula de Cima da Serra. Esse fato teria ocorrido em 1864, 11 anos antes de os imigrantes italianos instala- rem-se na região da Serra Gaúcha. Esses relatos sugerem que o queijo serra- no seja o mais antigo do Rio Grande do Sul e, provavelmente, também um dos primeiros do Brasil. Entrevistas realizadas com produtores da 5 SANTOS, L. M. S.; VIANNA, M. L. C.; BARROSO, V. L. M. (Org.) Bom Jesus e o tropeirismo no Brasil meri- dional. Porto Alegre: Edições EST, 1995. 6 ALVES, L. A. Os Fundadores de São Francisco de Paula. Caxias do Sul: Edição do autor, 2007. 7 DAROS, M. A Prova do Queijo Serrano. In: Bom Jesus e o tropeirismo no Cone Sul. SANTOS, L. M. S.; BARROSO, V. L. M. (Org.). p.369-373. Porto Alegre: Edições EST, 2004.
  11. 11. 1515 Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 10-19, jan./abr. 2012 região demonstram que, desde então, a re- ceita para a fabricação do queijo vem sendo transmitida de geração para geração, sem al- terações significativas. 3 A REGIÃO PRODUTORA No Rio Grande do Sul, a produção do Queijo Serrano ocorre em uma região homogênea, lo- calizada no extremo Nordeste do Estado, com altitudes que variam entre 800 e 1.400 me- tros, sendo as mais elevadas do RS. De acordo com a classificação de Köeppen, o clima da região é do tipo Cfb. Os verões são brandos e os invernos rigorosos, sendo muito frequentes as geadas e, com menor frequên- cia, a ocorrência de neve. Os solos são ácidos, rasos e com afloramen- to de rochas. O relevo varia entre o ondulado e o fortemente ondulado, formando uma bela paisagem de campos nativos, onde predomina o capim-caninha (Andropogon lateralis) e o ca- pim-mimoso (Schizachyrium tenerum), emol- durados por capões de mato, onde se destacam as araucárias (Araucaria angustifolia). Embora a produção de Queijo Serrano te- nha abrangido no passado uma área bem maior, atualmente concentra-se principal- mente nos municípios de Caxias do Sul, São Francisco de Paula, Cambará do Sul, Jaqui- rana, Bom Jesus e São José dos Ausentes, es- tando sempre associada às áreas de campos nativos e a exploração da pecuária de corte. Com menor importância, ocorre também em Muitos Capões, Ipê, Monte Alegre dos Cam- pos, Campestre da Serra e Vacaria. Uma pri- meira delimitação da região produtora pode ser observada na Figura 1. A região delimitada preliminarmente cor- responde a uma área total de 10.686,38 km², mas ainda não engloba o município de Muitos Capões, inserido mais tardiamente entre os produtores de Queijo Serrano. Constitui-se de uma área contínua de 10.548 km² (98,71% da área total) e outra menor, localizada no extre- mo Norte do município de Vacaria, com ape- nas 138,28 km², de menor expressão atual, em termos de produção de queijo. Figura 1 - Delimitação geográfica preliminar da região produtora de Queijo Serrano: 4 A RACIONALIDADE DO SISTEMA DE PRODUÇÃO O Queijo Serrano é proveniente de um sis- tema de produção desenvolvido sobre cam- pos nativos, predominantemente com ani- mais de raças de corte, sem um padrão racial preponderante. Algumas raças aparecem, no entanto, com maior frequência nos cruzamentos, tais como as raças zebuínas Gir e Guzerá e a raça euro- peia Devon. São utilizadas, ainda, em menor proporção, as raças Angus, Hereford, Charo- lês, Simental, Normando e Pardo Suíço, além das raças leiteiras, Holandês e Jersey. Observa-se que, quando algum produtor introduz em seu rebanho algum cruzamento com raças mais especializadas em leite, eles sempre tomam o cuidado de não tornarem os animais muito especializados e, por conse- guinte, exigentes em um manejo mais espe- cializado, o que não faz parte de sua cultura e tradição de criação. Além disso, terneiros cruzados de raças bovinas especializadas em leite não têm bom valor de mercado. Também existe a preocupação manifesta de não se perder a rusticidade típica dos animais de corte, em troca de uma maior produção de leite, pois os animais mais rústicos adaptam- -se melhor às condições rigorosas do inverno serrano. Na maioria das vezes, a existência na propriedade de algumas vacas cruzadas
  12. 12. 1616 Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 10-19, jan./abr. 2012 com as raças leiteiras é apenas uma estraté- gia para manter a produção de leite duran- te o inverno, período de maior valorização do queijo no comércio. A fabricação de queijo nessa região do Esta- do resultou em um sistema de produção pecu- liar que diferencia esses pecuaristas dos de- mais pecuaristas do Estado do Rio Grande do Sul, pois não existem relatos de produção ex- pressiva de queijos, nas demais áreas de pe- cuária de corte. Por outro lado, nessa região, a ovinocultura nunca possuiu o destaque que teve em outras regiões do Estado. A ocupação da área, nas propriedades pro- dutoras de Queijo Serrano, pode ser observa- da na Tabela 1. Tabela 1 - Uso da área em propriedades produtoras de Queijo Serrano, pesquisadas: A soma das áreas de campos nativos, com ou sem melhoramento, com as áreas de matas nativas e capoeiras, utilizadas parcialmente com os bovinos, representa aproximadamente 90% da área total. Por outro lado, as áreas com culturas, entre as quais se encontram as pastagens cultiva- das, são praticamente inexpressivas. Esses dados evidenciam a importância dos campos nativos na alimentação dos animais. A necessidade de se produzir queijo para a geração de uma renda semanal ou mensal, utilizada para o custeio das despesas das fa- mílias, é associada ao interesse na comerciali- zação de animais, que significa a possibilida- de de algum investimento ou a poupança para alguma eventualidade. Assim, o sistema apresenta um duplo pro- pósito. As vacas são ordenhadas apenas no período da manhã, após serem separadas dos terneiros no período da tarde do dia anterior, pois não interessa uma maior produção de lei- te se esta ocorrer em detrimento do bom de- senvolvimento dos terneiros. O fato de as vacas não serem especializa- das para a produção de leite, possuírem sua alimentação baseada nos campos nativos e da importância de se “criar bem os terneiros” resulta em pequenos volumes de leite orde- nhados por vaca e, consequentemente, em re- duzida produção de queijo, conforme pode ser observado na Tabela 2. Tabela 2 - Produção média de leite e Queijo Serrano nas propriedades pesquisadas: Embora em algumas propriedades as va- cas ordenhadas possam receber alguma su- plementação, ou ter acesso a pequenas áreas de pastagem cultivada de inverno, o fato de, na maioria das propriedades, a alimentação ser baseada nos campos nativos resulta em produção concentrada nos períodos de pri- mavera e verão. Apesar das pequenas quantidades produzi- das diariamente, a comercialização do Queijo Serrano apresenta uma importância signifi- cativa na composição da renda das proprieda- des produtoras, conforme pode ser observado na Tabela 3. Tabela 3 - Renda bruta média anual nas propriedades pesquisadas: 5 O QUEIJO SERRANO Baseado em uma receita secular de origem portuguesa, o Queijo Serrano, fabricado de modo artesanal, com a extração de leite de
