O trabalho psicopedagógico à luz dapsicomotricidade                                             Flávia Teresa de Lima     ...
Assim, é comum na prática psicopedagógica a necessidade detrabalharmos esses aspectos, que podem se encontrar deficitários...
corpo, e por isso pode brincar de tê-lo.Podemos, através deste raciocínio, pensar nosso corpo como umaferramenta a ser uti...
uma melhora da criança na escola e mesmo em casa, através de‘receitas’ que buscam moldar seu comportamento através deexerc...
psicomotricidade, a fonoaudiologia, a pedagogia, a terapiaocupacional, a psicanálise, a neurologia e a psiquiatria, além d...
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O trabalho psicopedagógico à luz da psicomotricidade

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O trabalho psicopedagógico à luz da psicomotricidade

  1. 1. O trabalho psicopedagógico à luz dapsicomotricidade Flávia Teresa de Lima fevereiro/2007RESUMOEste artigo apresenta o resultado do início de uma reflexão sobre opapel do psicopedagogo atuando em uma equipe interdisciplinar, naárea de saúde mental, que atende crianças com transtornos deaprendizagem. Pode-se, através do mesmo, compreender ainterdisciplinaridade possível, enquanto forma de trabalho, desdeque os conhecimentos conscientes e os saberes inconscientes dosprofissionais que atuam na equipe possam circular de forma apossibilitar espaços de autoria de pensamento de quem ensina e dequem aprende. Não raro, são encaminhadas para atendimento psicopedagógico,crianças que trazem como queixa serem portadoras de algumdistúrbio de aprendizagem, pois “não aprendem”. Após umaavaliação, constata-se que essas crianças apresentam problemáticasna estruturação e reconhecimento de seu corpo, no uso desse corpoenquanto instrumento de interação com o outro, nos movimentos,nos gestos, nas praxias. Através do conhecimento dos pressupostosda psicomotricidade e do intercâmbio com profissionais desta área,o psicopedagogo pode, com maior habilidade, fazer um diagnósticodiferencial mais preciso e, com os recursos oferecidos por estadisciplina, elaborar planos de atuação adequados a esta demandaespecífica e freqüente.Conclui-se que a articulação entre os diversos conhecimentos dasdisciplinas e os saberes subjetivos dos profissionais é umanecessidade para que se tenha uma visão ampla e clara do quadroapresentado pelo paciente.Palavras-chave: Psicopedagogia, Psicomotricidade,interdisciplinaridade. “A aprendizagem dramatiza-se no corpo a partir da experiência de prazer pela autoria. Sendo a autoria objeto de toda intervenção psicopedagógica e sendo a psicomotricidade a que se ocupa do saber sobre o corpo e seus modos de valer-se, vamos vendo outros laços fraternais” (Alicia Fernández).A citação de Fernández (2001, p.145) remete-nos a pensar apsicomotricidade enquanto possível ferramenta para uma práticapsicopedagógica mais completa e interdisciplinar.Equilíbrio, tonicidade, orientação espacial e temporal, esquemacorporal, imagem corporal, lateralidade e coordenação motora sãoestruturas psicomotoras necessárias para que nosso organismoexplore o ambiente, perceba-se nesse mesmo ambiente, perceba ooutro e, com isso, se desenvolva.
