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Boca do Inferno número 22

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Boca do Inferno, Jornal do Centro Acadêmico de Letras - UFPR, edição 22, abril de 2010

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Boca do Inferno número 22

  1. 1. E DI Ç Ã O N º2 2 AB RI L DE 2 0 1 0 Estamos de volta! BOCA DO INFERNO Com visual novo, novas ca- racterísticas, o Boca do inferno Professora nos deu um depoi- mento digno de autobiografia está de volta! Queremos, desta (tanto dela como da Universida- vez, que torne-se um periódico de de, acreditem!). Temos também fato, um instrumento de informa- a participação (espantosa, em ção e divulgação DE e PARA os vista de antes) de vários colegas, alunos de Letras da UFPR. com textos que vão da produção artística e literária à análise his- Entenda melhor: a partir tórica e cultural. desta edição, o jornal passa a ter seções, colunas e outros fru-frus, Além disso, contamos com a que facilitam a leitura e dinami- participação mais que bem vinda zam o espaço do folhetim. Entre dos professores para abrilhantar estas, temos as colunas ―sub- este nosso ―velho-novo‖ Boca. realidade‖, sob a pena (a literá- Neste temos o Professor Paulo ria, não a punitiva) do Willian Soethe, da área de Alemão, tra- Pinheiro e ―Abrindo a boca‖, que tando do novo convenio entre traz as polêmicas que nos rodei- UFPR e a Universidade de Za- am e os assuntos que circulam greb, na Croacia (p.2) . pelos corredores dos ―Dons Pe- Enfim, caros colegas, vocês dros‖. têm em mãos um periódico bem Na seção ―Entre e Vista‖, eclético, descolado e, acima de falamos com uma de nossas ilus- tudo, democrático. Então, não tres professoras, Prof. Dra. Mari- hesitem: abram, leiam, folheiem, lene Weinhardt, atual presidente comentem, falem, discutam, gri- da ABRALIC - Associação Brasi- tem.... Sintam-se à vontade! leira de Literatura Comparada. A N ESTA EDIÇÃ O 2 8 15 4 12 16 6 14 20 Jornal do Centro Acadêmico de Letras da Universidade Federal do Paraná
  2. 2. PÁGINA 2 Cooperação UFPR - Croácia Por Paulo Soethe A Croácia tem 4,5 milhões de ha- tações croatas de alimentos, por exem- bitantes e cerca de 700 mil deles vivem plo. Culturalmente, há presença de i- em Zagreb, capital do país. Mais re- migrantes croatas no Brasil (uma co- centemente, em vista de sua história munidade de aproximadamente milenar, foi parte do Império Áustro - 25.000 pessoas, sobretudo em São Húngaro, passou por breve período de Paulo), e as relações históricas estão autonomia, depois integrou a Iugoslá- descritas em detalhes em obra sobre via. Com o fim dos estados socialistas e as relações croato-brasileiras, escritas depois da pacificação dos conflitos ét- não casualmente pelo titular da cáte- ALÉM - MAR nicos na região, a Croácia existe como dra de Português na Universidade de Estado nacional desde 1991. Para as Zagreb, o professor Nikica Talan. proporções do Brasil, é um país peque- A Universidade de Zagreb tem no, mas tem grande importância geo- 40.000 alunos, e abriga uma área de política e cultural na Europa Meridio- Português dinâmica e em crescimento, nal e nos Bálcãs. que nos últimos anos tem merecido Com o Brasil, a Croácia mantém atenção na mídia na época do vestibu- boas relações comerciais. Nosso país lar: ao lado de cursos tradicionais co- fornece cerca de 6% do total das impor- mo Direito e Medicina, Português BOCA DO INFERNO
  3. 3. EDIÇÃO Nº22 PÁGINA 3 (com um total de 30 vagas) tem a pro- se encontra em Zagreb, é o Prof. José cura de 25 candidatos por vaga, para Luiz Foureaux de Souza Jr. (UFOP). um curso de 3 anos (um ―bachelor‖, no Em dezembro de 2007, formali- modelo de Bologna) e possibilidade de zou-se acordo de cooperação entre a continuidade de estudos em um UFPR e a Universidade de Zagreb, por ―master‖ de dois anos (segundo esse iniciativa do Programa de Pós- mesmo modelo). graduação em Letras, apoiado pelo Se- Em abril e outubro de 2006, o tor de Ciências Humanas. Durante o Programa de Pós-graduação em Letras ano de 2008, esteve na UFPR a Profª. da UFPR tomou contato com a Univer- Majda Bojic, para estudo e pesquisa sidade de Zagreb, inicialmente por in- em nível de doutorado, e para co- termédio do Professor Davor Dukic ministrar disciplina no Programa. Ela (que esteve em Curitiba em 2007), e contou com auxílio da UFPR no pri- desde então estabeleceu vínculos sóli- meiro semestre, depois com bolsa do dos com os colegas da área de Portu- governo croata, no segundo. No início guês de lá. Em abril de 2006, as pri- de 2009, a UFPR recebeu visita de meiras atividades de ensino e missão dirigentes da Faculdade de Filosofia da de trabalho em Zagreb (reuniões e um Universidade de Zagreb, e há boas curso intensivo de Introdução à litera- perspectivas de intensificação das tura brasileira) receberam apoio signi- ações de cooperação. ficativo do Ministério das Relações Exteriores em Brasília, com a destina- ção e envio de material de divulgação cultural em grande quantidade, para doação a docentes e estudantes. Estava em vista, por coincidência, a instalação Serviço: Intercâmbio da Embaixada do Brasil em Zagreb, A Universidade Federal do Para- que se deu em julho de 2006. ná mantém convênios com universida- des brasileiras e também de vários paí- Em outubro de 2006, em nova ses do mundo, com projetos de inter- atividade de ensino (um curso sobre câmbio, firmados entre as instituições Lavoura arcaica, de Raduan Nassar), ou entre a diplomacia brasileira e a es- houve reunião com o Senhor Guilher- trangeira. me Paul, diplomata brasileiro da re- cém-instalada Embaixada brasileira, e Os alunos que desejam fazer in- longa conversa telefônica com o Em- tercâmbio estudantil, seja dentro do baixador Haroldo Valladão Filho. O Brasil, seja em outros países, podem principal ponto foi a criação de um procurar a UIMA—Unidade de Inter- Leitorado de Português e Literatura cambio e Mobilidade Acadêmica da Brasileira, com financiamento bilate- UFPR. Para saber mais sobre inter- ral. Em fevereiro de 2007 abriu-se o cambio visite o sitio http: // processo de instalação do leitorado, www.intercambio.ufpr.br ou ligue para (41) seleção e orientação do Leitor, pela 3360-5367. O endereço eletrônico é inter- CAPES. O primeiro Leitor, que ainda cambio@ufpr.br ABRIL DE 2010
