Revista Científica - Capital Científico - v7n1

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Revista Científica - Capital Científico - v7n1

  1. 1. R evista C apital C ientífico
  2. 2. Rua Salvatore Renna, 875, Santa Cruz Cep 85015-430 Guarapuava, Paraná Fone: (0xx42) 3621-1019 Fax: (0xx42) 3621-1090 editora@unicentro.br www.unicentro.br/editora Revista Capital Científico - RCCi Fone: (55+) 042 3621-1072 Fax: (55+) 042 3623-8644http://revistas.unicentro.br/index.php/capitalcientifico
  3. 3. R evista C apital C ientífico Volume 7 Número 1 2009 Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO Guarapuava/Irati - Paraná- Brasil htttp://www.unicentro.br
  4. 4. Revista Capital Científico - RCCi Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO Reitor: Vitor Hugo Zanette Vice-reitor: Aldo Nelson Bona Editora UNICENTRO Comissão Científica Beatriz Anselmo Olinto Dra. Lucia Cortes da Costa – Universidade Estadual de Ponta Assessoria Técnica: Bruna Silva, Luiz Gilberto Bertotti, Luciano Grossa (UEPG) Farinha Watzlawick, Waldemar Feller Dr. Eduardo Fernando Appio – Centro Universitário Filadélfia Divisão de Editoração: Renata Daletese (UNIFIL) Dra. Márcia Maria Dos Santos Bortolocci Espejo – Universidade Seção de Revisão de Inglês: Raquel Cristina Mendes de Federal do Paraná (UFPR) Carvalho. Dra. Patrícia Morilha Muritiba – Universidade Nove de Julho Estagiários: André Justus Czovny; Fernanda Gongra; Marcio (UNINOVE) Fraga de Oliveira; Lucas Casarini Dra. Rúbia Nara Rinaldi – Universidade Estadual do Oeste do Revisão: Dalila Oliva Lima de Oliveira Paraná (UNIOESTE) Diagramação: Lucas Casarini Dr. Weimar Freire da Rocha Júnior – Universidade Estadual do Capa: Lucas Gomes Thimoteo Oeste do Paraná (UNIOESTE) Impressão: Gráfica UNICENTRO Setor de Ciências Sociais Aplicadas Santa Cruz: Luiz Fernando de Lima Irati: Edelcio José Stroparo Comissão EditorialDr. Ivan de Souza Dutra (presidente-editor); Ms. Ana Léa Macohon Klosowski; Dr. Carlos Alberto Marçal Gonzaga; Ms. CarlosAlberto Ferreira Gomes; Ms. Diogo Lüders Fernandes; Ms. Ivonaldo Brandani Gusmão; Ms. Juliane Sachser Angnes; Ms. Rosangela Bujokas de Siqueira Publicação do Setor de Ciências Sociais Aplicadas capitalcientifico@unicentro.br Para submissões: http://revistas.unicentro.br/index.php/capitalcientifico Edição aprovada pelo Conselho Editorial da UNICENTRO Catalogação na publicação Biblioteca da UNICENTRO Capital Científico / Centro de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Estadual do Centro-Oeste. – v.1, n.1 (2003) – Guarapuava: UNICENTRO, 2009 - Anual. ISSN 1679-1991 1. Ciências Sociais – Periódicos. Versão online, ISSN 2177-4153 em http://revistas.unicentro.br/index.php/capitalcientifico Copyright © 2009 Editora UNICENTRO Nota: Os conteúdos dos artigos desta revista são de inteira responsabilidade de seus autores.
  5. 5. Editorial A Revista Capital Científico - RCCi encerrou o ano de 2009 com várias novidades de volume,comunicação eletrônica e impressa, design gráfico, bem como na especialização e balanceamentotemático dos artigos, marcando uma fase de crescimento, decorrente de mudanças significativas que estãosendo implementadas desde 2008. A Comissão Editorial ensejou a procura incessante em conteúdos com melhor qualidade científicae contribuição para a sociedade, tendo sempre em vista a missão do periódico, um desafio que foi econtinua árduo, o que pode ser observado nas considerações que seguem. Diante da conjuntura recente, verificaram-se obstáculos comuns como em vários periódicosacadêmicos de instituição pública que não têm receita por assinaturas ou fomento institucional externo,a exemplo do trabalho com equipe reduzida. Além disso, existiu a dificuldade de recebimento de artigosrelevantes, que pudessem ser aprovados dentro das exigências e condições necessárias, atendendo àqualidade e contribuição almejadas, dentro do prazo estabelecido para encerramento da edição. Issotambém é explicado pela fase atual do periódico, que ainda é relativamente pouco conhecido para opúblico de estudiosos externos e não tem alto fator de impacto, ao verificar-se o baixo volume de artigosrecebidos para dar giro de publicação das edições. Por causa dessas circunstâncias, a comissão consideroupublicar artigos recebidos e aprovados após o ano de 2009 dentro dos critérios exigidos, sem perda daqualidade exigida, como pode ser verificado nesta edição. Por outro lado, as contribuições dos autores desta publicação, e o recebimento mensal de novassubmissões especialmente a partir de 2010, por autores de diversas origens institucionais, serviram deestímulo para superar as dificuldades de manutenção, e as crescentes exigências do sistema de avaliaçãoQualis, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES/MEC. É importanteressaltar que várias manifestações de sugestões ou críticas dos pesquisadores, discentes e leitores recebidasao longo do ano, contribuíram em boa parte para as modificações de melhoria do formato e consolidaçãodo conteúdo. Sendo assim, apresentamos essa edição com novo design gráfico para abarcar as temáticascontemporâneas do campo de Sociais Aplicadas. Na nova capa, buscou-se uma síntese dessa proposta,pela representação do globo terrestre estilizado, dando a idéia da característica interdisciplinar dessecampo, em face de estudos que alcançam dimensão mundial, na perspectiva de que não é possíveldistinguir as fronteiras entre novas e diferentes realidades sócio-econômicas, bem como nas várias ciênciasdo escopo das Ciências Sociais Aplicadas. A formatação interna de fonte e conteúdo acompanhou essafilosofia, também adaptada às novas tendências. Para as ações de gestão e editoração periódica, foi implantado o Sistema Eletrônico de Editoraçãode Revistas – SEER, uma ferramenta desenvolvida pelo Public Knowledge Project (Open Journal Systems) daUniversidade British Columbia e customizada no Brasil pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência eTecnologia – IBICT. Com isso, iniciou-se um novo ciclo de edições com publicações eletrônicas em portalda revista via Internet, por meio do endereço http://revistas.unicentro.br/index.php/capitalcientifico. Emconsequência, foi requerido e registrado um segundo número de ISSN, o 2177-4153, que é designadopara a versão on line da revista. Com esse sistema, que é visto com aprovação pelo Qualis/CAPES/MEC,ganha-se em segurança, aumenta-se o controle, melhora a qualidade e cresce o nível de compartilhamentoe socialização do conhecimento publicado. Uma Comissão Científica foi criada para a constante melhoria das diretrizes, normas e conteúdosdo periódico, constituída por doutores de instituições externas, representados em cada uma das seis áreas
  6. 6. de Sociais Aplicadas aceitas no periódico. Nessa edição, a RCCi tem um privilégio de contar com essacomissão composta por professores e pesquisadores que se destacam nas suas áreas de trabalho e naacademia nacional, cujos nomes dão reconhecimento à missão e aos propósitos científicos do periódico. Os artigos publicados nesta edição são de autores vinculados a instituições de ensino e organizaçõesde pesquisa de renome, com a participação em mais de 70% de autores externos, que não possuemqualquer vínculo formal com a UNICENTRO, conferindo legitimidade e seriedade à revista aos seusobjetivos editoriais. Esses autores também contribuíram significativamente com seus estudos em qualidadee relevância do conteúdo. Esta edição contempla estudos, discussões e aspectos sobre a mudança social, organizacional e asustentabilidade. Assim, apresentam-se artigos que trazem pesquisas e reflexões sobre as transformaçõesorganizacionais diante da vida no mundo, em termos macroambientais e microambientais, de sistemas emque vivem pessoas e organizações sócio-econômicas. O leitor encontrará estudos do processo produtivosobre o trabalho e o capitalismo, e outros, das desigualdades sociais, das alternativas de desenvolvimentosustentável e a crise ambiental, dos sistemas de gestão ambiental e de responsabilidade social, bemcomo do perfil daqueles que dirigem organizações com esses processos. Em perspectiva adjacente, sãoapresentados artigos tais como: o da hierarquização de atrativos turísticos da cidade de Irati-PR; o daanálise dos objetivos do balanço social, da análise das metodologias de intervenção de consultores emONG no Recife-PE; da qualidade de serviços em uma IES, utilizando-se o modelo metodológico 5 GAP´s;recursos de tecnologia e informação para o apoio ao ensino, pesquisa e extensão, além de trabalhosdas narrativas (storytellings) contadas pelos anúncios e vídeos institucionais da organizações, de casos deações em Customer Relationship Management (CRM) e sobre os processos de seleção de empregados porcompetência. Um ensaio que discute e traz metáfora para a mudança organizacional encerra o periódico. Diante disso, a Revista Capital Científico traz conteúdos pela busca e auxílio do conhecimentocontemporâneo nas Ciências Sociais Aplicadas, em suas diversas áreas, com a contribuição dos autores,sempre seremos agradecidos. Desejamos uma excelente leitura! Dr. Ivan de Souza Dutra Editor da revista Capital Científico