  2. 2. Assim, é comum na prática psicopedagógica a necessidade detrabalharmos esses aspectos, que podem se encontrar deficitáriosem sua estruturação, nas crianças que nos são encaminhadasporque “não aprendem”, “não param”, “são descoordenadas”, são“hiperativas”, “as que não aprendem nada”, “as desinteressadas” ouas que “vivem no mundo da lua”. Esta é a “queixa-sintoma” com aqual nos deparamos no nosso dia-a-dia enquanto profissionais daárea da saúde.O conceito de sintoma merece nossa especial atenção e é emAndrade (2002, p.54) que nos baseamos:Vamos considerar sintoma [...] como sendo o sinal de um conflitoinconsciente, um descompasso entre a demanda subjetiva e aprodução objetiva. Nesse sentido, muito próximo da perspectivamédica, o sintoma não é a doença em si, mas mostra umdesequilíbrio entre organismo e subjetividade.Assim, estas crianças podem trazer, concomitantemente, com osintoma que nos é mostrado, que nos é dado a ver (Levin, 2003),um déficit lúdico e criativo significativo. Apresentam-se alienadasem um objetivismo resultante da dicotimização entre a objetividadee a subjetividade (Freire, 1983) que lhes acarreta problemassignificativos em todo o seu desenvolvimento neuro-psico-motor eemocional.Não se pode pensar em objetividade sem subjetividade. Não há umasem a outra, que não podem ser dicotomizadas.A objetividade dicotomizada da subjetividade, a negação desta naanálise da realidade ou na ação sobre ela é objetivismo. Damesma forma, a negação da objetividade, na análise como na ação,conduzindo ao subjetivismo que se alonga em posições solipsistas,nega a ação mesma, por negar a realidade objetiva, desde que estapassa a ser criação da consciência. Nem objetivismo, nemsubjetivismo ou psicologismo, mas subjetividade e objetividade empermanente dialética. (Freire, 1983, p.37)Enquanto humanos, não podemos permanecer na subjetividade.Existe a necessidade de se objetivar através da práxis, da realizaçãode um produto, no qual nos reconheçamos autores, assinantes denossas obras, construtores de nossas vidas.Estas crianças, como muitas vezes podemos observar, não têmconhecimento de seu corpo, do uso que podem e devem fazer domesmo enquanto instrumento de aprendizagem, de autoria de ser.Trazem um transtorno psicomotor (Levin, 2003) como sintomaassociado à não aprendizagem.Levin (2003, p.48) aponta que não somos nosso corpo. Nóso temos e, portanto, podemos utilizá-lo, se nos apropriarmos dele:Nós, os seres humanos, ao sermos capturados pela linguagem,diferenciamo-nos do reino animal, deixamos de ser puro corpo e,pelo ingresso no universo simbólico, podemos tê-lo e, portanto,sermos sujeitos com um corpo. Se o corpo é algo que o sujeito teráque conquistar e ter, é porque o sujeito não é o mesmo que seu
  3. 3. corpo, e por isso pode brincar de tê-lo.Podemos, através deste raciocínio, pensar nosso corpo como umaferramenta a ser utilizada para conhecer o outro e desse mesmooutro recebermos conhecimento. Não falo em organismo, mas,juntamente como Levin (2003), em um corpo recortado pelo desejo.Falamos de um sujeito que não é um corpo, mas o tem e podeutilizá-lo como instrumento de conhecimento, de saber, dearticulação de pensamento. O corpo, organismo recortado pelodesejo, é o mediador do espaço entre subjetividade (desejo) eobjetividade (concretização), no qual se forma a autoria depensamento.Citamos dois verbos importantíssimos dentro de um processoterapêutico: desejar e fazer. Existe, porém, um entre que une estasduas palavras que é o pensar. Em Fernández (2001a, p.91)encontramos que “o pensamento não pode ser autônomo, definirsuas próprias normas desvinculadas do desejo e da dramáticainconsciente, já que o pensar ancora-se no desejar”. Acrescentaria aesta idéia de Fernández que o fazer concretiza o pensar.Objetivar a subjetividade implica o pensar e o como este seprocessa, se estrutura. Se simplesmente pensamos, estamosconsiderando a possibilidade de organizar e re-organizar idéias jáconstruídas, transformando-as, modificando-as segundo nossaspercepções e necessidades. Tendo a vontade e podendo concretizarnosso pensar através de nossa ação, estaremos modificando o quenos cerca, pois o produto de nossa ação é uma ligação com omundo externo, com o qual nos vinculamos e pelo qual somosreconhecidos.Não há espaço dentro da Psicopedagogia para um homem alienado,verdadeiramente dividido em ação ou desejo, sem umentre quepermeie estas duas palavras.Neste entre o desejar e o fazer, deparamo-nos com um conceitoimportante para a Psicopedagogia: a autoria do pensamento. Opensamento objetiva-se com subjetividade se houver autoria porparte de quem realiza a ação.A Psicopedagogia vai trabalhar a gestação de espaços subjetivos eobjetivos que possibilitem a autoria de pensamento. A autoria dopensamento pressupõe espaços de liberdade que se constituem apartir da aceitação das diferenças e do prazer de pensar. Esseespaço se constitui na medida que o sujeito possa conceber-sediferente do Outro e sinta-se autorizado por esse Outro adiferenciar-se. (Andrade, 2002, p.19).A Psicomotricidade nos enriquece com a idéia do fazer e doconhecer com o corpo. Mostrar ou não mostrar a ação. E aPsicopedagogia nos direciona para o mostrar ou não mostrar oconhecimento.Entendemos aqui, a psicomotricidade enquanto disciplina calcada naprática da clínica psicomotora (Levin, 2003).Podemos destacar algumas terapias (psico)motoras, que buscam