  4. 4. PÁGINA 4 Em casa de ferreiro quem tem um olho é rei... ou ―Em busca de Nêmesis‖ ABRINDO A BOCA: CELIN O Curso de Letras da Uni- cultura e interculturalidade; po- versidade Federal do Paraná pos- rém, existe o reverso desta meda- sui atualmente, além do Portu- lha, que carece de todo este bri- guês, sete habilitações em lín- lho tão habilmente divulgado aos guas estrangeiras, às quais pode- meios de comunicação, e, que mos acrescentar grego e latim. precisa ser revelado à opinião Apenas duas destas são recentes: pública. Uma das distorções que Japonês e Polonês; e todas as se- vem ocorrendo no Celin, já há te oferecem a opção de licencia- muito tempo, a qual nos move tura plena. Se considerarmos nesta denúncia, é que alunos da também os bacharelados, são 54 graduação, das licenciaturas do possibilidades formativas, segun- Curso de Letras da UFPR, vêm do os nossos interesses e esco- sendo preteridos no seu direito lhas. de estágio em benefício de pro- Nós fomos aprovados em fessores profissionais; numero- concurso vestibular ou transferi- sos no corpo docente da institui- dos por reaproveitamento de va- ção, muitos sequer têm a gradua- gas. Somos quase 1000 alunos da ção em letras e muito menos graduação. Aos estudantes das qualquer licenciatura. Prática licenciaturas é facultado o está- comum em escolas particulares gio remunerado, podendo atuar de idiomas, a contratação de não como professor aprendiz do Cen- graduados, como mão-de-obra, é tro de Línguas e Interculturali- execrável em uma Universidade dade - Celin, uma escola-escola Pública, que forma professores de línguas criada no nosso Curso de línguas. de Letras para este fim, que hoje O Celin exige, para o in- atende majoritariamente à comu- gresso em seus quadros, a con- nidade externa pagante. Como clusão de um curso que recebe centro de línguas ele já teve mais uma pretensiosa denominação de 4.700 alunos matriculados. de: ―Formação de Professores‖, Depois de quinze anos da sua com uma carga horária de poucas fundação o atual Celin é um vul- dezenas de horas. Uma licencia- toso empreendimento no setor de tura plena tem a duração de 4,5 escolas; mas, não nos esqueça- anos em nossa universidade. O mos, é uma instituição da UFPR, referido curso de admissão, ou que funciona através da Funpar, melhor, de ―Extensão Universitá- que é uma fundação. ria‖ leva a chancela da UFPR e O Celin tem sido frequente- funciona como um eficiente me- mente festejado como um caso de canismo para descartar estudan- sucesso, um pólo de difusão de tes de letras, possíveis estagiá- BOCA DO INFERNO
  5. 5. EDIÇÃO Nº22 PÁGINA 5 rios, e também arregimentar e da pelo inchaço da instituição e o validar a contratação de profis- consequente aumento de fatura- sionais não habilitados (não gra- mento. Atender à demanda não duados em Letras) mesmo para justifica a arbitrariedade. É pre- as línguas das licenciaturas do ciso atender a demanda? Isto a- nosso Curso de Letras. Todos re- contece em proveito de quem? cebem um ―Certificado de Capa- Sem dúvida não é dos alunos do citação‖ com o timbre da UFPR. Curso de Letras da Universidade Isto é injustificável, não é Federal do Paraná. Muitos tam- ético, não é moral. Será lícito? bém são os nossos colegas, com a Inexplicavelmente esta seleção licenciatura em línguas da gradu- arbitrária é feita pelos nossos ação da UFPR que, não tiveram e próprios professores, eles são co- não têm oportunidade no Celin, ordenadores das respectivas lín- que já existe há quinze anos, guas na instituição, são eles pró- tempo mais que suficiente para prios que atestam a nossa falta formar e manter um corpo docen- de capacidade e experiência para te graduado, base para formação atuar no Celin, além disso, dão- dos alunos estagiários das nossas nos a desculpa de sempre falta- licenciaturas. Lembramos tam- rem vagas, ou que estes de pro- bém que todas as licenciaturas, à fissionais de ―carreira‖ são os exceção dos cursos de japonês e melhores para atuar na institui- polonês, já funcionam em nossa ção. Algumas línguas chegam a universidade há muitas décadas, funcionar no Celin como escoli- já chegaram à maturidade, for- nhas particulares de idiomas, maram milhares de professores contratando os ―melhores profes- naquele que é um dos melhores sores‖, contrariando a filosofia cursos de Letras do país. do ambiente universitário nas O Celin é, não esqueçamos, quais se inserem, sem terem uma parte de uma Universidade Públi- postura didática e pedagógica de ca, que não pode ser objeto de uma escola de aplicação, inten- uma ação venal em detrimento de ção primordial da instituição. seus próprios alunos, profissio- Não podemos entender a ra- nais por ela graduados e da co- zão disto. Não podemos sequer munidade que busca o aprendiza- imaginar qual é a intencionalida- do de línguas. Ostentando o de implícita nesta prática, que nome da Universidade Federal do reputamos, sem dúvida, isenta de Paraná, recebendo seu aval e coerência e de lisura acadêmica. funcionando no âmbito de uma Os admitidos no na escola, que fundação, o Celin precisa mudar não são estagiários, graduados urgentemente e prestar contas à em Letras ou não, são contrata- sociedade. Em um país onde é dos através da Ceilin, uma coo- tradição a apropriação do públi- perativa ―filha‖ do Celin, que le- co pelo privado, preterir estu- galiza indistintamente esta mão- dantes de letras ou jovens pro- de-obra. fessores graduados é roubar es- É notória a avidez pelos nú- peranças. meros na instituição, representa- ABRIL DE 2010
  6. 6. PÁGINA 6 Um breve olhar à também breve Literatura Romântica Paraguaya Por Julio Cezar Marques ―Trágico, deprimente, elegíaco y na ocasião da Ditadura, quando as levemente mórbido con algunos espas- fronteiras estavam impenetravelmente módicos brotes épicos. Es posible tam- fechadas sob o comando do Dr. José bién señalar el espíritu aventurero por Gaspar Rodríguez de Francia y Velasco, la elección y exaltación defiguras he- ou O Supremo, ou o Karai Guazu, roicas, arquetipos revolucionarios, quem por vinte e seis anos, no período etc. [...]” compreendido entre 1814 e 1840, proi- LITERATURA biu a saída e a entrada de pessoas do/ Roque Vallejos no país sem sua prévia autorização e proibiu ainda a atuação da imprensa, não só do Paraguai, mas também a Em uma literatura criada à mar- entrada de periódicos estrangeiros gem de guerras e conflitos é difícil ima- que não fossem para ele mesmo. Co- ginar algo que não tenha um tom trági- nhecer os limites da censura neste mo- co, deprimente e, às vezes, mórbido. mento é fundamental para compreen- Da mesma forma me parece impossível der o desenvolvimento cultural e soci- conceber a criação literária neste ambi- al do país e para perceber o porque da ente sem pitadas épicas e bélicas, o que sua atual estrutura nas diversas esferas dá base para uma das partes mais im- passíveis de análises. A exaltação da portantes e representativas do Roman- pátria e a entrega pessoal por sua liber- ticismo Paraguayo, o militante, que dade, congregam em um significativo traz atrelado a si o sentimental, com a patriotismo que impulsiona tanto a li- questão do auto-sacrifício pela pátria, teratura e como todo o povo paraguaio. a sobreposição do sentimento à razão O desenvolvimento dessa literatura ba- na maioria das situações em que se tem seada, sobretudo em elementos nacio- que escolher entre si mesmo e a pátria, nais no Paraguai se contrapõe à litera- o que, na verdade, é uma única opção tura argentina do mesmo período, que porque, neste período, o individuo não recebeu muitas influências estrangei- era nada além da sua própria pátria ras, as quais se misturaram com as e por ela vive e morre, se lhe parece nacionais quase se sobressaindo a e- necessário. las, gerando um bloqueio na criação nacionalista, por assim dizer, culmi- A literatura paraguaia desde os nando em uma literatura com claras seus primórdios tem uma construção intenções, frustradas, de ser européia. singular, porque cresce em um ambien- É importante citar alguns dados que te onde os elementos externos — literá- considero significativos na justificativa rios e culturais — não conseguem se da pouca produção literária desse fazer acessíveis pelo isolamento criado BOCA DO INFERNO