  7. 7. SumárioCapitalismo e as Transformações no Processo de Trabalho.................... 11Caroline GoerckCrise Ambiental e Desenvolvimento Sustentável: a nanotecnologia comouma das soluções de longo prazo........................................................... 21Marcia Regina Gabardo da CamaraRafael Borim de SouzaA Polarização e as Desigualdades Regionais no Brasil.......................... 35Francieli do Rocio de CamposPatrícia EstanislauA Evolução dos Sistemas de Gestão Ambiental: o caso do Laboratório deCamarões Marinhos................................................................................. 47Antonio Costa Gomes FilhoFernando Antonio ForcelliniMarilene BronoskiRafael Feyh JappurProjetos Brasileiros de Aterro Sanitário no Mecanismo de DesenvolvimentoLimpo: uma análise dos indicadores de sustentabilidade...................... 57Miriam Tiemi Oliveira TakimuraValdir Machado Valadão JúniorAvaliação e Hierarquização dos Atrativos Turísticos de Irati-PR............ 73Diogo Lüders FernandesVanessa de Oliveira MenezesGestão da Responsabilidade Social e o Perfil dos Gestores: análise dasorganizações de Blumenau - SC..............................................................85Danielle Regina UllrichMarialva Tomio DreherBalanço Social: uma análise comparativa entre objetivos propostos naliteratura e a realidade empírica............................................................ 99Diocesar Costa de SouzaMarcos Roberto KuhlVicente Pacheco
  8. 8. Metodologias de Intervenção Utilizadas pelos Consultores no TrabalhoRealizado com ONGs: um estudo na região metropolitana de Recife-PE..................................................................................................... 115Marcos Gilson Gomes FeitosaNaldeir dos Santos VieiraAvaliação da Qualidade dos Serviços de uma Instituição de EnsinoSuperior Utilizando a Aplicação do Modelo Adaptado de Mensuração dos5 GAP’s................................................................................................... 129Rodrigo Navarro XavierBRT-ADM/I – Banco de Recursos Tecnológicos: apoio ao ensino, pesquisae extensão..............................................................................................139Carlos César Garcia FreitasDados de Clientes no Customer Relationship Management (CRM): estudode casos múltiplos no desenvolvimento de software............................151Flávio Régio BrambillaStorytellings Organizacionais: narrativas contadas pelos anúncios evídeos institucionais............................................................................... 163Cintia Rodrigues de Oliveira MedeirosMudando para Seleção por Competência: um caso paranaense..........175Keyla Cristina Pereira PradoSérgio BulgacovEnsaio: O Princípio da Bicicleta: revisitando a mudança organizacional....187Antonio Teodoro Ribeiro Guimarães
  9. 9. SummaryCapitalism and the Changes in the Working Process.............................. 11Caroline GoerckEnvironmental Crisis and Sustainable Development: the nanotechnologyas one of the long run solutions.............................................................. 21Marcia Regina Gabardo da CamaraRafael Borim de SouzaThe Polarization of Regional Inequalities in the Brazil........................... 35Francieli do Rocio de CamposPatrícia EstanislauEnvironment Management System Evolution: the case of Marine ShrimpsLaboratory................................................................................................ 47Antonio Costa Gomes FilhoFernando Antonio ForcelliniMarilene BronoskiRafael Feyh JappurBrazilian’s Landfill Projects to Clean Development Mechanism: analyzingthe indicators of sustainability................................................................. 57Miriam Tiemi Oliveira TakimuraValdir Machado Valadão JúniorEvaluation and Hierarchy of Turistic Attractive of Irati-PR...................... 73Diogo Lüders FernandesVanessa de Oliveira MenezesSocial Responsibility Management and the Managers Profile: an analysisof Blumenau-SC organizations................................................................85Danielle Regina UllrichMarialva Tomio DreherSocial Balance: comparative analysis between goals proposed in theliterature and empirical reality............................................................... 99Diocesar Costa de SouzaMarcos Roberto KuhlVicente Pacheco
  10. 10. Methods of Intervention Used in Labor Performed by the Consultantswith NGOs: a study in the metropolitan area of Recife-PE.............. 115Marcos Gilson Gomes FeitosaNaldeir dos Santos VieiraEvaluation of Higher Education Service Quality through the AdaptedMeasure Model of 5 GAPs...................................................................... 129Rodrigo Navarro XavierClients’ data from the Customer Relationship Management (CRM): multiplecases study for software development...................................................139Flávio Régio BrambillaOrganizationals Storytellings: the narratives told in the videos and adsinstitutional............................................................................................ 151Cintia Rodrigues de Oliveira MedeirosMoving to Competency-Based Selection: a Parana case...............................163Keyla Cristina Pereira PradoSérgio BulgacovThe Bicycle Principle: revisiting an organizational change...........................175Antonio Teodoro Ribeiro Guimarães
  11. 11. Capitalismo e as Transformações no Processo de Trabalho Capitalism and the Changes in the Working ProcessCaroline Goerck1ResumoNo capitalismo, os proprietários dos meios de produção exercem a hegemonia absoluta sobre as forçasprodutivas, apropriando-se com exclusividade dos excedentes gerados no processo de trabalho. Os capitalistasalmejam intensificar a acumulação de capital, por meio da mais-valia absoluta e relativa, reduzindo os custosde produção e aumentando a sua produtividade. O processo de produção realizado pelo maquinário avapor, durante a I Revolução Industrial, pelo petróleo e pela eletricidade, na II Revolução Industrial, e pelodesenvolvimento da automação, robótica e microeletrônica, elaborado por meio da III Revolução Industrial,foram submetendo os trabalhadores à máquina. Entretanto, faz-se necessário enfatizar que o desempregoé permanente no sistema capitalista, sendo que o investimento em mais-valia relativa, só o acentua. Esteestudo está relacionado com uma revisão bibliográfica sobre o assunto apresentado e propõe-se também adesencadear alguns questionamentos junto a estudantes e/ou profissionais que trabalham com a questão sociale suas manifestações, para serem objeto de prospecções sobre a realidade social e econômica. Nesse sentido,este artigo propõe-se a desencadear reflexões sobre as transformações que estão ocorrendo no processo detrabalho, visando prospectar alternativas à conjuntura macro social e econômica vigente.Palavras-chave: Capitalismo; Processos de Trabalho; Revoluções Industriais; Desigualdade SocialAbstractThe owners of means of production in the capitalist system exert an absolute hegemony over the productiveforces, suiting themselves exclusively from the surplus generated through the work processes. The capitalistsintend to intensify the cumulative capital by relative and absolute surplus value, reducing the production costsand increasing their productivity. Production achieved by steam engines, during the First Industrial Revolution, bypetroleum and electricity, during the Second Industrial Revolution, and by the development of automation, robotsand micro-electronics, originated during the Third Industrial Revolution, were substituting machine operators.However, it becomes necessary to emphasize that unemployment is permanent in the capitalist system, consideringthat the investment in relative surplus accentuates this unemployment. In this sense, the present article proposesto elicit some reflections with students and/or professionals who carry about social manifestation issues, aimingto prospect alternatives to the social macro and economical conjuncture being viewed.Key words: Capitalism; Work Processes; Industrial Revolutions; Social inequality1 Possui doutorado em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS.Contato: goerck@yahoo.com.brRevista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991Recebido em 04/10/2009 - Aprovado em 04/06/2010
  12. 12. Introdução de alienação. Na manufatura, entretanto, o trabalhador ainda possuía certa autonomia, em As questões referentes ao trabalho e relação às atividades que estava desempenhando,seus processos produtivos, exercem influência pois a ferramenta era utilizada para auxiliá-lo nafundamental na forma de organização da sociedade, produção, e não substituí-lo. “Na manufatura, ocom suas respectivas relações sociais e econômicas, trabalho é desenvolvido pelo esforço humano, aspolíticas e culturais. Para a existência de alternativas operações são manuais e dependem da habilidade,e proposições em relação ao capitalismo, rapidez, segurança e destreza individual dosprimeiramente se faz necessário, um conhecimento trabalhadores” (PIRES, 1998, p. 31). Assim, nomais elaborado desse sistema. trabalho desenvolvido pela manufatura, o capital Esse artigo tem como finalidade, introduzir e ainda dependia da habilidade manual do operário.elucidar conceitos do modo de produção capitalista Durante o século XVIII, na Inglaterra, emergiue sobre o processo de trabalho, por meio de uma um intenso processo de transformação nos processosretrospectiva histórica de forma que a questão produtivos, intitulado de 1ª Revolução Industrial.social seja evidenciada. Primeiramente, serão “A Revolução Industrial assinala a mais radicalapresentadas as primeiras formas de sistematização transformação da vida humana já registrada emdo trabalho coletivo e os procedimentos adotados documentos escritos” (HOBSBAWM, 1983, p. 13).pelo capital, para a obtenção da mais-valia. Num Nesse momento histórico, acentuou-se a divisãosegundo momento, serão abordadas a II Revolução entre a classe trabalhadora e os proprietários dosIndustrial e as transformações que estão ocorrendo meios de produção.no final do século XX e limiar do século XXI, com O período da 1ª Revolução Industrialsuas respectivas implicações sociais e econômicas. corresponde ao momento de consolidação doPor fim, serão tecidas as considerações finais. capitalismo industrial, principalmente na Inglaterra. O trabalho manufatureiro fora substituído pela1. O