  13. 13. 1717 Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 10-19, jan./abr. 2012 animais de corte, alimentados à base de cam- po nativo, é muito apreciado pelos consumido- res, os quais o valorizam por lhe atribuírem características sensoriais especiais que o di- ferenciam de outros queijos. O fluxograma básico de fabricação do Quei- jo Serrano pode ser observado na Figura 2. Figura 2 - Fluxograma predominante de fabricação do Queijo Artesanal Serrano 1. Nos meses mais frios do ano, é necessário evitar o esfriamento excessivo do leite até a adição do coalho. Admite-se ainda o aquecimento do leite até a tempe- ratura necessária para a sua coagulação. 2. Admite-se a adição de água quente à massa para auxiliar na retirada do soro. 3. A salga pode ser realizada com a colocação de sal diretamente na massa, ou através de salmoura e, ainda, com a adição parcial do sal sobre o coador no momento da filtragem do leite. Fonte: dados da pesquisa A forma de produzir o Queijo Serrano pouco se alterou ao longo do tempo, pois continua a ser produzido apenas com leite cru, coalho e sal. A única mudança significativa com relação aos ingredientes foi a utilização de coalho químico industrial em substituição ao estômago de tatus (buchinho ou coalheira) ou ao estômago químico de ruminantes (abomaso) como bovinos e ovinos. A substância coagulante era obtida do estô- mago do tatu ou de ruminantes, através do se- guinte processo: abatido o animal, era retirado seu estômago. Depois de lavado, era cheio de sal e pendurado por alguns dias para secar, muitas vezes, sobre o fogão à lenha. Para utilização, um pequeno pedaço era deixado de molho em uma vasilha com água, usando-se como coalho um determinado volume dessa água no leite. Os queijos de formato redondo eram mais fre- quentes antigamente, sendo predominantes, no entanto, mais em algumas regiões do que em ou- tras. As fôrmas (cinchos) para os queijos redondos eram feitas de finas lâminas de madeira, retira- das do tronco de árvores. Seu diâmetro era ajus- tado conforme a quantidade de coalhada e fixado amarrando-se tiras de couro no seu entorno e, posteriormente, com arame ou pequenos ganchos. Os queijos pesavam cinco quilos ou mais e eram maturados nas propriedades por períodos superiores a três meses, quando então eram transportados no lombo de mulas, acomodados em “bruacas”, até as regiões consumidoras. En- tre elas, destacavam-se a região de colonização italiana no entorno de Caxias do Sul, a região de Santo Antônio da Patrulha e Três Forquilhas e o Estado de Santa Catarina, região denominada como “Serra Abaixo”, nos municípios de Araran- guá, Criciúma, entre outros. Nessas oportunidades, levavam queijo, cou- ro, crina, pinhão e outros produtos e traziam desses lugares tudo o que precisavam para abastecer a propriedade como farinha de tri- go, açúcar, polvilho, sal, tecidos e ferramentas. Esse período que ficou conhecido pelos histo- riadores como o “Ciclo do Tropeirismo Regio- nal” foi um período de trocas no qual a moeda principal era o queijo. Atualmente, o formato predominante dos queijos é o retangular e o peso varia entre 1 e 3 kg. As mudanças verificadas no peso e no formato dos queijos são justificadas pela preferência atual dos consumidores. Segun- do os produtores, os consumidores preferem comprar uma “peça” inteira de menor tama- nho, e consequentemente de menor custo, enquanto que o formato retangular facilita- ria o corte, a utilização e a conservação do queijo depois de cortado. Diferentemente do que acontecia no passa-
  14. 14. 1818 Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 10-19, jan./abr. 2012 do, em função das facilidades de transporte, o queijo é comercializado atualmente entre 10 e 20 dias após a sua fabricação, sendo reduzido o número de produtores que se dedicam a sua maturação na propriedade. As fôrmas, a queijeira (local onde se prensa o queijo e se escorre o excesso de soro), as pra- teleiras de cura, bem como as pás usadas para quebrar a coalhada e outros utensílios, foram e continuam sendo de madeira, na maioria das propriedades visitadas, o que contraria a legislação vigente, uma vez que apresentam superfície porosa, de difícil higienização e ca- paz de promover o desenvolvimento de comu- nidades microbianas. A troca por outros materiais, no entanto, encontra grande resistência entre os produ- tores que afirmam que materiais como inox e plástico modificam as características senso- riais dos queijos. Essa posição dos produtores de queijo fica perfeitamente caracterizada no depoimento de uma produtora de Queijo Serrano, do mu- nicípio de Bom Jesus 8 : “ É, a fôrma é de madeira. A mesa, a queijeira é de madeira. Aí, é como eu comentei, é como o vinho. A madeira, como o vinho que vai na pipa de madeira, parece que amadurece, que passa o gostinho, dá o gosto. Eu tenho um cincho lá de inox e um outro de fibra, que é plástico. Ele muda, se nota, dá diferença. Mesmo fazendo do mesmo jeitinho (...) Quando furou o meu barril de madeira, eu tive que por no de plástico. Eu tive que por um abrigo, porque ele esfria. E com o outro, de madeira, conserva (a tempera- tura), ele não esfriava.” Percebe-se, pelo depoimento anterior, que, mais do que uma questão de uso pela tra- dição, existe também todo um conhecimen- to associado aos utensílios utilizados e que compõe uma parte do saber-fazer tradicional. Além do saber tradicional, pesquisas re- centes 9 também demonstram que o biofilme formado nos utensílios de madeira utiliza- dos na fabricação de queijos, pelos micro-or- ganismos que se desenvolvem durante a fa- bricação desse produto, é importante para a determinação das características peculiares desses queijos e que podem mesmo atuar no controle de certos micro-organismos indese- jáveis através da competição pelo alimento. Em relação a suas características sensoriais, o Queijo Serrano caracteriza-se por possuir sabor e aroma acentuados e característicos e textura levemente amanteigada, característi- cas as quais se acentuam com a maturação. Na Tabela 4, pode-se observar o resultado da análise química de amostras de queijos co- letadas em 50 propriedades rurais, em três períodos diferentes de maturação. De acordo com os dados encontrados na pesquisa, foi possível classificar 10 o Queijo Serrano como um queijo semigordo, por conter um teor de gordura entre 25 e 44,9% e de baixa umidade, por conter teor de umidade abaixo de 35,9%. 8 KRONE, E. E. Práticas e saberes em movimento: A história da produção artesanal do queijo serrano entre pecuaristas familiares do município de Bom Jesus (RS). 2006. 55 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Desenvolvimento Rural e Gestão Agroindustrial). Univer- sidade Estadual do Rio Grande do Sul, Encantado, 2006. 9 FERREIRA. E. G.; FERREIRA, C. L. L. Implicações da Madeira na Identidade e Segurança de Queijos Artesa- nais. Revista Inst. Latic. “Cândido Tostes”, Jul/Ago, nº 381, 66: 13-20, 2011. 10 BRASIL. Portaria n. 146, de 7 de março de 1996. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 11 mar. 1996. Seção 1, p.3977. Disponível em: <http:// extranet.agricultura.gov.br/sislegis-consulta/consultarLe- gislacao.do?operacao=visualizar&id=1218 >. Acesso em: 05 maio 2012.