  7. 7. EDIÇÃO Nº22 PÁGINA 7 período. ríodo de pouca expressão quantitativa, mas de grande valor qualitativo, tem-se Por ocasião da Guerra da Tríplice aí uns poucos poetas e quase nada de Aliança, 75% da população foi perdido publicações, mas essa produção res- no processo bélico; de um inicial de ponde plenamente à pergunta: O que 1.300.000 paraguaios vivos no princi- necessitava expressar internamente a pio da guerra, apenas 300.000 conse- literatura paraguaia naquele momento? guiram sobreviver, sendo estes, em O que produziram esses poetas regis- sua grande maioria, crianças e mulhe- tra o momento dos conflitos bélicos, res, diminuindo o círculo de poetas, sociais e pessoais da forma necessária, e possíveis aspirantes, que já não era sem demasias nem limitações criativas. grande. Literariamente este foi um pe- Literatura para quem? Por Teurra Vailatti A literatura tem uma íntima rela- ência individual não é pura, ela é arbi- ção com a sociedade. Por se tratar de trária no sentido de que é construída um processo artístico, ela absorve e através da escolha e da identificação expressa o contexto social em que é pessoal com elementos que compõem produzida, e assim, estabelece uma li- esta sociedade. gação entre a realidade social e o pro- Assim, toda literatura está inti- cesso de artístico de criação (ou recria- mamente ligada à sociedade através ção) desta realidade. desta relação que o autor, como indiví- Desta maneira, esta ligação vem duo, estabelece com seu meio. Por isso, da expressão individual do autor que se ele entender sua obra como um ins- retrata sua percepção da realidade e a trumento crítico, como um veículo de coloca à luz, de forma a aprofundar re- idéias, valores e opiniões, ela terá flexões ligando-as à arte através do grande importância para sua própria trabalho com a linguagem e procedi- sociedade. mentos estéticos, que são componentes Concluindo, é preciso entender a que fazem o autor se apropriar do literatura não como uma atividade au- mundo, e criar sua própria realidade. tônoma, mas sim como um processo Porém, por se tratar de um pro- que está relacionado às condições ma- cesso de criação individual, como a li- teriais de sua produção. Não se trata de teratura pode retratar a realidade cole- negar a existência da criatividade ou tiva e não ser somente uma percepção da ficcionalidade, mas sim considerá- pessoal? las parte da dinâmica social, e nesta perspectiva, ter a literatura como parte O autor, como indivíduo, compar- de um todo, feita para todos. tilha das mesmas características da so- ciedade em que vive, pois sua consci- ABRIL DE 2010
  8. 8. PÁGINA 8 Para começar, gostaria que a senhora fa- PR e o contrato eu fiz um curso de especializa- lasse um pouco sobre a sua formação e ção em literatura brasileira que houve aqui. Aí, ENTREeVISTA: MARILENE WEINHARDT sua carreira, desde o princípio até agora em 1977 eu comecei o Mestrado na USP. A gen- ou adiante, se for o caso. te não conseguia ter licença para estudar, por- que éramos professores novos e não havia um Esta história é longa... Desde a minha formação número significativo de professores na casa. até a minha carreira... Então, seria como dizer ―acabou de chegar e já está querendo sair‖. Então, eu viajava todo final Eu sei que começa aqui mesmo na UFPR, de semana para São Paulo, assistia às aulas e nao? voltava para cá. Terminei o Mestrado em 1982. Sim, eu fiz a graduação aqui mesmo na UFPR, Aí eu decidi que ia fazer o Doutorado quando no tempo em que a estrutura da Universidade eu pudesse ter licença de fato, porque eu preci- era outra. A divisão era em Faculdades e não Se- sava ter mais tempo para estudar. Além do quê, tores, como é hoje. Fiz o curso de Letras, habili- não se dava licença para o doutorado sem que a tação dupla em Português e Francês, era uma pessoa ―estivesse na vez‖. Por isso eu precisei licenciatura. Durante esse período já dava aulas, esperar bastante tempo para começar o Douto- naquela época não havia muita gente formada, rado. então a gente dava aula no que se chamava na Quando comecei o Doutorado, a carreira era época de professor suplementarista no Estado, muito diferente. Ter grau de doutor era quase que é esse contrato anual. Não havia concurso no um ―coroamento‖. Não exatamente, mas quase Estado. E enquanto eu estava fazendo o curso um ―final de carreira‖. Foi em 1989 que conse- aqui, eu dava aula na minha cidade, Lapa. Eu gui um afastamento para fazer Doutorado. viajava todo dia para cá. Assistia às aulas de ma- Quando retornei do Doutorado, abriu um con- nhã e à tarde e à noite eu dava aulas lá. Terminei curso para Professor Titular, em 1995. a faculdade. Não existia nem um curso de especi- alização naquele momento aqui, quanto mais Mas nesse período entre o fim do Mes- mestrado e doutorado. E eu sabia que queria trado e o cargo de titular a senhora per- continuar, fazer alguma coisa mais e sabia que manecia no mesmo cargo? Como era is- era na área de literatura. Pensava então em pro- so? curar faculdades estaduais, naquela época existi- am particulares também, mas poucas. Pensava Nessa época, havia o plano de carreira. Entra- em dar aulas em uma faculdade estadual, de for- vamos como auxiliar, depois assistente, adjunto ma que eu tivesse condições de continuar, mas e associado, este último ainda não havia na é- continuei dando aulas no colégio na Lapa, onde poca. Já o professor titular tem outro caráter. É eu já estava desde o primeiro ano. uma nova carreira, um novo cargo. Para ele, é necessário ter uma nova tese, novo trabalho, Em 1974, logo que terminei o curso, fui convida- etc. É um outro estágio da profissão. da para participar do processo, que não era con- curso, semelhante ao que é hoje aquele para Dentro da sua pesquisa houve muita di- (professor) substituto em Literatura Brasileira. ferença entre os objetos de estudo do Eu fui aprovada nesta seleção, mas demorava Mestrado e do Doutorado? muito para sair o contrato. Eu continuei a dar Sim, houve diferença. A minha primeira elei- aulas na Lapa até que, em julho de 1075, saiu o ção de pesquisa foi o Suplemento Literário d‘O meu contrato que, naquela época, se chamava Estado de São Paulo. Isso foi uma espécie de auxiliar de ensino. ―tentativa de sair da província‖. Foi um cumprir Mas (o auxiliar de ensino) fazia a mesma um ritual de leitura que eu não havia cumprido coisa que um professor, não é? por outras formas. Então, com o contato com esse material, tive oportunidade de ler os críti- Sim! Dava aulas e trabalhava em pesquisa. Na cos que estavam escrevendo no suplemento li- verdade um pouco na pesquisa dos outros pro- terário e sobre o que eles estavam escrevendo, fessores que já estavam na casa. porque aí eu precisava ir atrás dos títulos dos quais eles tratavam no suplemento. Então, foi Bom, nesse intervalo entre a seleção para a UF- BOCA DO INFERNO