Processo de Trabalho e o Sistema criação da máquina a vapor, pelo tear mecânico,Capitalista pelas estradas de ferro e pelo surgimento das fábricas. Antes de introduzir a I Revolução Industrial, faz- “Ainda que a indústria seja a forma através da qual ase necessário abordar um dos primeiros processos sociedade apropria-se da natureza e transforma-a,de trabalho existentes no sistema capitalista, como a industrialização é um processo mais amplo, quepor exemplo, o trabalho manufaturado artesanal. marca a chamada Idade Contemporânea, e que seOs processos de trabalho manufaturados artesanais caracteriza pelo predomínio da atividade industrialforam caracterizados pela fragmentação das sobre as outras atividades econômicas” (SPOSITO,atividades produtivas, pelo acirramento da divisão 2000, p. 43). A I Revolução Industrial foi mais dodo trabalho, pela redução dos custos de produção que uma simples causa dessas invenções, do teare pela culminação do trabalho assalariado. Essa mecânico, da estrada de ferro etc. Contrapondo-dissociação entre o produtor e os meios de produção se a isso, essas inovações são consequências dasé nomeada de acumulação primitiva (MARX, 1988). mutações que estavam ocorrendo nos processos de No trabalho manufatureiro artesanal, produção industrial, desde o trabalho manufaturado,cada trabalhador se tornou especialista de uma visando a realização do capital.determinada função, auxiliado pela ferramenta. “A máquina, por meio de uma força externa,Pelo intermédio do parcelamento das atividades faz com suas próprias ferramentas, o que o homemlaborais, realizadas na manufatura, ocorreu um fazia com suas ferramentas manuais” (PIRES, 1998,processo de estranhamento, entre os trabalhadores p. 31). Assim, a industrialização e as inovações dee as mercadorias por eles produzidas (MARX, maquinarias, reduziram os custos de produção,1988). Esse processo de estranhamento é nomeado aumentaram a produtividade e substituíram a mão- 12
  13. 13. de-obra, ocasionando um crescente desemprego como o conflito suscitado entre o capital (proprietáriose uma exacerbada exploração dos trabalhadores, dos meios de produção) e o trabalho (trabalhadoresentre eles, o trabalho feminino e o infantil. que vendem suas forças de trabalho em troca de Por intermédio da perspectiva social e um salário), bem como, as desigualdades geradaseconômica liberal, os processos de produção através dessa relação social, de compra e venda dacontinuaram sendo modificados. A produção força de trabalho (BULLA, 1992).realizada pelo maquinário a vapor – na 1ª Revolução Os trabalhadores, ao disponibilizarem aIndustrial, e pelo petróleo e pela eletricidade - sua mão-de-obra aos capitalistas, são exploradosdurante a II Revolução Industrial, foram submetendo gerando a mais-valia, que perpetua a acumulaçãoos trabalhadores à máquina. A II Revolução Industrial capitalista. A força de trabalho pode ser caracterizadateve como características, o desenvolvimento dos como o conjunto das faculdades físicas e intelectuaissetores de transportes, comunicação, produção em do trabalhador que as vende à burguesia (SALAMA,série e, principalmente, a utilização do aço e de novas 1975). Os proprietários dos meios de produçãoformas de energia (petróleo e eletricidade), gerando compram a força de trabalho do proletariado,a concentração de capital e favorecendo a transição em troca de salários. “[...] o que distingue o piordo capitalismo concorrencial ao monopolista. arquiteto da melhor abelha é que ele figura naEsses novos protótipos de produções industriais, mente da sua construção antes de transformá-laocasionados pela I e II Revoluções Industriais, em realidade” (MARX, 1968, p. 202). A mão-de-desencadearam o acirramento da divisão social do obra é vendida como mercadoria pelos própriostrabalho. Nessa época, a classe trabalhadora era trabalhadores. “Ao firmar o contrato salarial [...] osdestituída de direitos trabalhistas e as condições de trabalhadores submetem-se ao empregador, quetrabalho eram precárias. disporá da força de trabalho alienada” (CATTANI, No modo de produção capitalista, os 1996, p. 93). O valor desse salário é definido peladetentores dos meios de produção exerciam quantidade de horas trabalhadas pelos operários(exercem) a hegemonia absoluta sobre as forças (jornada de trabalho).produtivas (meios de produção e força de trabalho), Para os capitalistas, o processo produtivoapropriando-se com exclusividade dos excedentes possui um valor, pois lhes são úteis, gerando agerados (mais-valia) na atividade econômica. Os mais-valia. Esta realiza-se, quando os trabalhadoresproprietários dos meios de produção exploram os consomem mercadorias adquiridas, por intermédiotrabalhadores pela obtenção da mais-valia, gerando de seus valores de troca, com os seus salários.a concentração de riquezas. Essa concentração de Ou seja, o salário dos operários que foi gastocapital e do trabalho socialmente produzido resultou em mercadorias, retorna aos capitalistas, que porem tensões e lutas sociais, especialmente a luta de sua vez, acumulam mais capitais, perpetuando oclasses, processo analisado no livro “O Capital” sistema (MARX, 1988). A mais-valia produzida pela(MARX, 1988). classe operária é apropriada pelos capitalistas que O trabalho produzido pela classe trabalhadora sempre tentam aumentar os seus lucros, através daera (é) apropriado pelos capitalistas e, na medida em intensificação da produção que não é paga - atravésque a força de trabalho é algo passível de compra, ela dos salários, aos trabalhadores. Para o aumentopassa também a ser considerada uma mercadoria. da mais-valia, da produtividade, os capitalistasNesse processo, o valor da força de trabalho é usufruem de duas possibilidades. A primeira ocorredeterminado pelo tempo de duração destinado à com a mais-valia absoluta, que se subdivide emprodução e à reprodução das mercadorias. Essa outras duas alternativas: ampliação da duraçãorelação entre a compra e venda da mão-de-obra da jornada de trabalho (horas trabalhadas); e aé considerada uma relação social e desencadeia a segunda pelo aumento da intensidade do trabalho,questão social. A questão social pode ser apreendida, visando à produção máxima dos trabalhadores 13
  14. 14. junto às máquinas (quase robóticos) durante a pura e simples do progresso técnico é, na realidade,execução do trabalho (MARX, 1988). Entretanto, um fenômeno inerente ao sistema capitalista e dasambas sofrem limitações, a primeira se contrapõe à suas próprias contradições (MARX, 1988). Nesseresistência física dos trabalhadores, que não teriam trabalho, ressalta-se o significado econômico dacondições de trabalhar muitas horas consecutivas; mais-valia, pois essa acirra a desigualdade social.na segunda, os operários não possuem condições Conforme Karl Marx (1818–1883) e Friedrichde acompanhar o ritmo dos maquinários, quando Engels (1820–1895), pensadores do Socialismomuito acelerados. Científico, somente existiriam sociedades mais justas e A outra possibilidade de ampliação do igualitárias, quando o sistema capitalista se esgotasseacúmulo de capital é obtido pela mais-valia relativa, e fosse substituído por outro modo de produção, queque é responsável por uma grande exacerbação superasse a contradição capitalista. Esse outro sistemada produtividade no trabalho. A mais-valia relativa produtivo, segundo esses autores, seria o socialismo.é realizada a partir do uso intensivo de capital Neste, a propriedade privada e as classes sociaisconstante (maior investimento em compra de deveriam ser eliminadas, gerando a propriedademaquinários, do que em contratação da força de social dos meios de produção. Na sequência dessastrabalho), ocasionando uma redução nos custos de transformações, entre os modos de produção, em seuprodução e no tempo socialmente necessário para último estágio, pregavam Marx e Engels, haveria aa fabricação de uma mercadoria, sem alterar o passagem do socialismo ao comunismo, eliminandotempo de duração na jornada de trabalho (MARX, assim, as classes sociais e o Estado Burguês.1988). É nesse processo de intensificação da mais- Para Marx, a práxis “está presente comovalia relativa, que se reduz o tempo socialmente elemento fundamental de transformação da sociedadenecessário à produção de mercadorias, que e da natureza pela ação dos homens” (GOHN, 2002,geram acumulação de capital. Assim, as máquinas P 176). A transformação do social por intermédio de .aumentam a produção reduzindo a quantidade de atividades teóricas, conjuntamente com atividadestrabalhadores contratados. políticas e/ou produtivas, constituem a práxis, que tem A redução da contratação de mão-de- como base fundante o mundo do trabalho. Entretanto,obra suscita o desemprego. O desemprego pode para que ocorra a transformação por meio da práxis,ser para os proprietários dos meios de produção, é necessário que exista a consciência de classe. Essauma vantagem, pois se cria um exército de reserva consciência de classe, que Marx se refere, foi uma das(muita oferta de força de trabalho) a disposição dos condições necessárias à emergência dos movimentoscapitalistas, que podem escolher a mão-de-obra, sociais existentes no século XIX. As Internacionaisde acordo com as suas necessidades de produção. Socialistas, organizadas pelo próprio Marx e Engels,Portanto, o progresso técnico reduziu a contratação se constituíram em movimentos de organização dada mão-de-obra. Mas se faz necessário o classe operária. A Primeira Internacional, realizadaesclarecimento de que o desemprego é permanente em Londres (1824) e a Segunda Internacional emno capitalismo, sendo que o investimento na Paris (1889), fixou a data de 1º de maio como omais-valia relativa só o acentua. O objetivo dos Dia Internacional do Trabalho, em homenagem àproprietários dos meios de produção é intensificar mobilização realizada pelos grevistas em Chicago,a acumulação de capital, permitindo-lhe competir no ano de 1886. Outros movimentos sociaiscom os demais capitalistas, mantendo-se no sistema emergiram no século XIX frente ao capitalismo, comoe evitando a sua eliminação ou incorporação a outro forma de resistência dos trabalhadores diante docapitalista e/ou grupo de maior porte. A lógica do capital. No próximo subitem, serão problematizadascapitalismo se sobrepõe ao processo técnico, esse as transformações que ocorreram e estão ocorrendoúltimo só complementa-o. O desemprego, longe no processo de produção e gestão que envolvem ode ser um fenômeno natural ou uma decorrência sistema. 14