  15. 15. 1919 Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 10-19, jan./abr. 2012 Tabela 4 - Valores médios das análises químicas de amos- tras de Queijo Serrano, em três períodos de maturação: Apesar das condições de ambiente e de pro- cesso não serem as mais adequadas, em mui- tas das propriedades pesquisadas, o processo de maturação aos quais os queijos foram sub- metidos contribuiu significativamente para adequar os queijos aos parâmetros microbio- lógicos estabelecidos pelas normativas, para esse tipo de queijo, conforme pode ser obser- vado na Tabela 5. Tabela 5 - Evolução da carga microbiana em amostras de Queijo Serrano, de acordo com o período de maturação: Destaca-se, a partir da avaliação dos dados anteriores, a inexistência de contaminação por salmonelas, independentemente do tempo de maturação dos queijos, e o fato de que a matu- ração por 65 dias resultou na redução da con- taminação de todos os micro-organismos para valores adequados ao que estabelece a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Esses resultados são importantes na medi- da em que a legislação brasileira estabelece, como norma geral, a possibilidade de substi- tuição da pasteurização pela maturação por período igual ou superior a 60 dias 12 . 6 AVANÇOS E DESAFIOS PARA A PRODUÇÃO ARTESANAL DE QUEIJOS São inúmeros os desafios para se traba- lhar com a produção artesanal de alimentos no Brasil, especificamente quando se trata de produtos de origem animal, devido aos riscos potenciais desses alimentos à saúde humana. A inexistência de legislação específica para esse tipo de processamento faz com que a pro- dução artesanal seja submetida às mesmas exigências da fabricação industrial de grande porte, o que torna muito difícil a adequação de pequenos estabelecimentos. Essas dificuldades referem-se principalmente aos investimentos necessários em instalações e equipamentos nem sempre acessíveis aos pequenos produto- res, em função da pequena escala de produção. Muitas vezes, essas exigências parecem ser superiores às exigências sobre a qualidade da matéria-prima, a sanidade dos animais, as boas práticas de fabricação e a qualidade fi- nal do produto, as quais deveriam se sobrepor a todas as demais. O Brasil ainda não acordou para a impor- tância da diversidade de seus produtos pro- cessados artesanalmente, verdadeiras ex- pressões da cultura do seu povo. Ao contrário, entende-os como produtos que precisam ser substituídos por produtos industriais, pa- dronizados e “seguros”, mesmo que através da adição de produtos químicos que, a médio ou longo prazo, poderão ter a sua inocuidade contestada. Os produtos artesanais também não são entendidos como ferramentas para um mo- delo de desenvolvimento sustentável, basea- do na vocação das populações locais, e como instrumentos facilitadores para o desenvol- vimento de outras atividades como o turismo rural, por exemplo. Felizmente, por outro lado, alguns avanços têm sido observados nos últimos anos, entre os quais se destacam alguns. Primeiramente, em Minas Gerais, que, pela importância de seus queijos artesanais, desenvolve um projeto, capitaneado pelo Ins- 11 BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vi- gilância Sanitária. Regulamento Técnico Sobre Padrões Microbiológicos Para Alimentos. RDC n. 12, de 2 de ja- neiro de 2001. Diário Oficial [da] República Federa- tiva do Brasil, Brasília, DF. Seção Seção 1. Disponível em: <http://www.anvisa.gov.br/legis/resol/12_01rdc.htm >. Acesso em: 05 maio 2012. 12 BRASIL. Ministério da Agricultura Pecuária e Abaste- cimento. Portaria n. 146, de 7 de março de 1996. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasí- lia, DF, 11 mar. 1996. Seção 1, p.3977. Disponível em: <http://extranet.agricultura.gov.br/sislegis-consulta/ consultarLegislacao.do?operacao=visualizar&id=1218 >. Acesso em: 05 maio 2012.
  16. 16. 2020 Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 10-19, jan./abr. 2012 tituto Mineiro de Agropecuária (IMA) e pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater/MG), no sen- tido de qualificar a sua produção artesanal, trabalho devidamente amparado em legisla- ção estadual, desde 2002. Podemos destacar ainda a publicação de portaria 13 pela Secretaria de Agricultura do RS que aprova o Regulamento Técnico Para Fixação de Identidade e Qualidade do Queijo Artesanal Serrano e dispõe sobre o seu pro- cesso de fabricação. Por esse instrumento, pela primeira vez no Estado, admite-se de forma clara a possibilidade da produção ar- tesanal de queijo a partir de leite cru, além de definir as características do Queijo Serra- no e delimitar a sua região produtora, entre outros avanços. Mais recentemente, em novembro de 2011, em Fortaleza/CE, foi realizado o 1º Simpósio de Queijos Artesanais do Brasil, promovido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agro- pecuária (Embrapa), através do Centro de Agroindústria Tropical, e pela Emater/RS. Durante o simpósio, foi possível verificar o número crescente de universidades, institui- ções de pesquisa e extensão rural, organismos governamentais e ONG interessados no as- sunto e as inúmeras ações realizadas em prol da garantia da qualidade desses produtos e a sua preservação. Durante esse simpósio, foi elaborada a carta que pode ser observada em anexo. Por fim, cabe destacar ainda a publicação de instrução normativa 14 , pelo Mapa, que estabelece a possibilidade de os queijos arte- sanais de leite cru, produzidos em territórios delimitados, serem submetidos à maturação por período inferior a 60 dias, desde que em- basado por trabalhos técnico-científicos. CARTA DO PRIMEIRO SIMPÓSIO DE QUEIJOS ARTESANAIS DO BRASIL Os mais de 300 participantes do 1° Simpósio de Queijos Artesanais do Brasil, realizado em Fortaleza - CE, em novembro de 2011, entre eles representantes de entidades públicas e privadas, profissionais de ensino, pesquisa e extensão, membros da sociedade civil, ligados ao setor, e produtores de queijos artesanais, de várias regiões do país aprovam, de forma unâ- nime, em plenária, o conteúdo desta carta. Os queijos artesanais brasileiros são valio- sas expressões da nossa cultura. Suas quali- dades estão intimamente ligadas ao ambiente onde são produzidos e o “modo de fazer” tradi- cional, expressando a cultura local e a histó- ria das famílias que há séculos os elaboram, mantendo uma tradição de várias gerações. No Brasil, segundo o último censo agropecuário, cerca de 100 mil pequenos estabelecimentos rurais têm na produção de queijos artesanais sua renda principal. Esta atividade garante renda e emprego no campo, sustentabilidade social, econômica e ambiental. Atualmente, a produção e comercialização de queijos artesanais enfrenta um grave pro- blema: a inexistência de uma legislação adequada à produção artesanal e à co- mercialização de queijos de leite cru. As leis estaduais e federais não tratam das es- pecificidades da produção artesanal, subme- tendo-as aos mesmos padrões sanitários e de instalações dos estabelecimentos industriais, inviabilizando, assim, a produção artesa- nal devido aos elevados custos de adaptação, inacessíveis ao pequeno produtor. Ao mesmo tempo, tal adaptação compromete a qualidade sensorial e a identidade do produto e o “saber- -fazer”, consolidado há séculos. Assim, vivemos uma situação paradoxal: en- quanto muitos países do mundo vêm resgatan- do, preservando e protegendo seus patrimônios culturais e gastronômicos, o Estado brasileiro, age no sentido inverso, não disponibilizando mecanismos que preservem a produção dos muitos alimentos tradicionais, levando-os ao desaparecimento, caso dos queijos artesanais. 13 Portaria Seappa nº 214, de 14 de dezembro de 2010. 14 BRASIL. Ministério da Agricultura Pecuária e Abaste- cimento. Instrução Normativa n. 57, de 15 de dezembro de 2011. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 16 dez. 2011. Seção 1, p.23. Dis- ponível em: <http://sertaobras.org.br/wp-content/uploa- ds/2011/12/Instruc%CC%A7a%CC%83o-Normativa-n57. pdf>. Acesso em: 05 maio 2012.