  9. 9. EDIÇÃO Nº22 PÁGINA 9 uma ―entrada no universo não mais restrito do poesia não posso dizer que sou uma leitora profis- universo local‖. Não vamos esquecer que a USP sional. Eu leio, sim, e até trabalho em algumas dis- era tida como o ―top‖ na área de Letras, mais es- ciplinas quando é preciso trabalhar com este pano- pecificamente de Literatura Brasileira. Não ne- rama, mas não é realmente a que eu me dedico. cessariamente de Letras porque em Lingüística Agora, para se trabalhar com a ficção histórica con- não era exatamente o caso. Então, o ‗ir fazer temporânea, não se pode isolá-la da produção an- mestrado em São Paulo e trabalhar com o suple- terior, isto é, tenho que trabalhar com a história da mento literário d‘O Estado de São Paulo‘ signifi- ficção no Brasil. E, na História da Ficção no Brasil, cou tomar contato com ―o restante do mundo‖. eu destaco pelo menos três pontos fulcrais: José de Fiquei durante vários anos trabalhando nessa Alencar, Machado de Assis e Guimarães Rosa. pesquisa, foi um trabalho longo e acabou sendo Fechou? publicado depois que ganhei um prêmio do Ins- tituto Nacional do Livro, que era a publicação do Não, não fechou. Acho que nunca se pode dizer trabalho. Então ele foi publicado, embora tenha ―fechou‖. Na verdade é um ―abre por aí‖. Eu não ficado como uma espécie de publicação clandes- posso me considerar uma professora razoável de tina, porque era uma época de final de governo. Literatura Brasileira sem ter lido o canônico e mais Saiu a publicação, mas como era do INL não era alguns textos. Até mesmo para reconhecer por que colocada à venda, mas sim para distribuição em o canônico é canônico ou para reclamar por que ‗o bibliotecas. Houve uma tiragem de oitocentos outro‘ não está no cânone. Afinal, podemos recla- exemplares e eu não sei se foram de fato envia- mar disso. E também para discutir a questão do dos às bibliotecas ou para onde foi. As pessoas canônico. Então, precisamos necessariamente ter que eu sei que têm esse trabalho são aquelas pa- uma pluralidade de leituras. Eu contemplei agora, ra quem eu dei um exemplar. em especial, Machado e Guimarães Rosa, porque por circunstâncias deste curso, da distribuição de Depois eu voltei para o que era o meu ponto de aulas e dos diferentes momentos, eu acabei traba- partida de gosto pela literatura, que era a ficção lhando com disciplinas que tinham como objeto histórica. No projeto que fiz para o Doutorado, estes dois autores. E acho que não se pode passar definido um ano após o início da especialização, por um curso de Letras sem ter lido minimamente em 1990, tratei da ficção histórica de Paraná, esses autores. Então periodicamente eu ofereço Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Desde en- disciplinas que trabalham com eles (autores). tão, trabalho com esta ficção e outros recortes entre produção literária e produção histórica, Sobre as publicações, o primeiro livro foi especialmente a produção literária que dialoga aquele que a senhora citou, das de perto com a História. “misteriosas oitocentas cópias desapareci- das”... Uma pesquisa, aliás, interessantíssima... Como você deve saber, faz parte do trabalho acadê- Tanto eu acho que estou nela há vários anos e mico publicar artigos em periódicos, revistas, capí- continuo nela. Mas não é só o que existe para se tulos de livros. Isso faz parte das obrigações da car- fazer em Literatura. A questão é que precisamos reira, afinal de contas (professores) somos pagos nos conformar com os nossos limites. Nós não para dar aulas e ser pesquisadores e a forma de conseguimos acompanhar a produção literária e mostrarmos que estamos produzindo nas pesqui- a produção teórica e crítica numa gama muito sas é publicando. Meu primeiro livro foi este de ampla. Nós precisamos fazer recortes. E o recor- que falei, que tem caráter documental, um levanta- te que eu resolvi fazer foi este. mento do suplemento literário d‘O Estado de São No último semestre (de 2009) a senhora Paulo desde 1956 até 1967, que é o período de du- ofertou disciplina que tratava da ficção de ração da primeira Direção do suplemento, do Pro- Machado de Assis. Alguma consideração fessor Décio de Almeida Prado. Depois disso, mi- especial, além é claro da „canonização‟ já nha produção se encaminhou para a vertente da existente no país? ficção histórica. Publiquei um recorte do trabalho que, originalmente foi o trabalho do Doutorado, Veja, eu faço este trabalho com ficção histórica num concurso e este recebeu um prêmio e foi pu- dentro da ficção brasileira. Eu, como leitora de blicado, mas nesta forma de recorte. Publiquei ABRIL DE 2010
  10. 10. PÁGINA 10 também um estudo sobre as ficcionalizações sobre vida que não o profissional porque tem as exigên- o Contestado. E a produção mais recente é toda de cias do tempo, das ocupações do trabalho. Então artigos, publicados em revistas especializadas da num primeiro momento pensamos ―Não, vamos área, eventualmente sobre um romance específico, deixar, de repente aparece outro grupo aí...‖ Pas- eventualmente reflexão a respeito de conjuntos, sados alguns meses o assunto esfriou e nós estáva- estes sempre dentro da ficção histórica brasileira. mos nos considerando meio liberados. Passado esse tempo, recebi e-mails, telefonemas e contatos E sobre a ABRALIC? Como foi o processo de pessoas de fora voltando a insistir na importân- até a sua ascensão como presidente? cia de nós procurarmos aqui constituir uma dire- Eu sou associada da Associação Brasileira de Lite- toria e ver como é que iríamos nos postular nesse ratura Comparada desde sua fundação, há vinte e encargo. Voltamos a discutir, todos nós bastante cinco anos atrás, no Rio Grande do Sul, que desde preocupados em o que significava organizarmos então não tem um caráter muito específico, muito aqui este evento em termos de quantidade de tra- fechado de professores de Literatura Comparada. balho e de como conseguiríamos faze-lo acontecer Ela é uma associação que reúne professores de Li- aqui. Pesou para nós o argumento de que estamos teratura de diferentes nacionalidades e de Teoria dentro de uma universidade federal, num curso de da Literatura, isto é, as pessoas no país que refle- Letras que tem graduação e pós graduação em tem sobre o fenômeno literário de forma sistemáti- dois níveis (Mestrado e Doutorado) e estávamos ca, profissional e acadêmica. Em alguns momentos maduros para marcarmos algumas posições e que estive mais próxima da Associação quando da par- nós, no Paraná, somos muito tímidos em apresen- ticipação em congressos, em outros não. Então não tar o nosso trabalho. Todo mundo conhece aquelas é uma coisa que eu diga que esteve sempre no meu piadinhas do Paraná... ―Num balde de caranguejos horizonte. não precisa por tampa porque não saímos de den- tro e se um for sair o outro caranguejinho do fun- Em 2009, haveria o Congresso Internacional e é do puxa pra dentro de volta pelo pé...