  15. 15. 2. As Transformações no Processo de trabalho de concepção e de execução; utilizaçãoTrabalho desenvolvidas nos Cenários do conhecimento, para controlar cada fase dados Séculos XX e XXI produção e o seu modo de execução (HARVEY, 1999). Através da cisão entre o trabalho intelectual Os Séculos XX e XXI são cenários de acentuadas e o operacional, a gerência científica racionalizavatransformações no mundo do trabalho, com suas a produção, estabelecendo rigidamente os modosrespectivas implicações sociais e econômicas. Para e tempos de produção, bem como os rendimentosapresentar as novas transformações que estão da força de trabalho, colocando os trabalhadoresocorrendo nos processos de trabalho - que têm sobre uma estrutura hierárquica de produção, emcomo finalidade a intensificação da acumulação que eles eram vigiados e controlados.capitalista, é necessário que se introduza, o contexto O Taylorismo caracterizou-se pelo controlesocial e econômico existente no Século XX - cenário do capital (com o objetivo de elevar a produtividadeoriginário e que permeou essas transformações. do trabalho) sobre processos de produção, nosO sistema capitalista, com a finalidade de quais o capital dependia ainda da habilidade doexpandir a acumulação de capital, promoveu trabalhador. Esse controle era efetivado atravésa Segunda Revolução Industrial, manifestada, dos tempos e movimentos do trabalhador. Apósprincipalmente, pelo binômio Taylorismo/Fordismo. as inovações dos processos produtivos de Taylor,Esses dois modelos predominaram no processo de em 1913 Henry Ford, utilizando essas inovações,industrialização, tendo sua ascensão na segunda criou a linha de montagem (automobilismo) e odécada do século XX. Suas caracterizações estão método de produção em massa (esteira), obtendorelacionadas à hierarquização das relações de produtos padronizados (FLEURY; VARGAS, 1983). Otrabalho, a homogeneização das mercadorias, a Fordismo, que teve seu desenvolvimento hegemônicoprodução em massa e em série (ANTUNES, 2003). no período pós-guerra, pôde ser desenvolvido ao Na indústria automobilística Taylorista e fundir-se com o Taylorismo.Fordista, foram considerados elementos centraisà produção, a racionalização das operações, o O Fordismo caracteriza o que poderíamos chamar decombate ao desperdício na produção (redução socialização da proposta de Taylor, pois, enquanto este procurava administrar a forma de execução de cada tra-de tempo), o aumento do ritmo do trabalho e da balho individual, o Fordismo realiza isso de forma cole-intensificação das formas de exploração pelos tiva, ou seja, a administração pelo capital da forma decapitalistas (ANTUNES, 2003). Taylor, fundador execução das tarefas individuais se dá de uma formada gerência científica, começou sua carreira como coletiva, pela via da esteira (NETO, 1991, p. 36).operário numa fábrica. A partir de suas experiências,enquanto sujeito trabalhador, dedicou-se em Ao contrário do Taylorismo, que se baseavaobservar e em estudar os tempos e movimentos no rendimento individual de cada trabalhador, norealizados em cada tarefa e atividade da produção. Fordismo, o controle dos tempos e dos movimentos“O ‘Taylorismo’ ou ‘administração científica do era determinado pelo ritmo do funcionamento dastrabalho’ surge como uma nova cultura do trabalho maquinarias. Nesse modelo, eram as máquinasna passagem do século XIX para o século XX, nos (esteiras) que levavam o trabalho até os operários,Estados Unidos, nação que começava a despontar eliminando assim, os tempos mortos de produção.como potência mundial” (DRUCK, 1999, p. 41). Com esse protótipo, que desenvolveu a mecanização Para o enfrentamento do capital em relação associada e parcialmente automatizada, o controleà dependência da habilidade manual da força de sobre o trabalho não precisava mais ser realizadotrabalho, Taylor estabeleceu os seguintes princípios: diretamente pelo gerente, mas sim, pelos maquináriosdissociação dos processos de produção das (PIRES, 1998). O Fordismo constituiu-se no processoespecialidades dos trabalhadores; separação do contínuo da produção que agregou a produtividade 15
  16. 16. ao consumo, ou seja, sempre dispondo de estoque de vigência do Welfare State e com os modelosmínimo às mercadorias (Just-In-Case). Também de produção Fordistas e Tayloristas, ocorreu apode ser considerado, o modelo de produtividade massificação da classe operária, conjuntamenteque separou rispidamente o trabalho de concepção com a precarização das condições e relações dee o de execução. Esse tipo de produção ocasionou trabalho, fazendo com que eclodissem movimentosa “expansão das unidades fabris concentradas e reivindicatórios e questionadores desses métodos deverticalizadas e pela constituição/consolidação do produção. Essas manifestações foram concebidasoperário-massa, do trabalhador coletivo fabril” por meio de greves, boicotes e resistência ao trabalho(ANTUNES, 1995, p. 17). despótico e verticalizado, oriundo do Taylorismo/ O Fordismo criou as linhas de montagem, Fordismo (ANTUNES, 2003).desqualificando, parcelando e desenvolvendo Outros elementos, além das manifestaçõesatividades laborais repetitivas, prejudiciais à saúde operárias, que constituíram a crise dessesdos trabalhadores. Tanto o Taylorismo como o modelos produtivos foram: a queda dos ganhosFordismo, foram modelos produtivos degradantes de produtividade pelo capital; a abertura àdas condições e relações de trabalho. A ruptura concorrência internacional, caracterizada peloentre o trabalho de concepção e o de execução processo de globalização; a flexibilização do capital;foram elementos preponderantes para a alienação a desterritorialização e a crise do Welfare Statedos operários diante do trabalho. Porém, não se (COCCO, 2001). A crise do Welfare State, modelodeve confundir o Taylorismo com o Fordismo. O de Estado que regulava o capital e reproduziaTaylorismo se caracterizou pela racionalização a força de trabalho, efetivou-se pela retirada dascientífica do trabalho, eliminando os tempos mortos coberturas sociais públicas e pelo corte nos direitosde produção e pôde ser viabilizado em pequenas sociais, num processo de ajuste do Estado que visa àe médias empresas; enquanto que o Fordismo diminuição dos ônus do capital e do déficit público,envolveu uma nova organização dos processos na esquematização da reprodução da força dede trabalho, através de máquinas-ferramentas trabalho e das condições para a perpetuação daespecializadas, mecanização e intensa divisão de acumulação capitalista (NETTO, 1996). O Estadoatividades laborativas, sendo que foi desenvolvido mínimo proposto pelas políticas neoliberais propõeem grandes empresas com produtos padronizados a retirada do Estado, junto aos bens e serviços(CATTANI, 2000). Esses modelos contribuíram para sociais públicos e não em relação ao financiamentoa exploração da classe trabalhadora no século XX. do capital. Paralelamente ao modelo de produção Nesses contextos sociais e econômicos, osTaylorista/Fordista, também no período Pós- governos dos Estados de capitalismo avançado,Guerra, emergiu o modelo de Estado designado liderados por Margaret Tatcher na Inglaterra, emcomo Welfare State nos países liberais. “O Estado 1979, e Ronald Reagan nos Estados Unidos, emé chamado para arbitrar o conflito entre o capital e 1980, implementaram uma política econômica eo trabalho” (SCHONS, 1999, p. 119). Esse modelo social embasados no aporte teórico neoliberal. Essade Estado contribuiu para o Boom Econômico até política econômica e social tem como medidas: oo final da década de 1960 e “é entendido como a enxugamento e a redução das responsabilidades dosmobilização em larga escala do aparelho do Estado Estados diante das sociedades; o fortalecimento daem uma sociedade capitalista, a fim de executar liberdade de mercado; as privatizações de instituições emedidas orientadas diretamente ao bem-estar organismos estatais; a redução e a extinção do capitalde sua população” (MEDEIROS, 2001, p. 6). O produtivo estatal; o desenvolvimento de uma legislaçãoWelfare State interviu no planejamento econômico, “desregulamentadora” das relações de trabalho emontando esquemas de transferências sociais e “flexibilizadora” dos direitos sociais; o enfraquecimentode distribuição de bens e serviços. Nesse período dos movimentos sindicais etc (ANTUNES, 2003). 16