  17. 17. 2121 Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 10-19, jan./abr. 2012 Neste simpósio observamos um público com- prometido com a qualidade dos queijos, a se- gurança dos alimentos e a manutenção da tra- dição. Os relatos feitos confirmam que muitas ações vêm sendo desenvolvidas para melhorar a qualidade dos queijos artesanais, para res- gatar e valorizar a história e cultura destes produtores, que vêm trabalhando arduamen- te, para viabilizar sua principal atividade eco- nômica, desenvolvida com responsabilidade social e ambiental. O 1º Simpósio de Queijos Artesanais do Bra- sil discutiu amplamente durante três dias o contexto atual da produção, sua história, suas especificidades, suas limitações e potencia- lidades. Esta discussão resultou no encami- nhamento deste documento, solicitando pro- vidências imediatas de todas as autoridades e entidades governamentais envolvidas com o setor para a manutenção da atividade. Estas providências são: - Estabelecer legislação sanitária própria para a produção artesanal de queijos de leite cru; - Estabelecer legislação ambiental própria para a produção artesanal de queijos de leite cru; - Estabelecer legislação tributária própria para a produção artesanal de queijos de leite cru; - Permitir a livre comercialização de queijos artesanais e do queijo de leite cru, inspeciona- do no município ou no estado, em todo o terri- tório nacional; - Garantir acesso às políticas públicas volta- das para o produtor artesanal, tais como crédi- to, ATER, capacitação e comercialização; - Fomentar a pesquisa direcionada à produ- ção de queijos artesanais; - Fomentar ações de promoção e acesso a mercado dos queijos artesanais do Brasil, in- terna e externamente. Fortaleza, 25 de novembro de 2011 ALVES, L. A. Os Fundadores de São Francisco de Paula. Caxias do Sul: Edição do autor, 2007. BRASIL. Ministério da Agricultura Pecuária e Abasteci- mento. Instrução Normativa n. 57, de 15 de dezembro de 2011. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 16 dez. 2011. Seção 1, p.23. Disponível em: <http://sertaobras.org.br/wp-content/ uploads/2011/12/Instruc%CC%A7a%CC%83o-Nor- mativa-n57.pdf>. Acesso em: 05 maio 2012. BRASIL. Ministério da Agricultura Pecuária e Abasteci- mento. Portaria n. 146, de 7 de março de 1996. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasí- lia, DF, 11 mar. 1996. Seção 1, p.3977. Disponível em: <http://extranet.agricultura.gov.br/sislegis-consulta/ consultarLegislacao.do?operacao=visualizar&id=1218 >. Acesso em: 05 maio 2012. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vi- gilância Sanitária. Regulamento Técnico Sobre Padrões Microbiológicos Para Alimentos. RDC n. 12, de 2 de ja- neiro de 2001. Diário Oficial [da] República Federa- tiva do Brasil, Brasília, DF. Seção Seção 1. Disponível em: <http://www.anvisa.gov.br/legis/resol/12_01rdc. htm >. Acesso em: 05 maio 2012. DAROS, M. A Prova do Queijo Serrano. In: Bom Jesus e o tropeirismo no Cone Sul. SANTOS, L. M. S.; BARROSO, V. L. M. (Org.). p.369-373. Porto Alegre: Edições EST, 2004. FERREIRA. E. G.; FERREIRA, C. L. L. Implicações da Madeira na Identidade e Segurança de Queijos Artesa- nais. Revista Inst. Latic. “Cândido Tostes”, Jul./Ago., n. 381, 66: 13-20, 2011. KRONE, E. E. Práticas e saberes em movimento: A história da produção artesanal do queijo serrano en- tre pecuaristas familiares do município de Bom Jesus (RS). 2006. 55 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Gra- duação em Desenvolvimento Rural e Gestão Agroin- dustrial). Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, Encantado, 2006. SANTOS, L. M. S.; VIANNA, M. L. C.; BARROSO, V.L.M. (Org.) Bom Jesus e o tropeirismo no Brasil meridional. Porto Alegre: Edições EST, 1995. Referências
  18. 18. 22 Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 20-21, jan./abr. 2012 Claro, Soel Antonio * Conceito A cobertura morta com biomassa vegetal é uma prá- tica antiga, mas de grande relevância nos processos de produção agroecológica. Essa prática consiste em cobrir o solo ou o canteiro com uma camada de palha, que pode ser de diversas espécies vegetais como a palha de aveia, milho, milheto, feijão, arroz, ervilhaca, capim-teosinto, sorgo, crotalária, capim-elefante, gramas, entre outras espécies vegetais, incluindo as da vegetação espontânea como o rabo-de- -burro, papuã e caruru. A espessura da camada deve ser de 7 a 10 cm (prefe- rencialmente de 10 cm) para o controle de inços. Benefícios A cobertura morta propicia uma série de benefícios para o sistema solo-planta: - protege o solo contra a erosão e impede o desen- volvimento das espécies vegetais indesejáveis no cultivo (inços); - mantém as condições de temperatura, luz, umidade e ar favoráveis para a planta, para a fauna e para a flora do solo, com consequente melhoria das condições físi- cas e químicas do último e melhor absorção de água e nutrientes pela planta, resultando em melhor metaboli- zação dos nutrientes e síntese proteica mais eficiente, com indução das plantas a um melhor desenvolvimento e a uma maior resistência às pragas e doenças; - contribui com o suprimento de nutrientes a curto, médio e longo prazo e com o aumento da matéria or- gânica do solo; - propicia diminuição da evaporação da água do solo, maior conservação da umidade e economia de água nas irrigações, com grandes benefícios nos meses escaldan- tes de verão. Resultados As imagens a seguir mostram parte dos bons resul- tados de uma pesquisa que realizamos em Sobradinho/ RS, na área de produção ecológica de Ivonil Rúbert, utili- zando cobertura morta nas condições adversas de verão (janeiro a março). Utilizamos a palha picada de milheto e de capim-ele- fante (cultivar cameron), que no período de dezembro a maio propicia três cortes com as plantas exibindo altura aproximada de dois metros. Cobertura do solo com capim-elefante e milheto triturados Objetivos: controle natural de inços e economia de água Obs.: Em todas as imagens, fica claro o controle natural de inços proporcionado pela camada de material picado. * Engenheiro Agronômo da Emater/RS-Ascar Plantas de milheto e capim-cameron em ponto de corte Trituração do material Distribuição da camada do material picado sobre o canteiro
  19. 19. 23 Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 20-21, jan./abr. 2012 Pepino desenvolvendo-se em meio ao material picado (verão) Exuberante desempenho da cultura do pepino em fase de colheita, sem irrigação (verão) Beterraba e repolho em meio à palha picada (verão) Repolho e brócoli em meio à palha picada (verão) Repolho Cultura de alho e cebola em meio à palha picada Cultura do alho Cultura da cebola
  20. 20. 24 Mecanismos de financiamento à produção rural no Noroeste Colonial do Estado do Rio Grande do Sul: uma análise na perspectiva dos produtores rurais PEREIRA, João Arami Martins 1 ARBAGE, Alessandro Porporatti 2 Resumo O setor agropecuário conta com a Política de Crédito Rural que está inserida nos “Mecanis- mos de Financiamento à Produção Rural”. Tais mecanismos de financiamento foram ampliados a partir dos anos 60 com a criação do Sistema Nacional de Crédito Rural – SNCR e com as mudanças da política econômica dos últimos 20 anos. Particularmente, na região Noroeste Colonial, ocorreram alterações importantes na utilização dos mecanismos de financiamento à produção rural. O crédito rural era pouco ado- tado, em função da baixa oferta de crédito e da baixa complexidade das atividades agropecuá- 1 Economista, Professor, Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural – PPGExR, da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM. E-mail: ampeco1954@yahoo.com.br. 2 Doutor em Administração de Empresas, Professor do Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural – PPGExR, da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM. E-mail: aparbage@smail.ufsm.br. rias. Com as mudanças da política econômica, ao longo dos anos, as atividades agropecuárias evoluíram, tornando-se mais complexas, possi- bilitando a atuação de agentes de outros setores para aportar recursos financeiros. O objetivo deste estudo é analisar o perfil dos mecanismos de financiamento à produção rural da região Noroeste Colonial, nos últimos 20 anos. Dessa forma, conclui-se que os produtores rurais da região Noroeste Colonial, nos últimos 20 anos, ampliaram as suas fontes de recursos, mas con- tinuam na dependência do capital de terceiros para realizar investimentos e custear as ativi- dades agropecuárias. Palavras-chave: Mecanismos de Financia- mento. Crédito Rural. Produtores Rurais. Abstract The agricultural sector has the rural credit policy that is embedded in the “Financing Me- chanisms for Rural Production.” These funding mechanisms have been extended from 60 years with the creation of the National Rural Cre- Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 22-30, jan./abr. 2012