‖ Então, tal- nele em que há a renovação da Diretoria. Nessa vez precisássemos efetivamente de, além de traba- época, algumas pessoas do cenário nacional dentro lharmos nas pesquisas, além de procurarmos pu- da associação entraram em contato comigo comen- blicações, nós precisávamos assumir algumas po- tando da importância de fazer com que a diretoria sições diante do cenário nacional. Foi assim que circulasse, porque é uma diretoria itinerante, e pa- acabamos constituindo esse grupo de trabalho ra que saísse dos centros em que costumeiramente (mais que uma diretoria de associação, este é um esteve: Rio Grande do Sul, onde ela surgiu, o eixo grupo de trabalho) e no Congresso Internacional Rio-São Paulo, Belo Horizonte, Florianópolis e Sal- de 2009, apresentamos nossa candidatura . E es- vador. Então havia a intenção de tirar um pouco tamos trabalhando desde então. Excepcionalmen- desses lugares. Nos perguntaram se nós tínhamos te esta gestão ficou para três anos (as outras eram interesse em organizar aqui uma diretoria. Em de dois anos), porque havia o interesse de desen- princípio, você sabe que é natural do ser humano contrar do Encontro Nacional da ANPOLL, que é a fugir um pouco do trabalho, né? Eu cheguei a apre- Associação Nacional de Pós-Graduação em Lin- sentar para o grupo de professores de estudos lite- güística e Letras, que acontecia sempre nos anos rários da Pós-Graduação. Nós consideramos as pares e no mesmo mês que a nossa. E as pessoas vantagens, as desvantagens, discutimos um pouco tinham não só a dificuldade pessoal de ir como e achamos que não íamos encarar essa. Porque é também de conseguir recursos das universidades e um trabalho estafante, a gente precisa abrir mão das agencias de fomento. do trabalho da pesquisa – da docência não pode- mos deixar, claro – ou diminuir muito o trabalho Atualmente a ABRALIC fica nos anos ímpares e a para conseguir dar conta, como o resto das ativida- ANPOLL nos anos pares. E nos anos pares a A- des administrativas que precisam ser realizadas BRALIC faz também o que se chamava de Encon- dentro da Universidade. tro Regional, mas que não tem mais esse caráter regional apenas, chamado agora de ―Encontro Pe- Veja, um chefe de Departamento ou um Coordena- queno‖ justamente por não ter o caráter do Encon- dor de Curso diminui sempre as suas atividades e tro Internacional. além do que, sacrifica também outros aspectos da BOCA DO INFERNO
  11. 11. EDIÇÃO Nº22 PÁGINA 11 E como está o andamento do próximo en- vento. contro? Então ficou impossível realizar na Reitoria? Será no final de abril, de 27 a 29. Nós fizemos o Pois é, não conseguimos. Talvez os cursos sejam rea- projeto, apresentamos para as agências de fomen- lizados aqui. Depende muito da questão política. Nós to, como CNPq, CAPES e Fundação Araucária. Em queremos muito fazer aqui, porque nós trabalhamos alguns já temos o resultado, em outros temos algu- na UFPR e é aqui que nós encontramos afinal a nos- mas exigências a satisfazer, especialmente com a sa identidade, o nosso centro de trabalho é aqui. Es- Fundação Araucária, como a documentação que sa foi uma solução de forma a não haver um desloca- uma associação como a nossa não tem condições mento. O hotel vai nos ceder um espaço, sem custos. de fornecer... Mas a programação do encontro (as Então os convidados ficam acomodados lá. Esta foi a mesas, os convites, está tudo feito). Nós temos al- solução ―menos pior‖ encontrada. A menos dificulto- guns convidados internacionais. As conferências de sa. abertura e de encerramento serão com professores estrangeiros. Temos mais dois professores estran- Não sei se seria interessante para a senhora geiros participando das mesas. falar sobre isso: o fim das suas atividades na graduação. O encontro será fundamentalmente composto por duas conferências, mesas redondas sobre temas Fim das suas atividades na graduação é uma coisa específicos – quatro delas em torno de temas aca- que as pessoas querem saber, né? Por enquanto não dêmicos e duas ‗técnicas‘, estas últimas sobre o parei, ainda. Penso em continuar... Olha, a questão é funcionamento da ABRALIC. Introduzimos uma a seguinte: é claro que é sempre tentador se pensar novidade, que não existia na ABRALIC: serão mi- em não precisar mais assistir reuniões, não precisar nistrados dois cursos pequenos, com quatro horas mais fazer ―isso‖ nem fazer ―aquele outro‖, mas você e meia, com especialistas em Literatura Compara- precisa construir o que você vai fazer. A minha opção da. São cursos efetivamente voltados para a Litera- pelo trabalho como pesquisadora e como professora tura Comparada e têm em vista o público discente eu considero que ainda não está vencida, no sentido mesmo – alunos de graduação e de pós-graduação. de ―é isso que eu gosto de fazer‖, ―é isso para que eu me preparei‖ A dificuldade com a qual nos deparamos, mas não esperávamos, é o problema do espaço. Gostaría- É isso que te faz bem, diríamos. mos que o Encontro fosse realizado no Complexo da Reitoria, sede do Setor de Humanas, Letras e Eu espero que pelo menos não faça mal. Mas isso Artes. No entanto, não conseguimos agenda para o significa alguns custos, no sentido de ―tem que fazer, teatro da Reitoria e não temos nenhum outro audi- participar‖, tem que fazer algumas atividades. Den- tório suficientemente grande aqui perto. Em nome tro disso tem um conjunto de atividades que eu pen- disso, tivemos que limitar o número de participan- saria ―é muito melhor que eu não precisasse fazer‖. tes para duzentas e cinqüenta pessoas. Apesar da Mas aí não tem escolha: ou se faz tudo ou não se faz limitação já existente do teatro da Reitoria, ainda nada. E a gente também não pode entrar nesse de sim não seria tão drástica como está. Alguns dos ficar dizendo ―não me incomodem muito porque eu anfiteatros estão em condições precárias e temos as vou me aposentar!‖. Eu procuro não entrar nessa dificuldades estruturais do prédio. porque ela não é saudável pra mim e não é saudável para o Departamento, não é saudável para ninguém. E esta tem sido a maior dificuldade: encontrar um Por enquanto estou procurando manter as atividades espaço fora do Complexo da Reitoria, que fosse num ritmo normal, não excessivo, mas normal. próximo, para darmos mais conforto aos convida- dos e participantes e para que nossos alunos não Não está tão normal justamente por causa da sejam deslocados e não precisem passar por um ABRALIC e tal... processo mais complicado de transporte. É, não está tão normal por isso, mas não temos afi- Talvez seja interessante acrescentar que a decisão nal só um emprego, nós temos um trabalho. Aí não que tivemos foi de fazer o evento nas dependências dá pra escolher muito ―o que é mais gostosinho‖ de do Hotel Alta Reggia, a trezentos metros da Reito- fazer e deixar pra lá os outros, faz parte da carreira. ria. O hotel vai ceder espaço para realização do e- ABRIL DE 2010