  17. 17. Outro elemento preponderante que constituiu Terceira Revolução Industrial, intensificam-se asa crise do Taylorismo e Fordismo foi o processo mais-valias relativas, que são responsáveis por umde globalização do capitalismo. A globalização, grande aumento da produtividade nos processos deintensificada durante a década de 1990, é trabalho. Com a revolução tecnológica, “o homemconstituída pela: mundialização dos mercados; deve exercer na automação funções mais abstratasdinamização do mercado mundial; acumulação e intelectuais” (IANNI, 1999, p. 19), fazendoflexível; liderança econômica dos grandes bancos com que o mercado requisite constantemente ume empresas oligopólicas; revolução tecnológica; profissional mais qualificado e polivalente. Comimplementação do referencial teórico neoliberal os novos processos tecnológicos - mecanização,nas políticas econômicas e sociais; subordinação automação e robótica -, o capital não gera maisdos países periféricos aos de capitalismo avançado uma significativa quantidade de emprego, a ponto(ANTUNES, 2003). Na mundialização do capital, os de absorver a força de trabalho disponível, pois aspaíses periféricos são subordinados às instituições inovações tecnológicas intensificam a produção efinanceiras dos países de economia avançada, não racionalizam os processos produtivos.possuindo condições de competir em condições de O processo de reestruturação do capital,igualdade nos mercados internacionais. juntamente com o neoliberalismo, vem apresentando Juntamente com a globalização, outro no aspecto econômico, porém, limitações, que estãofenômeno emergiu no término do século XX, o sendo materializadas pelas crises que ocorreramprocesso de desterritorialização. Este é caracterizado nos Tigres Asiáticos (1997-1999), no Méxicopela mobilidade do capital e consequentemente dos (1994-1995), na Argentina (2001-2002), e, maistrabalhadores, em escala mundial (IANNI, 1999). recentemente, nos Estados Unidos da América,O trabalhador migra conforme os movimentos desencadeando a crise mundial em 2008 e 2009.do capital, e este, por meio das transnacionais e/ A recessão norte-americana que está ocasionandoou multinacionais, direciona-se conforme os seus a crise mundial possui sua origem vinculada àinteresses de aumento na reprodução e acumulação crise das hipotecas dos EUA, desde agosto dede capital. 2007, alastrou-se rapidamente por todo o setor A crise dos modelos de produção que financeiro da economia norte-americana e dovigoraram no Século XX e do Welfare State, o advento mundo - mundialização do capital. Esse mecanismodo neoliberalismo, a infiltração do capital nos países permitiu a expansão do consumo nos EUA e notidos como socialistas, a expansão da globalização, desenvolvimento da economia chinesa, entre outrosjuntamente com o processo de desterritorialização, aspectos.são elementos que integraram o cenário do Século XX. Ainda não se tem conhecimento de quaisDiante dessas circunstâncias, iniciou-se um processo serão as consequências futuras dessa crise, porém,de reorganização do próprio capital, com seu sistema sabe-se que ela não é equivalente a de 1929, queideológico e político de dominação, resultando num desencadeou a depressão econômica generalizadaacentuado processo de reestruturação da produção (FACHIN, 2008). O que está ocorrendo constitui-see do trabalho (ANTUNES, 2003). O término do numa recessão materializada pela redução na taxaséculo XX e o limiar do século XXI são marcados por de crescimento econômico, que gera desempregos,uma profunda transformação do mundo do trabalho entre outros elementos. O que se sabe, entretanto,e seus processos produtivos. com a atual recessão mundial - advinda da crise norte- Essa transição do Taylorismo/Fordismo ao americana -, é que o protótipo neoliberal respaldadoToyotismo também é expressa pela passagem da na autorregulação do mercado, na liberalizaçãomáquina-ferramenta, ao sistema de máquinas e expansão da economia em escala mundial e naauto-reguladas, em que “a máquina se vigia e se não intervenção estatal nas relações comerciais,regula a si mesma” (IANNI, 1999, p. 18). Com a vem demonstrando sinais sérios de esgotamento, 17
  18. 18. principalmente nos EUA, no Japão e na Europa de 20,4% (outubro de 2008) (ATLAS..., 2009). JáOcidental - que possui como moeda o Euro. em relação à taxa de crescimento econômico no Na América Latina, diante desse cenário Brasil, ocorreu uma redução maior do que 3%mundial, o trabalho informal constitui-se num dos entre os anos de 2007 e 2008. Em 2007, houveelementos que contribui para a sobrevivência dos um crescimento de 7,0%, e, em 2008, com a crisesujeitos que estão exclusos do mercado formal mundial, o crescimento no Brasil reduziu para 3,8%.de trabalho (CATTANI, 2003). Já no Brasil 32,6% Outra característica fundamental que se atribuidos municípios possuem mais da metade de sua ao trabalho feminino é que, para a inserção da mulherpopulação vivendo na pobreza, e a Região Nordeste no mercado formal de trabalho, faz-se necessáriopossui a realidade mais alarmante, totalizando um nível de qualificação, que comumente é superior77,1% dos municípios nessas condições. ao masculino, devido à desigualdade de gênero Salienta-se ainda que, além das velhas nas relações de (re) produção social e econômica.formas estocadas de exclusão social nos países Mesmo com o fato das mulheres brasileiras teremperiféricos - entre eles os países latino-americanos -, em média um ano a mais de escolaridade que osdesignada de “velha pobreza”, representada pelos homens, as mesmas recebem salários inferiores apobres, miseráveis, mendigos, pedintes, indigentes eles mesmos (CAMPUS, 2008). Uma trabalhadorasubnutridos e minorias sociais (idosos, deficientes, que possui escolaridade entre 8 e 10 anos, recebemulheres, negros, índios), com a Reestruturação valor semelhante ao de um trabalhador que estudoudo Capital ou III Revolução Industrial, surge tanto no máximo 3. Além do aspecto cultural, outro motivonos países centrais, como também nos periféricos que possivelmente desencadeie essa diferença salarial- emergentes -, outra forma de exclusão social, pode ser explicado pelo fato de os homens possuíremnomeada de “nova pobreza” (REIS, 2002). Essas uma maior taxa de abandono e defasagem escolarnovas exclusões sociais, que atingem tanto os maior do que as mulheres, e por entrarem em médiapaíses periféricos como os centrais, são originárias com menos idade do que as mulheres no mercadodo desemprego estrutural e de suas manifestações, de trabalho (CAMPUS, 2008).compreendidas como exclusão de bens e serviços, Frente a essa realidade de desemprego tantodo mercado formal de trabalho, da terra, da feminino como também o masculino, constata-sesegurança, dos direitos humanos (REIS, 2002). que estão sendo prospectadas novas formas ou Segundo os dados coletados pela PED-IBGE possibilidades de geração de trabalho e renda,(Pesquisa de emprego e desemprego) entre os anos com vistas a incluir os sujeitos – especialmente osde 2002 e 2008, houve uma redução na taxa de menos qualificados - no sistema, possibilitandodesemprego total em todas as capitais pesquisadas, uma melhoria nas suas condições de vida ee em Belo Horizonte, chegou a diminuir 11%. Em consequentemente de seus familiares. Para isso,Porto Alegre, teve uma redução de 4,7%, pois a estão sendo pensados novos protótipos deregião metropolitana de Porto Alegre, em outubro desenvolvimento (DE PAULA, 2001) que podem serde 2008, possuía 10,6% de sua população observados sob o aspecto de que o desenvolvimentoeconomicamente ativa desempregada (dados para social significa desenvolvimento não-desigual e queoutubro de 2008). Na região metropolitana de São visa à inclusão social de todos os sujeitos.Paulo, os índices de desemprego correspondiam a12,5% (outubro de 2008); na região metropolitana Considerações Finaisde Belo Horizonte, a 9,0% (outubro de 2008); naregião metropolitana de Recife, a 18,9% (outubro Neste artigo pretendeu-se esclarecer o modode 2008); no Distrito Federal, a 16,0% (outubro de produção capitalista e seus processos de trabalho,de 2008) e, na região metropolitana de Salvador durante as três Revoluções Industriais. No sistemaainda há o maior índice de desemprego, em torno capitalista, os proprietários dos meios de produção, 18
  19. 19. sempre visam intensificar a acumulação de capital, trabalhadores sobrantes - desnecessários ao capital,seja através da mais-valia absoluta, ou por meio da que não conseguirão mais serem absorvidos pelomais-valia relativa, reduzindo os custos de produção sistema? Será que emergirá alguma alternativae aumentando a sua produtividade. O processo de viável ao crescente desemprego? Será que não estáacumulação e centralização de capital é inerente a no momento da sociedade como um todo, bemesse sistema, pois deles dependem, a permanência como, profissionais, refletirem seriamente sobre asde qualquer empreendimento no mercado, evitando “novas armadilhas” do capital? Ou será que, aosua eliminação e/ou incorporação a outro capitalista criar alternativas para atenuar as manifestações dade maior porte. questão social, não se está novamente deixando de Nesse sentido, este estudo propõe-se a prospectar mudanças, que realmente transformemdesencadear algumas reflexões, a estudantes a realidade, reduzindo a desigualdade social eou profissionais que trabalham com a questão econômica, assim como a exploração capitalista?social e suas manifestações, para serem objeto de E por último, será que a criação de alternativas deprospecções sobre a realidade social e econômica. geração de trabalho e renda, além de serem fruto dasDiante das transformações que estão ocorrendo próprias contradições do capital, não se constituemno processo de trabalho, o que será proposto aos também, como uma forma de alienação?ReferênciasANTUNES, R. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo dotrabalho. 3. ed., São Paulo: Cortez, 1995._______. Os Sentidos do Trabalho. Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 6. ed., SãoPaulo: Boitempo Editorial, 2003.ATLAS na alimentação e moradia respondem pela inflação. Disponível em: <http:/www.dieese.org.br>. Acesso em: 06 fev. 2009.BULLA, L. C. Serviço Social, Educação e Práxis: Tendências Teóricas e Metodológicas (Tese de Doutorado).Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Educação. Curso de Pós-Gradualção emEducação. Porto Alegre, 1992.CAMPOS; O. S. Pobreza é menor se há equidade de gênero. Programa das Nações Unidas para odesenvolvimento. Disponível em: <http://www.pnud.org.br/pobreza_desigualdade/reportagens/index.php?id01=2955&lay=pde>. Acesso em: 13 ago. 2008.CATTANI, A. D. Trabalho & Autonomia. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes Ltda, 1996.______ (org.). Trabalho e Tecnologia: dicionário crítico (org.). 3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.______ (org.). A Outra Economia. Porto Alegre: Veraz, 2003.COCCO, G. Trabalho e Cidadania: produção e direitos na era da globalização. 2. ed. São Paulo:Cortez, 2001.DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICA E ESTUDOS SÓCIO-ECONÔMICOS. Pesquisa deEmprego e Desemprego das Regiões Metropolitanas (ano de 2005). http:/www.dieese.org.br.Acesso em 21 de maio de 2005.DE PAULA, J. Desenvolvimento e gestão compartilhada. In: SILVEIRA, C. M. ; REIS, L. C. DesenvolvimentoLocal: dinâmicas e estratégias. Rio de Janeiro: Comunidade Solidária / Governo Federal / Ritz, 2001.DRUCK, M. G. Terceirização: (des) fordizando a fábrica. Um estudo do complexo petroquímico. SãoPaulo: Boitempo Editorial, 1999.FACHIN, P Brasil será atingido pela crise mundial. In.: IHU ON-LINE. Revista do Instituto Humanistas . 19