  21. 21. 25 dit - SNCR and economic policy changes in the last 20 years. Particularly, in the northwestern Colonial important changes occurred in the use of financing mechanisms for rural production. Rural credit was little used, due to low supply of credit and low complexity of agricultural acti- vities. With the changes of economic policy over the years, agricultural activities have evolved, becoming more complex, allowing the perfor- mance of officials from other sectors to contribu- te financial resources. The goal of this study is to analyze the mechanisms of financing for rural Northwest Colonial in the past 20 years. Thus we conclude that farmers in the northwest Colo- nial, in the last 20 years increased their funding sources, but still dependent on the debt capital for investment and fund agricultural activities. Keywords: Financing Mechanism. Rural Credit. Farmers. 1 INTRODUÇÃO Os mecanismos de financiamento à produção agrícola e à pecuária tem sido um debate cons- tante no meio rural brasileiro. É tão importante para o desenvolvimento do setor agropecuário como o é para os demais setores da economia, de tal modo que desde os anos 60, já havia uma po- larização em torno desse tema. As alternativas eram se o governo deveria investir mais em in- fra-estrutura, ou se deveria apoiar mais o grande proprietário de terra ou o maior número de pe- quenos produtores rurais. Por sua vez, em ter- mos de política econômica debatia-se se a priori- zação deveria recair no mercado externo, através dos incentivos para os produtos de exportação ou se o incentivo deveria ser feito no mercado do- méstico, através de políticas públicas que forta- lecessem a produção para consumo do País. Por outro lado, fatores de diferenciação residem no acentuado descompasso entre imobilizações de ativos para produção agropecuária e os recursos de custeio que representam aspectos específicos do crédito às atividades rurais, além da sempre presente discussão que se associa ao risco, ligadas às atividades relacionadas ao setor primário. O setor agropecuário brasileiro conta com apoio das políticas agrícolas, constituídas de: Po- lítica de Garantia de Preços Mínimos – PGPM, Política de Seguro Agrícola, Política de Refor- ma Agrária e Fundiária e, Política de Crédito Rural que busca dar suporte a um importante processo de modernização da atividade agrícola que implicaria a crescente absorção, pelo setor, de máquinas e insumos modernos e, sustentabi- lidade às atividades rurais, através da política de crédito que está inserida nos “Mecanismos de Financiamento à Produção Rural”. Particularmente, na região Noroeste Colonial do Rio Grande do Sul deram-se mudanças impor- tantes na utilização dos mecanismos de financia- mento à produção rural, a partir dos anos 60. An- tes do advento da “modernização da agricultura”, as atividades agropecuárias eram bastante diver- sificadas, destinadas para o mercado local, sendo exportado para outras regiões somente o exceden- te da produção. O crédito rural era pouco adota- do, em função da baixa oferta de crédito e da baixa complexidade das atividades agropecuárias. Tal sistema de produção da região tinha menor custo, com pouca utilização de insumos industriais, má- quinas e implementos agrícolas. Com o surgimento do binômio trigo e soja, ocorreu a necessidade de maiores investimen- tos em máquinas e implementos agrícolas, em insumos modernos, aumentando os custos de produção, levando o produtor rural a tomar cré- dito rural para aplicação em bens e serviços de produção, bem como para o custeio da atividade operacional da agropecuária. A partir da diminuição de recursos públicos nos anos 80, outros agentes passaram a finan- ciar a agropecuária da região Noroeste Colonial, sendo que tanto pequenos como grandes produ- tores rurais passam a valer-se de recursos públi- cos e privados, possibilitando a diversificação dos mecanismos de financiamento à produção rural. Em relação aos fundos públicos, as taxas de juros sempre foram menores, enquanto que os recur- sos privados são remunerados a taxas de juros maiores (atualmente, de 18% até 24% ao ano). Segundo pesquisa da Associação Brasileira de Marketing Rural (ABMR/2004), mais de 80% dos produtores rurais empregam recursos próprios na atividade, mesmo que parcialmente, e 37% utilizam recursos do Crédito Rural. Já Castro e Teixeira (2010, p. 15) confirmam a diminuição da participação do crédito rural no financiamen- to total da atividade agrícola que pode variar de Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 22-30, jan./abr. 2012
  22. 22. 26 20% a 40% do consumo intermediário da agro- pecuária, dependendo da atividade considerada. Assim sendo, a questão que se coloca é: Qual o perfil de financiamento à produção agropecuária dos produtores rurais, na região Noroeste Colonial do Estado do Rio Grande do Sul nos últimos 20 anos? Visualiza-se a importância de analisar o perfil de financiamento à produção agropecuária na re- gião Noroeste Colonial, porque há um conjunto de agricultores familiares de pequena e média escala, tecnificados e em vias de tecnificação. Tais recur- sos são significativos porque compõem os custos de investimento, operacional e de comercialização dos pequenos, médios e grandes estabelecimentos. Além disso, a agricultura na região Noroeste Colonial é uma atividade de destaque socioeco- nômico, tendo em vista que significativa partici- pação da produção primária no PIB – Produto In- terno Bruto - da região, assim como interrelações importantes com os demais setores produtivos. Este trabalho tem como objetivo principal: ana- lisar o perfil dos mecanismos de financiamento à produção dos produtores rurais na região Noroeste Colonial do Estado do Rio Grande do Sul nos últi- mos 20 anos. Inicialmente, desenvolveu-se uma revisão de literatura sobre o perfil dos mecanismos de fi- nanciamento à produção no Brasil no período compreendido a partir da criação do SNCR. Ou- tro procedimento adotado, para capturar infor- mações, foram as entrevistas, em profundidade, com informantes qualificados e produtores agro- pecuários da região Noroeste Colonial, buscando colher a sua visão e compreender o significado atribuído aos eventos, situações, processos e estratégias que fazem parte da estrutura e do cotidiano dos negócios agrícolas, no tocante à utilização dos mecanismos alternativos de fi- nanciamento à produção rural na perspectiva do produtor e as suas opções por crédito rural público e/ou privado. Diante do exposto, para responder ao proble- ma de pesquisa, tem-se as seguintes questões: 1) A crise fiscal do Estado dos últimos 20 anos con- tribuiu para o surgimento de novos mecanismos de financiamento à produção na região Noroeste Colonial? 2) A inserção de novos mecanismos e, consequentemente, de novos agentes está ligado a busca de maior rentabilidade dos sistemas fi- nanceiros e não-financeiros privados? 3) Duran- te os últimos 20 anos aumentaram as interrela- ções entre o setor primário e a agroindústria na região Noroeste Colonial? 2 AGENTES FINANCEIROS, NÃO- FINANCEIROS E PRODUTORES RURAIS De modo geral, a região Noroeste Colonial segue os mesmos parâmetros das regiões mais próximas em relação às políticas públicas e à utilização dos mecanismos de financiamento à produção para investimento, custeio e comer- cialização. Mas, particularmente, adota certas alternativas, em função, basicamente, da busca de maior diversificação das atividades. Desta- cam-se, neste quesito as atividades: leiteira, a piscicultura, os hortifrutigranjeiros, as mudas de árvores frutíferas e silvestres, etc. A região foi bastante diversificada, antes da propalada “modernização agrícola” que teve a sua base no binômio trigo-soja a partir da década de 60. O Banco do Brasil disponibiliza uma série de programas de crédito rural para atender a agro- pecuária nas suas mais complexas e variadas atividades. Mas, em função de operar com re- cursos públicos, necessita seguir um regramen- to bastante complexo, que se torna limitador de sua atuação, tais como: cadastro, garantias, limites de valores, enquadramento do produtor rural quanto à finalidade dos recursos, consulta a agências de risco do tipo SERASA e CADIN, dificuldades de informações no sentido do pro- dutor comparar as alternativas disponíveis e decidir qual é a melhor forma de contratar re- cursos e/ou optar por não tomar fundos públicos, tendo em vista que sempre representarão cus- tos financeiros. Com as referidas informações, comparam-se os custos com o capital de tercei- ros e o ganho dos recursos próprios disponíveis. Nos últimos anos, o BNDES tem dedicado atenção aos pequenos produtores com progra- mas de financiamento a longo prazo e o Progra- ma Mais Alimento tem garantido recursos, com prazos e taxas de juros compatíveis, mas as apli- cações são desproporcionais às necessidades das pequenas propriedades. Expresso de outra for- ma, os tratores, as colheitadeiras e os implemen- Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 22-30, jan./abr. 2012