  12. 12. PÁGINA 12 Por Willian Pinheiro A sensação claustrofóbica é aterrori- com olhos inseguros e curiosos, olha- zante dentro de um elevador. O que vam-lhe avidamente nos olhos. Estar pode amedrontar mais do que uma naquele elevador era-lhe sempre uma pequena caixa de ferro — quando não tortura; ele não via a hora em que a de madeira! — puxada de baixo a cima jornada acabasse e ele pudesse se ver por correntes? A caixa é sempre, na livre. verdade, minúscula. O ranger da ma- Naquele dia, em especial, ele até cogi- deira, os baques assustadores que a- tou subir pelas escadas, mas estava SUB-REALIDADE quilo dá quando começa ou termina cansado, queria acabar logo com aqui- uma viagem, o hesitar da porta antes lo, queria logo chegar a serenidade do de abrir quando o elevador chega no lugar que, absolutamente, é seu. Assim destino — que parecem horas para a- que atravessou o corredor da entra- queles que anseiam por sair dali; nada da, depois de ter cumprimentado o seu disso ajuda o claustrófobo a se sentir à Alceu, ele apertou o botão de chamar o vontade. elevador e balbuciou uma melodia. Nada como os espelhos. É sempre tão Cantava uma música de tom alegre, bom abrir a porta do elevador e ter a porque sabia que o porteiro psicanali- sensação de que a parede não é o seu sava cada um de seus movimentos e sa- fim; como se além daquele espaço pal- bia que todo mundo ficaria sabendo se pável tivesse um espaço muito maior o fofoqueiro do prédio descobrisse que que — sem tentar encontrar uma ex- ele estava ali, na verdade, tremendo de plicação plausível — está, paradoxal- medo, querendo por tudo não entrar mente, habitado por um você que não naquela caixa de tortura. parece estar tão amedrontado e passa Entrou no elevador e tentou não focar uma aura tranquilizadora. no que via; assim que a porta se fechou Mas o elevador daquele prédio era di- e ele tinha certeza de que o porteiro ferente; nele não se via nada de tran- não mais o via, ele cerrou os olhos com quilização. Sempre que entrava na- força. Pensou nos tempos de criança, quele cubículo, que se esperava que naquela tarde ensolarada em que toda fosse bem menor do que parecia, ele aquela turma de colegas de classe joga- tinha a sensação de se ter voltado ao vam bola depois da aula; pensou no caos da cidade, dos carros, das pessoas quanto doeu aquela canelada que certa lá fora. A expectativa de tranquilidade vez deu na trave e no quanto o barulho que ele buscava para assim que che- das correntes se assemelhava com o gasse em casa era destruída pelos som que reverberou no oco da trave e espelhos que não só compunham a pa- no quanto odiou aquele monte de cri- rede do fundo do elevador, oposta à anças rindo e de nenhum modo se com- porta, mas também as duas paredes padecendo de sua dor. O balançar do laterais. Assim que entrava naquela chão o deixava desequilibrado, como se caixa, vários outros ele entravam jun- sentia quando estava dentro de um to, refletidos infinitamente ao seu la- ônibus, fez o que pôde para enganar a do. Ele via as pessoas, via seus contor- si mesmo e fingir que aquele monte de nos, mas não conseguia ver seus ros- pessoas em seu redor eram passagei- tos, que estavam sempre escondidos ros do mesmo ônibus e que não eram por trás daquele rosto que, sempre infinitos — mesmo sendo muito nu- BOCA DO INFERNO
  13. 13. EDIÇÃO Nº22 PÁGINA 13 [sub-realidade.blogspot.com] merosos, capazes de lotar por completo ele se sentia à vontade. Naquele lugar o ônibus, elas são aquele número de onde mal cabia ele, onde ele podia pôr pessoas e não passa disso. Foi pensar as coisinhas que lhe agradavam — e, nisso que o fez não perder a sanidade devido à sua filosofia, agradavam-lhe ali dentro. por completo: ele não precisava de muito pra se sentir satisfeito. Conseguiu sair de lá são e salvo. Saiu balbuciando aquela mesma música — No canto, onde era o que se podia se só que desta vez sem o sorriso forçado. considerar uma sala de estar, ele se O corredor do terceiro andar estava va- sentou no chão, onde não cabia um so- zio; ele não teve a curiosidade de ver se fá, empurrando aquele monte de letras havia alguém, nunca; ele apenas saía para longe de si. Acendeu um cigarro, do elevador e seguia em linha reta à pegou o controle remoto e ligou a tele- porta de seu apartamento. visão; sobre sua cabeça, a janela semi- Ilustração: Luana do Valle Dentro de seu apartamento, por todos aberta, pela qual jamais poderia ele os cantos, havia letras coloridas de di- nem ver a cidade lá embaixo, engolia ferentes cores, tamanhos e materiais; a fumaça de seu cigarro e guspia pra grudadas nas paredes, no teto, por so- dentro da sala todos os barulhos lá de bre os móveis, coladas às lâmpadas; fora. Em meio ao barulho das buzinas, dos do tamanho de moedas, no formato de incessantes motores, do grito inquietante sapatos, com meio metro de compri- da sirene da ambulância que se aproximava mento. Aquele era um lugar não muito de longe, ele tentava ouvir a televisão. grande; lá havia poucos móveis, justa- Ali mesmo, no chão, enquanto via o te- mente por não caber muita coisa; para lejornal, ele dormiu. No seu rosto, um poder chegar onde queria lá dentro ele sorriso; ele sonhava com as luzes da precisava se esgueirar por entre todo cidade: dirigindo seu carro, ele via os aquele lixo entulhado. Mas era ali que prédios que completavam o horizonte. ABRIL DE 2010
  14. 14. PÁGINA 14 ri-sonho Por Helder Santana Ele não sabia rir. Não sei, não sabe, que nunca experimentasse rir. Então não sabia. Parecia ter nascido sem sa- tentavam de tudo. Casualidades, mi- ber. Talvez fosse algum trauma de in- rabolâncias, piadas boas, piadas ruins, fância, medo de palhaço, vergonha de sustos, saltos e sobressaltos, truques, sua dentadura torta e amarelada. Tal- tiques e traques, tudo para lhe assaltar vez sufocamento nos tempos de útero, um milagroso riso desprevenido. Cla- carência de oxigenação de algum en- ro que sempre tinha aquele que tenta- dereço cerebral. Na verdade não sabia va lhe aplicar as famigeradas cosqui- ARTE & MANHA de onde vinha, ou mesmo se vinha de nhas. As cosquinhas! Será que tinha algum lugar. Sabia que não sabia. coisa mais incompreensível para ele Simplesmente não conseguia rir. do que as cosquinhas? Ele entendia menos as cosquinhas do que o próprio Decerto não aprendera, não fora esti- riso. Aqueles apertos inconvenientes, mulado a isso. Sua família, é preciso intrometidos e dolorosos naqueles dizer, não era muito dada a risos; a lugares de sempre... só poderia ser gargalhada era espécime raro e o sor- piada de mal gosto mesmo. Como al- riso um máximo denominador co- guém que se ofende com o sexo antes mum. E, não raro, mesmo os sorrisos de descobri-lo prazer. que vinham daquela família, costuma- vam se apresentar em bocas fechadas, faz carinho que eu gosto mais! fachadas. Esboços de riso. Disfarces. Talvez faltasse algum gene hilariante Por vezes, seu humor era facilmente naquela constelação familiar. confundido com ironia. E sua ironia, ahhh!, adorava aquele campo fértil de há quem diga que o gene do riso se en- expressões comedidas. contre no bairro das expressões, ali no hemisfério tropical do córtex sensorioso, Alguns garantiam que, estando ele sendo o Riso a esquina da rua Harmoni- alegre, ficava com cara de paisagem. Mas parecia mesmo era compensar o a com a travessa do Ridículo. era co- riso com tiques próprios de corpo. Al- mum alguém usar o Ridículo para che- guns diziam que seu riso era toda vez gar à Harmonia passando pelo Riso. que seu nariz se mexia. Outros jura- numa dada geração da família, os mo- vam que ria era rebolando, chacoa- radores da travessa do Ridículo devem lhando todo o quadro do quadril. Co- ter ridicularizado aquela rua tão–tão mo se o riso, desorientado, quisesse harmoniosa. quem vivia na Harmonia se sair pelo buraquinho do cu. Talvez ofendeu e passou a não mais visitar o como um cachorro que sorri pelo ra- Ridículo, inutilizando a esquina do Riso. bo, entre abanos e abraços. O riso de- ve ser mesmo isso: alguma coisa que não mais se comporta e escapa. Certa- Tinham aqueles amigos que não se mente em parentesco com o choro. conformavam com sua ausência de riso. Não concebiam uma existência será que consigo rir de tanto chorar? BOCA DO INFERNO