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  21. 21. Crise Ambiental e Desenvolvimento Sustentável: a nanotecnologia como uma das soluções de longo prazo Environmental Crisis and Sustainable Development: the nanotechnology as one of the long run solutionsMarcia Regina Gabardo da Camara1Rafael Borim de Souza2ResumoO artigo discute os determinantes da crise ambiental e possíveis soluções, a partir da emergência de uma novarealidade internacional e organizacional, amparada por um paradigma de sustentabilidade ambiental e social.O objetivo do artigo é o de analisar o comportamento organizacional que desencadeou a crise ambiental e areflexão sobre as soluções não imediatistas que permitiriam uma produção sustentável e suas consequências.A pesquisa é de natureza qualitativa, exploratória, bibliográfica e documental. Foi realizado um levantamentoteórico-metodológico a partir do paradigma de sustentabilidade e convergências tecnológicas. Apresentou-se, também, como exemplificação, o movimento nanotecnológico do continente europeu, possibilitado pelaanálise do documento: European activities in the field of ethical, legal and social aspects (ELSA) and governanceof nanotechnology, cuja primeira versão foi disponibilizada em outubro de 2008, pela European Comission,DG Research, Unit “Nano and Converging Sciences and Technologies”. A disseminação das nanotecnologias,coordenadas por uma governança multilateral global responsável por institucionalizar e legitimar valores sociaise ambientais necessários em tais convergências tecnológicas, é apresentada como uma das possíveis soluçõespara a problemática ambiental.Palavras-chave: Nanotecnologia; Sustentabilidade e Governança Multilateral.AbstractThis article discusses the determinants of environmental crisis and its possible solutions which come from theemergence of a new international and organizational reality structured in a sustainable paradigm. The objectiveof this qualitative, exploratory, bibliographic and documental research was to analyze the organizational behaviorthat resulted in the environmental crisis and its consequences. A survey on theories and methodologies that dealswith sustainable paradigm and technologic convergences was carried out. It was presented, for instance, theEuropean movement on nanotechnology, through the following document: European activities in the field ofethical, legal, and social aspects (ELSA) and governance of nanotechnology, which first version was publishedin October 2008, by the European Commission, DG Research, Unit ‘Nano and Converging Sciences andTechnologies’. One of the solutions for the environmental problem is the dissemination of the nanotechnologies,1 Professora Associada da Universidade Estadual de Londrina - UEL, Brasil. Desenvolve estudos e tem experiência em Economia, com ênfaseem Organização Industrial e Estudos Industriais.Possui doutorado em Economia pela Universidade de São Paulo - USP Brasil, mestrado em ,Economia pela mesma instituição, e graduação em em Economia pela Universidade de Brasília - UnB, Brasil. Contato: mgabardo@uel.com.br2 Discente do curso de Administração pelo Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Estadual de Londrina eUniversidade Estadual de Maringá, consorciadas - PPA/UEM-UEL, Brasil.Possui especialização em Controladoria e Finanças pela PontifíciaUniversidade Católica do Paraná - PUCPR, Brasil, e especialização em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro -FGV-RJ, Brasil, ambas nível latu sensu. Bacharelado em Administração pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUCPR, Brasil. Contato:rafaelborim@yahoo.comRevista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991Recebido em 27/06/2010 - Aprovado em 18/12/2010
  22. 22. coordinated by a global governance, which is responsible for institutionalize social and environmental valuesneeded in these technologic convergence.Key words: Nanotechnology; Sustainability and Multilateral GovernanceIntrodução O artigo levanta o problema que alimenta o debate sobre produção sustentável nos meios A solução da crise ambiental passa por um acadêmicos e empresariais: a crise ambientalamplo debate internacional. Pesquisadores das derivada da ação humana e empresarial. A questão demais diversas áreas têm destacado a importância da pesquisa que o estudo busca responder é: há soluçõescriação de um órgão internacional multidisciplinar, para a crise ambiental? O objetivo do trabalho éatravés de um grupo consultivo constituído por analisar os comportamentos organizacionais quemembros de diversos países, que possua a desencadearam a crise ambiental e refletir sobrecapacidade e a legitimidade para estabelecer em as soluções não imediatistas que permitiriam umanível global, um sistema de governança multilateral produção sustentável.como resposta institucional à crise ambiental. É nesse O trabalho está estruturado em cincocontexto também que surgem propostas focando capítulos: introdução, metodologia, a crise doàs convergências tecnológicas e à necessidade de meio ambiente e o contexto de ascensão de umavaliação dos impactos transformativos oriundos paradigma pautado por valores de sustentabilidadedas novas tecnologias. O estabelecimento de um social e ambiental, a convergência tecnológicaconceito avançado de desenvolvimento responsável como fenômeno exigente de uma governançadeve abranger critérios como: avaliação de multilateral e global sobre os anseios do paradigmasaúde, segurança e ética, engajamento de atores de sustentabilidade: a nanotecnologia na Europa, einternacionais quanto a parcerias, e instigação considerações finais.de um comprometimento social, pautado porplanejamentos e investimentos interessados em 1. Metodologiafatores de longo prazo. As convergências da nanotecnologia, A abordagem do problema aconteceu debiologia, revolução digital e ciências cognitivas, por maneira qualitativa, por ser uma forma adequadaexemplo, promovem o desenvolvimento de inovações de entender a natureza de um fenômeno social.construtivas e transformadoras à concepção de novos O objetivo foi analisado pelo ponto de vistaprodutos e serviços, oportunidades de melhores exploratório, uma vez que se orienta por conhecercondições de desenvolvimento ao potencial humano as características de um fenômeno, para procurar,e conquistas sociais necessárias, que, com o tempo, em um momento posterior, explicações de suasremodelarão os relacionamentos estruturais e causas e consequências. Em relação às estratégiasinstitucionais até então vivenciados. Para tanto, a de pesquisas abordadas, o estudo classifica-se comoparticipação de todos os sujeitos sociais influenciados bibliográfico, uma vez que busca conhecer, analisarpor essas novas tecnologias, a transparência das e explicar contribuições sobre o tema abordado, eestratégias dessa governança, e a responsabilidade documental, por utilizar documentos como fonte deespecífica de cada stakeholder precisam efetivar-se dados, informações e evidências (RICHARDSON,plenamente. A nova realidade é promotora de uma 2008; MARTINS; THEÓPHILO, 2007).emancipação social, caracterizada, principalmente, Três possíveis soluções de longo prazo àpela legitimação urgente do paradigma de problemática ambiental são apresentadas: ossustentabilidade, o qual retira os ferramentais programas de responsabilidade social adotados pordecisórios de uma unilateralidade e os insere em organizações com poder de atuação local, regional,um multilateralismo interdisciplinar. nacional e internacional (CLAPP 2005); a reforma , 22