  23. 23. 27 tos agrícolas possuem capacidades muito além das dimensões das pequenas atividades agrope- cuárias (predominantes na região Noroeste Co- lonial). Neste ponto, o representante dos sindi- catos dos trabalhadores rurais é de opinião que o governo e os bancos públicos estão “arrumando dor de cabeça” para os pequenos ruralistas, pois eles não conseguirão pagar os financiamentos em função de suas dimensões e encargos. Já os bancos privados, apesar de construírem uma relação de reciprocidade, destacam a ne- cessidade de garantias que o produtor deve pos- suir acima de 150% em bens reais, ou o estabe- lecimento possuir mais de 300 hectares de área territorial, para disponibilizar apoio financeiro tanto para investimento como de custeio. Po- rém, as vantagens maiores são agilidades das operações, os cadastros estão sempre atualiza- dos e os próprios bancos são os responsáveis pelo preenchimento, pela manutenção, pela guarda dos documentos e pelo acompanhamento. Após aprovado o cadastro, os bancos disponibilizam um série de serviços financeiros que se tornam automáticos e o produtor consegue sacar, na medida das necessidades, recursos com base no contrato pré-aprovado, inclusive, fazendo-o via cartão nos caixas eletrônicos. Pelo lado das organizações sindicais, é lem- brado o alto endividamento de pequenos e gran- des produtores da região, fruto das atuais difi- culdades em pagar juros de recursos utilizados no passado (renegociações), juntamente com os atuais ativos para as atividades presentes, de tal forma que vêm limitar a participação dos re- cursos públicos, em função da inadimplência dos produtores rurais e da baixa remuneração dos produtos da agropecuária, diminuindo ainda mais a renda agrícola dos produtores. Além dis- so, alertam que o “Programa Mais Alimentos” aumentará as dívidas dos estabelecimentos, em função de que as máquinas e os implementos agrícolas são mal dimensionados para as ativi- dades, ou seja, o tamanho das propriedades e as atividades não comportam ativos com as atuais capacidades tecnológicas e de produção, perma- necendo parte dessa nova força motriz ociosa, mas que precisa ser paga juntamente com a parte que trabalha. A preocupação dos sindicatos em relação ao tamanho das propriedades e o dimensionamen- to de máquinas e implementos agrícolas é corro- borada por Brum (2007, p.42) que afirma: Pode-se dizer ainda que a tendência no mercado mundial é para a fabricação de máquinas e im- plementos cada vez mais sofisticados tecnologica- mente. A agricultura de precisão pouco a pouco se instala, inclusive na região Noroeste Colonial do Rio Grande do Sul. Uma das causas principais está na descapitalização dos produtores rurais e a falta de programas de financiamento acessíveis para a compra de novos equipamentos. Assim, existe um mercado potencial a ser recuperado no país, porém, o mesmo necessita de uma política de crédito eficaz. (BRUM, 2007, p. 42). Quanto ao crédito de custeio, o representante sindical propõe que os juros sejam zero, prin- cipalmente para a agricultura familiar através dos recursos destinados ao PRONAF. Tal rei- vindicação sustenta-se e/ou tem por base no que o governo proporciona para o sistema financei- ro, recursos a taxas de juros quase-zero, como é o caso dos depósitos à vista do público em geral, nas contas correntes. Outro representante entrevistado, integran- te da direção da Cooperativa Tritícola de Ijuí – COTRIJUI, que foi instalada em 20 de julho de 1957 e representa mais de 18.500 associados na região Noroeste Colonial e em outras regiões próximas (42 municípios no Rio Grande do Sul), com sedes em Ijuí e Porto Alegre; frigorífico em São Luiz Gonzaga, pólo arrozeiro em Dom Pe- drito e participação acionária no terminal do Porto de Rio Grande, atuando no fornecimento de insumos, agroindústrias, supermercados e na compra dos produtos de seus associados. Do total de associados, aproximadamente 70% são pequenos produtores que buscam re- cursos com os mesmos encargos no patamar das empresas particulares, que apesar de represen- tar maiores custos financeiros, passam a con- tar com a agilidade e a diminuição dos encar- gos de contratação (TEC – Tarifa de Emissão de Contrato, seguros, cheque especial, etc...). Além disso, no caso do produtor associado da Cooperativa, ele dispõe de assistência técnica e orientação de manuseio de acordo com as suas necessidades. Quanto à predominância de pequenos produ- tores, informação corroborada por Brum (2007, p. 41), o pequeno produtor (predominante na Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 22-30, jan./abr. 2012
  24. 24. 28 região) possui grande necessidade de renovação das máquinas, porém, o custo/benefício relacio- nado com a sua produção inviabiliza a compra das mesmas. Na opinião do dirigente da COTRIJUI, o cré- dito rural oficial funciona bem na modalidade custeio, por ser uma operação de curto prazo, mas o crédito público representa aproximada- mente 40% das necessidades dos produtores da região Noroeste Colonial. Os restantes 60% dos recursos são fornecidos por coopera- tivas, empresas fornecedoras, agroindústrias, integradoras e o próprio produtor. Contudo, o custo desse capital particular está entre 18% a 24% ao ano, representando um custo mais elevado, na comparação com o crédito oficial. O dirigente argumenta que, devido aos débi- tos passados, o produtor tem uma safra com- prometida, ou seja, somando todos os passivos da atividade, trabalha-se o exercício para pa- gar os custos do ano anterior. Apesar de ta- xas de juros elevadas, os pequenos e grandes produtores rurais conseguem compensar com aquisições de insumos por menores preços, já que a COOTRIJUI trabalha com uma margem bruta menor e repassa em parte aos produto- res. Da mesma forma, a cooperativa consegue melhores preços de comercialização e, de modo análogo, repassa aos associados, compensan- do em parte os custos financeiros mais eleva- dos. O que vem confirmar a constatação da Diretoria de Agronegócios do Banco do Brasil (2004, p. 13) o perfil do financiamento da pro- dução nacional se modificou. Em números re- lativos, o Crédito Rural é responsável por 30% da demanda de crédito anual. Outros 30% são atendidos pelas vendas antecipadas – inclusi- ve Cédula de Produto Rural (CPR), trocas de produtos por insumos ou adiantamento de for- necedores e os restantes 40% são provenientes de recursos próprios dos produtores. Segundo pesquisa da Associação Brasileira de Marke- ting Rural (ABMR) (2004), mais de 80% dos produtores rurais utilizam recursos próprios na atividade, mesmo que parcialmente, e 37% utilizam recursos do Crédito Rural. Quanto à Cédula do Produtor Rural (CPR), o membro da direção da Cooperativa opina que o instrumento representa um avanço, em fun- ção da maior agilidade na sua execução, ou seja, com o título, o credor não necessita acionar a justiça para ser reconhecido o seu crédito e, as- sim, parte diretamente para execução do mes- mo, ganhando tempo para reaver os recursos emprestados. Dessa maneira, o credor consegue diminuir o risco já que conta com dois garanti- dores do crédito: produtor e cooperativa. Assim, já que o título é de curto prazo e an- tecipador de recursos, o produtor adota uma estratégia diferente para a CPR, criando res- trições à sua livre circulação entre os agentes fornecedores de fundos, pois acredita que gera maior risco e insegurança. Para o dirigente, o maior problema enfrenta- do pelo produtor, atualmente, é a quantidade e os custos de recursos de safras passadas, fruto de planos econômicos e quebras de safras, que é também a alegação do dirigente de Sindicato dos Trabalhares Rurais, que salienta a necessi- dade de repensar a exigência sobre tais endivi- damentos. O membro da COTRIJUI propõe que seja criado um tipo de “Crédito Rotativo”, possibi- litando ao produtor rural uma forma de não estar prestando contas ao credor em determi- nada data, simplesmente alongando os prazos de pagamentos (com os respectivos encargos), evitando, assim, novas contratações. Acresce também que o produtor teria a possibilidade de vender a sua safra somente quando encontrar preços compatíveis com os seus custos de produ- ção. Com tal procedimento, poderia obter maior Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 22-30, jan./abr. 2012