  15. 15. PÁGINA 15 Às vezes, ele tentava rir e se concen- trava nisso. Virava exercício, escola, propósito. Criava métodos. Geralmen- te, quando tentava rir, assoprava. Era mesmo um desajeitado no riso. Então tentava cenicamente, ensaiava atenta- mente as cenas. Chegou a elaborar o Era seu dia de descanso, que chamava de riso em apuros. E por vezes enganava até os mais apurados. pegou sua bicicleta, saiu, foi pescar ri-SOS Conhecera todos os caminhos Aprendeu mesmo a simular os mais que não saberia voltar diversos risos, cada um vestido de u- números sem Casas ma ocasião. Risos circunstanciais, o- portunistas. Providenciais, convenien- casas sem Ruas tes. O problema é que riso disfarçado, ruas sem Cidade quando detectado, acaba mais chate- cidade sem Pessoas ando do que contagiando. Começou a se convencer que era melhor se vestir pessoas sem Rostos de silêncio em vez do riso forçar. Ficar rostos sem Vozes falando é que não poderia: já tinha vozes sem Palavras aprendido que riso costuma vir em palavras sem Sentido lugar de pausa. e o Silêncio Insuportável mas ele não pára de falar sério! de Todos os Templos A Memória nunca deu Mas ele não era infeliz, não. Ao con- um dia de folga trário, e no tocante oscilatório da roda ao carteiro de Hiroxima. -vida, considerava-se pessoa dita F E L I Z. Conseguia misturar humor com naturalidade e fazia, da seriedade, sua eterna máscara cômica. shhh: não tá vendo que eu tô rindo? * Dedicado aos colegas “japas” e ao Edson, que é carteiro. Um dia começou a perceber que esta- va ficando cego. Por Aguinaldo Roberto Moreira E quando a cegueira pousou-lhe por completo, finalmente descobriu: Ria pelos olhos. ABRIL DE 2010
  16. 16. PÁGINA 16 Tic Tac Por Daiane Pereira Rodrigues Tic tac. Os cachorros ladram ao longe, a ga- cheiro do verde e o ruido dos pássaros, ver roa embala o sonho de alguém. O apito do os índios na rua vendendo seu artesanato guarda noturno ecoa. Tic tac. Deitada na colorido, ao lado dos vendedores de cds pi- cama ela sonha com aquele mundo real- ratas. Agora não tem a bahia, tem o Jardim maravilhoso das crônicas de viagem. Ela Botânico, o Museu espanhol meio truncado, esteve lá, descobrindo as maravilhas de um insegurança, medo. Não entendia aquela novo mundo. Lembranças, impressões e prosódia guarani da velha banguela. Pelo sensações voltando à mente. Tic tac. Mes- menos o banheiro era limpo, e a cozinha? Será que era? Tic tac. Ainda ouve os cães. ARTE & MANHA mo continente e realidades tão distintas. Não foi com Sevilla que ela comparou toda Havia muito ovo nas empanadas que devi- uma cidade, foi com a Curitiba dos farois da am ser de frango. Quase deu a quantia erra- XV. Tic tac. Havia dormido mal durante da de dinheiro por esses pastéis de ovo, não toda a viagem. O motorista a sacudiu ―você se habituara ao cambio, talvez nunca apren- tem que descer aqui‖. Ambiente escuro, pe- desse a cambiar, sempre mudando de um numbra e pó, madeira velha e uma música país a outro. Tic tac, a moto do guarda passa em língua estranha ao fundo. Tic tac - mal- cuidadosamente, mas ela não se sente pro- dito relógio que não deixa dormir. Aqui não tegida. Protegida ela se sentia nos braços do se come, mas estou com fome – pensou na- seu karai gua-Curitiba, seu Oscar Nieme- quela manhã. Hoje em dia já diria che yer . Ontem ela quis ir ao museu. Mas de vare‘a. Tic tac. Podia levantar agora e aque- repente sentiu que não era ali onde queria cer o leite, com essa chuvinha não há reló- estar, era no Hotel del Lago em San Bernar- gio que resista. Tentou comprar duas empa- dino, era na velha casinha de Casaccia que nadas naquela manhã, su. Nunca soube se o agora era um hotelito em Areguá, cenário podia chamar assim: Grande Senhor. Leu daquele romance que gostou tanto. Leu na num livro de Roa Bastos. Queria ter dito cidade de Espinoza, pode percorrer os mes- ―rohaihu, che karai guasu‖ mas mal conseguia dizer ―eu te amo‖, não sabia o que sen- tia. Tic tac. Agora ainda é meia-noite na cidade de José Assunção Flores e ela tem saudade, ela quer ouvir aque- las canções que embalaram seu amor impossível. Não, não gosta de falar de amor, prefere ouvir as canções da sua aventura no exterior, da sua relação passageira pela hispano-américa. Echar de menos, extrañar, não sabia ao certo o que era em castelha- no. Era simplesmente a vontade de dizer mos caminhos que Ramón Fleitas. Talvez ―che raku eterei nderehe‖ e de sentir-se ple- também estivesse sob o efeito de alguma na. Tic tac, talvez não seja o relógio que não babosa, veneno cruel, fofoca infundada, a deixe dormir. Quer olhar a bahia de As- conservadorismos que a prendiam num mu- sunção más allá de la Chacarita, sentir o ro de medo e incertezas. Antiga e nova aris- BOCA DO INFERNO
  17. 17. PÁGINA 17 tocracias do país, isso disseram os professo- Não gostava muito de cerejas. Continua a res. Tanto ficou por conhecer dessas cida- chuva. Tic tac. o capítulo que sempre lhe des... Tic tac. Já não ouve os latidos, mas o pareceu a descrição perfeita da cidade vem à relógio a atormenta, quer se concentrar no mente. Tic tac. ―no había casi tránsito‖. Tic barulho da chuva para dormir. É inútil. Tic tac. ―Ardían las piedras de las calles y las tac. Haverá aberto o balcão dos seus olhos paredes de los edificios‖ Tic. ―Un viento de gata? Se recusa a pensar que foi só um norte caliente se encajonaba en las calles y amor de verão, nem era verão... Tic tac, já azotaba el rostro de los pocos trauseúntes passam das 2h. O apito está tão distante a- con sus mil lenguas de fuego‖ tac. A cidade gora, em alguns minutos estará mais alto de de fato está um forno, nunca se sentiu tão novo, toda noite é a mesma coisa. Todo dia personagem como neste instante, é mais um tem sido a mesma coisa. ―Estoy aburrida‖ transeunte sofrendo com as línguas de fogo diria, esta vida tekorei não a deixa feliz. Pre- cisa de ação, só funciona fazendo mil coisas ao mesmo tempo. Um paraguaio talvez dis- sesse ―che kueraima‖ para esse sentimento de chateação. Nunca pensou que a melhor tradução fora ―estou chateada‖ – nós fica- mos chateadas quando estamos tristes com alguma coisa, pensava. Está ansiosa. A pon- to de só perceber o tic tac do relógio e os ruidos noturnos. Lembra o que seus amigos diziam: ―como tiembras, mi vida. Tenés que ir a un médico‖, ―lo que admiro en vos es tu capacidad de autorreflexión‖, ―no se puede hablar de algo si uno no lo tiene aclarado‖, ―mentime na, decime na que me amás, por favor‖. Ela dizia, mas nunca soube se estava mentindo. Tanta coisa em tão pouco tempo. Tic tac, ela pode sair e ver o céu, mas com essa chuva não poderá ver a lua. A essa hora deve fazer uns 24°C do outro lado da fron- teira, em plena madrugada, ela estaria ven- do a lua cheia, sentindo o perfume dos jas- mins. Esse sempre será o cheiro de Assun- daquele vento. ―Parece que estou sob um ção para ela, e também aquele cheiro de uri- secador de cabelo‖ diz rindo de si mesma na, de fossa, das esquinas imundas aos arre- enquanto sente falta do clima curitibano. O dores de casa. Uma vez choveu forte por lá. que estava pensando sobre o clima? Chove Tic tac. De repente a luz apagou, os vidros há dias, nem parece verão, mas é tão gosto- quebraram, árvores e postes cairam. Tic tac. so dormir com chuva, e poder estar tranqui- Nunca sentiu tanto medo. Tic. Nunca se di- la, sem excessos. Um clima perfeito. Sempre vertiu tanto. Tac. A vida realmente não pensou assim. Mas agora, tic tac, tic tac, tic precisa ser perfeita, pensa esquecendo o re- tac, conta as horas para voltar ao calor e ar- lógio. Molhou os pés na água do lixo naque- der naquele laranjal tic tac tic tac tic... O re- la noite em que ganhou o apodo de musa lógio vai sumindo no horizonte do lago Ypa- das cerejeiras. Cerejeiras? Por que cerejas? carai... Ela já não controla seus sonhos. ABRIL DE 2010