  23. 23. mediante determinadas atitudes mercadológicas,ecológica (BORINELLI, 2007); e o desenvolvimentooriundo do movimento de convergências tomadas no intuito único de incrementarem seus lucros, sem estarem preocupadas com as respectivastecnológicas exemplificado pelas nanotecnologias consequências sociais e ambientais de tais decisões.(MARTINS, 2005). O artigo aborda as diferentes A legitimação dos lucros empresariais por umasoluções e concentra-se na última proposição. aceitação social e comunitária, portanto, passa a O levantamento teórico-metodológico é ser imprescindível.realizado a partir do paradigma de sustentabilidade e A ação de tais agentes sociais incorre emconvergências tecnológicas. Apresenta-se, também, consequências ambientais, estas nem semprecomo exemplificação, o movimento nanotecnológico agradáveis. A análise da problemática ambiental sedo continente europeu, possibilitado pela análise do dá por uma diversidade de abordagens, as quais sedocumento: European activities in the field of ethical, mostram distintas em alguns pontos e convergenteslegal and social aspects (ELSA) and governance em outros. Nesse sentido, adota-se a via interpretativaof nanotechnology, elaborado pela Dra. Angela das ciências sociais.Huffman, cuja primeira versão foi disponibilizadaem outubro de 2008 pela European Comission, DG Zioni (2005, p.39) destaca que “para discutir a relação entre as ciências sociais e o meio ambiente,Research, Unit “Nano and Converging Sciences andTechnologies”. é fundamental uma reflexão sobre o cenário em que essas questões emergiram: a modernidade”. A análise do documento permite verificar O ambiente tem sofrido os impactos das açõesque o financiamento das atividades de pesquisas capitalistas; no caso específico das revoluçõesacontece através de programas sistêmicos (framework industriais, caracterizaram-se pela exploração doprogramme - FP) com períodos de duração pré- solo e da mão-de-obra, gerando inúmeros resíduosdeterminados. No documento mencionado, são sólidos, líquidos e gasosos que se intensificaram noapresentados 2 projetos referentes ao 5º FP (1998- século XX.2002); 20 projetos referentes ao 6º FP (2002- A modernidade trouxe gradativamente uma2006), e 5 projetos referentes ao 7º FP (2007-2008) exigência de sociabilidade do homem para com o(HULLMANN, 2008). meio e vice-e-versa. Os mecanismos de produção A essência dos programas são as pesquisas desenvolvidos, ao serem analisados de maneiratecnológicas e científicas, mas há a presença de isolada, pouco emancipam a sociedade atualprojetos interessados em evidenciar os aspectos das comunidades antigas, porém se aliados aoséticos, legais e sociais dessas atividades européias, acontecimentos ambientais, permitirão constatar atais como os: Science and Society, The New Emerging emergência de uma nova representação simbólicaScience and Technology e Citizens and Governance, do mundo por inéditas relações de poder.os quais pertencem ao 6º FP e serão apresentados As ocorrências históricas, os acontecimentoscom maiores detalhes no capítulo quatro, deste sociais e o desenvolvimento econômico permitemtrabalho. a construção na modernidade de uma nova representatividade da vida social. A sequência de2. A crise do meio ambiente e o contexto movimentações econômicas é caracterizada comode ascensão de um paradigma pautado o próprio desenvolvimento, que, segundo Coimbrapor valores de sustentabilidade social (2002, p.51), é:e ambiental um progresso contínuo e progressivo, gerado na co- Em um momento de questionamento sobre munidade e por ela assumido, que leva as populaçõesas estruturas mundiais, as relações de poder estão a um crescimento global e harmonizado de todos osameaçadas e as empresas líderes nos mercados setores da sociedade, através do aproveitamento dosglobais podem ter seu posicionamento questionado, seus diferentes valores e potencialidades, em modo a 23
  24. 24. produzir e distribuir os bens e serviços necessários a na engenharia econômica das organizações que satisfação das necessidades individuais e coletivas do buscam a minimização de seus custos privados. ser humano, por meio de um aprimoramento técnico e A insuficiência dos instrumentos estatais de cultural, e com menor impacto ambiental possível. combate e a busca incessante de lucros pelo setor privado oneram a sociedade e agravam as questões Ao longo da historicidade econômica, não ambientais. É necessário, portanto, discutir novosforam promovidas metodologias de desenvolvimento modelos, normas e valores, que vislumbrem a melhoriaaplicáveis a todas as sociedades e ao meio ambiente, na qualidade de vida das populações.pois pequeno foi o interesse em preservar os recursos O modelo capitalista é o “representante legítimoe energias não renováveis para as futuras gerações, e universal da racionalidade, cuja proposta era libertaratravés de seu uso racional. Surgiram inúmeras o homem do reino das necessidades pelo uso científicoexplicações para justificar a escassez de atitudes dos recursos naturais e econômicos do planeta, pelafavoráveis ao ambiente nos meios governamentais adaptação do conhecimento científico à produção,e organizacionais; mas o debate contribuiu para o processos que criariam riquezas incessantemente”desenvolvimento científico, econômico e social. (ZIONI, 2005, p.41). Segundo Montibeller (2007, p.57), as teorias O desenvolvimento capitalista contribuido desenvolvimento são “o conjunto de formulações para o incremento da inovação e do desempenhoque visam compreender e modificar a realidade tecnológico, entretanto, os índices de desenvolvimentopelo exame dos mecanismos, segundo os quais, os humano e de qualidade de vida não acompanhamfenômenos sociais inter-relacionam-se, dos elementos o fator econômico. Segundo Montibeller (2007),principais que respondem pela evolução da economia o crescimento capitalista instiga a degradação, ae das tendências seculares”. Mas o desenvolvimento poluição e o esgotamento de bens ambientais e,econômico pode ocorrer em diferentes ambientes quando da retração das atividades econômicas, asinstitucionais, por meio de atividades produtivas,negociações virtuais, redes de relacionamento, cadeias questões ambientais são desprezadas por implicaremde suprimento, entre outros. custos adicionais. Nesse contexto, a instituição se apresenta De acordo com Brunacci e Philip Jr. (2005), acomo protetora da propriedade privada ao incentivar era de conquistar o desenvolvimento econômico seminvestimentos que apreciem decisões democráticas qualquer restrição e às custas de prejuízos ambientaiscapazes de disponibilizar socialmente os benefícios já não permanece, entretanto, persistem em algumasoriundos de tais negociações. Para Montibeller ideologias empresariais. Há de se compreender a(2007), o desenvolvimento adequado e a qualificação insuficiência de fatores naturais, dos quais, dependeinstitucional são condições necessárias, mas insuficientes a sobrevivência social do planeta. É, ainda maispara sanar os problemas sociais e ambientais em toda importante, necessário reconhecer que, após asua contingência. geração presente, outras virão e também habitarão Muitos são os fatores inerentes a uma neste mesmo território.concepção solucionadora de inúmeras patologias Segundo Diaz (2002) é iminente a precisão desociais e ambientais provenientes de mecanismos de romper definitivamente com a filosofia do crescimentodesenvolvimento econômico. Através da concepção ilimitado, uma vez que, o desenvolvimento insustentávelcapitalista da economia, a sociedade e o meio apresentará seu limite de esgotamento em temposambiente estão imersos em uma rede entrelaçada breves caso as tendências sociais e econômicasde custos privados e sociais; os custos ambientais em não sejam transformadas em prol do bem estar daparticular, pelas situações de poluição, e incremento população mundial.da produção diferenciam os custos privados dos custos Logo, mediante os “impasses gerados por essasociais. Todavia a importância dos últimos, em grande conjuntura social, faz-se extremamente urgente umamaioria dos estudos, é relegada a um segundo plano rediscussão sobre normas, valores, orientações culturais 24
  25. 25. e formas de conhecimento em todas as sociedades. A diferentes tempos. A iminência de tais transformaçõescrise ambiental é, com certeza, a maior razão para que faz notória a insustentabilidade do antigo paradigmaisso ocorra com amplitude e profundidade” (ZIONI, desenvolvimentista. Por essa evolução da importância2005, p.56). da questão ambiental através da economia, Uma nova interpretação sobre o funcionamento vislumbram-se as decisões políticas e econômicaseconômico no mundo é necessária. Mesmo que sendo alinhadas a preceitos sustentáveis.algumas ações voluntárias ocorram por empresas Os interesses econômicos coincidem come governantes, ainda sim são insatisfatórias, pois é os ecológicos em um quadro de desenvolvimentoreconhecida a capacidade econômica das nações sustentável que foca o longo prazo, pois os recursosde apresentarem, conforme Montibeller (2007), um são limitados e esgotáveis. Entretanto, no paradigmacomportamento menos agressivo à natureza somente anterior os cálculos eram fundamentados naquando pressionadas por externalidades com poder minimização dos custos privados e na ótica neoclássicade regulação. da economia que até recentemente não inseriam os Meio ambiente e economia entrelaçam- custos e benefícios sociais nas contas capitalistas.se no campo teórico e econômico. Há uma série Os institucionalistas integram as discussõesde denominações tais como economia ambiental, econômicas e ambientais, ao adicionarem custoseconomia ecológica, economia humana, em que e benefícios sociais à análise econômica dascada uma representa uma abordagem explicativa do organizações (EHLERS, 2007; NORTH, 1990).problema. Todavia, o que mais interessa é a dimensão Porém, a essência da sustentabilidade tem deeconômica associada às questões ambientais, por ser ser compreendida, no intuito de evitar falsassituação fundamental na formulação de diretrizes de interpretações a ações não condizentes comatuação do governo, das empresas e dos cidadãos valores éticos, ambientais e representativos de umapara a própria compreensão dos fatos e das relações responsabilidade social corporativa.sociais, culturais e políticas (CALDERONI, 2004). Segundo Brunacci e Philip Jr.(2005, p.268), O paradigma da sustentabilidade, então, há “a possibilidade de um entendimento pragmáticoemerge entendido como aquele que e imediatista que conduz ao risco de se implantar um programa de sustentabilidade do desenvolvimento expressa hoje o desejo de quase todas as sociedades, como sutil desdobramento de uma política moldada em qualquer parte do mundo, por uma situação em que por um sistema capitalista ainda conservador e o econômico, o social e o ambiental sejam tomados de predatório”. Assim, iniciativas que envolvam políticas, maneira equânime. Então, não basta apenas haver cres- cimento econômico, avanço tecnológico e as instituições; instituições, tratados ou acordos internacionais, e, sim, pensar na revolução tecnológica e no arcabouço interessados na problemática ambiental e abordagem institucional objetivando o bem-estar social com a ampli- sustentável, devem ser capazes de transpor as barreiras tude a este inerente (MONTIBELLER, 2007, p.59). físicas no intuito de se obter uma maior eficácia na resolução de calamidades. Observa-se a ocorrência de um crescimento Flora, fauna, microorganismos, atmosfera, solo,econômico pautado por características de água e formas geológicas formam os ecossistemas. Ossustentabilidade, logo, o vocábulo ‘sustentável’, em componentes se ligam mediante cadeias alimentares,palavras de Brunacci e Philip Jr. (2005, p.274), ao ciclos minerais e hidrológicos e pela circulação dequalificar o tipo de desenvolvimento que se deseja energia. Há um equilíbrio dinâmico que pode ser“deve ser aplicado à realidade ambiental do presente”. alterado com o uso intensivo e desordenado dos Dentro desse aparato interpretativo, as elementos e a deposição de resíduos. A intervençãomudanças institucionais tornam-se necessárias, humana e a produção capitalista, em particular,uma vez que as instituições precisam ser eficientes modificaram os sistemas produtivos, os conhecimentosno atendimento pleno dos anseios originados em científicos e tecnológicos (BORINELLI, 2007). 25