  25. 25. 29 volume de recursos e, assim, os fundos públicos teriam ampliadas as suas aplicações no setor primário. Igualmente, o representante da cooperativa, sugere que o governo crie mecanismo que me- lhore a capacidade de pagamento do produtor rural, seja através da transferência de renda, da redução dos custos de produção, da diminui- ção dos impostos sobre insumos, bem como das taxas de juros incidentes sobre os empréstimos de curto prazo, proporcionando, desse modo, o aumento da participação dos recursos públicos no financiamento da produção rural, que se não voltar a níveis anteriormente praticados, per- mitem aos produtores maiores alternativas de custeio e investimento. Já o prestador de serviços, representante das tradings, proporciona assistência técnica, com equipe de engenheiros agrônomos, médicos ve- terinários, zootecnistas, etc., além de ser garan- tidor dos recursos aplicados. Os fundos dispo- nibilizados são em forma de insumos e tratos culturais: calcário, adubo, herbicidas, inseti- cidas, etc, para serem pagos após a safra. Ele também tem a opinião de que as taxas de juros praticadas oscilam entre 18 e 24% ao ano e que os custos financeiros são bastante significati- vos, tendo em vista a lucratividade do produtor, principalmente de soja, trigo e milho. Destaca que a equipe técnica tem várias funções, ou seja, de suporte e acompanhamento do processo de cultivo, de diminuir os riscos inerentes a cada cultura e, com isso, garantir produção adequa- da para o produtor e o retorno dos recursos do aplicador. Considera, ainda, que a perda de par- ticipação dos recursos públicos destinados aos grandes produtores está vinculada aos limites e às restrições creditícias, ao endividamento do produtor, à maior inserção do médio e do grande produtor nos recursos disponíveis no sistema de mercado financeiro. Os produtores de pequeno porte da região caracterizam-se, atualmente, num processo de retorno à diversificação das atividades produti- vas, plantando trigo, soja, aveia, girassol, além da produção de leite, da piscicultura, dos horti- frutigranjeiros, dos viveiros de mudas frutíferas e silvestres, etc., na maioria dos estabelecimen- tos de até 50 hectares de terras. Existindo, nes- te sentido, unidades rurais com infra-estrutura adequada, auto-sustentáveis e outras altamen- te endividadas com dificuldades de gestão de re- cursos próprios e de terceiros. Parte delas, por estarem inadimplentes, não consegue acessar o PRONAF nas suas diversas modalidades e fica dependente das cooperativas e até de particu- lares, agropecuárias, etc. Como já foi ressalta- do, passam a pagar juros mais elevados, para conseguirem crédito de custeio para as suas cul- turas. Por conseguinte, os fundos públicos vão competir no mercado financeiro com os demais agentes privados fornecedores de crédito e que não contam com baixas taxas de juros e prazo, mas juros de mercado, garantias construídas ao longo de determinado tempo, agilidade nas operações, flexibilidade nos fatores analisados, reciprocidade, confiança, etc. O pequeno produtor rural da região Noroeste Colonial tem utilizado os mecanismos de finan- ciamentos do PRONAF e das cooperativas, prin- cipalmente da COTRIJUÍ, nos últimos anos, contando com maior volume de fundos públicos. Porém, as cooperativas conseguem disponibili- zar recursos que foram tomados junto ao Banco do Brasil e/ou bancos particulares, fornecedores de insumos e necessitam repassar os fundos a taxas de juros entre 18 e 24% ao ano, represen- tando um alto custo financeiro em relação à lu- cratividade do produtor. Para o professor, pesquisador e analista de mercado agropecuário Brum (2007, p. 45), evidencia-se que um dos gargalos mais impor- tante para o desenvolvimento da região está na falta de financiamentos a taxas adequadas que venham a favorecer, principalmente, o pe- queno produtor e o seu fornecedor industrial de pequenas máquinas e equipamentos agríco- las, bem como os impostos incidentes sobre tais bens de capital: Um dos gargalos mais importantes que o setor aponta para o seu desenvolvimento está na falta de recursos para financiamento a taxas fixas que ve- nha a favorecer tanto ao produtor, especialmente o pequeno, como à indústria, no acesso a novas tec- nologias. O mercado deixa a entender que há um menor interesse em investir nos produtores peque- nos porque estes têm menos capital e estão sujei- tos exclusivamente à renda oriunda das safras, as quais dependem muito de fatores imponderáveis como o clima. (BRUM, 2007, p. 45). Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 22-30, jan./abr. 2012
  26. 26. 30 Na questão da operacionalidade do sistema de financiamento à produção, o pequeno produ- tor necessita comparecer diversas vezes ao esta- belecimento bancário para atualizar cadastro, fazer proposta, receber resposta sobre aprova- ção e/ou negação da mesma e, finalmente, com- parecer para assinar contrato e ainda aguardar liberação dos recursos. Tais procedimentos são exigidos a cada início de plantio e, muitas vezes, colaboram para que os recursos cheguem atra- sados, pois o período de plantio de cada cultura não espera os trâmites burocráticos das insti- tuições financeiras públicas. Ora, tal processo demanda tempo e custos de deslocamento, en- quanto isso o pequeno produtor rural está dei- xando de trabalhar no preparo da terra, perde- -se, pois, tempo. Já o médio e o grande estabelecimento carac- terizam-se por uma agricultura mais intensiva em produtos como soja, trigo e milho, com pro- priedades acima de 50 hectares, com predomi- nância entre 100 e 300 hectares. Ao ter uma tec- nologia mais avançada e adequada ao tamanho da propriedade, obtêm maior ganho de escala. Igualmente ao pequeno produtor, existem uni- dades auto-sustentáveis e outras altamente en- dividadas, em função de dívidas passadas. Mas, há maior acesso a recursos livres de bancos pri- vados por possuírem garantias de acordo com as exigências do sistema financeiro, porém subme- tem-se à taxas de juros mais elevadas, compa- rativamente com o PRONAF, como foi ressalta- do anteriormente, entre 18 e 24% ao ano. Como tomadores de fundos, possuem maio- res oportunidades nos bancos e demais agentes ligados ao setor, com variados mecanismos de empréstimos e financiamentos, tanto em nível de recursos como em prazos para pagamentos. Agregue-se que têm maior capacidade de ges- tão financeira, tanto de curto prazo, como de longo prazo, buscando recursos mais apropria- dos para custeio, bem como para investimen- tos. Utilizam recursos de bancos públicos, nos limites estabelecidos pelas normas, de bancos privados, além de fornecedores de insumos e de compradores da produção. Também, conseguem diluir de forma mais adequada as tarifas bancárias, já que os contra- tos são em valores mais expressivos e as chama- das reciprocidades são negociadas em melhores condições e mais adequadas, tanto em seguros como tarifas diversas. Quanto aos prazos de pagamentos, são nego- ciados entre as partes, já que os juros são em função do período contratado e que podem ser prorrogados com os custos financeiros da ope- ração original. Parece pouco significativo tal procedimento, mas quando o produtor dispõe de prazo adequado para vender a sua produção, ele tem condições de obter melhores preços para os seus produtos, aguardando o momento propício para realizar transações de vendas e, com isso, criando a possibilidade de maiores ganhos com a atividade primária. Como foi visto anteriormente, Spolador e Sou- za (2009) enfatizam que: “os bancos públicos de- vem atuar nas demandas dos pequenos produto- res rurais, enquanto os bancos privados devem atender ao grande produtor, pois estão interessa- dos em contratar grandes volumes de recursos”. Mas o que se pode constatar junto aos informan- tes qualificados e aos próprios produtores rurais, é que tanto os pequenos como os grandes produ- tores estão utilizando recursos de bancos priva- dos e dos demais agentes a taxas de juros entre 18% e 24%a.a., principalmente, aqueles que não conseguem acessar recursos públicos, em função do alto endividamento, da inadimplência, dos li- mites de enquadramento, etc. Quanto à operacionalidade das transações fi- nanceiras com os bancos, o produtor médio e/ou grande já mantém cadastro atualizado. Os ban- Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 22-30, jan./abr. 2012