  18. 18. PÁGINA 18 Andando pela casa de manhã ce- dos os dias na biblioteca pública. Era do, me chamou a atenção um pássa- bem limpa e completa. Eu almoçava ro de porcelana em cima da estante. sempre alguma coisa na rua e voltava Sabia que não era algo novo não só para lá até a hora de trabalhar. Um por uma vaga força das minhas remi- dia eu estava voltando pra casa e um niscências, que reconheciam a peculi- homem me parou umas duas quadras aridade do objeto como também depois da avenida. Falou que estava pelo seu péssimo aspecto. precisando de dinheiro pra alguma coisa da qual não me lembro. Mas na- Quando eu tinha vinte, tinha pa- quela hora eu não sabia que não era MANHA vor de coisas velhas, de pessoas ve- nada disso e ele queria possuir meu lhas. Tanto umas como as outras tra- corpo naquela noite. Ele me derrubou tavam de envelhecer muito rápido, no chão quando eu me distraí. Não buscando o fim como algo natural. Eu sabia o que fazer. Ele me apertou forte não queria uma vida normal aos vinte. no chão com o peso do seu corpo e or- Queria viajar, conhecer muitas coisas denou que eu não gritasse. Eu não e lugares e jamais envelhecer mental- gritei. Ele separou as minhas pernas e mente. A vida pra mim era o elixir da me possuiu violentamente no chão, eu alma. Viver me dava forças pra viver. mordia seu ombro com força numa Mesmo que isso não fosse sempre pos- junção embaraçosa de dor e prazer e to em prática. Não queria que filhos ele terminou o que queria fazer. Le- estragassem tudo, meu corpo, minha & vantou-se sentindo seu ombro san- juventude e meu humor. Nunca gostei grar e viu meus dentes ainda serrados de crianças, mesmo quando ainda era vermelhos de seu sangue. Por fim, uma. Gostava mesmo do diferente. ele me deu um soco no nariz com toda Um dia vi um cachorro lindo na TV e força e eu desmaiei sem ter tempo de ARTE decidi que queria ter um. Ele era ma- pedir seu telefone. ravilhoso, uma graça. Olhos de coita- dinho, patas curtas, desengonçado e Passaram-se dois meses e eu en- de orelhas tortas, achei fantástico. Co- trei num banco estadual. Trabalhei mecei a pensar em quais coisas eu de- duro e criei meu filho até seus vinte veria fazer para que um dia tivesse um sob meu lar. Um confortável lar que bicho daquele. Vi que deveria ter u- ao invés de um cachorro havia dois ma casa. Um bom espaço para o ca- gatos. Sempre trabalhei demais e eu e chorro caminhar, pular, brincar, fazer meu filho nunca conversávamos besteiras e cocozinho. Tinha que ter muito. Ele saía sempre e eu dormia grama para que quando eu chegasse sempre. Num dia das mães, ele não me jogasse com ele nela. Mas aos vin- saiu. Eu não dormi. Fizemos sexo a te eu morava de aluguel e não ganhava noite toda como eu nunca havia visto muito bem. Não tinha feito ainda nada antes. Ele explodia de prazer várias do que eu queria. Então no dia se- vezes e foi violento como o pai. Eu sa- guinte comecei a estudar. Estudava bia que tinha um filho saudável. Ao oito horas por dia. Fiz isso por três final, ao ver o meu êxtase de prazer, anos com intenções de entrar em al- permaneceu deitado sobre mim por gum banco ou coisa assim. Eu ia to- alguns minutos em silêncio. Levantou BOCA DO INFERNO
  19. 19. EDIÇÃO Nº22 PÁGINA 19 -se, tirou um pacote pardo da mo- mo gosto. Ouvi um barulho gran- chila e deixou sobre a penteadei- de na sala e me vesti. Pensei ser ra. Me olhou mais alguns instan- alguma coisa que o gato derruba- tes até deixar soltar uma lágrima. ra. Encontrei inerte no chão da Depois, saiu. Não entendo por que sala o corpo do meu filho imerso os homens são tão complicados e numa poça de sangue, manchando frágeis. Abri o pacote e vi aquele o assoalho com o fluído do seu pássaro horroroso dentro dele. caráter. Os homens realmente era verde e pintado à mão. Eu são complicados e frágeis. pensei ser um presente, de péssi- Por Vinícius da Cruz dos Santos Cúmulo nulo Por Luiz Seman Esta que embota e perde Faz o fogo que arde Ser arte que, em parte Se anula e cede. Ao ouvi-la e tê-la Absurda e muda De lugar em fuga Por não ser, vê-la. Por estar no escuro Se volta ao cúmulo Do infinito nulo De seu buraco negro. Já foi tão bela Ora nem pode, Sem querer explode, É difícil lê-la. Vá, cínica excreção Ter seu sucesso sujo Enquanto eu me encontro Em teu sinistro chão. (25/11/2009) ABRIL DE 2010
  20. 20. EDIÇÃO Nº22 PÁGINA 20 A menina de uniforme Por Mylle Silva Tão igual a qualquer uma, s o n h a r t a mb é m . L i vr o a m a s s a - estava sentada na escadaria de do, páginas amareladas, talvez u m a v e l h a c a s a , um a m e n i n a meladas de café por alguém. de uniforme. Mala nas costas, N u m m u n do q u a l q u e r , t a l v e z rabo de cavalo, livro velho na u m a m o r p l a t ô n i co , infantil mão. Brochura dobrada ao e p r o i b id o . T a l v e z c o r r e n d o meio, lia a página, virava da atrás de um coelho e dando de par para a ímpar num misto de cara com um chapeleiro tédio e interesse. Vivia a maluco. espera divertida, o bom livro A vida longe da sombra fresca na situação ruim. Fino era, era um mistério, mal se sabia provável ser infanto -juvenil. andar fora dali. Enquanto lia, Calça azul e camiseta branca, tão igual era única e bela como tantas outras passam mas só u m a f r u t a n o v a , co m o u m l i v ro ela sentou-se para ler. Já sa- que se dá sem vergonha. Era bia ler, grande era, devia saber ela sim, fora do seu corpo, inteira. Expediente Responsável Textos José Olivir de Freitas Junior Aguinaldo Roberto Moreira Daiane Pereira Rodrigues Edição e Diagramação Helder Santana José Olivir de Freitas Junior Luiz Seman Mylle Silva Imagens e Ilustrações Vinícius da Cruz dos Santos Arquivo CAL Willian Pinheiro Luana do Valle http://images.google.com.br Agradecimento http://www.ufpr.br Alzira Isabel Steckel André de Medeiros Biora Araújo Impressão Professora Marilene Weinhardt PRAE/UFPR Silmara Regina Lenz Conselho Editorial Centro Acadêmico de Letras Artigos/Entrevistas Centro Acadêmico de Letras – UFPR Aguinaldo Roberto Moreira Rua Gal. Carneiro, 460, 10° andar José Olivir de Freitas Junior CNPJ 80.270.283/0001-20 Julio Cezar Marques da Silva Professor Paulo Soethe Teurra Vailatti Gestão ―Sintaxe@vontade‖ 2009-2010 O conteúdo expresso nos textos publicados não corresponde necessariamente à opinião do Jornal e/ou do Centro Acadêmico de Letras-UFPR

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