  26. 26. A resposta ao uso desordenado dos recursos organizações com poder de atuação local, regional,naturais e a crescente demanda por energia tem de nacional e internacional (CLAPP 2005). E uma terceira ,ocorrer por uma ótica capaz de abranger as diferenças vertente solucionadora pode advir das transformaçõese especificidades entre as nações, de maneira geradas pelas nanociências, nanobiotecnologias eque, uma intervenção em favor da humanidade e nanotecnologias, em geral (MARTINS, 2005).do meio ambiente seja aceita como verdade, e,conseqüentemente, como um apoio ao acontecimento 3. A convergência tecnológica comodo desenvolvimento sustentável. Os vieses ambientais fenômeno exigente de uma governançanão são de responsabilidade exclusiva das nações, multilateral e global sobre os anseiosdas empresas e da humanidade, mas de todos os que do paradigma de sustentabilidade: ahabitam e agem intensivamente sobre o planeta Terra. nanotecnologia na Europa Como afirmou MacNeill e outros autores (1992,p.16) “o mundo avançou agora da interdependência Convergência tecnológica caracteriza, segundoeconômica para a interdependência ecológica – e Sáenz e Souza-Paula (2008), o moderno processo deaté, para além desta, para um entrelaçamento entre avanço do conhecimento e inovação já estabelecidoambas”. em um elevado nível de complexidade, o qual, não Tanto é verdade que, “o sistema climático permite a separação entre o teor científico e técnicoglobal possui um alto grau de inércia e cria uma pela prerrogativa intensa de inserir nas discussõesgrande defasagem entre as alterações nas emissões as relações dialéticas entre ciência, tecnologia ee as consequências sobre os sistemas naturais, o que sociedade.significa que, quando se descobre que uma catástrofe A interação temática é imprescindível, pois avai acontecer, talvez seja tarde demais para evitá-la” (LA partir das novas tecnologias surgem implicações sociaisTORRE; FAJNZYLBER; NASH, 2009, p.20). Questões a serem analisadas por um processo criterioso, atravésambientais, tal como a mudança climática, incorporarão de metas estabelecidas, ao vislumbrar os benefícioscustos significativos à humanidade e aos ecossistemas. sociais, e as possíveis consequências inesperadas,A amenização desses efeitos pode ocorrer através de por meio de uma combinação dos possíveis riscospossíveis ações globais solucionadoras, pois iniciativas prospectados em diferentes cenários. Para Roco (2008)individuais serão muito limitadas, implementadas com tais adversidades apresentam-se como influentes emgrande atraso, e realizadas por países e organizações diversas áreas, tais como economia, ambiente, saúde,inadequadas. Nesse sentido, quais seriam as possíveis educação, ética, moral e filosofia.soluções à crise ambiental? Por esse entrelaçamento de ideologias e Zioni (2005) aponta o novo paradigma de ciências, constata-se a busca por um mecanismosustentabilidade para a solução dos problemas organizador, tal como uma governança global ee desequilíbrios evidenciados, o qual deve partir multilateral capaz de abranger, compreender eda crítica do conhecimento existente, e evoluir do institucionalizar convergências tecnológicas livres demonoculturalismo ao multiculturalismo de tal forma atuações prejudiciais a qualquer ordem ambientalque o domínio global da ciência moderna não possa e social. Para tanto, um sistema politicamentesilenciar os outros saberes, e assim, emancipe-se um democrático, consenso social e conhecimento daconhecimento que consiga discernir a objetividade da engenharia econômica do sistema promovem umneutralidade. quadro agradável à implantação de uma eficaz Por esse contexto, a reforma ecológica torna-se governança.uma solução viável e equacionadora do problema da Caberá a esse sistema de governança, dedegradação ambiental (GIDDENS apud BORINELLI, acordo com Roco (2008), a adaptação das instituições2007, p.7). Uma segunda solução está nos e organizações já existentes; o estabelecimento deprogramas de responsabilidade social adotados por novos programas, regulamentações e organizações 26
  27. 27. interessadas em propagar inovações não promotoras e comercialização dos produtos. Através dade prejuízos ao meio; a promoção de mecanismos figura, é possível verificar que cada ciclo gerade legitimação de tais mudanças por vias políticas e novas classes de produtos, os quais determinaminstitucionais; e, a realização de parcerias e acordos diferentes implicações sociais e exigem diversosinternacionais. patamares de decisões. Pelo fato de transformações Conforme Sáenz e Souza-Paula (2008), os fundamentais ocorrerem sobre os conhecimentosprocessos que envolvem tal anseio são essencialmente implícitos em cada ciclo, estabelece-se um sistemadinâmicos e cumulativos e, para acompanhar a aberto em termos tecnológicos e socioeconômicosevolução de tais convergências tecnológicas é de (ROCO, 2008).extrema importância que as ações ocorram de forma As questões éticas devem constar comocontínua, rápida e flexível. A governança multilateral objetos de monitoramento e discussões, desdee global deve preparar-se para antever os riscos o início de um projeto até as avaliações ex-post.complexos e de elevado impacto negativo dos tipos As avaliações dessas tecnologias, por meio desocial e ambiental. A figura 1 mostra a representação um mecanismo regulador de governança, devemde um sistema de governança baseado nos critérios ocorrer no entorno de tais inovações e considerarinseridos na realidade das convergências tecnológicas todos os respectivos ciclos, ao levar em conta(ROCO, 2008). sua disposição futura e confluentes efeitos ao Os processos de decisões sobre as questões meio, oriundos de suas manufaturas e operaçõesde convergências tecnológicas seguem um ciclo de (ROCO, 2008).interferências aberto, constituído por etapas que Em todo esse processo, é imprescindívellevam desde a pesquisa até a efetiva fabricação a análise da presença dos fatores envolvidosFigura 1 – Sistemas abertos em uma governança de convergências tecnológicasFonte: adaptado de ROCO, 2008. 27
  28. 28. em uma governança de risco, para amparar Dentre as novas tecnologias, destaca-se aas decisões e as ações tomadas no intuito de importância da nanotecnologia. Nano é um prefixoamenização das patologias sociais e ambientais. usado nas ciências para designar uma parte em umTal sistemática é de extrema importância nos casos bilhão e, assim, um nanômetro (1nm) correspondeconstatados com altos riscos, cuja redução dos a um bilionésimo de um metro. Dado o seu carátermesmos exige a coordenação e colaboração de integrador, convergente e por caracterizar-se porinúmeros stakeholders. As decisões unilaterais se inovações concentradas no tempo, poderá gerarapresentam como ineficazes e inaplicáveis, pois, a um processo de destruição criadora atenuando osdisseminação de novas tecnologias promove uma impactos do uso intensivo dos fatores produtivos,interferência dos possíveis riscos nas esferas social, gerando redução do consumo energético e,ambiental, tecnológica, e, com maior evidência possivelmente, uma revolução produtiva (SÁENZ;na dinâmica evolutiva e interativa de todo o SOUZA-PAULA, 2008).sistema social. As convergências tecnológicas, Para Martins (2005), as nanotecnologiaspor exemplo, focam suas prioridades sobre os validam a necessidade de uma governança globalpossíveis benefícios a serem gerados nos âmbitos e multilateral, pois, somente por um mecanismoindividuais e sociais. Os parâmetros de sucesso como esse, será possível gerenciar os benefíciospara essas redes de empresas e instituições são econômicos, sociais e ambientais oriundos de taisos indicadores de qualidade de vida, saúde, inovações. Suas aplicabilidades implicam diminuirsegurança, e, principalmente, a análise de como os problemas ambientais nos processos produtivos,se dá a distribuição desses resultados sociais a ou seja, responsabilizam-se por eliminar os conflitostodos os seres humanos inseridos em um modelo sociais fundamentados em questões de prejuízos àdemocrático. Roco (2008) apresenta, através natureza.da figura 2, quais são os atores afetados pelas Entretanto Schnaiberg (2005) assume queconvergências tecnológicas. tudo o que for apresentado e produzido pelo setorFigura 2 – Visão geral de uma governança de convergência tecnológicaFonte: adaptado de ROCO, 2008. 28

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