  4. 4. uma melhora da criança na escola e mesmo em casa, através de‘receitas’ que buscam moldar seu comportamento através deexercícios, muitas vezes condicionadores. Traça-se um perfilpsicomotor e se espera que a criança esteja dentro de uma média,do ‘normal’. Se isso não acontece, inicia-se uma maratona deterapias ‘psi’, bem como há uma orientação à escola para que hajauma adequação dessa criança no meio escolar.Falamos de um sujeito do desejo e, portanto, não consideramosapenas um organismo com necessidades, mas também um corpoque fala, que deseja, sujeitado à palavra. Não se trata, portanto, daaplicação de exercícios que façam com que suas habilidades sedesenvolvam, mas de marcas deixadas que estruturam esse sujeito,dando-lhe uma base de sustentação para sua vida.A Psicopedagogia utiliza-se dos conhecimentos da área dapsicomotricidade não para o treino de um organismo, mas sim,como possibilidade de se ter um corpo enquanto instrumento deconhecimento, de articulação do pensamento. Temos nosso corpopara conhecer o Outro e para receber o conhecimento desse Outro.Esta é a base para o estabelecimento de uma relação ensinante-aprendente saudável.Assim, o trabalho psicopedagógico à luz da Psicomotricidade poderábasear-se em: • oferecer condições motoras e percepto-cognitivas que possibilitem as condições de realização de uma atividade; • realização de uma atividade, entendida como a possibilidade de espaços de autoria do pensamento e ressignificação de sintoma.Fernández (2001a) coloca que ambas as disciplinas, Psicopedagogiae Psicomotricidade, ficam nas margens, nos espaços em que nãopodem interseccionar-se as disciplinas (FERNÁNDEZa, 2001, p.145).Margens entre o saber e o conhecer, entre a objetividade e asubjetividade, entre o poder e o não poder. São disciplinas que nãoacumulam conhecimento e, portanto, vão constantemente seconstituindo, se construindo e se subjetivando na objetividade desuas práticas.É importante ao profissional psicopedagogo perceber os limites denossa disciplina. Atitude esta espera de profissionais de todas asáreas do conhecimento.Nem todo psicopedagogo é um psicomotricista e, assim, em algunscasos de atendimento é necessário o encaminhamento para oprofissional específico da área da Psicomotricidade. Compreenderesse limite parece-me fundamental para o trabalho interdisciplinar.Apontamos assim, a importância de um diagnóstico interdisciplinar,nestes casos de Problemas de Aprendizagem, possibilitando queintervenções adequadas sejam efetuadas, com abrangência dasmúltiplas possibilidades de intervenções de acordo com o quadro emquestão.Fica evidente a necessidade do psicopedagogo integrar-se com asdemais áreas de conhecimento, como a psicologia, a
  5. 5. psicomotricidade, a fonoaudiologia, a pedagogia, a terapiaocupacional, a psicanálise, a neurologia e a psiquiatria, além deoutras, para que se tenha uma visão ampla e clara do quadroapresentado pelo paciente.A Psicopedagogia oferece à equipe interdisciplinar, instrumentospara a compreensão do quadro apresentado por uma criançaprivada de sua capacidade de aprender. Conseqüentemente, tornapossível uma atuação terapêutica, provinda de várias disciplinas,que nos reporta à possibilidade do sujeito ser autor de seupensamento, de sua ação, de seu desejo.Bibliografia • ANDRADE, M. S. (org). A escrita inconsciente e a leitura invisível: uma contribuição às bases teóricas da Psicopedagogia. Coleção Temas de Psicopedagogia. Livro 1. São Paulo: Memnon, 2002. • Fernández, A. O saber em jogo: a Psicopedagogia propiciando autorias de pensamento. Trad. Neusa Kern Hickel. Porto Alegre: Artmed, 2001. (a). • Fernández, A. Os idiomas do aprendente: análise das modalidades ensinantes com famílias, escolas e meios de comunicação. Trad. Neusa Kern Hickel e Regina Orgler Sordi. Porto Alegre: Artmed, 2001. (b). • FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. • PERRENOUD, P. A Pedagogia na escola das diferenças: fragmentos de uma sociologia do fracasso. Trad. Cláudia Schilling. Porto Alegre: Artmed, 2001.LEVIN, E. A clínica psicomotora.: o corpo na linguagem. 5ª ed. Trad.Julieta Jerusalinsky. Petrópolis: Vozes, 2003.Flávia Teresa de Lima, psicopedagoga e terapeuta ocupacional

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