  27. 27. 31 cos privados providenciam contratos que propi- ciam aos produtores utilizarem os recursos na medida de suas necessidades, com limites pré- -aprovados, sacando diretamente nos terminais bancários e, muitas vezes, podendo contratar recursos, via telefone, diretamente com o geren- te do banco, que libera a operação na conta do cliente. Tal procedimento parece simples, mas o produtor ganha tempo e ainda não necessita fazer uma “romaria” pelo sistema bancário e não bancário para conseguir financiar a sua la- voura. E, além disso, sabe, de antemão, que já tem recursos disponíveis para o custeio e pode conseguir melhores condições junto aos seus for- necedores de insumos e prestadores de serviços. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente estudo teve por objetivo analisar o perfil de financiamento à produção agropecuá- ria na região Noroeste Colonial do Estado do Rio Grande do Sul, nos últimos 20 anos. Para isso, utilizou-se referencial bibliográfico, entrevistas semi-estruturadas com representantes de agen- tes financeiros, sindicatos (patronal e de trabalha- dores), associações de produtores, cooperativas, tradings, grandes e pequenos produtores rurais. Os pequenos produtores rurais da região têm contratado, em maior volume, recursos públicos, através das linhas de crédito rural do PRONAF, tanto no Banco do Brasil, como na cooperativa COTRIJUI e no SICREDI, optando por uma combinação de recursos com taxas de juros mais baixas, como por recursos da própria cooperati- va, apesar das taxas de juros estarem entre 18% e 24% ao ano, porque possuem uma relação de fidelidade recíproca, ou seja, conhecem a coope- rativa e vice-versa. A contratação também de- pende das condições de adimplência do pequeno produtor. Caso contrário, ele terá que buscar recursos junto à iniciativa privada, que tem por base e avalia outros aspectos da atividade rural. Já os grandes produtores rurais têm contrata- do, em menor volume, os recursos públicos, den- tro dos limites estabelecidos pelos programas. No entanto, eles têm acesso aos fundos de longo pra- zo do BNDES/FINAME para investimentos em máquinas e implementos agrícolas, infra-estru- tura de armazenagem, com taxas de juros mais adequadas. Para custeio agropecuário, constro- em estratégias complexas, contratando recursos de curto prazo, que vão das cooperativas, passan- do pelos bancos privados, pelas tradings, forne- cedores de insumos e compradores da produção. Entre eles, os recursos próprios atingem maior participação, já que trabalham com maior escala de produção e, assim sendo, possuem um volume de recursos próprios mais significativos. A percepção é de que os recursos públicos têm contribuído com a maior percentagem dos fundos para custeio de pequenos e grandes pro- dutores da região, quando na opinião de repre- sentantes de bancos, da cooperativa, de sindica- tos, associações de produtores, tradings e até de pequenos e grandes produtores rurais é de que os recursos públicos participam com aproxima- damente 40% do total de fundos necessários ao processo produtivo, e os demais 60% são prove- nientes de recursos próprios, de bancos priva- dos, tradings, fornecedores de insumos, clientes compradores da produção, etc. No conjunto de pequenos produtores rurais da região, os recur- sos públicos têm maior participação, enquanto, isso, os grandes produtores recebem proporcio- nalmente menor aporte, em função das limita- ções dos próprios mecanismos legais existentes, bem como do maior ganho de escala que propi- ciam as atividades produtivas primárias. Dessa maneira, analisando o perfil dos me- canismos de financiamento à produção rural na região Noroeste Colonial, conclui-se que os re- cursos privados ganharam espaço em função do endividamento público a partir dos anos 80, da Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 22-30, jan./abr. 2012
  28. 28. 32 ALMEIDA, Luciana F. Ambiente institucional e con- tratos de crédito agrícola: três estudos críticos. 238 p. Tese (Doutorado em Administração)- Faculdade de Ad- ministração, Economia e Contabilidade, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. ASSUNÇÃO, Juliano; CHEIN, Flávia. Condições de cré- dito no Brasil rural. Revista de Economia e Sociologia Rural, Brasília, v. 45, n. 2, abr./jun. 2007. BANCO DO BRASIL. Relatórios Gerenciais e Presta- ção de Contas de Safras: 2004. Brasília, 2004. BELIK, Walter & PAULILLO, Luiz F. O financiamento da produção agrícola brasileira na década de 90: ajustamento e seletividade. In: LEITE, Sérgio (Org.). Políticas Públicas e Agricultura no Brasil. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2001. BRUM, A. Luís; TYBUSCH, Tânia Marques; TRENNEPO- HL, Dilson. Proposição de estratégias de desenvol- vimento ligadas ao agronegócio para o Corede No- roeste Colonial do Rio Grande do Sul. Ijui/RS: Unijui, 2007. 84 p. CASTRO, Eduardo R. de; TEIXEIRA, Erly Cardoso. Cré- dito rural e oferta agrícola. Revista de Política Agrícola, Brasília, p. 9-16, jan./fev./mar. 2010. CAVALCANTE, Luiz R.; UDERMAN, Simone. Financiamen- to do desenvolvimento regional no Brasil: uma análise do período 2003 – 2006. Revista Desenbahia, v. 9, set. 2008. COELHO, Carlos Nayro. 70 anos de política agrícola no Brasil (1931 – 2001). Revista de Política Agrícola. Bra- sília, ano X, jul./ago./set. 2001. Edição especial. DELGADO, Guilherme C. Capital financeiro e agricul- tura no Brasil: 1965-1985. Campinas: Ícone/UNICAMP, 1985. DIAS, Guilherme L. da S. Mobilização de poupança e o financiamento do setor agrícola. Piracicaba: ESALQ- -USP, 1995. (Série Pesquisa, n. 51). GASQUEZ, J. G. CONCEIÇÃO, J. C. P. R. Fatores que afetam a oferta de recursos do crédito rural. Revista Preços Agrícolas, v. 14, n. 161, p. 7-8, 2000. GUEDES, Luís Carlos. Política de crédito rural. In: CON- GRESSO DA SOBER, 47., 2009. Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009. LAZZAROTTO, Danilo. Os Capuchinhos na história e no desenvolvimento de Ijuí. Porto Alegre: Escola Supe- rior de Tecnologia São Lourenço de Brindes, 1981. KAGEYAMA, Ângela (Coord.). O novo padrão agrícola brasileiro: do complexo rural aos complexos agroindus- triais. In: DELGADO, Guilherme C; GASQUES, José G.; VERDE, Carlos M. V. (Org.). Agricultura e políticas públi- cas. Brasília: IPEA, 1990. p.113-223. (Série IPEA, n.127). RODRIGUES, Roberto. Banco do Brasil: principal agen- te financeiro do governo. Revista de Política Agrícola, Brasília, DF, n. 4, p. 3, out./nov./dez. 2004. SOUZA, Cleonice B.; CAUME, David J. Crédito rural e agricultura familiar no Brasil. In: CONGRESSO DA SO- BER, 46. 2008, Rio Branco, AC, 20 a 23 de julho de 2008. SPOLADOR, Humberto F. S. Reflexões sobre a expe- riência brasileira de financiamento da agricultura. Dissertação (Mestrado), Piracicaba: ESALQ/USP, 2001. SPOLADOR, Humberto F. S.; SOUZA, Roberto A. de. Evolução da distribuição de crédito agrícola no Brasil, en- tre unidades da federal, período 2000 a 2007. In: CON- GRESSO DA SOBER, 47.,2009, Porto Alegre, RS TRIVIÑOS, Augusto N. Silva. Introdução à pesquisa em Ciências Sociais: a pesquisa qualitativa em educa- ção. São Paulo: Atlas, 1987. Referências estabilidade econômica nos anos 90, das novas formas de exigências cadastrais e da assimetria de informações, dos limites de enquadramentos dos produtores, das limitações dos programas, das inadimplências e dos endividamentos dos produ- tores rurais, das taxas de juros e dos encargos fi- nanceiros, das reciprocidades e das garantias. Por outro lado, o setor primário da região No- roeste Colonial, ao participar mais efetivamente da economia de mercado, passou a contratar re- cursos de agentes particulares, interessados no processo produtivo, tanto como fornecedores de bens de capital e de insumos, como os dependen- tes de matérias-primas, as chamadas agroin- dústrias e indústrias de transformação. Dessa forma, o setor rural regional diversifi- ca as fontes de recursos de agentes externos ao processo de produção. Além disso, com maior volume de recursos próprios para custeio e co- mercialização, tem ampliado a sua capacidade de decidir qual o mecanismo de financiamento é mais apropriado às suas necessidades. E assim, quando possível, pode simplesmente optar por aplicar somente recursos próprios e diminuir custos operacionais, tornando a atividade agro- pecuária mais rentável. Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 22-30, jan./abr. 2012

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